Arquivo do blog

domingo, 31 de agosto de 2008

Solidariedade com os Pobres

Deu no CCFMC-Boletín Janeiro de 2008:
Considerando que os 300 multimilionários mais ricos deste mundo dispõem de mais capital do que metade da humanidade, e se nos lembrarmos de que mais de dois mil milhões de pessoas têm de viver com 3 dólares diários, aproximadamente, então fica patente que isto é uma injustiça gigantesca que viola a ordem da Criação de Deus. Sendo cristãos e, sobretudo, sendo franciscanos e franciscanas, nunca devemos contentar-nos com esta situação. Pois, a vida dos cristãos está ligada à causa dos pobres e dos próximos, isto é, às vítimas do anti-reino em vigor, e o neoliberalismo revela-se cada vez mais como tal. Nos Seus sermões centrais - na Sinagoga de Nazaré (Lc 4), nas bem-aventuranças (Mt 5) e no sermão sobre o Juízo Final (Mt 25) – Jesus fala inequivocamente. O núcleo de cristalização do Seu projeto é o Reino de Deus, e os seus protagonistas são as vítimas (os pobres, os prisioneiros, os cegos, os famintos, os oprimidos, os estrangeiros, os peregrinos, os miseráveis e os doentes). Estar a caminho com as vítimas de ontem e de hoje significa fazer ouvir as suas vozes, escutá-los e apoiá-los com uma solidariedade até à última conseqüência.

As vítimas não só são os primeiros destinatários do Projeto de Deus, mas também são o lugar no qual Deus mesmo aparece por excelência. ELE tem uma predileção pelos pobres. Por isso, a questão social e a fé autêntica estão interligadas estreitamente. Indiferença frente à exploração e frente à negligência dos pobres é pecado. Nos pobres, a Igreja reconhece a “imagem Daquele que a fundou e que foi mesmo pobre e sofreu” (LG 8c).

Não devíamos esquecer esta relação quando acusarmos, de vez em quando, a perda da fé e da credibilidade da Igreja. Só estando próxima dos pobres, a Igreja pode viver a sua missão de maneira autêntica. Existe uma estreita ligação entre a verdade e a pobreza. Na Bíblia, a pobreza de Deus tem muitos nomes: encarnação no presépio, Cruz e Sepulcro vazio, pão eucarístico. Os teólogos latino americanos inventaram a expressão “extra pauperes nulla salus” (= fora dos pobres não há salvação).

Francisco entendeu isso melhor do que quase ninguém. Mas, confessa abertamente que não foi capaz de entender isso por si. “...pois quando estava em pecado foi-me amargo ver os leprosos. E o Senhor mesmo levou-me entre eles, e eu pratiquei misericórdia para com eles.” (Test)

O que tinha acontecido nesta reviravolta da sua vida? A lepra foi uma doença generalizada – como hoje o cancro ou a sida. Os leprosos eram deformados, banidos socialmente e isolados. Francisco diz amargo. “O que me pareceu amargo, foi transformado em douçura da alma e do corpo.” Para ele nasce um mundo novo, o mundo do amor ao próximo; o seu mundo anterior desmorona-se, o mundo no qual há encima e em baixo, senhores e servos. Ele reconhece que este mundo não pode ser o mundo autêntico, o mundo como Deus o quis. Ele descobre o Evangelho como alternativa. Um mundo reconciliado, no qual os valores do homem não dependem do trabalho nem do salário. Nós podemos simplesmente utilizar a riqueza de Deus na Criação e no mundo.

Quando nos lembrarmos, em 2008, do início do seu movimento de há 800 anos, então o núcleo do seu testamento é o seguinte: a aliança com a pobreza e a solidariedade com os pobres. Até liga a nossa chance de sobrevivência a esta aliança. “Na medida em que os irmãos se afastarem da pobreza, também o mundo se há de afastar deles, e eles procurarão e não encontrarão”, disse ele. “Se, no entanto, abraçarão a minha senhora, a pobreza (127), o mundo alimentá-los-á, porque são entregues ao mundo para salvá-lo.... Existe um contrato entre o mundo e os irmãos; eles, por sua vez, devem ao mundo o bom exemplo, mas o mundo deve-lhes o abastecimento com os bens necessários. Se os irmãos não cumprirem a sua promessa, já não dando um bom exemplo, então o mundo retirará a mão como castigo justo.” (2 Cel 70)

Andreas Müller OFM

Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2008/2008_01_News.shtml?navid=92
acesso em 31 ago. 2008.

sábado, 30 de agosto de 2008

Oração dos 800 Anos do Carisma Franciscano

Altíssimo, onipotente e bom Senhor,
louvado sejas por Francisco e Clara de Assis,
que por tua graça, brilharam como sol
de uma nova primavera para a humanidade e para a Igreja.
Seguindo a Jesus e tendo o Evangelho como regra de vida,
tornaram-se mestres da fraternidade,
de oração e contemplação,
de amor pelos pobres
e por toda a criação.

Louvado sejas, por tantos homens e mulheres,
que nestes oitocentos anos abraçaram o Carisma Franciscano.
Por seu testemunho de vida evangélica,
trilharam o caminho da missão,
irradiantes de alegria,
de paz e de esperança.

Ó Altíssimo e Bom Senhor, reaviva, pela ação do teu Espírito,
o sonho de Francisco e Clara no chão da América Latina e Caribe.
Torna-nos testemunhas proféticas de fraternidade,
criativos no cuidado com a mãe terra e com todas as criaturas.
Concede à Família Franciscana caminhar em comunhão,
solidária com os pobres,
promovendo a cultura da paz,
confiantes na aurora do "novo céu e da nova terra.

São Francisco e Santa Clara de Assis, rogai por nós.

... súbditos de todas as criaturas humanas – por amor de Deus

Deu no CCFMC Boletín Novembro de 2007:
Diariamente ouvimos e vemos o que os islamistas podem provocar quando possuídos por um fanatismo cego. Ou até crêem, sendo “combatentes de Deus”, poderem originar o acesso direto ao paraíso mediante atentados suicidas. Pessoas – sobre tudo jovens – podem ser transformadas em máquinas assassinas em campos de treino ideologicamente cegos. Com tal não só trazem sofrimentos incalculáveis a pessoas inocentes, mas também conduzem a sua comunidade de fé à suspeita geral de que estão fundamentalmente prontos à violência e entendem a “dschihad” como ensinamento divino à “guerra santa”. Todos os eruditos islâmicos concordam em que este pensamento é um mal entendido fatal.

Como cristãos devemos acautelar-nos a acusar este abuso da religião só no caso dos outros. Na época das Cruzadas, a Igreja interpretou mal a mensagem do Evangelho dum modo semelhante. Em nome de Deus, os cruzados quiseram vencer e subjugar os muçulmanos. O papa Inocêncio III até obrigou os cristãos a lutarem “em nome de Deus e de Jesus Cristo”. “Devem saber que todos os que, nesta hora de aflição, recusarem o serviço ao seu Salvador, cometem uma ofensa muito grande devendo ser acusados gravemente”, quer dizer, perdem o direito à salvação eterna.

Neste contexto histórico, a atitude contrastante de Francisco não poderia ser mais nítida. Procurava fazer o contrário, isto é, “ser súbdito dos sarracenos por amor de Deus.” Qualquer que seja o ponto de vista, é inevitável a seguinte conseqüência: o Deus dos cruzados e dos que os chamaram foi o contrário do Deus de Francisco. O Deus como Francisco O entendeu quis que todos os homens fossem irmãos e irmãs. Não deviam dominar-se e subjugar-se mutuamente. Ao contrário, deviam servir-se uns aos outros com humildade até se conseguir a verdadeira paz. Por isso optou pela sua vida em pobreza, entre os pobres e com os pobres. Por isso não quis “superiores” na sua fraternidade, mas sim “ministros” (servos) que se ocupassem do bem dos irmãos. Por isso foi ao campo dos muçulmanos sem qualquer proteção de armas, sem qualquer sentimento de superioridade e livre de preconceitos. E tudo isso aconteceu “por amor de Deus”, que é um Deus da humildade e da paz. Este Deus da humildade revelou-se na pessoa de Jesus como sendo um Deus que está próximo a todos os homens querendo a salvação de todos. E Francisco descobriu este Deus também entre os muçulmanos. Experimentou que o espírito do Senhor obra também entre eles – na sua profunda religiosidade e na veneração respeitosa do seu livro santo, do Corão, e do santo nome de Deus.

De volta à Itália, escreveu uma carta aos dirigentes dos povos. Deveriam preocupar-se por que todo o povo louvasse e desse graças a Deus Onipotente, como ele experimentou junto dos muçulmanos. Esta é uma visão dum ecumenismo cristão-muçulmano no qual em “cada hora quando os sinos tocarem, os homens em todo o mundo devem louvar e agradecer a Deus Onipotente” (CtCust 8). Com tal atitude que se baseia no respeito de e na submissão ao agrado de Deus, Francisco ensina-nos como deveria ser um diálogo sincero capaz de gerar uma verdadeira “oikumene” da paz.

Isto temos de aprender de novo se quisermos sair do círculo vicioso da violência. Na sua missão da paz, Francisco invocou sempre a sua certeza interior de “Deus mesmo me revelou – contra a corrente da sua época na Igreja e na sociedade. Quando, em 2008, a celebração dos 800 anos do nascimento do movimento franciscano converter esta missão de paz outra vez em certeza, então o jubileu cumpriu a sua obrigação – mas só sob esta condição.

Andreas Müller OFM

Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2007/2007_11_News.shtml?navid=93 acesso em 30 ago. 2008.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O Reino de Deus - a nossa missão

Deu no CCFMC Boletín Outubro de 2007:

Até ao Concílio Vaticano Segundo foi válida a tese de “extra ecclesiam nulla salus”, quer dizer, a convicção de que “não era possível nenhuma salvação fora da Igreja”. A missão, portanto, foi uma coisa de vida ou morte para a salvação dos homens. Desde o Concílio tem-se modificado essencialmente o conceito de missão. A declaração sobre as possibilidades de salvação nas religiões não cristãs alarga o horizonte. A missão não tem que ver primordialmente com o céu. E a missão também não significa que a Igreja seja a única via para a salvação dos homens. Felizmente aprendemos outra vez a entender que Deus é maior do que a Sua Igreja visível na terra e que Ele estava presente entre os homens, muito tempo antes de terem chegado os missionários.

Porque então a missão? Precisamos duma nova justificação para as missões. Missão no sentido da idéia do Reino de Deus, isto é, fazer palpável e experimentável a promessa de Deus dum Reino de paz, justiça e amor. As pessoas que vivem nas favelas das grandes metrópoles devem sentir na própria carne que Deus as ama. Portanto, não é nada suficiente que anunciemos o Evangelho ou, então, lhes prometamos o céu. O Deus da Bíblia apareceu como um Deus da vida. Quer que os homens possam viver - sem fome, sem miséria, sem estarem entregues à total falta de esperança. Esta é a mensagem libertadora do Evangelho. Promete a libertação de todas as experiências nefastas, libertação de miséria e necessidades, do pecado e da morte. Para manter vivo este sonho divino e fazê-lo sentir nos homens precisamos das missões, hoje mais do que nunca.

Se aprendermos com Jesus, poderíamos adivinhar do que se trata. Quando Jesus quis explicar aos Seus discípulos como deveriam explicar a Sua mensagem aos homens, não profere um discurso muito comprido, demonstra-a com exemplos práticos. Os homens tinham-no seguido em massa. Quando viu a multidão, teve compaixão pois “estavam cansados e exaustos”, como diz o Evangelho. Seguiram Jesus porque Ele despertou as suas esperanças e a sua ânsia de serem libertos das suas necessidades diárias. Agora os Doze, que estavam sempre junto Dele, deveriam mostrar o que tinham entendido. Mandou-os aos homens para os animar e consolar. “Ide e anunciai, o Reino de Deus está perto.” Não só com palavras, mostrem o que isto significa. “Curai os doentes, ressuscitai os mortos, libertai os leprosos, expulsai os demônios.” Isto é, não uma compaixão barata segundo o lema: “ânimo, há de se resolver tudo”, mas sim tomar realmente a sério as preocupações e os problemas das pessoas. Este é o núcleo da mensagem de Jesus. Ele anuncia um Deus que toma a sério os sofrimentos e as experiências nefastas das pessoas; um Deus que tem compaixão e que liberta; um Deus que não nos dá fardos a carregar fazendo esperar pelo Céu. Já aqui na terra devem participar no vindouro Reino dos Céus, devem experimentar que Deus as ama.

O mês de outubro é tradicionalmente o mês das Missões. As pessoas devem ser advertidas sobre esta preocupação nuclear da Igreja. A missão como promoção do Reino de Deus tem lugar do mesmo modo entre nós como no ultramar; é a tarefa de todos que acreditam num Deus amante e amigo dos homens.

Andreas Müller OFM

Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2007/2007_10_News.shtml?navid=93
acesso em 29 ago. 2008.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Medir-se com Francisco

Deu no CCFMC Boletín Setembro de 2007:

Como é possível que, passados 800 anos, Francisco ainda seja estimado e admirado por todo o mundo, quer por cristãos ou não cristãos? Os leitores do “Times”, inclusivamente, colocaram-no em primeiro lugar das personalidades mais importantes do último milênio. E se quisermos saber porque é assim, podermos constatar o seguinte: não são as suas palavras, mas sim a sua vida. É como um livro aberto, o Evangelho vivo que consegue convencer melhor do que todos os comentários inteligentes que nós, teólogos, possamos fazer.

Em tudo o que Francisco fazia e falava, nota-se sempre esta convicção inalienável: só faço aquilo que Deus mesmo me insinuou. Assim foi já na altura da sua vocação. No seu testamento escreve que, quando estava procurando e perguntando, ninguém foi capaz de lhe dizer o que devia fazer, “nem o papa e nem os bispos, nenhum abade nem outro qualquer. Deus mesmo se me desvendou. Foi a chamada de Deus que me fez abandonar o mundo” (Test 14). Tinha esta sensibilidade pela presença de Deus desde a altura do seu histórico encontro com o leproso. Foi uma mudança radical de posição para o lado dos marginalizados e pobres da sociedade. Foi o começo da sua sucessão conseqüente do pobre Jesus de Nazaré. Torna-lhe a “forma de vida”, a chave para uma compreensão nova do Evangelho. Esta só se torna viva se tomarmos a sério o Cristo inteiro, o Deus humilde no presépio de Belém e o Cristo que sofre em Gólgata. Só encontraremos este Deus se nos fizermos pequenos como Ele e se O descobrirmos no irmão que sofre, na irmã que sofre. Esta foi, no fundo, toda a missão de Francisco: ser pobre, seguir a doutrina e as pegadas de Jesus anunciando o Reino de Deus.

Por isso, Francisco é considerado como renovador e salvador da Igreja no fim da Idade Média. E isto como leigo, sem formação teológica e sem um mandato especial. Para o seu caminho radical nas pegadas de Jesus de Nazaré não tinha nenhum mandato da Igreja. Foram os leprosos que lhe abriram os olhos. Foi-lhe tão importante que, pouco antes da sua morte, quando ditava o seu testamento, chama primeiro a atenção sobre este fato. Quis lembrar todos os seus sucessores que tudo começou assim: a sua mudança de posição desde o Assis rico até aos arredores da cidade, a sua vida nova ao lado dos pobres como sucessão conseqüente do pobre Jesus de Nazaré. Não fundou uma ordem de padres para a renovação da Igreja e nenhum seminário para a formação de missionários. Os irmãos que o seguiram, seguiram-no simplesmente. Quiseram viver o Evangelho como ele, independentemente de serem sacerdotes ou leigos, numa comunidade pobre de irmãos, todos com os mesmos direitos e todos com a mesma missão, que era, anunciar a todo o mundo o Evangelho do bom Deus humilde e amigo dos homens.

O que foi então e o que foi válido para Francisco ainda vale hoje em dia. A mera missão por meio de consagração e missão não chega para um mensageiro da Boa-nova. A quem o coração não arder não poderá inflamar o mundo. Quem não sentir a voz de Deus será dificilmente capaz de O testemunhar entre os homens. Segundo Francisco isto é válido para sacerdotes e leigos, para homens e mulheres. Todos são chamados e instruídos de testemunhar o Evangelho. Só se tomarmos isto a sério e tratarmos-nos fraternalmente reciprocamente , o Evangelho poderá convencer. E então os leigos não são “suplentes”, mas sim meramente irmãs e irmãos que foram confiados com a mesma preocupação pelo Reino de Deus. Visto assim, Francisco nos pode realmente encorajar de novo ao nosso serviço dentro da Igreja e no mundo. Se nos medirmos com Francisco, então seremos também hoje um sinal de esperança para os “cansados de carregar o peso do seu fardo” deste mundo. Isto nos deveria mover e animar como Família Franciscana, quando comemorarmos, no princípio de Outubro, o dia da festa de S. Francisco.
Andreas Müller OFM Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2007/2007_09_News.shtml?navid=93 acesso em 28 ago. 2008.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Jesus e os Pobres

Deu no CCFMC Boletín Abril de 2007:
A Sua vida começa num estábulo entre pastores pobres. Para salvá-Lo dos perseguidores herodianos, Seus pais fogem para o Egito. Depois de ter voltado do exílio Ele cresce na cidade insignificante de Nazaré, “da qual não pode resultar nada de bom”, quer dizer, cresce no meio de pessoas que pertenciam aos iletrados e pobres da sociedade. Mas, já nessa altura, a Sua missão e a Sua predileção manifestava-se numa visão profética. Segundo Lucas, Maria canta a canção daquela esperança que brota com Jesus: “Derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; aos famintos enche-os de bens, e despede os ricos de mãos vazias.” E o velho Simeão vê Nele “um sinal de que serão elevados aqueles que agora estão deitados no chão e de que cairão aqueles que agora aparecerem com toda a glória.”

Ao princípio dos Seus atos públicos, esta visão profética é completamente confirmada. Precisamente em Nazaré é que Ele profere o Seu discurso programático com o qual descreve a Sua missão: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos, e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor.” Os visitantes estavam surpreendidos olhando para Ele cheios de curiosidade. “Então Jesus começou a dizer-lhes: “Hoje cumpriu-se esta passagem da Escritura que acabais de ouvir.” (v. Lc 4, 16-22) Jesus, portanto, confirma o que está escrito em Isaías. Tem uma predileção pelos pobres, fracos, marginalizados, pelas vítimas. Pelo que vai pagar, finalmente, com a sua vida.

No centro das experiências de Francisco de Assis encontra-se precisamente este Jesus dos Evangelhos ao qual quer seguir incondicionalmente e “sine glossa”. Para ele, Jesus não é tanto o Juiz e Rei que reina em glória e que faz milagres e diz palavras de grande peso, mas o Cristo pobre: sem posses, nu no presépio e nu na Cruz. Desde esta perspectiva é que Francisco vê o mundo, os homens e Deus. Não precisa das interpretações dos teólogos para descobrir o Cristo dos Evangelhos.

Assim, o conflito com a Igreja é inevitável. A tensão entre o Evangelho interpretado radicalmente e a instituição da Igreja, já então, levava a conflitos e rupturas dolorosos. Francisco só podia evitá-los vivendo numa dupla lealdade. Uniu a sua fidelidade para com a Igreja com uma predileção radical pelos pobres. Nunca teria traído estes a favor duma atitude livre de conflitos. Estava demasiado seguro “de que Deus mesmo lhe desvendou viver em conformidade com o Santo Evangelho,” como escreve no Testamento.

Este problema é, em princípio, também tratado no debate sobre a teologia de Jon Sobrino, debate que se desencadeou pela “Notificatio” de Roma. Sobrino tenta observar o Evangelho desde o ponto de vista dos pobres, interpretando-o de maneira que o mesmo se há de tornar para estes numa mensagem que gere a vida. Fá-lo porque também Jesus Cristo se identificou com especial carinho com os mais fracos e os mais pobres. E porque os povos feitos pobres da América Latina não podem experimentar verdadeiramente que Deus os ama. Por isso, pode dizer - como Francisco: “Estou em paz, mesmo se tudo isto é muito desagradável.”

Andréas Müller OFM
Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2007/2007_04_News.shtml?navid=93 acesso em 27 ago. 2008.

Nova esquerda religiosa e a dialética

Deu no Correio do Brasil:
Por
Jung Mo Sung - Adital - de São Paulo
No seu artigo "Vencer ou vingar", publicado no dia 17/08/08 no jornal o Estado de São Paulo, que trata do debate que está ocorrendo no Brasil sobre o alcance da anistia política decretada pelo regime militar, o professor José de Souza Martins faz uma afirmação sobre a "nova esquerda de inspiração religiosa" que vale a pena refletirmos com calma.

Para ele, uma das grandes transformações políticas ocorridas no Brasil, e também em outros países da América Latina, durante os anos das ditaduras foi a fragilização da velha esquerda materialista por causa das suas contradições internas e o fortalecimento e disseminação de uma nova esquerda fortemente enraizada no pensamento religioso, sob influência da Teologia da Libertação. Esquerda essa que nos últimos anos alcançou o poder em diversos países da A.L.

Após essa constatação, ele afirma: "A substancial diferença entre a velha esquerda e a nova esquerda está no abandono da concepção dialética da história e sua redução a uma concepção maniqueísta e caritativa da questão social. Em relação à velha esquerda, a nova esquerda desconhece completamente o princípio da superação como ponto referencial da prática política e desconhece, em decorrência, o primado do historicamente possível na orientação da ação política. Uma renúncia completa ao reconhecimento de que o historicamente possível se propõe no plano das condições sociais e políticas do agir histórico."

É claro que José de Souza Martins, com essa crítica, não está propondo um retorno à velha esquerda, mas apontando uma questão central nos discursos e práticas políticas de um setor importante da esquerda latino-americana.

Uma das características fundamentais dessa "nova esquerda enraizada no pensamento religioso" é a sua espiritualidade que lhe dá força, perseverança e mantém acesa a indignação ética frente às injustiças sociais. Sem essa espiritualidade, as práticas rotineiras (necessárias) nas lutas sociais e políticas nos levariam à acomodação ou letargia; e sem a força interior que brota da experiência espiritual não resistiríamos às tentações do poder, de "status" ou de vida mais "confortável" que a ascensão nas estruturas do Estado, das igrejas, dos sindicatos, dos movimentos sociais ou dos ONGs possibilita (como, infelizmente diversos companheiros parecem ter sucumbido).

Entretanto, não podemos esquecer que essa força espiritual tem necessidade de um discurso religioso que lhe dê uma "orientação" na vida pessoal e nas lutas sociais. A Teologia da Libertação é, ou deveria ser, um instrumento de orientação e também de discernimento crítico de si própria e de outros discursos, religiosos ou não, que dão senso de caminho a essa experiência espiritual. Se o discurso religioso-teológico se deixa levar pela paixão que vem junto com a indignação ética e a vontade de mudança, ele corre o perigo de se tornar um discurso pouco crítico frente aos nossos desejos idealistas e de se converter em um mero discurso ideológico de legitimação dos nossos desejos, vontades e esperanças político-sociais irrealistas. E isso é muito fácil porque o discurso religioso-teológico lida exatamente com uma noção que permite dar saltos aos limites históricos: a noção de Deus como realizador de todas as esperanças humanas, para além dos limites das condições objetivas da história e da condição humana.

Se a Deus tudo é possível e se há no mundo um grupo que é portador da vontade e do "projeto" divino, então facilmente podemos ver o mundo dividido em dois grupos: os que ainda se mantém na "pureza" do projeto de Deus e os que se desvirtuaram. E diante de um cenário global em que não há muitos sinais visíveis de uma mudança profunda e rápida em direção à sociedade que desejamos, a tentação de se encapsular em um discurso "radical" e romântico que não aceita os limites da ação histórica é muito grande. É sempre tentador e dá muito "ibope" propor soluções mágicas para problemas que não conseguimos vislumbrar soluções reais. (Nisso não há muita diferença entre alguns grupos de pregadores neopentecostais e de libertação.)

A introdução do uso das ciências sociais na Teologia da Libertação (a mediação sócio-analítica) foi exatamente para criticar as propostas historicamente não viáveis ou não efetivas dos discursos religiosos tradicionais ou de discursos políticos populistas. Foi o reconhecimento de que a história tem suas dinâmicas e limites próprios que não obedecem a lógicas (e desejos) teológicas que levou os/as teólogos/as da libertação a dialogarem com os pensadores marxistas e outros pensadores sociais. Nesse diálogo, os conceitos de dialética e superação e a noção de historicamente possível foram e ainda devem ser elementos fundamentais na nossa reflexão. É claro que devemos superar os diversos equívocos do marxismo, mas até nisso está implicada a noção de "superação".

Reconhecer as possibilidades e limites do agir político-social é também uma forma de assumir o mistério da encarnação, de um Deus-Inifinito que entra e aceita as possibilidades e limites do seu momento histórico e da própria história.

Jung Mo Sung é professor de pós-graduação em Ciência e autor de Cristianismo de Libertação e Sementes de esperança.

Extraído de http://www.correiodobrasil.com.br/noticia.asp?c=142379
acesso em 27 ago. 2008.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

A nossa Irmã, a Mãe Terra

Deu no CCFMC Boletín Março de 2007:

“Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa Irmã, a Mãe Terra, que nos sustenta e governa e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas.” Francisco de Assis rejubila, e este gozo de estar no mundo de Deus, em lado algum é tão bem expresso como no seu Cântico do Irmão Sol, num dos primeiros poemas na língua italiana popular. Neste poema, são cantados todos eles – os quatro elementos no cosmo e na alma, na história e na natureza. Todo do Cântico do Irmão Sol é movido pelo reconhecimento de que tudo isso não é natural. Todo o mundo com a sua riqueza e a sua beleza contém sinais da presença de Deus. Em Jesus Cristo, Ele fez-se mesmo parte desta Criação estando presente em todas as coisas, mas, sobre tudo nos seres humanos que seguem as pégadas de Jesus. O mundo é um todo no qual tudo está entrelaçado e interdependente. Portanto, Francisco pode chamar a todas as coisas irmão” e “irmã”, e é por isso que admoesta os seus irmãos a tratarem tudo com atenção e amor.

Não pode haver uma justificação mais profunda e uma motivação mais forte para fazer todo o possível para preservar a Criação. Francisco não pensa em dominar explorando e destruindo a natureza. Pois, para ele, a Criação é uma dádiva de Deus para os homens destinada a dar e conservar a vida.

Nós, como pessoas que pensam e atuam franciscanamente, deveríamos estar comovidos pelo que diz o último relatório sobre o meio ambiente da ONU acerca da alteração climática. Não se trata de prognósticos e suposições. 2500 cientistas de 130 países juntaram minuciosamente todos os fatos e dados sobre os cenários que nos esperam. Os mesmos são tão iminentes
que o antigo diretor do Programa do Meio Ambiente da ONU, o Prof. Klaus Töpfer, diz o seguinte: “Quem agora ainda não despertou deve perguntar-se o que ainda tem de acontecer para que se reconheça a gravidade da situação.” Aos conhecimentos seguros do relatório pertence o fato de a alteração climática ter sido provocada pelos homens; de ser irreversível, mas de poder ainda ser reduzida a uma medida suportável se se conseguir um verdadeiro câmbio, o que diz respeito a todos, à política, à economia e a nós como consumidores.

Não faltam declarações soberbas por parte de governos e organizações ambientais de todo o mundo. “Todos que ainda hoje ignorarem a ameaça e as suas origens prestarão um mau serviço às futuras gerações”, declara o ministro do Meio Ambiente da África do Sul. O Presidente francês Jacques Chirac demanda, por seu lado, uma “revolução” para salvar a terra. “A consciência dos homens, a economia e a política têm de ser modificados radicalmente.”

Ainda é tempo de agir, mas é necessário que seja rapidamente. É o teor fundamental de muitos comentários. No entanto, neste contexto valem as palavras conhecidas de Mikhail Gorbatchev: “Se quisermos salvar o mundo para as gerações futuras teremos de nos converter. Mas só nos convertemos se tivermos espiritualidade.” Quem é desafiado se não os sucessores de Francisco de Assis? Primeiro, no que diz respeito ao próprio modo de consumir, mas também devem intrometer-se com uma divulgação corajosa e ofensiva da espiritualidade franciscana da Criação.
Andreas Müller OFM

Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2007/2007_03_News.shtml?navid=93 acesso em 26 ago. 2008.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Gustavo Gutiérrez: a teologia como carta de amor


Deu no Instituto Humanitas -Unisinos:
Poucos são os criadores de uma ruptura epistemológica. No campo da filosofia ocidental moderna, foram criadores Descartes, Kant, Hegel, Marx, Heidegger. Na teologia, se destacaram Tomás de Aquino, Lutero, Bultmann, Rahner. Gustavo Gutiérrez abriu um caminho novo e promissor para o pensamento teológico, descobriu “uma nova maneira de fazer teologia”. São palavras certeiras do teólogo Leonardo Boff.

A teologia na América Latina e no Caribe se caracterizava por repetir ou sintetizar pensamentos estrangeiros. Gutiérrez cria, no fim dos anos sessenta, um método teológico desde e para a América Latina pobre e oprimida. Deu a essa reflexão da fé a partir do reverso da história o nome de Teologia da Libertação. Seu raio de projeção tem sido verdadeiramente impressionante: desde a teologia negra, índia, asiática, feminista, ecológica e das religiões até a teologia judaica e palestina da libertação. Gustavo é o primeiro latino-americano a se situar de igual para igual entre os grandes criadores dentro da história da teologia.

No último dia 28 de maio, a Universidade Central de Bayamón, dirigida pelos Padres Dominicanos, uniu-se a uma plêiade de reconhecimentos internacionais, entre eles o prestigiado Prêmio Príncipe de Astúrias, outorgando-lhe um Doutorado Honoris Causa. O padre Gustavo Gutiérrez chegou assim pela primeira vez a Porto Rico, na véspera de seus oitenta anos de vida e do quadragésimo aniversário do emblemático documento eclesial latino-americano, Medellín.

A entrevista foi publicada pelo boletim Religión Digital, 23-08-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Quando o senhor começa a assumir a realidade da violência e da pobreza na América Latina e no Caribe como ponto de partida da teologia?

Comecei a trabalhar em março de 1964. Houve uma reunião convocada por Iván Illich. Eu o conheci ainda quando estava em Porto Rico, em 1960. Foi Iván quem convocou uma reunião muito informal em Petrópolis para que disséssemos como víamos o trabalho da teologia na América Latina.

E qual foi a sua colaboração?

Falei de teologia como uma reflexão sobre a pastoral e sobre a vida cristã. O mesmo que formulei mais tarde como reflexão crítica sobre a práxis à luz da fé.

O primeiro que surge é o estabelecimento de um método que parte da vida real para iluminá-la à luz da Palavra e abrir caminhos concretos de libertação?

Isso mesmo. Eu passei praticamente todos os meus estudos de teologia extremamente preocupado com a questão do método. Daí a frase: “Nossa metodologia é nossa espiritualidade”.

O tema da proximidade aos pobres não é novo, mas sim a indagação sobre as causas da pobreza e a luta contra a pobreza como parte da identidade cristã. Quando começa essa transição?

Convidaram-me para falar sobre a pobreza em Montreal, em 1967. Queria tomar distância de Voillaume, o autor de “En el corazón de las masas” (“No coração das massas”), porque ele evitava qualquer perspectiva muito social em torno à pobreza, mas a verdade é que não se pode evitar o fato social. Falei de três noções bíblicas sobre a pobreza: primeiro, a pobreza real ou material, vista sempre como um mal. A segunda é a pobreza espiritual, como sinônimo de infância espiritual. A pobreza espiritual é pôr minha vida nas mãos de Deus. O desprendimento dos bens é conseqüência da pobreza espiritual. E a terceira dimensão é a solidariedade com os pobres e contra a pobreza. Voillaume falava que se tinha que ser pobre. Sim, muito bem, mas para quê? Que sentido tem? Não é unicamente para eu me santificar. Tínhamos que pensar sobre o que isso significa para o outro.

Algum outro elemento importante dessa arquitetônica inicial?

Uma preocupação: como anunciar o Evangelho hoje? A teologia é feita para anunciar o evangelho, a serviço da Igreja, da comunidade. Tantas faculdades pensam a teologia como metafísica religiosa, não como anúncio histórico de libertação.

Quando esse novo modo de pensar a fé a partir da perspectiva do pobre e do excluído começa a se chamar “teologia da libertação”?

Isso foi em 22 de julho de 1968, em Chimbote, Peru. Pediram-me para falar da “teologia do desenvolvimento” e me neguei. Disse-lhes que falaria da teologia da libertação, que era mais pertinente ao nosso contexto. Outra coisa que estava na moda era a “teologia da revolução”, da qual também tomei distância. O perigo desta era que pretendia cristianizar um fato político.

Diferente de outros, o senhor nunca esteve de acordo com partidos ou grupos como a Democracia Cristã nem com o Cristãos pelo Socialismo, apesar de acentuar a dimensão política da fé. Por quê?

Nunca gostei que se usasse o “cristão” como adjetivo. O “cristão” é um substantivo. Sempre disse: “Sou cristão por Cristo, não pelo socialismo”. Que alguém faça, como cristão, uma opção pelo socialismo, é outra coisa. Mas não posso deduzir o socialismo pelo caminho da Bíblia. Da Bíblia, deduzo a opção pela justiça, a opção pelo pobre. As pessoas, quando não entendem isso, dizem: “Escute, mas você nega a política, está do lado contrário”. Eu respondo que também creio na autonomia do social e do político.

Quando começa a idéia de formar o livro que se converterá no texto que funda a teologia latino-americana contemporânea: “Teologia da libertação. Perspectivas”?

Na realidade, não pensei em escrever um livro propriamente. Alguém trabalha nos temas que lhe interessam e pouco a pouco vai saindo. No começo de 1969, pouco depois de Medellín, uma comissão ecumênica sobre temas de desenvolvimento me convidou a Genebra. Então, retrabalhei a palestra que havia dado em Chimbote e assim continuei ampliando.

Teve oferta de alguma editora concreta?

Não, mas passou Miguel d’Escoto, de Maryknoll, que acabava de fundar a Orbis Books. Viu o livro e me disse: “Vou publicá-lo”. Foi o primeiro livro publicado por essa editora. Ele o mandou traduzir e o publicou em 1973, e tem sido o livro mais vendido dessa editora. Depois, passou o editor de Sígueme, da Espanha, e aconteceu o mesmo. Outro que se interessou foi Gibellini. A edição italiana é inclusive anterior à espanhola. Já está traduzido para dez ou doze línguas, também para o vietnamita e para o japonês.

Qual é a oposição principal que o livro recebe?

Eu diria que, mais que ao livro, era oposição à teologia da libertação. Muita gente já estava escrevendo sobre o tema. Criticava-se o enfoque marxista da análise da realidade, mas eu não me sentia aludido. No entanto, a oposição mais forte que tivemos não veio de dentro da Igreja, mas de alguns componentes da sociedade civil, nos poderes jurídicos, econômicos, militares, políticos.

A discussão aberta é sinal de uma teologia que diz algo ao homem e à mulher de hoje, que gera diálogo crítico não somente no interior da Igreja, mas também com a sociedade.

Boa parte das reações vem da acolhida que teve. Se eu tivesse permanecido em um ambiente de intelectuais, não teria tido esse impacto. Houve uma acolhida da base, inclusive com expressões que nunca me convenceram, mas que nascem da boa vontade, que dizem: “Eu sou da teologia da libertação”. Mas a teologia da libertação não era e nem é um clube no qual alguém se inscreve, nem um partido. Declaravam-se membros e depois diziam o que queriam, e nem sempre correspondia ao que se pensava. São coisas inevitáveis.

Mas também há uma necessidade de encontrar falhas em uma teologia que provinha do Sul.

Um jornalista norte-americano me perguntou: “O que a teologia da libertação pensa desse problema mundial?”. Eu lhe disse: “Você crê que isto é um partido político e que eu sou o Secretário Geral? Pois não é assim”. Disse-lhe também: “Por que você não pergunta a [João Batista] Metz o que a teologia política européia pensa desse problema mundial? A ele não, mas a esta teologia sim. Claro, porque aquilo sim é teologia. Metz é alemão”. Algumas pessoas reagiam desse modo porque pensam que algo que vem da América Latina tem que ter falhas grandes. Tem que encontrá-las como der. Se é latino-americano, tem que haver alguma posição estranha. O que querem é coisificar uma teologia.

Se alguém se deixa levar somente pelo que está escrito na imprensa, parece que o senhor foi condenado pela Igreja. E não é verdade.

É curioso. No meu caso, nunca houve condenação, nem sequer houve um processo. Houve, sim, um chamado diálogo, perguntas que sempre estive disposto a responder.

O senhor acha válido esse tipo de diálogo?

Sempre acreditei que a teologia é feita no interior da Igreja. Na Igreja, há carismas distintos. Pode-se perguntar a alguém que escreve teologia que dê razão de sua fé, assim como damos razão de nossa esperança. Com esse nível de perguntas, não há por que se ofender.

Quanto tempo durou o diálogo?

Começou em 1983 e concluiu de várias maneiras, mas, oficialmente, faz cinco anos. Durante muito tempo, tudo esteve em silêncio. Não houve nada comigo.

O que diz o texto oficial?

A expressão é que tudo concluiu satisfatoriamente.

O senhor teve vários encontros cara a cara com o Cardeal Joseph Ratzinger?

Sim, para grande parte deles não fui convocado, mas eu mesmo tomei a iniciativa. Ratzinger é um homem inteligente, educado e, dentro de sua própria mentalidade, evoluiu, entendeu muitas coisas. Em uma ocasião em Roma, me disse que havia lido meu livro sobre Jó. Eu mesmo lhe enviava meus livros. Sempre acreditei que a distância cria fantasmas. Disse-me que tinha gostado e que os teólogos do Sul tinham poesia, que a teologia européia era mais fria.

Seu modo de proceder tem sido sempre pouco conflitivo, enormemente dialógico e carente de dramatismo. Alguns crêem que corresponde à sua personalidade, mas acho que aqui há algo profundamente eclesial.

Exato. Tudo vem de que o mundo que mais fala à minha vida não é o mundo intelectual. Não é a defesa de minhas idéias porque são minhas idéias. Interessa-me a vida da Igreja, o anúncio do Evangelho e a vida das Conferências Episcopais.

A teologia carrega o rastro de seu tempo. Estamos entrando claramente em outro tempo, o qual não se sente a mesma urgência e se abrem outras rotas à fé.

Até os 40 anos, nunca falei da teologia da libertação e creio que era um cristão de verdade. Assim, serei cristão depois da teologia da libertação. Quando me falam que a teologia da libertação já morreu, eu digo: “Olhe, eu não fui convidado para o enterro e acho que tinha algum direito”. Depois, lhes digo: “Mas, veja, creio que um dia, sim, vai morrer”. Entendo por morrer o fato de que não tenha a mesma urgência que antes. Isso me parece normal. Foi uma colaboração à Igreja em um determinado momento.

Creio que se cuida bem para não converter a teologia da libertação em um ídolo, em uma ideologia à defensiva.

Não se deve fazer de uma teologia uma nova religião. É a tendência da sociedade civil. Alguns pensam que a teologia da libertação é uma espécie de cristianismo diferente, o meu cristianismo. E até falam isso como um elogio, não para criticar. Não crêem no cristianismo, mas sim na teologia da libertação. Mas, sinto muito: o importante é o cristianismo, não a teologia da libertação. A teologia da libertação só pode ser entendida no interior do cristianismo.

O senhor não acha que antes se falava de pluralismo teológico, mas, na realidade, era sobre um pluralismo limitado, isto é, dentro de uma mentalidade quase exclusivamente européia?

Sim, e, todavia, na academia teológica se fala de nós como teologia contextual, um pensar que mantém uma estreita relação com a realidade. Quando me dizem isso, eu lhes digo para incomodar: “Ah, você tem uma idéia muito ruim da teologia européia. Está me dizendo que não são contextuais. Está me dizendo que é uma teologia que não tem relação com a realidade. Uma teologia no ar. Eu não acho isso”.

O senhor teve que lutar contra uma certa pretensão de superioridade?

Muitíssimo. Chamar “contextual” a uma e “não contextual” à outra é um exemplo. Todo pensar corresponde a um contexto. Mais do que uma rejeição à teologia da libertação, é uma comunicação com um ponto menor, como se fôssemos algo subalterno. Tem havido muitas coisas nesse estilo. Aceitavam-se as idéias, mas se criticava a teologia da libertação. O que é isso?

Estávamos acostumados a que a teologia dialogasse somente com a filosofia e não com as ciências sociais. É uma novidade que custou a ser aceita no princípio.

Curioso, porque hoje as ciências sociais estão de cheio dentro da teologia. Essa crítica à teologia da libertação já caducou. E tudo isso ocorre apesar de que nunca dissemos que as ciências sociais substituíam a filosofia na teologia, mas que ampliávamos o leque de luzes e de disciplinas humanas para trabalhar o mistério cristão.

Além disso, toda teologia verdadeiramente criadora gera resistências. É a prova de fogo de sua valia.

Evidente. Veja a reação ante o diálogo de Teilhard de Chardin com as ciências naturais. E o exemplo clássico de São Tomás de Aquino. Falo de um gigante frente a essa teologia tão anã como a teologia da libertação. Ele teve resistências enormes, foi condenado pela Universidade de Paris e levou séculos para ser reconhecido. Ele incorporou uma filosofia que provinha de um pagão, repensou-a, retomou-a, misturou-a.

O senhor crê que já estamos em um momento novo e melhor?

A parte mais dura e polêmica ficou para trás. Deve ficar para os historiadores. E é muito bom dizer que já passou. Se algo realmente morreu é essa polêmica. Eu creio que já é hora de baixar o tom.

Há um texto no qual o senhor se move reflexivamente em direção ao contexto atual da globalização e da pós-modernidade e aos desafios que a teologia apresenta. Refiro-me ao ensaio “Onde dormirão os pobres?”. Aí começa a fazer uma crítica à tentação de fazer da própria teologia um ídolo.

Quando faço de alguma coisa que não seja Deus um absoluto, caio na idolatria. Ouço dizer: “Teologia da libertação ou nada”. Eu nunca disse: “Se você quer compreender a Cristo, leia a teologia da libertação”. Agora, se alguém me pergunta se eu acho que lendo sobre teologia da libertação vai compreender algo importante do cristianismo, aí sim. É provocador dizer isso, porque a justiça também pode se converter em um ídolo. Vejo pobres serem maltratados por pessoas que se crêem mais claras politicamente que eles. Fiquei muito marcado por uma coisa que li aos quinze anos, escrito por Pascal: “O abuso da verdade é pior do que a mentira”. Alguém pode ter a verdade e abusar dela. A pessoa é sempre mais importante.

Sua reflexão mais recente advertiu também sobre a intenção de fazer do pobre um ídolo.

Isso vem do romantismo de alguns. Há gente que me diz: “Aprendi tudo com o pobre, o pobre é tão bom”. Às vezes, brincando, lhes digo: “Você acredita que todos os pobres são bons e generosos, mas eu não lhes aconselho a ir ao meu bairro às duas da madrugada, porque vão ficar como vieram ao mundo, só que mais velhinhos”. É uma maneira de dar a entender que a opção não se faz porque o pobre seja bom, mas porque Deus é bom. Se o pobre não é bom, também. Muita gente se decepcionou do compromisso porque acreditavam que o pobre era bom. Se tivessem entrado porque Deus é bom, ainda estariam comprometidos.

De fato, em um artigo seu intitulado “San Juan de la Cruz en América Latina” (“São João da Cruz na América Latina”), o senhor deixa indicado que o que poderia nos ajudar a evitar esse caminho idolátrico (que, ainda que fale de libertação, não liberta) seria abrir-nos à dimensão mais mística da fé.

Algo que a mística tem é a capacidade de nos ajudar a depurar a noção de Deus. Se virmos o desenho de São João da Cruz, há um momento, a partir da metade da base do monte, no qual ele diz que, a partir daí, não há caminho. Isso é a mística. Um caminhar em direção ao Senhor. Seguir fazendo d’Ele, conforme nossa vida avança, o nosso único absoluto. Sem essa dimensão mística, não há verdadeiro compromisso com os pobres. Pois bem, há que se mudar a noção de mística. Não é como se diz por aí: sair deste mundo. Não se trata de transmitir uma mensagem, mas de “transmitir o contemplado”. A isso temos que agregar a intuição de Nadal: ser “contemplativos na ação”.

O que às vezes se anuncia como mística, inclusive em importantes teólogos ou estudiosos, ainda tem excessivas reminiscências neoplatônicas negadoras do corpo e da história.

A mística não é um desinteressar-se por este mundo. No entanto, há pessoas que acham muito místico alguém que não tem os pés no chão. Se o pobre não lhe importa, não estou certo de que se trate de uma experiência mística. É interessante que uma mística, Teresinha de Lisieux, seja padroeira das missões.

Progressivamente, parece que o senhor tem insistido na poesia como a melhor linguagem para falar de Deus. É isso?

A poesia é a melhor linguagem do amor. E Deus é amor. A melhor linguagem para falar de Deus é a poesia. Uma linguagem profunda que vê o mundo e vê a relação com outro a partir de uma dimensão e de uma profundidade que o conceito não oferece. Mesmo que não escrevamos poesia, a própria teologia deve ser sempre uma carta de amor a Deus, à Igreja e ao povo a quem servimos.

Extraído de http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=16263 acesso em 25 ago. 2008.

O Carisma de Francisco de Assis

Deu no CCFMC-Boletín Outubro de 2005:
Francisco foi uma personagem luminosa. Um homem capaz de ver, sem intenção nenhuma, o mundo no esplendor do amor de Deus e assim dedicar-se carinhosa e vigorosamente aos homens e animais, a toda a criação. Sem intenções, sem interesses de lucro, sem pressão de consumo, sem pressão de aproveitamento – simplesmente assim, simples e sem segunda intenção e pleno de pureza interior.

Se perguntarmos como Francisco chegou a esta pureza e ligeireza do ser encontramos algo a este respeito no seu testamento. Aí lemos: “Assim o Senhor deu-me a mim, ao pequeno irmão Francisco, a coragem de começar uma vida de conversão e penitência: Pois, quando estava em pecado pareceu-me muito duro ver os leprosos. O Senhor mesmo, no entanto, levou-me até eles, e eu ofereci-lhes misericórdia. Quando saí destes leprosos, aquilo que me pareceu duro foi convertido em ternura da alma e do corpo. Depois parei um pouco e renunciei ao mundo...”

O que tinha acontecido nesta mudança de vida? A lepra outrora foi uma doença popular como hoje é o cancro [câncer] – e os leprosos não só eram marcados e desfigurados pela doença mortal, mas também marginalizados socialmente. Fugia-se dos leprosos. Foi sempre assim. É preferível estar entre os seus iguais. Conforme este padrão, também cresceu o filho dum comerciante, Francisco, até que foi parar aos leprosos. Em princípio, sem querer, mas, na retrospectiva, reconhece neste fato uma vontade carinhosa de Deus. A partir de aí, o amargo converteu-se-lhe em doce. “Na medida em que me afastei deles, converteu-se-me aquilo que me pareceu amargo numa douçura da alma e do corpo.” A Francisco aparece-lhe um mundo novo, o mundo do amor ao próximo e do amor às criaturas irmãs. O seu mundo anterior desmorona-se – aquele mundo, no qual existe o de cima e o de baixo, no qual existem possuidores e desposseídos, elevados e humilhados, senhores e servos. Despede-se deste mundo no qual riquezas determinam o prestígio social e êxitos a identidade.

Temos de compreender o que isto significa. Francisco encontra-se no princípio daquela época cujo fim, ou melhor dito, cuja crise vivemos hoje, época que se chama a época burguesa e na qual o homem se define primordialmente por aquilo que rende e possui. O início do modo capitalista de vida e do pensamento modifica o mundo de então. A burguesia nas cidades está crescendo. O monetarismo explode. Tudo tem de ser ganho e produzido. E ai daqueles que não consigam alcançar riquezas e não tenham êxito! Eles pertencem aos vencidos e marginalizados. No encontro com os leprosos, Francisco compreende que um mundo tal não pode ser o mundo verdadeiro. Descobre o mundo do Evangelho como alternativa. Uma humanidade e um mundo reconciliados com eles mesmos e com toda a natureza. Poderia ser que Francisco por isso provocasse “uma tal saudade”? Encontrou este tesouro que o enriquece mais do que todas as riquezas intelectuais e bancárias. Ele utiliza simplesmente a riqueza de Deus – na criação e no mundo. Precisamente por isso ele é tão importante para o nosso tempo.
Andreas Müller OFM
Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2005_10_News.shtml?navid=94
acesso em 25 ago. 2008.

domingo, 24 de agosto de 2008

Inventário Apocalíptico

Deu no CCFMC Boletin Abril de 2005:
Nunca houve coisa semelhante. Um check global do meio ambiente por ordem das Nações Unidas, no qual participaram 1300 peritos ambientais de 95 países, revela fatos alarmantes. Embora muitos cenários ameaçadores não sejam novos, nunca foram transmitidos duma maneira tão drástica no que diz respeito ao seu entrelaçamento interno e à sua repercussão global.

Conforme este estudo, os 60 % do sensível sistema ecológico, que proporciona água limpa, ar puro e um clima estável, já estão destruídos ou sobrecarregados. O estudo diz que o meio ambiente, em poucas gerações do século passado, tem sido de tal maneira danificado devido às violações desconsideradas do homem de maneira a pôr em risco a existência de futuras gerações. Para cobrir a crescente necessidade de alimentos, de água potável, de madeira e combustíveis tem-se abusado da natureza sem considerar as conseqüências. Isto vai ter repercussões devastadoras para a humanidade e a natureza. A diversidade biológica já ficou reduzida duma maneira considerável e irreparável. A crescente prosperidade nos países do Norte foi comprada a custo duma destruição rasante dos recursos naturais. E isto, por sua vez, está ameaçando o progresso econômico e social nas regiões pobres do mundo.

Conclusão do estudo: sem uma conversão radical não haverá um futuro bom para nós. Pois os sistemas ecológicos intactos são de fundamental significado para a humanidade e são indispensáveis em prol da humanidade em todas as partes do mundo. Mikhail Gorbatchev, que, juntamente com a sua comissão de especialistas, elaborou a assim chamada Carta da Terra, demanda isso desde há muitos anos. Mas ele diz também que a conversão só será possível se temos espiritualidade. Isto significa que temos de perceber a Criação como um todo, como uma dádiva de Deus que nos foi confiada para que a tratemos com cuidado e a conservemos.

O que faz falta é uma nova espiritualidade da Criação. A unidade da Criação nunca ficou expressa de maneira tão bonita como no Cântico do Irmão Sol de S. Francisco de Assis. Cantam-se todos – os quatro elementos no cosmos e na alma, na história e na natureza. Tudo é entrelaçado, confraternizado – os astros e os elementos, os animais e as plantas, “a nossa irmã, a MãeTerra, que nos alimenta e conduz e dá frutos múltiplos e flores de muitas cores e ervas“.Todo o Cântico do Irmão Sol está cheio dum grato reconhecimento de que tudo isto não é coisa natural. Todo o mundo no esplendor de Deus, a presença de Deus em todas as coisas. Nada nesta mística franciscana dos olhos abertos carece Deus, tudo neste mundo é pleno de Deus, bento e seguro. Por isso Francisco jubila: “Louvado e bendito sejais Vós Senhor, nosso Deus, quem nos confiou semelhante tesouro a nós indignos! Louvor e glória a Vós, Trindade inefável!“

Nós não somos os donos da Criação, mas sim seres criados. Daí que não estamos bem se o meio ambiente for destruído, que pecamos contra a Criação se não tratarmos os seus recursos com cuidado. Esta é a conversão na atitude dos homens, a qual foi requisitada pelo check do meio ambiente da ONU e a qual deve ser fomentada e acompanhada por todos os homens de pensamento franciscano.

Andréas Müller OFM
Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2005_04_News.shtml?navid=94
acesso em 24 ago. 2008.

sábado, 23 de agosto de 2008

Servir em vez de Dominar


Deu no CCFMC-Boletín Novembro de 2004:

O mundo está dividido – em pobres e ricos, em potentes e impotentes. E a cisão existe hoje não só entre o Norte e o Sul do mundo, mas divide todas as sociedades. Também no Sul há ricos e no Norte há, em medida crescente, marginalização e empobrecimento. Regalias sociais são minadas num mundo econômico homogeneizado. Os compromissos entre as classes até agora vigentes no Norte – a chamada economia social de mercado – são amolecidos e sacrificados às leis globais do mercado. É uma cultura da dominação à qual Jesus de Nazaré opõe uma cultura do servir.

“Servir” não significa, no entanto, uma submissão servil, mas sim uma solidariedade com os necessitados e fracos conforme o exemplo do samaritano misericordioso. Do ponto de vista dos pobres os quais carecem de habitação e de alimentação, a anunciação de Isaías “Construirão casas e nelas habitarão, plantarão vinhas e comerão os seus frutos” é mais do que uma mera esperança duma vida futura no outro mundo. É a mensagem do fim da morte diária, prematura; é a boa-nova de que se está negando o domínio do pecado e lutando contra o mesmo pelo qual os pobres são privados do pão de cada dia da vida matando-os desta maneira.

Se a Igreja não existe por si, mas sim para tornar realidade a vontade de Deus neste mundo e se a vontade de Deus não abrange só a dimensão transcendental do Reino futuro de Deus, mas se isto se anuncia através de sinais concretos e historicamente palpáveis então se põe a questão de como os cristãos, as paróquias e, sobre tudo, nós, membros das Ordens, podemos e devemos visualizar estes sinais do Reino futuro hoje em dia, no nosso tempo de hegemonia neoliberal e de globalização econômica. Ou, pondo a questão de outra maneira: Como devemos anunciar hoje a Boa-Nova do Reino de Deus vindouro no qual reina a justiça e ninguém perde a sua vida prematuramente através de fome ou violência? Nas palavras de S. Francisco isto é muito simples: mais através de obras do que através de palavras, mais através de servidão do que através de dominação, mais através de testemunhos proféticos do que através de dedicação piedosa, mais através de coragem criativa do que através da mera obediência. Então a idéia do Reino de Deus também hoje terá uma oportunidade.

Andréas Müller OFM

Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/nov04news.shtml?navid=94
acesso em 23 ago. 2008.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

SEDE PERFEITOS

Tudo o que Deus faz é perfeito, porque Deus é amor e tudo cria por amor e para o amor; não seguir esse propósito divino é perverter a natureza criada e o sentido dela; é perder a essência do que somos; é desviar-se Daquele a quem prestaremos contas pelos dons recebidos, porque para Ele tende todas as coisas e sem Ele nada pode perdurar.

Não podemos viver a vida como se Deus não existisse e como se Ele não agisse em nossa naturalidade, pois, nada pode existir sem que Deus conceda que exista e, com a existência, Ele também nos dá todo o necessário para vivermos segundo a sua vontade, porque é comungando com a sua vontade que as criaturas atingem a plenitude para a qual foram criadas.

É inerente à pessoa humana a necessidade de amar e ser amada, pois o amor é o fundamento da vida e de todo ser; quem não ama não pode ser feliz nem fazer algo de bom, porque a bondade é fruto do amor. Eis o que São João escreve a esse respeito: “Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele”. (1Jo 4,16).

Logo: “Recebemos de Deus a tendência natural para fazermos o que Ele nos manda, de maneira que não podemos insurgir-nos, como se Ele nos pedisse uma coisa extraordinária, nem orgulhar-nos, como se déssemos mais do que aquilo que nos é dado. [...] Ao recebermos de Deus o mandamento do amor, possuímos imediatamente, desde a nossa origem, a faculdade natural de amar”.

“Não foi a partir do exterior que fomos por ela informados; e isto é evidente, porque procuramos naturalmente aquilo que é belo [...]; sem que no-lo ensinem, amamos aqueles que nos são aparentados, pelos laços do sangue ou de uma qualquer aliança; enfim, de boa vontade damos provas de benevolência aos nossos benfeitores”.

“Ora, haverá coisa mais admirável do que a beleza de Deus? [...] Haverá desejo mais ardente do que a sede provocada por Deus na alma purificada, que exclama com emoção sincera: «Desfaleço de amor» (Cant 2, 5)? [...] Esta bondade é invisível aos olhos do corpo, só podendo ser captada pela alma e pela inteligência”.

“Sempre que iluminou os santos, deixou neles o aguilhão de um grande desejo, a ponto de eles exclamarem: «Ai de mim, que vivo no exílio» (Sl 119, 5), «Quando poderei eu chegar, para contemplar a face de Deus?» (Sl 41,3), «Desejo partir para estar com Cristo» (Fil 1, 23) e «A minha alma tem sede do Senhor, do Deus vivo» (Sl 41, 3). [...] É assim que os homens aspiram naturalmente ao belo. Mas aquilo que é bom é também supremamente amável; ora, Deus é bom; portanto, se todas as coisas procuram o que é bom, todas as coisas procuram a Deus”. São Basílio (c. 330-379).

Portanto, para vivermos essencialmente o que o Senhor nos manda: “...sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48), precisamos do mandamento do amor, pois ele mesmo nos diz: “Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”. (Mt 22,37-40).

PAZ E BEM!

Clara de Assis – uma santa que procura radicalmente Deus

Deu no CCFMC-Boletín Julio de 2003:

Em 11 de Agosto de 2003 celebramos os 750 anos da morte de Sta. Clara de Assis. Durante um ano, a Família Franciscana em todo o mundo comemora esta mulher corajosa da Úmbria, a amiga de S. Francisco e fundadora da Ordem das Clarissas, a primeira mulher na história da Igreja que escreveu uma regra própria duma ordem. Por motivo do "Capítulo de Esteiras" no Convento de Oberzell, Alemanha, as irmãs trocaram impressões sobre o que significa Clara como padroeira duma Ordem hoje em dia.

Queremos publicar o respectivo artigo, redatado por Ir. Katharina Ganz, substituindo as habituais notícias CCFMC mensais. Queremos por este meio convidar a toda a família CCFMC de nos comunicar o que é e será feito e organizado nos diferentes grupos CCFMC por motivo do jubileu e Sta. Clara. Queremos trocar impressões sobre isso nas próximas notícias. Façam favor de nos escrever até fins de Agosto do 2003 o que Sta. Clara vos diz.

Estamos de acordo: Sta. Clara deve ter tido uma boa porção de coragem. Toda a sua vida é um testemunho de grande força de decisão. A filha da Casa nobre dos Offreduccio não teve medo de oposição. Só assim nos podemos explicar que se tenha oposto aos planos matrimoniais de sua família deixando a casa dos pais clandestinamente. O tio Monaldo que tinha muita influencia e que como chefe patriarcal teve força decisiva sobre os assuntos familiares não foi capaz nem por palavras nem à força de quebrar a vontade de sua ambiciosa sobrinha.

Clara transgrediu as convenções, seguiu seu próprio caminho, procurou soluções individuais, não se adaptou às formas prefabricadas. A radicalidade de Clara nos faz pensar. É um desafio para nós para examinarmos nosso próprio estilo de vida. Admoesta-nos ficarmos atentos no que diz respeito à voz interior da verdade de não ceder ao ditado da razão, da comodidade, da superficialidade ou da presunção.

Forma fraternal alternativa de vida

Outra coisa se tem cravado na nossa consciência: a Irmã Clara é um modelo para uma forma fraternal alternativa de viver. Ela rejeita categoricamente para suas comunidades femininas quaisquer hierarquias no sentido duma ordem superior ou subordinação. Como superiora, Clara inclui as suas companheiras da comunidade nas decisões; sua atenção e respeito especiais se dirigem às irmãs fracas e doentes. No processo de canonização, suas irmãs testemunharam o estilo atencioso no trato que ela praticou durante toda sua vida.

Sta. Clara entende a fraternidade como sendo integrativa, não exclusiva. Uma preocupação central foi para ela a ligação com o movimento dos irmãos franciscanos embora sua comunidade feminina se encontrasse em lugar separado. Em São Damião que é distante, se preocupou especialmente com a cidade de Assis. A pesar da clausura, as irmãs tratam de doentes e recebem – pelo menos no princípio – crianças em seu convento. A pesar de diferenças internas com os hierarcas eclesiásticos, Sta. Clara procura sempre o diálogo. Embora fisicamente fraca devido à grave doença durante dezenas de anos e devido ao jejum excessivo, Sta. Clara, ao morrer, louva a Deus pelo maravilhoso donativo que é a vida.

Clara de Assis nos pode ajudar a unir o amor pelos homens e o amor por Deus, viver alternativamente e ser uma Igreja fraternal. Nos pode ensinar a aceitar coisas incompatíveis, curar ferimentos, agüentar tensões, superar mal-entendidos, respeitar limites e encontrar a vida na morte.

Exemplo de resistência pacífica

"Vejo na Irmã Clara um exemplo de resistência pacífica", prossegue uma de nós. Clara negocia com cardeais e papas e não cede antes de receber o privilégio da pobreza e antes de serem confirmadas pela instituição mais alta de Igreja as regras da ordem, que ela escreveu por mão própria. Através de sua sinceridade, força e firmeza com os quais continua fiel à Irmã Pobreza convence a cardeais e papas. Diz-se que Sta. Clara salvou a cidade de Assis duas vezes de assaltos. Uma vez – assim diz a lenda – surpreendeu os atacantes de manhã cedo com pão fresco; outra vez pediu às irmãs que rezassem enquanto ela se deitou no chão com uma caixinha cheia de hóstias consagradas.

Uma de nós diz: "Clara de Assis é uma mulher de tons suaves".No entanto, levanta a voz quando há injustiças. Suas palavras ganham expressão através do peso que ela dá às palavras. Suas ações convencem pela conseqüência e decisão de sua atuação.

Clara pode nos ensinar a lutar corajosamente por nossas preocupações sem termos medo de dificuldades internas e externas. Quanto mais conscientes somos de nossa missão como comunidade na Igreja e no mundo tanto mais decididos, cheios de idéias e sem medo vamos reconhecer os sinais do tempo ajudando assim a construir o Reino de Deus.

Mulher motivada por Deus, que moveu muito

"Clara moveu muito porque estava motivada por Deus", continua dizendo uma companheira no convento na nossa conversa. A essência de seu caminho místico é sua relação amorosa com Deus. A contemplação de Clara encontra sua maior densidade nas cartas ainda existentes que escreveu a Inês de Praga a quem incita, sem a conhecer pessoalmente, à mesma dedicação:

"Ama Aquele com toda a dedicação que, devido ao teu amor, se entregou totalmente e cuja beleza é admirada pelo sol e pela lua e a preciosidade e grandeza de suas recompensas não têm fim (3 Agn)."Igual a S. Francisco, Clara também quere admirar a pobreza Dele que está no presépio enrolado em panos, a humildade Dele que se encarregou das dificuldades da vida, e o amor Dele que despido morreu na Cruz".

Sua vida, sua encarnação, seu caminho da encarnação, e sua renúncia são o espelho no qual ela se quere ver e que comparte com sua amiga. Neste espelho do amor incondicional a Deus se refletiu ela própria como espelho da misericórdia e do amor de Deus, e assim foi chamada por S. Francisco carinhosamente "Christiana", cristã.

Solidariedade com as mulheres

A solidariedade e a amizade com mulheres se corre em toda a vida de Clara como um riacho. Mal fugiu da casa dos pais e assim da influência da família e da sociedade de cunho patriarcal, Clara reza para que sua irmã a seguisse.: "Portanto, como foram unidas de todo o coração no mundo assim pediu com mais fervor ainda que uma vontade comum unisse suas almas ao serviço de Deus." (LegCl 24) E só durou 16 dias até Inês fugir de casa seguindo Clara. Com Pacifica de Guelfuccio como a terceira do grupo as duas irmãs se instalam depois de pouco tempo na pequena igreja de São Damião provisoriamente renovada. Finalmente, as cartas ainda existentes de Clara a Inês de Praga são um testemunho maravilhoso da amizade de duas mulheres que nunca se viram na vida. Suas afinidades espirituais estão crescendo através da comunhão com Cristo numa pobreza conseqüentemente vivida. Dentro de pouco tempo, Clara passa do trato formal de "A Senhora" para o trato mais íntimo de "Você". Embora no início ainda se dirigisse à "Senhora Inês, filha (...) do Rei da Boemia", em sua quarta carta se dirige a ela chamando-a carinhosamente "metade de minha alma".

A partir de 1234, as duas confirmam mutuamente sua forma de vida e a pobreza radical. Uma de nós diz: "Clara foi amiga de Deus, amiga de Francisco, amiga de Inês de Praga, amiga de sua irmã Inês e amiga dos pobres."

Clara de Assis é um exemplo para nós de como a solidariedade no caminho de cada uma fortifica, cura e suporta. Ela só precisava de poucas companheiras para arriscar um início novo e manter viva a sua visão até morrer. Testemunhas ouviram na hora da morte de Clara sua alma dizer: "Anda seguramente e em paz por que vais ter uma boa companhia; pois quem te criou primeiramente te santificou e depois de te ter criado mandou o Espírito Santo, te protegeu sempre, como a mãe protege a filha amada."

Também nossa comunidade morre e diminui. A vida e a morte de nossa padroeira Clara de Assis, desta profetiza luminosa de Deus, nos dá coragem para ficarmos fieis à nossa visão – não obstante dados estatísticos.

Ir. Katharina Ganz osf

Questões que podem ajudar a que o jubileu de Clara dê ricos frutos

  • O que significa Clara de Assis para mim?
  • Como entrei em contato com ela?
  • O que nos pode dizer Clara hoje em dia?

Senhas de Clara De Assis

Nome: Clara Offreduccio
Cognomes: Francisco a chama "Christiana" (cristã)
Ela própria se chama "plântula" (planta pequena) de Francisco
Data de nascimento: 1193 ou 1194
Lugar de nascimento: Assis na Úmbria/Italia
Família: Offreduccio, nobreza, tio Monaldo, chefe de família
Pais: pai Favarone (pouco conhecido)
Mãe: Ortulana (muito religiosa)
Irmãs: Katharina, chamada Inês por Francisco, e Beatrice:
Todas as irmãs e sua mãe seguem Clara para o convento
Amizades: com Francisco de 1210 até sua morte em 1224,
cartas trocadas com Inês de Praga desde 1234.
Forma de vida: Fuga da casa dos pais no Domingo de Ramos de 1212;
Início da vida conventual em São Damião;
Pobreza radical seguindo o exemplo de Francisco e dos Frades Menores – como mulher só possível em clausura.
Mérito: 1240 e 1241 proteção contra dois ataques dos Sarracenos contra Assis através da oração.
Regra da ordem: 1218/19 o Cardeal Hugolin é protetor das "mulheres pobres" dando-lhes uma regra; o Papa Inocêncio IV confirma a regra de Clara em 9 de Agosto de 1253 (dois dias antes da morte de Clara).
Doenças: a partir de 1224 / 25
Morte: 11.08.1253
Canonização: 15.08.1255



Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/jul03news_p.shtml?navid=94 acesso em 22 ago. 2008.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Termos chaves franciscanos

Deu no CCFMC Boletín Junho de 2008:
Raras vezes se poderá conseguir apresentar matérias complicadas ou mesmo temas de disputa teológica duma maneira tão simples para que todos possam compreendê-los. Os 70 participantes, aproximadamente, prove-nientes de 15 países asiáticos, num seminário de retiro espiritual, que se realizou em Bangkok de 18 a 28 de Maio, viveram um momento tão sublime. Foram tratados termos muitas vezes mal interpretados como a “opção pelos pobres” e a “teologia da libertação” duma óptica franciscana. O teólogo franciscano Fr. William J. Short OFM da Califórnia magistralmente conseguiu fazer compreender esta mensagem originariamente franciscana.

Pobreza franciscana não tem nada que ver com exercícios ascéticos de auto-santificação e misericórdia caritativa, como se compreendia tantas vezes no decurso da história dos 800 anos do movimento franciscano, mas exclusivamente com a realização duma justiça que se deve aos pobres. Trata-se das preocupações e das necessidades que os pobres precisam para levarem uma vida em dignidade. O direito a esta vida foi-lhes trazido pelo Deus feito Homem em Jesus de Nazaré. Ele, Que era rico fez-se pobre para anunciar aos pobres a mensagem libertadora do Reino de Deus vindouro marcado por justiça, misericórdia e amor. Quem se rodear de abundância declarando que só ele tem o direito de possuir reivindica aquilo que pertence a todos. Quem não for capaz de compartilhar recusa aos pobres aquilo a que têm direito.

Francisco de Assis torna-se libertador dos pobres porque compreendeu esta mensagem. Foi um caminho longo até que o filho dum comerciante rico descobrisse os mecanismos econômicos do desejo de querer ter e possuir, mecanismos que excluem uma parte dos homens duma vida digna. A seguir abandonou o sistema para levar, como alternativa, uma vida que não excluiu ninguém: uma vida entre os pobres e com os pobres.

Foi não só uma mudança de posição social mas sim uma mudança da óptica. Francisco aprendeu e compreendeu a Bíblia de novo desde o ponto de vista dos pobres; viu e compreendeu que foi precisamente o Cristo pobre Que encontrava nos pobres. E compreende finalmente que a sua visão sonhada de erguer novamente a Igreja de Cristo consistia principalmente em criar, na Igreja, uma pátria segura para os pobres. Pois esta é a verdadeira Igreja de Cristo, o lugar no qual os pobres encontram Cristo, o irmão dos pobres experimentando o amor de Deus.

E precisamente isto é o objetivo fundamental da teologia da libertação em redor da qual houve tantos mal-entendidos. Deus mesmo é Quem escolheu os pobres pondo-se ao lado dos mesmos como dizia sempre pelos profetas e testemunhou no seu Filho predileto. Jesus de Nazaré é a “Boa Nova” para os pobres do Reino vindouro de Deus no qual também eles vão participar na abundância da vida. Têm o direito a isso porque Deus os criou por amor à vida. Deus não quer miséria e desgraça. As estruturas injustas pelas quais os pobres são feitos pobres são um pecado; pecado contra o plano de Criação de Deus como é descrito na Bíblia e segundo o qual não deve faltar a ninguém aquilo que for necessário para uma vida digna. “Vai e vende tudo o que tens e dá-lo aos pobres”: esta frase lapidar de Jesus dirigida ao jovem rico e que também comoveu tanto o jovem rico Francisco, quer dizer que nós só compreendemos a lógica do Reino de Deus quando não recusarmos aos pobres aquilo a que têm direito. Sem justiça não é possível que haja amor autêntico.

Planos de ação muito concretos a corajosos para o futuro imediato em muitos países da Ásia demonstram que as irmãs e os irmãos da Ásia compreenderam , nos 10 dias do retiro espiritual, como nós temos de traduzir estes termos chaves da espiritualidade franciscana para os nossos dias.
Andréas Müller OFM

Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2008/2008_06_News.shtml
acesso em 21 ago. 2008.

Curso Básico sobre o Carisma Missionário Franciscano

A idéia de oferecer um curso básico sobre o carisma (Carisma, em grego charisma, quer dizer uma dádiva ou uma vocação. No nosso contexto significa uma dádiva divina, que Francisco recebeu para a sua comunidade, para cumprir uma tarefa específica na Igreja.) missionário de Francisco de Assis a toda a família franciscana, foi lançada pela primeira vez em 1982; pois sentiu-se a necessidade de redescobrir e aprofundar a dimensão missionária da espiritualidade franciscana. O objetivo do curso seria, portanto, tornar este carisma mais conhecido e acessível, demonstrando como é vivido nas diferentes comunidades franciscanas e nas distintas culturas.

No Brasil, o curso recebeu o título Curso Básico sobre o Carisma Missionário Franciscano, com a abreviação CBCMF. A nível mundial é conhecido sob a sigla da versão inglesa: CCFMC, a saber: Comprehensive Course on the Franciscan Mission Charism.

Para quem deseja estudar o CBCMF, recomenda-se procurar aprender, mas de preferência a querer ensinar. Trata-se de promover o diálogo intercultural, aberto para acolher os estímulos e sugestões que chegam de famílias franciscanas vivendo em outros continentes e culturas. Com entusiasmo e bons resultados, o CBCMF já foi usado por milhares de irmãs e irmãos no mundo inteiro.

Desde o princípio, porém, era inevitável que o curso apresentasse, inadvertidamente, certos limites e lacunas culturais. No decorrer dos anos surgiram também novos enfoques temáticos importantes que chegaram a exercer uma influência considerável sobre a maneira de reagir aos desafios que questionam a nossa espiritualidade. Portanto, uma reelaboração fundamental do CBCMF tornou-se imprescindível.

Para encaminhar este trabalho, foi iniciado um processo dialogal. Durante dois anos, irmãs e irmãos de todos os continentes refletiram sobre os pontos-chave mais significativos dos temas centrais do curso. Os resultados destas reflexões foram recolhidos, comparados e confrontados entre si durante um congresso que se realizou em Assis, no ano de 1994.

Em seguida, uma equipe de língua alemã foi encarregada da tarefa de redigir a nova versão do curso. O resultado desta iniciativa está agora nas suas mãos.

Para saber mais:
http://www.ccfmc.net/wPortugues/index.shtml

Links Brasil Franciscano


Paz e bem!

Reoganizei os links do blog.

Por favor,
comentem sobre o que acharam.

Se quisrem sugerir outros sites
é só comentar.
Lembro que este é um blog
em língua portuguesa.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Métodos Pastorais de Leitura Bíblica

Herculano Alves, OFMCap.

Há diferentes portas de entrada na cidadela da Bíblia. Para muitos, ela é ainda uma fortaleza inexplorada; para outros, ela tem apenas algumas brechas por onde entrar.

Portanto, grande parte das pessoas não encontram ainda a riqueza que a Bíblia contém. No entanto, a Bíblia tem muitas entradas, e todos, segundo as suas capacidades, podem entrar nela.

Os diferentes métodos pastorais de leitura bíblica são outros tantos instrumentos práticos, outras tantas portas de entrada na Bíblia.

Índice

Introdução
1. Leitura da Bíblia em grupo
2. Perigos que espreitam os grupos
3. Formação e acompanhamento dos grupos
4. Que textos escolher para estudo e para celebração?
5. Alguns princípios básicos a ter em conta na leitura da Bíblia
6. Espécies de métodos de leitura bíblica
6.1. Grupos de estudo da Bíblia
6.2. Da vida à Bíblia
6.3. Da Bíblia à vida
6.4. Método de leitura individual da Bíblia
6.5. Método de estudo em grupo
6.6. Método de estudo e celebração
6.7. "Método Cardijn"
6.8. Leitura da Bíblia em 100 Semanas
6.9. LECTIO DIVINA
6.10. Escola da Palavra
6.11. Orar os textos da liturgia de cada dia
6.12. Uso da Bíblia na formação de catequistas
Conclusão
__________________________

Extraído de http://www.capuchinhos.org/porciuncula/ler_biblia/index.htm acesso em 18 ago. 2008

Introdução

Uma primeira classe de métodos de leitura da Bíblia é constituída pelos assim chamados métodos científicos: o Método histórico-critico e o método semiótico ou também chamado estruturalista são os dois grandes métodos científicos mais praticados actualmente. Por não fazerem directamente parte do nosso estudo, vamos prescindir deles. Os métodos que aqui nos interessam são os que poderíamos chamar MÉTODOS PASTORAIS DE LEITURA DA BÍBLIA. Mas queremos, desde já, desfazer alguns possíveis equívocos: Mais do que métodos propriamente ditos, trata-se de modos de ler, de perspectivas de leitura, numa palavra, de métodos em sentido amplo. Outro possível equívoco: os métodos científicos referidos são métodos de investigação bíblica, em sentido estrito; mas os "Métodos pastorais", longe de prescindir deles, pretendem levar à prática as aquisições dos métodos científicos e levar eficazmente a leitura da Bíblia ao povo.

Por outro lado, é mediante estes últimos métodos que os primeiros atingem os seus objectivos, pois todo o estudo científico tem uma finalidade essencialmente pastoral. Uma das grandes dificuldades da Igreja, ao longo da sua já longa História - numas épocas mais do que noutras - foi precisamente a de saber traduzir a linguagem da Bíblia para os fiéis. Tudo quanto afirmamos é justamente ressaltado em todos os documentos da Igreja sobre a Bíblia[1]. Por isso, não se percebem tantas reticências quanto ao uso da Bíblia, nem os receios de falsas interpretações devidas à leitura da Bíblia pelo povo. Se a Bíblia nasceu dum povo e foi sempre o livro do povo - e não apenas dos exegetas e do clero - a principal tarefa da Igreja estará em ensinar o povo a ler e a compreender a Bíblia como Palavra de Deus. Não podemos voltar a um passado, mais ou menos remoto, em que se retirou o pão da Bíblia das mãos do povo, oferecendo-lhe, em troca, o alimento de muitas devoções de valor cristãmente duvidoso. Para acabar com todos os equívocos, o Concílio Vaticano II afirmou solenemente:
"A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o Pão da vida, tanto da mesa da Palavra de Deus, como do Corpo de Cristo"
(DV 21).
A Igreja parte da convicção de que é a Palavra de Deus que há-de renovar a pastoral dos seus agentes e a vida dos cristãos e das comunidades: Deus, que outrora falou, dialoga sem interrupção com a Esposa do Seu amado Filho; e o Espírito Santo - por Quem ressoa a voz do Evangelho na Igreja e no mundo - introduz os crentes na verdade plena e faz com que a Palavra de Cristo neles habite em toda a sua riqueza (ver Col 3,16). A este propósito, o card. Martini diz que um povo que não utiliza a Palavra permanece passivo e mudo, a ouvir e a calar, não cresce na comunhão do mistério e não pode exprimir na vida a sua fé.

As experiências levadas a cabo tanto em países culturalmente avançados como menos avançados testemunham, por um lado, a ignorância quase total do que é a Bíblia e a falta de convicção da sua necessidade, o que se deve a uma catequese muito deficiente; por outro lado, sentiu-se a necessidade duma leitura simples e popular da Bíblia, acessível a todas as pessoas.
__________________________

[1]. "Considerando as imensas fadigas arcadas pela exegese católica durante quase dois mil anos, para que a Palavra de Deus, comunicada aos homens nas Sagradas Letras, se compreenda cada dia mais perfeitamente e mais ardentemente se ame, surge espontânea a convicção de que os fiéis, e particularmente os sacerdotes, têm o grave dever de aproveitar larga e santamente aquele tesouro acumulado durante tantos séculos pelos maiores talentos. Deus não deu aos homens os livros santos para satisfazer a sua curiosidade, ou para lhes oferecer matéria de estudo e investigação, mas, como adverte o Apóstolo, para que estes divinos oráculos nos pudessem levar à salvação pela fé em Jesus Cristo" a fim de que o homem de Deus seja perfeito e apto para toda a boa obra" (Divino Afflante Spiritu, nº 26 in Alves, H., Documentos da Igreja sobre a Bíblia, p. 184).

Extraído de http://www.capuchinhos.org/porciuncula/ler_biblia/introducao.htm acesso em 18 ago. 2008.

1. Leitura da Bíblia em grupo

Assim como não nos referimos aqui aos métodos científicos tão pouco iremos referir-nos muito à leitura individual da Bíblia. Referiremos sobretudo a leitura em grupo. O grupo, a comunidade é o lugar não somente sociológico mas sobretudo teológico da leitura da Bíblia como Palavra de Deus. Segundo as perspectivas pastorais de hoje, a Igreja deixou de ser uma Igreja de massas para se tornar uma Igreja feita de pequenos grupos. Deste modo, os grupos deverão ser o fermento da evangelização da "massa", das pessoas que vivem no território da paróquia e no seu meio ambiente. Poderíamos interrogar-nos - e os pastoralistas certamente se interrogam - sobre o porquê desta situação, isto é, duma sociedade que deixou de ser cristã. Estamos certos de que uma das causas da descristianização das massas - apesar de baptizadas - se encontra na prolongada ausência da Palavra de Deus na vida dos crentes.

As pessoas individualmente consideradas e todo o povo de Deus - a quem pertence este maravilhoso livro - sentir-se-ão, não apenas um objecto da pregação do clero, mas sujeito, destinatário directo da Palavra de Deus e, por isso, pessoas na Igreja. Por isso mesmo, cada cristão, evangelizado pela Palavra, irá sentir-se sujeito da evangelização na sua paróquia, na comunidade onde vive a sua fé e no seu meio ambiente. De simples evangelizado, o cristão tornar-se-á evangelizador. Esta experiência realiza-se hoje com êxito nas comunidades cristãs um pouco por toda a parte.

Depois do conhecimento aprofundado da Palavra, poderão os cristãos ter outra vivência, muito mais profunda, da Eucaristia dominical. Só depois de ter estudado a fé é que esta poderá ser dignamente celebrada. Ninguém pode celebrar o que não conhece.

Temos que afirmar, previamente, que nenhum método tem valor absoluto, isto é, cada comunidade, cada grupo pode utilizar o método que melhor se adaptar à sua cultura e à mentalidade das pessoas que compõem o grupo. Mas exige-se, como condição absolutamente necessária, para além da fé na Palavra, alguns critérios "científicos" de leitura da Bíblia, de modo a não manipular o texto, fazendo-o dizer o que ele nunca quis dizer. Não poderemos nunca confundir a Palavra com a nossa própria palavra. Na Bíblia, Deus não nos fala nem actua magicamente, mas quando Ele quer. Por isso, é sempre indispensável um discernimento espiritual e uma autocrítica apurada, sobretudo por parte dos animadores de grupos e de comunidades cristãs.
__________________________

Extraído de http://www.capuchinhos.org/porciuncula/ler_biblia/1_leitura_biblia_grupo.htm acesso em 18 ago. 2008.

Firefox