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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A OBRA ANTONIANA (3ª Parte)


Seu modo de escrever os Sermões nada tem a ver com os escritos deixados pelo fundador da Ordem dos Frades Menores e nem com os relatos deixados por aqueles que acompanharam o nascer do ideal de vida franciscano. Quem buscar ali a ingênua expressão franciscana das origens ficaria desiludido e irritado. Contudo, a natureza franciscana está presente, traduzida em termos bíblico-patrísticos, em um latim matizado e refinado, em uma expressão lacônica, passional e de muita imaginação.[1]
Palpita dentro dos Sermões uma grande paixão pela penitência, quer dizer, a conversão, para a existência evangélica, de uma vida vã e maléfica. Descobrimos a predileção pelos humildes, os pobres, os simples, os marginais, pela salvação daqueles a que o frade português se entregou completamente. Está presente o ardor pela incessante e radical reforma da Igreja e de seus pastores, expressada em uma linguagem veemente, indignado, às vezes candente, outras desolado. Dentro da obra encontra-se também um sentimento de ternura a Jesus menino e crucificado. No artigo Cristocentrismo no pensamento Antoniano o historiador português João Mário Soalheiro Costa[2] afirma que “Cristo afigura-se, com efeito, como horizonte de compreensão e chave hermenêutica do discurso antoniano. Certamente que não é a única perspectiva de análise, mas é indelevelmente a que marca a inteligibilidade dos Sermões.”
Observamos ali o desejo da perfeição cristã, da separação das velhas e falsas realidades terrenas, do amor pela Virgem da pobreza, a nostalgia pelo céu. A forma resulta então em ampla divida da tradição cultural da Igreja, enquanto os conteúdos estão vitalmente impregnados de sensibilidade franciscana, aquela primavera espiritual da qual Antônio foi um dos maiores protagonistas.
Porém ao nos debruçarmos nos relatos sobre o movimento franciscano do primeiro século e ao lermos os Sermões podemos observar que graças à difusão dos estudos sagrados, implementou-se uma profunda transformação nos menores, com conseqüências imprevisíveis e também revolucionárias para a completa fraternidade e para o ideal originário do movimento seráfico.[3] De uma corrente espontânea caracterizada por uma absoluta sensibilidade e pobreza, os menores se converteram, com o passar dos anos, mantendo a preocupação de não renegar as pegadas primitivas impressas por Francisco, numa corporação de doutos, uma expressão entre as mais importantes da “inteligência” do medievo ocidental. Nesta transformação, através de nossa análise podemos constatar que, Antônio foi o pioneiro, contribuindo com toda a riqueza da sua formação monástica agostiniana e com a preocupação na preparação intelectual dos membros do que mais tarde ficará conhecido pelos teóricos como “Escola Franciscana.”


[1] CAEIRO, F. da Gama. Santo Antônio de Lisboa. Introdução a Obra Antoniana, Lisboa: Casa da Moeda, 1968.
[2] COSTA, João Mário Soalheiro. Cristocentrismo no pensamento antoniano. In:___. Congresso Internacional Pensamento e Testemunho: 8º Centenário do Nascimento de Santo Antônio. Atas... Braga: Universidade Católica Portuguesa, 1996.


[3] http/www.mwnsageirosdesantoantonio.com.it.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A QUEM ESTÃO SERVINDO AS REDES DE TELEVISÃO DESTE PAÍS?


A QUEM ESTÃO SERVINDO AS REDES DE TELEVISÃO DESTE PAÍS?


Ultimamente temos constatado que toda espécie de lixo do inferno tem sido despejado nos lares brasileiros e até do mundo, pelas redes de televisão abertas e privadas brasileiras. Nada mais asqueroso do que o suprassumo infernal que advém das novelas e programas da televisão brasileira. De fato, elas têm sido porta vozes do inferno há muito tempo, só não vê quem se deixou prender por seus conteúdos satânicos. Antigamente suas ações eram de cunho sublimares, veladas, sorrateiras, de tal modo que só as pessoas com discernimento apurado, liam nas entrelinhas de suas mensagens sublimares o veneno satânico nelas contido; mas, nos últimos tempos, o mal vem mostrando sua farsa nitidamente como que, querendo dizer que já está no comando das mentes a ele subjugadas, especialmente dos executivos e diretores das redes de comunicação em massa e de suas programações. Por exemplo: ontem (27/10/2013), o Fantástico da Rede Globo, fez uma chacota tão vergonhosa da última ceia de Cristo, algo tão baixo e doloso contra a fé cristã, que deixa pasmo até os demônios do inferno. Ou ainda, o personagem gay de uma de suas novelas atuais, cujos bordões são extremamente nocivos à fé cristã, tais como: “Será que eu soltei rojão no Sermão da Montanha?”... ”Já tenho outros motivos pra acreditar que lavei minhas cuecas na manjedoura”... ”Será que eu fiz um skate com a tábua dos dez mandamentos pra sofrer tanto assim?”... ”Será que eu salguei a santa ceia para você me achar com cara de idiota?” Ou seja, são provocações contra a fé em horário nobre do império da globalização, são sátiras perversas com intuitos nitidamente blasfematórios...

Podem me acusar do que quiserem, mas a verdade precisa ser dita para que tomemos consciência e não nos deixemos dominar pelo o mal que está arrebanhando milhares e milhões de pessoas para as suas pretensões diabólicas, a saber: a destruição da fé católica, a deturpação e banalização do cristianismo, a destruição da fé em Deus, a destruição da família como célula mãe da sociedade, para assim trazer o desequilíbrio social e a perca do sentido da vida. Para isso, os porta-vozes televisivos das trevas, defendem as seguintes bandeiras: a legalização do aborto e das drogas ilícitas; as experiências com células tronca de embriões; a banalização dos relacionamentos; a ditadura do homossexualismo; a negação do pecado e do demônio, ou seja, querem negar que o pecado e o demônio existem. Os roteiros usados para estas maléficas intenções são: promoção do liberalismo sexual; promoção da reencarnação e das religiões espiritualistas; uso de personagens gays e lésbicas como protagonistas para que se implante a ditadura homossexual; banalização dos símbolos religiosos, especialmente os ligados à Igreja Católica; e outros tantos temas polêmicos com o fim de desviar as mentes da fé em Deus e em Jesus Cristo, Salvador da humanidade.

Atenção: vejam a vida de quem está por trás dos textos e roteiros das telenovelas, talks shows, reality shows tipo BBB, a Fazenda, etc. Com quem e com que eles têm ligação; vejam também a vida de seus protagonistas, atores, atrizes, diretores, etc. Há neles algum exemplo de vida a ser seguido? E os programas de auditório? Quanta bobagem e perversão nas tardes e noites de sábados e domingos, quanta perca de tempo. E os humorísticos? Os mais terríveis venenos do inferno. Com esse bombardeio infernal, vemos a fé de muitos arrefecer; e poucos são os que vão às igrejas para rezar. Porém, muitos só pensam nesse tipo de diversão e por isso, não têm tempo para viver a fé e muito menos a religiosidade como deve ser vivida; e assim, temos uma sociedade extremamente violenta, dissipada pelas drogas, pela corrupção, pelo tráfego de armas e de gente; e por toda espécie de perversão sexual e desvios comportamentais em todas as esferas de nossa sociedade.

Existe um texto de São Paulo que identifica o momento atual que estamos atravessando, pois vivemos a última batalha espiritual da humanidade, e não nos surpreende constatar a ferocidade do inimigo de Deus e de nossas almas, visto ser este o fim de suas maquinações e aparente reinado: “Nota bem o seguinte: nos últimos dias haverá um período difícil. Os homens se tornarão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão a realidade. Dessa gente, afasta-te!” (1Tm 1,1-5).

E ainda: “Ninguém de modo algum vos engane. Porque primeiro deve vir a apostasia, e deve manifestar-se o homem da iniquidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo o que é divino e sagrado, a ponto de tomar lugar no templo de Deus, e apresentar-se como se fosse Deus. Não vos lembrais de que vos dizia estas coisas, quando estava ainda convosco? Agora, sabeis perfeitamente que algo o detém, de modo que ele só se manifestará a seu tempo. Porque o mistério da iniquidade já está em ação, apenas esperando o desaparecimento daquele que o detém. Então o tal ímpio se manifestará. Mas o Senhor Jesus o destruirá com o sopro de sua boca e o aniquilará com o resplendor da sua vinda”.

A manifestação do ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda a sorte de portentos, sinais e prodígios enganadores. Ele usará de todas as seduções do mal com aqueles que se perdem, por não terem cultivado o amor à verdade que os teria podido salvar. Por isso, Deus lhes enviará um poder que os enganará e os induzirá a acreditar no erro. Desse modo, serão julgados e condenados todos os que não deram crédito à verdade, mas consentiram no mal”. (2Tss 2,3-12).

Quanto ao mais, preparemo-nos para a perseguição, pois, “O discípulo não é mais que o mestre, o servidor não é mais que o patrão. Basta ao discípulo ser tratado como seu mestre, e ao servidor como seu patrão. Se chamaram de Beelzebul ao pai de família, quanto mais o farão às pessoas de sua casa! Não os temais, pois; porque nada há de escondido que não venha à luz, nada de secreto que não se venha a saber. O que vos digo na escuridão, dizei-o às claras. O que vos é dito ao ouvido, publicai-o de cima dos telhados. Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena”.

Não se vendem dois passarinhos por um asse? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade de vosso Pai. Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois! Bem mais que os pássaros valeis vós. Portanto, quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante de meu Pai que está nos céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus”. (Mt 10,24-33).

Por fim, escutemos ainda mais o Senhor: “Vigiai, pois, porque não sabeis a hora em que virá o Senhor. Sabei que se o pai de família soubesse em que hora da noite viria o ladrão, vigiaria e não deixaria arrombar a sua casa. Por isso, estai também vós preparados porque o Filho do Homem virá numa hora em que menos pensardes”. (Mt 24,42-44).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

VIVENDO DA PROVIDÊNCIA DIVINA...



VIVENDO DA PROVIDÊNCIA DIVINA...


Caríssimos, aprendi que nada tenho, pois tudo o que sou e tenho só a Deus pertence. Nasci sem nada, dependente de tudo, e quanto tempo ainda aqui estiver, continuarei dependendo de tudo, a começar dos bens naturais, ar, água, comida, sono... E quando partir daqui também nada levarei deste mundo, a não ser os bens eternos que aqui cultivei: amor, caridade, bondade, justiça, fidelidade, misericórdia, castidade, paz, alegria, etc., como bem ensinou nosso Senhor, Jesus Cristo: Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os corroem e onde os ladrões arrombam e roubam, mas ajuntai para vós tesouros nos céus (...); pois onde está  o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” (Mt 6,19-20a.21).

Então, como é que o Senhor revela sua Providência em nossa vida? Todo Pai amoroso, atencioso e bondoso cuida de sua prole com desvelo. Deus, nosso Pai, é amor infinito e nos ama perfeitamente, por isso, nos dedica plena atenção e carinho; é Ele o nosso Supremo Bem e o Perfeito realizador de nossa vida... Ocorre que raramente deixamos que Ele exerça sua providência para conosco; isto se dá porque, no mais das vezes, deixamos que os apegos, os medos, as inquietações e as preocupações exageradas ocupem nossos pensamentos e nossas ações, arrefecendo nossa fé Nele; ou ainda, quando pomos nossa confiança nos bens materiais, no poder temporal, no dinheiro, e com isto nos tornamos egoístas, avarentos, corruptos, incrédulos, e por consequência, inimigos de nós mesmos e do Senhor. “E disse, então, Jesus ao povo: guardai-vos escrupulosamente de toda a avareza, porque a vida de um homem, ainda que ele esteja na abundância, não depende de suas riquezas”. (Lc 12,15).

Ora, a providência divina nunca falha, sobretudo com aqueles que buscam em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça; porque esses não põem os interesses pessoais acima da vontade de Deus, mas procuram seguir a Cristo Jesus, pobre e obediente até a morte e morte de cruz. Nessas almas a providência divina se revela pela obediência à lei do trabalho: “ganharás o teu pão com o suor do teu rosto”, e ainda por uma vida de renúncia, generosidade e busca de santidade. Como nos ensina o salmista: “Fui jovem e já sou velho, mas jamais vi o justo abandonado, nem seus filhos a mendigar o pão. Todos os dias empresta misericordiosamente, e abençoada é a sua posteridade”. (Sl 36,25-26).

Com efeito, o nosso seráfico pai São Francisco de Assis, por sua vida de renúncia e por seu amor à pobreza, nos ensinou como viver da Providência Divina: “Quando os irmãos lhe perguntaram um dia qual era a virtude que nos torna mais amigos de Cristo ele respondeu abrindo-lhes, por assim dizer, o segredo do seu coração: “Sabei, irmãos, que a pobreza espiritual é o caminho privilegiado para a Salvação (cf. Mt 5,5), visto que é a seiva da humildade e a raiz da perfeição; os seus frutos são incontáveis, embora escondidos. Ela é esse «tesouro escondido num campo», do qual nos fala o Evangelho, pelo qual é necessário vender tudo o resto e cujo valor deve impelir-nos a desprezar todas as outras coisas”.  E ainda: Filhos meus, grandes coisas prometemos a Deus: mas muito maiores Deus nos prometeu. Observemos o que prometemos; e esperemos com certeza as que nos foram prometidas. Breve é o deleite do mundo, mas a pena que se lhe segue é perpétua. Pequeno é o sofrimento desta vida, mas a glória da outra vida é infinita”. (I Fioretti de S. Francisco).

Também Santa Teresa de Jesus, certa feita, disse:

Nada te perturbe, nada te espante,
Tudo passa, Deus não muda,
A paciência tudo alcança;
Quem a Deus tem, nada lhe falta:
Só Deus basta.

Eleva o pensamento, ao céu sobe,
Por nada te angusties, nada te perturbe.
A Jesus Cristo segue, com grande entrega,
E, venha o que vier, nada te espante.
Vês a glória do mundo? É glória vã;
Nada tem de estável, tudo passa.

Deseje às coisas celestes, que sempre duram;
Fiel e rico em promessas, Deus não muda.
Ama-o como merece, Bondade Imensa;
Quem a Deus tem, mesmo que passe por momentos difíceis;
Sendo Deus o seu tesouro, nada lhe falta.
Só Deus basta...

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria, OFMConv.

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terça-feira, 22 de outubro de 2013

A OBRA ANTONIANA (2ª Parte)


Santo Antônio prega aos peixes, mais sensíveis que os heréticos, escola de Girolamo Tessari, 1518

                      Santo Antônio prega aos peixes, mais sensíveis que os heréticos. 
                                         Escola de Girolamo Tessari, 1518

Esta obra tem como alicerce, assim como praticamente toda a produção de Antônio, a Bíblia que, para ele, era a produtora da “verdadeira ciência”, que é comentada nos sermões tendo como ferramenta principal os escritos dos Santos Padres. Além de ser a base para a construção do discurso de Antônio, as Sagradas Escrituras foram a fonte de inspiração do teólogo para a criação de alegorias que elucidaram a necessidade da prática das virtudes que se constituíam, para ele, de suma importância para o fortalecimento da Igreja e da salvação.
Com a incidência e a maneira que o frade utiliza as passagens bíblicas, ao vermos a estrutura dos Sermões concordamos com Zavalloni,[1] quando afirma que a linguagem acentuadamente bíblica de Antônio, obedecia a recomendação de Francisco da necessidade de manter-se vivo nos discípulos o espírito de oração e de devoção.
O sermão, nos tempos de Antônio, é um gênero literário bastante usado. Inclui-se neste gênero o castigatio clericorum que reflete as severas proibições dirigidas ao clero, e que são muito freqüentes na obra de Antônio. No sermão escrito, a castigatio tinha como fim pastoral tanto a formação do clero, para que os estudantes escapassem dos vícios, como à correção dos clérigos em idade madura, já que os Sermões, ao ser material de estudo, podiam passar pelas mãos de qualquer categoria de clérigos, desde os de funções mais humildes até os de grande responsabilidade, ou seja, os prelados.[2]
Dentro do aspecto literário dos Sermões, temos ainda as exposições doutrinais, o modo de se expressar de Antônio, os comentários escriturais, as anedotas, as orações conclusivas, o discurso direto com o leitor, as fórmulas introdutórias e a língua latina.[3]
O próprio frade demonstra ser um grande conhecedor do aspecto literário do Sermão, quando desaprova a conduta dos melindrosos, que mesmo lendo muito, jamais chegam à verdadeira ciência. Antônio diz que: “retira de um livro o que lhe faz falta e coloca-o na colméia de tua memória”[4].
Em seus Sermões Antônio fala da fé e dos bons costumes. O frade ensina a pastoral aos pregadores: como devem ensinar aos fiéis a doutrina do evangelho, como devem administrar os sacramentos, sobre tudo a penitência e a eucaristia. Ao fazer isto, recorre a ordem, a persuasão, ao ensinamento e também a uma forte repreensão. Com freqüência uniu o ensino a repreensão. Primeiro ensina quais devem ser os costumes dos sacerdotes e dos prelados, por tanto expõe quais são estes na realidade e depois questiona àqueles que mesmo conhecedores dos erros cometidos continuam a praticar tais mazelas. Desta forma, sempre depois da exposição dos deveres, segue a desaprovação dos vícios. Não podemos precisar se Antônio se referia a fatos ou a pessoas isoladas, porém, o que podemos constatar é que suas palavras são severas e precisas.
Em muitas oportunidades, Antônio se dirige diretamente aos leitores e ouvintes, tentando persuadi-los, uma vez que esta obra é oferecida aos pregadores. Um bom exemplo está no primeiro Sermão do segundo Domingo da Quaresma, em sua segunda parte do número cinco “Aqui a escada está posta. Então, por que não sobem? Por que continuam?...”.
Com certa freqüência Antônio trata de assuntos relacionados à sociedade civil e à eclesiástica. Na sociedade civil existe uma distinção veemente das diferentes classes de pessoas: estão o imperador, o rei, os militares, os burgueses ou cidadãos; estão os maiores e os menores, os ricos poderosos e os pobres; estão os mercadores, legistas ou decretistas.
Santo Antônio, Ambrose Benson, catedral de Segovia

Na Igreja aparecem os prelados e seus súditos, ou seja, os bispos e seus fiéis; os justos, ou seja, os fiéis praticantes, os hereges e os cismáticos; os falsos cristãos e os simoníacos. Junto aos fiéis se encontram depois os sarracenos e os judeus. Os fiéis eram segundo sua forma de vida: eremitas, monásticos, penitentes; ou: clérigos, religiosos e seculares. Os fiéis, enquanto penitentes, ou seja, seculares e em razão da vida que praticavam eram: contemplativos, pregadores ou de vida ativa.
O franciscano formula juízos sobre estas duas sociedades, a civil e a eclesiástica, porém sempre em relação com os costumes, e seu juízo sobre a situação do seu tempo é de severa condenação: “os costumes são depravados!,”[5] tanto entre os maiores como entre os menores, na sociedade civil, tanto entre os clérigos como entre os laicos, na Igreja; tanto entre os clérigos como entre os religiosos, em suma em toda a sociedade eclesiástica.




[1] ZAVALLONI, Roberto. Op. cit.
[2] MARQUES, Bernardino Fernando da Costa. O Prólogo aos Sermões Dominicais de Santo Antônio de Lisboa. In: AAVV. Congresso Internacional Pensamento e testemunho. Atas.... Braga: UCP/FFP, 1996. P. 477-484
[3] Idem.
[4] MACEDO, Jorge Borges de. Os Sermões de Santo Antônio. Porto: Lello & Irmão, 1983.
[5]  Idem.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O QUE É O INFERNO? O INFERNO EXISTE?



O QUE É O INFERNO? O INFERNO EXISTE?

Para responder a estas perguntas temos que perguntar antes, o que é o pecado?  Quais as suas consequências para aqueles que se deixam dominar por ele? (cf. Jo 8,34; Rm 6,23a). Em verdade, o pecado é a total rejeição ao amor de Deus, ele surge da livre e soberana decisão do ser humano (cf. Tg 1,12-16). Por isso, o seu resultado é a morte e a perdição eterna (cf. Ap 22,8). Mas, para entender isto, façamos a seguinte meditação: Deus tudo criou como expressão de Seu amor. Por isso, tudo nos revela esse seu infinito amor. Desse modo, só pode ser feliz quem ama de verdade, porque o amor é o fundamento que gera a vida e a mantém. Não podemos simplesmente conceituar o amor pondo-o numa redoma de palavras, porque o amor não é um simples conceito ou apenas um sentimento, mais do que isto, o amor é um atributo divino que nos leva à perfeição eterna. Ele é profunda afeição do Espírito Santo em nossas almas, e santifica todo o nosso ser. Em suma, o amor é a essência da vida e da salvação. Nenhum ser humano pode dizer que ama seu semelhante ou as demais criaturas se não ama a Deus acima de todas as coisas, porque Deus é amor e o único autor e Senhor de toda a criação. Logo, não amar a Deus e não amar seus filhos e filhas e suas criaturas; resulta no desligamento Dele, tendo como consequência a autodestruição, porque tudo o que não permanece em Deus, se destrói por si mesmo.

Ora, jamais pensaria ou falaria no inferno se ele não estivesse já presente aqui neste mundo. Pois, muitos o cultivam por seus pecados, por isso, o experimentam por meio de todo tipo de malícia, perversão, violência, dependência química, opressão, depressão e outras doenças psicossomáticas que têm causado tantos danos e a morte de incontáveis pessoas. Com efeito, assim nos alertou São Paulo: “Nota bem o seguinte: nos últimos dias haverá um período difícil. Os homens se tornarão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão a realidade” (2Tm 3,1-5a). E ainda: “São insensatos, desleais, sem coração, sem misericórdia. Apesar de conhecerem o justo decreto de Deus que considera dignos de morte aqueles que fazem tais coisas, não somente as praticam, como também aplaudem os que as cometem”. (Rom 1,31-32).

De fato, analisando atentamente esse nosso mundo, constatamos que existem dois tipos de infernos, o temporal e o escatológico; um resulta no outro, e os dois se entrelaçam. O primeiro se revela pelo sofrimento advindo dos pecados cometidos; o segundo é a extensão eterna do primeiro. Pois o tempo está para eternidade; assim como o corpo está para a alma. Ora, toda causa gera um efeito; se a causa é boa, o efeito também é; se a causa é má, o efeito é igualmente mau. É claro, vivemos no tempo, mas se só existisse o tempo, diríamos que tudo é temporal e se resume somente ao que vivemos no tempo, e com o tempo tudo se acaba. Mas não é isto que experimentamos em nossas almas, visto que elas são atemporais e imateriais. Pois, uma vez ocorrida a morte natural, do corpo só resta o pó para o pó de onde veio; todavia, o que é atemporal e imaterial não se torna pó; mas, porque eterna permanece o que é, como nos ensina o Senhor em Sua Palavra (cf. Gn 1, 26-27; 3,19; Mt 10,28). Assim podemos afirmar: o que vivemos no tempo, para a eternidade é que vivemos, pois tudo o que pensamos, falamos e fazemos ficam gravados em nossas almas (cf. Sb 1); e como um filme, no dia eterno, tudo passará diante de nós e de nosso Criador no juízo pessoal e final (cf. Hb 9,27; Mt 25,31-46).

Com efeito, a evangelização não consiste na pregação sobre o inferno ou sobre a condenação a ele; mas sim no anúncio da salvação realizada por Jesus Cristo, o Filho de Deus (cf. Mt 28,19-20; Rm 8,1-4). É como o Senhor mesmo disse: "Há mais alegria no céu por um só pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento." (Lc 15,7). Todavia, não podemos nos esquivar desse assunto doloroso, mas sim alertar os homens para que não caiam na terrível condição eterna em que são precipitadas as almas condenadas (cf. Jo 3,16-21; Lc 16,19-31). Pois o inferno é uma realidade que infelizmente já se faz presente neste mundo. E todos aqueles que o cultivam por suas maldades já o experimentam interiormente aqui mesmo, porém, não sem a chance de se arrependerem. (cf. 1Cor 6,9-12; Mc 1,15;3,17).

Por fim, deixo este relato de São João, que nos faz exultar de alegria, mas ao mesmo tempo nos faz tremer e temer por causa dos acontecimentos que virão:

Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra desapareceram e o mar já não existia. Eu vi descer do céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, a nova Jerusalém, como uma esposa ornada para o esposo. Ao mesmo tempo, ouvi do trono uma grande voz que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens. Habitará com eles e serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles. Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição. Então o que está assentado no trono disse: Eis que eu renovo todas as coisas. Disse ainda: Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras. Novamente me disse: Está pronto! Eu sou o Alfa e o Ômega, o Começo e o Fim. A quem tem sede eu darei gratuitamente de beber da fonte da água viva. O vencedor herdará tudo isso; e eu serei seu Deus, e ele será meu filhoOs tíbios, os infiéis, os depravados, os homicidas, os impuros, os maléficos, os idólatras e todos os mentirosos terão como quinhão o tanque ardente de fogo e enxofre, a segunda morte”. (Ap 21,1-8).

Eis que venho em breve! Felizes aqueles que põem em prática as palavras da profecia deste livro. Disse ele ainda: Não seles o texto profético deste livro, porque o momento está próximo. O injusto faça ainda injustiças, o impuro pratique impurezas. Mas o justo faça a justiça e o santo santifique-se ainda mais. Eis que venho em breve, e a minha recompensa está comigo, para dar a cada um conforme as suas obras. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Começo e o Fim”. (Ap 22,7.10-13).

Felizes aqueles que lavam as suas vestes para ter direito à árvore da vida e poder entrar na cidade pelas portas. Fora os cães, os envenenadores, os impudicos, os homicidas, os idólatras e todos aqueles que amam e praticam a mentira!” (Ap 22,14-15).

Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos atestar estas coisas a respeito das igrejas. Eu sou a raiz e o descendente de Davi, a estrela radiosa da manhã. Aquele que atesta estas coisas diz: Sim! Eu venho depressa! Amém. Vem, Senhor Jesus! A graça do Senhor Jesus esteja com todos”. (Ap 22,16.20-21).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

É fácil levar Jesus no peito; difícil é ter peito, coragem para seguir Jesus

Entrevista com Pedro Casaldáliga

Há pessoas que atraem mesmo de longe, porque são lampejos de esperança em um mundo mercantilizado e em uma Igreja que tenta sair do inverno. Uma dessas pessoas é Pedro Casaldáliga, profeta envolto em poesia, cujas palavras sobre a sinodalidade, o papel da mulher, a colegialidade, a corresponsabilidade, a alegria, ditas em abril, parecem ter sido ouvidas por Francisco.

 


Em seus olhos penetrantes e coração grande que se exterioriza em braços compridos e mãos expressivas que parecem desprender-se do seu corpo pequeno. O irmão Parkinson mantém-no preso em casa, mas as numerosas visitas e os abundantes correios, sempre respondidos, mantêm o seu coração cheio de nomes e vida.

Saímos ao seu encontro, de Santander, Ernesto Bustio, padre caminhante de múltiplos caminhos e acolhedor de peregrinos, e eu. Em Madri nos uniríamos a José Centeno, padre casado que não cansou de percorrer e abrir sulcos com sementes de compromisso social e eclesial. Também nos esperava no aeroporto, para viajar conosco, Maximino Cerezo (Mino), claretiano assim como Casaldáliga e amigo seu desde os tempos de juventude. O Concílio Vaticano II empurrou-os para a América Latina como missionários claretianos. Um, depois, viria a ser bispo no Mato Grosso, na Prelazia de São Félix, e o outro faria um grande trabalho de conscientização como pintor (é conhecido como o pintor da libertação) enchendo de murais diversas catedrais e Igrejas do Brasil, Nicarágua, Bolívia e outros países latino-americanos. Casaldáliga, impregnado de um Jesus Salvador que ilumina sua pastoral libertadora, e Cerezo, plasmando, em belas pinturas, caminhos de libertação (...).

Dali nos dirigimos à casa onde mora Pedro com a pequena comunidade de agostinianos: Paulinho, José Luis, agostiniano da Bolívia, e Joan, estudante de teologia que está fazendo uma parada no caminho, um tempo de pastoral e cuidando de Casaldáliga. Funde-se em um abraço terno e acolhedor com cada um de nós. Mostra-se com o encanto do ancião cheio de bondade que desfruta dos seus. Nem sequer o Parkinson tirou-lhe a força dos seus braços (...).

Com o barulho de galos ao fundo e o canto dos pássaros começamos a entrevista.
A entrevista é de Avelino Seco e publicada no sítio espanhol Religión Digital, 07-10-2013. A tradução é de André Langer.
Eis a entrevista.

Gostaríamos que nos falasse das Comunidades Eclesiais de Base: o que são e que papel elas têm na renovação da Igreja.

Começam pela base, do povo e são a base da Igreja. Nós dizemos no Brasil que se trata de um novo modo de ser Igreja e eu acrescento: de um novo modo de toda a Igreja ser. O bispo Leonardo [Ulrich Steiner] alarmou-se um pouco. Pedro, me disse ele, isso é uma ilusão. Seria o modo de ser da Igreja: comunitário, fiel, unindo a fé à vida, com a Bíblia nas mãos do povo, com capacidade de diálogo, tendo em conta o ecumenismo; sempre dissemos que isso acontecerá com o diálogo do povo com a cultura. Agora o desafio é a convivência; a convivência é o desafio em todos os campos: na família, na vizinhança, no trabalho, na comunidade eclesial. A convivência é o grande desafio. Os índios Minky dizem que “viver é conviver”. A convivência supõe que nos situemos na Igreja em uma atitude de igualdade; de igual para igual com as outras Igrejas, com as outras religiões, com as outras espiritualidades, com a humanidade. Devemos partir dessa visão macroecumênica, em vez de partir de uma atitude fechada sobre si mesma; partir de uma visão aberta em comunhão com todos os outros movimentos, espiritualidades e religiões. Devemos explicitar a nossa fé não como impondo uma superioridade, mas contribuindo com a história concreta de Jesus de Nazaré.

Na Espanha, as comunidades de base não são majoritárias; são grupos reduzidos com uma consciência especial, com uma consciência crítica, utópica e transformadora; a paróquia é outra coisa. Que papel pode ter a paróquia? Seria o ideal se toda ela fosse comunidade?

Deveria ser toda ela comunidade. Eu digo que não se trata de discutir se são tantas ou tantas; trata-se de que tudo seja comunidade; gosto de falar de comunitariedade, que tudo seja comunitário, desde o Papa, que tudo seja participativo, que, desde a própria situação de cada um, tudo seja contribuição para o conjunto. As paróquias como paróquia não têm futuro. Nestes dias a CNBB está discutindo sobre “Comunidade de Comunidades, uma nova Paróquia”. Está comprovado que a paróquia como tal se transforma em burocracia e não estimula a participação real; entende-se, por outro lado, que seja necessário uma referência jurídica, diríamos canônica. Que sejam grupos pequenos faz parte da condição de semente, fermento, sal. Eu creio que já se superou a fase mais raivosa da relação entre comunidades e bispos; aprendemos a conviver; ainda falta muito, mas já há menos episcopalitis aguda. Se o bispo ou o padre não nos aceita, pois muito bem, não vamos nos perder por isso. A indignação há de ser uma indignação esperançada; do contrário, estamos vomitando bílis por todos os lados e não temos nada de boa notícia. O cristianismo é algo mais, não se trata de viver a vida amargurada, fiscalizada.

Os chamados Novos Movimentos na Igreja chamam-se comunidades. Qual seria a falha fundamental destes novos movimentos na questão de ser comunidade? E outra questão ainda: é possível ser comunidade cristã apolítica?

Não pode haver fé cristã sem encarnação; encarnação é o mistério da entrada de Deus, em cheio, na nossa humanidade por meio de Jesus de Nazaré, e isso supõe que assumamos os desafios do cotidiano. Tudo é política, embora a política não seja tudo. Jesus disse que veio para que todos tivessem vida e a tivessem em abundância. Se não me preocupo com a terra, a saúde, a educação, as comunicações, inclusive com as férias para descansar, não estou me preocupando com a vida humana. A vida no outro mundo é um assunto de Deus, que Ele resolverá muito bem, porque ali haverá vida e vida em abundância para todos. A nós cabe melhorar a vida e universalizar a vida aqui, neste mundo. E se a Igreja, o Papa, os bispos, os sacerdotes, as freiras e todos aqueles que querem ser seguidores de Jesus não fazem política, não impulsionam as consequências sociais, políticas e econômicas que a fé tem, que testemunho de amor dão?

Você antes fazia uma distinção entre comunitariedade e comunidade.

É uma atitude de participação, de corresponsabilidade, que o Papa seja o bispo de Roma, que os bispos participem realmente da colegialidade que agora não existe, corresponsabilidade de todos e todas. Uma atitude comunitária na própria família, no trabalho; um pároco não deveria decidir nada por si só, assim como um pai de família.

Atualmente, todos os conselhos de pastoral, ao menos na Espanha, são apenas consultivos. Há leigos que se aborrecem e dizem: “eu, para dar uma palavra e depois não entrar nas decisões finais, prefiro não entrar no tiroteio”.

E têm toda a razão. Os Sínodos são um fracasso; o próprio cardeal Arns, que foi arcebispo de São Paulo, e que participava dos Sínodos, nos disse em uma assembleia dos bispos do Brasil, que o Sínodo é um fracasso por ser apenas consultivo; os bispos falam e depois a Cúria ajeita tudo ao seu modo e aparece, depois de dois ou três anos, um documento assinado pelo Papa que sequer lemos. Não é participativo e é extemporâneo. Quando, agora, se está pedindo a reforma da cúria muitos insistem neste aspecto: que os sínodos sejam de participação, de colegialidade, de corresponsabilidade.

O problema que temos, aponta José Centeno, é que as comunidades na Espanha são todas de pessoas de idade e não há jovens. Entram poucos jovens, e nos dizem: não sabemos, não lhes damos espaço...?

Trata-se de ser compreensivos com eles, devemos reconhecer que estão vivendo um processo pessoal e de grupo que antes não se imaginava; toda a problemática sexual antes era vivida clandestinamente, agora com a porta escancarada; discute-se hoje a autoridade paterna; o pai e a mãe, os formadores, não podem sentir-se decepcionados; devem estimular a crítica, a indignação, mas dando testemunho e agindo eles, também, em família de uma maneira participativa.

Há grupos de jovens, continua Centeno, eu tenho dois filhos de 36 e 34 anos, que estiveram na JEC, participaram de grupos reivindicativos da universidade, de várias associações, sempre foram muito participativos em grupos de solidariedade, em movimentos feministas, junto com outros jovens em Valladolid, muitos deles sem trabalho. São um grupo muito interessante, mas do ponto de vista religioso e da fé estão afastados; não praticam, mas estão abertos, não têm inconveniente em participar com comunidades de cristãos ou na Justiça e Paz ou dos Círculos de Silêncio. No entanto, veem a Igreja como duas Igrejas: a oficial, com todas as conotações negativas que tem na Espanha, e, por outro lado, as pessoas cristãs, que estão, estamos, colaborando em tudo, adultos e jovens; mas formar uma comunidade cristã com eles é mais complicado.

Que participem de tudo o que seja justiça e paz. Pode-se pedir a eles, também, um pouco de compreensão, porque, às vezes, uma atitude radicalmente negativa pode chegar a ser quase infantil. Não se trata de fazer igrejas paralelas; mas trata-se de poder viver a fé paralelamente com celebrações, com gestos de solidariedade, com atitudes de respeito.

O que é certo nos jovens que se formaram nos grupos cristãos de base é que Jesus continua a atraí-los.

Devemos partir daí; mas têm que vivê-lo em comunidade. É preciso convencê-los de que sem comunidade nenhuma atividade humana funciona. Não se trata de submeter-se à paróquia. Pode-se viver paralelamente e de vez em quando dar uma contribuição e um tempo à comunidade cristã onde vivem ou se sentem próximos. Que não deem excessiva importância ao sacerdote, que tentem viver sua fé comunitariamente entre iguais. A organização eclesial não deve ser um impedimento insuperável para viver a fé em Jesus comunitariamente

Eu estou de acordo com o que você disse. É verdade que simplesmente admirar Jesus, se não se vive comunitariamente, apresenta um déficit muito forte. Mas, como superar a imagem negativa que a Igreja tem?

Está melhor hoje, a Igreja está melhor hoje que ontem. Inclusive entre os bispos conservadores há uma tolerância à juventude. Os que condenam a Teologia da Libertação ficam à margem. Alguns dos candidatos a Papa disseram várias vezes que a Teologia da Libertação morreu. Nunca me deram o atestado de óbito. Não devemos nos amargurar; devemos dar uma contribuição de paz e esperança; uma esperança contra toda esperança, que é a nossa, uma Esperança Pascal, que passa pela cruz, mas é uma esperança invencível. Eu sempre cito aquelas palavras de um soldado espanhol: “Quem disse medo havendo hospitais?” Se fosse mais otimista diria: Quem disse medo havendo Páscoa? Somos o povo da esperança, o povo da Páscoa; a nossa fé cristã é esperança, é confiança. Esperança confiada no Deus da vida, do amor, da liberdade, da paz, em seu Reino.

Partindo do fato de que Deus fala através dos fatos, da história e que os fatos são teimosos, o que nos quer dizer neste momento com a falta de vocações ao sacerdócio, pelo menos na Europa?

Aqui ainda há algumas vocações. É preciso revisar toda a questão dos ministérios, do Papa até o último cristão. O sacerdócio célibe deverá ser uma opção, a mulher deverá ter todo o direito. É dramático e ridículo que se queira argumentar com o Evangelho para impedir à mulher a participação plena. Não foi Jesus quem disse que deviam ser doze homens, há situações culturais que afetam hoje a Igreja. A humanidade foi muito machista e assim continua. Quase todas as culturas são machistas.

Há um teólogo espanhol, não sei se conhece, Martínez Gordo, que diz que um dos males fundamentais da Igreja é a marcada divisão sacerdotes-leigos.

Devemos insistir na Igreja ministerial. Fez-se do ministério a essência da lei cristã quando o ministério é apenas um serviço. O batismo, a inserção na comunidade de Jesus, isso é a Igreja. Tudo o que agora estamos reclamando mudaria e que parece impossível realizar-se; mudaria com relação à mulher, com relação à divisão sacerdote-leigo, com relação à visão da sexualidade, com relação ao diálogo ecumênico. Em parte já está mudando.

Pelo que conhece do novo Papa e da América Latina, acredita que será capaz de romper com a cúria ou de organizar de forma diferente o governo da Igreja?

Não será fácil, não devemos criar a expectativa de que desmonte toda a cúria, mas está introduzindo cunhas; a nomeação do superior geral dos franciscanos para o dicastério da vida religiosa me parece um passo, é um recado que passa; caso se meter em outros cargos fortes da cúria em uma linha assim já vamos ver o que pode acontecer. É necessário fazer a transição de uma época integrista, autoritária, de ter toda a verdade, para uma época de diálogo. Atualmente, para muitos, é fundamental que se equiparem todas as religiões.

É muito importante não apenas o ecumenismo entre cristãos, mas o diálogo com todas as religiões. Mas há um certo medo de diluir-se por parte dos responsáveis hierárquicos.

Essa foi uma angústia de Bento XVI, um medo de que durante o seu mandato a Igreja se diluísse. O diálogo inter-religioso supõe uma certa coragem para superar a atitude de teologar com certa naturalidade dizendo que “fora da Igreja não há salvação”; agora, de repente, nos dizem que há salvação em todas as partes. Eu digo que só a Igreja é Igreja quando salva, quando anuncia a Boa Nova, quando estimula a participação fraterna. O mundo é plural, Deus é maior que todas as religiões. É evidente que devemos saber conjugar uma atitude de diálogo aberto com uma atitude de liberdade na própria identidade; não se trata de ser católicos envergonhados, mas de viver com naturalidade e elegância a própria fé. Só há diálogo com uma atitude adulta contribuindo com sua identidade para a identidade dos outros.

Você continua estando muito a par na teologia; que teólogos espanhóis acompanha, lê mais?
González Faus, Queiruga...
Queiruga é nosso amigo, estudou conosco.

É uma grande figura, um dos melhores teólogos espanhóis. Teve a sorte de ter dois bispos amigos, e por isso não o condenaram abertamente. Creio que eram companheiros de estudos e que o apoiavam; também ele é muito galego e sabe dizer as coisas.

Além disso, é um homem de Deus, o que é muito importante.

Isso é preciso dizer à juventude: que é preciso rezar, que é preciso viver em contemplação. É preciso agradecer àqueles que nos recordaram a importância do Espírito que habita em nós, o Espírito com duas asas, a asa da contemplação e a asa do impulso para a vida.

Houve uma época, os primeiros anos da Teologia da Libertação, eram anos de revolução marxista na América Latina. A Igreja vivia amancebada com o Estado e aqueles que tinham consciência revolucionária renegavam essa Igreja. Agora, por ocasião do novo Papa, saiu por todas as partes a atitude da hierarquia argentina. Quanto custou aos bispos argentinos reconhecer que Angelelli era mártir! Quanto custou reconhecer que foi o Exército que o matou! Houve alguns atos por ocasião do aniversário de Angelelli, na Argentina, e apenas dois bispos participaram.

Voltando a Torres Queiruga e estes poucos teólogos que não são dogmáticos, dialogam com os homens da ciência sem vontade impositiva, com o mundo moderno de mentalidade ilustrada, tentam dar razões da sua fé. Eu, continua José Centeno, depois que me aposentei, fui fazer algumas disciplinas de história na Universidade de Valladolid, sobretudo de história contemporânea, quando preparava o livro sobre padres operários. Eu via ali, no mundo dos professores, que há um descrédito em relação à Igreja, porque quando aparecem os bispos não dão razões, não são racionais, são taxativos. Na universidade não se admite esse tipo de postura.

Eles têm toda razão em não admitir essas posturas.

Quando saiu o livro, o professor me convidou para falar sobre o livro em uma aula. Meu filho trabalha em Comisiones Obreras, uma fundação de ajuda a sindicalistas do Terceiro Mundo, que tem um ateneu cultural; então meu filho me perguntou: “por que não apresentamos o livro no ateneu?” Eu falei para ele que este tema dos padres não interessava muito nesse fórum. Sim, sim, me respondeu. E acolheram muito bem, foi muita gente. Foram muitos de Comisiones, ex-militantes, ex-militantes jocistas. O que eu quero dizer é que há um afastamento apenas em parte. Às vezes, levam à universidade alguns teólogos, há pouco esteve Juan José Tamayo; mas querem pessoas que dêem razões das coisas e que não sejam taxativos. Não suportam isto no mundo da universidade.

Devemos reconhecer abertamente as falhas da Igreja, as suas inconsequências. Não podemos justificar o injustificável; mas trata-se de dizer, também, que há muita Igreja e que é honesta e consequente.

Sim, que sabem ver as coisas positivas. Com frequência, nos últimos anos, os jornalistas fazem uma distinção, falam dos missionários que estão na África e que são os últimos a abandonarem o local quando há sérios problemas. Fazem uma certa distinção, tratam como uma honrosa exceção de alguns, os de baixo.

Eles têm vontade de um diálogo de verdade. No fundo, todo o mundo é capaz de ter uma atitude lúcida. Eu vejo que aceitam que se questione tanto a crença como a descrença. Por isso dizia que estamos hoje melhor que ontem. Devemos evitar o espírito triunfalista, mas devemos evitar, também, o espírito derrotista e voltar a Jesus de Nazaré. O seguimento é a melhor definição da espiritualidade cristã, o seguimento de Jesus com a opção pelos pobres, o diálogo aberto, a solidariedade.

Em tudo o que você nos disse há algo muito claro: não há fé sem política, não há fé isolada, mas comunitária, é importante runir-se para rezar com ou sem padre. Que importância você atribui àquilo que dizia Rahner sobre o cristão do século XXI que será místico ou não será? Que importância dá à oração, a ser contemplativo?

Ganhou-se no mundo em personalismo, entendido na linha de Mounier, e esse personalismo autêntico exige interioridade, contemplação. Pode-se fazer, deve-se fazer comunitariamente, por isso devemos estimular as celebrações em pequenos grupos, devemos estimular certos movimentos. Nos perguntávamos sobre a base da Jornada Mundial da Juventude; é ambígua. Por um lado, pode-se criticar uma vontade triunfalista da Igreja, juntar todos os milhões possíveis para encher o espaço; mas há elementos positivos. O que dificulta é que temos uma Igreja que é Estado e o Papa é chefe de Estado e isso, de saída, já provoca tropeços insuperáveis. A reforma da cúria deveria implicar, como primeiro passo, no desaparecimento automático do Estado do Vaticano e o Papa deveria deixar de ser Chefe de Estado. Isto deveria ser elementar; basta pensar um pouco nas outras religiões. O que significa o fato de que por ser Chefe de Estado se coloque todo o país de pernas para o ar?

Mino Cerezo: eu não lhe pergunto, pois faço as perguntas para mim mesmo. Digo a mim mesmo que, no fundo, o problema não é crer em Jesus, mas crer como Jesus acreditou; parece-me que não entramos por aí. Para crer como Jesus acreditou é importante o tema da oração, porque Jesus acreditava pensando nos outros, rezava pensando nos outros. Subia ao monte sozinho, deixava os apóstolos, passava a noite inteira em oração, mas voltava a estar com as pessoas, a anunciar o Reino de Deus. Ou seja, colocava a oração no horizonte da práxis, e isso me parece que nos está faltando. Os jovens acreditam em Jesus, mas a minha pergunta é para eles e para nós, os velhos. Estamos acreditando como Jesus, não apenas em Jesus?

Pensando nas camisetas, é fácil levar Jesus no peito; o difícil é ter peito, coragem para seguir Jesus.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

COMO DESCREVER O PARAÍSO? EXISTE UM PARAÍSO?



COMO DESCREVER O PARAÍSO? EXISTE UM PARAÍSO?

Caríssimos, compreender as coisas eternas sempre foi um desejo humano, pois por mais perfeito e belo que seja esse nosso habitat natural, ele é transitório como a vida que vivemos por pouco tempo, porque tudo o que há com o tempo se esvai, para onde (?) só a fé em Deus nos responde; isto porque, existe o pecado dos homens que a todo instante tenta estragar esse lindo paraíso terrestre que habitamos. Por toda bondade que há nas coisas que vemos, pelo amor com que amamos, pelo desejo de vida eterna que temos, pela felicidade que cultivamos, e pela paz que tanto queremos, entendemos que, sem dúvida alguma, há um lugar ou estado de perfeição onde todos esses valores eternos permanecerão com os que nele habitam. Não precisamos de nenhum esforço para entender que os dons de Deus, que estão em nossas almas, nos levam a experimentar a felicidade e paz de Sua divina presença; basta vivermos em estado de graça, isto é, na perfeita obediência aos seus mandamentos, para constatarmos isto.

Com efeito, o paraíso que almejamos não é aqui, mas começa aqui com a nossa existência, pois tudo em nós aponta para ele, por isso, será grande a surpresa de nossa humanidade logo que daqui partirmos; nós que estamos acostumados com o limite e a fragilidade de nossa condição, participaremos do ilimitado divino em todos os sentidos. Como seria bom que esse nosso mundo fosse sem maldade, sem injustiça, sem vícios, sem violência, sem discórdias, sem ganância, sem guerras, doenças ou morte. Creio que este seja o sonho de todo ser humano que vive em meio às contradições desta vida. Um mundo onde a verdade e o amor estejam em todos e com todos sempre; onde a bondade, a justiça e paz, não sejam apenas palavras, mas o que significam para a unidade de toda a humanidade. É esse o verdadeiro paraíso que Deus sempre quis em seu desígnio para todos nós.

Como escrevi acima, a fé que Deus pôs em nossas almas, quando nos criou, é um dom especial com o qual podemos comungar perfeitamente com Sua vontade que nos leva a experimentar o paraíso por nossa adesão a esse seu desígnio de amor. De fato, “Deus nos colocou no mundo para conhecê-lo, servi-lo e amá-lo e, assim, chegar ao paraíso. A bem-aventurança nos faz participar da natureza divina (cf. l Pd 1,4) e da vida eterna. Com ela, o homem entra na glória de Cristo e no gozo da vida trinitária”. (CIC 1721). “Este mistério de comunhão bem-aventurada com Deus e com todos os que estão em Cristo supera toda compreensão e toda imaginação. A Escritura fala-nos dele em imagens: vida, luz, paz, festim de casamento, vinho do Reino, casa do Pai, Jerusalém celeste, Paraíso. "O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam" (1Cor 2,9). (CIC 1027).

Mas, como viver desde já as virtudes que nos qualificam para a vida em Deus definitivamente? Jesus no santo evangelho nos ensina: “Bem aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus” (Mt 5,8). Ora, essa “prometida bem-aventurança nos coloca diante de escolhas morais decisivas. Convida-nos a purificar nosso coração de seus maus instintos e a procurar o amor de Deus acima de tudo. Ensina que a verdadeira felicidade não está nas riquezas ou no bem-estar [aparente deste mundo], nem na glória humana ou no poder [temporal], nem em qualquer obra humana, por mais útil que seja, como as ciências, a técnica e as artes, nem em outra criatura qualquer, mas apenas em Deus, fonte de todo bem e de todo amor”. (CIC 1723).

Infelizmente, não é isto que vemos no mundo de hoje; pelo contrário, é como escreveu o Cardeal Newman: “A riqueza é o grande deus atual; a ela prestam homenagem instintiva a multidão e toda a massa dos homens. Medem a felicidade pelo tamanho da fortuna e, segundo a fortuna, medem também a honradez... Tudo isto provém da convicção de que, tendo riqueza, tudo se consegue. A riqueza é, pois, um dos ídolos atuais, da mesma forma que a fama... A fama, o fato de alguém ser conhecido e fazer estardalhaço na sociedade (o que poderíamos chamar de notoriedade da imprensa), chegou a ser considerada um bem em si mesma, um sumo bem, um objeto, também ela, de verdadeira veneração”. “Mas, de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida?” (Mc 8,36).

Por fim, como descrever o verdadeiro paraíso? São Paulo nos deixou um relato comovente sobre este, vejamos: Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado até o terceiro céu. Se foi no corpo, não sei. Se fora do corpo, também não sei; Deus o sabe. E sei que esse homem - se no corpo ou se fora do corpo, não sei; Deus o sabe - foi arrebatado ao paraíso e lá ouviu palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir”. (2Cor 12,2-5). E São João, assim o descreve: “Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra desapareceram e o mar já não existia. Eu vi descer do céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, a nova Jerusalém, como uma esposa ornada para o esposo. Ao mesmo tempo, ouvi do trono uma grande voz que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens. Habitará com eles e serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles. Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição.

Então o que está assentado no trono disse: Eis que eu renovo todas as coisas. Disse ainda: Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeirasNovamente me disse: Está pronto! Eu sou o Alfa e o Ômega, o Começo e o Fim. A quem tem sede eu darei gratuitamente de beber da fonte da água viva. O vencedor herdará tudo isso; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho”. (Ap 21,1-7).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.
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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O bem do mundo e a Igreja


Artigo de
Vito Mancuso

A ação do papa e a nova época para a Igreja que ele prefigura também têm efeitos sobre o mundo laico. Já se falou dos males da Igreja e das reformas de que ela precisa, mas eu acho que seria sábio se perguntar se também não existe algo na mente laica que precise ser reformado.

A análise é do teólogo italiano Vito Mancuso, ex-professor da Università Vita-Salute San Raffaele, de Milão, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 04-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.

Iniciará realmente uma nova época para a Igreja e, portanto, inevitavelmente, também para a sociedade, como prefigurava Scalfari na conclusão da entrevista com o Papa Francisco?

O que surpreende nas respostas do papa é o ponto de vista assumido, um inédito olhar extra moenia ou "fora dos muros", que não pensa o mundo a partir da fortaleza-Igreja, mas, exatamente o contrário, pensa a Igreja a partir do mundo. Nos seus raciocínios, não há traço algum da costumeira perspectiva eclesiástica centrada no bem da Igreja e na defesa a priori da sua doutrina, da sua história, dos seus privilégios e dos seus bens tão frequentemente objeto de cuidado zeloso por parte dos eclesiásticos de todos os tempos (um monumento do pensamento católico como o Dictionnaire de Théologie Catholique dedica nove páginas ao vocábulo "Bem" e 18 ao vocábulo "Bens eclesiásticos"!).

Ao contrário, há um pensamento que tem na mira unicamente o bem do mundo, e, por isso, o papa pode dizer que o problema mais urgente da Igreja é o desemprego dos jovens e a solidão dos idosos. Não as igrejas, os conventos e os seminários semivazios; não o relativismo cultural; não o sentir moral do nosso tempo tão diferente da moral católica; não a ameaça à vida e ao modelo tradicional de família. Não, o desemprego dos jovens e a solidão dos idosos.

Vito Mancuso
O fato de ter assumido o bem do mundo como ponto de vista privilegiado levou o papa às duas seguintes afirmações capitais: 1) a Igreja não está preparada para o primado da dimensão social, ao contrário, há nela uma perspectiva vaticanocêntrica que produz uma nociva dimensão cortesã ("a corte é a lepra do papado"); 2) historicamente, ela nunca foi livre das fusões com a política – e, a esse propósito, a Igreja italiana de Ruini e Bagnasco deveria recitar muitos mea culpa por não ter denunciado a "imoralidade pública e privada de quem governava a Itália durante anos, dos quais, ao contrário, chegou até a contextualizar benignamente as blasfêmias públicas.

Mas a ação do papa e a nova época para a Igreja que ele prefigura pode não ter efeitos também sobre o mundo laico? Já se falou dos males da Igreja e das reformas de que ela precisa, mas eu acho que seria sábio se perguntar se também não existe algo na mente laica que precise ser reformado. É só a Igreja que deve mudar, ou a mudança e a reforma também interessam àqueles que se declaram laicos e não crentes? Naturalmente, que essas insígnias encontram-se os ideais mais variados, da extrema direita à extrema esquerda, e eu aqui me limito a discutir o pensamento laico progressista representado por Scalfari.

À pergunta do papa sobre o objeto do seu crer, Scalfari respondeu dizendo: "Eu acredito no Ser, isto é, no tecido do qual surgem as formas, os Entes", e pouco depois especificou que "o Ser é um tecido de energia, energia caótica, mas indestrutível e em eterna caoticidade", atribuindo a combinações casuais a emergência das formas, incluindo o homem, "o único animal dotado de pensamento, animado por instintos e desejos", mas que contém dentro de si também "uma vocação de caos".

Em suma, Scalfari se professou, como já havia feito nos seus livros, um discípulo de Nietzsche. Mas o que falta nessa visão do mundo? Tratando-se de uma herança daquele que quis ir "para além do bem e do mal", falta, obviamente, a possibilidade de fundar a ética como primado incondicional do bem e da justiça. Para Nietzsche, de fato, o Ser é um "monstro de força, sem princípio, sem fim, uma quantidade de energia fixa, como o bronze", o mundo "é a vontade de poder e nada mais".

Mas se o mundo é isso, segue-se daí que o liberalismo, como vontade de poder que só quer incrementar a si mesma, é a sua consequência mais lógica. Por que, portanto, se deveria lutar em nome da justiça, da solidariedade, da igualdade? Como não dar razão a Nietzsche que considerava esses ideais somente um truque velhaco dos fracos, incapazes de lutar com armas iguais com os fortes? Se o ser é só caos e força, a ação que busca a paz e a justiça está destinada, inevitavelmente, a permanecer sem fundamento.

Há muito tempo tenho pensado que a cultura progressista vive a grande aporia da incapacidade de fundamentar teoricamente a sua própria ideia-mãe, isto é, a justiça. Darwin substituiu Marx, e Nietzsche (atento leitor de Darwin) tornou-se o ponto de referência para muitos. O resultado é Darwin + Nietzsche, ou "o eterno retorno da força", isto é, uma visão obscura e machista do mundo, segundo a qual a força e a luta são a lógica fundamental da vida.

Se chegou o tempo de uma Igreja que dê mais espaço ao feminino, também chegou o tempo de um pensamento laico igualmente capaz de hospedar o feminino, entendendo-se com isso uma visão do mundo e da natureza que faça da harmonia e da relacionalidade o ponto de vista privilegiado.

De Aristóteles a Spinoza a Nietzsche, a substância sempre foi pensada como prioritária com respeito à relação: antes os entes e depois as relações entre eles. Hoje, a ciência nos ensina (esse é o sentido filosófico da descoberta do bóson de Higgs) que o contrário é verdadeiro, que antes há a relação e depois a substância, no sentido de que todos os entes são o resultado de um entrecruzamento de relações e tanto mais consistem quanto mais se alimentam de relações fecundas.

Esse é o pensamento feminino, um pensamento do primado da relação, contra o pensamento masculino baseado no primado da substância, e é escusado dizer que o pensamento feminino não significa necessariamente pensamento das mulheres, porque todo ser humano contém a dimensão feminina, e há mulheres que pensam e agem no masculino (considere-se, por exemplo, Margaret Thatcher, sem falar de algumas políticas italianas), enquanto há homens que pensam e agem no feminino (pense-se, por exemplo, em Gandhi e antes ainda em Buda ou em Jesus).

Eu penso que o nosso tempo realmente precisa de um novo paradigma da mente, de uma ecologia da mente no sentido etimológico de redescoberta do logos que informa o oikos, o termo grego para "casa", do qual vem a raiz "eco" e que se refere à natureza.

Scalfari, no seu credo, insiste no caos e não se equivoca, porque o caos é uma dimensão constitutiva da natureza; não é a única, porém, há também o logos, a cuja ação organizadora se deve a emergência da poeira cósmica primordial dos entes e da sua maravilha, incluindo a mente e o coração do homem.

Os grandes sábios da humanidade sempre entenderam isso, chamando o logos também de dharma, tao, hokmà etc., dependendo da sua tradição. Cito deliberadamente um pensador não cristão, o pagão Plotino: "Mais de uma vez aconteceu de eu me reaver, saindo do sono do corpo, e de me estranhar de tudo, nas profundezas do meu eu; nessas ocasiões, eu gozava da visão de uma beleza tão grande quanto fascinante que me convencia, então como nunca, de fazer parte de um destino mais elevado, realizando uma vida mais nobre: em suma, de ser equiparado ao divino, constituído sobre o mesmo fundamento de um deus" (Enéadas IV, 8, 1).

A união de logos + caos é a dinâmica dentro da qual o mundo se move e evolui. Ela nos faz compreender que a verdade não é uma exatidão, uma fórmula, uma equação, um dogma ou uma doutrina, em suma, algo estático. A verdade é a lógica da vida enquanto estendida à harmonia, portanto é um processo, uma dinâmica, um fluxo, uma energia, um método, uma via. A verdade é o bem enquanto harmonia das relações.
Nesse sentido Jesus dizia: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida", certamente não pretendendo com isso exaltar o seu ego em um supremo narcisismo cósmico, mas prefigurando o seu estilo de vida baseado no amor como aquilo que melhor serve o Ser.

Decorre daí uma visão do mundo na qual a ontologia cede o primado à ética, isto é, na qual o verdadeiro não pode ser alcançado se não passando pelos caminhos do bem, e o amor se torna a suprema forma do pensar. Amor ipse intellectus, ensinava o místico medieval Guilherme de Saint-Thierry.

Os crentes são chamados a se renovar, e eu penso que, com humildade, sob a orientação desse papa extraordinário, muitos estão começando a fazê-lo. Mas os não crentes também são chamados a renovar a sua mente à luz do Ser não só caos, mas também logos, isto é, relacionalidade original em nível físico, que fundamenta o bem em nível ético. Talvez assim o ideal da justiça e da igualdade no centro do pensamento progressista mundial será removido das névoas do bonismo dos indivíduos e radicado em uma visão mais harmoniosa do mundo.

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