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sábado, 4 de outubro de 2014

AS SAGRADAS ESCRITURAS...


AS SAGRADAS ESCRITURAS

As Sagradas Escrituras são a voz e a presença de Deus em meio à sua criação; e tal revelação ou conhecimento se nos veio pela experiência de fé do povo que o Senhor escolheu para revelar ao mundo quem Ele é; revelar as suas leis, naturais e divinas; e como devemos nos relacionar com Ele; quais são seus desígnios a respeito da humanidade; e ainda qual a finalidade da vinda do Seu Filho, Jesus Cristo, a este mundo.

Ora, ao escolher Abraão, patriarca do povo Hebreu, para ser o pai da fé, o Senhor se mostrou misericordioso para com toda humana criatura, representadas por ele e por seus descendentes. Através da experiência da fé de Abraão e dos seus descendentes, conhecemos tudo o que diz respeito à presença dos homens sobre a face da terra: sua origem e de todas as coisas; qual a finalidade da obra da criação; o porquê do desequilíbrio que há nela; quem causou tal desequilíbrio; o porquê da morte; como Deus fez para liberta-nos do pecado, da morte e de todo mal; como viver em comunhão permanente com Ele, o nosso Criador e Pai de nossas almas; qual o destino final deste mundo e de todas as coisas criadas; o que haverá após a nossa morte, isto é, o juízo final. E após este juízo o que de fato acontecerá, ou seja, como será a nova criação. Todas as respostas a estas indagações se encontram nas Sagradas Escrituras, e somente pela fé somos capazes de compreendê-las e vive-las para a nossa salvação.

Com efeito, há no ser humano um profundo desejo inato da permanência na vida, porque ninguém em sã consciência quer a morte pela morte; a não ser pelo fato de ter estragado de tal forma a sua vida, que já não encontra mais sentido para ela. Logo, as indagações que fazemos a partir de nós mesmos e das outras criaturas, requer respostas tão convincentes que possam tranquilizar os nossos corações com certezas e esperanças, que nos façam viver em paz e sermos felizes, mesmo tendo consciência que naturalmente morreremos. Todavia, nenhuma resposta humana para o nosso desejo de vida permanente é suficiente para nos tranquilizar totalmente, ou seja, precisamos da fé em Deus, porque somente em Deus a vida é eterna. Então, como vivermos a fé ou da fé? Vamos às perguntas e respostas para isto.

Por que o homem existe? Porque Deus o criou “à sua imagem e semelhança” (cf. Gn 1,26-27). Ora, somente o entendimento da fé responde a essa pergunta; qualquer resposta racional, desprovida da graça de Deus, não satisfará nosso desejo da verdade, porque fora da graça de Deus não há satisfação permanente.

E por que todas as coisas existem? Por causa do homem, sem ele, a criação não teria nenhum sentido. Ora, Deus criou o homem em estado de graça para governar a terra e tudo o que há nela em perfeita comunhão Consigo (Gn 1,26), por isso, Ele o pôs num paraíso (cf. Gn 2,4b-10). Todavia, existe ainda uma outra finalidade na criação do homem e de todas as coisas, qual seja, Deus criou o homem para participar de sua natureza divina e de sua glória eterna (cf. 1Pd 1,4).

Por que há tanto desequilíbrio na criação? Deus é infinitamente Perfeito, e criou tudo com sua perfeição própria para atingir a plenitude do serviço uns dos outros. Quanto ao homem, Deus o criou com a liberdade de ser e estar no mundo, isto é, com todas as virtudes e capacidades naturais e sobrenaturais, como dádivas de sua graça para governa-se e governar todas as coisas; e deu-lhe ainda o poder de decidir livremente pelo bem para manter sua liberdade ou pelo mal para perdê-la (cf. Dt 30,19-20); e como o homem decidiu pelo mal, de fato, perdeu a liberdade e a comunhão com seu Criador, para viver na escravidão do pecado, que consiste na não vontade de Deus em todos os sentidos da vida. E o resultado da desobediência humana são as tragédias e os desequilíbrios entre si e em toda a criação (cf. Gn 3).

E quem causou este desequilíbrio, foi somente o homem ou teve a participação de algum outro ser? Ora, tudo o que conhecemos da obra de Deus, conhecemos ou naturalmente ou por revelação (cf. Rm 1,19-20; Hb 1,1-4), desse modo, por exemplo, entendemos o tempo como algo que se move para um fim determinado, pois para nós o tempo não para, mas na realidade ele é uma lei natural que move todas as coisas sem ser notado em si mesmo, mas somente no que é movido por causa dos efeitos e do fim de todas as coisas. Outro exemplo é o ar que respiramos, ele é invisível, não o tocamos, não o vemos, mas sem ele não existimos; desse modo, conhecendo que o ar é também uma lei natural, entendemos por ele que Deus criou as coisas visíveis e as invisíveis. Logo, inferimos que a criação divina é tanto natural, revelada em nossa natureza e pelo tempo; quanto metafísica, revelada por Deus, Ele mesmo, e em suas criaturas invisíveis e eternas. Daí, concluímos que a criação natural depende diretamente do invisível que a sustenta, quer físico quer metafísico. Portanto, por graça de Deus, foi-nos dado conhecer que existe um ser invisível (Lúcifer), criado por Deus para o bem, mas que se interpôs entre Deus e sua criação, por consentida desobediência. No entanto este ser e seus séquitos foram banidos para sempre da presença do Altíssimo (cf. Ez 28,11-19; cf Jo 16,11; Ap 12, 7-9). Por isso, recebeu a alcunha de demônio ou satanás, causador do pecado e de todo o mal que existe na face da terra e na criação, isto é, entre os anjos decaídos (cf. Ap 12, 7-9; 20,1-3). Porém, compreenda-se bem isto, ele não é Deus nem como Deus, mas uma criatura infinitamente nada em relação a Deus.

Por que a morte existe? Pelo que conhecemos da revelação divina, a morte tem duas conotações: primeira, ela é punição temporal pelo pecado humano até o julgamento final (cf. Gn 3,19); segunda: após o julgamento final, os julgados culpados, serão condenados à uma é pena eterna, que São João, no Apocalipse, chama de “segunda morte” (cf. Ap 21,18). Porém, antes que tudo isto aconteça, ainda nesse tempo que nos é dado, pode haver o arrependimento e o perdão dos pecados e a consequente reconciliação com Deus, ou seja, tudo pode ser mudado por uma sincera conversão ao Senhor, e isto de todo coração (cf. Jr 29,12-14).

O que Deus fez para livrar-nos do pecado, da morte e de todo o mal? Não obstante a desobediência humana e a punição temporal imposta, o Senhor veio em nosso auxílio, como rezamos na quarta oração eucarística: “Nós proclamamos a vossa grandeza, Pai santo, a sabedoria e o amor com que fizestes todas as coisas: criastes o homem e a mulher à vossa imagem e lhes confiastes todo o universo, para que, servindo a vós, seu Criador, dominassem toda criatura. E quando pela desobediência perderam a vossa amizade, não os abandonastes ao poder da morte, mas a todos socorrestes com bondade, para que, ao procurar-vos, vos pudessem encontrar”.

“E, ainda mais, oferecestes muitas vezes aliança aos homens e às mulheres e os instruístes pelos profetas na esperança da salvação. E de tal modo, Pai santo, amastes o mundo que, chegada a plenitude dos tempos, nos enviastes vosso próprio Filho para ser o nosso Salvador. Verdadeiro homem, concebido do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria, viveu em tudo a condição humana, menos o pecado, anunciou aos pobres a salvação, aos oprimidos a liberdade, aos tristes, a alegria. E para realizar o vosso plano de amor, entregou-se à morte e, ressuscitando dos mortos, venceu a morte e renovou a vida. E, a fim de não mais vivermos para nós, mas para ele, que por nós morreu e ressuscitou, enviou de vós, ó Pai, o Espírito Santo, como primeiro dom aos vossos fiéis para santificar todas as coisas, levando à plenitude a sua obra”. (Missal Romano).

Então, como viver em permanente comunhão com o Senhor de nossa vida? Ora, pelo sacramento do batismo, o ser humano nasce da água e do Espírito Santo na ordem da graça para a vida eterna; nele temos o perdão do pecado original, para vivermos em permanente estado de graça, isto é, em estado de comunhão com Deus, pois a obediência perdida com o pecado original é restabelecida neste sacramento, para que façamos em tudo a sua santa vontade. Também neste sacramento acontece nossa morte e ressurreição com Cristo Jesus, como bem nos ensinou São Paulo: “Fomos, pois, sepultados com ele na sua morte pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova”. (Rm 6,4). Vida nova que consiste em permanecermos nele para darmos os frutos da redenção que dele recebemos (cf. Jo 15,1-8).

Qual o destino deste mundo e de todas as coisas que nele há? Conforme a revelação divina, nas Sagradas Escrituras (cf. Mt 24,1-36; 2Pd 3; Ap 21 e 22), este mundo, desde a primeira vinda de Jesus Cristo, está passando por uma renovação definitiva, que culminará com a sua segunda vinda, vejamos: “Sabei antes de tudo o seguinte: nos últimos tempos virão escarnecedores cheios de zombaria, que viverão segundo as suas próprias concupiscências. Eles dirão: Onde está a promessa de sua vinda? Desde que nossos pais morreram, tudo continua como desde o princípio do mundo. Esquecem-se propositadamente que desde o princípio existiam os céus e igualmente uma terra que a palavra de Deus fizera surgir do seio das águas, no meio da água, e deste modo o mundo de então perecia afogado na água. Mas os céus e a terra que agora existem são guardados pela mesma palavra divina e reservados para o fogo no dia do juízo e da perdição dos ímpios”.

“Mas há uma coisa, caríssimos, de que não vos deveis esquecer: um dia diante do Senhor é como mil anos, e mil anos como, um dia. O Senhor não retarda o cumprimento de sua promessa, como alguns pensam, mas usa da paciência para convosco. Não quer que alguém pereça; ao contrário, quer que todos se arrependam. Entretanto, virá o dia do Senhor como ladrão. Naquele dia os céus passarão com ruído, os elementos abrasados se dissolverão, e será consumida a terra com todas as obras que ela contém. Uma vez que todas estas coisas se hão de desagregar, considerai qual deve ser a santidade de vossa vida e de vossa piedade, enquanto esperais e apressais o dia de Deus, esse dia em que se hão de dissolver os céus inflamados e se hão de fundir os elementos abrasados! Nós, porém, segundo sua promessa, esperamos novos céus e uma nova terra, nos quais habitará a justiça. Portanto, caríssimos, esperando estas coisas, esforçai-vos em ser por ele achados sem mácula e irrepreensíveis na paz. Reconhecei que a longa paciência de nosso Senhor vos é salutar...” (2Pd 3,3-15a).

Naquele dia, “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra a aflição e a angústia apoderar-se-ão das nações pelo bramido do mar e das ondas. Os homens definharão de medo, na expectativa dos males que devem sobrevir a toda a terra. As próprias forças dos céus serão abaladas. Então verão o Filho do Homem vir sobre uma nuvem com grande glória e majestade. Quando começarem a acontecer estas coisas, reanimai-vos e levantai as vossas cabeças; porque se aproxima a vossa libertação”. (Lc 21,25-27).

Como será o juízo pessoal e final? Façamos uma analogia entre os meios de armazenamento da TI (Tecnologia da Informação) atual e as nossas almas; por exemplo, tudo o que fazemos em termos de informações, deixamos gravados em HDs (Discos Rígidos) ou num cartão SD (Cartão de Memória) para acessa-los quando preciso; de igual modo, tudo o que pensamos, desejamos, decidimos e praticamos, ficam gravados em nossas almas para o dia do julgamento pessoal e final; assim, no dia eterno, quando formos julgados, nossa vida passará diante de nós e Deus, como se fosse na tela de nosso computador; e ao presenciarmos nosso modo de ser diante de Deus e da vida que levamos, obteremos o resultado de nossa prática existencial.

A esse respeito, bem nos ensinou São Paulo: “Que os homens nos considerem, pois, como simples operários de Cristo e administradores dos mistérios de Deus. Ora, o que se exige dos administradores é que sejam fiéis. A mim pouco se me dá ser julgado por vós ou por tribunal humano, pois nem eu me julgo a mim mesmo. De nada me acusa a consciência; contudo, nem por isso sou justificado. Meu juiz é o Senhor. Por isso, não julgueis antes do tempo; esperai que venha o Senhor. Ele porá às claras o que se acha escondido nas trevas. Ele manifestará as intenções dos corações. Então cada um receberá de Deus o louvor que merece”. (1Cor 4,1-5). E ainda na Carta aos Hebreus: “Como está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o juízo...” (Hb 9,27). Porém, fiquemos atentos também ao ensinamento de São Tiago: “Falai, pois, de tal modo e de tal modo procedei, como se estivésseis para ser julgados pela lei da liberdade. Haverá juízo sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o julgamento”. (Tg 2,14-15).

Portanto, aproveitemos o presente tempo que nos é dado pelo Senhor, nesse e em todos os momentos de nossa vida, pois o tempo é uma lei divina que nos envolve e nos encaminha para a eternidade, ele não para até que cheguemos ao fim determinado. Que esse tempo dado à todos é tempo de conversão e profunda comunhão de amor com o Senhor, assim nos sentiremos amados, amparados e conduzidos por ele, até chegarmos à felicidade eterna do Seu Reino de justiça e paz.

Como será a Nova Criação? Será conforme o que já nos foi revelado nos escritos do Antigo e do Novo Testamento: “Nós, porém, segundo sua promessa, esperamos novos céus e uma nova terra, nos quais habitará a justiça”. (2Pd 3,13). Com efeito, “Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado até o terceiro céu. Se foi no corpo, não sei. Se fora do corpo, também não sei; Deus o sabe. E sei que esse homem - se no corpo ou se fora do corpo, não sei; Deus o sabe - foi arrebatado ao paraíso e lá ouviu palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir”. (2Cor 12,2-4). Também São João descreve com perfeição de detalhas a nova criação: “Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra desapareceram e o mar já não existia. Eu vi descer do céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, a nova Jerusalém, como uma esposa ornada para o esposo”.

“Ao mesmo tempo, ouvi do trono uma grande voz que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens. Habitará com eles e serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles. Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição. Então o que está assentado no trono disse: Eis que eu renovo todas as coisas. Disse ainda: Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras. Novamente me disse: Está pronto! Eu sou o Alfa e o Ômega, o Começo e o Fim. A quem tem sede eu darei gratuitamente de beber da fonte da água viva. O vencedor herdará tudo isso; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho”. (Ap 21,1-7).

E qual deve ser a nossa atitude diante de tais revelações? Preparar-nos para o grande dia do Senhor, vivendo conforme ele nos ensinou, especialmente no que diz respeito ao julgamento antes do tempo: “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados; dai, e dar-se-vos-á. Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada e transbordante, porque, com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também”. (Lc 6,36-38).

E sabes por quê? São Paulo, responde: “Que os homens nos considerem, pois, como simples operários de Cristo e administradores dos mistérios de Deus. Ora, o que se exige dos administradores é que sejam fiéis. A mim pouco se me dá ser julgado por vós ou por tribunal humano, pois nem eu me julgo a mim mesmo. De nada me acusa a consciência; contudo, nem por isso sou justificado. Meu juiz é o Senhor. Por isso, não julgueis antes do tempo; esperai que venha o Senhor. Ele porá às claras o que se acha escondido nas trevas. Ele manifestará as intenções dos corações. Então cada um receberá de Deus o louvor que merece”. (1Cor 4,1-5).

Por fim, vejamos o que o Senhor disse a São João: “Disse ele ainda: Não seles o texto profético deste livro, porque o momento está próximo. O injusto faça ainda injustiças, o impuro pratique impurezas. Mas o justo faça a justiça e o santo santifique-se ainda mais. Eis que venho em breve, e a minha recompensa está comigo, para dar a cada um conforme as suas obras. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Começo e o Fim. Felizes aqueles que lavam as suas vestes para ter direito à árvore da vida e poder entrar na cidade pelas portas”. (Ap 22,10-12).

Aquele que atesta estas coisas diz: Sim! Eu venho depressa! Amém. Vem, Senhor Jesus! A graça do Senhor Jesus esteja com todos”. (Ap 22,20-21).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria, OFMConv.

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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Os Salmos: a anatomia da alma humana

Os salmos constituem uma  das formas mais altas de oração que a humanidade produziu. Milhões e milhões de pessoas, judeus, cristãos e religiosos de todas as tradições, dia a dia, recitam e cantam salmos, especialmente os religiosos e religiosas e os padres no assim chamado “ofício das horas”diário.

David tocando harpa.
Saltério Egbert. ca. 980d.C.
Não sabemos exatamente quem seus autores, pois eles recolhem as orações que circulavam no  meio do povo. Seguramente muitos são de Davi (século X a.C). É considerado, por excelência, o protótipo do salmista. Foi pastor, guerreiro, profeta, poeta, músico, rei e profundamente religioso. Conquistou o Monte Sion dentro de Jerusalém e lá, ao redor da Arca da Aliança, organizou o culto e introduziu os salmos.

Quando se diz “salmo de Davi” na maioria das vezes significa: “salmo feito no estilo de Davi”. Os salmos surgiram no arco de quase mil anos, nos lugares de culto e recitados pelo povo até serem recopilados na época dos Macabeus no século II.a.C. O saltério é um microcosmo histórico, semelhante a uma catedral da Idade Média, construída durante séculos, por gerações e gerações, por milhares de mãos e incorporando as mudanças de estilo arquitetônico das várias épocas. Assim há salmos que revelam diferentes concepções de Deus, próprias de certa época, como aqueles, estranhas para nós, que expressam o desejo de vingança e o juízo implacável de Deus.

Os salmos testemunham a profunda convicção de que Deus, não obstante habitar numa luz inacessível, está em nosso meio, morando como que numa tenda (shekinah). Podemos chegar a Ele, em súplicas, lamentações, louvores e ações de graças. Ele está sempre pronto para escutar.

O lugar denso de sua presença é o Templo onde se cantam os salmos. Mas como Criador do céu e da terra, está igualmente em todos os lugares, embora nenhum possa contê-lo.

Com razão, se orgulhavam os hebreus dizendo: “ninguém tem um Deus tão próximo como nós”! Próximo de cada um e no meio de seu povo. Os salmos revelam a consciência da proximidade divina e do amparo consolador. Por isso há neles intimidade pessoal sem cair no intimismo individualista. Há oração coletiva sem destituir a experiência pessoal. Uma dimensão reforça a outra, pois cada uma é verdadeira: não há pessoas sem o povo no qual estão inseridas e não há povo sem pessoas livres que o formam.

Ao rezar os salmos, encontramos neles a nossa radiografia espiritual, pessoal e coletiva. Neles identificamos nossos estados de ânimo:  desespero e alegria, medo e confiança, luto e dança, vontade de vingança e  desejo de perdão, interioridade e fascinação pela grandeza do céu estrelado. Bem o expressou o reformador João Calvino (1509-1564) no prefácio de seu grandioso comentário aos salmos:

“Costumo definir este livro como uma anatomia de todas as partes da alma, porque não há sentimento no ser humano que não esteja aí representado como num espelho. Diria que o Espírito Santo colocou ali, ao vivo, todas as dores, todas as tristezas, todos os temores, todas as dúvidas, todas as esperanças, todas as preocupações, todas as perplexidades até as emoções mais confusas que agitam habitualmente o espírito humano”.

Pelo fato de revelarem nossa autobiografia espiritual, os salmos representam a palavra do ser humano a  Deus e, ao mesmo tempo, a palavra de Deus ao ser humano. O saltério serviu sempre como  livro de consolação e fonte secreta de sentido, especialmente quando irrompe na humanidade o desamparo, a perseguição, a injustiça e a ameaça de morte. O filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) deu este insuspeitado testemunho:”Das centenas de livros que li nenhum me trouxe tanta luz e conforto quanto estes poucos versos do salmo 23: O Senhor é meu pastor e nada me falta; ainda que ande por um vale tenebroso, não temo mal nenhum, porque Tu estás comigo”.

Um judeu, por exemplo, cercado de filhos, era empurrado, para as câmaras de gás em Auschwitz. Ele sabia que caminhava para o extermínio. Mesmo assim, ia recitando alto o salmo 23: “O Senhor é meu pastor…Ainda que eu ande pela sombra do  vale da morte, nenhum mal temerei, porque Tu estás comigo”. A morte não rompe a comunhão com Deus. É passagem, mesmo dolorosa, para o grande abraço infinito da paz eterna.

Por fim, os salmos são poesias religiosas e místicas da mais alta expressão. Como toda poesia, recriam a realidade com metáforas e imagens tiradas do imaginário. Este obedece a uma lógica própria, diferente daquela da racionalidade. Pelo imaginário, transfiguramos situações e fatos detectando neles sentidos ocultos e mensagens divinas. Por isso dizemos que não só habitamos prosaicamente o mundo, colhendo o sentido manifesto do desenrolar rotineiro dos acontecimentos. Habitamos também poeticamene o mundo, vendo o outro lado das coisas e um outro mundo dentro do mundo de beleza e de  encantamento.

Os salmos nos ensinam a habitar poeticamente a realidade. Então ela se transmuta num grande sacramento de Deus, cheia de sabedoria, de admoestações e de lições que tornam mais seguro nosso peregrinar rumo à Fonte. Como bem diz o salmista: “quando caminho entre perigos, tu me conservas a vida…e estás  até o fim a meu favor” (Salmo 138, 7-8).

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A Palavra de Deus como ‘acontecimento’ e ‘encontro’

Entrevista especial com Johan Konings

No último dia 30 de setembro, o Papa Bento XVI publicou o documento final da XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus, ocorrido em outubro de 2008, no Vaticano, em Roma. Intitulado Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini sobre a Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja (1), o documento dá continuidade à assembleia sinodal anterior, sobre a Eucaristia, marcando assim “o próprio coração da vida cristã” – Eucaristia e Palavra –, segundo as palavras do pontífice.

Para analisar o documento e sua repercussão na vida da Igreja, a IHU On-Line entrevistou por e-mail o teólogo jesuíta Johan Konings, que participou como perito, em 2008, da Assembleia do Sínodo dos Bispos. Professor titular da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE, em Belo Horizonte, Konings afirma que “a Exortação procura fomentar a dimensão teológico-espiritual da leitura bíblica como mensagem para a vida pessoal e comunitária hoje, sem abrir mão do estudo científico do sentido primeiro, sem o qual o sentido de atualidade não teria base”.

Por isso, explica, o conceito base do documento – a Palavra de Deus – é entendida primordialmente como um “acontecer” e como um “encontro”. Ou seja, introduz-nos no “ato, o ‘evento’ de comunicação de si mesmo que Deus realiza para conosco sua autocomunicação ou revelação”. E tudo isso envolvido pelo sentido do “belo”, pois a Palavra de Deus “não é um comando, lei, receita, constato ou definição. É uma palavra que mais abre do que fecha o sentido – e estas são características da arte”, que “supera os nossos sentidos” e “nos faz ver o Deus que ninguém jamais viu”.

Johan Konings é padre jesuíta nascido na Bélgica, professor titular da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Participou como perito na XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, em Roma, em 2008, com o tema A Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja. Filósofo e filólogo, concluiu o doutorado em Teologia na Universidade Católica de Louvaina, na Bélgica. Entre seus livros publicados, citamos A Palavra se fez livro (Loyola, 2010, 4ª ed.) e Ser cristão – Fé e prática (Vozes, 2003, 5ª ed.). É autor também do artigo Hermenêutica da tradição cristã no limiar do século XXI, publicado pelos Cadernos Teologia Pública, no. 1, do IHU.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor analisa a recente Exortação Apostólica Verbum Domini a partir dos debates e das questões destacadas no Sínodo, em 2008?

Johan Konings – Este documento representa com bastante fidelidade o que foi dito no Sínodo, tanto nos relatórios como nas Proposições aprovadas pela Assembleia. Evidentemente, tudo passou por um amplo processo de redação e de enriquecimento, sobretudo mediante citações de documentos anteriores do Magistério, dos Santos Padres, do próprio Bento XVI. Como todos esses elementos estão identificados nas referências de fonte (nas notas de rodapé), fica fácil reconhecer os acentos próprios que o Papa houve por bem reforçar, como sejam, principalmente: o encontro pessoal com Cristo, a questão do secularismo e a dimensão da fé, ou, mais exatamente, a circularidade dos métodos histórico-crítico e teológico no estudo bíblico. E também a liturgia e a lectio divina (2) .

IHU On-Line – A Exortação também se apresenta como um aprofundamento da Constituição Dei Verbum , do Concílio Vaticano II . Em geral, quais são as ressonâncias ou os distanciamentos entre esses dois documentos?

Johan Konings – Como o foi o Sínodo, a Exortação é uma reflexão a partir da Dei Verbum (3), e também da anterior Encíclica Divino Afflante Spirito (5) de Pio XII ( 6) e do posterior documento da Comissão Bíblica de 1993 . À primeira vista, não aparecem contradições. Talvez os teólogos mais críticos descobrirão, com o tempo, diferenças de acento, mas não parece que algo de essencial esteja em jogo. Poderíamos dizer que Pio XII, o Concílio e a Comissão Bíblica estavam mais preocupados em legitimar o estudo histórico-crítico e literário, enquanto a Exortação, refletindo certamente a preocupação do próprio Papa, procura fomentar a dimensão teológico-espiritual da leitura bíblica como mensagem para a vida pessoal e comunitária hoje, sem abrir mão do estudo científico do sentido primeiro, sem o qual o sentido de atualidade não teria base.

IHU On-Line – O tema central do Sínodo foi a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. Em traços gerais, como a Exortação final interpreta e atualiza o conceito “Palavra de Deus”?

Johan Konings – O que, para o teólogo, mais salta à vista é que este documento fala da Palavra de Deus como um “acontecer” e como um “encontro“. Costumeiramente, ao ouvir o termo “Palavra de Deus”, pensamos quase automaticamente num livro, a Bíblia; e quando se diz “o Verbo de Deus”, pensamos na segunda pessoa da Santíssima Trindade, Deus Filho. Claro, tudo isso está certo, mas o documento quer abrir nosso olhar e nosso modo de pensar para o ato, o “evento” de comunicação de si mesmo que Deus realiza para conosco sua autocomunicação ou revelação. Essa é uma realidade maior do que a Bíblia. A Bíblia faz parte da palavra de Deus e a contém de modo totalmente singular, mas não é pura e simplesmente “a Palavra de Deus”. Por outro lado, o evangelista João diz que Jesus é a Palavra de Deus em pessoa (leia o Evangelho de João, especialmente 1,14 e 1,16-18). E devemos completar isso pelo que diz o início da Carta aos Hebreus (Hb 1,1-2): “Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho...”.

Deus não é um objeto sobre o qual possamos falar como se estivesse disponível à nossa observação e elucubração. “Ninguém jamais viu Deus” (João 1,18; cf. 6,46; 1ª Carta de João 4,12). Mas “o Unigênito, que é Deus e está junto do seio do Pai, este no-lo deu a conhecer” (João 1,18). E esse “dar a conhecer” não é um ensinamento em forma de conceitos, dogmas ou teses, mas uma história que se narra ou se expõe, como diz o texto original de João 1,18 (exegésato, em grego). É a história de Jesus de Nazaré. Ao narrar-se o que aconteceu em Jesus de Nazaré conhecemos a Deus, que ninguém jamais viu. Na hora de concluir sua história na terra, Jesus dirá: “Quem me viu, viu o Pai” (João 14,9), pois naquela hora ele vai dar sua vida por amor até o fim, e assim ele mostra Deus, pois “Deus é amor” (1João 4,8.16).

Esse acontecer, em que Deus se dá a conhecer, só chega a seu pleno efeito se se torna um encontro pessoal com aquele que é sua Palavra, Jesus de Nazaré, e para isso serve como base a narrativa de sua história, enraizada na história de seu povo, respectivamente no Novo e no Antigo Testamento. Mas para que o encontro se realize, não basta ler essas histórias. Precisa do ambiente da Tradição viva que, animada pelo Espírito de Cristo, o torna presente a nós hoje, na proclamação, na memória celebrada e na vivência de sua prática de vida.

Além de ver a Palavra de Deus como evento, como acontecer, o documento acentua também fortemente a unidade da Palavra de Deus, o que pode até ser uma chave de leitura. Pois exatamente a unidade da Palavra em suas diversas manifestações, como a descreve o conceito analógico que a primeira parte sublinha, permite ver a homogeneidade entre o sentido histórico de sua manifestação como registrada nas Escrituras, e o sentido atual hermeneuticamente desdobrado. É sempre a mesma Palavra que fala e nos convoca a dialogar.

IHU On-Line – O documento também dedica um capítulo à parte para refletir sobre “a interpretação da Sagrada Escritura na Igreja” (n. 29). Como o senhor analisa a hermenêutica proposta pela Exortação?

Johan Konings – O texto fica perto dos ensinamentos de Pio XII (Divino afflante Spiritu) e do Concílio Vaticano II (Dei Verbum), completados pelo documento da Pontifícia Comissão Bíblica de 1993. O acento está no caráter eclesial. A oposição Tradição/Escritura parece superada, pois a Escritura é vista como parte da Tradição viva, mais especificamente, como seu momento fundador e referencial. Em torno disso, porém, há muito que esclarecer, sobretudo quanto à referência primordial em Cristo, que num certo sentido faz, do Novo, o “primeiro” Testamento. E também, quanto à relação dialética entre Tradição e Escritura, pois foi a própria Tradição viva que estabeleceu em que consiste o tesouro escriturístico...

O texto vê num mesmo olhar a referência a Cristo e sua comunidade, que, guiada pelo mesmo Espírito que é o do Senhor, encontra na Escritura a Palavra de Deus que inspira a sua vida. Ora, por trás disso está um processo de “abertura do texto”, e nesta abertura a exegese histórico-literária e a hermenêutica, ou interpretação atualizante, devem dar-se as mãos.
O termo “hermenêutica”, no sentido positivo, não é muito comum em documentos do Magistério supremo, mas a realidade que ele aponta não é nova. A exegese tradicional sempre privilegiou o sentido espiritual, e foi só no século XX que a Igreja Católica deu um lugar oficial – e ainda assim controvertido – à exegese histórico-crítica. No futuro, deverá ser aprimorada a articulação entre a exegese histórico-crítica, que investiga o que o autor quis dizer aos destinatários primeiros, e a hermenêutica, que estuda a nova abertura de sentido para cada geração, já desde o momento em que os escritos foram canonizados e interpretados em vista de seu conjunto (leitura canônica) e em vista da fé da Igreja (analogia da fé). Pouco importa que essa “leitura aberta” se chame de “sentido pleno” ou “espiritual” (suscitado pelo Espírito), sempre deverá ser homogênea com o sentido original, histórico, pois senão a analogia fidei perderia seu elo primeiro.

É no contexto dessas questões que se valoriza a preocupação em manter unidos os dois níveis da leitura bíblica, o nível histórico-crítico e o nível teológico (n. 34). Um não pode excluir o outro, nem devem os dois ficar justapostos, o que provocaria um dualismo insustentável (n. 35). Acertadamente, o texto relaciona isso com a problemática, mais ampla, de razão e fé (n. 36). É na perspectiva do sentido ampliado que se considera a unidade do Antigo e do Novo Testamento e a superação da “letra” (nn. 37-41). A crítica ao fundamentalismo cabe bem no quadro do documento (n. 44), pois este, como vimos, valoriza a semântica aberta, o que o fundamentalismo nega. E é valioso o parágrafo sobre a vida cristã, especialmente dos santos, como “hermenêutica viva” da Palavra de Deus (n. 49).

IHU On-Line – Outra questão levantada pela Exortação é a liturgia, já que “na ação litúrgica, a Palavra de Deus […] [se] torna operante no coração dos fiéis” (n. 52). À luz do documento, como se dá essa relação entre Palavra e liturgia? Como podemos repensar essa relação na vida da Igreja, diante dos desafios da contemporaneidade?

Johan Konings – Considerando a Igreja como “casa da Palavra”, pensa-se antes de tudo na liturgia, âmbito privilegiado onde Deus fala hoje ao seu povo que escuta e responde. Cada ação litúrgica é impregnada pela Sagrada Escritura. O próprio Cristo está presente na sua palavra: é Ele que fala quando é lida na Igreja a Sagrada Escritura. A Palavra de Deus permanece viva e eficaz pela ação do Espírito Santo, que sugere a cada um tudo aquilo que, na proclamação da Palavra, é dito para a assembleia inteira. E, enquanto reforça a unidade de todos, o Espírito favorece também a diversidade dos carismas e valoriza a ação multiforme.

Em certo sentido, a hermenêutica da fé relativamente à Sagrada Escritura deve ter sempre como ponto de referência a liturgia, onde a Palavra de Deus é celebrada como palavra atual e viva. Dispondo a leitura da Palavra de Deus em torno do centro que é o Mistério Pascal, o Ano Litúrgico mostra os mistérios fundamentais da nossa fé.

O texto fala muito do caráter performativo da Palavra na liturgia, tanto da Eucaristia como dos outros sacramentos. A palavra não só fala, mas age. Por isso, a liturgia da palavra é um elemento decisivo em todos os sacramentos. Não há separação entre o que Deus diz e faz. Na ação litúrgica, sua Palavra realiza aquilo que diz. O documento aponta dois exemplos: o sinal do Pão no capítulo 6 do Evangelho de João e a história de Emaús, em Lucas 24.

A Palavra de Deus, lida e proclamada na liturgia pela Igreja, conduz ao banquete da graça, a Eucaristia. Palavra e Eucaristia não podem ser compreendidas uma sem a outra: a Palavra de Deus faz-se carne, sacramentalmente, no evento eucarístico. A Eucaristia abre-nos à inteligência da Sagrada Escritura, e esta, por sua vez, ilumina e explica o mistério eucarístico. Sem o reconhecimento da presença real do Senhor na Eucaristia, permanece incompleta a compreensão da Escritura. Em palavras mais simples: na proclamação do Evangelho (emoldurado pelas outras leituras e pelo Salmo Responsorial, que é também Palavra de Deus), Jesus diz em que consiste o Reino, o Projeto do Pai. E na consagração, celebramos a memória de como ele colocou isso na prática, dando sua vida até a morte. Palavra e ação, inseparavelmente unidas. Por isso, a principal celebração cristã tem a Mesa da Palavra e a Mesa do Pão, e pede-se que isso transpareça até na disposição arquitetônica, sendo ambas devidamente acentuadas e visualmente relacionadas entre si.

Tudo isso tem consequências práticas para nossas comunidades: não é normal que – como acontece no Brasil – 70% das celebrações dominicais são celebrações da Palavra sem a consagração eucarística. Isso, por falta de sacerdotes. Será que não há meio de aliviar essa falta? E tem também consequências para o modo de celebrar e de assistir. Se a escuta da Palavra e a memória da Ceia da Aliança e da morte de Jesus constituem uma unidade, será que não deveria haver um pouco mais de compenetração em nossas eucaristias, músicas mais profundas, mais verdadeiramente bíblicas, cristológicas e comunitárias, menos individualismo e vedetismo, menos show? E que dizer das homilias, as quais, exatamente, deveriam mostrar a vinculação entre a palavra proclamada e o mistério celebrado, para fecundar a nossa vida e missão no dia a dia, na comunidade e no mundo?

Sobretudo, a Palavra, unida à memória sacramental do gesto, deve produzir em nós o fruto da caridade, numa forma coerente com nossa contemporaneidade, inclusive, com suas dimensões políticas e sociais e – por estarmos falando a universitários – científicas, mediante o saber responsavelmente assimilado e posto a serviço da humanidade, na qual a Palavra veio morar, e da criação, que por meio dela veio a ser.

IHU On-Line – Como já dizia o tema do Sínodo, a Exortação ressalta que a missão da Igreja é anunciar a palavra de Deus ao mundo. Nesse sentido, como podemos compreender o diálogo da Igreja com um mundo cada vez mais globalizado, multicultural e multirreligioso?

Johan Konings – Os primeiros cristãos consideraram o anúncio missionário como exigência da própria fé, que não pertencia a um âmbito cultural particular, mas ao da verdade, que diz respeito a todos (cf. Paulo no Areópago, At 17,16-34). Como disse o Papa certo dia, o cristão deve dizer a todos: “O Deus desconhecido mostrou-se, em pessoa, e agora está aberto o caminho para Ele. A novidade do anúncio cristão não consiste num pensamento, mas num fato: Ele revelou-se” (n. 93).

O dom do Espírito nos assimila a Cristo, o Enviado do Pai (Jo 20,21). Devemos descobrir a urgência e também a beleza de anunciar a Palavra para a vinda do Reino de Deus pregado por Jesus e que é sua própria pessoa. A luz de Cristo deve iluminar cada âmbito da humanidade, como palavra que desinstala, que chama à conversão e propicia o encontro com Ele, para que floresça uma humanidade nova.

A globalização, característica da nossa época, permite viver em contacto mais estreito com pessoas de culturas e religiões diferentes, oportunidade providencial para promover relações de fraternidade universal e uma mentalidade que veja em Deus o fundamento de todo o bem, a fonte da vida moral e o sustentáculo do sentido de fraternidade. Lembra-se a Aliança estabelecida em Noé com toda a humanidade (Gn 9,13-16). Em muitas das grandes tradições religiosas aparece a ligação íntima entre a relação com Deus e a ética do amor universal.

Daí o respeito por todas as culturas e religiões que colaboram para isso, mas também a justa crítica quando isso não acontece – inclusive no tradicional âmbito cristão. Essa atitude positiva e ao mesmo tempo crítica se exprime, por exemplo, no parágrafo dedicado ao Islão (n. 118). Os muçulmanos reconhecem a existência de um único Deus, e sua tradição contém figuras, símbolos e temas bíblicos. Continue-se, pois, o diálogo sincero e respeitoso, fazendo votos de que se aprofundem o respeito da vida como valor fundamental, os direitos do homem e da mulher e a sua igual dignidade.

Tendo em conta a distinção entre a ordem sociopolítica e a ordem religiosa, as religiões devem dar a sua contribuição para o bem comum. Quanto à cultura propriamente, quero apontar três ideias:
  1. A tradição admira os artistas “enamorados da beleza”, que se deixaram inspirar pelos textos sagrados e ajudaram a tornar de algum modo perceptível no tempo e no espaço as realidades invisíveis e eternas.
  2. Recomenda-se o uso inteligente dos meios de comunicação social, bem como a atenção a seu rápido desenvolvimento e diversos níveis de interação. Há que reconhecer um papel crescente à internet, que constitui um novo fórum para a voz do Evangelho. Mas não pode ficar no virtual; deve chegar ao encontro pessoal. No mundo da internet, deverá sobressair o rosto de Cristo e ouvir-se a sua voz, porque, “se não há espaço para Cristo, não há espaço para o homem”.
  3. Deus comunica-se numa cultura concreta, assumindo os códigos nela inscritos. Por outro lado, a Palavra tem caráter intercultural e deve ser transmitida em culturas diferentes – evangelização das culturas –, transfigurando-as a partir de dentro. Mas a inculturação do Evangelho não deve ser confundida com adaptação superficial ou mistura sincretista; só será um reflexo da encarnação do Verbo, quando uma cultura transformada e regenerada pelo Evangelho deixar crescer em seu próprio seio as “sementes da Palavra” e produzir na sua própria tradição expressões de vida cristã que sejam originais – não simplesmente importadas do Velho Mundo.
 IHU On-Line – Destaca-se, no final, que o tempo atual urge “uma nova escuta da Palavra de Deus e […] uma nova evangelização” (n. 122). Como o senhor analisa esse desafio no contexto atual da Igreja brasileira, “aqui e agora”?

Johan Konings – Continua necessária a missio ad gentes, aos que não conhecem o Evangelho de Cristo. A Igreja deve ir ao encontro de todos, com a força do Espírito, e continuar profeticamente a defender o direito e a liberdade de as pessoas escutarem a Palavra de Deus, procurando os meios mais eficazes para a proclamar, mesmo sob risco de perseguição.
Porém, há também nas regiões consideradas cristãs muitos que foram “batizados, e talvez até catequizados, mas não suficientemente evangelizados”, e que têm necessidade de um novo anúncio da Palavra de Deus. Nações outrora ricas de fé e de vocações vão perdendo a própria identidade, sob a influência de uma cultura secularizada. Daí a exigência de uma nova evangelização. Os “índios” a serem evangelizados encontram-se agora na Avenida Paulista , nos Alphaville ...(8)

Os horizontes imensos e a complexidade da situação presente requerem, hoje, novas modalidades para que a Palavra de Deus seja comunicada eficazmente, sob a guia do Espírito de Cristo.

Ora, antes de mais nada, há a relação intrínseca entre comunicação da Palavra de Deus e testemunho cristão, pois é indispensável dar credibilidade à Palavra pelo testemunho vital. O testemunho comunica a Palavra atestada nas Escrituras, e as Escrituras explicam o testemunho que os cristãos são chamados a dar com a própria vida.

E ainda, nossa responsabilidade não se limita a sugerir valores que compartilhamos; é preciso chegar ao anúncio explícito da Palavra. Não há verdadeira evangelização, se não forem proclamados o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus. A nova evangelização não se contenta, pois, com a divulgação de valores cristãos, ou com um serviço de inspiração cristã à sociedade, como fazem, por exemplo, muitas escolas ou universidades cristãs. Isso tem seu valor. Porém, o que é preciso mesmo é formar novos cristãos, que professem sua fé e pratiquem o que professam.

IHU On-Line – Como convite à leitura, que aspectos centrais o senhor destacaria no documento, para aprofundar o diálogo entre o “Deus que fala” e o homem que responde, hoje?

Johan Konings – A Exortação preocupa-se, em primeiro lugar, em orientar o destinatário da Palavra de Deus e do testemunho eclesial para o encontro pessoal com Cristo. O conhecimento da Bíblia, sem a qual não se pode conhecer Cristo, ocupa nisso um lugar central, desde que seja abordada numa perspectiva que leve Deus à fala, numa lectio divina.

Daí a importância da Cristologia da Palavra (nn. 11-13), ou seja, a exposição sobre a Palavra de Deus em Jesus Cristo como centro da teologia cristã, numa linguagem que ultrapassa o uso de conceitos “feitos e acabados”, mas possa evocar o acontecer da autocomunicação de Deus.

Em conexão com isso, a hermenêutica bíblico-teológica é vista como uma circularidade entre o estudo científico-crítico do verdadeiro fato histórico e a compreensão teológica que, por força de seu objeto, recorre à analogia, ao sentido ampliado ou “pleno” daquilo que é assinalado pelo sentido histórico. Sem desistir da racionalidade científica, tal hermenêutica permite conceber significações que superam a “letra”, sem se desprender dela.

Quanto à prática pastoral, deseja-se que toda a pastoral seja bíblica: se a Bíblia é o registro original e privilegiado da Palavra definitiva que Deus nos dirigiu em Jesus de Nazaré – depois de ter falado na Criação, na história do Povo de Deus e nos Profetas –, ela não pode ser confinada num setor da catequese ou da pastoral, mas deve ser a referência sempre presente de toda a pastoral. E o meio mais eficaz para isso é, certamente, a valorização da Liturgia, que toda ela é habitada pela Palavra, a ponto de se falar numa “presença real” da Palavra de Deus.

Um elemento que me agradou muito é o discreto aceno ao “belo”. A Palavra de Deus é uma palavra de amor, e toda a palavra de amor envolve aquele a quem se destina. Não é um comando, lei, receita, constato ou definição. É uma palavra que mais abre do que fecha o sentido – e estas são características da arte. A Escritura narra o acontecer do amor de Deus junto a seu povo, e somos arrastados pela beleza da narração. Representa os sentimentos do piedoso no encontro com Deus, e procuramos nos identificar com quem assim reza. Narra Deus mesmo na sua manifestação definitiva em Jesus, e contemplamos no silêncio a Palavra que as palavras só podem evocar e invocar, nunca esgotar. Aí está o “Belo”, o que supera os nossos sentidos, o que nos faz ver o Deus que ninguém jamais viu. O próprio Documento, em muitas de suas páginas, brilha pela beleza e sensibilidade de suas expressões. É preciso captar essa dimensão estética para desfrutar toda a sua riqueza.

(Por Moisés Sbardelotto)


Notas:

1. Disponível em http://migre.me/2Z5hu. (Nota da IHU On-Line).

2. A Lectio divina, segundo a Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina, do Concílio Vaticano II, é “a escuta religiosa e piedosa da leitura sagrada da Escritura”. É, assim, uma prática e método de oração, reflexão e contemplação praticado desde tempos antigos, particularmente nos mosteiros. (Nota da IHU On-Line).

3. Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina, Concílio Vaticano II.. Disponível em http://bit.ly/3Z1SG. (Nota da IHU On-Line).

4. Concílio Vaticano II: convocado no dia 11-11-1962 pelo Papa João XXIII. Ocorreram quatro sessões, uma em cada ano. Seu encerramento deu-se a 8-12-1965, pelo Papa Paulo VI. A revisão proposta por este Concílio estava centrada na visão da Igreja como uma congregação de fé, substituindo a concepção hierárquica do Concílio anterior, que declarara a infalibilidade papal. As transformações que introduziu foram no sentido da democratização dos ritos, como a missa rezada em vernáculo, aproximando a Igreja dos fiéis dos diferentes países. Este Concílio encontrou resistência dos setores conservadores da Igreja, defensores da hierarquia e do dogma estrito, e seus frutos foram, aos poucos, esvaziados, retornando a Igreja à estrutura rígida preconizada pelo Concílio Vaticano. O IHU promoveu, de 11 de agosto a 11-11-2005, o Ciclo de Estudos Concílio Vaticano II – marcos, trajetórias e perspectivas.

Confira, também, a edição 157 da IHU On-Line, de 26-09-2005, intitulada Há lugar para a Igreja na sociedade contemporânea? Gaudium et Spes: 40 anos, disponível para download na página eletrônica do IHU, http://migre.me/KtJn. Ainda sobre o tema, a IHU On-Line produziu a edição 297, Karl Rahner e a ruptura do Vaticano II, de 15-6-2009, disponível no link http://migre.me/KtJE. (Nota da IHU On-Line).

5. Carta Encíclica do Papa Pio XII Divino Afflante Spiritu sobre os Estudos Bíblicos, publicada em 1943. Disponível em http://bit.ly/dMzbic. (Nota da IHU On-Line).

6. Papa Pio XII (1876-1958): nascido Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli, foi eleito Papa em 2 de março de 1939. Foi o primeiro Papa romano desde 1724. (Nota da IHU On-Line).

7. Documento A Interpretação da Bíblia na Igreja, disponível em http://bit.ly/3hZDlT. (Nota da IHU On-Line).

8. Alphaville é um bairro nobre das cidades de Barueri e Santana de Parnaíba, pertencentes à Região Metropolitana de São Paulo, Brasil. (Nota da IHU On-Line).

Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=39397 acesso em 20 dez. 2010.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Francisco e o Evangelho

Reflexão para o mês da Bílblia

Setembro, mês da Bíblia, Outubro mês de nosso padroeiro São Francisco. Como essas duas celebrações podem contribuir para que façamos da Palavra de Deus, principalmente do Evangelho, a luz para as decisões e atitudes que devemos tomar nos desafios do nosso dia-a-dia no meio desse nosso mundo conturbado e difícil?

Primeiramente, devemos considerar que, após os Apóstolos, ninguém encarnou de modo tão profundo, admirável e perfeito a Boa Nova do Evangelho como Francisco. Sua aventura evangélica foi tão longe que Pio XI chega a chamá-lo de “Outro Cristo”, “Cristo redivivo”. Vejamos, então, ainda que resumidamente, dois pontos, apenas, de sua espiritualidade bíblica ou evangélica.

Segundo os biógrafos tudo começou quando Francisco teve um Encontro profundamente marcante com o Evangelho, na igrejinha da Porciúncula. Mais precisamente, o Encontro deu-se durante a Missa de São Matias e o Evangelho era aquele através do qual Jesus ordenava os Apóstolos ir pelo mundo sem nada de próprio, carregando sua cruz e saudando a todos, também os inimigos, com a Paz e o Bem.O Encontro fora tão co-movente que chegou a revolucionar toda a sua vida, levando-o a imitar Jesus Cristo, abandonando o mundo e consagrando-se inteiramente à pregação do Evangelho; a partir de então jamais cessou de beber desta fonte de água viva. Não que lesse muitas passagens, mas o que lia ou punha uma vez no espírito ficava indelevelmente gravado no coração (2Cel 102). Isso porque permanecia refletindo com afeto e em contínua devoção aquilo que ouvira ou lera (idem). A esse respeito lemos que certa vez, quando já estava quase cego e não podendo mais ler, o guardião quis destacar-lhe um frade que diariamente lhe fizesse a leitura de alguma passagem da Bíblia. Ouviu então, de Francisco, a seguinte resposta: "É bom ler os testemunhos das Escrituras, procurar nelas Deus nosso Senhor. Mas, eu ainda não terminei de meditar, recordar e conhecer suficientemente o Cristo pobre e crucificado" (Cf. 2Cel 105).

Em segundo lugar, Francisco não apenas não era surdo à Palavra de Deus, mas, também, jamais deixava para depois seu esforço para conformar-se com as luzes, as orientações e a vida que que dela recebia. Assim, por exemplo, na mencionada igrejinha, logo após ter ouvido o Evangelho e compreendido direitinho toda a explicação do sacerdote, entusiasmou-se imediatamente no espírito de Deus exclamando: "É isso que eu quero, isso que procuro, é isso que eu desejo fazer com todas as fibras do coração". E, transbordando de alegria, apressou-se o santo pai a concretizar o salutar conselho, e sem demora pôs devotamente em prática o que ouvira (LTC 8).

A todos, uma boa Lectio divina e Boas Festas de São Francisco!

[Autor: Frei Dorvalino Fassini, OFM]
Extraído de http://ofsporciuncula.blogspot.com/2010/08/francisco-e-o-evangelho.html acesso em 22 ago. 2010.
Ilustração: Aachen Gospels. Séc. IX. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Karolingischer_Buchmaler_um_820_001.jpg acesso em 21 ago. 2010.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Fraternidade Nossa Senhora Aparecida Realiza primeira Lectio Divina de 2010



A fraternidade franciscana secular da Paróquia Nossa Senhora Aparecida -  Nilópolis/RJ, realizou a Primeira Leitura Orante da Bíblia. A fraternidade visitará mensalmente duas casas levando a reflexão da Palavra de Deus e as imagens de São Francisco e Santa Clara. Em um primeiro momento serão visitados os irmãos que encontram-se no Serviço de Enfermos e Idosos (SEI).
Essa ideia foi apresentada ao ministro da fraternidade pelo Ministro Regional Hélio Gouvêa, que colocou a importância desse tipo de trabalho para o despertar de novas vocações para a OFS. Logo após, tomar conhecimento dessa conversa o conselho local decidiu adotar tal ideia.
O primeiro encontro foi na casa do irmão Joaquim e da irmã Cecília, casal muito dedicado a causa franciscana. O querido irmão foi acometido e um acidente vascular cerebral em janeiro e está afastado das atividades da fraternidade desde então.
Convidamos a todos os irmãos para orarem pelo próximo encontro com Francisco e Clara no dia 30/04 na Casa da irmã Tamara Barreto que também encontra-se adoentada. Quem estiver no Rio de Janeiro e quiser participar deste encontro, basta mandar um e-mail para mim joaolellis@gmail.com

visitem nosso novo blog: http://familiafranciscanainsanil.blogspot.com

A todos Paz e bem!!!

terça-feira, 28 de julho de 2009

O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse?


Por Pedro Paulo A. Funari


EHRMAN, Bart D. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Rio de Janeiro, Prestígio,
2008.

Bart D. Ehrman é catedrático do departamento de estudos religiosos da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Estudioso com formação no campo teológico, embora ainda jovem, destaca-se por sua erudição, por um lado, e pelo esforço de divulgação científica, de outro. Publicou obras que logo se tornaram best-sellers, como A verdade e a ficção em o Código da Vinci (Rio de Janeiro, Record, 2005), assim como uma série de contribuições sólidas sobre Jesus (Jesus: apocalyptic prophet of the new millenium, Oxford, Oxford University Press, 2001), sobre o cristianismo inicial e sobre os padres da Igreja (The Apostolic Fathers, vol. 1 e 2, Harvard, Loeb, 2003).

O livro inicia-se com uma introdução, de caráter pessoal, sobre o interesse do autor na busca do texto bíblico original. Relembra como aprendeu o grego e o hebraico e descobriu que a Bíblia não era infalível e continha erros. Isto o levou a uma revisão radical da sua interpretação bíblica e a perceber que havia autores e pontos de vista diversos. A partir desta honesta apresentação da suas motivações, Ehrman parte para as origens dos textos sagrados cristãos e estabelece que tanto judaísmo como cristianismo são religiões fundadas no livro, ainda que as pessoas fossem, em sua imensa maioria, analfabetas. Começa pelos documentos mais antigos do Novo Testamento, as cartas de Paulo, a partir da Primeira Carta aos Tessalonicenses, epístola divulgada por volta de 49 d.C., pouco mais de vinte anos após a morte de Jesus. Lembra que as cartas eram ditadas a escribas e apenas assinadas pelo autor. Recebidas no destino, eram lidas em voz alta para a comunidade de iletrados. Após um exame do conjunto de textos cristãos iniciais, o autor conclui que os livros canônicos do Novo Testamento só foram consolidados e tratados como escrituras sagradas centenas de anos após terem sido escritos.

Dentre os cristãos iniciais, a maioria de analfabetos era complementada por uma nata de pessoas com algum estudo formal e a experiência comum dos fieis consistia em ouvir a leitura, de modo que, de forma paradoxal, uma fé baseada no texto era compartilhada por analfabetos. Isto o conduz aos copistas dos primeiros tempos do cristianismo. Como não havia meios de difusão de massa, como a imprensa, toda distribuição de escritos dependia da cópia à mão. A prática grega da scriptio continua, com a escrita das palavras sem pontuação e sem separação, dificultava muito a leitura, à diferença, devo dizer, da contemporânea cursiva latina, atenta à separação dos vocábulos, mas que não foi usada pelos primeiros cristãos. Neste contexto, abundavam os erros de transcrição. Mais importantes são os acréscimos dos escribas, como no caso de João 8,1-11, sobre a mulher adúltera e o desafio de Jesus: que a lapidasse quem não tivesse pecado. Não fazia parte do manuscrito original, mas podia ser uma nota de escriba que retomava uma tradição oral. Passou a fazer parte do cânone e tornou-se uma das passagens mais citadas, por sua beleza e generosidade.

Ehrman dedica-se, em seguida, às versões do Novo Testamento. O imperador Constantino, em 331 d.C, mandou fazer cinqüenta exemplares, encomenda conferida ao bispo de Cesaréia, Eusébio. No final do século IV, o papa Damaso pediu a Jerônimo que fizesse uma versão oficial para o idioma ocidental, o latim, no que viria a ser a Vulgata, muito mais copiada do que o Novo Testamento grego. Após a invenção da imprensa, as primeiras versões gregas tardaram a serem publicadas. A mais antiga data de 1522, a Poliglota Complutense, em Madri. Inventou-se, logo em seguida, a expressão textus receptus, a forma do texto grego, supostamente baseada nos melhores e mais antigos manuscritos. John Mill, docente em Oxford, publicou em 1707 a primeira versão com aparato crítico, que buscava registrar as diferenças nos manuscritos, em número de trinta mil. Hoje, com muitos mais manuscritos, muitas mais variações foram anotadas e as modificações podem ser atribuídas a fatores casuais ou intencionais.

A busca dos textos originais merece atenção especial, pois o caráter sagrado do Novo Testamento colocou questões teológicas importantes, a esse respeito. Alguns princípios são estabelecidos, como aquele, bem conhecido da Paleografia, que pressupõe que a leitura mais difícil deve ser sempre preferida. A identidade de leitura implica a identidade de origem e, portanto, é possível definir grupos familiares de manuscritos, com base na concordância textual entre os que chegaram até nós. Os métodos modernos de crítica textual partem de análises externa e interna. Um estudo de caso refere-se à apresentação de Jesus irritado (orgistheis) ou movido pela compaixão (splagnistheis) (Marcos, 1, 41) e Ehrman conclui que, como indica o princípio geral, a leitura mais difícil deve ser preferida e deve supor-se que o original “irritado” foi alterado, em algum momento, para “com compaixão”. Os argumentos são vários, a começar pelas referências várias, em Marcos, à ira de Jesus (Marcos 3,5; 10,14). Já Lucas constrói um Jesus imperturbável, omitindo as referências ou mesmo invertendo as informações de Marcos. Neste, Jesus, na cruz, grita, em aramaico, “meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”, enquanto Lucas (23,34) conclui com “Pai, perdoe-os, pois não sabem o que fazem”.

Outros diversos casos são apresentados e discutidos, em sua maioria por cristãos ortodoxos que procuravam eliminar possíveis leituras heréticas, femininas, hebraicas ou pagãs. O capítulo seguinte, sobre o contexto social, trata de alguns temas candentes para as discussões teológicas atuais, a começar pelo papel das mulheres na Igreja inicial. Mulheres, pobres, doentes e marginalizados constituíam a maioria dos seguidores de Jesus. Em algumas igrejas, as mulheres tinham papel de destaque e as cartas originais de Paulo de Tarso reconhecem essa proeminência. Em seguida, surgiram alterações nos textos, de modo a restringir essa autonomia feminina, como no caso de Júnia (Romanos, 16), nomeada como uma entre os apóstolos. Alguns manuscritos alteraram o texto, a fim de evitar a inclusão de uma mulher entre os apóstolos. O caráter judaico de Jesus também foi atenuado ou excluído, de modo que ele parecesse nada compartilhar com aquele grupo étnico e religioso. Na conclusão, o autor volta a enfatizar a diversidade de pontos de vista no cristianismo inicial e a resultante variedade de interpretações da vida de Jesus e dos seus primeiros seguidores.

O livro de Ehrman constitui uma contribuição original para todos os que se interessam pelo cristianismo antigo e, em especial, para aqueles que se voltam para a leitura do Novo Testamento. Em primeiro lugar, permite observar como havia uma grande diversidade entre os seguidores de Jesus e a ortodoxia tardaria a impor uma única leitura. Em seguida, fica claro o papel da institucionalização da religião cristã ortodoxa, como parte do Imperium Romanun Christianum, na composição de um cânon. No que se refere à crítica textual, não menos importância reveste-se a análise das diversas opções de leitura, ao apresentar uma vida de Jesus muito diversa, de um autor a outro. Jesus ficava irado? Diante da morte, ficava transtornado? Deixou que uma adúltera fosse liberada? A doutrina da Trindade estava no Novo Testamento? Jesus foi chamado de Deus único? Sabia do fim do mundo? As perguntas acumulam-se, diante da diversidade de interpretações, a partir das diferentes lições dos manuscritos. No final, a grande mensagem do volume consiste em advertir para uma leitura crítica e aberta do texto bíblico, obra humana.


sexta-feira, 17 de julho de 2009

OS MANDAMENTOS DA LEI DE DEUS - QUARTO MANDAMENTO

OS MANDAMENTOS DA LEI DE DEUS. – TERCEIRO MANDAMENTO.

“Lembra-te de guardar o dia do sábado para santificá-lo” (Ex 20,8).

O dia é uma seqüência de horas, minutos, segundos, frações de segundos, etc. Mas não é só isso, ele é feito de acontecimentos, momentos que fazem da história da vida de cada pessoa humana, um desenrolar progressivo do sentido do existir. A cada instante estamos pensando, agindo, formulando projetos para que, postos em prática, estes transformem em plenitude aquilo que desejamos e o que intuímos que seja bom.

Diz a sagrada Escritura que: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado”; e para dizer tudo, o “Filho do Homem é Senhor, também do sábado” (Mc 2,27-28). Ora, aqui não se trata de observar o som de palavras específicas como querem alguns, a ponto de considerarem condenados aqueles que não seguem literalmente o som de tal ou qual palavra.

O dia do Senhor é o dia do Senhor. Aparentemente eu não disse coisa com coisa ou nenhuma novidade, porém, estou dizendo uma grande novidade: o dia do Senhor é o dia da Nova Criação que começa com a Ressurreição de Jesus no primeiro dia da semana, isto é, Deus Pai em seu Filho amado recriou o que fizera e continua a renovação da humanidade até a consumação dos tempos.

Notemos que na Nova Criação, Deus não “descansa” como na antiga, mas Ele continua o seu trabalho até que atinjamos a estatura perfeita de Cristo. É como diz São Paulo em uma de suas cartas: “Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos ás coisas lá de cima, e não às da terra porque, estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então também vós aparecereis com ele na glória.

Mortificai, pois os vossos membros no que tem de terreno: a devassidão, as impurezas, as paixões, os maus desejos, a cobiça que é uma idolatria. Dessas coisas provém a ira de Deus sobre os descrentes.

Outrora também vós assim vivíeis mergulhados como estáveis nesses vícios. Agora, porém, deixai de lado todas estas coisas: ira, animosidade, maledicência, maldade, palavras torpes da vossa boca, nem vos, enganeis uns aos outros. Vós vos despistes do homem velho com os seus vícios, e vos revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixas contra outrem. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós. Mas acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição.

Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único corpo. E sede agradecidos. A Palavra de Cristo permaneça entre vós em toda a sua riqueza, de sorte que com toda a sabedoria vós possais instruir e exortar mutuamente. Sob a inspiração da graça cantai a Deus de todo coração salmos, hinos e cânticos espirituais. Tudo quanto fizerdes, por palavras ou obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus dando por ele graças a Deus Pai.” (Col 3,1-10.12-17)

Caríssimos irmãos e irmãs, “ninguém, pois, vos critique por causa de comida ou bebida, ou espécies de festas ou de luas novas, ou sábados. Tudo isto não é mais que sombra do que deveria vir. A realidade é Cristo.” (Col 2,16-17). E o dia do Senhor é o da Nova Criação, é o “Dies Dominica”, o Domingo: “porque é o primeiro dia, o dia em que Deus, extraindo a matéria das trevas, criou o mundo e, nesse mesmo dia, Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dentre os mortos.” (S. Justino, apol. 1,67).

Cuidado, o dia do Senhor, não é dia da praia, das festas, da televisão, mas é dia de encontro com Deus que nos santifica em Cristo Jesus nosso Senhor!

“A todos que seguirem esta regra, a paz e a misericórdia, assim como ao Israel de Deus. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com vosso espírito, irmãos”. Amém. (Gal 6,16.18).

Paz e Bem!

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quinta-feira, 4 de junho de 2009

OS MANDAMENTOS DA LEI DE DEUS - SEGUNDO MANDAMENTO





















OS MANDAMENTOS DA LEI DE DEUS – SEGUNDO MANDAMENTO.

“Não pronunciarás em vão o nome do Senhor teu Deus” (Ex 20,7).

“Senhor, nosso Deus, quão poderoso é o teu nome, em toda terra.” (Sl 8,11) De fato, quando olhamos o universo e toda a criação, vemos como o nome do Senhor Deus é grandioso. O nome diz respeito à identidade da pessoa, isto é, identifica a pessoa, seu poder, sua influência, e tudo o que diz respeito ao que é.

Ora, Deus é Santo e como diz São João: “Deus é amor” (1 Jo 4,4-16), por isso devemos ter o cuidado de não falar nem usar seu Santo Nome em vão, pois estaríamos incorrendo em prática de injustiça e blasfêmia. Aliás, precisamos ficar atentos ao que falamos, pois a palavra tem um peso muito grande para a nossa salvação; com efeito, o Senhor Jesus diz no Evangelho de São Mateus: “... a boca fala do que lhe transborda do coração.”

“O homem de bem tira boas coisas do seu bom tesouro. O mau, porém, tira coisas más do seu mau tesouro. No dia do juízo, os homens prestarão contas de toda palavra vã (inútil), que tiverem proferido. É por tuas palavras que serás justificado ou condenado”. (Mt 12,34b.35-37). Portanto, o segundo mandamento proíbe todo uso impróprio do nome de Deus, e a blasfêmia consiste em usar o nome de Deus, de Jesus Cristo, da Virgem Maria, e dos santos de uma maneira injuriosa.

Podemos agora enfocar alguns pecados contra o segundo mandamento. Por exemplo: o juramento falso, quando se invoca o nome de Deus como testemunha de uma mentira; o perjúrio é uma falta grave contra o Senhor, pois consiste em se fazer uma promessa sem intenção de mantê-la ou prometer algo sob juramento e não cumprir. O Senhor Jesus nos chama a atenção para os juramentos.

Assim se expressa Ele: “... Não jureis de modo algum; nem pelo céu, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei. Nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes fazer um cabelo tornar-se branco ou negro. Dizei somente “Sim”, se é sim; “Não”, se é não. Tudo o que passa, além disto, vem do maligno.” (Mt 5,34-37).

A respeito do nome recebido no batismo, devemos santificar o nome de Deus com ele, pois é nossa identidade, porque pelo batismo já fazemos parte da vida eterna; afinal, Deus chama a cada um de nós pelo nome: “E agora, eis o que diz o Senhor, aquele que te criou, ... e te formou...: Nada temas pois eu te resgato, eu te chamo pelo nome, és meu. Se tiveres de atravessar a água estarei contigo. E os rios não te submergirão; se caminhares pelo fogo, não te queimarás e a chama não te consumirá. Pois eu sou o Senhor, teu Deus, o Santo de Israel, teu salvador. Dou o Egito por teu resgate, a Etiópia e Sabá em compensação. Porque és precioso a meus olhos, porque eu te aprecio e te amo, permuto reinos por ti, entrego nações em troca de ti. Estejas tranqüilo, pois estou contigo. (Is 43,1-5a).

Queridos irmãos e irmãs, fiquemos firmes na vivência da nossa fé católica, santificando o nome de Deus em nossa vida, pois do Senhor recebemos grandes promessas – Ele é Fiel e Justo e as cumprirá – como está escrito no Apocalipse: “Farei do vencedor uma coluna no templo de meu Deus, de onde jamais sairá, e escreverei sobre ele o nome de meu Deus, e o nome da cidade de meu Deus, a nova Jerusalém, que desce dos céus, enviada por meu Deus, assim como o meu nome novo.” (Ap 3,12).

Vinde, Senhor Jesus! Aleluia.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

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sábado, 30 de maio de 2009

OS MANDAMENTOS DA LEI DE DEUS - PRIMEIRO MANDAMENTO



















OS MANDAMENTOS DA LEI DE DEUS - PRIMEIRO MANDAMENTO.

“O primeiro de todos os mandamentos é este: “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças.” (Deut. 6,4-5).

A criatura humana é uma expressão do amor de Deus; Deus criou o homem e a mulher por amor e para o amor. Não amar é o pior castigo no qual a pessoa humana pode incorrer e assim perder todo o sentido de sua existência; e o amar tem que começar pelo próprio amor que é Deus: ou amamos o Amor acima de tudo ou não temos amor para amar. E em que consiste esse amor a Deus? A essa pergunta São João responde: “Eis o amor a Deus: que guardemos seus mandamentos. E seus mandamentos não são penosos, porque todo o que nasce de Deus (pelo batismo) vence o mundo. E esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.” (1Jo 5,3-5).

Ora, o amor requer fidelidade que está ligada à fé, isto é, acreditar no outro e nunca trair sua confiança. Há a fé-dom: aquela que libera o poder de Deus. E há a fé-doação, confiança, entrega. Ser fiel a Deus é depositar a confiança somente em seu amor, pois Deus é também fiel acima de qualquer suspeita. E é neste intercâmbio que acontece o regozijo da alma, isto é, a fidelidade do humano que ama o Eterno e se deixa amar por Ele.

Cumprir o primeiro mandamento quer dizer: nunca se afastar de Deus, nunca se deixar seduzir pelas falsas crenças do tipo reencarnacionistas, milagreiras com fins lucrativos; baseadas em dias da semana, por exemplo, sabatistas, adventista do 7º dia e outros; baseadas em linhagens genealógicas e outras tantas filosofias orientais que poluem o nosso mundo dividido.

Também deixam de cumprir este mandamento aqueles que se dão à superstição, que é o desvio do sentimento religioso; à idolatria, que é divinização daquilo que não é Deus. “Existe idolatria quando o homem presta honra e veneração a uma criatura em lugar de Deus, quer se trate de deuses ou demônios (por exemplo, o satanismo), do poder, do prazer, da raça, dos antepassados, do Estado, do dinheiro, etc.”

Nós católicos, somos freqüentemente acusados de idólatras por causa dos santos e de Nossa Senhora; para nós, porém, os santos não são Deus, mas são de Deus, pertencem a Deus e nos conduzem, por seus exemplos de vida e por sua intercessão, à comunhão com Deus, ao senhorio do único Deus e Pai de nossa existência.
Deixam de cumprir o primeiro mandamento também aqueles que se dão á adivinhação e magia; à irreligião, que são aqueles que tentam a Deus pondo-O à prova, ou profanam os lugares santos e as coisas santas (como a Palavra de Deus, as igrejas, os vasos sagrados, a Eucaristia, etc.): compram ou vendem as realidades espirituais; aqueles que se dão ao ateísmo, ao agnosticismo, etc.

Outra fonte importante na vivência do primeiro mandamento é o mandamento do amor ao próximo. A este respeito assim escreveu São João:
“Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter enviado ao mundo o seu Filho único, para que vivamos por ele. Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos ele amado, e enviado o seu Filho para expiar os nossos pecados.

Caríssimos, se Deus assim nos amou, também nós nos devemos amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amarmos mutuamente, Deus permanece em nós e o seu amor em nós é perfeito. Nisto é que conhecemos que estamos nele e ele em nós por ele nos ter dado o seu Espírito.Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco; Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele.” ( 1 Jo 4,7-13.16).

Caríssimos irmãos e irmãs, o fundamento da vida é o amor, e só temos segurança, de fato, em nossa existência quando nos fundamentamos no Amor de Deus, pois aquele que ama não é atingido por mal algum, pelo contrário, vive o bem eterno de amar a Deus e ser amado por Ele.

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.

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quinta-feira, 21 de maio de 2009

OS MANDAMENTOS DA LEI DE DEUS - INTRODUÇÃO



















OS MANDAMENTOS DA LEI DE DEUS.

Introdução.

“Eu sou o Senhor teu Deus, que te fiz sair da terra do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses além de mim.” ( Dt 5,6s)

A ordem existe para que não haja a desordem. Ora, Deus , Criador de todas as coisas, em sua infinita sabedoria, nos comunicou o desejo de perfeição para que tivéssemos em nós as leis naturais capazes de nos conduzir ao seu infinito amor, para que as criaturas humanas, criadas à sua imagem e semelhança, buscassem assim de todo o coração, as riquezas de sua santidade para viver em harmonia umas com as outras até a plenitude da comunhão de toda a vida.

Com o advento do pecado, a criação toda entrou em desarmonia e, por conseqüência, na desordem de toda natureza. Daí, porque precisou Deus ordenar tudo novamente com sua lei para que “onde abundou o pecado”, superabundasse a graça e os homens, com seu perdão, voltassem à paz e à comunhão com seu Criador e com as demais criaturas.

No evangelho de São Mateus aparece a figura de um jovem rico que faz a seguinte pergunta a Jesus: “Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna?”. Ao que Jesus responde: “Se queres entrar pra a Vida guarda os mandamentos.” E cita para seu interlocutor os preceitos que se referem ao amor ao próximo: “Não matarás, não adulterarás, não roubarás, não levantarás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe”. E depois acrescenta, como que resumindo estes mandamentos: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Mt 19,16-19), ou seja, é preciso voltarmos ao primeiro amor se quisermos viver a harmonia do início da criação, e isto só se dá mediante a obediência às leis de Deus.

Com relação ainda aos mandamentos da Lei de Deus, vejamos o que Moisés nos fala no Livro do Deuteronômio: “Eis que vos ensinei leis e decretos que o Senhor meu Deus me ordenou para que os pratiqueis ... Vós os guardareis, pois, e os poreis em prática, porque neles está vossa sabedoria e inteligência perante os povos, para que, ouvindo todas estas leis, digam: “Na verdade, é sábia e inteligente esta grande nação!” Pois, qual é a grande nação cujos deuses lhe são tão próximos como o Senhor nosso Deus, sempre que o invocamos? E que nação haverá tão grande que tenha leis e decretos tão justos, como esta lei que hoje vos ponho diante dos olhos?” (Dt 4, 5-7).
Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.

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terça-feira, 5 de maio de 2009

Evangelhos Sinóticos

     [...]

O problema sinótico coloca-se, portanto, para o período que se estende entre a composição dos primeiros evangelhos por Mateus, Marcos e Lucas, e a forma em que agora os conhecemos, a qual, para o essencial, poderia remontar ao primeiro início do séc. II. Como explicar ao mesmo tempo as semelhanças e as divergências que existem entre os três evangelhos sinóticos tais como hoje os conhecemos? Este problema suscitou muitas controvérsias há dois séculos, e aqui não é o caso de entrar em minúcias demasiadamente técnicas. Indiquemos simplesmente as tendências. Indiquemos simplesmente as tendências gerais da exegese moderna. A teoria mais satisfatória é a das Duas Fontes. Elaborada pela metade do século XIX, ela é aceita hoje com mais ou menos convicção pela grande maioria dos exegetas, tanto católicos como protestantes. Uma das duas fontes em questão seria Mc (tradição tríplice). Porém MT e Lc oferecem também numerosas seções, especialmente palavras de cristo (como o sermão inaugural de Jesus), desconhecidas de Mc (dupla tradição). Como, segundo a teoria das Duas Fontes, estes dois evangelhos são independentes um do outro, seria necessário admitir que eles tenham bebido em outra fonte que se costuma chamar Q (inicial do termo alemão Quelle, fonte). Quanto às seções próprias, seja de Mt, seja de Lc, elas proviriam de fontes secundárias conhecidas por esses dois evangelhos.


Apresentada sob esta forma, a teoria das Duas Fontes expõe-se a uma séria objeção. Mesmo nas seções que provêm da tradição tríplice, Mt e Lc oferecem entre si numerosas concordâncias contra Mc, positivas ou negativas, mais ou menos importantes. Se é fato que certo número dessas concordâncias podem se explicar como reações naturais de Mt o de Lc esforçando-se por melhorar o texto um pouco infeliz de Mc, resta certo número delas que é difícil explicar. Alguns exegetas aperfeiçoaram então a teoria, supondo que Mt e Lc dependeriam, não do Mc tal qual chegou até nós, mas de uma forma anterior (proto-Mc), ligeiramente diferente do Mc atual. Apesar deste último ponto, é certo que a teoria das Duas Fontes, relativamente simples, permite justificar grande número de fatos sinóticos. Por outro, ela está em parte de acordo com o dado tradicional herdado de Pápias: a prioridade é dada a Marcos. Os relatos deste evangelho, vivo e rico em minúcias concretas, poderiam muito bem ser eco da pregação de Pedro. Alguns chegaram até a propor a identificação da fonte Q (coletânea, sobretudo, de palavrasde Jesus) com o Mt, cujos oráculos do Senhor, Pápias diz que Mateus colocou em ordem. Todavia, Pápias emprega a mesma expressão para designar o evangelho de Mc (ver também o título de sua obra) e nada permite pensar que o Mt do qual ele fala só teria contido logia. Permanece verdadeiro que a existência de uma coletânea de palavras de Jesus, servindo às necessidades da catequese, é muito verossímil; o evangelho - não canônico- de Tomé seria um bom exemplo disso.


Há alguns decênios, alguns exegetas, sobretudo na Inglaterra e Estados Unidos, quiseram retomar uma teoria proposta há pouco mais de dois séculos por Griesbach e que teria a vantagem, na opinião deles, de evitar o recurso a uma fonte hipotética como a Q. Ela se apóia sobre a tradição dos Anciãos noticiada por Clemente de Alexandria: o evangelho primeiro seria o de Mt, Lc dependeria de Mt, e Mc, vindo por último, dependeria tanto de Mt como de Lc, os quais ele teria simplificado. É fato que Mc parece freqüentemente ter fundido os textos paralelos de Mt e de Lc - fato que a teoria das Duas Fontes tem dificuldade para justificar. Mas o que se fez do dado tradicional - Pápias e Clemente - de Marcos escrevendo a pregação de Pedro? E como supor que Marcos teria deliberadamente omitido os evangelhos da infância como também a maioria das palavras do Senhor, particularmente a quase totalidade do discurso inaugural de Jesus?


Outros exegetas, por fim, permanecem persuadidos de que a teoria das Duas Fontes, apesar de suas vantagens, é demasiadamente simples para poder explicar a totalidade dos fatos sinóticos. Sem dúvida Mc aparece freqüentemente mais primitivo que Mt e Lc, mas o inverso é igualmente verdadeiro: acontece que ele apresenta traços tardios, tais como paulinismos ou ainda adaptações para os leitores do mundo greco-romano, enquanto Mt ou Lc, mesmo nos textos da tradição tríplice, conservam pormenores arcaicos, de expressão semítica ou de ambiência palestina. Apresenta-se então a hipótese de que seria preciso considerar as relações entre os sinóticos, não mais em nível dos evangelhos tais como os possuímos agora, mas em nível de redações mais antigas que se poderiam chamar de pré-Mt, pré-Lc, e até de pré-Mc, visto que todos esses documentos intermediários poderiam, por outro lado, depender de uma fonte comum que não seria outra que o Mt escrito em aramaico, depois traduzido para o grego de diferentes modos, de que falava Pápias. De onde a possibilidade de considerar inter-reações entre as diversas tradições evangélicas mais complexas, mas também mais flexíveis, que poderiam melhor explicar todos os fatos sinóticos. Esta hipótese levaria em conta também um fato notado desde o fim do século XIX: certos autores antigos, o apologista Justino em particular e outros depois dele, citam os evangelhos de Mt e de Lc sob uma forma um pouco diferente daquela que conhecemos e, por vezes, mais arcaica. Não teriam eles conhecido esses pré-Mt e pré-Lc mencionados acima? Estudos precisos mostraram igualmente que Lc e Jo oferecem entre si contatos muito estreitos, sobretudo – mas não exclusivamente – no que se refere aos relatos da paixão e da ressurreição, que poderiam ser explicados pela utilização de uma fonte comum ignorada por Mc e Mt.


É muito difícil precisar a data da redação dos sinóticos, e esta datação dependerá forçosamente da idéia que se tem do problema sinótico. Na hipótese da teoria das Duas Fontes, colocar-se-á a composição de Mc um pouco antes – Clemente de Alexandria – ou um pouco depois – Irineu – da morte de Pedro, portanto, entre 64 e 70, não depois desta data, pois ele não parece supor que a ruína de Jerusalém já tenha sido consumada. As obras de Mt grego e de Lc seriam posteriores a ele, por hipótese; isto seria confirmado pelo fato de que, com toda probabilidade, Mt grego e Lc supõem que a ruína de Jerusalém é fato realizado (Mt 22,7; Lc 19, 42-44; 21, 20-24). Deveríamos então datá-los entre 75 e 90. Mas é preciso reconhecer que este último argumento não é o único. Ao contrário, por que não dizer que Ezequiel teria profetizado a ruína de Jerusalém pelos caldeus depois da tomada desta cidade (comparar Ez 4, 1-2 e Lc 19, 42-44), o que é manifestadamente falso? Para uma datação tardia do Mt grego, seria mais oportuno invocar certas minúcias que denotam uma polêmica contra o judaísmo rabínico originado da assembléia de Jâmnia, que se realizou pelos anos 80. E se admitirmos que os sinóticos fossem compostos por etapas sucessivas, a datação de sua última redação deixa a possibilidade de datas mais antigas para as redações intermediárias, a fortiori para Mt aramaico que estaria na origem da tradição sinótica. 


De qualquer modo, a origem apostólica, direta ou indireta, e a gênese literária dos três sinóticos justificam seu valor histórico, permitindo apreciar como é preciso entendê-lo. Derivados da pregação oral que remontam aos inícios da comunidade primitiva, eles tem na sua base a garantia de testemunhas oculares (Lc 1, 1-2). Seguramente, nem os apóstolos nem os outros pregadores e narradores evangélicos procuraram fazer historia no sentido técnico e atual deste termo. Seu propósito era mais teológico e missionário: falaram para converter e edificar, inculcar e esclarecer a fé, defendê-la contra os adversários (2Tm 3, 16). Mas fizeram isso com o auxílio de testemunhos verídicos, garantidos pelo Espírito (Lc 29, 48-49; At 18; Jo 15, 26-27), exigidos tanto pela probabilidade de sua consciência quanto pela preocupação de não se tornar presa de refutações hostis. Os redatores evangélicos que consignaram e reuniram seus testemunhos fizeram-no com o mesmo cuidado de honesta objetividade que respeita as fontes, como o provam a simplicidade e o arcaísmo de suas composições em que se misturam um pouco às elaborações teológicas posteriores. Em comparação com alguns evangelhos apócrifos que formigam de criações legendárias e inverossímeis, são bem mais sóbrios. Se os três sinóticos não são biografias modernas, oferecem-nos, entretanto, muitas informações históricas a respeito de Jesus e a respeito dos que o seguiram. Pode-se compará-los às Vidas helenísticas populares, por exemplo, as de Plutarco, simpatizando com seu assunto, mas sem apresentar um desenvolvimento psicológico que poderia satisfazer o gosto contemporâneo. Mas há modelos mais próximos no Antigo Testamento, como as histórias de Moisés, de Jeremias, de Elias. Os evangelhos se distinguem dos modelos pagãos por sua ética séria e sua finalidade religiosa, dos modelos veterotestamentários por sua convicção na superioridade messiânica de Jesus. Isso não significa, entretanto, que cada um dos fatos ou dos ditos que eles noticiam possa ser tomado como reprodução rigorosamente exata do que aconteceu na realidade. As leis inevitáveis de todo testemunho humano e de sua transmissão dissuadem de esperar tal exatidão material, e os fatos contribuem para esta precaução, pois vemos o mesmo acontecimento ou a mesma palavra de Cristo transmitida de modo diferente pelos diferentes evangelhos. Isso, que vale para o conteúdo dos diversos episódios, vale com mais forte razão para a ordem segundo a qual eles se encontram organizados entre si. Tal ordem varia segundo os evangelhos, e é o que deveríamos esperar de sua gênese complexa: elementos, transmitidos de início isoladamente, pouco a pouco se amalgamaram e agruparam, se aproximaram ou se dissociaram, por motivos mais lógicos e sistemáticos do que cronológicos. É necessário reconhecer que muitos fatos ou palavrasevangélicas perderam sua ligação primeira com o tempo e o lugar, e freqüentemente erraríamos caso tomássemos literalmente conexões racionais tais como “então”, “em seguida”, “naquele dia”, “naquele tempo”, etc. 


Essas constatações, porém, não acarretam nenhum preconceito no que se refere à autoridade dos livros inspirados. [...] Do ponto de vista puramente histórico, um fato que nos é atestado por tradições diversas e até discordantes reveste, em sua substancia, riqueza e solidez que não poderia lhe dar uma atestação perfeitamente coerente, mas do mesmo teor. Assim, certos ditos de Jesus se encontram duplamente atestados: conforme a tradição tríplice em Mc 8, 34-35/ Mt 16, 24-25/ Lc 9, 23-24, e segundo a dupla tradição em Mt 10, 37-39/Lc14, 25-27. Há aqui uma variação entre formulação negativa e positiva, mas o sentido permanece o mesmo. Podem-se salientar uns trinta casos análogos, o que lhe da um sólido fundamento histórico. O mesmo princípio vale para as ações de Jesus; por exemplo, o relato da multiplicação de pães nos foi transmitido segundo duas tradições diferentes (Mc 6, 35-44 e p.; 8, 1-9 e p.). Não se poderia, portanto, por em dúvida que Jesus tenha curado doentes sob pretexto de que as minúcias de cada relato de cura variam segundo o narrador. Os relatos do processo e da morte de Jesus, como os das aparições do Ressuscitado, são casos mais delicados, mas os mesmos princípios se aplicam para apreciar seu valor histórico.  [...]


Fragmento de texto extraído de INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS SINÓTICOS, da Bíblia de Jerusalém, p. 1692-1694.

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