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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Viver de forma franciscana

J. B. Libanio
Setembro de 1999
                  
J. B. Libanio, S.J.
                   A festa de São Francisco toca-nos fundo no coração. Ele é o santo da ecologia e dos pobres. Duas lições para os dias de hoje. Num mundo voltado para o consumismo desvairado, Francisco de Assis ensina-nos a sobriedade. Podia viver na opulência, mas optou pela simplicidade.

                   Há uma felicidade no dinheiro, na riqueza, no consumo dos bens materiais? O Antigo Testamento não apresenta o rico como um abençoado de Deus? Ele não promete bens materiais em abundância a seu povo escolhido? Então, por que colocar restrições ao desejo de posse? Será que tanta gente que batalha a vida inteira para melhorar suas condições materiais está equivocada? Não parecemos, às vezes, a mãe daquele soldado que se vangloriava de que o seu filho era o único que marchava corretamente e todo o batalhão estava com o passo errado? Qual é a relação entre riqueza e felicidade?

                   A felicidade não é uma realidade absoluta, igual e objetiva, identificada com determinada coisa. Ela depende dos momentos, não só da vida de uma pessoa como do processo cultural. Portanto, a felicidade tem forte traço psico-individual e psico-social cultural. A criança sente-se feliz com muitas coisas que não dizem nada para um adulto. As pessoas em momentos da história vivenciaram a felicidade em realidades que já não nos satisfazem hoje. Além disso, uma mesma realidade assume expressões diferentes segundo a cultura.

                   A riqueza, como expressão de dignidade, de respeito, de generosidade, enchia o coração da nobreza. Hoje a riqueza é vista mais em função de seu poder aquisitivo material ou de influência social. Já não tem a mesma aura de dignidade que em tempos aristocráticos.

                   Com a evolução cultural e afetiva das pessoas, não sem influência dos conhecimentos psicológicos, sociológicos e teológicos, a riqueza perdeu muito de seu fascínio. Cada vez mais as pessoas valorizam as relações afetivas que nenhum dinheiro compra. Mais: a excessiva riqueza pode transformar-se em fonte de terrível frustração. Os ricos são procurados, não pelo seu valor pessoal, mas pelo que eles têm. Fica-lhes o amargor de não serem amados por eles mesmos. Temem os interesseiros, os bajuladores, os amigos de ocasião. Desconfiam de quem se aproxima. Sofrem da terrível solidão de quem não alimenta amizades gratuitas.

                   À medida que as pessoas vão crescendo espiritualmente, apreciam cada vez mais as alegrias menores da vida e percebem que o ter não acrescenta nada ao ser. O sorriso cheio de carinho de uma criança vale mais que os ganhos nas bolsas de valor. A riqueza exige muito tempo, desgaste de energia, preocupações para conservá-la, aumentá-la. E para o coração sobram pouco tempo e escassa energia.

                   Por ocasião da nababesca festa de aniversário da Sasha, o psiquiatra Christian Gauderer observava que tais extravagâncias não fazem a felicidade das crianças. O excesso  de luxo e fantasia pode criar um adolescente dependente e deprimido. Diz também que atende adolescentes que tiveram na infância todos os luxos e hoje  estão deprimidos e revoltados  com os pais.

                   Se dinheiro fizesse a felicidade, os adolescentes ricos deveriam ser sadios e alegres. E ei-los presos a suas depressões. Muitos se entregam ao alcoolismo e às drogas. O ser humano é carente de afeto. Ingrediente absolutamente necessário para a felicidade que nenhuma riqueza supre.

                   Os bens materiais estão aí para traduzirem amor, mediarem relações pessoais, criarem situações afetivas e lúdicas gostosas. Toda vez que as impedem, tornam-se fonte de infelicidade, tristeza e morte. Os homens da Bíblia falavam da riqueza de maneira positiva somente porque a experimentavam como sinal da bondade de Deus e porque ela lhes permitia ser pessoas de bem. Jesus avança essa reflexão e inverte o sinal. Para ele, a felicidade reside na simplicidade, na sobriedade, na liberdade interior diante dos bens materiais. Nesse sentido, a figura de Francisco de Assis torna-se para nós uma das expressões mais acabadas do espírito das bem-aventuranças.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

São Francisco de Assis (filme, 1961, completo)

Francis of Assisi / Direção Michael Curtiz. -- EE.UU.A., 1961.
Filme completo, com legendas em porguguês (é preciso ativar as legendas).

Curiosidade: Santa Clara é interpretada por Dolores Hart que dois anos depois abandonou a carreira de atriz e tornou-se monja beneditina em Connecticut, sendo a única freira membro da Academia de Cinema de Holliwood tem direito à voto para o Oscar e todos os anos vê os fimes indicados.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Francisco, um destino

Filme italiano narra trajetória de São Francisco de Assis e questiona a relação entre a genialidade e inspiração pessoal do homem e as consequências disso na comunidade para a qual ele se dirigia

Marcello Scarrone
25/10/2012

    Francesco – A Historia de São Francisco de Assis
    Dir. Liliana Cavani, Itália, 1989

    Que os nossos leitores que reclamam pelo fato desta seção não dar muito espaço a comentários sobre filmes brasileiros nos perdoem. Não trataremos de uma produção nacional outra vez. Mas aceitem nossos benevolentes leitores o conselho de dedicar seu tempo e sua atenção a um filmede ser europeu,a Idade Media. iferente sobre um periodo  que, apesar de ser europeu, oferece um olhar diferente sobre um período singular da assim chamada Idade Média, com sua cultura de inspiração cristã e com a visão de mundo que ela proporcionava.
    Afinal, a história nacional começa a ser contada a partir da chegada de navegadores portugueses que deste imaginário, desta cultura, partilhavam muitos elementos: mesmo sendo homens que viviam o inicio da modernidade, estavam intimamente moldados por aquela visão e ela acaba sendo influenciada desde suas origens por esse clima de religiosidade. Mais um elemento reforça os motivos do espaço dedicado a esta produção: a oportunidade de oferecer uma abordagem diferente e, de certa forma complementar, a leituras cinematográficas do período medieval que andam mais populares entre nós, como O Nome da Rosa, filmagem (1986, Jean-Jacques Annaud) do livro homônimo de Umberto Eco, ou O Incrível Exercito de Brancaleone (1966, Mario Monicelli), comédia sobre desajeitadas aventuras de um grupo de cavaleiros na Baixa Idade Media, ou ainda as várias produções hollywoodianas retratando William Wallace, Robin Hood ou Joana D’Arc.
    O filme de que vamos falar aqui é Francesco – A Historia de São Francisco de Assis, produção da diretora italiana Liliana Cavani, de 1989. Não se trata exatamente de uma cinebiografia do fundador da ordem franciscana, e sim de uma leitura original e historicamente bem documentada da vida daquele que, por muitos aspectos, é a personalidade mais interessante do cristianismo medieval. Uma leitura realizada por uma diretora laica e alheia a simpatias para o catolicismo: exatamente por isso, sua visão dos fatos se destaca pelo rigor na reconstituição de personagens e ambientes, evitando com habilidade a queda no sentimentalismo. O Francisco da Cavani é o homem real, desfrutador dos prazeres da existência no inicio de sua vida e teimoso seguidor das pegadas de Cristo até o extremo da solidão e do abandono quase desesperado no resto de sua caminhada. Nada a ver, para nos entendermos, com o Francisco, poeta da natureza e louco romântico, retratado por Zeffirelli em Irmão Sol, Irmã Lua (1972).

    Preocupação com a reconstrução histórica
    Narrado com a técnica do flash-back, com a vida de Francisco evocada pelas lembranças de alguns dos seus primeiros companheiros, reunidos, após sua morte, junto com Clara (a primeira mulher a se empenhar no caminho proposto pelo santo), o filme mostra os pontos mais significativos de sua existência sem uma preocupação excessiva com a cronologia e sim com a reconstituição histórica. É o mundo medieval de uma pequena cidade italiana, Assis, no começo do século XIII, que é retratado, com seus conflitos e suas crenças. Um mundo no qual a sensibilidade religiosa cristã perpassa todos os setores da sociedade, em parte moldando uma mentalidade, em parte se digladiando com costumes e práticas não cristãs. Um mundo no qual a proposta de radicalismo evangélico de Francisco encontra adesões e recusas fortes. Um mundo talvez bastante longínquo de nossos parâmetros de juízo, de nossos metros de valores, mas um mundo que é preciso conhecer e penetrar para poder avaliar sem anacronismos ou estereótipos.
    Destaque no filme para três pontos emblemáticos. O primeiro é a chegada em Roma, junto à corte pontifícia, do primeiro grupo franciscano, em busca de aprovação para a sua proposta de vida e sua regra. A simplicidade e austeridade de Francisco e seus companheiros e sua vontade de viver o Evangelho ao pé da letra contrastam com as limitações e os compromissos dos quais a autoridade do catolicismo se declara refém. No diálogo entre o Papa, os cardeais e os franciscanos está uma chave para a compreensão da sociedade medieval, da influência nela do cristianismo e da Igreja, e ao mesmo tempo de quanto há, nesta influência, de temporal, de histórico, de herdado de uma mentalidade imperial romana. A inveja do pontífice e de alguns cardeais pela liberdade com que Francisco pode viver o seguimento de Jesus mostra os dois lados da mesma moeda.
    Um segundo momento significativo é o registro das dimensões que o movimento franciscano toma desde seus primeiros anos, com entusiasmos e inevitáveis diferenciações e problemas: jovens da Europa toda confluem em Assis em ocasião de uma reunião da incipiente ordem, preocupando o fundador que, como os históricos lembram, tudo queria menos ‘fundar uma ordem’. Os contrastes entre as várias tendências do franciscanismo já se manifestam. Terceiro ponto a destacar é a parábola final da vida do santo, com a solidão procurada numa tentativa de entender melhor a voz de Deus e sua vontade, diante de tantas dificuldades e incompreensões. Um Francisco quase desesperado, angustiado, peregrino por bosques e pedras inacessíveis: uma imagem bastante distante das tradicionalmente transmitidas pela iconografia ou pela memória popular, mas uma imagem historicamente real. Até o misterioso momento da resposta divina, que encerra o filme.
    “Traçar a curva de um destino que foi simples, mas trágico; situar com precisão os poucos pontos realmente importantes por onde passou essa curva; mostrar de que maneira, sob a pressão de que circunstâncias, seu impulso inicial teve de esmorecer, e seu traçado original, inflectir-se; colocar assim, acerca de um homem de singular vitalidade, esse problema das relações entre o individuo e a coletividade, entre a iniciativa pessoal e a necessidade social, que é, talvez. o problema essencial da historia: tal foi nosso intuito.” Não seja visto como pretensão atribuir ao menos parte destas intenções - formuladas pelo historiador francês Lucien Febvre na abertura de seu livro de 1927, “Martinho Lutero, um destino” – à diretora Liliana Cavani. A dela não foi obra de historiadora, e sim de artista, e a arte tem outras leis que não as da historia. Mas sua tentativa parece mesmo a de traçar a curva do destino de Francisco, e de se interrogar sobre a relação entre a genialidade e inspiração pessoal do homem e o eco disso na comunidade à qual ele se dirigia.
    Uma palavra sobre os atores: além de vários coadjuvantes, se destacam Helena Bonham Carter como Clara e, sobretudo, Mickey Rourke como o próprio Francisco, num desempenho muito interessante, capaz de liberar capacidades interpretativas surpreendentes. Afinal, uma obra válida, até como documento de um tempo e de uma sociedade, que por isso nos induz a perdoar uma duração talvez excessiva.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Pequeno retato de Francisco de Assis

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/n/?p=10520 acesso em 10 ago. 2012.
Vivia na cidade de Assis,na região do vale de Espoleto, um homem chamado Francisco (1 Celano 1)
 Todo mundo conhece Francisco da cidade de Assis. Ele é patrimônio da humanidade.  Esse Francisco, esse italiano natural da verdejante região da Úmbria, experimentara no peito o anseio pelas coisas grandes e foi se tornando o Irmão Francisco, Frei Francisco.  Não havia nascido para a mesmice e a mediocridade, para a banalidade e para a rotina. Tudo nele se revestia do novo, da novidade que procede do Deus de toda novidade.

Frei  Tomás de Celano, contemporâneo de Francisco, foi encarregado de escrever a biografia oficial do santo.  É ele, pois, que nos pinta um quadro com os traços desse Francisco do mundo inteiro que continua cativando todos os tempos.

"Como era bonito, atraente e de aspecto glorioso na inocência de sua vida, na simplicidade das palavras, na pureza do coração, no amor de Deus, na caridade fraterna, na obediência ardorosa, no trato afetuoso, no aspecto angelical!  Tinha maneiras simples, era sereno por natureza e de trato amável, muito oportuno quando dava conselhos, sempre fiel às suas obrigações, prudente nos  julgamentos, eficiente no trabalho e em tudo cheio de elegância. Sereno na inteligência, delicado, sóbrio, contemplativo, constante na oração e fervoroso em todas as coisas. Firme nas resoluções, equilibrado, perseverante e sempre o mesmo. Rápido para perdoar e demorado para se irar, tinha a inteligência pronta, uma memoria luminosa, era sutil ao falar, sério em suas ações e sempre simples. Era rigoroso consigo mesmo, paciente com os outros e  discreto com todos.

"Muito eloquente, tinha o rosto alegre e o aspecto bondoso, era diligente  e incapaz de ser arrogante.  Era de estatura pouco abaixo da média, cabeça proporcionada e redonda, rosto um tanto longo e fino, testa plana e curta, olhos nem grande nem pequenos,  negros e simples, cabelos castanhos, pestanas retas, nariz proporcional,  delgado e reto, orelhas levantadas mas pequenas,    têmporas chatas, língua apaziguante, fogosa e aguda, voz forte, doce, clara e sonora, dentes unidos, iguais e brancos, lábios pequenos e delgados, barba preta e um tanto rala, pescoço fino, ombros retos, braços curtos, mãos delicadas, dedos longos, unhas compridas, pernas finas, pés pequenos, pele fina, descarnado, roupa rude, sono muito curto, trabalho contínuo.

"E como era muito humilde, mostrava mansidão para com todas as pessoas., adaptando-se a todos com facilidade.  Embora fosse o mais santo sabia estar com os pecadores como se fosse um deles." (1Celano  83)

Este foi o retrato de Frei Tomás de Celano.  Muitos preferem simplesmente designá-lo de Frei Francisco, de Irmão Francisco. Durante poucos anos, um pouco mais de quarenta,  percorreu os caminhos desta terra e deixou lembranças nas pétalas das flores, no espelho das águas, nas chagas dos leprosos e no voo das cotovias.  Ele honrou a humanidade.  Foi nosso irmão e o retrato mais acabado de Jesus  Cristo.

Éloi Leclerc, franciscano francês, foi martirizado na alma e sofreu no corpo os horrores da  Segunda Guerra Mundial.  Em obra do outono de seus dias  (O Sol nasce em  Assis), o autor  faz uma  reflexão sobre o grande drama humano da guerra, dos campos de concentração, da desumanidade. Mas o livro é também “a história de um encontro maravilhoso: meu encontro com um daqueles homens tão raros de nossa história que não nos deixam  desesperar do ser humano. Trata-se de Francisco de Assis.  Se espírito – o espírito de Assis, como é chamado – nos traz a luz, uma luz da qual precisamos atrozmente. Aquele homem fez surgir no meu coração o Sol,  e com o Sol toda a criação. Foi para ele que me voltei. Foi a ele que eu pedi o segredo de uma verdadeira fraternidade humana.  Pouco a pouco, além das grandes aflições e das tragédias deste mundo, Francisco abriu minha alma para a harmonia profunda das coisas e de tudo o que vive.  Num universo desencantado, ele foi para mim o encantador. Mostrou-me o caminho de uma verdadeira humanidade, corrigindo o que o nosso humanismo dos direitos  humanos tem de limitado e mesmo de ambíguo e perigoso. Parece-me que, se a humanidade um dia encontrar a alegre esperança e o sentido da caminhada para sua realização, será na direção inaugurada pelo Pobre de Assis” (Vozes, Petrópolis, p.9-10).


João  Bernardone conhecido como  Francisco
  • Filho de Pedro Bernardone, comerciante de tecidos e de  Pica, que pertencia a uma família da região francesa da Provence.
  • Exerce a profissão do pai, na venda de tecidos.
  • Rapaz dotado de um espírito muito vivo.
  • Generoso e alegre; gosta dos divertimentos e de cantos;  gosta de passear pela cidade de dia e de noite.
  • Generoso nos gastos, dissipa em noitadas e festanças o que tem e o que ganha.
  • Falta-lhe medida na maneira de se vestir: veste-se mais suntuosamente do que permitem suas condições.
  • Cortês em seus comportamentos e palavras  faz o propósito de não  dizer palavras injuriosas e ofensivas e resolve não dar resposta aos que o provocam maldosamente.
  • Ambicioso, audacioso, empreendedor.
  • É escolhido como rei da juventude; pagas as despesas e tem humor jovial.
  • Aproxima-se dos pobres e generosamente os cobre de esmolas.


Síntese de  sua trajetória

Minúscula biografia
  • Nascido em Assis, no vale de Espoleto, na Itália em 1181 ou 1182. Passa sua juventude no luxo e nas diversões.  Sonha com a glória e quer ser cavaleiro ( quer entrar no universos das armas).  Com a idade de vinte anos, devido às rivalidades entre as cidades italianas, ele é feito prisioneiro em Perugia alguns meses.
  • Insatisfeito com a vida que leva Francisco faz uma peregrinação a Roma ao longo da qual troca seus ricos trajes com os trapos de um mendigo.
  • Em oração na velha igreja de São Damião, Francisco compreende que o Senhor lhe dirige a palavra para que ele restaurasse a igreja que estava em ruínas.  Vendendo o que tem  busca realizar esta missão.  Seu pai, farto com as loucuras do Filho, com o gastar tudo  em benefício dos pobres  pela a intervenção do bispo de Assis.  Francisco resolve então abandonar tudo, colocar suas vestes nas mãos de seu pai e seguir o Pai do céu.
  • Ouve o evangelho  do envio dos apóstolos que deviam partir em missão sem nada. Esta foi a grande revelação de sua vida. Alguns assisienses se juntam a ele.
  • Francisco redige sua primeira Regra e faz  uma viagem a Roma para pedir a confirmação por parte do Papa.
  • Em 1212 uma jovem de dezesseis anos, Clara,  resolve seguir a Pobreza pregada por Francisco.
  • Naquele ambiente das Cruzadas e  desejando encontrar-se com os muçulmanos  como irmãos,   Francisco parte para o Egito para encontrar o Sultão e falar-lhe de Deus e de Cristo.
  • Em 1223  redige uma nova Regra.
  • Em 1224, já doente e exausto, Francisco recebe os estigmas do Cristo  crucificado.
  • Morre a 3 de outubro de 1226, com a idade de quarenta e quatro anos. É canonizado dois anos mais tarde pelo papa  Gregório IX.

Para continuar a reflexão

Começos da vida de Francisco  -  2 Celano  3-4
Para  refletir
  1. O que mais chama sua atenção nestes texto? 
  2.  O que você já conhece a respeito de Francisco de Assis?

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

São Francisco "spread"

Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/noticias/504945-sao-francisco-spread acesso em 13 dez. 2011.
Francisco exigia dos seus contemporâneos uma maior equidade e uma maior solidariedade, dois princípios que as oscilações da bolsa e dos especuladores estão nos fazendo esquecer. As riquezas que cotidianamente vemos se desagregar não são as únicas: desagrega-se a sociedade.

A análise é de Chiara Frugoni, historiadora italiana, especialista em Idade Média e história da Igreja. O artigo foi publicado no caderno Alias, suplemento do jornal Il Manifesto, 11-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.
São Francisco e Enrico Scrovegni, duas pessoas divididas no tempo: Francisco morreu em 1226, com pouco mais de 40 anos; Enrico, em 1336, com 70 anos. Divididas sideralmente no modo de definir suas próprias vidas, mas unidas pelo fato de terem dedicado muito do seu tempo ao dinheiro; o primeiro, em rejeitá-lo, e rejeitando com isso toda forma de propriedade, porque possuir um bem – dizia Francisco – implica a necessidade da espada, da violência, para defendê-lo; o segundo, em querer fazê-lo crescer espasmodicamente. A Igreja deu uma resposta diferente aos seus desejos.

Foi-lhe mais fácil aceitar o ponto de vista de Scrovegni, e o papa de então, Bento XI, era um grande amigo de Enrico, que pretendia seguir os passos de Joaquim, o pai de Maria, agradável a Deus porque dividia as riquezas, um terço para si, um terço para os pobres e um terço para o Templo. Recíprocas conveniências naquela época, recíprocas conveniências hoje?

A Igreja, uma Igreja rica e profundamente envolvida nos jogos políticos deste mundo, encontrou-se em dificuldades, ao contrário, para aceitar a proposta de vida cristã de Francisco. Inocêncio III, ao qual o futuro santo se dirigiu, foi tentado a rejeitá-la. Cedeu quando lhe foi indicado que rejeitá-la seria equivalente a rejeitar o Evangelho e o seu autor, Cristo.

O olhar de Francisco, todavia, diante das opressões e das vexações dos poderosos, não foi um olhar quieto, de quem considera que é dever do homem pecador suportar aflições e desigualdades para adquirir a vida eterna. Francisco, usando apenas as palavras do Evangelho, elaborou um modelo desestabilizador para os destinatários aos quais foi proposto, continuando a professar obediência à Igreja e na mais completa ortodoxia.

Os afrescos de Giotto em Pádua, na capela de Enrico Scrovegni, sempre foram considerados pelos historiadores da arte como uma obra desejada pelo contratante para expiar os pecados de usura próprios e do pai, Rainaldo, enfiado por Dante no Inferno, entre os usurários (Inferno XVII, 64-70). Os afrescos – onde um espaço particularmente amplo é dedicado aos pais de Maria, os ricos e piedosos Joaquim e Ana, dois personagens não presentes nas Sagradas Escrituras – proclamam, ao contrário, quão agradável a Deus é o bom uso da riqueza e do dinheiro prudentemente empregado para o próprio bem-estar e para obras de caridade. A capela Scrovegni, que se tornou igreja, não por acaso, se intitula Santa Maria da Caridade.

Enrico Scrovegni, como demonstra o seu testamento, não se mostra, de fato, como um pecador arrependido, ao contrário. Os afrescos ostentam o sucesso pessoal do contratante que quer pilotar o consenso urbano – até transformá-lo em gratidão – para o magnífico mecenas. As riquezas são um mérito para se comprar o Paraíso.

Pessoalmente, Enrico Scrovegni certamente não desdenhou o fato de emprestar sob penhor, mas foi acima de tudo um grande financista. Uniu os patrimônios de irmãos e irmãs, e pôs de pé um banco de família e, como habilíssimo homem de negócios, sustentou, empobrecendo-a, a cidade de Pádua, comprometido com um vasto programa de construção nas maiores igrejas da cidade.

Enrico socorreu a cidade com empréstimos ingentes, mas com uma taxa de juros moderada, empréstimos seguros pela via dos impostos que a entidade recebia e para as suas ingentes propriedades. A cidade de Pádua embolsava, mas não conseguia melhorar os seus orçamentos, obrigada a se endividar cada vez mais com Enrico Scrovegni. Um círculo vicioso, o precursor da nossa dívida soberana, de um lado, e da falsa compensação de bons juros que o cidadão recebe se assinar títulos de Estado, compensação que obriga o próprio Estado a continuar endividando-se para honrá-lo. Naquele tempo, pelo menos a Igreja podia ameaçar o Inferno para quem se enriquecia emprestando dinheiro; e as pessoas, que realmente acreditavam no Inferno, encontrava nessa punição ultraterrena motivo de satisfação, mesmo que a desforra se projetasse no além. Existiam os culpados de carne e osso.

Quem são os culpados hoje? Os banqueiros das agências de rating, os mutáveis humores dos mercados, o imaginário coletivo do medo? Entidades incognoscíveis, sobre as quais é impossível expressar condenações tangíveis.

Justamente porque Scrovegni sabia que não gozava daquela perfeita boa fama à qual tanto estimava (quase certamente desejaria em um futuro imediato "entrar em campo", ter um peso político na cidade), na capela, ele tomou algumas precauções para que a sua pessoa não se conectasse negativamente ao dinheiro. Por exemplo, à virtude da Caridade, Giotto não contrapõe, como de costume, Avareza, mas sim Inveja.

Na cena de Cristo que afugenta os mercadores do templo, há toda a fúria do Redentor que derruba os bancos dos emprestadores, mas não se veem as moedas caídas no chão. Judas é representado como traidor por ser presa do demônio, seguindo Lucas 22, 1-6, mas não como avarento. Giotto teve o cuidado de não mostrar o dinheiro que passa de mão em mão no encontro secreto da venda de Cristo.

No arco triunfal da capela, à esquerda (imagem ao lado), Judas discute com os sumos sacerdotes, enquanto aperta o saco cheio das moedas invisíveis: a sua sombra é o próprio demônio que agarra por trás a presa da qual repete o aguçado perfil. À direita (imagem abaixo), ao contrário, Maria abraça sua prima Isabel: Maria aguarda o nascimento de Cristo, e Isabel, o de João Batista.

Anne Derbes e Mark Sandon, em The Usurers' Heart, de 2008, baseando-se em uma passagem do dominicano Remigio de' Girolami, contemporâneo de Giotto, que contrapôs o pecado contra a natureza da usura (da qual logo falarei) ao parto contranatural de Maria – já que, depois de ter dado à luz Cristo, Maria permaneceu virgem –, consideram que o programador dos afrescos quis contrapor Judas e o seu pecado a Maria. Segundo os Atos dos Apóstolos, 1, 18, Judas não morreu enforcado, mas "arrebentado pelo meio, espalhando-se todas as suas vísceras", porque antigamente se considerava que o ventre dos possuídos era a sede dos demônios que, com a morte, se retiravam do corpo. Giotto representou Judas no Juízo Universal enforcado, sim, mas com os intestinos espalhados e sem a bolsa no pescoço, como, ao contrário, outros avarentos condenados têm.

Eis, portanto, segundo os dois autores, Judas e o seu estéril parto de espíritos imundos, morrendo; eis, no momento da traição, a bolsa de dinheiro que se parece com um útero (sic!), o ouro que gera ouro; eis a grande caridade no encontro com Isabel, o fértil ventre da Virgem que gera Cristo. Judas representaria a "concreta admissão de culpa" de Enrico e Rainaldo; a divina gravidez da Virgem, a remissão do pecado da usura.

Com efeito, na especulação filosófica da Escolástica, a usura era considerada um pecado contra a natureza, porque o dinheiro paria dinheiro, enquanto, obviamente, só os organismos naturais podem ter prole. Ainda o Decretum de Graciano, notabilíssima coleção de textos de direito canônico, de cerca de 1180, asseverava: "Ex ipso auro aurum nascitur", a usura faz nascer o ouro do ouro. Alessandro Bonini, teólogo e ministro franciscano ativo enquanto Giotto estava no trabalho, explicava: "Por usura, entende-se quando o ouro gera ouro. E o ouro cresce dentro da usura assim como através da fecundação e o parto". Vozes da Idade Média que chegam até nós hoje com fresca e perversa atualidade.

Só a cerrada e parcial aproximação textual proposta por Derbes e Sandon e não a aproximação visual dos afrescos cria, no entanto, um laço entre a gravidez de Maria e a metafórica de Judas, que "pare" através dos intestinos vazados.

Remigio de' Girolami, depois, apresenta uma substancial diferença entre o usurário e Judas, e em favor de Judas, porque Judas se arrependeu, e o usurário, ao contrário, não se arrepende nunca, nem enquanto se confessa.

As reflexões medievais partiam de um conceito não mais compartilhável por nós: já que o tempo pertence a Deus, como é possível vender o tempo dando-lhe um preço, o tempo que não pertence ao homem? Portanto, quem restitui um empréstimo deve devolver a mesma soma, sem acrescentar os juros.

Considerava-se ainda que o dinheiro devia corresponder apenas a um trabalho ou a um bem tangível, enquanto o ouro que gera ouro é um mecanismo autorreferencial que premia quem possui o dinheiro, porque tem o mérito ou a sorte de possuí-lo e, possuindo-o, se enriquece passivamente às custas dos mais fracos.

São Francisco reagiu a tudo isso e, de sua parte, decidiu não levar isso em conta.

Francisco era filho de um mercador de tecidos, riquíssimo usurário. Ao longo do tempo, amadureceu pelo dinheiro um verdadeiro horror e decidiu que ele e seus companheiros abririam mão dele. Manter-se-iam trabalhando, nos campos, nas casas, como artesãos, no serviço do próximo, dos camponeses, dos doentes e dos pobres que, nos hospitais, nos leprosários, ao longo das estradas, esperavam a morte. Os freis aceitariam como compensação apenas o alimento para sobreviver. Rebaixados em uma sociedade em que era o dinheiro que regulava o acesso aos bens, os freis, banindo o seu uso, rejeitavam conceder-lhe uma função em suas vidas.

Não entravam no sistema dos vínculos e dos favores, das gratificações e das doações, não contraíam nenhuma dívida de gratidão com relação à caridade alheia. Mas, se Francisco e os seus freis, trabalhando, eram autônomos e bem sabiam argumentar e rebater, os pobres estavam sozinhos, portanto incapazes de se expressar. Francisco e os freis falaram então também por eles e, acolhendo-os na comunidade como irmãos, anunciaram aos marginalizados que eles não estavam mais sem direitos.

Francisco, que compartilhava as ideias econômicas do seu tempo, considerava que a quantidade de dinheiro e de riqueza no mundo era estável e que não poderia aumentar. No explosivo capítulo IX da "regola non bollata" (uma regra operante, embora sem a aprovação oficial da bula, do selo pontifício), ele formula um apelo não violento, mas, a seu modo, revolucionário. Ele não fala de caridade, mas de justiça. Francisco explica que não é preciso apelar ao bom coração dos cristãos para que, a seu critério, façam a caridade, considerando-se guardiões da moral pública. Os ricos, ao contrário, são obrigados a restituir aos pobres parte daquilo que possuem (em certo sentido, é aquilo que, há mais de um mês, ouvimos se agitar no debate político como "redistribuição da riqueza"!).

Depois do pecado dos Progenitores e dos seus descendentes imediatos, rompe-se a justa distribuição dos bens, e a avidez dos ricos retira dos pobres os meios para sobreviver. Deus, imensamente rico, encarnando-se, fez-se homem e pobre, recebendo de esmola aquilo que já era seu por direito divino. Desse modo, Cristo reafirmou que os pobres devem poder participar da "mesa do Senhor".

"E a esmola – escreve Francisco – é a herança e a justiça que é devida aos pobres; o Senhor nosso Jesus Cristo adquiriu para nós".

Francisco, portanto, exigia dos seus contemporâneos uma maior equidade e uma maior solidariedade, dois princípios que as oscilações da bolsa e dos especuladores estão nos fazendo esquecer. As riquezas que cotidianamente vemos se desagregar não são as únicas: desagrega-se a sociedade.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Clara e Francisco: soldados da pobreza

Um novo estudo da historiadora italiana Chiara Frugoni se dedica aos estudos dos santos de Assis.
A reportagem é de Mariapia Veladiano, publicada no jornal La Repubblica, 14-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Por amor, volta-se mais uma vez, e depois de novo, e depois novamente, a frequentar a mesma pessoa, a repassar os lugares dos quais conhecemos cores e sombras, a ouvir novamente palavras que podemos repetir de memória mais do que uma oração cara da infância, em busca daquele núcleo de luz que promete, todas as vezes, um estupor diferente.

Algo de muito semelhante ao amor parece levar Chiara Frugoni a nos presentear agora um novo livro, tecido com paixão em torno daquela história extraordinária que viu São Francisco e Santa Clara juntos em uma aventura espiritual que jamais deixa de falar à nossa vida de homens e de mulheres.

Storia di Chiara e Francesco, publicado nestes dias pela editora Einaudi, vem depois de uma série de artigos, discursos, estudos que Chiara Frugoni já dedicou tanto a São Francisco e Santa Clara, quanto ao "tempo do aproximadamente", como ela gosta de chamar a Idade Média no texto, em que um ano também pode ser o antes ou o depois, quase como uma antecipação do único tempo eterno que São Francisco sabia que era a promessa de Deus ao mundo.

E assim, com a desenvoltura que lhe vem de um conhecimento maravilhoso de documentos, fatos, lugares e pessoas, a autora segue os caminhos de Clara e Francisco ainda não santos (mas por pouco tempo; ambos serão santos logo, dois anos depois da morte). Ele, em espontânea e preciosíssima luta contra os "pensamentos fechados de lucro e ganhos" do seu ambiente familiar, dentro de um clima citadino de forte luta entre a sua classe, a dos “homines populi”, e a classe dos “boni homines”, nobres, poderosos e inacessíveis, "a serem odiados, mas também admirados".

E ela ainda segue Francisco depois da batalha de Collestrada, encerrado na atroz prisão de Perugia, cercado por feridos para os quais "a morte não consegue vir". E depois nos muitos confrontos tremendos e necessários: com o pai, com os concidadãos, consigo mesmo, em uma tempestade de impulsos e abandonos e retornos muito humanos, até à solidão, na qual ele encontra Deus e o homem juntos. Deus para o homem.

E uma nova história nasce, e nada é mais como antes, e Francisco, agora na boa companhia do seu Senhor, mostra com a sua bizarra e jamais vista comunidade de leigos e clérigos e nobres e cultos e iletrados, que o Evangelho pode ser posto em prática, de verdade.

Enquanto isso, Clara menina cresce, e as fontes dizem que muito em breve ela se interessou por aquilo que acontecia em torno de Francisco, até aos encontros com ele, à vocação, à fuga e ao nascimento da sua comunidade em São Damião. Em tudo semelhante à de Francisco: pobre, a serviço dos homens, com a extraordinária novidade das “sorores extra monasterium servientes”, irmãs ativas entre os homens e as mulheres do mundo, testemunhas do Evangelho, como os freis de Francisco, com a mesma liberdade.

Liberdade é a palavra que Chiara Frugoni nos dá como sigla dessa história. Em uma sociedade obrigada à luta pelo poder e pelo dinheiro, os irmãos de Francisco e as irmãs de Clara rejeitavam toda honra, odiavam o poder, suplicavam ao pontífice que conservasse o "privilégio da pobreza". Uma pureza implacável que lhes chegou a partir do Evangelho e que se tornou vontade muito firme de construir "um modelo de comportamento que pacificamente se contrapusesse ao que estava em voga e que pacificamente o tirasse do eixo". Pacificamente, renunciando também à violência implícita em todo julgamento, livres também das santas expectativas: "E no Senhor ama-os. E não pretenda que sejam cristãos melhores", escreveu Francisco a um ministro irmão seu perturbado por aqueles que o acusavam injustamente. Era a época das origens, aliança inimaginável entre terra e céu. Muito em breve veio o tempo das acomodações as quais a história sempre obriga.

Certamente, a leitura ao mesmo tempo rigorosa e combatente de Chiara Frugoni pode fazer nascer algumas críticas, como sempre acontece quando o amor por uma pessoa ou por uma história é compartilhada com muitos. Porque o amor muitas vezes é ciumento.

Talvez seja verdade que o desfecho da história de Clara, a clausura estrita decretada em 1263 por Urbano IV, se assemelhe muito a um fracasso humano. Mas nem sempre os resultados diferentes dos esperados são fracassos. Quem acredita pode reconhecer muito bem, na vida escondida das clarissas, a pobreza subterrânea de uma beatitude igualmente profética.

No entanto, é difícil negar que a batalha pela pobreza tenha sido um verdadeiro fracasso, dado o escândalo que ainda hoje a riqueza da Igreja representa aos olhos do mundo. Porém, aqui também a fé salva da amargura, embora na determinação da verdade a ser afirmada. Eis o que Santa Clara escreveu para Inês da Boêmia, à frente do mosteiro de Praga, a propósito da sua luta comum contra as autoridades religiosas pela defensa do privilégio de ser pobre: "Em rápida corrida, com passo ligeiro e pé firme, de modo que os teus passos não levantem poeira, avança segura, feliz e confiante no caminho de uma felicidade pensativa".

Para ler mais:
Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=49672 acesso em 22 nov. 2011.

Pinturas da Estigmatização de São Francisco de Assis

Pinturas da Estigmatização de São Francisco de Assis :
da cena narrativa ao retrato - Séculos XIII-XVI
Aldilene Marinho Cesar

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Francisco o Santo Relutante

Sinopse: Baseado na premiada biografia de Donald Spoto, Francisco, o Santo Relutante traça um fascinante perfil de São Francisco de Assis, revelando o homem por trás da lenda. No mundo medieval, repleto de violência e rebeliões, o filme mostra como São Francisco defendeu os pobres e nunca hesitou em falar a verdade aos poderosos. Filmado em lindas locações na Itália, narrado por Liev Schreiber e estrelado por Robert Sean Leonard (Sociedade dos Poetas Mortos) no papel de Francisco, este é uma obra fundamental para os interessados em saber mais sobre esse grande vulto da humanidade.


Tamanho: 164 Mb
Hospedagem: Fileserve
Formato: rmvb
Idioma: Ingles
Legenda: Português
 

sábado, 15 de outubro de 2011

Francisco encanta

Por Frei Hipólito Martendal

1. São Francisco encanta muita gente. Em artigos, referi-me algumas vezes à atração, ao fascínio que São Francisco exerce sobre pessoas de diversas religiões e até mesmo sem religião. Lembrava que o título de "A Personalidade do Milênio", conferido pelos leitores do "New York Times", não era bem uma homenagem de católicos fervorosos devotos do Poverello de Assis. Boa parte dos leitores é constituída de protestantes. Outros são católicos mais ou menos frios. Existem leitores materialistas e agnósticos (que em nada creem). Por que, então, votar em São Francisco, um modelo tão pouco moderno, tão antimaterialista e tão católico?

2. São Francisco encarnou a essência do cristianismo. Aí está a resposta. São Francisco foi um dos raros seres humanos a compreender e a viver profundamente o cristianismo tal qual foi imaginado e vivido por Jesus. Isso significa que o Cristianismo em sua essência é belo e pode exercer poderosa influência sobre o ser humano. O problema está em que raras são as pessoas capazes de viver bem a alma do Cristianismo. Por isso, nossa luz, que devia ser um farol, transforma-se em uma velinha bruxuleante, como aquelas ridículas "velas-de-sete-dias" que toda hora se apagam e, quando acesas, iluminam quase nada.

3. O cristianismo em sua essência é humano. Uma das coisas que sempre me atraíram para o Cristianismo foi minha convicção de que Cristianismo e Humanismo têm muito em comum. Existe, em nossa cultura, forte tendência a apresentar o ser humano, a humanidade, a materialidade de um lado e Deus, o espírito, Jesus e o Cristianismo do outro, como dois mundos de difícil conciliação e entendimento. Para alguém se tornar cristão parece que é necessário renunciar à sua própria natureza e violentar a todas as suas tendências mais profundas. É mais ou menos como se Deus tivesse criado o ser humano e este tivesse fugido do controle e das intenções do Criador. Um filósofo, não me recordo agora quem, afirmou que o ser humano é um projeto que deu errado.

Mais cedo ou mais tarde precisamos fazer uma profunda revisão sobre a influência do maniqueísmo em nosso pensamento cristão. É necessário repensar toda a doutrina tradicional sobre o pecado original. Tal qual ela é entendida tem como conseqüência aceitar a idéia de que Deus foi um Criador inepto, incompetente, um aprendiz de feiticeiro desastrado. E o ser humano, como seu feitiço, teria se voltado contra Ele.

Claro que nós, humanos, podemos nos voltar contra Deus. Mas isso acontece não por inépcia divina, mas como fruto da sabedoria divina, por ter-nos criados livres. Deus, melhor do que ninguém, sabe que nenhuma adesão, nenhum amor, sem liberdade tem sentido. Então, ou Ele, Deus, criaria o homem livre, ou nunca seria amado por nenhuma de suas criaturas!

4. Convergências entre o humano e o cristão. Estou convencido de que existem muitos elementos em comum entre estas duas realidades. Em primeiro lugar, temos a própria liberdade como um valor essencial para dar sentido a qualquer ato humano autêntico. Deus nos criou para a liberdade. Em toda a história da raça humana, nenhuma virtude, nenhum ideal levou tantas pessoas até o sacrifício da própria vida, como a liberdade. Ela está entre os anseios maiores de todo ser humano autêntico, não escravizado por vícios ou desejos patológicos de posse. Jesus fala da liberdade como uma conquista a ser alcançada através da verdade. Muitos pensadores cristãos veem em algumas cartas de São Paulo uma espécie de "Evangelho da Liberdade". Uma coisa é certa: a liberdade faz parte da essência do ser humano enquanto criatura de Deus e enquanto cristão.

Outro item importante dos ideais do ser humano simplesmente enquanto gente e enquanto cristão é o ideal do casamento indissolúvel até à morte. Parece estranho, não é? Não vamos falar do que a mídia pondera sobre o assunto. Mas quando recorremos às lendas, aos mitos, aos grandes romances, sempre aparece, em todo amante, em cada amada, o desejo, o sonho, a fantasia de um amor e comunhão eternos! Deus criou o ser humano para que tenha a posse eterna da alegria e da felicidade. Por isso, o sonho de realizações eternas faz parte de nossa natureza.
O exemplo que vou apresentar agora é ainda mais surpreendente. Uma vez li um artigo com o seguinte título: "O Cérebro que é bom não pensa".

Maravilhado com a leitura, pus-me a pensar nas muitas situações de vida e das atividades humanas nas quais o cérebro pensante precisa ser desligado para conseguir-se um bom desempenho. Por exemplo, tentar dormir pensando na necessidade de dormir, provavelmente, resultará numa bela insônia. Mesmo o cestinha, numa partida de basquete, acerta mais lances de curta e média distâncias em ataques rapidíssimos do que em lances livres parado, a curta distância, sob os olhares de todos e com muito tempo para pensar. Um artista preocupado com seu desempenho comete muito mais falhas do que aquele que se entrega à arte sem nada pensar. Em situações de emergência e grande perigo, o cérebro de um bom motorista realiza cálculos supercomplexos em frações de segundos e comanda movimentos de grande precisão sem nada poder pensar. Sem isso muito mais gente morreria nas estradas e ruas.

Em perfeita sintonia com esses aspectos da natureza humana, muitas das melhores atividades e atitudes cristãs ocorrem sem cálculos, sem raciocínios. São frutos de puras intuições e de impulsos. Às vezes, só ocorrem em estados alterados de consciência, estados meio oníricos, meio inebriados. Sem isso não existe contemplação, a forma mais completa de oração e experiência com Deus. Mas até em situações bem concretas e materiais, como dar uma esmola, socorrer o necessitado, é melhor que as coisas se deem sem cálculos e raciocínios "que sua mão esquerda não saiba o que faz a direita", diz Jesus.

5. São Francisco é a síntese. Já é lugar-comum dizer-se que Francisco é o mais santo dos homens e o mais humano dos santos. Já afirmei uma vez que São Francisco é uma espécie de milagre vivo. Apesar do maniqueísmo virulento de sua época, que ditava o desprezo de toda a materialidade e da natureza humana, apesar da feroz penitência que se impôs, Francisco perseguiu e viveu a alegria. Apesar de seu horror ao pecado, serviu a toda gente com imensa inocência e ternura. Até o assaltante era chamado de "irmão ladrão", a quem o guardião do convento devia dar alimento quando batesse à porta.
Meus caros leitores, sou obrigado a voltar a esse tema. Aguardem. Obrigado pela compreensão!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

São Francisco e o Lobo

Jadir Albino

Gúbio, uma cidade na Úmbria, estava tomada de grande medo. Na floresta da região vivia um grande lobo, terrível e feroz, o qual não somente devorava os animais como os homens, de modo que todos do povoado estavam apavorados!

Por isso, cercaram a cidade com altas muralhas e reforçaram as portas. E todos andavam armados quando saíam da cidade, como se fossem para um combate. Certa vez, quando Francisco chegou àquela cidade, estranhou muito o medo do povo. Percebeu que a culpa não podia ser unicamente do lobo. Havia no fundo dos corações uma outra causa que era tão destrutiva como parecia ser a causa do lobo.

Logo, Francisco ofereceu-se para ajudar. Resolveu sair ao encontro do lobo, sozinho e desarmado, mas cheio de simpatia e benevolência pelo animal, e, como dizia às pessoas, na força da Cruz.

O perigoso lobo, de fato, foi ao encontro de Francisco, raivoso e de boca aberta pronto para devorá-lo, mas quando o lobo percebeu as boas intenções de Francisco e ouviu como este se dirigia a ele como a um irmão, cessou de correr e ficou muito surpreendido.

Francisco de Assis anulou a violência que havia no irmãozinho lobo. De olhos arregalados, viu que esse homem o olhava com bondade. Francisco então falou para o lobo:

- Irmãozinho lobo, quero somente conversar com você, meu irmão... E caso você esteja me entendendo, levante, por favor, a sua patinha para mim! O irmãozinho lobo, então, perante tão forte vibração de amor e carinho, perdeu toda a sua maldade. Levantou, confiante, a pata da frente, e calmamente a pôs na mão aberta de Francisco.

Então, Francisco disse-lhe amorosamente:

- Querido irmãozinho lobo, vou fazer um trato com você! De hoje em diante, vou cuidar de você meu irmão! Você vai morar em minha casa, vou lhe dar comida e você irá sempre me acompanhar e seremos sempre amigos! Você por sua vez, também será amigo de todas as pessoas desta cidade, pois de agora em diante você terá uma casa, comida e carinho, sendo assim, não precisará mais matar nem agredir ninguém, para sobreviver... Com a promessa de nunca mais lesar nem homem nem animal, foi o lobo com Francisco até a cidade.

Também o povo da cidade abandonou sua raiva e começou a chamar o lobo de irmão. Prometeu dar-lhe cada dia o alimento necessário. Finalmente, o irmão lobo morreu de velhice, pelo que, todos da cidade tiveram grande pesar.

Ainda hoje se mostra, em Gúbio, um sarcófago feito de pedra, no qual os ossos do lobo estão depositados e guardados com grande carinho e respeito durante séculos.

A história do lobo de Gúbio chama-nos, sem dúvida, à reflexão. Quantas vezes deparamo-nos com irmãozinhos um tanto agressivos, nervosos, impacientes, chegando mesmo a nos agredir com palavras ásperas, levando-nos às decepções e amarguras... Quantas vezes! Se pararmos para pensar e refletir, talvez cheguemos à triste conclusão, de que esteja ocorrendo, com eles, o mesmo acontecido com o lobo de Gúbio... Ele, o lobo, acuado, com fome, sem receber compreensão e carinho, respondia também da mesma forma, com medo, ódio e agressividade. Quando se encontrou frente a frente com o Amor e a Paz, defendidas por Jesus em Seu Evangelho, e personificada, vivida e exemplificada por Francisco de Assis, o lobo não teve outra reação senão a de recuar em suas agressões e respondeu também com carinho e compreensão, passando de inimigo a companheiro e amigo de todos.

Assim acontece em nossas vidas! Se oferecermos aos nossos semelhantes azedumes, palavras de pessimismo, rancor, ódio e intolerância, receberemos indubitavelmente, na mesma dose, tudo aquilo que semearmos... Pois como dizia São Francisco: "- é dando que recebemos...".

Adaptações dos Textos: Livro "Um Novo Natal" (Pe. Adalíbio Barth) e das Fontes Franciscanas.
Extraído de http://www.santuariodecaninde.com/paginas.php?chave=historias-de-sao-francisco acesso em 29 set. 2011.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O segredo de São Francisco de Assis

Tristão de Athayde

Num mundo que se cristalizava em lutas, em abusos de toda espécie, em indolências e ceticismo, Francisco não vinha trazer-nos nada de inédito, como originalidade de pensamento, como fórmula de restauração, como remédio aos males do tempo.

São acordes seus biógrafos em dizer que os seus discursos nada tinham de original. Procurando os seus discípulos reproduzi-los, sentiam sempre a falta de qualquer coisa... mas que era tudo. Nesse mundo, em que a fama das universidades começava a espalhar-se, e Bolonha, ali perto, já irradiava o seu saber de juristas e teólogos, não vinha discutir teologia ou combater infiéis.

Vinha apenas, no meio das lutas em que se debatiam as cidades e as famílias, em meio da grande decadência de costumes e dos abusos dos grandes contra os pequenos, vinha penas trazer essa dádiva simplíssima: uma vida humana a serviço dos homens. Vinha viver, no meio dos homens, como se viera de um mundo superior a eles.

Quando todos se debatiam entre mil e um laços que os prendiam a toda sorte de pequenos senhores na terra, veio esse filho fugido de casa dos pais, para entregar-se ao Pai supremo, sem nome e sem instrução, mostrar que a suprema felicidade estava em sacudir o peso de todos esses pequenos barões terrenos, para se submeter a um só Príncipe invisível. No meio de uma vida em que se perdera a memória das coisas simples, veio mostrar o sabor de todas as verdadeiras essências imortais, a luz, o fogo, a água, o ar, o som, a palavra. No meio de uma sociedade áspera no ganho, veio mostrar a delícia de não possuir.

No meio do furar de todas as violências, veio mostrar o milagre da paz e da fraternidade. No meio de uma era complicada, racionadora, cheia de hierarquias e preconceitos, veio mostrar a originalidade das coisas simples. Contra os raciocínios intermináveis, mostrou a eloqüência das soluções intuitivas. Contra as rígidas hierarquias, a igualdade no bem e na pureza da alma.


Contra os preconceitos, a coragem de agir desassombradamente, por uma causa mais alta que todos os mesquinhos interesses terrenos. Esse, talvez, o maior segredo de São Francisco de Assis. Onde outros deram ou dariam o seu saber, a sua astúcia, a sua coragem, ele deu apenas isso: o seu coração. Esse isso revolucionou a História.

Publicado originalmente no Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 4 de outubro de 1981.
Extraído de: PICCOLO, Frei Agostinho Salvador, OFM. Perfil do educador franciscano. Bragança: EDUSF, 1998. P. 89-91.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A saudação de Paz e Bem

Na época em que São Francisco nasceu o bispo de sua região era conhecido como, Mestre Rufino. Ele escrevera um tratado chamado “De Bono Pacis”, “O bem da paz”, documento que influenciou o pensamento místico sobre o significado da paz, em Assis/Itália.
Havia diferentes formas de desejar a paz, dentre elas, a expressão: Paz e Bem!

1. O significado da Paz para São Francisco

Certamente, o evangelho de São Lucas (10,1-5), que fala sobre o envio dos discípulos, influenciara Francisco a convidar os frades a iniciar as pregações anunciando a paz, abrindo os corações para que as pessoas acolhessem a palavra de Deus.
Nas Fontes Franciscanas, por três vezes, vemos referências ao cumprimento da paz:
a) Legenda Maior (LM 3,2) - “Em cada pregação sua, saudava o povo no início do sermão, anunciando a paz, dizendo: ´O Senhor vos dê a paz´".
b) Legenda dos Três Companheiros (LTC 26) – “... em toda pregação sua, saudava o povo, anunciando a paz no início da pregação”.
c) Compilação de Assis (CA 101,14) – “O senhor revelou-me que como saudação devia dizer: ´O senhor te dê a paz´".

2. Um Deus que é o Sumo Bem


O “Bem” a que São Francisco se refere é o Sumo-Bem, Deus. Por isso, desejar a Paz e o Bem, quer significar também, o desejo de que tenhamos Deus como centro das nossas vidas. Isso deve ser fruto de um projeto de vida. E foi essa a experiência vivida por Francisco.
Citações nos escritos franciscanos, na qual São Francisco refere-se a Deus como o Bem maior, o Sumo Bem:
a) Louvores a Deus Altíssimo (LD 3) – “... vós sois o bem, todo o bem, o Sumo Bem, Senhor Deus vivo e verdadeiro”.
b) Paráfrase ao Pai Nosso (PN 2) – “...porque vós, Senhor, sois o sumo e eterno bem, do qual procede todo o bem, sem o qual não há nenhum bem”.
c) Louvores a serem ditos em todas as horas canônicas (LH 11) – “... altíssimo e sumo Deus, todo o bem, sumo bem, bem total...”

3. A paz e o bem como um estilo de vida

Para Francisco, para toda a Família Franciscana e para os que costumam utilizar a saudação “Paz e Bem”, estes dizeres devem ser mais do que um cumprimento formal, devem ser uma opção por um estilo de vida, em Jesus. Como observamos nos tópicos 1 e 2, estas expressões trazem um dinamismo de conversão e um convite para vivermos em Deus, com Deus e por Deus.
O próprio São Francisco exortou aos que o acompanhavam, que a paz que anunciavam, deveriam a ter no coração. E que esta saudação, abriria os corações para que encontrassem a verdadeira paz. Porém, não se sabe com exatidão se ele usou esta saudação, da mesma forma que utilizamos hoje.
4. “Paz e Bem” como cumprimento

Na entrada da capela do Seminário [Franciscano Frei Galvão, Guaratingueta], um totem escrito “PAZ E BEM!” dá as boas-vindas a todos os devotos de Frei Galvão, saudação comum no meio franciscano, em todo o mundo.

Por Giovanni Bezerra, especial para o site [do Seminário]


Extraído de http://www.seminariofreigalvao.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=104:a-saudacao-de-paz-e-bem&catid=2:ultimas-noticias&Itemid=5 acesso em 27 set. 2011.

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