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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Ecologia e cristianismo: uma grande liturgia cósmica

"O Cosmos é a obra de Deus e exige uma aproximação contemplativa. Tudo é uma grande liturgia cósmica. A adoração nos leva a apalpar o passo de Deus por meio do Universo. Corresponde a nós captar e celebrar essa grande festa cósmica.."

Essa é a opinião de Manuel Gonzalo, em artigo publicado no número coletivo de 13 revistas teológicas da América Latina sobre ecologia, por iniciativa da Comissão Teológica Latino-Americana da Associação Ecumênica de Teólogos e Teólogas do Terceiro Mundo (Asett). O número também reúne artigos de Leonardo Boff, Faustino Texeira, Giannino Piana e Luis Diego Cascante, além de José Maria Vigil, coordenador da Comissão Teológica.

O texto foi publicado na revista Adista, 29-03-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O caminhar entre a ciência e a religião foi tenso durante vários séculos. As duas foram por caminhos separados, e a agudização de posturas por ambas as partes fez mal ao próprio ser humano. Por um lado, caminharam os dados concretos sobre a realidade do mundo, e, por outro, as explicações sobre a relação do existente com Deus. Por sua vez, a Terra pagou fortemente os efeitos dessas tensões. (...)

A ciência (...) tenta explicar como funcionam as coisas, mas não está capacitada a dar um sentido a elas. A religião se preocupa mais do sentido, mas não está capacitada a analisar como os fatos ocorrem. De todas as formas, ambas são realizadas pelo ser humano e são expressão de sua busca fundamental: encontrar um sentido a sua estada neste planeta e produzir uma resposta positiva tanto para a convivência, quanto para o tipo de relação que mantém com o planeta. (...)

Traços do universo

Cada vez é maior o consenso na comunidade científica sobre traços que aparecem nesta história do Universo. Dentre eles, vou assinalar 13 que considero mais significativos.

1. Um primeiro traço, ao que se chegou com as contribuições do astrônomo Hubble e sua constatação do deslocamento para o vermelho do espectro luminoso das galáxias, é o da expansão do Universo. Esse dado, originado no começo dos anos 30, revolucionou a compreensão estática que se tinha do universo. Anos depois, ia tomando forma a teoria do Big Bang que expressa como, há cerca de 15 bilhões de anos, o Universo começou como uma grande explosão. (...) Então surgiram tanto o espaço, quanto o tempo. Desde esse começo, pode-se falar da história do Universo. Expansão e esfriamento são duas características dele.

2. Também se trata de um Universo que foi se abrindo, revelando, à medida em que o tempo ia passando. Uma boa imagem para entendê-lo seria observar pela primeira vez o nascimento de uma flor. Não se sabe dela até que, por fim, ela desenvolveu todas as suas pétalas, sépalos, aparelho reprodutor e de mais partes. Trata-se de um processo que causaria admiração diante das novidades que iriam aparecendo. Para fazer outra analogia, hoje se poderia falar do Universo como de um embrião.

3. Outro traço do Universo é a criatividade desenvolvida. O processo foi lento, mas contínuo. Primeiro foi a energia, depois a matéria, depois elementos como o hidrogênio e o hélio, as estrelas e as galáxias, depois a explosão das estrelas supernovas capazes de produzir os elementos mais pesados da tabela periódica, depois o Sol e a Terra, depois a vida. O Universo manifestou uma criatividade transbordante. Cada evento ocorreu em seu momento. Tratam-se de processos irreversíveis.

4. Também aparece o traço do crescimento da complexidade. Sabemos que uma ameba é menos complexa do que um caracol. Pode-se afirmar que ela possui menos informação. (...) Estamos imersos na complexidade cósmica. A tendência à complexidade aparece desde o começo, desde as partículas elementares e o valor das quatro forças fundamentais (a gravitação, a eletromagnética, a nuclear forte e a nuclear fraca). Se entendermos a complexidade como a capacidade para "surpreender" o observador, não seria de se estranhar que vivêssemos com a boca aberta diante de tudo o que nos rodeia.

5. Outro traço é a aparição de propriedades emergentes. Aqui, cumpre-se o ditado de que "o todo é maior do que a soma das partes". Por exemplo, um elétron e um próton separados não é a mesma coisa que ambos relacionados e dando lugar ao átomo de hidrogênio. O hidrogênio e o oxigênio separados também não têm as mesmas propriedades que ambos combinados produzindo a molécula da água. E se analisarmos a aparição da vida, vemos que as moléculas não têm vida, mas juntas em diferentes estruturas geram algo que é capaz de se reproduzir, de se alimentar, de interagir com o meio ambiente e de ter autonomia. Surge algo com coerência de comportamento desde componentes que apresentam uma incoerência inicial.

6. O Universo apresenta outro traço, ao qual Teilhard de Chardin foi muito sensível: foi-se produzindo um crescimento da consciência. Na vida animal, o sistema nervoso aparece em um processo de complexificação desde as bactérias, passando pelos invertebrados, incrementando-se nos mamíferos e chegando à sua máxima expressão no cérebro humano. Trata-se de um Universo que se tornou reflexivo. Ernesto Cardenal se questionará: "Que Prêmio Nobel nos explicará por que estamos em um Universo que aprendeu a pensar?".

7. Os humanos se encontram entre dois grandes infinitos: o infinitamente grande – o Cosmos, as galáxias, as estrelas, o sistema solar – e o infinitamente pequeno – os quarks, prótons, elétrons, nêutrons, fótons, neutrinos, átomos, moléculas. A vida emerge como uma frutífera interação entre esses dois infinitos. Por sua vez, irá produzir um novo infinito: o infinitamente complexo – como o cérebro humanos e os ecossistemas.

8. A Demócrito é atribuída a sentença: "tudo chega por azar e por necessidade". O caminhar do Universo é entendido por muitos como uma combinação de azar e de necessidade. No azar, assume-se aquilo que houve de aleatório, de jogo, de oportunidade, de ocasião, de casualidade durante os 15 bilhões de anos. Dentro da Teoria do Caos, lembra-se como um fenômeno mínimo pode ter repercussões enormes, como o bater de asas de uma borboleta que gerasse um furacão que se manifestaria a milhares de quilômetros. Há uma amplificação dos fenômenos. Por isso, não se pode predizer exatamente o porvir. A partir desses enfoques, estamos longe do mecanicismo fixista de séculos anteriores. Na necessidade, em troca, compreende-se o cumprimento das leis físicas, isto é, o curso imposto pelo valor que as quatro forças fundamentais tomaram desde o primeiro milissegundo que se seguiu à Grande Explosão. O Universo manifesta sua invectiva por meio do azar e da necessidade.

9. Outro traço é constatar como aparece uma longa quantidade de muitas casualidades. No Universo, não foi possível um passo posterior sem que fossem dado os anteriores. O próprio físico Stephen Hawking mostra que qualquer mudança mínima que houvesse ocorrido no valor atual das quatro forças fundamentais teria impedido o fato de estarmos aqui como seres humanos povoadores do planeta Terra. Outro tanto teria ocorrido se tivessem sido diferentes tanto a velocidade de expansão do Universo, quanto a distância entre o Sol e a Terra, assim como o raio da Terra. (...) Para a evolução dos humanoides, foi positiva a falha que apareceu no leste da África que percorre o Egito até a Tanzânia. Ao leste da falha, devido à seca, a floresta se converteu em savana, fazendo com que os símios superiores se vissem obrigados a descer das árvores.

10. Analisamos a história do universo "a posteriori". A partir da nossa inteligência, seguimos a pista aos passos gerais que permitiram o surgimento da inteligência. Do chamado Princípio Antrópico, afirma-se que todo o longo caminhar desde o Big Bang permitiu a aparição do ser humano. E. Barrow expressa que "não é só que o ser humano esteja adaptado ao Universo. O Universo está adaptado ao ser humano". Há uma mudança de enfoque. Aqui, a vida humana não aparece como um processo caótico marcado por sobressaltos improváveis. Pelo contrário, se entenderá que o Universo "desejava" a aparição do humano. "Era preciso que a vida e o pensamento estivessem inscritos nas potencialidades do Universo primitivo" (Hubert Reeves, astrofísico). Reeves também afirma: "As propriedades da matéria são exatamente as que asseguram a fertilidade do Cosmos e a aparição da consciência".

11. O que ocorre em cada momento? Há um leque de possibilidades pela frente. O Universo joga, mas manifestou que sabe jogar muito bem. Soube tirar vantagem, por exemplo, tanto da mínima quantidade de matéria maior do que a antimatéria – fenômeno que ocorreu antes do primeiro milissegundo – como da aparição das circunvoluções cerebrais. A evolução do Universo aparece como uma atualização progressiva de suas potencialidades. Hubert Reeves afirma que a matéria, "empurrada pelo que poderíamos chamar de um poderoso fermento cósmico, tende a alcançar estados mais e mais estruturados".

12. Outro traço no processo de crescimento da diversidade de formas de vida é a relação que existe entre tudo. Nenhuma espécie é autossuficiente. Todas são interdependentes. Além de se dar uma relação entre as grandes redes de seres vivos, também existe outra entre as formas vivas com as não vivas. Oceanos, atmosfera, composição de solos, temperatura, tudo está relacionado como um grande tecido que faz da Terra um planeta excepcional com vida. (...)

13. Na hipótese chamada Gaia, proposta por Loveloch, propõe-se uma aproximação ao planeta Terra considerando-o como um ser vivo. Aparece o planeta como um sistema automantido, que manifestou sua capacidade de autoequilíbrio.

Todos esses traços expressam como a comunidade científica está tendo uma aproximação diferente não só com relação ao planeta Terra, mas também à vida, às coisas, ao ser humano. Longe de se fechar só em explicações científicas, cada vez gera mais interrogantes metafísicos.

(...) É necessário assumir a mudança na visão do cosmos que a ciência moderna apresenta e refletir a partir daí sobre Deus. Nossa imagem de Deus também está em "expansão". A cosmologia moderna exige uma teologia atualizada. Essa mudança já está levando a um desenvolvimento das capacidades de admiração e escuta frente ao Universo, a atitudes mais contemplativas, a responsabilidades novas para com o planeta e a vida nele, à compreensão de um Deus dinâmico que ama o mundo. É tarefa pendente construir uma nova espiritualidade mais conforme à nova visão do cosmos.

Rumo à revolução ecológica

Nadamos na complexidade. Dito de outra forma, nadamos no mistério. Das mudanças apresentadas na ciência e nas religiões, está se abrindo o horizonte de compreensão desta época. Fazemos parte da revolução cibernética que é continuadora da revolução tecnológica. Esta substituiu a revolução agrária. Hoje, as portas vão lentamente se abrindo à revolução ecológica.

Nada do que acontece na imensidão do Cosmos nos é indiferente. (...) Tudo está interconectado. Para descobrir por que um ser está vivo é necessário olhar muito longe.

Como animais conscientes, somos o universo que entende a si mesmo. O poeta Ernesto Cardenal nos ajuda a entender, em seu Cântico Cósmico, que ao olhar as estrelas somo hidrogênio contemplando hidrogênio.

Essa revolução ecológica exige uma mudança de mentalidade ao Cosmos. Que novas atitudes são necessárias para essa mudança? Gostaria de assinalar cinco que me parecem chaves:

1. Respeito. (...) Respeitaremos a Terra se a entendermos como um sistema esgotável que é preciso manter e aprendermos a consumir menos, a reutilizar mais e a reciclar ao máximo.

2. Veneração. A ciência está nos ajudando a descobrir como tudo é grande e complexo. Nada é simples, vulgar, sem valor. Uma folha de árvores possui muita sabedoria. (...) A veneração nos leva a caminhar pela Terra "tirando-nos as sandálias", como Moisés diante da sarça ardente (Ex 3, 2). Uma pedra, um riachinho, uma nuvem caprichosa, um pássaro convertem-se em veículos de sabedoria. É necessário que nos eduquemos para captar a mensagem que eles nos transmitem e aprender a desfrutar tudo o que nos rodeia. Todo o Cosmos é como um grande livro que precisa ser lido.

3. Comunhão. (...) Se entendêssemos bem o que implica a história do Universo, descobriríamos que, nas estrelas, somos irmãos de tudo. A diversidade e a variação presentes em nosso universo atual estiveram juntas e não diferenciadas no momento do Big Bang. Ao abrirmo-nos à noite estrelada, abrimo-nos ao nosso passado. Podemos sentir como os átomos que fazem parte hoje do nosso corpo surgiram da explosão de uma supernova. O Universo nos gerou no calor das estrelas que morreram para produzir átomos mais pesados necessários para que a vida aparecesse. Sem a explosão das estrelas supernovas, não teria havido vida posteriormente. Cada um de nós está aparentado com tudo. Por sua vez, aquilo que aconteceu nas savanas africanas há cerca de quatro milhões de anos é a recordação próxima da nossa irmandade como espécie humana. (...)

4. Adoração. (...) As religiões, há muito tempo, captaram essa relação de tudo com Deus. Longe de fazer parte da "leveza do real", fazemos parte da "densidade do real", do sagrado que é tudo. Como já afirmava São Paulo: "Tudo foi criado por Ele e para Ele" (Col 1, 16). Teilhard falou da "santa matéria". O Cosmos é a obra de Deus e exige uma aproximação contemplativa. (...) Tudo é uma grande liturgia cósmica. A adoração nos leva a apalpar o passo de Deus por meio do Universo. Corresponde a nós captar e celebrar essa grande festa cósmica.

5. Nova identidade. (...) Já não se trata unicamente de conseguir uma identidade a partir da própria família, nem a partir do grupo cultural ao qual se pertence. A história do Universo se revela como parte da nossa própria história, da nossa própria identidade. Não é que tenhamos em nossas vidas 20, 40 ou 70 anos. Cada um de nós tem 15 bilhões de anos. Viemos de muito longe. Estamos orgulhosos de saber de nossas origens. (...) O fato de conhecer e assimilar essa perspectiva nos faz ver que a nossa existência é preciosa. Como afirma H. Reeves: "levamos o fermento cósmico em nós mesmos. Ele nos incita a promover a maravilhosa odisseia da complexidade cósmica". (...)

No planeta, existem muitas injustiças. Hoje, o progresso é imenso, mas profundamente desumano. (...) Em troca, a nova identidade buscada não só ancora profundamente as nossas raízes no passado, mas também se projeta ao futuro. Lança-nos em uma tarefa responsável para com a Terra e a vida. É um chamado a responder diante dos dois grandes sujeitos que sofrem opressão humana hoje: os pobres da Terra e a própria Terra. É o chamado à ação a partir do "grito dos pobres e o grito da Terra" (L. Boff).

Contribuições entre cristianismo e ecologia

(...) No cristianismo, herdamos o gosto pelo novo. Jesus esteve aberto a novos desafios e convidou seus seguidores a interpretar os sinais dos tempos. Sem dúvida nenhuma, hoje, na consciência ecológica, o Espírito de Deus está soprando. É um convite a nos posicionarmos de maneira diferente no Universo e a levar a sério a responsabilidade que temos sobre a criação.

Hoje, a revolução ecológica é, por sua vez, uma revolução cultural. Convida a entender uma nova localização do ser humano na Terra. Exige novas compreensões e novas respostas. (...)

A ecologia se converte, por sua vez, em uma aventura espiritual. Podemos ir construindo uma espiritualidade ecológica que nos ensine a abraçar o Cosmos e o Deus do Cosmos. Nosso caminhar como cristão pode se ver profundamente enriquecido a partir desse desafio. A resposta, mais uma vez, está em nós.

Para ler mais:

Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=31161 acesso em 5 abr. 2010.
Foto: Un Arc-en-ciel devant une maison dans les champs de canne. Sainte-Marie, Réunion, France / Bruno Navez. 14 fev. 2008. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Rainbow_over_the_house_in_the_sugar_cane_fields.JPG acesso em 5 abr. 2010.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Desafios para o cristianismo no alvorecer do novo milênio

Frei Eduardo F. Melo, OFMcap*
Acabo de ler a obra primordial do sociólogo brasileiro Ricardo Mariano: Sociologia do Novo pentecostalismo no Brasil. Com a leitura deste livro do renomado pesquisador do fenômeno religioso no país, percebo o intenso desespero que muitos ministros do Evangelho vêm sofrendo por conta dos rumos obscuros e inóspitos da religiosidade pós-moderna. Pude abrir meu campo de reflexão e de análise sobre a fé cristã a partir de alguns referenciais que a leitura deste livro trouxe para mim. Por isso, hoje quero compartilhar com você o fruto desta reflexão....

Vivi parte de minha adolescência nas décadas de oitenta e noventa. Naqueles anos, o rock nacional e as bandas do famoso movimento grunge de Seattle estouravam nas rádios e na MTV. Acompanhei por quase 10 anos a evolução de diversos gêneros musicais dentro do universo do Rock em geral. Fui a shows de diversas bandas consideradas por alguns como as mais sinistras possíveis. Lembro-me de uma vez que fui a um festival de bandas de "noise-core", um estilo musical altamente agressivo e beligerante no município onde morava. Os headbangers, exaltados com a gritaria e com a rapidez tremenda das guitarras, pulavam monstruosamente dos palcos e se digladiavam como loucos numa jaula onde a violência e a histeria soavam como diversão. Um lugar onde a droga e a prostituição eram marcas obrigatórias de um público que se rebelava contra a vida e contra Deus.

O universo intelectual, as academias e as rodas literárias daquele tempo discutiam o existencialismo de Sartre e a filosofia social da escola de Frankfurt. As mulheres se libertavam lendo Simone de Beauvoir. Che Guevara inspirava os ideais revolucionários dos latino-americanos. Os valores defendidos pelo Partido dos Trabalhadores (PT) ainda eram o motor e a alavanca dos sonhos utópicos de libertação nacional.

Neste tempo (década de 80), as drogas se tornaram uma obsessão mundial. O haxixe e a maconha deixaram de ser consumidas no submundo da marginalidade e dominaram as universidades das Américas. Tomavam-se doses mínimas de LSD para viajar por horas no mundo alucinógeno. Os picos de heroína nas veias abreviavam a vida de milhares de pessoas. Pink Floyd era a banda do momento...

Hoje, um pouco mais velho percebo que os tempos mudaram. A rebeldia dos jovens aquietou-se, os heróis comunistas ruíram; o consumismo substituiu as antigas aspirações revolucionárias e a techno music substituiu o rock nas festas Rave espalhadas pelo país. Aquelas drogas que entorpeciam e deixavam seus usuários num estado zen, foram suplantadas por outras que ativam, energizam e potencializam o ser humano. Hoje, a busca do prazer compulsivo e a pornografia implícita reinam num mundo virtual que não revela nem identidades nem endereços. Pessoas se desgastam numa busca desenfreada de poder e de consumo. Vemos uma geração que perde sua alma sem perceber. E isso é terrível...

Hoje, substituíram-se os tóxicos que causavam torpor alucinógeno por outros que oferecem uma sensação de poder e de autonomia. Assim, vivemos um período em que quase não se fala mais em heroína ou em LSD. As drogas da moda são a cocaína e sua versão mais barata, o crack. E absurdamente cresce a busca pelas drogas sintéticas, como o ecstasy, que prometem um melhor desempenho para o viciado, inclusive sexual.

Percebo que a religião também mudou muito. Naqueles anos, predominava entre os jovens o conceito de que a religião servia aos interesses das elites, pacificando os oprimidos. Era década de oitenta, e eu pequeno, via as revoltas estudantis e as marchas de protesto pela tela da TV e me assustava com aquele espírito hard e underground que pairava na face dos estudantes. Os debates reforçavam o pensamento de Karl Marx que em 1844 afirmou:

"O sofrimento religioso é, a um único e mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento do povo".

Marx acreditava que a religião é o único suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições desalmadas. Seus contemporâneos repetiram sua conclusão: "A religião é o ópio do povo". Confesso que desde que ouvi esta frase pela primeira vez no colégio, sempre fiquei intrigado com ela. Confesso também que minha experiência religiosa na adolescência não foi das mais perfeitas. Mas os tempos mudaram. Hoje olho para meu passado remoto e reconheço como tudo foi importante ter acontecido daquela forma. Mas voltemos ao assunto...

Marx afirmava que a religião não é um narcótico qualquer. Ele a identificava com um entorpecente poderosíssimo de seus dias: o ópio. As condições sociais perversas da Europa no século XIX condenavam os trabalhadores a pouco mais que escravos. Homens e mulheres enfrentavam uma situação de sobre-vida em seus trabalhos, sufocados pelo calor e pela má conservação das fábricas, chegando a trabalhar 18 horas por dia.

Marx entendia que as mesmas condições também produziram uma religião que prometia um mundo melhor só para a próxima vida. Depois que li essas teorias, disse pra mim mesmo que precisava rever meus estudos filosóficos e políticos, tamanha era a pertinência dessas assertivas. Hoje tento escrever sobre isso, procurando identificar as possíveis coerências internas do pensamento marxista. Mas continuemos...

Assim, tanto ele como seus seguidores difundiram que a religião não é apenas uma ilusão, mas que ela cumpre uma função social importante e essencial: distrair os oprimidos e apaziguar as consciências diante da possível tragicidade do momento presente (tal como já havia afirmado Freud na sua crítica à religião).

Exatamente por isso, Marx afirmava que a religião é um narcótico que não apenas alivia a dor do trabalhador, como lhe embriaga, roubando-lhe o poder de transformar sua realidade. Para ele, a esperança religiosa era um ópio que prometia felicidade no porvir, adiando o furor revolucionário. O pior é que de alguma forma, ele tinha razão em suas análises. A igreja cristã de seus dias realmente estava decadente e, aliada à aristocracia, desempenhava exatamente esse papel anestesiante. Mas continuemos nossa reflexão.

Porém, com a pós-modernidade, a religião já não cumpre essa tarefa entorpecente do ópio. No ocidente cristão (americanizado), a proposta religiosa vem crescentemente se tornando mais parecida com uma outra droga: a cocaína. O neoliberalismo, pai deste materialismo consumista tão bem representado no fascínio pelos shoppings centers e pelas grifes, já entorpece como o ópio. Por outro lado, a religião de hoje procura excitar e produzir sensações de poder parecidas com a da cocaína. Interessante...

Venho pesquisando o universo religioso evangélico há alguns anos. Reconheço que minhas conclusões ainda são preliminares, e seguindo a linha dos bons sociólogos desta geração, constato certas tendências no protestantismo brasileiro (cópia barata do modelo americano), em especial, que algumas igrejas neopentecostais - como a polêmica Igreja Universal do Reino de Deus - objeto de meu estudo, se multiplicam alicerçadas em três paradigmas centrais para a vida do "crente":

- Promete que ele nunca mais vai ter doenças;
- Promete que o crente vai pisar a cabeça do diabo e nunca mais sofrer;
- Promete que ele vai ficar rico porque é filho de Deus e não merece o sofrimento;

Essas Igrejas repetem exaustivamente que ninguém precisa transferir para a eternidade o que pode ser reivindicado já nesta vida. E isso é alarmante para o evangelho verdadeiro! Essa é a tese de um dos grandes evangelistas americanos, sr. Kennet Haggin, fundador da teologia da prosperidade iniciada nos idos da década de 40 nos EUA, e que veio aportar aqui no Brasil através das famosas igrejas pentecostais Assembléia de Deus (Gunnar Vingren), Igreja Deus é Amor (pr. David Miranda) e Igreja Universal do Reino de Deus (bispo Macedo).

Algumas Igrejas insistem na promessa feita a Israel de que o fiel é "cabeça e não cauda". Assim o crente que freqüenta os cultos da prosperidade, por exemplo, recebe semanalmente uma injeção de cocaína espiritual no sangue, fazendo com que se sinta o dono do mundo e o detentor dos poderes que podem lhe garantir a felicidade plena, em todas as áreas de sua vida (econômica, afetiva, física e espiritual). Mas isso é uma mentira....

POSSO AFIRMAR COM TODA CERTEZA QUE ESSA MENSAGEM É TÃO PERIGOSA E SORRATEIRA QUE DARIA ATÉ PRA ENTRAR COM UM PROCESSO NO PROCON CONTRA A PROPAGANDA ENGANOSA QUE VEM SENDO FEITA EM NOME DE DEUS POR CERTOS PASTORES EVANGÉLICOS EM ALGUMAS IGREJAS HOJE!!

Nem que seja por apenas alguns minutos de culto, essa espécie de "CRENTE" sonha ingenuamente com tudo o que os seus olhos gulosos viram as empresas de marketing oferecerem na televisão. E isso é tenebroso!!! Tenebroso porque estão colocando o patrimônio da Fé cristã numa tremenda enrascada, barateando a mensagem do Evangelho de Cristo com uma promessa mentirosa e tacanha.

Hoje posso afirmar com certa propriedade: algumas igrejas cristãs nesse início de milênio se transformaram em verdadeiras ilhas da fantasia capitalista. Simplesmente porque, nas pesquisas de campo que venho realizando nestes últimos anos já vi ministros sagrados enganando fiéis, extorquindo dinheiro e cativando pessoas pobres e despreparadas emocionalmente (que na maioria das vezes vão até lá bem-intencionadas, porém não menos gananciosas), prometendo-lhes sucesso e bem estar, mas isso é um absurdo.

Prometer em nome de Deus uma coisa que não se pode dar é crime. Crime contra a pessoa do crente e um assinte à pessoa de Deus!

De certo modo, podemos afirmar que essas igrejas estão entrando num processo perigoso e sutil, tornando-se mesmo um ópio para grande parte da população brasileira, que empobrecida e desanimada com todo o caos social reinante no país, busca nesses templos um refúgio e um alívio pra lidar com as mazelas que tocam o coração e a alma humana. As últimas pesquisas realizadas pelo censo do IBGE de 2000 (presente no Atlas da Filiação Religiosa Brasileira- ed. PUC rio), já afirma que o número de evangélicos chega aos 30 milhões de pessoas no país.

Empresários falidos, artistas em fim de carreira, jogadores de futebol mal-sucedidos, empregados sem qualificação, correm para as infindáveis campanhas religiosas promovidas por essas igrejas buscando reverter a pretensa "maldição" que paira sobre suas vidas. E, depois de espoliados e extorquidos, são devolvidos à dura realidade da vida, obrigados a encarar a triste chegada da segunda-feira.

Dependurados nos trens suburbanos ou parados nas enormes filas pelas calçadas atrás de um emprego, eles sofrem tristes e deprimidos como os foliões do carnaval que voltam para seu destino na madrugada da quarta-feira de cinza. Sozinhos, enfrentam a dura realidade de que não são reis ou rainhas, mas apenas sub-empregados, obrigados a viverem com um salário mínimo miserável, num mundo que os exclui sem dó nem piedade...

Infelizmente chego à conclusão de que hoje, a própria definição do que seja a FÉ vem sofrendo enormes mudanças. Antigamente entendia-se fé como uma adesão a um conceito teológico ou mesmo como uma habilidade sensitiva de perceber o mundo espiritual. Pessoas de fé discerniam as ações de Deus e do mundo espiritual com maior acuidade e prudência. Eram pessoas que confiavam no caráter de Deus, mesmo sem evidências que comprovassem sua palavra. Tenho pessoas na minha família que revelam e muito essa experiência com Deus...

Hoje se entende FÉ como uma mera capacidade de instrumentalizar os poderes de Deus egoisticamente. Por isso vemos cristãos intrépidos e ao mesmo tempo, vorazes em defender sua religião, que fazem de tudo para demonstrar sua diferença estética em relação aos outros, mas com pouco conteúdo doutrinário e pouca demonstração de verdade e de transparência de caráter.

Nesse aspecto temos de concordar com Marx que "fé" e cocaína possuem enormes semelhanças. Simplesmente porque dão uma falsa sensação de poder e geram pessoas artificialmente soberbas. Mas eu não tenho dúvida de que tanto a ressaca da cocaína como a ressaca da fé pós-moderna será terrível, porque vem sempre acompanhada de depressão e desengano. Talvez seja por isso que os cultos de determinadas igrejas evangélicas brasileiras estão sempre cheios. Igrejas abarrotadas de gente que não se satisfez totalmente com o efeito amortizador de promessas falsas e inóspitas.

Por isso, creio que hoje precisamos mais do que nunca, na Igreja cristã deste novo milênio, resgatar o cerne do Cristianismo verdadeiro:

A MENSAGEM DE QUE DEUS NOS AMA E NOS QUER BEM, SEM ESPERAR NADA EM TROCA. APESAR DE TODA APARÊNCIA DE PERVERSIDADE QUE HÁ NO MUNDO E NO CORAÇÃO HUMANO, PRECISAMOS VOLTAR A AFIRMAR QUE DEUS AINDA ACREDITA EM NÓS, E VEM APOSTANDO TUDO PARA QUE DE FATO SEJAMOS PARTE DE SUA FAMÍLIA, A FIM DE QUE CONSTRUAMOS UMA VIDA MAIS BONITA E PLENA DE SENTIDO.

Assim, o tóxico religioso de hoje é sempre mais estimulante. E é nesta perspectiva que os novos mercadejadores da fé precisaram redefinir, inclusive, a imagem de Deus.

Porque para alguns pastores evangélicos de hoje, a divindade pós-moderna só existe para servir aos caprichos das pessoas. Os cultos se transformaram em centros de aperfeiçoamento e aprimoramento humano. As igrejas deixaram de ser espaços para se cultuar a pessoa de Deus, seu caráter e sua ação na história, para se tornarem centros de especialização sobre como ensinar as pessoas a manipularem a Deus.

As liturgias espiritualizam as técnicas mais populares de como "liberar o poder de Deus", "afastar encostos", "tomar posse dos direitos", "conquistar gigantes". As pessoas se aproximam de Deus cheias de direitos, vontades e desejos, acreditando que são o centro do universo e que tudo e todos lhes devem obrigações. Perde-se o estado de "maravilhamento", de reverência e de submissão ao Eterno.

O que podemos afirmar, avaliando alguns segmentos protestantes no atual mercado religioso deste início de milênio, é que o propósito de toda atividade religiosa se tornou homocêntrica e nunca teocêntrica. Deus está a serviço dos caprichos humanos, e o indivíduo não percebe a necessidade de colocar sua vida à disposição dos princípios do Criador, porque só Ele pode lhe garantir a possibilidade de construção de uma vida autêntica e verdadeira.

De certa forma, algumas igrejas evangélicas atualmente acabaram se transformando em balcões de serviços religiosos e a relação do ministro com o fiel acabou se tornando a mesma do empresário para com o cliente. Redobram-se os esforços de oferecer uma maior gama de atividades que agradem os fiéis, que a esta altura e sem perceberem, tornaram-se ferozes consumidores religiosos com um nível de exigência tremenda.

Meu amigo e minha amiga, se você chegou até aqui acompanhando meu raciocínio e minhas constatações a respeito da crítica à religiosidade cristã contemporânea, eu quero lhe apresentar alguns argumentos a respeito da ética cristã vivida por Jesus, pertinente a esta temática:

Fim de análise de um angustiado...

1- NA LÓGICA DE JESUS, ÉTICA E RELIGIÃO NUNCA PODEM SE CONTRAPOR!

Acredito que a genuína mensagem do evangelho não pode ser comparada ao ópio (como fez Marx) e nem à cocaína (como fazem os pregadores evangélicos da religiosidade pós-moderna). Afirmo isso, simplesmente porque Jesus Cristo não prometeu um celeste porvir que acabaria com todo sofrimento existente na terra e que anestesiaria as consciências das pessoas, aliviando sua lutas. NÃO!

"Eu vos falei estas coisas para que tenhas de fato, a paz em Mim. Porque no mundo tereis muitas aflições. Mas tende coragem! Eu venci o mundo!"
( João 16, 33 )

Seus discípulos foram convocados a serem o sal da terra e luz do mundo (Mt 5, 13-16), a fim de enfrentarem os reis poderosos e transformarem a realidade no aqui e agora da História. Antes que se levante o sol da justiça e que o Senhor volte trazendo salvação sob suas asas, Ele comissionou sua igreja a enfrentar as estruturas humanas que produzem a morte e declarar guerra ao próprio inferno (Mt 28, 16-20). Assim, não posso temer que o meu amanhã seja obscuro e tenebroso.

Do mesmo jeito que Jesus teve de enfrentar seus opositores para conquistar os louros da vitória, embora isso tenha lhe custado a vida, assim eu quero enfrentar os terremotos e avalanches que vierem sobre mim. Precisamos voltar a meditar na riqueza da presença de Jesus em nossas vidas, que como um amigo e companheiro de jornada, está orando ao pai continuamente por nós e pela nossa felicidade, sem com isso, anular a nossa liberdade e o nosso querer.

2- PARA JESUS, FÉ GENUÍNA E VERDADEIRA NÃO TEM NADA A VER COM FUGA DO SOFRIMENTO NA VIDA.

Em seu caminhar sobre a terra, tampouco Jesus prometeu que nos tornaríamos os donos do mundo, ricos e prósperos, e nunca mais padeceríamos das doenças e dos traumas humanos que afligem grande parte da população neste planeta. Fomos chamados a encarnar o mesmo sentimento e a mesma disposição que tinha o coração de Cristo, que sendo de forma divina não teve por usurpação ser igual a Deus, mas tomou a forma de servo, humilhando-se até a morte e morte de cruz, padecendo as mesmas dores e temores que todos nós padecemos todos os dias (Filipenses 2, 5-8), e sofrendo na pele as angústias que rondam a mente humana todos os dias.

Diferentemente de todas as outras religiões construídas na história da humanidade, o cristianismo se ancora na premissa de que Deus andou entre nós fazendo o bem, de que Deus teve os mesmos sentimentos e dores que cada um de nós sente no próprio coração, e que precisou por isso, como humano que era, passar pelos mesmos processos pedagógicos de aperfeiçoamento que cada um de nós passamos nesta vida:

"Embora sendo o filho de Deus, Jesus aprendeu a obediência pelo sofrimento, e levado à perfeição, tornou-se para todos os que lhe conhecem o princípio de salvação eterna". ( Hebreus 5, 8-9 )

3- PARA JESUS, A FUNÇÃO DA EXPERIÊNCIA RELIGIOSA AUTÊNTICA É FORMAR O CARÁTER DAS PESSOAS PARA A RETIDÃO E PARA PRÁTICA A JUSTIÇA, E NÃO PARA ALIENAÇÃO RELIGIOSA.

"Buscai em primeiro ligar, o Reino e Deus e a sua JUSTIÇA, e tudo mais vos será acrescentado. Não vos perturbeis, portanto, com o dia de amanhã, pois a cada dia basta sua preocupação".
( Mateus 6, 33-34 )

Apoiado numa série de testemunhos de homens e mulheres que vem dando sua vida pela causa do Reino, hoje, estou convencido de que: O verdadeiro culto cristão não pode ser encarado como uma forma de aperfeiçoamento humano ou se transformar num centro de auto-ajuda onde os fiéis precisam aprender as técnicas sobre como obter o favor de Deus para se tornarem felizes e ricos de um dia para o outro.

PRECISAMOS SIM, APRENDER A CELEBRAR O SEU GRANDE AMOR DE PAI QUE NOS QUER BEM, APESAR DE NOSSA PRÓPRIA PEQUENEZ E REBELDIA.

Hoje, acredito que Marx estava certo quando denunciou o que acontecia com a igreja que se colocava a serviço das aristocracias do seu tempo. Aquela religião adoecida e morta realmente merecia a pecha de ópio do povo. Os líderes religiosos que comiam nas mesas dos poderosos e que desdenhavam da sorte dos miseráveis realmente buscavam entorpecer os mais pobres. Uma igreja que se contenta em simplesmente legitimar a opressão e a política corrupta de um sistema capitalista precisava sofrer a afronta deste economista e filósofo do pensamento moderno.
Já Maquiavel afirmava que :

"Quem come na mão do príncipe, não pode denunciá-lo".

Assim, o que se oferece de muitos púlpitos pós-modernos hoje, não é o Evangelho de Jesus Cristo, mas mera cocaína religiosa. E se algum outro filósofo ateu afirmar que aquela religião aristocrática que se espalhou no ocidente medieval e moderno combinava com o narcótico da moda, também seremos obrigados a concordar. E aqui nós os cristãos ocidentais temos de lamentar e chorar por conta de nossa fraca experiência religiosa. Experiência que se contenta hoje com um mínimo de ação e um mínimo de tempo investido na companhia e no conhecimento do Caráter de Deus. Talvez esse seja o segredo da vida cristã para este início de novo milênio.

Repito:

PRECISAMOS RE-VER A PESSOA DE DEUS COMO UM PARCEIRO, QUE NA LONGA JORNADA DA VIDA, QUER NOS AJUDAR A DESCOBRIRMOS OS RUMOS PARA DELINEARMOS UMA NOVA HISTÓRIA.

COMO UM AMIGO FIEL, ELE QUER NOS AJUDAR A DESVENDAR OS MISTÉRIOS ESCONDIDOS NO FUNDO DE NOSSO CORAÇÃO. COMO UM PARCEIRO CERTO E COMPANHEIRO DE LUTAS, ELE PODE NOS INSPIRAR ATRAVÉS DO EXEMPLO DE HUMANIDADE E DE SENSO ÉTICO DE SEU FILHO JESUS, A FIM DE QUE SEJAMOS HOMENS E MULHERES DE UMA VIDA AUTÊNTICA, BONITA E PLENAMENTE REALIZADA.

Dessa forma, a nossa religião não será talvez um ópio alienante para as consciências das pessoas, mas a possibilidade de uma experiência cada vez mais transformante e humanizadora para todos nós.

E que assim se cumpra em nossa vida!!!

Um desabafo.
Uma constatação.
Uma pesquisa.
Uma angústia.
Um grito de minh'alma.
Uma felicidade em escrever.
Um mundo a desvendar.

"O Melhor ainda está por vir..."

"Tu tens, Senhor Jesus, a última palavra. E nós apostamos em Ti".
Reanima nossa Esperança, confirma nossa Fé!"

* Frei Eduardo F. Melo concluiu o curso de Teologia pelo ITF em 2006

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/itf/artigos/2009/007.php acesso em 31 ago. 2009.

terça-feira, 28 de julho de 2009

O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse?


Por Pedro Paulo A. Funari


EHRMAN, Bart D. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Rio de Janeiro, Prestígio,
2008.

Bart D. Ehrman é catedrático do departamento de estudos religiosos da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Estudioso com formação no campo teológico, embora ainda jovem, destaca-se por sua erudição, por um lado, e pelo esforço de divulgação científica, de outro. Publicou obras que logo se tornaram best-sellers, como A verdade e a ficção em o Código da Vinci (Rio de Janeiro, Record, 2005), assim como uma série de contribuições sólidas sobre Jesus (Jesus: apocalyptic prophet of the new millenium, Oxford, Oxford University Press, 2001), sobre o cristianismo inicial e sobre os padres da Igreja (The Apostolic Fathers, vol. 1 e 2, Harvard, Loeb, 2003).

O livro inicia-se com uma introdução, de caráter pessoal, sobre o interesse do autor na busca do texto bíblico original. Relembra como aprendeu o grego e o hebraico e descobriu que a Bíblia não era infalível e continha erros. Isto o levou a uma revisão radical da sua interpretação bíblica e a perceber que havia autores e pontos de vista diversos. A partir desta honesta apresentação da suas motivações, Ehrman parte para as origens dos textos sagrados cristãos e estabelece que tanto judaísmo como cristianismo são religiões fundadas no livro, ainda que as pessoas fossem, em sua imensa maioria, analfabetas. Começa pelos documentos mais antigos do Novo Testamento, as cartas de Paulo, a partir da Primeira Carta aos Tessalonicenses, epístola divulgada por volta de 49 d.C., pouco mais de vinte anos após a morte de Jesus. Lembra que as cartas eram ditadas a escribas e apenas assinadas pelo autor. Recebidas no destino, eram lidas em voz alta para a comunidade de iletrados. Após um exame do conjunto de textos cristãos iniciais, o autor conclui que os livros canônicos do Novo Testamento só foram consolidados e tratados como escrituras sagradas centenas de anos após terem sido escritos.

Dentre os cristãos iniciais, a maioria de analfabetos era complementada por uma nata de pessoas com algum estudo formal e a experiência comum dos fieis consistia em ouvir a leitura, de modo que, de forma paradoxal, uma fé baseada no texto era compartilhada por analfabetos. Isto o conduz aos copistas dos primeiros tempos do cristianismo. Como não havia meios de difusão de massa, como a imprensa, toda distribuição de escritos dependia da cópia à mão. A prática grega da scriptio continua, com a escrita das palavras sem pontuação e sem separação, dificultava muito a leitura, à diferença, devo dizer, da contemporânea cursiva latina, atenta à separação dos vocábulos, mas que não foi usada pelos primeiros cristãos. Neste contexto, abundavam os erros de transcrição. Mais importantes são os acréscimos dos escribas, como no caso de João 8,1-11, sobre a mulher adúltera e o desafio de Jesus: que a lapidasse quem não tivesse pecado. Não fazia parte do manuscrito original, mas podia ser uma nota de escriba que retomava uma tradição oral. Passou a fazer parte do cânone e tornou-se uma das passagens mais citadas, por sua beleza e generosidade.

Ehrman dedica-se, em seguida, às versões do Novo Testamento. O imperador Constantino, em 331 d.C, mandou fazer cinqüenta exemplares, encomenda conferida ao bispo de Cesaréia, Eusébio. No final do século IV, o papa Damaso pediu a Jerônimo que fizesse uma versão oficial para o idioma ocidental, o latim, no que viria a ser a Vulgata, muito mais copiada do que o Novo Testamento grego. Após a invenção da imprensa, as primeiras versões gregas tardaram a serem publicadas. A mais antiga data de 1522, a Poliglota Complutense, em Madri. Inventou-se, logo em seguida, a expressão textus receptus, a forma do texto grego, supostamente baseada nos melhores e mais antigos manuscritos. John Mill, docente em Oxford, publicou em 1707 a primeira versão com aparato crítico, que buscava registrar as diferenças nos manuscritos, em número de trinta mil. Hoje, com muitos mais manuscritos, muitas mais variações foram anotadas e as modificações podem ser atribuídas a fatores casuais ou intencionais.

A busca dos textos originais merece atenção especial, pois o caráter sagrado do Novo Testamento colocou questões teológicas importantes, a esse respeito. Alguns princípios são estabelecidos, como aquele, bem conhecido da Paleografia, que pressupõe que a leitura mais difícil deve ser sempre preferida. A identidade de leitura implica a identidade de origem e, portanto, é possível definir grupos familiares de manuscritos, com base na concordância textual entre os que chegaram até nós. Os métodos modernos de crítica textual partem de análises externa e interna. Um estudo de caso refere-se à apresentação de Jesus irritado (orgistheis) ou movido pela compaixão (splagnistheis) (Marcos, 1, 41) e Ehrman conclui que, como indica o princípio geral, a leitura mais difícil deve ser preferida e deve supor-se que o original “irritado” foi alterado, em algum momento, para “com compaixão”. Os argumentos são vários, a começar pelas referências várias, em Marcos, à ira de Jesus (Marcos 3,5; 10,14). Já Lucas constrói um Jesus imperturbável, omitindo as referências ou mesmo invertendo as informações de Marcos. Neste, Jesus, na cruz, grita, em aramaico, “meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”, enquanto Lucas (23,34) conclui com “Pai, perdoe-os, pois não sabem o que fazem”.

Outros diversos casos são apresentados e discutidos, em sua maioria por cristãos ortodoxos que procuravam eliminar possíveis leituras heréticas, femininas, hebraicas ou pagãs. O capítulo seguinte, sobre o contexto social, trata de alguns temas candentes para as discussões teológicas atuais, a começar pelo papel das mulheres na Igreja inicial. Mulheres, pobres, doentes e marginalizados constituíam a maioria dos seguidores de Jesus. Em algumas igrejas, as mulheres tinham papel de destaque e as cartas originais de Paulo de Tarso reconhecem essa proeminência. Em seguida, surgiram alterações nos textos, de modo a restringir essa autonomia feminina, como no caso de Júnia (Romanos, 16), nomeada como uma entre os apóstolos. Alguns manuscritos alteraram o texto, a fim de evitar a inclusão de uma mulher entre os apóstolos. O caráter judaico de Jesus também foi atenuado ou excluído, de modo que ele parecesse nada compartilhar com aquele grupo étnico e religioso. Na conclusão, o autor volta a enfatizar a diversidade de pontos de vista no cristianismo inicial e a resultante variedade de interpretações da vida de Jesus e dos seus primeiros seguidores.

O livro de Ehrman constitui uma contribuição original para todos os que se interessam pelo cristianismo antigo e, em especial, para aqueles que se voltam para a leitura do Novo Testamento. Em primeiro lugar, permite observar como havia uma grande diversidade entre os seguidores de Jesus e a ortodoxia tardaria a impor uma única leitura. Em seguida, fica claro o papel da institucionalização da religião cristã ortodoxa, como parte do Imperium Romanun Christianum, na composição de um cânon. No que se refere à crítica textual, não menos importância reveste-se a análise das diversas opções de leitura, ao apresentar uma vida de Jesus muito diversa, de um autor a outro. Jesus ficava irado? Diante da morte, ficava transtornado? Deixou que uma adúltera fosse liberada? A doutrina da Trindade estava no Novo Testamento? Jesus foi chamado de Deus único? Sabia do fim do mundo? As perguntas acumulam-se, diante da diversidade de interpretações, a partir das diferentes lições dos manuscritos. No final, a grande mensagem do volume consiste em advertir para uma leitura crítica e aberta do texto bíblico, obra humana.


sábado, 7 de fevereiro de 2009

Dom Helder e o Pacto das Catacumbas

No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio Vaticano II, cerca de 40 Padres Conciliares celebraram uma Eucaristia nas catacumbas de Domitila, em Roma, pedindo fidelidade ao Espírito de Jesus. Após essa celebração, firmaram o "Pacto das Catacumbas" [1].

O documento é um desafio aos "irmãos no Episcopado" a levarem uma "vida de pobreza", uma Igreja "servidora e pobre", como sugeriu o papa João XXIII. Os signatários - dentre eles, muitos brasileiros e latino-americanos, sendo que mais tarde outros também se uniram ao pacto - se comprometiam a viver na pobreza, a rejeitar todos os símbolos ou os privilégios do poder e a colocar os pobres no centro do seu ministério pastoral. O texto teve forte influência sobre a Teologia da Libertação, que despontaria nos anos seguintes.

Um dos signatários e propositores do Pacto foi Dom Hélder Câmara, cujo centenário de nascimento é celebrado neste sábado, dia 07.

Eis o texto.

* * * * *

PACTO DAS CATACUMBAS DA IGREJA SERVA E POBRE

Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.

2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6. Nem ouro nem prata.

3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33s.

4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7.

5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor...). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.

6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.

7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.

8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.

9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de "beneficência" em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s.

10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tim 5, 16.

11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral - dois terços da humanidade - comprometemo-nos:

  • a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;
  • a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.

12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:

  • esforçar-nos-emos para "revisar nossa vida" com eles;
  • suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo;
  • procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...;
  • mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34s; At 6,1-7; 1Tim 3,8-10.

13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.

AJUDE-NOS DEUS A SERMOS FIÉIS.

Notas:

1. Publicado no livro "Concílio Vaticano II", Vol. V, Quarta Sessão (Vozes, 1966), organizado por Boaventura Kloppenburg (p. 526-528).

Extraído de http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=19769 acesso em 7 fev. 2009.

Ilustração: Cristo ensina aos apóstolos. Pintura das catacumbas de Domitila.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Que cristianismo no mundo pós-moderno? / Carlo Maria Martini

Deu no Instituto Humanitas-Unisinos:
"Recordo um jovem que, recentemente, me dizia: 'Não me diga que o cristianismo é verdade. Isso me provoca um mal-estar. É diferente do que dizer que o cristianismo é belo...' A beleza é preferível à verdade", escreve Carlo Maria Martini, jesuíta, cardeal, arcebispo emérito de Milão, em artigo publicado no jornal italiano Avvenire, 27-07-2008.

O que posso dizer sobre a realidade da Igreja católica, hoje? Deixo-me inspirar pelas palavras de um grande pensador e homem de ciência russo, Pavel Florenskij, que morreu em 1937, mártir da sua fé cristã: “Somente com a experiência imediata é possível perceber e valorizar a riqueza da Igreja”. Para perceber e avaliar as riquezas da Igreja, é necessário passar pela experiência da fé.

Seria fácil redigir uma coletânea de lamentações de coisas que não vão bem na nossa Igreja, mas isso significaria adotar uma visão artificial e deprimente, e não olhar com os olhos da fé, que são os olhos do amor. Naturalmente não devemos fechar os olhos aos problemas. Devemos, contudo, buscar antes de tudo, compreender o quadro geral no qual esses se situam.

Um período extraordinário na história da Igreja

Se, portanto, considero a situação presente da Igreja com os olhos da fé, vejo, sobretudo, duas coisas.

Primeiro, nunca houve, na história da Igreja, um período tão feliz como o nosso. A nossa Igreja conhece a sua maior difusão geográfica e cultural e se encontra substancialmente unida na fé, com exceção dos tradicionalistas de Lefebvre.

Segundo, na história da teologia nunca houve um período tão rico como o atual. Nem no século IV, período dos grandes Padres da Capadócia da Igreja Oriental e dos grandes Padres da Igreja ocidental, como São Jerônimo, Santo Ambrósio e Santo Agostinho, não havia uma tão grande floração teológica.

Basta recordar os nomes de Henri de Lubac e Jean Daniélou, de Yves Congar, Hugo e Karl Rahner, de Hans Urs von Balthasar e do seu mestre Erich Przywara, de Oscar Cullmann, Martin Dibelius, Rudolf Bultmann, Karl Barth e dos grandes teólogos americanos com Reinhold Niebuhr – sem esquecer os teólogos da libertação (seja qual for o juízo que façamos deles, agora que lhes vêm prestada uma nova atenção pela Congregação da Doutrina da Fé) e muitos outros que ainda vivem. Recordemos também os grandes teólogos da Igreja oriental que conhecemos pouco, como Pavel Florenskij e Sergei Bulgakov.

As opiniões sobre estes teólogos podem ser muito diferentes e variadas, mas eles certamente representam um grupo incrível, como nunca existiu na Igreja dos tempos passados. Tudo isso se dá num mundo cheio de problemas e de desafios, como a injusta distribuição das riquezas e dos recursos, a pobreza e a fome, os problemas da violência difusa e da manutenção da paz. Particularmente vivo é o problema da dificuldade de compreender com clareza os limites da lei civil em relação à lei moral. Estes são problemas muito reais, sobretudo em alguns países, e são, muitas vezes, objeto de leituras diferentes que geram uma discussão também muito acesa.

Às vezes parece possível imaginar que não todos estamos vivendo no mesmo período histórico. Parece que alguns vivem ainda no tempo do Concílio de Trento, outros no tempo do Concílio Vaticano I. Alguns assimilaram bem o Concílio Vaticano II, outros menos; ainda outros já se projetaram decididamente no terceiro milênio. Não somos verdadeiros contemporâneos, e isso sempre representou um grande fardo para a Igreja e requer muita paciência e discernimento. Mas, no momento, prefiro isolar este tipo de problemas e considerar a nossa situação pedagógica e cultural com as conseqüentes questões relacionadas com a educação e o ensino.

Uma mentalidade pós-moderna

Para buscar um diálogo profícuo entre as pessoas deste mundo e o Evangelho e para renovar a nossa pedagogia à luz do exemplo de Jesus, é importante observar atentamente o assim chamado mundo pós-moderno, que constitui o contexto de fundo de muitos destes problemas e que condiciona as soluções.

Uma mentalidade pós-moderna pode ser definida em temos de oposições: uma atmosfera e um movimento de pensamento que se opõe ao mundo assim como o conhecemos até agora. É uma mentalidade que se separa espontaneamente da metafísica, do aristotelismo, da tradição agostiniana e de Roma, considerada como sede da Igreja, e de muitas outras coisas. O pensar pós-moderno está longe do precedente mundo cristão platônico onde se dava como certa a supremacia da verdade e dos valores sobre os sentimentos, da inteligência sobre a vontade, do espírito sobre a carne, da unidade sobre o pluralismo, do ascetismo sobre a vitalidade, da eternidade sobre a temporalidade. No nosso mundo de hoje há uma instintiva preferência pelos sentimentos sobre a vontade, pelas impressões sobre a inteligência, por uma lógica arbitrária e a busca do prazer sobre uma moralidade ascética e coercitiva. Este é um mundo no qual são prioritários a sensibilidade, a emoção e o átimo presente.

A existência humana se torna, desta maneira, um lugar onde há a liberdade sem freios, onde a pessoa exercita, ou acredita pode exercer, o seu arbítrio pessoal e a própria criatividade.

Este tempo é também de reação contra uma mentalidade excessivamente racional. A literatura, a arte, a música e as novas ciências humanas (particularmente, a psicanálise), revelam como muitas pessoas não crêem mais que vivem num mundo guiado por leis racionais, onde a civilização ocidental é um modelo a ser imitado no mundo. Ao contrário, aceita-se que todas as civilizações são iguais, enquanto que antes se insistia na assim chamada tradição clássica. Este tempo também é uma reação contra uma mentalidade excessivamente clássica. Hoje tudo é colocado no mesmo plano porque não existem mais critérios para verificar que coisa é uma civilização verdadeira e autêntica.

Há uma oposição à racionalidade que é vista como fonte de violência proque as pessoas acham que a racionalidade pode ser imposta enquanto verdadeira. Prefere-se a forma de diálogo e de troca com o desejo de sempre ser aberto aos outros e ao que é diferente, se duvida inclusive de si mesmo e não se confia em quem quer afirmar a própria identidade com a força.

Este é o motivo pelo qual o cristianismo não é acolhido facilmente quando ele se apresenta como a “verdadeira” religião.

Recordo um jovem que, recentemente, me dizia: “Não me diga que o cristianismo é verdade. Isso me provoca um mal-estar. É diferente do que dizer que o cristianismo é belo...” A beleza é preferível à verdade. Neste clima, a tecnologia não é mais considerada como um instrumento a serviço da humanidade, mas um ambiente no qual se dão as novas regras para interpretar o mundo: não existe mais a essência das coisas, mas somente o uso dessas para um certo fim determinado pela vontade e pelo desejo de cada um. Neste clima, é conseqüente a rejeição do pecado e da redenção. Diz-se: “Todos são iguais, mas cada pessoa é única”. Existe o direito absoluto de ser único e de afirmar a si mesmo. Toda e qualquer regra moral é obsoleta. Não existe mais o pecado, nem o perdão, nem a redenção e, muito menos, o “renunciar a si mesmo”. A vida não pode ser vivida como um sacrifício ou um sofrimento.

Uma última característica da pós-modernidade é a rejeição da aceitação de qualquer coisa diz respeito ao centralismo ou à vontade de dirigir as coisas de cima. Neste modo de pensar há um “complexo anti-romano”. Estamos agora além do contexto onde o universal, o que era escrito, geral e sem tempo, contava mais; onde o que era durável e imutável era preferido ao que era particular, local e datado.

Hoje a preferência é, pelo contrário, por um conhecimento mais local, pluralista, adaptável às circunstâncias e a tempos diferentes.

Não quero expressar juízos. Seria necessário muito discernimento para distinguir o verdadeiro do falso, do que é dito como aproximação do que é dito com precisão, que coisa é simplesmente uma tendência ou uma moda daquilo que é uma declaração importante e significativa.

O que quero acentuar é que esta mentalidade está, hoje, por tudo, sobretudo nos jovens, e é necessário ter isso em conta.

Mas quero acrescentar uma coisa. Talvez esta situação é melhor da que existia antes. Porque o cristianismo tem a possibilidade de mostrar melhor o seu caráter de desafio, de objetividade, de realismo, de exercício da verdadeira liberdade, da religião ligada com a vida do corpo e não somente da mente.

Num mundo como o que vivemos hoje, o mistério de um Deus não disponível e sempre surpreendente adquire maior beleza; a fé compreendida como um risco torna-se mais atraente. O cristianismo aparece mais belo, mais próximo das pessoas, mais verdadeiro. O mistério da Trindade aparece como fonte de significado para a vida e uma ajuda para compreender o mistério da existência humana.

“Examina tudo com discernimento”

Ensinar a fé neste mundo representa nada mais, nada menos que um desafio. Para sermos capazes disso é preciso ter estas atitudes:

Não sermos surpreendidos pela diversidade.

Não ter medo do que é diferente ou novo, mas considerá-lo como um dom de Deus. Provar que somos capazes de ouvir coisas muito diferentes daquelas que normalmente pensamos, mas sem julgar imediatamente quem fala. Buscar compreender que coisa nos é dito e os argumentos fundamentais apresentados. Os jovens são muito sensíveis para um atitude de escuta sem julgamentos. Esta atitude dá-lhes coragem de falar que realmente sentem e de começar a distinguir o que realmente é verdadeiro do que o é somente nas aparências. Como diz São Paulo: “Examina tudo com discernimento; conserva o que é verdadeiro; evita toda espécie de mal” (1Ts 5, 21-22).

Sermos capazes de correr riscos. A fé é o grande risco da vida. “Quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perde a sua vida por minha causa, a encontrará” (Mateus 16, 25).

Sermos amigo dos pobres. Coloca os pobres no centro da tua vida porque esses são os amigos de Jesus que se fez um deles.

Alimentar-nos com o Evangelho. Como Jesus nos diz no seu discurso sobre o pão da vida: “Porque o pão de Deus é o que desce do céu é dá vida ao mundo” (João 6, 33).

Oração, humildade e silêncio

Para ajudar a desenvolver estas atitudes, proponho quatro exercícios:

1.- Lectio Divina. É uma recomendação de João Paulo II. “Particularmente é necessário que a escuta da Palavra se torne um encontro vital, na antiga e sempre válida tradição da lectio divina que propicia que se acolha a palavra viva que interpela, orienta e plasma a existência” (Novo Millennio Ineunte, N. 39). A Palavra de Deus nutre a vida, a oração e a viagem cotidiana, é o princípio da unidade da comunidade numa unidade de pensamento, a inspiração para a contínua renovação e para a criatividade apostólica” (Ripartendo da Cristo, N. 24).

2.- Autocontrole. Devemos aprender, novamente, que saber se opor à vontade própria é algo mais gozoso que as concessões continuas que parecem desejáveis mas que acabam por gerar mal-estar e saciedade.

3.- Silêncio. Devemos nos afastar da insana escravidão do barulho e das conversas sem fim e encontrar cada dia, pelo menos meia hora de silêncio e meio dia cada semana para pensar em nós mesmos, para refletir e rezar. Isto pode parecer difícil, mas quando se consegue dar um exemplo de paz interior e tranqüilidade que nasce de tal exercício, também os jovens tomam coragem e encontram aí uma fonte de vida e de alegria que não experimentaram antes.

4.- Humildade. Não acreditemos que cabe a nós resolver os grandes problemas dos nossos tempos. Deixemos espaço ao Espírito Santo que trabalha melhor do que nós e mais profundamente. Não sufoquemos o Espírito nos outros. É o Espírito que sopra. Portanto, estejamos prontos para acolher as suas manifestações mais sutis. Para isso é necessário o silêncio.

Extraído de http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=15578 acesso em 29 jul. 2008.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Uma Igreja animada pelos leigos

Jaime Carlos Patias, imc
Mestre em Comunicação e diretor da revista Missões. Co-autor do livro Comunicação e Sociedade do Espetáculo. Paulus 2006

Adital -
"Vimos que não dá para ser discípulo sem ser missionário."

Com a finalidade de acompanhar a V Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, realizada em Aparecida, de 13 a 31 de maio, a Conferência dos Religiosos do Brasil - CRB, Regional São Paulo, organizou a Tenda da Vida Consagrada no subsolo do Santuário de Aparecida, próxima à sala da V Conferência. Orações, Leitura Orante da Bíblia, reflexões e partilha dos carismas fizeram parte da programação. No dia 24 de maio, dom Antônio Possamai, SDB, bispo de Ji-Paraná, cidade a 270 quilômetros de Porto Velho, Rondônia, visitou a Tenda e concedeu uma entrevista à revista Missões. Natural de Ascurra, Santa Catarina, depois de 24 anos à frente da diocese, atuando na defesa dos sem-terra, dos direitos humanos, dos índios e do meio ambiente, dom Antônio, 78, por motivo de idade, no dia 24 de junho entregou o comando da diocese a dom Bruno Pedron, transferido de Jardim, Mato Grosso do Sul.

Dom Antônio, o senhor participou como delegado na Conferência de Santo Domingo (1992) e este ano em Aparecida. Que comparações poderia fazer?

A preparação, em ambas, foi levada muito a sério, mas esta de Aparecida teve maior participação. Em Santo Domingo, não houve tanto envolvimento das bases como agora. Desta vez, estabeleceu-se um clima de oração com subsídios para a formação, e grupos de reflexão para a liturgia e pregações dominicais. Antes de Aparecida, a gente se reuniu em Brasília e a 45ª Assembléia da CNBB em Itaici, (de 1 a 9 de maio de 2007) desenvolveu-se em torno do tema da V Conferência. Posso dizer que Santo Domingo foi uma Conferência muito tensa. Sentíamos muita pressão de certos grupos e de alguns representantes da Cúria romana. Com a Presidência do secretariado da Conferência, não havia muito campo de diálogo e certos assuntos não progrediam. No final, saiu um Documento que não caiu no gosto do povo. Tanto é que hoje, citamos muito mais Medellín (1968) e Puebla (1979) do que Santo Domingo. Isso porque a Conferência não aceitou o método tradicional de trabalhar na América Latina, uma herança da Ação Católica: "ver, julgar e agir". O conteúdo foi bom, mas nós não estávamos acostumados a trabalhar sem esse método. Em Aparecida o retomamos e fomos construindo o Documento em comissões, leituras individuais, contribuições e correções em várias redações. A grande marca dessa Conferência foi o tema central "Discípulos e missionários". A palavra discípulo foi estudada em profundidade. Vimos que não dá para ser discípulo sem ser missionário.

Leia na íntegra em: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=28730

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