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sexta-feira, 5 de setembro de 2008

OS DOIS CAMINHOS


Deus, Criador e Senhor de todas as coisas e também de nossa redenção; O Todo Eterno e Infinito nos chama a partilhar Consigo de nossa vida. Porque sem Ele nada somos nada podemos, visto que Ele é a única razão do existir e os seres humanos devem cooperar para manterem o bem estar e o equilíbrio da criação, pára a salvação de todas as coisas; pois, entre a criação e a salvação humana, existe o consentimento, o acolhimento da Vontade Divina para que tenhamos vida plenamente.

Sim, estamos trilhando a via definitiva de nossa existência; não há volta, esta caminhada é única, só seguimos, nunca voltamos. Por isso, devemos escolher bem o caminho para chegarmos ao porto seguro da salvação e esse caminho único e verdadeiro é Cristo, autor e consumador de nossa fé. Por Ele temos acesso ao Pai de nossas almas; por Ele vencemos todos os obstáculos que nos impusemos a nós mesmos; por Ele somos portadores de todas as graças e bênçãos dos céus; por Ele, enfim, nos tornamos participantes da Natureza Divina, herdeiros da glória eterna de Deus e imagem perfeita do Seu Ser.

Muitos estão escolhendo o caminho do pecado, seja ele qual for: mentira, fornicação que é o pecado contra a castidade, drogas, violência; ideologias as mais diversas: seiche-no-ie, astrologia, cartomancia, neo nazismo, gangues, comunismo, teologias da “libertação” e outras; e ainda as falsas religiões tipo: espiritismo e seus derivados, protestantismo e suas divisões, a famigerada nova era; sem contar os modismos: rock, punk, hip hop, tatuagens, consumismo, star wars, mangas, Herry potter, novelas e filmes de cunho heréticos ou imorais, etc.

Por meio de tudo isso se revela a desobediência aos mandamentos da Lei de Deus; daí vem o porquê desse nosso mundo está tão enfermo, mergulhado na violência e toda espécie de maldade. Grande parte da humanidade vive como se Deus não existisse, por isso, impera a fome, a miséria, as doenças físicas, psíquicas, morais e espirituais; os resultados são: hospitais, manicômios, cadeias e cemitérios superlotados e a injustiça reinando em toda parte.

A corrupção é a bola da vez em todas as esferas da sociedade, desde a política e seus mandatários até a justiça e seus titulares; nos órgãos públicos, nos meios de comunicação social e nos mais variados seguimentos sociais; ela é um sinal visível da presença do mal no coração humano; os homens escondidos no pecado agem a partir do pecado, cometendo toda espécie de desvario.

Por abandonarem nosso Único e Soberano Deus, Caminho, Verdade e Vida, se instalou a confusão e a desordem em nosso meio e já não se sabe mais por onde caminhar; deram asas ao mal e, pretensamente deixaram ele reinar, por causa dos pecados cometidos, mesmo sabendo o justo castigo que merece quem se dá a essas práticas nefastas.

O que dizer? Que pergunta cabe mais depois de tudo isto? Qual caminho estamos seguindo? A quem acompanhamos neste caminhar? O que move os nossos corações? O que será da criação e de nossa vida eternamente? Existe ainda alguma saída?

Só o arrependimento, o perdão de nossos pecados e a mudança de rumo e de vida poderá nos livrar do mal que se abaterá sobre essa nossa infeliz humanidade. (Leia Salmo 1).

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.


Francisco – um Homem de Abertura e Diálogo

Deu no CCFMC Boletín Julho/Agosto de 2008:

Porque é que Francisco entusiasma todo o mundo? Já há 800 anos os seus próprios companheiros e irmãos se puseram esta pergunta que ainda tem validade hoje. Porque é que ele tem um papel tão importante em encontros ecumênicos e interreligiosos? Porque é que ele é um elo de ligação com outros cristãos, com fiéis de outras religiões e também com aqueles que só crêem na vida e nos valores humanos? Às vezes até parece que estes o compreendem melhor que os próprios irmãos.

Uma razão pelo entusiasmo em relação ao pobre de Assis é talvez o seu amor aos seres humanos. Ele é o “homem reconciliado que reconcilia”; ele é o “pacífico que gera a paz”; ele é “quem tem compaixão e quem consola”, ele é o “homem livre que quer libertar toda a Criação.”

Assim revela o seu amor para com os pobres. Não quer possuir nada, não quer dominar, não quer ser ninguém e não pretende fazer nada que possa ferir ou menosprezar a outra maneira de estar na vida ou a dignidade dos outros. Pois todos são irmãos, criados e amados por Deus.

Numa época na qual o ministério eclesiástico vive contra o espírito do Evangelho devido à ânsia de domínio e autoridade, apresenta-se Francisco como um irmão menor, orientando-se totalmente no humilde e pobre Jesus de Nazaré; sente-se como servo humilde de tudo aquilo que habita a terra vivendo a paz do céu e o amor generoso de Cristo (Adm XV, 1-2). A pobreza, a atenção, a tolerância e a renúncia a todo o poder residem na lógica do Crucificado. O encontro com o outro significa sempre testemunhar a bondade de Deus e o amor vertente que se revestiu na fragilidade humana de Jesus Cristo. Estas são as condições prévias e a base para todo o diálogo com os outros.

Aos valores básicos de tal espiritualidade do diálogo pertencem fraternidade, reconciliação, pobreza e conversão. Quem reconheceu Deus como Pai e Jesus como irmão sabe que não deve haver entre os homens os de cima e os de baixo, nem senhores, nem servos. Todos têm a mesma dignidade e a mesma vocação e todos são imagens únicas de Deus. Para Francisco, portanto, não há exceção na sua estima e nenhuma reserva ante ladrões ou incrédulos. Todos merecem respeito e confiança. Só a fraternidade confiante abre as portas à compreensão mútua e ao ato de compartilhar.

Desta maneira, Francisco alcança uma vida completamente reconciliada com Deus, com ele mesmo, com todos os homens, em fim, com toda a Criação. Temos de aprender isto com grande esforço. Portanto, admoesta os seus irmãos: “Ninguém deve ser irritado pela vossa ira ou vossa disputa, ao contrário, pela vossa brandura, todos devem ser chamados à paz, à bondade e à unidade. Pois vocês são chamados a curar os feridos, pôr ligaduras aos fraturados e chamar os despistados”. (Leg3C 58)

Só assim se reconhece o amor e o zelo de Francisco duma vida “sem posses”. Não devemos ter nada o que, segundo a vontade de criação de Deus, pertença a todos. Podemos usar tudo, mas de maneira que não impeça ao outro de participar na vida em plenitude. Quem vive assim estará cheio duma gratidão profunda por saber que vive daquilo que recebeu gratuitamente.

A conversão é a chave da vida de Francisco. “Assim o Senhor deu-me... para começar a vida de penitência.” (Test 1). Penitência significa pensar de outra maneira, confiar na promessa de Deus, começar sempre de novo; assim como Francisco no fim da sua vida confessou: “Comecemos a servir ao Senhor Deus porque só temos avançado pouco.” (1Cel 113)

Andreas Müller OFM
Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2008/2008_07_News.shtml?navid=92 acesso em 05 set. 2008.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Fraternidade Universal

Deu no CCFMC Boletín Maio 2008:
Vivemos numa época repleta de crises. Cada vez são mais freqüentes os cenários de crise que se alastram em todo o mundo. Mal terminaram os títulos nos jornais sobre a crise financeira mundial somos confrontados com uma crise alimentar mundial. E esta crise, segundo os especialistas, ameaça a destruir os progressos na luta contra a pobreza obtidos nos últimos anos.

Toda uma serie de causas são responsáveis por esta situação, as quais poderiam, acumulando-se, desembocar numa catástrofe. O desenvolvimento deplorável, de que, p.ex. se destina cada vez mais terra útil à produção de bio-combustível, de que a demanda crescente devido ao crescimento populacional bem como as catástrofes de cheias e secas devidas às alterações climáticas, levaram a uma falta global de alimentos. A conseqüência é o aumento dos preços de bens alimentares que não podem ser pagos por muitas pessoas. Em estados pobres há pessoas que já não podem comprar os bens básicos de alimentação. No Haiti já houve manifestações violentas. Há quem fala já duma iminente guerra de fome.

Políticos e organizações caritativas estão alarmados. No entanto, é evidente que, mais uma vez, os cenários de ajuda planeados só aliviam os sintomas. Temos, finalmente, de aprender que as crises financeiras, as catástrofes ambientais, as alterações climáticas, a pobreza, por um lado, e a abundância, pelo outro, estão interligadas. Em quanto continuarmos a cultivar a maneira de viver e o padrão de consumo no mundo ocidental querendo exportá-los como geradores de felicidade para todo o mundo, não vamos encontrar soluções duráveis nem evitar conflitos bélicos. Temos de mudar de pensamento. Isto vale tanto para o consumo de energia, como para o estilo de vida, a justiça na distribuição etc. Na agenda política deve figurar, antes de mais nada, este debate. É necessário um estilo de vida sustentável apropriado para a terra e acessível a todos os homens.

Para pessoas que se referem a Francisco e Clara de Assis isto convertir-se numa questão de credibilidade. Foi Francisco que nos sensibilizou para a interligação de todos os seres criados. Esclareceu que nós não somos os donos dos seres criados mas sim seres criados dependentes duma relação harmoniosa e consciente com a natureza. Pôs a andar o movimento que se entendeu como sistema alternativo duma fraternidade universal na qual os homens, os animais, as plantas e a Mãe Terra estão interligados como irmãos e irmãs. Só com tal espiritualidade da criação vamos ganhar forças para alterarmos o nosso estilo de vida adaptando-o aos desafios do nosso tempo. A nossa tarefa será acompanharmos e encorajarmos as muitas iniciativas e os muitos vime que lutam pela preservação da Criação.

Nos anos 70 e 80 do século passado houve, em todos os ramos da Família Franciscana uma sensação de partida. Encorajados pelo Concílio, devido a um modo vivo e novo de ser-se Igreja nas igrejas locais do Sul, devido aos jubileus franciscanos de 1966 e 1982 surgiram muitas iniciativas e importantes documentos que consciencializaram mais uma vez esta missão franciscana. Os ramos da ordem franciscana descobriram, sobre tudo, que formam parte duma Família Franciscana mundial e que só em comum podem responder aos desafios do nosso tempo. De modo representativo só mencionamos o documento de Gubbio de 1982 (v. sob Impulsos) no qual os franciscanos e iniciativas ambientais se relembraram da espiritualidade franciscana da Criação. Neste documento, muitos dos problemas de hoje já são pressentidos, e foram citados passos concretos de ação. Portanto, não é necessário que comecemos desde o princípio no ano do jubileu do Carisma 2008/2009. Às vezes é suficiente lembrar-se outra vez das coisas boas e continuá-las no nosso tempo. O CCFMC pode ser uma verdadeira mina se procuramos as respectivas sugestões no mesmo.

Andreas Müller OFM

Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2008/2008_05_News.shtml?navid=92
acesso em 04 set. 2008.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Gerar a Paz sem violência

Deu no CCFMC Boletín Abril 2008:

Parece que todas as experiências no sentido de que as guerras não resolvem os conflitos, pelo contrário, causam nova violência, não fizeram com que as pessoas no poder sejam mais prudentes. O terror e o ódio não podem ser vencidos por bombas e mísseis, a ânsia de liberdade e autodeterminação não pode ser oprimida por muros e arame farpado. O balanço do sofrimento no Iraque e no Afeganistão, no Médio Oriente e em muitas regiões de conflito da África, no Tibet e na Birmânia é tão deprimente que a nossa razão nos deveria dizer: basta.

Basta também porque só a guerra no Iraque custa a quantia inconcebível de 6000 mil milhões de dólares incluindo todos os custos adicionais, segundo um estudo acabado de ser publicado e elaborado pelo economista e prêmio Nobel norte americano Joseph Stiglitz e por Linda Bilmes. Quando, em 2005, a comissão orçamental do Congresso norte americano indicou os meios até à altura dos gastos com a guerra do Iraque com 500 mil milhões de dólares, Stiglitz suspeitou e começou a calcular de novo. Chegou ao seguinte resultado: a guerra custa, só aos EEUU, 3 bilhões de dólares, e o resto do mundo tem de pagar o mesmo montante. Em total seis bilhões. O fato de que esta soma gigantesca vai faltar para resolver os verdadeiros problemas como pobreza, fome, doenças, proteção do meio ambiente, está patente. E isto é mais deprimente ainda, pois, desta maneira, arriscamos o nosso futuro. Por um bilhão de dólares só poderiam pagar-se 15 milhões de professores ou dar-se assistência médica a 530 milhões de crianças. Este é o cálculo deprimente dos autores.

Se a guerra – também por razões econômicas – já não presta para defender-nos do terror e para solucionar conflitos de interesses globais, podemos, então, ainda esperar um mundo mais justo e mais humano? Seria, no entanto, simplório, denunciar só as pessoas no poder. Não devemos deixar aos outros gerarem a paz, mas temos de começar nós mesmos – como tratamos os outros, os concorrentes, os estrangeiros. A paz é uma atitude, que tem de ser expressa no pensamento e na linguagem.

Francisco foi uma pessoa exemplar de paz. Como encontrou a paz em Deus foi capaz de agüentar também conflitos e tematizá-los sem violência, mas decididamente. A não-violência não é uma atitude fraca de tolerância, mas sim uma atitude interior de respeito e paciência. Com esta atitude, Francisco conseguiu verdadeiramente gerar a paz em muitas cidades, como também em casos de litígios pessoais. Mas, a condição prévia é que não continuemos presos querendo ter razão e querendo possuir. Por isso, Francisco converte a pobreza no pilar mestre da sua comunidade, pois, segundo a sua opinião, posses e a guerra estão intrinsecamente ligadas.

A sua atitude não violenta e geradora de paz concentra-se na famosa lenda do Lobo de Gubbio que nos é contada nas “Fioretti”. Francisco gera a paz entre os cidadãos de Gubbio e um lobo mau que só se fez uma besta feroz devido à fome. Vai ao encontro do lobo sem medo e sem armas persuadindo-o a desistir dos seus roubos, ao mesmo tempo persuadiu os cidadãos de Gubbio a que só poderiam viver em paz se dessem, ao mesmo tempo, aquilo que o lobo necessitava para viver. Assim se fez um pacto estranho de paz. No futuro, o lobo e os cidadãos da cidade viviam juntos em paz.

Esta lenda do lobo de Gubbio é uma fábula na qual todos os elementos franciscanos de gerar a paz podem ser vistos. A paz nunca se faz sozinha, devem dar-se os passos necessários até à paz. A paz não se pode conseguir à força, pois a violência gera nova violência, portanto, a renúncia às armas e o compromisso à não-violência ativa. Francisco estava convencido de que, no fundo, só Deus pode garantir a paz. Por isso também é claro que a paz sem violência não pode ser conseguida sem uma espiritualidade profunda. A paz só pode ser mantida se nos entendermos e tratarmos como irmãos e irmãs, quer dizer, se renunciarmos a todas as formas de prepotência e predominância. Gerar a paz quer dizer ativar a reconciliação. Por outras palavras: perdoar onde for necessário, e aceitar desculpas onde forem oferecidas. E finalmente: os conflitos, regra geral, surgem onde as condições forem completamente desiguais e injustas. A paz sem justiça não é possível.

A visão franciscana é determinada por simplicidade e humildade, pelo amor ao próximo e pela alegria. Luta contra todas as formas de violência e contra a exploração dos povos e da Criação. Insiste em relações justas e determinadas pelo amor entre os povos tentando assim recordar o plano de Deus dum desenvolvimento do universo.

Andreas Müller OFM

Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2008/2008_04_News.shtml?navid=92 acesso em 03 set. 2008.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

"O MAL POR SI MESMO SE DESTRÓI"


Deus é eterno e tudo cria para o eterno, essa é uma verdade que experimentamos em nós mesmos, visto que desejamos sempre a vida e nunca a morte; ora, esse desejo é um indício de que o Senhor nos fez para a eternidade e se estamos aqui na temporalidade é para testemunharmos essa verdade.

Por acaso, existe uma afirmação mais evidente a respeito da vida do que esta: a vida é um dom de Deus e para Deus há de voltar? Também por acaso, algum ser subsiste sem que Deus o permita? E por que essa permissão, se temos a percepção do mal e em Deus não exista mal algum? Certamente, essas perguntas exigem no mínino uma resposta que seja convincente. Vejamos, pois.

São Paulo nos ensina: “Porque é em Deus que temos a vida, o movimento e o ser...” (At 17,28 a) e ainda: “Dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele a glória por toda a eternidade! Amém”. (Rm 11,38). Então, qual é o sentido da vida e por que o mal existe? O Sentido da vida é eterno, porque fomos criados para a eternidade mesmo no tempo, ou seja, já somos eternos em Deus; porém, o mal consiste na não correspondência a esse amor de Deus que nos sustenta na vida.

E como correspondemos a esse amor de Deus? São Paulo também nos fala sobre isso: “Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito”. (Rm 12,1-2).

E quanto ao mal, e, o que será daqueles que agem perversamente? Existe um ditado popular muito interessante: “O mal por si mesmo se destrói”. Em outras palavras, quem pratica a maldade não terá nada mais além da maldade praticada e já a experimenta em seu viver imediatamente; como também aqueles que vivem segundo a vontade de Deus, experimentam prontamente os frutos dessa Sua vontade. Porque é impossível ser honesto, sincero, simples, humilde, bondoso, amoroso e fiel e não experimentar tudo isso no mais íntimo de si mesmo.

Logo, cada um com o seu modo de ser, de pensar, de falar, de sentir e viver projeta na realidade presente o que há de ser eternamente, seja para o bem ou para o mal. De uma coisa tenhamos certeza: todos os dons e capacidades para vivermos em comunhão perfeita com o Senhor foi nos dado. Além do que, graça alguma nos faltará para atingirmos a perfeição desejada e querida pelo Criador e Pai de nossas almas que nos sustenta e nos governa.

Eis o que São Paulo nos diz na Carta aos Efésios: “Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto do céu nos abençoou com toda a bênção espiritual em Cristo, e nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos”. (Ef 1,3-4).

“No seu amor nos predestinou para sermos adotados como filhos seus por Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua livre vontade, para fazer resplandecer a sua maravilhosa graça, que nos foi concedida por ele no Bem-amado. Nesse Filho, pelo seu sangue, temos a Redenção, a remissão dos pecados, segundo as riquezas da sua graça que derramou profusamente sobre nós, em torrentes de sabedoria e de prudência”. (Ef 1,5-8).

Portanto, ninguém poderá se justificar diante de Deus pelo mal praticado, a não ser que haja um arrependimento verdadeiro e uma transformação que leve o penitente à uma prática que seja agradável ao Senhor; do contrário, o ímpio certamente pagará por suas impiedades; enquanto que o justo experimenta aqui e por toda a eternidade os frutos da retidão dos seus atos, mesmo que momentaneamente sofra as tribulações e desafios de fé que são próprias daqueles que não se rendem à mentalidade deste mundo.

“Afora vós, o que há para mim no céu? Se vos possuo, nada mais me atrai na terra. Meu coração e minha carne podem já desfalecer, a rocha de meu coração e minha herança eterna é Deus. Sim, perecem aqueles que de vós se apartam, destruís os que procuram satisfação fora de vós. Mas, para mim, a felicidade é me aproximar de Deus, é pôr minha confiança no Senhor Deus, a fim de narrar as vossas maravilhas diante das portas da filha de Sião”. (Sl 72,25-28).

Paz e Bem!

Mudança de posição

Deu no CCFMC Boletín Março de 2008:
Deus revela-se no Antigo e no Novo Testamento como um Deus da vida que quer libertar os pobres. A Libertação é a palavra chave na Lei, nos profetas, no Livro da Sabedoria, sobre tudo, na promessa que Jesus fez aos pobres. Na primeira aparição pública de Jesus na Sinagoga de Nazaré, segundo Lucas, Jesus fez a leitura do texto de Isaías: “Ele enviou-me para dar a boa notícia aos pobres, para curar os corações feridos, para proclamar a libertação dos escravos e pôr em liberdade os prisioneiros, para promulgar o ano da graça de Javé, o dia da vingança do nosso Deus”. (Is 61, 1-3) Fechando o livro, acrescenta uma única frase como comentário: “Hoje cumpriu-se esta passagem da Escritura que acabais de ouvir.” (Lc 4,21) Quando João enviou discípulos da prisão a Jesus para Lhe perguntarem se era Ele que havia-de vir, refere-se aos acontecimentos em volta Dele: “Os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Notícia.” (Mt, 11,5; Lc 7,22) Depois acrescenta: “É feliz aquele que não se escandaliza por causa de Mim!” (Mt, 11,6; Lc 7,23) Isto nos leva diretamente às bem-aventuranças do Sermão da Montanha, cuja primeira diz: “Felizes de vós, os pobres, porque o Reino de Deus vos pertence.” (Lc 6,20; v. Mt 5,3) Não há dúvida: Deus manda anunciar ao seus pobres que quer intervir a favor deles. É em Jesus que esta vontade de salvação de Deus se fez cumprir.

Tal interpretação da teologia dos pobres só pode ser compreendida se mudarmos de posição, isto é, se vivermos a nossa fé desde a experiência concreta com os pobres. Isto chama-se mudança de posição, para que vejamos a mesma realidade desde a perspectiva dos pobres. A mesma realidade, no entanto, também pode ser vista duma posição completamente diferente: desde os aeroportos, desde os bairros das vivendas, desde os clubes elegantes etc. A percepção da realidade desde a perspectiva dos pobres é uma decisão consciente, isto é, nós estamos dispostos a interpretar esta realidade com os temores e as preocupações, mas também com as esperanças dos pobres insistindo em mudanças.

O exemplo clássico para tal mudança de posição é Francisco de Assis. No seu Testamento descreve a sua vida como uma decisão contra a cidade de Assis, na qual havia os poucos ricos no centro da cidade ao lado dos pobres no arredores e os leprosos fora da cidade. Não quer ter nada em comum com as falsas idéias da sua cidade natal. Os leprosos foram a causa da sua insegurança. Concretiza, tal como os israelitas o êxodo do Egito, o êxodo da cidade. A seguir, vai viver com eles, cuidar deles e andar com eles (v. Test 1.3). Na vida e no trabalho, no destino e na miséria, Francisco se fez igual aos pobres relendo o Evangelho. Ele descobre idéias novas desde que, pela experiência com os pobres, chegou a compreender o Evangelho. Portanto, não é de admirar que inclui na sua Regra a passagem de que cada irmão tem de tomar este Evangelho ao pé da letra. Tem de vender tudo e dá-lo aos pobres; só então pode compreender realmente o Evangelho (v. Reg NB 1, 1-3; 2, 1-4).

Esta é uma mudança radical no método e na meta da Anunciação. Igual a Jesus, Francisco quer andar pelo mundo anunciando a Boa-Nova do Reino vindouro de Deus aos pobres. Quer dizer, não está ligado a lugares fixos, nem à piedade privada e à preocupação pela salvação da própria alma, mas sim à preocupação pela “shalom” total de Deus. O Reino de Deus torna-se conteúdo e meta da anunciação. Quem quiser realmente gerar a paz, só pode alcançá-la se tiver paz no seu coração. Quem quiser anunciar autenticamente a mensagem de Deus aos pobres como uma mensagem libertadora tem de ser pobre. Quem se quiser comprometer completamente com esta mensagem pelos pobres não se deve ligar a lugares fixos, mas sim tem de ser capaz de andar pelo mundo com uma bagagem leve. Mobilidade, pobreza, não-violência são as características das irmandades, que correspon-dem a esta inversão da polaridade da espiritu-alidade cristã. É precisamente a isto que a comemoração do início do Movimento Franciscano há 800 anos nos quer lembrar. O Cardeal Arns disse uma vez que, com a decisão preferencial pelos pobres que a igreja latino-americana tomou em Medellín e Puebla, este sonho de Francisco começava a se tornar realidade. Também hoje podemos, portanto, sonhar com esta visão vivificante dos pobres

Andreas Müller OFM

Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2008/2008_03_News.shtml?navid=92
acesso em 02 set. 2008.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Opção por uma Igreja fraternal

Deu no CCFMC-Boletín Fevereiro de 2008:

A missão franciscana fomenta o modelo duma Igreja fraternal, na qual todos, desde o Papa até ao mais pobre dos pobres, desde o bispo até a um simples membro da paróquia, se devem tratar simplesmente como irmãs e irmãos. Pois, a realidade básica da Igreja é comunhão, povo, koinonia. A Palavra de Deus convida-nos a isso. Por isso, Cristo veio ao mundo. É Ele quem forma a comunidade, quem reconcilia judeus e gentios. O que nós podemos fazer, é celebrar e viver o que Cristo viveu e anunciou. Assim nos diz Lucas: “Eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos Apóstolos, na comunhão fraterna, no partir do pão e nas orações,” (Act 2,42)

Esta descrição é o padrão de todas as comunidades eclesiásticas nos primeiros dois séculos. Viviam como igreja na clandestinidade. Foi perigoso ser-se cristão. Ajudaram uns aos outros a viviam em comunidade o Evangelho. Os quatro Evangelhos nasceram para ajudarem as comunidades a viverem em comunhão. Foram escritos pelas comunidades para as comunidades, para encontrarem uma resposta às próprias perguntas. O impulso missionário emanou destas comunidades.

A situação da Igreja modificou-se fundamentalmente, quando, no reinado do Imperador Constantino, no princípio do século IV, o cristianismo foi declarado religião do Estado. A Igreja tornou-se Igreja popular. Foi necessário ser-se cristão para conseguir uma posição social. Mas assim também entrou a mediocridade e a superficialidade na Igreja, e, portanto, a necessidade de que as pessoas, que queriam viver o ideal original, se reunissem em comunidades pequenas tentando viver conforme o exemplo das primeiras dioceses, como João Lassian notou no século IV.

Isto foi o princípio da vida monástica e, simultaneamente, a sua primeira característica mais importante: levar a Igreja outra vez aos seus ideais originais do Evangelho. Uma pessoa que reconheceu isto intuitivamente foi Francisco de Assis. Pela sua fraternidade radical introduziu uma idéia bastante revolucionária nos pensamentos ordenadores da igreja e da sociedade do seu tempo. Todos são irmãos e irmãs. Não há senhores e servos, não há diferenças de classes. Por isso, Francisco também não quis superiores para a sua Ordem. Quem tem uma função dirigente deve ser o ministro, o servo dos outros.

Esta alternativa da vida em comum é um apelo a todos. Desde o Papa até ao simples leigos, desde o bispo até às pessoas humildes nas comunidades – todos têm a mesma dignidade. São filhos e filhas do Pai dos Céus, irmãos e irmãs do Filho que se fez homem, Jesus de Nazaré. Como Ele, nós devemos servir-nos uns aos outros e lavar os pés uns aos outros. Já não vale a lógica do poder, muito menos na Igreja, mas pura e simplesmente a dinâmica do amor. E já não existe a superioridade de clérigos sobre os leigos, dos homens sobre as mulheres.

É difícil para nós descobrir este modelo fraternal na convivência na Igreja de hoje. Pois é uma idéia de Igreja que é capaz de escutar, de deixar espaço de crescimento, na qual a confiança é mais importante do que o controle, na qual o encorajamento vale mais do que a intimidação e o desenvolvimento criativo é mais desejado do que a simples obediência. É uma Igreja que renuncia a privilégios e insígnias do poder espiritual.

Era uma Igreja fraternal com a qual sonhava Francisco, e a única tarefa das pessoas franciscanas é testemunhar e construir esta Igreja fraternal. Os dois textos básicos de Mattli 1982 e Aparecida 2007 oferecem bons estímulos e impulsos a este respeito. E, portanto, é fácil responder à pergunta em que medida o centralismo eclesiástico corresponde ou contradiz às idéias básicas do Evangelho.

Estes são os problemas prementes do nosso tempo, que estão domiciliados na teologia franciscana da Encarnação de Deus. Em outras palavras: é o antigo sonho da humanidade, que Deus colocou no nosso berço, dum mundo mais justo, mais humano, mais pacífico, menos violento. Esta é a nossa missão. No entanto, nunca tem sido mais atual do que hoje em dia.

Andreas Müller OFM

Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2008/2008_02_News.shtml?navid=92
acesso em 1º set. 2008.

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