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sábado, 13 de setembro de 2008

Alguns desafios pastorais e os irmãos e irmãs da Ordem Franciscana Secular

Frei Almir Ribeiro Guimarães,OFM (*)

1. Estamos vivendo o final da primeira década do século XXI. Os mais velhos vivemos, na segunda metade do século XX, transformações gigantescas na vida do mundo e no seio da Igreja. A Igreja, depois do Vaticano II, conheceu belas e profundas transformações. Também nesse tempo os franciscanos seculares foram buscando seu novo espaço na Igreja e no mundo. Embora muitas fraternidades seculares conheçam sério processo de envelhecimento, surgem novos grupos e as antigas fraternidades são convidadas a buscar novas vocações. Os franciscanos seculares, convictos de seu chamamento, sabem que precisam ser sal da terra e luz do mundo e se sentem responsáveis por levar o cristianismo ao mundo à maneira de Francisco e Clara. São leigos e leigas conscientes de seu papel na Igreja e no mundo.

2. Não podemos deixar de assinalar um fato importante para a vida dos seculares franciscanos. Referimo-nos à Regra de Paulo VI, nova Regra dos Seculares, aprovada a 24 de junho de 1978. Neste ano 2008 ela completou 30 anos. Trata-se de uma Regra atualizada, contendo a seiva da espiritualidade franciscana, redigida com o cabedal do ensinamento do Vaticano II e do Magistério da Igreja sobre os leigos. Esse ponto é de fundamental importância.

3. Antes de mais nada afirmamos que os franciscanos seculares são pessoas que trabalham e cultivam sua vida espiritual. Não são apenas “católicos” ou meros tocadores de obras, mais ou menos corretos, mas pessoas profundamente tocadas pelo Evangelho e pelo carisma franciscano. Os membros da OFS entram num processo de conversão. Toda a engrenagem da vida franciscana secular leva a uma transformação pessoal que faz dos irmãos e das irmãs pessoas despojadas, disponíveis, serviçais, dispostas a criar relacionamentos corteses e delicados entre as pessoas.

4. Para chegar a esse despojamento interior os franciscanos seculares cultivarão sua vida espiritual. Haverão de se impregnar cada dia da Palavra, ou seja, da Escritura. Pensamos aqui numa leitura pessoal ou comunitária, na audição atenta da Liturgia da Palavra da missa. Pensamos de modo especial na meditação da Palavra que nos modela individualmente e como fraternidade franciscana.

5. Os franciscanos seculares começam prestando atenção no que ocorre em sua própria família e nas famílias à sua volta. Se são filhos, cuidarão dos pais idosos. Se são pais, prestarão atenção nos filhos. Não faltarão com seus deveres familiares. Dentro do possível transformarão suas casas em igrejas domésticas, expressão muito antiga forjada por São João Crisóstomo. Sabem os franciscanos seculares que as questões familiares são delicadas: aborto, separações, assédio sexual, separações, recasamentos.

6. Administrarão essas situações com firmeza e com misericórdia. Haverão de colorir toda a sua atividade familiar com o jeito franciscano de ser mãe, de ser pai, de ser filho: simplicidade, cordialidade, diálogo, vida despojada. Celebrarão em casa e na fraternidade os grandes acontecimentos familiares.

7. Especial atenção merecerá a vizinhança. Não somos indiferentes e alheios aos que nos cercam. Vivemos com outros: justiça, hospitalidade, veracidade, serviços prestados com generosidade e não mesquinhez. Os franciscanos se farão presentes junto às outras pessoas para que elas sintam que somos delas.

8. Os franciscanos seculares impregnam o mundo do trabalho com seu jeito evangélico: trabalho bem feito, honesto, fazer-se merecedor do salário, fazer progressos na profissão. Saber amar pelo trabalho e no trabalho.

9. Tomo a liberdade de elencar alguns aspectos e campos de atividade dos franciscano seculares que deveriam fazer parte da formação inicial e permanente dos irmãos e das irmãs:
  • manter a tensão sadia entre ação e oração;
  • criar profundidade num mundo de superficialidade;
  • num mundo de compromissos provisórios, colocar em destaque a fidelidade ( no casal, na família, na profissão, nas amizades);
  • necessidade de ser rever o modo como as famílias estão se inaugurando;
  • compreensão sempre mais clara do que vem a ser um cristão leigo no mundo (não é um mini-padre);
  • educar a juventude para a vivência de uma afetividade e uma sexualidade humanas;
  • trabalhar na catequese, ou seja, na formação cristã das novas gerações;
  • num mundo de indiferença e insensibilidade criar uma rede de solidariedade;
  • numa terra de violência, viver o espírito de ternura e de perdão;
  • estar um pouco mais consigo mesmo;
  • evitar aquilo que nos torne pessoas sem critério e sem discernimento, ou seja, não adotar modismos como verdades e sempre cultivar um espírito crítico.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM,
é Assistente Nacional da OFS pela OFM
e Assistente Regional da OFM na Região Sudeste II.
Email: freialmir@hotmail.com

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/noticias/noticias_especiais/2008/almir_070808/artigos_05.php acesso em 13 set. 2008

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Os estigmas de Francisco de Assis e o segredo da suprema felicidade (1)

Dom Laurence Freeman, OSB (*)
Junho de 1998, Festa de Corpus Christi


Queridos amigos:

Sessenta e cinco meditantes de vários continentes se reuniram recentemente em um Retiro silencioso de uma semana, no Monte Alverne, o lugar de peregrinação na Toscana, onde São Francisco de Assis (1182-1226) recebeu os estigmas em 1224, dois anos antes de sua morte. Passamos a noite do primeiro dia de viagem ao pé do monte e logo cedo, no ar fresco e ensolarado da manhã seguinte, fizemos vagarosamente e em silêncio o caminho da forte subida que leva ao santuário.

Paramos na Capela dos Pássaros para escutar o sublime canto que recebeu Francisco e seus três companheiros quando ali chegaram e ele se viu cercado alegremente pelos pássaros, confirmando que tinha vindo ao lugar certo. Francisco fora ao monte para um jejum de quarenta dias em preparação à chegada da Irmã Morte cuja rápida aproximação pressentia.

Depois de nos alojarmos na simples Casa Franciscana de Retiros, e começarmos a sentir o ambiente desse lugar intenso e sagrado, concordamos em nos fazer uma pergunta preliminar simples. Por que tínhamos ido para lá? Como a maioria das perguntas simples, ela foi uma chave que abriu muitas portas. Afinal, no silêncio em que estávamos então entrando, a pergunta levou a outras perguntas igualmente básicas, relacionadas à consciência e à vida espiritual, que nos levaram ao limite do pensamento e, assim, à luz de Deus dentro de nós: Quem sou eu? Quem é Deus?

A história da experiência de oração de Francisco no lugar sagrado do Monte Alverne nos enriqueceu, desafiou e guiou dia após dia. Ficamos sabendo como ele se aprofundou cada vez mais na solidão, durante sua estadia ali, alternadamente fustigado por seus demônios interiores e consolado por visitas angélicas. Nisto, ele perseverou até que chegou à experiência que culminou na união com a humanidade de Cristo, o que tornou esse lugar tão sagrado, não somente para seus seguidores franciscanos, mas também de grande significado para toda a tradição cristã de oração.

Na noite de 14 de setembro, Festa da Santa Cruz, seu fiel amigo e companheiro, Frei Leão, desobedeceu às instruções de Francisco e penetrou na solidão de sua reclusão para ver como ele estava. À luz do luar, Frei Leão viu Francisco de joelhos em oração, repetindo com todo o fervor as perguntas que se encontram no centro de toda oração cristã: “Quem és tu, meu doce Deus... Quem sou eu, teu servo inútil?”“E somente estas palavras repetiu e nada mais disse” - conta-nos São Boaventura, seu biógrafo. Frei Leão viu o fogo que descia sobre a cabeça de Francisco, envolvendo-o por muito tempo.

Quando Francisco afinal o notou, Frei Leão perguntou o que significava tudo aquilo. Francisco respondeu que ele tinha recebido duas luzes para a sua alma; o conhecimento e a compreensão de si mesmo, e o conhecimento e a compreensão de Deus. Nesta oração no fogo, Deus lhe pediu três dádivas e ele buscou em sua pobreza até encontrar uma bola de ouro que ofereceu três vezes: a doação dos seus votos.

Após dizer a Frei Leão que não o espionasse mais, Francisco dirigiu-se à Bíblia para saber a que estaria sendo preparado - e em cada consulta ele foi encaminhado para a Paixão de Jesus Cristo. Retornou então à oração solitária, “tendo muita consolação na contemplação”. Sentiu-se depois impelido a pedir não somente a graça de sentir a dor de Cristo, mas também o amor que possibilitou a Cristo suportá-la por nós. Começou a contemplar a Paixão com profunda devoção até que “se transformou completamente em Jesus por meio do amor e da compaixão”.
Na manhã seguinte, ele viu um serafim aproximar-se na forma de Jesus Crucificado. Ele se sentiu repleto, simultaneamente, de medo e alegria, deslumbramento e tristeza. E foi-lhe dada a percepção de que sua transformação em Cristo não aconteceria por sofrimento físico, mas “por uma elevação da mente” - a transformação da consciência em amor. Entretanto, o sinal desta transformação seria a marca permanente das cinco chagas divinas de Cristo no corpo de Francisco. Pouco depois, Francisco deixou o Monte Alverne e retornou à cidade de Assis, para morrer “com a chama do amor divino em seu coração e as marcas da Paixão em sua carne”. Com humildade, perguntou a seus irmãos se deveria tornar pública a informação sobre seus estigmas, e convenceu-se de que deveria quando lhe disseram que a experiência deveria ter um significado não somente para ele, mas também para os outros.

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/noticias/noticias_especiais/chagas07/02.php acesso em 12 set. 2008.

Vá para a Parte 2: http://brasilfranciscano.blogspot.com/2008/09/os-estigmas-de-francisco-de-assis-e-o_9224.html

Os estigmas de Francisco de Assis e o segredo da suprema felicidade (2)

MISTÉRIO E SIGNIFICADO

Houve diversas reações entre nós ao ouvir esta história. O elemento de ligação de todas foi um reverente senso de mistério - a experiência que não pode ser aplicada adequadamente pela razão - e a necessidade de expressar reverência pela busca de um significado para a experiência. As experiências mais profundas das histórias de nossas vidas também merecem a mesma reverência e impelem à busca de significados. E o significado não aparece com rapidez ou facilmente.

Não dar o tempo ou a quietude de atenção necessários, para tornar plenamente consciente o que nos acontece, é uma característica de nossa época, veloz e impaciente. Tempo e atenção são necessários se não quisermos tratar a vida superficialmente.

A superficialidade desperdiça o precioso sentido do sagrado que dá profundidade e propósito a nossos encontros com a alegria e o sofrimento intensos, freqüentemente cheios de perplexidade. Mistérios como esses são dons valiosos, realidades que exigem tempo.

Quanto à experiência de Francisco, precisávamos, em primeiro lugar, perguntar: o que significava e para quem? Para o próprio Francisco, para a Igreja, para nós, hoje? Talvez o significado para Francisco fosse de foro íntimo e inacessível, só dele mesmo - este é o significado solitário e único de toda experiência única. Podemos supor, pelo que sabemos de Francisco, que os seus estigmas simbolizam um alto grau de realização da sua união com a pessoa do Cristo Crucificado e Ressuscitado, a quem amou com tanta persistência e paixão.

O desejo que consome os místicos - e amantes - é sempre o de despojar-se de sua identidade egocêntrica e unir-se de forma permanente com o Bem- Amado, em uma maneira de ser em que o “eu” e o ‘tu”, apesar de não obliterados, deixam de ser entidades fixas. “Não sou mais eu quem vive; mas é o Cristo quem vive em mim”. O abismo da separação (das individualidades) se fecha quando transcendemos o ego. “Uma consumação a ser desejada devotamente”, mas algo que, ao mesmo tempo, causa horror ao ego e doloroso pressentimento. À diferença de Francisco, a maioria de nós recua, sistematicamente, no exato momento em que a satisfação do nosso desejo de plena união nos é oferecido.

A vida de Francisco foi uma ascensão, freqüentemente uma peregrinação vertiginosa em direção a esta união de sua humanidade com a humanidade de Cristo. Ao contrário dos seus seguidores, que o veneravam como santo, Francisco via a história de sua própria vida repleta de inúmeros fracassos e retrocessos, provocados por sua natureza pecaminosa. Como acontece com a maioria dos fundadores, ele morreu com um sentimento de fracasso.

Ao mesmo tempo, ele também sentia e manifestava uma alegria cada vez mais intensa, o que seria uma prova, em nível mais profundo de percepção, de que sua evolução era constante. A coexistência, a mistura de alegria e sofrimento, dor e paz, amor e solidão, tornaram-se, com crescente clareza, o tema unificador - se não, mesmo, a experiência - do nosso Retiro. Até o clima variável durante a semana foi expressão disso, ao passarmos de dias fechados com nevoeiro úmido e frio para outros dias de céu claro, com sol quente e panoramas abertos.

Independentemente do que possa ter significado a mais para Francisco, por causa da extinção, pelo amor, da sua identidade separada, os estigmas selaram também sua vocação e sua missão na Igreja. A experiência de Francisco influenciou decisivamente o curso da Espiritualidade cristã. Sua união com Cristo, ocorrida no Monte Alverne, iniciou uma nova era e uma mudança na consciência cristã. Ficou a cargo de São Boaventura - pois Francisco não era teólogo - formular a devoção ao Jesus histórico, especialmente a que focalizou a Cruz - que abriu uma nova dimensão no pensamento e no sentimento cristãos.

E o que podem os estigmas significar para nós? É o que nos perguntávamos, enquanto, dia após dia, a intensidade peculiar do Monte Alverne nos convidava a questionar mais seriamente quem era Deus e quem éramos nós. Lembrávamos o que Francisco viu na grande claridade de sua experiência incandescente: que o conhecimento de Deus e o conhecimento de si mesmo são inseparáveis e que, uma vez que se fundem, somos transformados para sempre. Indagávamos o que seria “a bola dourada” em nosso estilo de vida, com a qual faríamos a dádiva de nós mesmos a Deus.

Vimos que se Francisco podia sentir simultaneamente as emoções conflitantes de medo, alegria, admiração e sofrimento, nós também deveríamos estar dispostos a parar de nos agarrar a um único estado mental dominante, com o qual ficamos habitualmente obcecados - não deveríamos nos identificar com nossa ira, medo ou desejo, por exemplo. E que precisamos aprender a nos desapegar de todos os nossos sentimentos para estarmos abertos ao mistério de Deus em toda a extensão da nossa humanidade.

Vimos como, em sua simplicidade, Francisco ilustrou a dimensão trágica da vida em que alegria e sofrimento são parceiros inseparáveis. Questionamos a fixação da nossa cultura na busca da felicidade, que nega a nossa inescapável condição de mortalidade e nossas imperfeições essenciais. No sinal misterioso da união de Francisco com Cristo, pudemos sentir como o desejo de união, que é a mais profunda de todas as nossas aspirações, só pode acontecer com pureza de coração e intensa entrega. A união acontece quando ela é o nosso único desejo: quando o drama habitual de desejos conflitantes, que nos fazem repetir padrões antigos de fracassos, tiver sido radicalmente simplificado.

Quando lemos que Francisco, ao deixar o Monte Alverne montado em uma mula, por causa da dor que sentia em seus ferimentos, começou - na última fase de sua vida - a curar os sofrimentos dos outros, compreendemos que nenhuma experiência identificável como tal pode ser considerada definitiva. Estamos sempre seguindo adiante. “Os anjos ficam parados - diz um ditado judeu - o Santo está sempre em movimento”.

Finalmente, indagando quem seria realmente Francisco, vimos como ele se tornou um amigo da humanidade, um dos grandes boddhisatvas cristãos. A escolha de Assis pelo Papa João Paulo II como local para o encontro histórico da oração ecumênica em 1988, reunindo dirigentes religiosos de todas as crenças, foi inspirada pela amizade universal a que se dedicou Francisco. Os santos, assim nos parece, não são somente para ser venerados como paradigmas de excelência, mas devemos nos aproximar deles como amigos para a jornada espiritual, com a humildade de Cristo, superando o paradoxo de uma intimidade universal que parece impossível sem eles.

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/noticias/noticias_especiais/chagas07/03.php acesso em 12 set. 2008.

Vá para a parte 3: http://brasilfranciscano.blogspot.com/2008/09/os-estigmas-de-francisco-de-assis-e-o_12.html

Os estigmas de Francisco de Assis e o segredo da suprema felicidade (3)

FERIDOS QUE CURAM

Depois de receber os estigmas de Cristo, Francisco ficou marcado como a expressão viva do arquétipo de santo, sábio ou xamã. Mas no sentido cristão, e de forma ainda mais expressiva, ele personifica o ferido que cura. Numa ocasião em que Frei Rufino tocou Francisco e colocou com curiosidade sua mão na chaga aberta do lado, Francisco se encolheu de dor.

Como ele, nós também às vezes invadimos as feridas íntimas de outros - a mídia atual ganha muito com isto. Nós sabemos como os nossos ferimentos mais profundos podem gritar de dor quando um pensamento, uma palavra ou ação desatenciosa toca neles.

O toque é um tema dominante na vida espiritual de Francisco. Ele tem um contato alegre com o mundo material e suas múltiplas e esplendorosas belezas. Ele é constantemente mostrado tocando ou sendo tocado por criaturas, humanas e outras. Muitos dos que o tocaram no fim da vida sentiram-se curados simplesmente por fazê-lo. Sua grande singularidade demonstra a espécie superior de sanidade que nos advém quando somos (mesmo que só um pouco) tocados por Deus. As chagas de Francisco foram toques de Deus que o mudaram de forma irreversível.

Somos feridos mais profunda e dolorosamente, não por acidentes que acontecem - não importa quão trágicos sejam - mas pelo amor. Como todos aqueles que sofreram sabem, todo sofrimento é suportável - ou não suportável - proporcionalmente ao grau de amor que conseguimos manter vivo. Entretanto, o próprio amor é o maior ferimento que a humanidade é capaz de infligir. Existe o doce ferimento do amor, que pode transformar a personalidade e nossos poderes de percepção. Pode elevar-nos de um mundo preto-e-branco, unidimensionado, para um universo multicolorido não sonhado e de perspectivas cambiantes.

E existe o ferimento amargo, quando o amor é retirado, quando sua expressão emocional murcha, quando é inexistente ou traído. Ou quando morre a pessoa que amamos. Como nos estava ensinando o tema emergente do Retiro, abrir-se ao doce ferimento (do amor) como Francisco se abriu às “alegrias da contemplação”, também nos expõe ao lado cortante da espada, à realidade do amor, ao ferimento amargo e à dor da perda irremediável.
O ferimento é uma experiência rara de permanência. A maioria das coisas que acontece não dura. Necessitamos, portanto, distinguir entre ferimentos e golpes, as frustrações e os desapontamentos que acontecem na vida e que podem ser amargamente dolorosas, mas que, com o tempo, podem até desaparecer da memória: o fracasso de um exame, perdas financeiras, desencontros. De tudo isso nós nos recuperamos. Entretanto, os ferimentos nos marcam para sempre e alteram a química mais profunda de nossa percepção e o próprio funcionamento de nossa identidade. Um ferimento significa que nada será mais como antes. O tempo conserta os golpes, mas não cura ferimentos profundos. Somente a eternidade, a imersão do momento presente nas águas da presença de Deus, pode curar um ferimento. Assim como o ferimento da morte de Cristo só pode ser curado pela Ressurreição, quando Ele mergulhou nas escuras profundezas de sua divindade.

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/noticias/noticias_especiais/chagas07/04.php acesso em 12 set. 2008.

Vá para as partes 4 e 5 (final): http://brasilfranciscano.blogspot.com/2008/09/os-estigmas-de-francisco-de-assis-e-o.html

Os estigmas de Francisco de Assis e o segredo da suprema felicidade (4 e 5)

OS FERIMENTOS AO PASSAR DO TEMPO

Claro que os sentimentos e os significados associados aos ferimentos vão mudando com o tempo. Todo significado surge, dentro do seu contexto, na leitura do que estamos analisando. Não podemos ver o significado da experiência de Francisco no Monte Alverne fora do contexto da sua própria vida e da sua cultura histórica. O significado dos nossos próprios ferimentos - que, com freqüência, no princípio nos parecem horrorosamente sem significado - começa a surgir à medida que os vamos vivendo em relação com outros eventos e esquemas de nossa vida.

Isto quando o sofrimento nos permite continuar conscientes o suficiente para proceder assim. Mas ferimentos nunca podem ser eliminados, assim como um fim ou um princípio jamais podem ser repetidos. São parte da nossa história e, nesta história, não obstante pareça um átomo insignificante no universo, é uma partícula única e indispensável na constituição do cosmos. Nossos ferimentos estão, portanto, entre as forças mais sagradas que dão forma à nossa existência e fazem o próprio mundo ser como é.

É importante evitar o sentimentalismo ou o excesso de otimismo com referência ao nosso sofrimento, porque ambos podem inibir a esperança. Ser ferido é perigoso. Pode aleijar ou até destruir a personalidade. Pode nos empurrar da borda para dentro do desespero ou nos entrincheirar em um isolamento medroso e cínico, além de amargurar involuntariamente o nosso espírito. Até pior - e as histórias de famílias e nações estão repletas de exemplos: os ferimentos podem nos transformar em inimigos da humanidade, demônios cheios de ódio contra Deus, cruéis e selvagens para com os outros.

“O ferimento aceito dentro da maneira de ser do mundo” - como nos diz São Paulo - leva-nos à morte. Nesse estado de morte somos esvaziados de toda a compaixão, coma os campos nazistas de extermínio - dirigidos por pessoas comuns não tão diferentes de nós mesmos - não nos deixam esquecer. E podemos nos tornar especialmente vingativos com os que são mais fracos do que nós e estão mais feridos. Podemos nos transformar em feridos que ferem. Ou feridos que curam. Como Francisco e seu modelo, Cristo.

Como aconteceu com Queirão no mito grego. Filho do deus Cronos e da ninfa terrestre Fílira, Queirão teve a infelicidade de nascer como um centauro, meio humano – a parte superior do seu corpo - e meio cavalo. Quando sua mãe o viu, ao nascer, ficou tão revoltada que conseguiu ser transformada em um limoeiro para que não pudesse amamentá-lo. Assim, seu primeiro ferimento foi a rejeição. Mas Apolo o adotou – pelo menos em sua parte superior – e lhe deu treinamento para aperfeiçoar-se em todas as artes e no conhecimento. Queirão transformou-se em um grande mestre e mentor para muitos dos maiores heróis gregos, incluindo o próprio Héracles. Um dia, em uma festa com centauros que se desgovernaram, Héracles teve que lançar uma flecha envenenada para acabar com a desordem. Acidentalmente, a flecha atingiu Queirão. Sendo filho de um deus - logo, imortal - a flecha não poderia matá-lo, mas deixou-o em agonia permanente e amargurada.

Sua vida mudou. Viu-se forçado a retirar-se para uma montanha para cuidar de sua chaga incurável. Desta maneira, Queirão transformou-se em perito nas artes da cura e dos poderes medicinais da natureza. Com a aproximação dos que sofriam e vinham procurá-lo, nele também cresceu a compaixão por eles. Não eram mais os famosos e poderosos que vinham até ele, mas os pobres e esquecidos. A todos, Queirão curava com o poder do seu recém-desenvolvido conhecimento, e eles partiam agradecidos, mas se perguntavam por que ele, que curava os outros, não podia curar a si próprio.

Héracles (o que feriu curando), durante outra de suas aventuras, encontrou uma saída para Queirão. Conseguiu que Zeus concordasse em libertar Prometeu do seu tormento se fosse encontrado um imortal que se dispusesse a dispensar sua imortalidade e a morrer. Queirão aceitou a proposta e, ao aceitar a mortalidade e morrer, disse sim para o que realmente era. Ele assim iniciou um novo tipo de heroísmo, deixando de lado suas tentativas inúteis de curar seus próprios ferimentos, de ser o seu próprio redentor. A morte não tinha grande atração ou glória, mas continha uma verdade sombria e profunda que não poderia ser expressa nem por todos os poderes de Apolo.

Ele morreu e, como todos os mortais, desceu ao mundo interior. Atravessou o Estige, fronteira entre a consciência dos vivos e dos mortos; pagou a sua moeda ao barqueiro sem rosto, atravessou os campos cinzentos de Asfodel - onde os mortos à espera do julgamento piavam como morcegos - e, diante dos que reinavam no Hades, aguardou o seu julgamento. O mito nos conta que ele permaneceu ali por nove dias obscuros. Zeus então o salvou do Hades e o alçou acima da terra para fazê-lo para sempre uma constelação no céu: um ensinamento escrito no céu para todos lerem.
E onde fordes, proclamai que o Reino dos Céus está próximo. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça dai (Mt 10, 7-8)
Jesus, sempre consciente da sua morte iminente, e ferido pela rejeição e pelos mal-entendidos, ficou conhecido entre os seus contemporâneos, sobretudo, como aquele que curava. O convite que faz aos seus seguidores, para imitarem o que fazia quando curava o sofrimento humano, confere dignidade aos que estão feridos. Enquanto pensarmos que são os sadios que curam, estaremos subscrevendo o culto do poder. Nossa percepção da realidade ficará distorcida pela busca obsessiva da felicidade e pela fuga do sofrimento, empreendidas pelo ego.

O segredo do Monte Alverne não é, afinal, tão esotérico. Ele abre uma visão de suprema felicidade humana - a ventura de conhecermos a nós mesmos e a Deus, no amor de Cristo. Nele podemos também acreditar, porque não foge da realidade do sofrimento - do qual não há como escapar. A sabedoria de Francisco, assim como a sabedoria de Jesus, nos ensinam que a nossa vulnerabilidade ao sofrimento não é um impedimento para a prestação de serviços amorosos aos outros. E mesmo condição para que possamos aliviar o sofrimento do próximo.

Enquanto perseguirmos a nossa própria felicidade como a primeira das prioridades, nós faremos isso, de forma consciente ou não, à custa do bem-estar de outrem. Mas, se aliviarmos a dor do outro, encontraremos a plenitude do ser para a qual fomos criados. Curar - enquanto nós mesmos estamos feridos - não está, no entanto, no campo da experiência do ego.
Aquele que não toma a sua cruz e me segue
não é digno de mim. Aquele que procura a si mesmo
acabará por se perder e quem se esquecer de si mesmo,
por amor de mim, acabará por encontrar-se
(Mt 10,38-39).
Pode-se compreender melhor o significado da experiência de Francisco, no Monte Alverne, no contexto da sua oração, assim como nossa vivência consciente, a partir desses paradoxos do espírito, dependerá da profundidade da nossa oração. Na oração de Francisco, a ênfase não está essencialmente nas visões, revelações e milagres que enchem sua biografia. A meditação logo nos ensina que não precisamos dessas coisas e não devemos procurar tais experiências.

Até para Francisco elas não foram a substância do seu relacionamento com Deus, como o mostra a sua vida em comunidade e a sua insistência no valor supremo da pobreza e da humildade. Mais significativa é a sua contínua perseverança no aprofundamento da oração. Ele retornava freqüentemente a períodos de solidão e aprofundava a sua aceitação de todo o espectro da realidade, o que o tornou tão profundamente sensível à presença e à atividade de Deus em tudo, em toda manifestação da natureza, como o mostra o seu Cântico das Criaturas. “Despertado por todas as coisas para o amor de Deus... nas coisas belas ele encontrava a própria beleza”.

Vistos através deste prisma, o amor de Francisco pela criação e a ênfase de São João da Cruz sobre o desapego a todas as criaturas parecem complementares, em vez de opostos inconciliáveis, como poderia parecer. Vemos desapego também em Francisco, e celebração e louvor em João da Cruz. Onde se vive a plena verdade, os opostos coexistem. Não apenas alegria e sofrimento. Mas também a vida e a morte. Quando o percebemos, sabemos o que a vulnerabilidade de Cristo ao sofrimento proclama: a vida não é negada pela morte, mas consiste no ciclo de morte e renascimento. Este ciclo vai levar, na plenitude dos tempos, ao estado sem morte que Francisco suplicou lhe fosse dado experimentar antes da sua união com Cristo no Monte Alverne:
E como continuasse neste propósito, um anjo
lhe apareceu em grande glória, trazendo
um cálice na mão esquerda e uma flecha
na mão direita. Enquanto Francisco se admirava
com esta visão, o anjo atravessou o cálice
uma vez com sua flecha, e imediatamente Francisco
ouviu uma melodia tão doce que sua alma se encheu
de encantamento - o que fez que ele ficasse
insensível a toda sensação do corpo. Como
posteriormente contou a seus companheiros,
caso o anjo passasse novamente a flecha pelo cálice, tinha dúvidas
se a sua alma não teria deixado seu corpo por causa da doçura intolerável
(Segunda Consideração dos Sagrados Estigmas).
A meditação não procura - nem rejeita - tal experiência. Ela nos leva a profundezas para além do ego em que a experiência de Deus é possível e transcende todo desejo do ser consciente. Não estamos buscando a plenitude mística, mas a união no mistério do amor. O/a meditante precisa tornar-se um ferido que cura ao penetrar fielmente neste mistério de alegria e sofrimento, rejeitando todo escapismo e falsa consolação.

Esta fidelidade remove gradualmente a montanha do egotismo. É um partilhar a vida do Cristo, que é seu contínuo morrer e ressuscitar em nós.
Incessantemente e em toda a parte trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo (2Cor 4,10).
Quando deixamos também o Monte Alverne - para o próximo passo da nossa peregrinação individual - nós o fizemos alimentados pela comunidade que havíamos partilhado e as verdades que experimentamos na companhia uns dos outros. Este me pareceu ser o poder da comunidade que vem à tona com a meditação, e que tantos, hoje, estão ansiosos por sentir, muitas vezes sem o saber. Que a nossa prática diária contínua permita a cada um de nós participar na cura do nosso mundo.

COM MUITO AMOR, DOM LAURENCE
(*) Exte texto foi publicado na revista “Grande Sinal”, de propriedade da Província Franciscana da Imaculada Conceição e editada pelo Instituto Teológico Franciscano (ITF). O texto desta meditação, tirado de Meditação Cristã - Boletim Internacional (23 Kensington Square - London W8 5HN - UK, fascículo de junho de 1998), foi gentilmente cedido a “Grande Sinal” pelo Núcleo de Meditação Cristã do Rio de Janeiro. Tradução a cargo de Maria Antonieta Garcia de Souza; revisão, Sérgio de Azevedo Morais.

Nota da Redação da Grande Sinal

Dom Laurence Freeman, OSB, mostra uma faceta fundamental da mística do Seráfico Pai, Francisco de Assis, portador dos estigmas de Jesus cristo, Trata-se de um tema que interessa, não só aos membros da Familia Franciscana, mas a todos/as aqueles/as que desejam atingir a plena identificação com Jesus cristo, nosso Redentor, em sua dura paixão, morte infamante e ressurreição gloriosa. Até que um dia todos possam dizer, como Paulo: ‘Já não sou eu que vivo, mas é o cristo quem vive em mim”

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/noticias/noticias_especiais/chagas07/05.php e de http://www.franciscanos.org.br/noticias/noticias_especiais/chagas07/06.php acesso em 12 set. 2008.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Pequeno retrato de Francisco de Assis

Frei Almir Ribeiro Guimarães,OFM (*)
Vivia na cidade de Assis, na região do Vale de Espoleto, um homem chamado Francisco (1Celano 1)

Todo mundo conhece Francisco de Assis. Ele é patrimônio da humanidade. Esse Francisco, originário da cidade de Assis, esse italiano natural da verdejante região da Úmbria experimentara no peito a ânsia das coisas grandes e foi se tornando o Irmão Francisco. Não havia nascido para a mesmice e a mediocridade, para a banalidade e a rotina. Tudo nele se revestia do novo e da novidade.

Tomás de Celano, contemporâneo de Francisco, depois da morte do santo ficou encarregado de escrever uma biografia do Pai. É ele, pois, que nos pinta um quadro com os traços de Francisco do mundo inteiro.

“Como era bonito, atraente e de aspecto glorioso na inocência de sua vida, na simplicidade das palavras, na pureza do coração, no amor de Deus, na caridade fraterna, na obediência ardorosa, no trato afetuoso, no aspecto angelical! Tinha maneiras simples, era sereno por natureza e de trato amável, muito oportuno quando dava conselhos, sempre fiel às suas obrigações, prudente nos julgamentos, eficiente no trabalho e em tudo cheio de elegância. Sereno na inteligência, delicado, sóbrio, contemplativo, constante na oração e fervoroso em todas as coisas. Firme nas resoluções, equilibrado, perseverante e sempre o mesmo. Rápido para perdoar e demorado para se irar, tinha a inteligência pronta, uma memória luminosa, era sutil ao falar, sério em suas ações e sempre simples. Era rigoroso consigo mesmo, paciente com os outros, discreto com todos.

Muito eloqüente, tinha o rosto alegre e o aspecto bondoso, era diligente e incapaz de ser arrogante. Era de estatura um pouco abaixo da média, cabeça proporcionada e redonda, rosto um tanto longo e fino, testa plana e curta, olhos nem grandes nem pequenos, negros e simples, cabelos castanhos, pestanas retas, nariz proporcional, delgado e reto, orelhas levantadas mas pequenas, têmporas chatas, língua apaziguante, fogosa e aguda, voz forte, doce, clara e sonora, dentes unidos, iguais e brancos, lábios pequenos e delgados, barba preta e um tanto rala, pescoço fino, ombros retos, braços curtos, mãos delicadas, dedos longos, unhas compridas, penas finas, pés pequenos, pele fina, descarnado,roupa rude, sono muito curto, trabalho contínuo.

E como era muito humilde, mostrava toda a mansidão para com todas as pessoas, adaptando-se a todos com facilidade. Embora fosse o mais santo de todos, sabia estar com os pecadores, como se fosse um deles”. (1Celano 83).

Difícil pintar um retrato desse homem. Muitos gostam simplesmente de designá-lo de Irmão, de Irmão Francisco, de Frei Francisco. E isto lhes basta. Durante muito pouco tempo, pouco mais de quarenta anos, os caminhos desta terra foram percorridos por um irmão de todos que deixou lembranças nas pétalas das flores, na limpidez da água, nas chagas dos doentes e nas penas das cotovias. Ele honrou a humanidade. Foi nosso irmão e o retrato mais acabado de Jesus Cristo.

Éloi Leclerc, franciscano francês, foi martirizado na alma e sofreu no corpo os horrores da guerra. Numa obra do outono de seus dias ( O Sol nasce em Assis) ele evoca o seu encontro com Francisco. Este livro, afirma ele, é a “história de um encontro maravilhoso: meu encontro com um daqueles homens tão raros na nossa história que não nos deixam desesperar do ser humano. Trata-se de Francisco de Assis. Seu espírito – o espírito de Assis, como é chamado – nos traz a luz, uma luz que precisamos atrozmente. Aquele homem luminoso fez surgir no meu coração o Sol, e com o Sol, toda a criação. Foi para ele que me voltei. Foi a ele que pedi no segredo de uma verdadeira fraternidade humana. Pouco a pouco, além das grandes aflições e das tragédias deste mundo, Francisco abriu a minha alma à harmonia profunda e das coisas e de tudo o que vive. Num universo desencantado, ele foi para mim um encantador. Mostrou-me o caminho de uma verdadeira humanidade, corrigindo o que o nosso humanismo dos direitos humanos tem de limitado e até mesmo de ambíguo e perigoso. Parece-me que, se a humanidade um dia encontrar a alegre esperança e o sentido da caminhada para a sua realização, será na direção inaugurada pelo Pobre de Assis” (O sol nasce em Assis, Vozes Petrópolis, 2000, p. 9-10).

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM,
é Assistente Nacional da OFS pela OFM
e Assistente Regional da OFM na Região Sudeste II.
Email: freialmir@hotmail.com

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/noticias/noticias_especiais/2008/almir_070808/artigos_04.php
acesso em 11 set. 2008.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O encontro de Francisco com o lobo

Um paradigma para o diálogo

Todos nós conhecemos a famosa passagem de I Fioretti que marca o encontro de São Francisco com o lobo. A partir desse pequeno texto, não quero aqui fazer uma análise exegética. Tal como ele está em português, proponho uma interpretação que ajude a elucidar a dinâmica do encontro. Um olhar que ilumine nossa postura diante do diferente de nós, do outro.

O texto conta que São Francisco estando em Gubio, ficou sabendo de um lobo que estava tirando a paz do lugarejo, de forma que todos os habitantes tinham medo de sair da cidade. O diferente, nesse caso o lobo, causa medo, assusta e provoca pânico. Sendo assim causa um problema social atrapalhando a vida desse grupo, já que não sabem como lidar com isso.

Francisco toma conhecimento da situação e não começa a agir imediatamente a partir das informações que recebe dos outros. Ele quer conhecer o outro lado da história. Ter clareza da situação. Equilibrar as coisas. Nada melhor que conhecer a história a partir do lobo também.

No primeiro momento, Francisco toma a decisão de sair ao seu encontro, como nos narra o texto: “ quis sair ao encontro do lobo” e não esperar que ele venha a si, mas se propõe a sair de si, do seu local e ir até a situação do “outro”, se dispõe ao encontro. Não com critérios pré-estabelecidos, nem impondo condições, mas está disposto a encontrar o outro, como ele é, no estado e condição em que o outro se encontra.

Agir assim é não se prender a auto-suficiência, ou se colocar como alguém de grau superior, mas, “ pondo toda a sua confiança em Deus”. Colocar-se em atitude de reciprocidade e abertura, confiando em Deus e se lançar. Francisco, “tomou o caminho que levava ao outro lado”. Toma a iniciativa, sai do seu lugar e vai ao encontro.

Por mais diferente que o outro seja, e mesmo que não saibamos as disposições e intenções dele é necessário partir desarmado para o encontro. A iniciativa deve partir de mim de aproximar-me dele como irmão. Não importa como, nem quem seja. Eu opto tornar-me irmão dele, “ chamou a si e disse lhe assim: Vem cá, irmão lobo, ordeno-te da parte de Cristo que não faças mal a ninguém”.

No decorrer da história, Francisco se refere ao lobo sempre como a um irmão. Toma conhecimento das realidades vividas por esse irmão e as compreende, intuindo que as situações forçam esse irmão a agir daquela maneira.

O agressor é tão vítima quanto às vítimas que ele faz. Na verdade, a iniciativa de atacar é só uma estratégia para se defender. Quem tenta se mostrar forte provocando medo e coagindo, no fundo só está mostrando a sua fraqueza.

Para isso se recorre a uma máscara, a um cargo, e a tantas outras estratégias de se mostrar imbatível para não assumir seu medo e fragilidade. Ao partir da violência, o ser só mostra o quanto debilitado está. Às vezes, essa agressividade é somente um pedido de socorro.

Quando Francisco o encontra, o lobo também se deixa encontrar. Aquele está oferecendo a este irmão a chance de reconhecer seu estado.

Após compreender a situação, o próximo passo é propor uma aliança. Do encontro brota o laço de amizade, a cumplicidade, um pacto, uma proposta de paz e fraternidade. O outro acolhido se reconhece como tal se deixa cativar e se aceita como irmão. Assume essa cumplicidade respondendo como um irmão. Acontece um equilíbrio das relações de maneira a estabelecer um relacionamento de fraternidade e amizade.

Um relacionamento em disparidade, quando uma parte se sente sócio-econômica, hierárquica, intelectualmente ou num grau de santidade mais elevado é impossível acontecer um relacionamento fraterno.

Enquanto uma das partes é inferior não está acontecendo a fraternidade. Só posso criar laços com o igual. Entenda-se, não no sentido de relativizar as individualidades. Todos nós somos diferentes. Mas, é impossível estabelecer laços fraternos, se me julgo superior ou inferior aos outros. Isso tanto no caso das pessoas como das religiões. Se me sinto o único portador da verdade absoluta e vejo a fé dos outros como “superstição”, jamais poderemos ser irmãos.

A mania de “ser superior” mata todo diálogo, o crescimento e a alteridade. A tendência do que se julga superior é normatizar tudo de modo que o seu conceito de verdade seja o único válido e seus princípios sejam aplicados a todos. Sendo as regras que regem o jogo são unicamente as suas.

Partindo dessa pequena reflexão temos alguns pontos que seriam importantes para aprofundar. Podemos dizer que seriam os 10 mandamentos do encontro:
  1. A disposição de ir ao encontro do outro, ignorando os pressupostos e preconceitos adquiridos. Conhecer o outro a partir dele e não de idéias pré-concebidas, ou do que outros disseram.
  2. A coragem de se desarmar para o encontro. Tirar a armadura.
  3. Colocar-se no lugar do outro e procurar compreendê-lo, no seu contexto vital, entendendo por que age de determinada maneira. Calçar as sandálias do outro, pisar o mesmo chão.
  4. Confiar na Paternidade de Deus e sentir-se irmão.
  5. Tomar a iniciativa de ir ao outro como irmão. Não se importando com a reação e a disposição do outro. Vencendo assim suas resistências.
  6. Colocar-se na atitude de acalanto, acolher o outro, aceitá-lo incondicionalmente como ele é.
  7. Ter a disposição de ouvir o outro. Deixando que o outro seja o outro e não um espelho de minhas projeções.
  8. Ter coragem de criar laços libertadores; relações de amizade e fraternidade.
  9. Partindo do encontro, fazer uma proposta de um caminho juntos que transformem as relações.
  10. Dar ao outro o direito de aceitar ou não as proposições.
O tema do encontro é extremamente sério em nossa época. Os laços, as relações estão quebradas e na Vida Religiosa, também por estar inserida no mundo, recebe vários “contra-valores”, e podemos citar o afrouxamento das relações entre eles. Tudo isso nos leva a questionarmos, fazermos velhas perguntas que achamos banais, já nos fizemos, mas não devemos cansar de fazê-las: Como nos relacionamos com nosso corpo, com nossas emoções, com o irmão, seja ele mais velho ou mais novo, e com Deus? Será que estou atento ao meu leque de relações? De fato, me encontro e me deixo encontrar? Quero me encontrar? Estou atento as minhas relações cotidianas? Quando me relaciono seja em casa, seja na pastoral tenho consciência que comunico o meu ser aos outros?

Nossa contribuição ao Reino de Deus deve ser expressiva principalmente pelo nosso testemunho, ser simplesmente alguém que é sinal do Reino, não por feitos extraordinários, mas com a minha vida. Evangelizo com minha alegria? Eu me coloco como “Dom de Deus” para o irmão e reconheço nele esse dom?

Na verdade, esse tema do encontro, do diálogo, do relacionamento, da fraternidade não tem conclusão. Tem dia marcado pra começar, para acabar jamais, não devemos nos preocupar com o fim do caminho o importante é curtir o trajeto admirar a paisagem, estar em constante atenção diante da vida e do outro. Estar se adaptando, questionando, e como diz Santo Agostinho, estar com o coração inquieto. Cuidando com especial atenção e tudo o mais dependerá disso e como nos propõe Francisco, sempre recomeçando, pouco fizemos.

Frei Emerson Aparecido Rodrigues [OFMCap] Extraído de http://www.procasp.org.br/textos.php?id_texto=394 acesso em 10 set. 2008.

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