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terça-feira, 24 de março de 2009

O ROSÁRIO - ORIGEM E IMPORTÂNCIA DESSA ORAÇÃO

O ROSÁRIO – ORIGEM E IMPORTÂNCIA DESSA ORAÇÃO

A oração sempre foi e sempre será o melhor meio pelo qual nos achegamos a Deus mais rapidamente, assim nos mostrou Jesus, Maria e todos os santos e santas em todos os tempos.

“O Rosário da Virgem Maria (Rosarium Virginis Mariae), que ao sopro do Espírito de Deus se foi formando gradualmente no segundo Milénio, é oração amada por numerosos Santos e estimulada pelo Magistério da Igreja”. (Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae do Papa João Paulo II). “A piedade medieval do Ocidente desenvolveu a oração do Rosário como alternativa popular à Oração das Horas,” (CIC 2678), que comumente chamamos Ofício Divino ou Breviário. “Dado que os monges rezavam os salmos (150), os leigos, que em sua maioria não sabiam ler, aprenderam a rezar 150 Pai nossos. Com o passar do tempo, se formaram outros três saltérios com 150 Ave Marias, 150 louvores em honra a Jesus e 150 louvores em honra a Maria”. (Acidigital).

“No ano 1365 fez-se uma combinação dos quatro saltérios, dividindo as 150 Ave Marias em 15 dezenas e colocando um Pai nosso no início de cada uma delas. Em 1500 ficou estabelecido, para cada dezena a meditação de um episódio da vida de Jesus ou Maria, e assim surgiu o Rosário de quinze mistérios”. (Acidigital).

“A palavra Rosário significa 'Coroa de Rosas'. A Virgem Maria revelou a muitas pessoas que cada vez que rezam uma Ave Maria lhe é entregue uma rosa e por cada Rosário completo lhe é entregue uma coroa de rosas. A rosa é a rainha das flores, sendo assim o Rosário, a rosa de todas as devoções, é, portanto, a mais importante delas.” (Acidigital).

“O Rosário é composto de dois elementos: oração mental e oração verbal. No Santo Rosário a oração mental é a meditação sobre os principais mistérios ou episódios da vida, morte e glória de Jesus Cristo e de sua Santíssima Mãe. A oração verbal consiste em recitar vinte dezenas (Rosário completo) ou cinco dezenas do Ave Maria, cada dezena iniciada por um Pai Nosso, enquanto meditamos sobre os mistério do Rosário”. (Acidigital).

“A meditação de cada mistério acha sua base na Sagrada Escritura. Em sua maioria, os as leituras são dos Evangelhos, mas também há trechos do Antigo Testamento que ajudam a compreender o que se passa na ocasião, ou comentários doutrinários sobre elas contidos nas epístolas. Os dois últimos mistérios (Assunção e coroação) não estão no Evangelho, mas profetizados: por exemplo, no Livro de Judite, uma mulher salva o povo; nos Salmos, há freqüentes elogios a uma figura feminina, presentes também no Cântico dos Cânticos; e, definitivamente, no Apocalipse, um sinal nos céus apresenta uma mulher como Rainha, que a Tradição Apostólica, desde os primeiros tempos, afirmou tratar-se de Maria”. (Wikipedia).

Assim são compostos os Mistérios: Mistérios Gozosos (segundas e sábados). O tema é a concepção, nascimento e infância de Jesus Cristo. Mistérios Luminosos (quintas-feiras); São aqueles acrescentados há pouco tempo (16/10/2002) pelo Papa João Paulo II e abordam a vida do Filho de Deus, seus milagres, pregações e feitos importantes. Mistérios Dolorosos (terças e sextas-feiras) Neles medita-se a Paixão e Morte do Senhor; e, Mistérios Gloriosos (quartas-feiras e domingos), onde meditamos a glorificação de Jesus e Maria.

“A Santa Igreja recebeu o Rosário em sua forma atual (com exceção dos Mistérios Luminosos) em 1214 de uma forma milagrosa: quando a Virgem apareceu a Santo Domingo e o entregou como uma arma poderosa para a conversão dos hereges e outros pecadores daquele tempo. Desde então sua devoção se propagou rapidamente em todo o mundo com incríveis e milagrosos resultados”. (Acidigital).

Portanto, Maria é a mulher-oração perfeita, porque ela é também aquela que sabe ouvir a Deus em seu silêncio sagrado e nesse silêncio se une ao Altíssimo com todo o seu querer para fazer somente aquilo que é do seu agrado. Em outras palavras, a Virgem mantém-se em perfeita comunhão com a vontade de Deus Pai, pois, seu Filho amado é o elo perfeito que a introduz pelo Espírito Santo no seio da Santíssima Trindade; desse modo, ela absorve tudo o que pertence à Trindade; como a planta que vive da seiva que recebe da fecundidade do solo e dá frutos no tempo devido; por isso, ela é nossa intercessora por se encontrar plenamente em Deus Uno, dando frutos em nosso favor, que são as graças que por seu intermédio recebemos.

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.

PS: Fontes: Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae do Papa João Paulo II; CIC – Catecismo da Igreja Católica; Acidigital - http://www.acidigital.com/rosario/; Wikipedia -http://pt.wikipedia.org/wiki/Santo_Rosário

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Favor citar a autoria de Frei Fernando,OFMConv. e o site: www.freifernando.net). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

Os primeiros capítulos da ordem : alguns testemunhos

Por Fr. Sandro Roberto da Costa, ofm (*)

Agudos (SP) -Desde os inícios da Ordem, os momentos de encontro fraterno mais intensos ocuparam um lugar importante na vida dos irmãos, seja pela necessidade de pensar e organizar juntos os rumos da fraternidade e da missão, seja pelo prazer de se encontrar, conversar, comer, se alegrar juntos. Francisco sempre tomou as decisões mais importantes da fraternidade junto com seus irmãos. Depois de 1209, quando o papa Inocêncio III deu a aprovação oral para a Regra, os irmãos se espalharam por todas as regiões da Itália, e o seu número cresceu rapidamente. Sentiu-se a necessidade de uma reunião mais articulada para avaliar a caminhada e fixar algumas normas mais precisas. Em 1212 Francisco reuniu seus frades nos arredores de Assis, próximo ao mosteiro de São Verecundo. Diz o cronista do mosteiro: “Nos últimos tempos, o bem-aventurado Francisco pobrezinho freqüentes vezes se hospedou no mosteiro de São Verecundo... E nas imediações do mesmo mosteiro, o bem-aventurado Francisco realizou um capítulo dos trezentos primeiros irmãos, e o abade e os monges, generosamente, como puderam, doaram as coisas necessárias. Houve grande abundância de pão de cevada, de sêmola, de trigo, de milho, água potável límpida e vinho de maçã diluído em água para os mais fracos, como atestava o velho senhor André, que esteve presente; e houve grande abundância de favas e legumes” (Legenda da Paixão de São Verecundo, Fontes Franciscanas e Clarianas, 1449).

Entre estes momentos de encontro de todos os frades, destaca-se aquele que aconteceu em Assis, na festa de Pentecostes, no ano de 1217, que passou para a história como o Capítulo das Esteiras. É São Boaventura quem nos dá uma idéia desta grande reunião fraterna: “Também, já multiplicados os irmãos no decorrer do tempo, o solícito pastor começou a convocá-los ao Capítulo geral no eremitério de Santa Maria da Porciúncula, a fim de distribuir a cada um deles a porção da obediência, segundo a medida da distribuição divina na terra da pobreza (cf. Sl 77,54; Gn 41,52). Aí, embora houvesse penúria de todas as coisas necessárias – e uma vez se reunisse uma multidão de mais de cinco mil irmãos -, no entanto, com a ajuda da divina clemência, havia suficiência de alimento, acompanhava uma boa saúde corporal, e fluía a alegria espiritual”. (Legenda Maior IV, 10, 1-2, Fontes Franciscanas e Clarianas 576).

Imaginemos os frades se preparando para a viagem: hábito surrado, numa das mãos uma sacola com o mínimo necessário, na outra um cajado, sandálias aos pés ou descalços, punham-se a caminho. A festa de Pentecostes ocorre geralmente entre o fim do inverno e o início da primavera na Europa. A neve começa a derreter, aparecem os primeiros brotos nas árvores, as beiras das estradas se enfeitam de flores, os pássaros enchem os ares com seus cantos, festejando a vida que renasce. Os frades viajavam a pé, em grupo ou dois a dois, cruzando vales e montanhas, estradas poeirentas, sujeitos a assaltos, às intempéries. Mas viajavam contentes, pois iriam se encontrar com Francisco, aquele que lhes tinha mostrado o caminho do seguimento de Cristo e do seu Evangelho. Muitos frades iriam encontrá-lo pela primeira vez. Ver Francisco, abraça-lo, ouvi-lo, conversar com ele, saciar-se na fonte de sua santidade e sabedoria, poder partilhar com ele as angústias, dúvidas, incertezas e vitórias, valia qualquer sacrifício.

Calos nos pés, faces cansadas, hábitos empoeirados e suados, tudo o que os frades desejavam quando chegavam a Assis para o Capítulo era um leito macio, um banho quente, um prato de sopa. Como acomodar todos esses homens? Onde alojá-los? Como alimenta-los? Os habitantes de Assis não tiveram dúvida. Organizaram-se e, generosamente, ofereceram aos frades o que tinham de melhor. Como abrigo, esteiras. Daí o título de Capítulo das Esteiras. A mesa era frugal, mas farta. O cronista Jordão de Jano, um dos primeiros frades a ser enviado para a missão na Alemanha, nos dá um relato de um desses Capítulos, realizado em 1221: “... no ano do Senhor de 1221, no dia 23 de maio... no santo dia de Pentecostes, o bem-aventurado Francisco celebrou o Capítulo geral em Santa Maria da Porciúncula. A este Capítulo, conforme o costume então existente na Ordem, compareceram tanto os professos quanto os noviços; e os irmãos que compareceram foram calculados em três mil irmãos. A este capítulo esteve presente o senhor Rainério, cardeal diácono, com muitos outros bispos e religiosos. Por ordem dele, um bispo celebrou a missa. E acredita-se que o bem-aventurado Francisco então tenha lido o Evangelho, e outro irmão a epístola. No entanto, como os irmãos não tivessem casas para tantos irmãos, acomodavam-se sob esteiras em campo espaçoso e cercado, comiam e dormiam em vinte e três mesas dispostas de maneira ordenada... Neste Capítulo, o povo da terra servia com espírito de prontidão, fornecendo pão e vinho, alegres por uma reunião de tantos irmãos e pelo regresso do bem-aventurado Francisco. Neste Capítulo, o bem-aventurado Francisco, tendo tomado o tema “Bendito o Senhor meu Deus que adestra minhas mãos para o combate” (cf. Sl 18,35), pregou aos irmãos, ensinando as virtudes e admoestando à paciência e aos exemplos a dar ao mundo. De modo semelhante era feito o sermão ao povo: e tanto o povo quanto o clero ficavam edificados. Quem poderia explicar quanta caridade, paciência, humildade, obediência e alegria fraterna existiam naquele tempo entre os irmãos? De fato, não vi na Ordem um Capítulo como este, tanto pela multidão dos irmãos quanto pela solenidade dos que serviam. E embora fosse tão grande a multidão dos irmãos, no entanto, o povo fornecia tudo tão alegremente que, após sete dias de Capítulo, os irmãos foram obrigados a fechar a porta e a nada receber e a permanecer dois dias a mais para consumirem as coisas oferecidas e recebidas” (Crônica de Jordão de Jano, Fontes Franciscanas e Clarianas, 1270-1271). Uma vez terminado o Capítulo, os irmãos retornavam para suas casas, levando na mente e no coração as palavras e ensinamentos de Francisco, mas também o carinho e o exemplo de generosidade e doação dos habitantes de Assis, que tanto amavam Francisco e seus frades.

(*) Frei Sandro Roberto da Costa, 44, é professor de História da Igreja e de Patrística no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). É doutor em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/vidacrista/artigos/sandro/ acesso em 15 fev. 2009.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Francisco de Assis : uma síntese biográfica

Pequena biografia de São Francisco de Assis
que produzi sob Creative Commons,
o que significa que todos podem
copiar, distribuir e modificar -
mais detalhes sobre o licenciamento
na própria apresentação.


DE QUE ADIANTA?

DE QUE ADIANTA?

O que existe de mais precioso que a vida? No entanto, poucos são os que dão conta disso; no mais das vezes ela não passa de objeto de manipulação para aqueles que só pensam em tirar vantagem material de tudo, mesmo que façam da vida um inferno para si e para os outros.

Para estes o que conta mesmo é a ânsia de possuir, ainda que tenha de destruir a vida natural ou dos semelhantes, contanto que atinjam a satisfação da própria vontade, não importando os meios para isto. O resultado é o desequilíbrio a que chegamos em nosso habitat natural, a ponto de vivermos os últimos dias de nosso planeta, que agonizante, pede socorro antes que atinja o caos total em todos os sentidos.

“Escutai, povos todos; atendei, todos vós que habitais a terra, humildes e poderosos, tanto ricos como pobres”. (Sl 48,2-3). “Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vem a perder-se a si mesmo e se causa a sua própria ruína?” (Lc 9,25). “Nenhum homem a si mesmo pode salvar-se, nem pagar a Deus o seu resgate. Caríssimo é o preço da sua alma, jamais conseguirá prolongar indefinidamente a vida e escapar da morte, porque ele verá morrer o sábio, assim como o néscio e o insensato, deixando a outrem os seus bens”. (Sl 48,8-11).

“O túmulo será sua eterna morada, sua perpétua habitação, ainda que tenha dado a regiões inteiras o seu nome, pois não permanecerá o homem que vive na opulência: ele é semelhante ao gado que se abate. Este é o destino dos que estultamente em si confiam, tal é o fim dos que só vivem em delícias. Como um rebanho serão postos no lugar dos mortos; a morte é seu pastor e os justos dominarão sobre eles. Depressa desaparecerão suas figuras, a região dos mortos será sua morada”. (Sl 48,12-15).

O bem mais útil à vida é o amor de Deus, pois nele tudo se afirma e tudo cresce e tudo rejuvenesce a cada instante; portando, é no amor a Deus e entre nós que devemos alicerçar a casa de nossa existência, porque o amor não acaba nunca e para quem ama a vida já é eterna como o próprio amor.

“Então o que está assentado no trono disse: Eis que eu renovo todas as coisas. Disse ainda: Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras”. (Ap 21,5).

Paz e Bem!

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Favor citar a autoria de Frei Fernando,OFMConv. e o site: www.freifernando.net). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

Itinerário Espiritual de São Francisco de Assis - 4


Frei Neylor J. Tonin
De todos os pobres, os mais miseráveis e relegados, eram os leprosos, eles viviam fora dos muros da cidade, no abandono e na insegurança, afastados, por medo de contágio, pelos habitantes de Assis. Francisco mesmo confessou, em seu Testamento, que "lhe era insuportável olhar leprosos, [...] julgando-os a monstruosidade mais infeliz deste mundo". Mas o Senhor o conduziu para entre eles, e ele não se fez surdo a esta amorosa imposição. "Obrigando-se a se curvar e a sofrer até se transformar em escravo das pessoas miseráveis e repugnantes - diz belissimamente Tomás de Celano - queria aprender o perfeito desprezo de si e do mundo, antes de ensiná-los aos outros. Desejava conquistar um domínio pacifico sobre si mesmo depois de vencer este inimigo que cada um leva consigo". E, na verdade, ele o venceu. Conta a história que, certo dia, cavalgava pelas campinas, defronte a Assis, quando, de repente, sem saber de onde saíra, encontrou-se com um leproso. A um primeiro momento de repulsa seguiu-se a vitória do propósito que se fizera de não desviar, de ora em diante, sua face de nenhum pobre. Desceu do cavalo, perdeu sua imponência, e deu-lhe o que tinha de material e afetivo: uma moeda e um beijo. (A configuração desta cena nos lembra o homem colocado em frente as suas tentações, ou no deserto ou na campina, sempre sozinho, onde só há um espectador: Deus, que espera sua resposta. São Francisco a deu). Depois, voltou a montar e afastou-se, mas apesar de estar em campo aberto, diz a história, olhou para todos os lados e não viu mais o leproso. O leproso tinha sumido de dentro de si mesmo. As feridas da lepra tinham subitamente cicatrizado dentro de seu coração e o milagre da cura o fez um outro homem, uma nova criatura, a ponto de confessar: "Enquanto me retirava, justamente o que antes me parecia amargo se me converteu em doçura do corpo e da alma". O grande trabalho junto ao próprio coração se faz no coração dos outros, em seus corpos quando famintos, em suas almas quando afligidas. E, então, o homem, que tanto se buscava sem encontrar-se, acaba experimentando uma consolação que não é sua, mas fruto maduro de um outro que é o Senhor dos caminhos do bem, o qual, muitas vezes, pode ter as mãos e o rosto carcomidos pela lepra.

Este, nos parece, é o itinerário espiritual de todos os grandes homens santos: da própria vontade, com suas aversões e simpatias, em direção à vontade dos outros, do grande Outro, que geralmente se apresenta no desamparo e nas mais variadas formas das monstruosidades humanas. Estes monstruosos de todos os tempos são os pobres das mais diversas pobrezas (físicas, morais, espirituais, materiais, psíquicas), os miseráveis das mais diversas misérias, os leprosos das mais tristes lepras, os cristos de todas as cruzes injustas e aviltantes, sempre imobilizados e silenciados pela ganância e pela maldade, pela prepotência e pelo desamor. Eles não contam aos olhos do mundo, mas deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados os pobres! O olho espiritual de Francisco compreendeu isso e ele passou - diz Celano - a ser "quem mais amava os pobres"..
Frei Neylor J. Tonin
Esta série de artigos está sendo impressa no "Boletim do Pró-Vocações"
Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/vidacrista/artigos/pvf_parte4.php acesso em 15 fev. 2009.

Ilustração: EL GRECO. São Francisco e Frei Leão. 1596-1601.

domingo, 22 de março de 2009

Itinerário Espiritual de São Francisco de Assis - 3

Frei Neylor J. Tonin
Esta decisão é fundamental em seu itinerário espiritual e é preciso refletir um pouco sobre ela. Ele resolveu "não desviar sua face de nenhum pobre". E acrescenta bem Celano: "Desde então!" Antes, ele o fazia. Era o seu pecado, assim como, "desde então" esta será a forma de resposta, a vida de santidade que ele quererá levar para ser fiel à graça de Deus. Deus o toca por dentro e Francisco passa a tocar os pobres, em resposta. Deus o cobre de graça e ele passa a ser graça para os desgraçados. Deus não o esquece e ele começa a se lembrar dos esquecidos. Este detalhe parece-nos de suma importância, primeiro, para seus seguidores que não podem ser franciscanos "desviando a face" de nenhum pobre, e, depois, para se entender o grau de fraternidade universal a que chegou, amando a todos os seres, o sol, o verme, a própria morte.

Esta fraternidade universal é fruto de um doloroso exercício ascético, carregado de fel, de feridas a serem limpas e de companhias que nem sempre são desejáveis. O amor a Deus e suas graças são testados na dura cruz que tem o rosto suplicante e macerado do irmão. Quanto mais servido este for, mais Deus é autenticamente amado. A misericórdia de Deus postula a misericórdia de seus filhos para com os crucificados de nossos caminhos humanos. Se eles não forem cobertos com a ternura de nossas mãos, as mãos de Deus não mais pousarão sobre nossas cabeças e nem sua consolação estará presente em nossos corações.

Frei Neylor J. Tonin

Esta série de artigos está sendo impressa no "Boletim do Pró-Vocações"

Extraído de
http://www.franciscanos.org.br/v3/vidacrista/artigos/pvf_parte3.php acesso em 15 fev. 2009.
Ilustração: Baburen, Dirck van. São Francisco. ca. 1618.

sábado, 21 de março de 2009

Itinerário Espiritual de São Francisco de Assis - 2


Frei Neylor J. Tonin

Mas entra, então, em sua vida, o principal agente de seu e de todos os caminhos santificados: Deus. "Cercado por bandos de maus, adiantava-se pelas graças da Babilônia, até que Deus o olhou do céu": teve misericórdia, achou graça nele e Francisco já não podia deixar sem resposta tal olhar de complacência. E foi tomado por "uma angústia de alma e doença do corpo", isto é, todo o seu ser, corpo e alma, foram afetados por este olhar de Deus e tiveram que responder a uma pergunta que lhe chegou na simbologia de um sonho: "Quem pode fazer melhor, o senhor ou o servo?" Pergunta que já carregava consigo a resposta, que Francisco, limpidamente, não hesitou em dar: É claro, "o senhor"! E a voz do sonho arrematava, sem deixar espaço para uma réplica: "Então, por que preferes o servo ao senhor? Volta para casa - ele achava-se em campanha militar por sua cidade, afagando seus sonhos juvenis de grandeza - porque darei cumprimento espiritual à visão que tiveste".

Francisco obedeceu. Voltou para a sua terra, qual Abraão, na fé, em busca de uma promessa que só tem asas porque uma força estranha, à qual não se pode desobedecer, a sustenta. Nada deixa entrever que Francisco estivesse desencantado com as vaidades humanas, tão comuns nos altos escalões dos que ambicionam mais e comandam sempre. Mas, na verdade, a voz de Deus, que fala no bem, ressoa igualmente nos caminhos do mal, e muitas vezes mais fortemente. É só preciso ser sensível a ela. Deus, na verdade, não se encontra menos presente no Exílio da Babilônia que no Templo de Jerusalém. Em todos os lugares, sua santidade abrasadora trabalha o barro humano em direção a uma transfiguração. Não são muitos os que se deixam tocar por ela de uma forma profunda. Mas Francisco deixou-se. Voltou imediatamente para casa, "deixando de lado a própria vontade (...) e resolveu, desde então, não desviar sua face de nenhum pobre".
Frei Neylor J. Tonin

Esta série de artigos está sendo impressa no "Boletim do Pró-Vocações"

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/vidacrista/artigos/pvf_parte2.php acesso em 15 fev. 2009.

Ilustração: RIBERA, José de. São Francisco de Assis. 1643.

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