Arquivo do blog

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Páscoa / entrevista com Maria Clara Bingemer



Deu na Conexão Professor:

“Mesmo quem não crê é obrigado a admitir: o mundo era um antes de Jesus Cristo e é outro depois dele.” A afirmação de Maria Clara Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, ajuda a entender o significado e a importância da Páscoa. Se Jesus mudou o mundo, é natural que uma das passagens mais importantes de sua história, a ressurreição, tenha dado origem à festa máxima do Cristianismo.

Nesta entrevista ao Conexão Professor, Maria Clara, que é autora de diversos artigos e livros, fala sobre o significado da Páscoa e traça um paralelo entre o tempo de Cristo e os dias atuais. Embora haja muitas diferenças – determinadas, sobretudo, pela evolução tecnológica – ela aponta semelhanças e compara o sofrimento de Maria com o das mães que perdem seus filhos de maneira violenta.

Lembrando que Cristo usava as parábolas como recurso pedagógico, Maria Clara acredita que hoje a internet e a TV digital poderiam ser os métodos e processos que Ele utilizaria para transmitir o conteúdo fundamental que trouxe ao mundo: a afirmação do amor incondicional de Deus por todos os homens e mulheres.


Conexão Professor (CP) - Para o Cristianismo/Catolicismo, qual o significado da Páscoa?

Maria Clara Bingemer - A Páscoa é a festa máxima do Cristianismo. Ela celebra a ressurreição de Jesus Cristo, filho de Deus encarnado, da morte para a vida definitiva. Celebrando isto, celebra também a convicção de fé de que os seres humanos, do qual Deus se fez definitivamente próximo em Jesus de Nazaré, também não devem ver na morte um ponto final de suas vidas.

Ou seja, com a ressurreição de Jesus de Nazaré, em quem a comunidade cristã primeira reconheceu e proclamou o Cristo de Deus, não apenas Deus Pai pronuncia sua palavra definitiva sobre a história, declarando que a vida vivida no amor radical e até as últimas consequências não morre, como também a Humanidade pode ter uma risonha esperança de que seu destino é viver para sempre com Deus graças a seu filho Jesus Cristo e à salvação que ele trouxe a todos os seres humanos. A festa da Páscoa celebra tudo isto.

CP - É possível fazer um paralelo entre o tempo de Cristo e os dias de hoje?

Maria Clara Bingemer - Sim. Embora havendo grandes diferenças – Cristo viveu numa era pré-técnica, hoje vivemos numa época de grandes progressos tecnológicos, por exemplo - há muitas semelhanças. Havia naquele tempo e há hoje grupos que, desde o poder, oprimiam e excluíam os mais fracos, os diferentes: leprosos, doentes, crianças, mulheres.

Havia, e ainda há, alguns possuindo muito e muitos possuindo pouco ou quase nada, tendo falta do necessário até mesmo para sobreviver. Havia, e há, gente boa e esperançosa, aberta e humilde, que esperava as promessas de Deus e a realização de seu reino e que por isso escutaram a mensagem de Jesus. Por isso, ontem como hoje, havia, e há, pessoas que voltaram as costas à mensagem pascal de Cristo e pessoas que a ela aderiram e entraram no movimento de seu amor redentor que transforma a História humana.

CP - No período da Páscoa, o martírio de Maria é próprio e especial. De forma bastante resumida podemos dizer que é uma mãe que perde seu filho para um mundo injusto. Situação que, infelizmente, se repete hoje em muitas famílias. Qual foi a reação de Maria e como esta reação pode servir de exemplo para a nossa sociedade?

Maria Clara Bingemer - Eu não diria martírio de Maria e sim sofrimento de Maria. Martírio é uma palavra teológica técnica e significa aqueles que morreram de morte violenta, derramando seu sangue para dar testemunho de sua fé cristã. Maria padeceu uma dor indizível com a paixão e morte de seu filho, e sua situação e dor se repetem sem dúvida hoje com muitas mulheres que perdem seus filhos de maneira violenta ou veem seus filhos condenados a uma subvida por falta de recursos e condições de dar-lhes algo melhor. Maria não fraquejou nem perdeu a esperança um só minuto. Ela não entendia nada do que acontecia, mas conhecia profundamente o seu Deus. Por isso ela esperava no Senhor seu Deus. Acompanhou seu filho até o fim e pôde viver plenamente a alegria de sua ressurreição. Ficou junto com os discípulos de seu filho após sua morte e pôde viver com eles plenamente a alegria da ressurreição, assumindo junto com toda a comunidade de seguidores de seu filho a missão a ela confiada.

CP – Jesus, Maria e Judas são personas de bastante força alegórica, assim como histórica. Um salvador, uma mulher forte e um traidor. Além da literatura sacra, este enredo influenciou inclusive a literatura geral. Como a senhora vê esta influência? Como a história de Cristo está presente na literatura?

Maria Clara Bingemer - Na literatura universal há muitas vidas de Cristo célebres: a de René Bazin é uma. Há filmes também. Mas há versões mais atuais na literatura e no cinema que contam a vida de Jesus de uma maneira mais adaptada aos tempos modernos que permite às pessoas de hoje identificarem-se com Jesus como se fosse um contemporâneo seu. Por exemplo, Frei Betto tem uma vida de Jesus intitulada “Entre todos os homens”. Muito boa. Ele pôs o nome de seus amigos nos personagens. Até eu sou personagem desse romance.

No cinema temos o filme canadense de Denys Arcand, “Jesus de Montreal”, que mostra Jesus entre um grupo de jovens no submundo de Montreal, Quebec (Canadá). Ou “Godspell”, que conta a história de Jesus como se fosse um hippie em meio a um grupo hippie dos anos 60 em Nova York. Tudo isso só demonstra como 2 mil anos depois esse Galileu que marcou para sempre a História da Humanidade continua atraindo as atenções para si mesmo. Mesmo quem não crê é obrigado a admitir: o mundo era um antes de Jesus Cristo e é outro depois dele.

CP - Durante sua vida, Cristo optou por parábolas para passar sua mensagem. Podemos entender que já naquela época ele também revolucionou processos educativos?

Maria Clara Bingemer - Sem dúvida. Falar em parábolas era um recurso pedagógico importantíssimo, para que o povo pudesse compreender o alcance de sua mensagem, revestida de elementos que faziam parte do seu cotidiano.

Assim, para um povo do campo, numa sociedade agrária, ele falava de semente, grão de mostarda etc. Se fosse hoje, falaria de internet, TV digital, globalização. Certamente encontraria métodos e processos para poder transmitir aos seus ouvintes o conteúdo fundamental que trazia: a boa nova do Evangelho, que afirmava que Deus é Pai e que ama incondicionalmente todos os homens e mulheres que vêm a este mundo. E lhes oferece como dom uma vida que não termina nunca e que é baseada apenas no amor.

Extraído de http://www.conexaoprofessor.rj.gov.br/educacao-entrevista-15.asp acesso em 08 abr. 2009.

Luta ecológica e o fracasso de Deus na história (I)

Jung Mo Sung*
Adital -

Se perguntarmos às pessoas se elas são a favor da preservação do meio ambiente, todas ou quase todas dirão que sim. Se perguntarmos se estão preocupadas com a crise ecológica, quase todas também dirão que sim. Mas, se perguntarmos a essas mesmas pessoas se essas preocupações as levaram a modificar o seu cotidiano ou os seus sonhos ou se diminuíram o seu padrão e quantidade de consumo e/ou pretendem a diminuir para adequá-los à crise ecológica, muito poucas dirão que sim. Em outras palavras, a preocupação ecológica hoje faz parte do que é considerado "politicamente correto", mas parece que "no fundo" as pessoas não levam muito a sério essa questão.

Precisamos entender um pouco melhor essa defasagem entre a preocupação ecológica no nível do discurso e pouca mudança real nos comportamentos e nos desejos. Sem essa compreensão, as lutas, ações e discursos em favor da preservação das condições de vida no planeta Terra terão pouco efeito, ou cairão no vazio ou ficarão somente no nível das verborréias.

Neste artigo eu quero apontar apenas um dos aspectos importantes da "luta ecológica", que tem a ver com a noção de sustentabilidade. A maior parte dos discursos em defesa do meio ambiente se refere a não sustentabilidade do atual padrão de vida e de desperdícios de recursos naturais essenciais, como a água. Isto é, se mantivermos as condições atuais, teremos muitos problemas no futuro. Em outras palavras, o problema grave não está no presente como um fato visível ou experimentável, mas como um potencial que se manifestará em um futuro próximo ou longínquo.

Isso significa que uma real preocupação com o meio ambiente pressupõe uma visão sobre o futuro. Se a pessoa não tem noção de futuro ou não se preocupa com o futuro, não consegue entender o que significa a crise ecológica, pois no presente esse problema não é muito sentido. O que nos leva à hipótese de que as pessoas que, mesmo aceitando as previsões dos estudiosos do assunto, não se preocupam de fato com a crise ambiental não têm preocupações ou dúvidas com relação às condições de possibilidade de vida humana no futuro.

Eu penso que a cultura atual, onde a ênfase é dada no viver o presente, reforça em muito essa despreocupação. Pois, se o mais importante é viver o presente, porque deveriam se preocupar com o que pode acontecer de mal no futuro. Porém, o ser humano é um ser que não pode não se preocupar (ocupar-se antes do acontecimento). Assim, mesmo em uma cultura que privilegia o viver o momento presente, as pessoas pensam no futuro. Só que a "cultura do presente" traz consigo também a idéia de que, se vivermos bem o presente, as coisas no futuro se ajeitarão.

A idéia de que as coisas no futuro se ajeitarão é bastante sedutora porque nos desobriga da responsabilidade com os nossos atos e opções no presente. E ela não é sedutora somente por causa da legitimação dessa alienação psicológico- subjetiva, mas também porque se articula com uma antiga doutrina religiosa, que diz que Deus está no comando da história, que o futuro está nas mãos de Deus.

Se o futuro está nas mãos de Deus, ou se Deus está no controle da história, não há o que podemos fazer e nem com o que se preocupar. Os religiosos conservadores norteamericanos ou influenciados por eles dizem que o futuro será Armagedom, destruição total que precederia a vinda gloriosa de Jesus no final dos tempos. Portanto, a crise ecológica não seria um problema, mas quase uma solução. Por outro lado, há muitos religiosos/as "otimistas" que dizem que a história tende a um final "feliz", porque Deus, de um modo ou outro, irá conduzir a história para o "ponto ômega" (Teilhard de Chardin), ou então que o Espírito de Deus conduzirá a história e toda humanidade à sua plenitude. Há teólogos/as que afirmam que a "certeza" desse caminho da história em direção à plenitude é o outro lado da moeda da fé de que Deus se encarnou na pessoa de Jesus.

Se o futuro é negado enquanto futuro, isto é, se o futuro é apagado em nome da valorização absoluta do presente; ou se o futuro é negado enquanto um tempo aberto, cheio de possibilidades boas e más, por teologias ou filosofias da história que dizem que ela terminará necessariamente em um estado de caos ou de plenitude, a preocupação com o futuro e com a sustentabilidade das condições de vida no planeta Terra não tem sentido.

Para que a luta ecológica tenha sentido e eficácia, é preciso que o nosso discurso religioso ou político-social recupere o futuro como futuro e abandone o discurso sedutor e (teologicamente fácil) de que, por mais maldade que há no mundo, Deus, ou outra força sobre-humana, está conduzindo de modo misterioso a história para um final feliz. Assumir a ambigüidade da história e do ser humano, a possibilidade de que a história possa terminar em caos e que Deus possa "falhar" no seu plano de salvação da história, é uma condição para que a luta ecológica tenha sentido e eficácia.

Leiam: Luta ecológica e o fracasso de Deus na história (II)
* Professor de pós-graduação em Ciências da Religião, autor de Cristianismo de Libertação: espiritualidade e luta social.

Extraído de http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=38114 acesso em 07 abr. 2009.

Ilustração: Inferno / Coppo di Marcovaldo (ca 1225 - 1274, Mosaico, Baptistério, Florença).

terça-feira, 7 de abril de 2009

Curso de Especialização : Teologia Franciscana

Inscrições Abertas

Justificativa
Esta proposta de curso é uma resposta à decisão da Assembléia da FFB nacional pela descentralização das iniciativas de formação.

Objetivo Geral:
Aprofundar os aspectos fundamentais da vida, carisma e missão franciscana, priorizando as fontes e sua hermenêutica.

Objetivos Específicos
a) Contribuir, a partir da espiritualidade franciscana, com a missão da Igreja e a transformação da sociedade;
b) Adquirir, através do exercício, uma metodologia adequada de estuda tradição franciscana;
c) Criar um espaço de partilha de experiências e reflexão da tradição e espiritualidade franciscana.

Destinatários:
Religiosos e religiosos da Família Franciscana; Formadores e Formadoras das etapas iniciais (Religiosos, religiosas e da Ordem Franciscana Secular); Leigos e leigas simpatizantes da espiritualidade franciscana.

Conteúdos*
Escritos e biogr. de s. Francisco 60h-a
Biogr. de Francisco e outras fontes 60h-a
Escr. e Biogr. de Clara de Assis 50h-a
Hist. do Mov. Franc. (masc. e fem.) 40h-a
Teologia e Filosofia Franciscana 30h-a
Pedagogia Franciscana 20h-a
Espirit. francisclariana e liturgia 20h-a
Oficinas de Espiritualidade 40h-a
Missão Franciscana hoje 40h-a
Seminários Optativos 40h-a
Metod. da Pesq. e Prod. em Teol. 40h-a
Trabalho de Conclusão de Curso
Carga horária total (excluído TCC) 440h-a

Corpo de Professores*:
Me. Fr. Adelino Pilonetto, OFMCap
Dr. Fr. Aldir Crocoli, OFMCap
Me. Fr. Arno Frelich, OFM
Me. Ir. Salete Dalmago, Cifa
Dra. Ir. Delir Brunelli, CF
Me. Fr. Doraci A. Tartari, OFMCap
Me. Fr. Faustino Paludo, OFMCap
Me. Fr. Flávio Guerra, OFM
Me. Fr. Irineu Trentin, OFMCap
Me. Fr. João Carlos Karling, OFM
Me. Fr. João Inácio Müller, OFM
Dra. Ir. Lucia Weiler, IDP
Dr. Prof. Luiz Aberto de Boni
Me. Ir. Mônica Azevedo, IFPCC
Me. Fr. Vanildo L. Zugno, OFMCap
*A relação de professores e professoras bem como dos
conteúdos poderão sofrer alterações.

Modalidade:
Encontros intensivos presenciais
I etapa: 20 de julho a 1º de agosto de 2009
II etapa: 04 a 23 de janeiro de 2010
III etapa: 19 a 31 de julho de 2010
IV etapa: 03 a 22 de janeiro de 2011.
Aulas acontecerão de segunda a sexta, das 8h às 19h, e aos sábado, das 8h às 12h.

Investimento:
Matrícula R$ 100,00.
E 24 mensalidades de R$ 140,00.

Coordenação
Prof. Dr. Frei Aldir Crocoli (Estef)
Prof. Me. Fr. Arno Frelich (Estef)
Ir. Jacinta Brill (FFB-RS)

Inscrição e informações:
Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana – ESTEF.
Prazo: Até 30 de abril de 2009.
Telefone: 51 3217 4567
E-mail: estef@estef.edu.br

Divulgação dos/as selecionados/as:
Dia 22 de maio de 2009, na página da ESTEF e comunicação via correio eletrônico.
O curso acontecerá com um mínimo de 30 inscritos.

Extraído de http://www.estef.edu.br/conteudo_view.php?id_noticia=250 acesso em 07 abr. 2009.

Senso de pertença a Ordem Franciscana Secular


SENSO DE PERTENÇA A O.F.S.
Rosalvo G. Mota, OFS

Introdução

Vivemos tempos de profundas transformações sociais, econômicas, culturais e religiosas, tempos de incertezas e de instabilidade. Quem é quem? O que cada um quer de sua vida?

Os primeiros anos do século XXI estão caracterizados por manifestações de extrema violência e de recrudecimento do terrorismo.

Nossas Fraternidades Franciscanas Seculares participam das transformações do mundo atual, respiram o ar da pós-modernidade, conhecem os tropeços de uma sociedade acelerada, consumista, imediatista e derramada nas coisas.

Sobre estas Fraternidades repousa a missão de fazer com que continue vivo o carisma franciscano que foi dado pelo Espírito para a vitalização da Igreja com a força do Evangelho. Nisto consistiria sua identidade.

Sabemos que as Fraternidades são muito diferentes umas das outras. Há grupos de revelam vigor e entusiasmo. Por vezes há numerosos irmãos no tempo de formação, surgem simpatizantes, experimenta-se alegria na convivência fraterna e na realização das tarefas apostólicas. Muitas Fraternidades são, efetivamente, sacramentos do mandamento do amor.

De outro lado, irmãos isoladamente ou fraternidades isoladamente como um todo, podem denotar ausência de vigor e de entusiasmo. Há os que perderam a motivação evangélica e franciscana por diferentes razões: crises pessoais, cansaço, rotina, formação deficiente, ativismo pastoral, envolvimento com outros movimentos de espiritualidade. Há mesmo os que se perguntam a respeito do sentido de sua presença na Ordem. Experimentam o incômodo no momento das eleições porque não desejam assumir cargos. Há os que regularmente estão ausentes das reuniões e de outras programações.

Por isso e por outros motivos se faz necessário refletir sobre o senso de pertença à OFS e sobre a identidade do franciscano secular.

Desenvolvimento

1 – Qual o sentido de pertença a OFS?

Antes de falarmos sobre o sentido de pertença a OFS, vejamos, rapidamente, outros sentidos de pertença que nós temos e vivemos:

1.1 – Pertença a Família.

Antes de tudo, vamos nos referir ao que poderíamos chamar identidade familiar. Na definição do matrimônio, um homem escolhe uma mulher como companheira de vida e de destino. Uma mulher opta por um determinado homem como esposo e companheiro. Ambos realizam um projeto de vida. Um pertence ao outro. Desejam viver o tempo da vida, um tempo não provisório, mas caracterizado por um “para sempre”, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, no respeito recíproco e na acolhida do outro em todo momento. Somente sobre estes pressupostos é possível organizar a vida de maneira que os filhos possam chegar a viver na estabilidade de uma casa, de um lugar, de uma família.

A família, que constitui o maior recurso para a pessoa e para a sociedade enquanto âmbito de generosidade, de acolhida incondicional, de solidariedade nas distintas circunstâncias da vida, se vê hoje assediada por tantos desafios do mundo moderno: o materialismo imperante, a busca do prazer imediato, a influência dos meios de comunicação.

Além disso, é debilitada e agredida com propostas de leis que a equiparam a uma convivência qualquer debaixo do mesmo teto: aborto, separações e divórcios, etc. Cada vez aumenta mais as uniões sem casamento; crescem o número de mães solteiras e de filhos que vivem fora do contexto familiar; famílias desagregadas, etc. nos perguntamos: existe o sentido de pertença familiar ou a família?

Ante este quadro que, o Papa Bento XVI definiu como “preocupante”, que é necessário indicar caminhos para reforçar a família e para educar as novas gerações na fé católica, como o maior patrimônio que os pais podem transmitir aos seus filhos.

1.2 – Pertença profissional.

Os efeitos da precariedade se advertem fortemente também na vida do trabalho das pessoas. A crise ocupacional faz que muitos tenham que aceitar um trabalho para o qual não se sintam atraídos ou que tenham que abandonar a carreira e tentar ganhar dinheiro em âmbitos para os quais não estão preparados. Portanto, se sentem “estrangeiros” e sem raízes na profissão que exercem. Ou seja, sem o sentido de pertença profissional.

1.3 – Pertença territorial.

Segundo uma recente pesquisa da “Agência Fides” sobre as migrações, 175 milhões de pessoas no mundo residem em uma nação diferente daquela em que nasceram. O sentido de pertença a um determinado território (nação) mudou profundamente não só pela grande mobilidade cultural e de trabalho, mas também porque as realidades nacionais, as quais em outras épocas as pessoas se sentiam profundamente radicadas e que representavam um ponto firme da identidade pessoal (sou brasileiro, sou italiano, sou português,...). É a questão da dupla nacionalidade.

Com efeito, não é difícil compreender por que as pessoas não se sentem mais profundamente vinculadas à pátria, a família e ao mundo profissional.

1.4 – Pertença na vida eclesial.

Objeto de debate entre a Igreja e o mundo já não é mais como em outros tempos, quando se discutia sobre o divórcio, sobre o aborto ou sobre o uso da pílula, porém se aceitava o enfoque cristão da vida. Hoje o debate está dirigido para visões alternativas e globais do homem e da mulher, da paternidade e da maternidade, da sexualidade e, sobretudo, os caminhos a conquistar para que os homens e as mulheres se realizem na vida e se sintam satisfeitos e felizes.

Aqueles que, pelo Batismo, são membros da Igreja católica, de que maneira pertencem e se identificam com ela? Existem aqueles que a pertencem totalmente e sem reservas, com a plena convicção de pertencer à alma da Igreja, de serem membros do Corpo Místico de Cristo. Existem aqueles que estão ligados com a Igreja por um fio muito fino, com um sentido de pertença limitado a formas exteriores (talvez a maioria). E finalmente, existem aqueles que vivem somente alguns aspectos da fé, fora de todo tipo de pertença à Igreja (missa de sétimo dia e casamentos).

A Igreja, embora animada por uma inquebrantável esperança cristã, não esconde sua preocupação frente aos fenômenos que sumariamente citamos. Ela está comprometida a dar uma resposta profética aos desafios do nosso tempo. Disto derivam três consequências: o fortíssimo vínculo entre fé e identidade, a importância de Cristo na vida diária e a atenção constante a correta relação entre verdade e liberdade.

2 – Pertença e Identidade.

Substancial coincidência. Toda reflexão que se faça sobre o sentido de pertença, se relaciona estritamente com a identidade e a pressupõe. Que significa ser homem? Que significa ser mulher? Que significa ser religioso/a em nossos dias? Que significa hoje ser discípulo de Jesus Cristo? Que coisa está bem e é fundamental? Onde estou andando? Que é o que devo fazer na vida para poder chegar à plenitude da existência? A quem pertenço e quem me pertence?

A estreita conexão entre pertença e identidade é uma lei psicológica, porém mais ainda, uma estrutura do ser como tal. Não há identidade sem pertença e não há pertença sem identidade: são distintas e, no entanto, estão substancialmente ligadas. É, portanto, obvio que para falar de pertença é necessário falar de identidade: para ter consciência de si e para distinguir-se do outro.

2.1 – Identidade do Franciscano Secular.

Quem são os franciscanos seculares espalhados pelo mundo? Qual é sua identidade?

Alguns de nós, leigos ou religiosos, tivemos ocasião de conhecer no passado outras concretizações da Ordem Terceira. Entre nós houve grupos bastante numerosos. Seus membros usavam um hábito externo bastante característico para os irmãos e as irmãs. Em alguns lugares os irmãos sentavam-se de um lado e as irmãs, do outro.

Aos poucos, no curso da Segunda metade do século XX, toda a família franciscana foi conhecendo transformações. A 24 de junho de 1978 os terceiros tiveram sua nova Regra aprovada pelo Papa Paulo VI. Começou um intenso período de renovação. O jeito dos irmãos e das irmãs de antigamente foi cedendo lugar a um novo modo de ser franciscano, idêntico no essencial, diferente em suas manifestações. Conheceu-se um período de estudo e de assimilação da nova Regra. A Regra passou a ser ponto de referência fundamental na busca da identidade.

A Ordem Terceira passou a ser designada de Ordem Franciscana Secular. Desejou-se marcar a presença dos leigos franciscanos no mundo. Procurou-se buscar precisamente nessa secularidade característica importante da OFS. Mais tarde, na Chistifideles Laici, o Papa João Paulo II, retomando a doutrina do Concílio Vaticano II, escrevia: “A vocação dos leigos à santidade comporta que a vida segundo o Espírito se exprima de forma peculiar em sua inserção nas realidades temporais e na sua participação nas atividades terrenas”.

Para atualizar a reflexão, temos que nos perguntar: que significa ser franciscano secular? Que buscam as pessoas que hoje fazem a Profissão na Ordem? Estas perguntas não nos incomodam e não nos inquietam demais porque nos parece que nossa resposta já está dada na vida cotidiana. Tudo parece resolvido: o cotidiano, cada um é aquilo que faz, e cada Fraternidade é o que realiza.

No entanto, com espírito menos acomodado, não deveríamos nos contentar com esta primeira resposta. Qualquer um pode realizar as funções que nós exercitamos no mundo, e qualquer associação ou movimento pode realizar o apostolado que nós fazemos, sem necessidade de pertencer a OFS.

Quando nos damos conta disto, se abre diante de nós um abismo. Nos preocupamos e nossa consciência nos acusa de incoerência e de falta de radicalidade no “seguimento de Cristo pobre e crucificado”, ao modo de são Francisco. Para nos tranqüilizar, buscamos dar um colorido franciscano àquilo que fazemos (ou faz a Fraternidade): promovemos a devoção a São Francisco, organizamos exposições de artigos franciscanos, encenamos o trânsito de São Francisco, falamos de São Francisco nos programas de rádio, etc... .

Não será que o franciscanismo que promovemos seja uma realidade acidental, secundária? Em outras palavras: não será que somos profissionais, estudantes, comerciantes, administradores, ministros da Eucaristia, freqüentadores habituais de grupos paroquiais e, além disto, também, franciscanos?

No começo de nossa Regra se encontram os elementos fundamentais do projeto de vida franciscano secular: os franciscanos seculares são homens e mulheres que, “impulsionados pelo Espírito a atingir a perfeição da caridade no próprio estado secular, se comprometem pela Profissão a viver o Evangelho à maneira de são Francisco e mediante esta Regra confirmada pela Igreja” (R.2).

Da legislação atualizada da OFS (Regra e Constituições Gerais) se deduz que a identidade do franciscano secular se expressa em uma tríplice dimensão: pessoal (a vida interior), fraterna (a corresponsabilidade) e universal (a missão).

2.1.1 – Pessoal (vida interior).

Em um tempo de instabilidade e de oscilação é fundamental chegar ao coração da interioridade para dar consistência aos compromissos e as fidelidades pessoais. Sem a base da interioridade, toda nossa vida se faz fluida e tudo aparece suspenso no ar. Corremos o risco de esquecer quanto extraordinariamente seja a aventura na qual Jesus nos envolveu. Este é o motivo pelo qual nossa Regra (nº7) nos recorda que a conversão “deve renovar-se a cada dia”.

Existem alguns instrumentos para esta renovação da pessoa, que leva ao redescobrimento de nossa identidade e do sentido de pertença. O primeiro de todos é a formação permanente para manter desperta a consciência que o ser franciscano se realiza sempre como um novo chegar a ser franciscano: não é jamais uma história acabada que ficou atrás, senão um caminho que exige sempre um novo exercício. A renovação da pessoa é feita de pequenos compromissos, que devem desembocar naquele compromisso mais amplo que chamamos “forma ou programa de vida”.

Outro instrumento é a oração. É verdade que aos franciscanos seculares devem assumir seus compromissos como cidadãos no âmbito da vida pública, competência profissional, promoção da solidariedade e da liberdade, dos direitos humanos e da justiça, diria, como um terceiro instrumento. Ainda assim, o que é especificamente nosso é a oração ao Deus vivente. A dimensão contemplativa permite ir ao mundo com os olhos iluminados pela esperança e compaixão.

É muito importante que a Fraternidade seja verdadeira escola de oração, lugar de concórdia, espelho de caridade e fonte de esperanças, de maneira que todos seus membros experimentem a alegria de sentirem-se amados pelos irmãos e, ao mesmo tempo, a necessidade de comunicar aos que nos rodeiam a plena felicidade de ser discípulos de Cristo.

2.1.2 – Fraterna (Corresponsabilidade).

a – Pertença a Ordem.

Nossa pertença a OFS se fundamenta sobre a Profissão, o ato pelo qual somos solenemente comprometidos a “viver o Evangelho a maneira de são Francisco e mediante esta Regra confirmada pela Igreja”.

O artigo 30.1, das CCGG, diz: “Os irmãos são corresponsáveis pela vida da Fraternidade a que pertencem e pela OFS como união orgânica de todas as Fraternidades espalhadas pelo mundo”. Ou seja, os franciscanos seculares são membros de uma fraternidade local, mas pertencem a todas, na vida e na missão da corresponsabilidade.

b - Pertença a Fraternidade Local.

Todos conhecemos de memória a definição de Fraternidade Local contida no art. 22 da Regra: “primeira célula de toda a Ordem... sinal visível da Igreja... comunidade de amor...”.

Para explicitar estas afirmações básicas, as CCGG, art. 30.2, precisam como deve ser vivida a pertença a Fraternidade: “O sentido de corresponsabildade dos membros exige a presença pessoal, o testemunho, a oração, a colaboração ativa, segundo as possibilidades de cada um e os eventuais compromissos para a animação da Fraternidade”.

A presença pessoal, ou seja, a participação freqüente (não opcional) aos encontros da Fraternidade, que não podem ser mais as famosas “reuniões mensais”, mas sim, “encontros freqüentes”, organizados pelo Conselho para estimular a cada um a vida de fraternidade e para um crescimento de vida franciscana e eclesial (R.24).

O testemunho, de vida evangélica e de vida fraterna e como apostolado preferencial, inclusive como meio de animação vocacional (R.23 e CCGG art. 17 e 37.3).

A oração, que é a “alma do próprio ser e do próprio agir” (R.8).

A colaboração ativa, de todos e de cada um, para o bom funcionamento da Fraternidade, para o desenvolvimento dinâmico e participativo das reuniões, para a realização de iniciativas caritativas e de apostolado (CCGG 31.4).

Os eventuais compromissos na animação da Fraternidade, em particular, quando um irmão/ã é indicado para tal ou qual cargos/serviços (CCGG 31.4). Com efeito, o Professo definitivo, de acordo com sua capacidade e disponibilidade, considerados os interesses superiores da OFS, não deve se eximir da aceitação de encargos, salvo por graves razões, sempre que indicado para exercer cargos ou funções em órgãos da Fraternidade de qualquer dos níveis.

A contribuição econômica, na medida das possibilidades de cada membro (CCGG 30.3), para proporcionar os meios financeiros necessários para a vida da Fraternidade e para suas obras de culto, de apostolado e caritativa.

Porém, ainda não basta. A corresponsabilidade compromete a todos os membros a dar atenção ao “bem estar” humano e espiritual de cada um dos irmãos (CCGG 42.4); nenhum deve ser deixado sozinho a frente de seus problemas e dificuldades, mas a Fraternidade deve encontrar ajuda (inclusive material) e apoio.

c – A pluripertença.

Um dos maiores obstáculos que se interpõe a corresponsabilidade é a que convencionalmente chamamos de “pluripertença”, quer dizer, a tendência de alguns franciscanos seculares a aderir a uma multiplicidade de grupos e associações eclesiais. Não podemos esquecer que “A vocação à OFS é uma vocação específica, que informa a vida e a ação apostólica de seus membros” (CCGG 2.1).

2.1.3 – Pertença e Missão.

Abertura ao mundo. O anúncio do Evangelho é um dom gratuito que a Igreja faz ao mundo e os franciscanos seculares “a ela mais ligados pela Profissão” são chamados a anunciar a Cristo “com a vida e com a palavra” (R.6).

O campo da missão é hoje muito vasto: os setores mais marginalizados, as comunidades indígenas, os pobres das zonas urbanas, os imigrantes, os refugiados, etc. O objetivo deve ser aquele de promover a universalidade da mensagem cristã através da presença.
Outras formas de intervenção: formação política, social e humana (que deve ser ministrada nas Fraternidades – Diretrizes de Formação), voluntariado, atenção para com os jovens (CCGG 97.1), Ecologia, Ecumenismo e diálogo interreligioso e a “missão ad gentes”.

3 - Conclusão: algumas indicações práticas.

Como, na prática, alimentar o sentido de pertença a uma determinada Fraternidade secular e a Ordem, em sua totalidade? Não nos esqueçamos que nossas CCGG (art. 30.1), citado acima, afirma com força que os franciscanos seculares são membros de uma Fraternidade local, porém pertencem a todas, na vida e na missão.

Cada Fraternidade, nos distintos níveis (local, Regional e Nacional), deveria propor-se seriamente como objetivo de converter-se, em:

a – Escola de Santidade, através de uma intensa vida litúrgica, sacramental e caritativa, organizando retiros espirituais e revisão de vida.

b – Ser uma autêntica escola de formação.

c – Dar o testemunho de comunhão eclesial: alimentar a identidade na medida em que a Regra passa a ser vida dos irmãos e das fraternidades, na leitura assídua dos escritos de São Francisco e de Santa Clara.

d - Viver intensamente as reuniões (não falemos mais somente de reuniões mensais) como sacramento da fraternidade. Fundamental tomar a decisão de se fazer presente na vida dos irmãos: alegrar-se com os que chegam, pensar nos que não vieram, procurar descobrir as razões pelas quais alguns perderam a motivação. Os Conselhos, particularmente os formadores, saberão criar condições para que as reuniões sejam efetivamente agradáveis, proveitosas e enriquecedoras para os formandos e todos os irmãos.

e - Preocuparem-se, os irmãos e as irmãs, em regularizar as contribuições financeiras, como expressão de pertença à Ordem e comunhão com suas necessidades.

f – Presença na sociedade, à luz da Doutrina Social da Igreja e da nossa Regra.

Obrigado e Paz e Bem!

⌂ Profissão na OFS, Dom e Compromisso.
___________________________________________________________________

Bibliografia:

“Identidade Franciscana Secular – Senso de Pertença à OFS”, de Frei Almir R. Guimarães, publicado em “Paz e Bem”, jul/ago 2004.

“Pertenza all’OFS”, Emanuela de Nunzio, OFS, Capitolo generale, Nov/2008, Hungria.

Colocações pessoais do autor.
___________________________________________________________________

Extraído de http://ofsvilaclementinosp.blogspot.com/2009/04/senso-de-pertenca-ordem-franciscana.html acesso em 07 abr. 2009.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Fazer ascese por amor

Frei Neylor J. Tonin
Para que tu, leitor, não me abandones, pela rudeza do título acima, vamos começar com uma historieta. Buddha encontrou, certa feita, um penitente que praticava, há anos, espantosas austeridades corporais. Perguntou-lhe o que pretendia com tanto esforço. O monge disse que desejava desenvolver o poder de caminhar sobre as águas. Sorrindo, o mestre observou-lhe em tom compassivo: "Pouco vais lucrar com isto, com tamanho trabalho e desperdício de tempo. Dá uma pequena moeda ao barqueiro que te levará, gentilmente, para a outra margem do rio".

Se a historieta te cativou, leitor, vamos continuar. O tema, admito, é árido, mas tem sua importância. Há os que acreditam poder conquistar o céu ao preço de penosas penitências. Enganam-se redondamente. Nós, que admiramos a verdadeira Espiritualidade, acreditamos e sabemos que o céu - a outra margem do rio - é graça de Deus, que será dada para os que vivem em sua graça, e não para os que se vangloriam de caminhar sobre as águas. Deus é o barqueiro que nos levará para a outra margem da vida se não tivermos a presunção duma travessia solitária.

Ascese é uma palavra grega que significa simplesmente exercício. Religiosamente, comporta esforços, renúncias e penitências em vista da perfeição. Fazer ascese é exercitar-se para adquirir musculatura espiritual e poder percorrer com maior desenvoltura os caminhos do bem. Fazer ascese não tem nada a ver com a moderna "cultura do corpo", ou o fisiculturismo.

O verdadeiro asceta, por conseguinte, não é necessariamente magro, esquelético, descarnado. Muitas vezes o é, mas não se pode medir o grau de perfeição ou de espiritualidade pelo seu físico, mas antes pela intensidade de vida em prol dos grandes valores humanos e religiosos.

Em relação à ascese, os mestres espirituais sempre apontaram dois extremos a serem evitados: o do laxismo, que se caracteriza por um horror a qualquer tipo de renúncia ou sacrifício. O laxo é essencialmente um comodista, que só pensa no próprio prazer. É um egoísta sem grande caráter. Não busca forças para elevar-se, lutar, vencer e atravessar o rio. O segundo perigo é o rigorismo que se expressa como violência contra o próprio corpo. O rigorista não se dá descanso, acha que está pecando se sentir algum prazer material e quer atravessar o rio sozinho. Enquanto o primeiro é, via de regra, um glutão satisfeito, o segundo pode fazer-se um penitente carrancudo.

Não é preciso dizer que ambos estão longe do verdadeiro espírito da ascese cristã e dos verdadeiros caminhos da sabedoria humana. O laxo, por ficar aquém do que poderia ser e conseguir, e o rigorista, por perder o bom senso e ir além dele.

A Bíblia não faz a apologia da penitência, mas também não a desconsidera simplesmente. Jesus pregou: "Quem quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga" (Mt 16,24; Mc 8,34; Lc 9,23). São Paulo parece temer as práticas ascéticas como se depreende da Carta aos Colossenses: "Ninguém, pois, vos critique por causa da comida ou bebida ou em matéria de festa ou de lua nova ou de sábados" (2,16). Denuncia o falso ascetismo de certas proibições que "são preceitos e doutrinas dos homens. Têm ares de sabedoria, mas são regras de afetada piedade, humildade e severidade com o corpo; em verdade não têm valor algum, a não ser para a satisfação da carne" (vv. 22-23).

Em contraposição, a tônica da verdadeira Espiritualidade se centra na consagração e no amor da pessoa a Deus, o que inclui um abandono e uma escolha: "Buscai as coisas do alto e não as da terra" (Cl 3,2) e "mortificai vossos membros terrenos" (v. 5). "Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e sua justiça" (Mt 6,33). "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, da erva-doce e do cominho mas não vos preocupais com o mais importante da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade" (Mt 23,23)!

A verdadeira ascese, por isto, mais do que um caminho em direção a si mesmo, comporta uma luta em direção aos outros. Faz-se ascese como forma de consagração e amor. A pessoa se purifica para viver mais desimpedidamente pelos outros. Renuncia a coisas válidas para ser mais irmã e companheira.

A Tradição cristã encontrou sua melhor formulação ascética na expressão: "Nudus nudum Christum sequi", ou seja, seguir nu, despojado, o Cristo nu e despojado. Em vista disso, o movimento ascético, penitencial, não é uma operação fechada sobre si mesma, a se stante, como diz o latim. A penitência, em si mesma, não tem religiosamente nenhum valor. Seria apenas uma dieta espiritual, mas que não conduziria a endereço algum. A ascese só tem valor quando feita "por amor de", "em vista a", "em benefício de". Quando recebe apenas o caráter de quem a faz, mas não o endereço de por quem é feita, a ascese é vazia e perigosa, inútil, suspeita e não recomendável.

Por sua natureza, a vida é uma força selvagem, com uma pujança formidável, com majestade apaixonante e beleza muitas vezes cruel. É como um diamante que, para não deixá-la em estado bruto, precisa ser burilado pela ascese. Os pais e educadores fazem isto com as crianças. Os adultos, consigo mesmo.

Con-centrados em nós mesmos, não passamos de indivíduos. Des-centrados de nós e concentrados nos outros, tornamo-nos pessoas. Sobre-centrados em Deus, transformamo-nos em criaturas divinas. Este processo pode ser doloroso e corresponde à tríade espiritual bíblica do jejum (con-centração em si), esmola (des-centração de nós e concentração no pobre) e oração (sobre-centração em Deus).

Mas há outras formas de ascese. Na ascese da fé, a pessoa se aceita com seus dolorosos e insuperáveis limites, fraquezas e misérias, dor e desenganos da vida, e com o desfecho da morte, aparentemente o absurdo e total fracasso da vida. Na ascese moral, a pessoa diz sim ao bem e não ao mal, abraçando e renunciando ao mesmo tempo. Na ascese escatológica, a pessoa alimenta uma constante disposição para a partida e uma iluminada vigilância diante da vida em Deus. Para quem é cristão, existe ainda a ascese da cruz, que consiste em abraçar o escândalo do calvário, identificando-se com o Cristo que não afastou o cálice da dor nem fugiu da idiotice da cruz, fazendo-se obediente à vontade do Pai.
Em conseqüência, parece claro que fazer ascese não consiste em mortificar simplesmente o corpo, mas em morti-ficar (fazer morrer) o velho Adão ou o animal que é egoísta, guloso, violento, preguiçoso e cruel em nós. Fazer ascese consiste em renunciar ao eu não intencionado por Deus e não em tentar ser, simplesmente, mais e melhor.

A verdadeira ascese visa a fazer-nos mais livres, levando-nos a viver mais plenamente. Não procura arrancar qualquer erva daninha em nosso jardim espiritual, mas cultivar os frutos e as flores que ele pode, com a graça de Deus, com a ajuda dos irmãos e com a coragem pessoal, produzir.

Brevemente, eis alguns princípios que orientam o verdadeiro caminho da libertação humana: 1) A ascese é um meio, somente um meio, embora importante e, ao mesmo tempo, doloroso. 2) A ascese tem valor relativo e só é aceitável como serviço de amor e quando leva o penitente a identificar-se com os outros e com o grande Outro. 3) O ser humano tem uma natureza ferida pelo pecado e necessita da graça para resgatá-la e da ascese para fortalecer o homem espiritual e interior. 4) A ascese religiosa objetiva a purificação do pecador e é a contrapartida humana devida ao pecado. 5) A ascese não cria méritos para a graça, mas serve de conditio sine qua non (condição necessitante) para ela. 6) A ascese não é um luxo reservado a poucos, mas é um ideário abraçado por quem quer ser grande. 7) A ascese não faz ninguém santo, mas os santos fazem ascese.

Se alguém, por fazer ascese, se fizer triste e azedo, é melhor que não a faça. É preferível e é mais engraçado um comilão feliz a um atleta espiritual emburrado. Um dos frutos da verdadeira ascese é a alegria. Tanto quanto o comilão feliz, o asceta também sabe cantar. E canta. E canta melhor.

Frei Neylor J. Tonin
Irmão menor e pecador

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/vidacrista/artigos/marco_artigo.php acesso em 15 fev. 2009.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Por que ficar na Igreja? Artigo de Timothy Radcliffe

Deu no Instituto Humanitas-Unisinos:

O ex-mestre-geral dos dominicanos, Timothy Radcliffe, em artigo para o jornal La Croix, 31-03-2009, comenta a situação de crise da Igreja hoje e dá o seu testemunho de por que ainda permanece na Igreja católica. Mas afirma: "Não devemos ter medo do debate". A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

É um momento embaraçoso para quem é católico. No Vaticano, houve erros de comunicação, falta de consulta, declarações com palavras mal escolhidas que provocaram reações violentas na imprensa e intervenções de um certo vigor por parte de dirigentes internacionais. Tudo isso suscitou aflição e escândalo em muitos católicos, dentre os quais bispos, e provocou danos à reputação da Igreja. Algumas pessoas até se questionaram sobre como puderam continuar pertencendo à Igreja.

Permanecemos porque somos discípulos de Jesus. Crer em Jesus não significa adotar uma espiritualidade privada ou um código moral. É aceitar pertencer à sua comunidade. Aqueles que ele chamou a segui-lo caminham juntos. Segundo um velho ditado latino, "Unus christianus, nullus christianus": um cristão isolado não é um cristão.

Mas porque eu deveria permanecer membro dessa Igreja? Por que não poderia me unir a uma outra comunidade cristã cujas posições oficiais ou cujo modo de agir são menos embaraçosos? Com isso, tocamos a essência de um modo católico de entender a Igreja. Desde a origem, Jesus chamou à sua comunidade os santos e os pecadores, os sábios e os tolos. Ele disse: "Não vim chamar os justos, mas sim os pecadores" (Mateus 9, 13). E continua fazendo-o, senão não haveria lugar para uma pessoa como eu. Uma comunidade admirável de pessoas maravilhosas e virtuosas, que nunca cometessem erros, não seria um sinal do Reino de Deus.

Eu nunca poderia deixar a Igreja católica porque creio que Jesus nos chama a viver juntos como um só Corpo. No Evangelho de João, pouco tempo antes da sua morte, Jesus pregou sobre o seu pai aos seus discípulos "para que todos sejam um" (João 17, 21). Não basta uma vaga unidade espiritual. Nós cremos na Encarnação, na Palavra de Deus que se faz carne. A Igreja católica é o sinal visível, encarnado, da unidade à qual Jesus nos chama. Tenho uma imensa admiração por muitos cristãos que pertencem a outras Igrejas, o seu exemplo me inspira, a sua teologia me instrui. Mas, para mim, deixar a Igreja católica seria renegar o convite radical de Jesus de reunir os santos e os pecadores, os vivos e os mortos.

No centro da nossa vida cristã, está a imensa vulnerabilidade da Última Ceia. Jesus se coloca nas mãos dos seus discípulos: "Tomai, isto é o meu corpo que entrego por vós". Um deles o traiu, outro o renegou, a maior parte fugiu. Pertencer à Igreja é aceitar uma pequeníssima parte dessa vulnerabilidade. Nós aceitamos nos envolver nas derrotas da Igreja como no seu heroísmo, na sua tolice como na sua sabedoria, nos seus pecados como na sua santidade. E a Igreja também me aceita com os meus pecados e a minha estupidez. É por isso que ela é "sinal e sacramento da unidade de todo o gênero humano" (Vaticano II, Lumen Gentium n.1,1).

Porém, estamos efetivamente em um momento de crise da Igreja. Mas as crises podem ser muitas vezes frutíferas. A Última Ceia foi a crise mais profunda que a Igreja já conheceu: Jesus estava ao ponto de sofrer uma morte humilhante, e a comunidade estava dispersa. Em cada Eucaristia, nós recordamos como Jesus fez dela um momento de intimidade mais profunda, o dom do seu corpo e do seu sangue. Depois da Ressurreição, a Igreja estava lacerada. Seriam os Gentios aceitos na Igreja e seriam obrigados a aceitar a Lei? A comunidade estava ao ponto de sucumbir, mas sobreviveu para se abrir também a nós, os Gentios. Depois do martírio de Pedro e de Paulo, muitos acreditavam que Jesus estivesse ao ponto de voltar. Mas não foi assim. Foi uma crise inimaginável da esperança, mas ela levou à redação dos Evangelhos. Toda crise, se é vivida na fé, leva a uma renovação e a uma nova vida.

A crise que nos cabe viver neste momento é verdadeiramente modesta em relação às sofridas por outras pessoas que viveram antes de nós. Por exemplo, a crise modernista, há um século, foi muito mais grave. Porém, a nossa pequena crise pode ser frutífera se a vivemos na fé. Quais poderiam ser esses frutos? Sobretudo, encorajar um debate mais aberto dentro da Igreja. Do trauma da Reforma, toda confissão cristã mostrou ter os nervos à flor da pele quando se trata de debater sobre temas que são fonte de dissenso, temendo que isso coloque em perigo a unidade. Mas é só por meio de um debate racional e vivido na caridade que podemos testemunhar a nossa fé. O papa mesmo procurou introduzir debates posteriores na Igreja, por exemplo, o Sínodo dos bispos. Mas nós ficamos nervosos com a ideia de debater com quem tem ideias diferentes. É uma falta de confiança na inteligência que recebemos de Deus. Não devemos ter medo do debate.

A Igreja, de resto, resistiu às tentativas de domínio de governos autoritários: os imperadores romanos, os monarcas absolutos do Iluminismo, os grandes impérios do século XIX, o partido comunista na Europa central... Essas batalhas, necessárias para defender a liberdade da Igreja, levaram a uma estrutura de governo muito centralizada e distante da colegialidade dos bispos. Chegou o momento de fazer com que participem mais do processo decisional. A reação forte de certos bispos à situação atual deixa esperar um reequilíbrio nesse sentido. A carta, humilde e comovento, de Bento XVI aos bispos sobre o problema integralista mostra a sua atenção às suas preocupações e o seu desejo de estar em diálogo com eles. Portanto, não tenhamos medo! Tenhamos esperança!

Extraído de http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=21076 acesso em 02 abr. 2009.

Vejam também A nossa lealdade à Igreja requer que sejamos críticos

Foto: Radcliffe at St Mary's / by Lawrence OP. disponível em http://www.flickr.com/photos/paullew/559944506/ acesso em 02 abr. 2009.

Liturgia pascal, hoje. A matéria como lugar do divino

Deu no Instituto Humanitas-Unisinos:

Para melhor agir, pensar e sentir a liturgia da Vigília Pascal, a Profª. Drª. Ione Buyst, irmã religiosa e doutora em teologia dogmática com concentração em liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo, está presente no IHU para ministrar dois minicursos, como parte da programação da Páscoa IHU 2009.


Profª. Drª. Ione Buyst
Nesta quarta-feira, a temática do encontro esteve concentrada no símbolo da água. Já nesta quinta-feira, 02, das 8h30 às 16h30, a experiência de vivência litúrgica será em torno do símbolo da luz.

Ir. Ione, que é membro e co-fundadora da Associação dos Liturgistas do Brasil e assessora de cursos de formação litúrgica em todo o país, destacou que a importância da liturgia nas celebrações é justamente unir estas três ações: o agir-fazer, o pensar-saber e o sentir-viver. Dessa forma, explicou, é que o mistério de cada celebração pode ser celebrado com a inteireza do ser – consciência, vontade e sentimento.

A importância que a liturgia tem, nesse sentido, é aquilo que os liturgistas chamam de mistagogia, ou seja, conduzir para dentro do mistério. Porém, muitas vezes, a formação litúrgica, especialmente nos seminários, promove uma separação entre teoria e prática, o que é justamente a morte da liturgia, destacou Ir. Ione, que também é professora da pós-graduação em pedagogia catequética na Universidade Católica de Goiás e autora do livro "Música ritual e mistagogia" (Paulus), em parceria com Joaquim Fonseca.

Um dos exemplos destacados pela liturgista é o próprio sinal da cruz, tão importante para os cristãos. Esse sinal, afirmou Ir. Ione, resume uma profunda teologia da cruz: quem o faz está se crucificando junto com Cristo. O cristão que se expressa dessa forma demonstra claramente o seu desejo de seguir Jesus, inclusive, se necessário, até a morte. Mas quantos cristãos se dão conta disso ao fazer o gesto?

Essa expressão corporal tem grande importância para a liturgia, não apenas a cristã. Segundo Ir. Ione, a liturgia alimenta a dimensão sagrada do corpo, que, na teologia cristã, é "templo do Espírito", afirmou. Corpo e liturgia são duas dimensões relacionadas e necessárias.

Torna-se necessário, assim, compreender a liturgia como um ato de fé, ou seja, a liturgia forma o fiel. Mas para isso, destacou Ir. Ione, é necessário dialogar com os ritos, ou, em suas palavras, "subjetivar a objetividade do rito".

Aqui entra uma nova compreensão da liturgia, chamada de teologia sacramentaria ecológica. Segundo Ir. Ione, nessa interpretação teológica o cosmos é um sacramento primordial, em uma busca mais profunda por um diálogo com as demais religiões, com uma preocupação central com a ecologia – em suma, com todo o cosmos. Isso estaria, inclusive, em sintonia com o que os estudos da teoria quântica vêm revelando, explicou a liturgista. Ir. Ione comentou que os estudos mais avançados da física revelam que não há uma divisão sensível entre matéria e espírito. O desafio, para a liturgia, é também ver a matéria como o lugar da divindade, como o lugar da revelação de Deus, como defendeu e vivenciou Teilhard de Chardin.

Porém, tudo isso foi apenas uma introdução. A vivência litúrgica, destacou Ir. Ione, é vivida na prática, com criatividade, com o silêncio, os gestos, a palavra. Com técnicas de relaxamento e aquecimento, motivações verbais, cantos, mas principalmente a vivência experimental, prática, de um determinado rito. A ação de cada participante, por isso, foi muito necessária ao longo do dia, não apenas como atitude interior, mas também colocando "a mão na massa". Citando o conceito de "homo ludens", de Johan Huizinga, apresentado ainda na década de 30, Ir. Ione defendeu que a liturgia também é uma forma de expressão do caráter lúdico do ser humano. Como em uma brincadeira – teologicamente embasada e revivida a partir da tradição.

O minicurso e a vivência litúrgica continua nesta quinta-feira, das 8h30 às 16h30, na sala 1G119, na Unisinos. Confira aqui outros eventos que compõem a Páscoa IHU 2009, que segue até o dia 26 de abril.

(Reportagem de Moisés Sbardelotto)

Extraído de http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=21079 acesso em 02 abr. 2009.

Firefox