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quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Treinamento para a capacitação de lideranças da OFS do Brasil

Maria Aparecida Crepaldi e Luiz Gonzaga Cortez Garcia

Coordenadoria de Formação
Este trabalho foi organizado pelos irmãos:
Maria Aparecida Crepaldi e Luiz Gonzaga Cortez Garcia



CAPÍTULO I - LIDERANÇA
1 ASPECTOS GERAIS
1.1 A OFS Precisa de Líderes? Uma questão de identidade.
2 OS INSTRUMENTOS E MEIOS DE ATUAÇÃO DE UM LÍDER CRISTÃO
2.1 Poder ou Autoridade?
2.2 Os Paradigmas
2.3 O Serviço e o Sacrifício
2.4 O Amor
2.5 Criar o Ambiente
2.6 Fazer a Escolha
2.7 A Recompensa
3 LIDERANÇA FRANCISCANA SECULAR: UMA CONSEQUÊNCIA DA CONSCIÊNCIA DE PERTENÇA À OFS
3.1 Constatações de Algumas Características Pessoais do Líder Franciscano
3.2 Ser Educador e Comunicador
3.3 Dominar Atitudes e Técnicas de Comunicação
3.4 Exercitar o Cuidado na Atribuição de Ações em Nome da OFS do Brasil
3.5 Exercitar o Senso de Responsabilidade
3.6 Praticar a Vivência
4 A MISSÃO DO LÍDER FRANCISCANO SECULAR
5.1 Viver e Ensinar a Viver a Forma de Vida Franciscana Secular
5.2 Viver e Ensinar a Viver a Presença Ativa na Igreja e no Mundo
5 NOVAMENTE UMA QUESTÃO DE IDENTIDADE...
5.1 A Vida em Fraternidade
CAPÍTULO II - A CAPACITAÇÃO DO LÍDER FRANCISCANO SECULAR
1 CONCEITO DE CAPACITAÇÃO
2 SABER TRANSMITIR CONHECIMENTO
3 O EXERCÍCIO DA LIDERANÇA FRANCISCANA SECULAR POR MEMBROS DOS CONSELHOS LOCAIS E REGIONAIS DA OFS
4 ALGUNS PONTOS FUNDAMENTAIS QUE GARANTEM A QUALIDADE DE UMA FRATERNIDADE
5 A ESTRUTURA ORGANIZACIONAL DA OFS NO MUNDO

5.1 A Base Organizacional da OFS do Brasil
5.2 O Secretariado Nacional
5.3 A Revista Paz e Bem
5.4 O REFRAN
6 A DIVULGAÇÃO DA OFS: EXPRESSÃO DE PERTENÇA
CAPÍTULO III – CONCLUSÕES


CAPÍTULO I - LIDERANÇA

1. ASPECTOS GERAIS


Muitas pessoas há que, ao ouvirem a palavra líder, associam-na a indivíduos com um certo destaque, geralmente dirigentes, homens de empresa ou do mundo dos negócios, da política. Enfim, para usar uma expressão popular, imaginam que líderes são “pessoas importantes”. Não é difícil prever que, falsas imagens do papel de um verdadeiro líder, levadas ao extremo, acabam por caracterizá-lo até como alguém que só se relaciona com os poderosos, insensível aos reclamos dos mais humildes. Daí a associá-lo a pessoas autoritárias, desonestas, corruptas, é um passo.

Este curso foi organizado com dois objetivos principais: o primeiro é provocar uma reflexão sobre o conceito correto de líder e liderança e sobre as responsabilidades de um verdadeiro líder em relação aos seus liderados e a si próprio. Ainda fazendo parte deste primeiro objetivo, o curso quer demonstrar que nós, franciscanos, apesar de que “nunca devemos aspirar a sobrepor-nos aos outros, mas antes sejamos por amor de Deus os servos e súditos de toda a criatura humana” . Temos necessidade de líderes, tanto quanto qualquer outra organização humana exige a sua presença.

O segundo objetivo é orientar irmãos e irmãs que tenham condições de liderar, sobre a necessidade de se tornarem capazes de assumir integralmente suas responsabilidades no seio da OFS.

1.1 A OFS Precisa de Líderes? Uma questão de identidade.

Francisco soube reconhecer os leprosos. Percorrendo os caminhos da vida, eis que se depara com um deles, sem que para isso estivesse preparado. Na verdade, encontrando o leproso, acabava por encontrar-se a si próprio, diante de um momento determinante de sua vida: ou voltava atrás e dirigia-se para Assis, ou aceitava e passava por esse novo caminho... Todos nós conhecemos a sua escolha e decisão: “E o Senhor mesmo me conduziu entre eles [os leprosos] e eu tive misericórdia com eles. E enquanto me retirava deles, justamente o que antes me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo. E depois disto demorei só bem pouco e abandonei o mundo” .

Tendo abandonado o mundo, isto é, deixado de reconhecer a ordem econômica e social que em Assis levava a considerar os homens dentro de níveis diferenciados, de acordo com suas posses, onde os que tinham bens eram mais fortes, os que tinham menos submetiam-se a eles e os que nada tinham eram manipulados por todos, Francisco voltou-se para os despossuídos e injustiçados identificando-se a si próprio e a seus irmãos como parte deles. É conseqüência dessa identificação a seguinte proposição da regra primitiva: “Nenhum irmão, onde quer que esteja para servir ou trabalhar para outrem, jamais seja capataz, nem administrador, nem exerça cargo de direção na casa em que serve, nem aceite emprego que possa causar escândalo ou “perder a alma” (Mc 8,36). Em vez disto, sejam os menores e submissos a todos os que moram na mesma casa”

Portanto, os primeiros frades não se deixaram absorver pelas regras sociais de Assis. Recusaram a promoção social pelo trabalho, ignoraram a sedução pelo dinheiro, sofreram expropriações forçadas de seus bens, sem recorrer às instituições legais.

2. OS INSTRUMENTOS E MEIOS DE ATUAÇÃO DE UM LÍDER CRISTÃO

2.1 Poder ou Autoridade?

Iniciando este tema, podemos afirmar que o poder, quando exercitado de modo absoluto, intransigente, corrói os relacionamentos, destrói quaisquer possibilidades de diálogo construtivo. Lembremos que organizações como a OFS, por exemplo, cujos membros são voluntários, isto é, pessoas que ingressaram na Ordem espontaneamente, sem coação, só conseguirão obediência de seus membros aos padrões de comportamento exigidos, através da influência pessoal de seus dirigentes.

Aqui cabe abrir um parêntese: acabamos de nos referir a comportamentos humanos, exclusivamente. Não nos esqueçamos, entretanto, de que somos franciscanos e como tais é nosso dever, simultaneamente à atenção que devemos dar aos sadios princípios técnicos e científicos, praticar os sagrados conselhos evangélicos. Assim, Jesus, nosso Senhor e Mestre, lembra: “Onde dois ou três estão congregados em meu nome, ali estou eu no meio deles” . E nosso seráfico pai adverte que são “vivificados pelo espírito das Sagradas Escrituras aqueles que tratam de penetrar mais a fundo em cada letra que conhecem, nem atribuem o seu saber ao próprio eu, mas pela palavra e pelo exemplo, o restituem a Deus, seu supremo Senhor,ao qual todo bem pertence”.

Voltando ao nosso tema, poder e autoridade são palavras de uso freqüente, mas cujo significado nem sempre é entendido por quem as utiliza. Poder vem do latim potere, calcado nas formas potes, potest. Significa ter a posse, faculdade de, ter possibilidade de, etc. Autoridade, que também vem do latim auctoritate , significa direito ou poder de se fazer obedecer, de tomar decisões, de agir, etc.

Como se vê, a idéia de “poder” está contida em ambas as palavras, o que realmente acaba gerando a confusão a que acabamos de nos referir.

Max Weber, um dos fundadores da sociologia, enunciou as diferenças entre poder e autoridade, da seguinte forma :

Poder: é a faculdade de forçar ou coagir alguém a fazer sua vontade, por causa de sua posição ou força, mesmo que a pessoa preferisse não o fazer.

Autoridade: é a habilidade de levar as pessoas a fazerem de boa vontade o que você quer por causa de sua influência pessoal.

Portanto, o autor afirma que é pelo exercício da autoridade que pessoas são levadas a fazer, de boa vontade, o que o líder deseja. Todavia, pessoas com autoridade geralmente ocupam cargos ou posições de poder. Um exemplo simples é o de uma mãe que pede algo a seu filho. O filho executa a ordem, raciocinando: “vou fazer tal coisa, porque mamãe me pediu”. Neste caso, a mãe exerceu sobre o filho uma função de autoridade, embora também esteja em situação de poder (a função de mãe é “superior” à função de filho).

Assim, poder deve ser entendido como faculdade, enquanto que autoridade é definida como habilidade. A palavra habilidade significa ser hábil, ter aptidão, ser competente, engenhoso, capaz, esperto, ágil, etc. Todas essas palavras são sinônimos que nos ajudam a entender melhor o significado de liderança.

Avançando mais um pouco nessa questão de autoridade, pensemos agora em alguém, vivo ou morto, que exerceu autoridade ou influência sobre nós. Em seguida tentemos listar as qualidades que tais pessoas possuem ou possuíam.

Com certeza estaremos listando atitudes como: entusiasmavam, ensinavam, eram pacientes, honestos, confiáveis, davam bom exemplo, compromissados, bons ouvintes, conquistavam a confiança das pessoas, tratavam as pessoas com respeito, encorajavam, tinham sempre atitudes positivas e entusiásticas, gostavam das pessoas...

Todas essas qualidades listadas são comportamentos. E comportamento é escolha, isto é, traços de caráter que precisam ser trabalhados e desenvolvidos com esforço e persistência. O desafio do líder é, portanto, escolher os traços de caráter que precisam ser trabalhados e lutar para mudar seus hábitos para melhor.

Então: Liderança é a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente, visando a atingir os objetivos identificados como sendo para o bem comum. O objetivo do líder é ter o poder, exercendo, também, autoridade sobre as pessoas.

Por fim, acrescentaremos mais um detalhe às características do líder. A sua missão é satisfazer as necessidades de seus liderados, sem, todavia, tornar-se escravo de suas vontades.

Vontade é anseio que não considera as conseqüências físicas ou psicológicas do que se deseja.

Necessidade é legítima exigência física ou psicológica para o bem estar do ser humano.

Maslow, outro estudioso do assunto, apresentou a seguinte hierarquia das necessidades humanas. Imaginemos uma pirâmide:

5- Auto realização
4- Auto-estima
3- Pertencimento e amor
2- Segurança e proteção
1- Comida, água, moradia

As necessidades do nível mais baixo devem ser satisfeitas antes das de nível mais alto.

Assim, se considerarmos o nível mais baixo, é preciso pagar um salário justo e dar os benefícios para satisfazer as necessidades de comida, água e teto.

As necessidades da segunda camada – segurança e proteção – exigem um ambiente de trabalho seguro, juntamente com o fornecimento de limites e o estabelecimento de regras e padrões, o que é fundamental para satisfazer essas necessidades.

As pessoas têm necessidades incentivadoras – pertencimento e amor – Isso inclui a necessidade de fazer parte de um grupo saudável, com relacionamentos acolhedores e saudáveis.

Uma vez satisfeitas essas necessidades, o estímulo vem da auto-estima, o que inclui a necessidade de sentir-se valorizado, tratado com respeito, apreciado, encorajado, tendo seu trabalho reconhecido, premiado, e, assim por diante.

Enfim, satisfeitas essas necessidades, vem a auto-realização, que é tornar-se o melhor que se pode ser ou é capaz de ser, conforme as aptidões que possua.

Nem todos podem ser presidentes de empresas ou o melhor aluno da classe, mas todos podem ser o melhor empregado e o melhor estudante com os atributos mentais que possua. Isto é, as pessoas têm que alcançar a própria excelência.

É, portanto, função importantíssima do líder identificar constantemente as necessidades das pessoas que ele lidera.

2.2 Os Paradigmas

Paradigmas são padrões psicológicos, modelos ou mapas que usamos para navegar na vida. São valiosos quando usados adequadamente, mas podem se tornar perigosos se os tomarmos como verdades absolutas, sem aceitar qualquer possibilidade de mudanças que acontecem no decorrer da vida.

A menininha que sofreu um desgaste psicológico muito intenso, por exemplo, vítima de um pai abusivo, pode ficar impregnada pelo modelo que serviu a ela a tal ponto que, mesmo depois de se tornar adulta, tenha grandes dificuldades em relacionar-se com os homens. A experiência traumatizante vivida por ela criou em sua mente um paradigma negativo.

O mundo exterior entra em nossa consciência através dos filtros de nossos paradigmas. E nossos paradigmas nem sempre são corretos.

O mundo vive em constante mudança e a mudança desinstala, tira-nos da nossa zona de conforto.

Quando nossas idéias são desafiadas somos forçados a repensar nossa posição, e isso é sempre desconfortável.

Podemos comparar padrões de comportamento, em qualquer organização humana – e a OFS também é uma organização humana - independentemente de seus objetivos, ao longo do tempo, para melhor explicar a evolução dos paradigmas:

VELHOS PARADIGMAS / NOVOS PARADIGMAS
Centralização de decisões / Decisões descentralizadas
Hierarquia de cargos / Liderança
Apego a um modelo / Melhoria contínua
Resultado a curto prazo / Resultado a médio e longo prazo
Evitar e temer mudanças / A mudança é uma constante
Eu penso, portanto, decido / Causa e efeito

2.3 O Serviço e o Sacrifício

O líder não se coloca acima das regras, é um cumpridor delas. Jesus disse em diversos momentos e com outras palavras, claro, que a influência e a liderança são construídas sobre o serviço. Basta lembrar a passagem em que fala sobre o amor aos inimigos: “amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam” . E outra característica da liderança é a autoridade que o líder exerce, como já vimos.

Essa autoridade sempre se constrói sobre o serviço e sacrifício. Portanto, iniciemos a construção do modelo de liderança, usando os conceitos que até agora trabalhamos:

  • Liderança
  • Autoridade
  • Serviço e Sacrifício

Amor é a palavra que vem a seguir. Não como um sentimento, mas como um comportamento. Esse amor-comportamento, do qual falaremos no próximo capítulo, é sempre fundamentado na vontade.

Para ajudar na compreensão desse amor-comportamento, observemos a fórmula abaixo:

Intenções – Ações = Nada = Fé – Obras = Nada

Todas as boas intenções do mundo não significam coisa alguma se não forem acompanhadas por nossas ações. Portanto, observe a mudança na referida fórmula:

Intenções + Ações = Vontade = Fé + Obras = Vontade de Deus

Só quando nossas ações estiverem de acordo com nossas intenções é que nos tornaremos pessoas harmoniosas, líderes coerentes. Assim, o modelo que estamos construindo passa a ser:

  • Liderança
  • Autoridade
  • Serviço e Sacrifício
  • Amor
  • Vontade

2.4 O Amor

Os relacionamentos têm que ser cuidadosamente desenvolvidos e alimentados. Devemos fazer nossas escolhas a respeito do que acreditamos e do que essas crenças representam em nossas vidas. A partir do momento em que temos sentimentos positivos a respeito de alguém, podemos dizer que o amamos. É nesse sentido que Jesus nos mandou amar nossos inimigos.

O Novo Testamento foi escrito originalmente em grego, e os gregos usavam várias palavras diferentes para descrever o fenômeno do amor: Eros, da qual deriva a palavra erótico, Storgé, isto é afeição, especialmente com a família e seus membros, Philos ou fraternidade, amor recíproco, condicional, do tipo “você me faz o bem e eu faço o bem a você”, Ágape para descrever um amor incondicional, sem exigir nada em troca. Este último é o significado correto do termo amor empregado por Jesus Cristo, que queria dizer que devemos fazer de conta que as pessoas ruins não são ruins e que devemos nos comportar bem em relação a elas. Nem sempre podemos controlar o que sentimos a respeito de outras pessoas, mas podemos controlar como nos comportamos em relação a elas. O apóstolo Paulo exprime-se maravilhosamente bem a respeito desse Amor-comportamento, Amor-Ágape, quando ensina: mesmo que eu fale em línguas, a dos homens e a dos anjos, se me falta o amor, sou um metal que ressoa, um címbalo retumbante. Mesmo que eu tenha o dom da profecia, o saber de todos os mistérios e de todo o conhecimento, mesmo que tenha a fé total, a que transporta montanhas, se me falta o amor, nada sou” . Vale a pena catalogar algumas qualidades do líder no exercício desse amor-ágape e refletir sobre como identificá-las no comportamento desse líder:

QUALIDADE COMO SE MANIFESTA NO LÍDER

Paciência Mostra auto-controle, cria um ambiente seguro, no qual as pessoas que cometem erros não são advertidas de forma grosseira, mas se responsabilizam por suas tarefas.

Bondade Dá atenção, faz apreciação, incentiva. Fala a respeito da forma como agimos e não como sentimos. Ouve e esse ouvir não é um processo passivo, que consiste em ficar em silêncio enquanto a outra pessoa fala. O ouvir do líder é um processo ativo, que requer esforço consciente e disciplinado, leva a silenciar toda a conversação interna, enquanto ouve o outro. Isto se chama empatia; é definida como presença total junto ao outro que exige atenção.

Humildade É autêntico, real, sem pretensão, orgulho ou arrogância.

Respeito Trata as pessoas dando-lhes toda importância. Cumprem a palavra e seguem os compromissos (horários, por exemplo).

Abnegação Satisfaz as necessidades do outro.

Perdão Desiste de ressentimento, quando prejudicado, sem desconhecer as coisas ruins, nem deixar de lidar com elas.

Honestidade É livre de engano, o que é mais que não dizer mentiras. Passa a imagem de alguém firme, previsível, dedicado à verdade a todo custo. Não falseia para ser agradável.

Compromisso Atém-se às suas escolhas. É talvez o comportamento mais importante de todos, porque é através dessa qualidade que o líder nos indica os valores que defende intransigentemente em sua vida. A falta de compromisso é demonstrada por nossa sociedade descartável, onde tudo pode ser substituído.

2.5 Criar o ambiente

Criar um ambiente saudável para as pessoas crescerem e ter sucesso é um requisito essencial para que o líder possa exercer sua capacidade de envolver seus liderados e influenciá-los para trabalharem entusiasticamente, como já foi mencionado. Podemos aqui citar uma metáfora que serve como apoio ao nosso raciocínio: o jardim e o jardineiro. Quando nos deparamos com um belo jardim, cheio de flores e folhagens que deliciam nossa visão, voltamos nosso pensamento para o Criador, que é o único que sabe dar vida a uma pequena semente. Mas também será correto dizer que, se não foi o jardineiro que fez o crescimento e surgimento das mais belas flores, muito contribuiu para que toda essa maravilha da natureza acontecesse.

Quando pessoas usam o poder indiscriminadamente, criam situações desconfortáveis para seus liderados e acabam por gerar intranqüilidade e insegurança. Há estudos que indicam serem os procedimentos negativos muito mais marcantes que os positivos, na proporção de 4 para 1, isto é, aquele que abusou do poder uma vez, terá que despender muito mais esforço para readquirir a boa imagem que tinha antes do gesto negativo.

Encontramos, entretanto, verdadeiras “ilhas saudáveis” de tranqüilidade aparente, muitas vezes cercadas de um imenso mar de tumultos. Com certeza, se procurarmos a origem daquela situação positiva, ali encontraremos um verdadeiro líder, responsável por ela.

O melhor que podemos fazer é criar e discutir códigos de conduta que facilitem a tomada de decisões amadurecidas e compartilhadas com aqueles que têm responsabilidades no grupo. A Pastoral dos Faltosos é um exemplo de um código de conduta, porque é através dela que os irmãos ou irmãs que se enquadrem na situação de ausentes, sejam ouvidos e tratados com toda a caridade evangélica. Claro que, esgotados os todos os recursos previamente estabelecidos ou que o bom senso admite, aqueles que não se comportam de acordo com as boas regras de conduta não devem permanecer num ambiente sadio e organizado, como deve ser o de uma Fraternidade da OFS.

2.6 Fazer a escolha

O pensamento tradicional nos ensina que os pensamentos e sentimentos dirigem nosso comportamento. Todavia, o inverso, isto é, comportamentos positivos podem gerar sentimentos positivos. Esta aparente contradição é explicada pela chamada práxis . Nosso comportamento também influencia nossos pensamentos e sentimentos. Quando nos comprometemos a concentrar atenção, tempo, esforço e outros recursos em alguém ou algo durante um certo tempo, começamos a desenvolver sentimentos pelo objeto de nossa atenção. Os sentimentos virão em conseqüência do comportamento.

Portanto, a liderança começa com uma escolha. Algumas dessas escolhas incluem encarar as tremendas responsabilidades que nos dispomos a assumir e alinhar nossas ações com as boas intenções.

Assim, neuróticos assumem responsabilidades demais e acreditam que tudo o que acontece é culpa deles; pessoas com problemas de caráter, por outro lado, assumem muito pouco a responsabilidade de seus atos. Crimes bárbaros são praticados por pessoas que os imputam a fatores ou circunstâncias externas ou passadas, como, por exemplo, insanidade mental, traumas por abusos sexuais na infância, etc. Então nos perguntamos: o que aconteceu com a responsabilidade pessoal de nossa sociedade? Explica-se pelo conceito freudiano do determinismo, o qual afirma que para cada efeito ou evento, físico ou mental, há uma causa. Segundo esse princípio, os seres humanos não fazem escolhas e o livre-arbítrio é uma ilusão. O determinismo genético permite culpar o avô pelos genes ruins de uma pessoa, explicando, por exemplo, porque ela é alcoólatra. Enfim, temos toneladas de novas desculpas para nosso mau comportamento.

O homem tem ambas as potencialidades dentro de si mesmo: a que se efetiva depende das suas decisões, não das condições.

O caminho para a autoridade e a liderança, portanto, começa com a vontade. A vontade é a escolha que fazemos para aliar nossas ações às nossas intenções.

Todos temos que fazer escolhas a respeito de nosso comportamento e aceitar a responsabilidade por essas escolhas.

Assim, são propostos quatro estágios para adquirir novos hábitos ou habilidades:

· Estágio um: INCONSCIENTE E SEM HABILIDADE – você ignora o comportamento e o hábito. Você está inconsciente ou desinteressado em aprender a prática e, obviamente, despreparado.

· Estágio dois: CONSCIENTE E SEM HABILIDADE – Você toma conhecimento de um novo comportamento, mas ainda não desenvolveu a prática. Tudo é muito desajeitado, antinatural e até assustador.

· Estágio três: CONSCIENTE E HABILIDOSO – Você está se tornando cada vez mais experiente e se sente confortável com o novo comportamento ou prática.

· Estágio quatro: INCONSCIENTE E HABILIDOSO – Você já não tem que pensar no comportamento adquirido. Sua prática se torna rotina. Este é o estágio em que os líderes não precisam tentar ser bons líderes, porque já são bons líderes.
Pensamentos tornam-se ações; ações tornam-se hábitos; hábitos tornam-se caráter e nosso caráter torna-se nosso destino.

2.7 A recompensa

O Judaísmo evoluíra durante séculos e foi gravado em milhares de velhos pergaminhos, mas quando alguém quis saber de Jesus a única coisa mais importante da religião, ele respondeu simplesmente que era amar a Deus e ao próximo. Mais importante que ir à igreja ou seguir uma série de regras. Paulo também escreveu que apenas três coisas eram importantes: fé, esperança e caridade, sendo o amor ou a caridade, a maior delas.

É de Santo Agostinho a frase: devemos pregar o Evangelho por toda parte aonde formos e usar palavras só quando necessário.

Tudo depende da visão que temos do mundo, isto é, não vemos o mundo como ele é, mas como somos. Vemos e encontramos as coisas que procuramos.

A missão de construir autoridade servindo aqueles pelos quais o líder é responsável poderia dar-lhe uma visão real da direção que ele ou ela vai tomar.

E quando se tem essa visão a vida passa a ter um propósito e um significado e as pessoas aderem ao líder antes de aderirem a qualquer declaração de missão que o líder tiver.

Arriscar-se mais, refletir mais, realizar mais coisas que permanecem são anseios daqueles que viveram muito e procuraram aperfeiçoar e aprofundar a sua visão real. Este é o preço a pagar por tais comportamentos, mas também é uma verdadeira recompensa para aqueles que lideram.

Outra recompensa é uma vida de harmonia espiritual. A vida do líder, com certeza, estará em sintonia com Deus.

Finalmente, a alegria de se ter doado cercará o líder. Alegria, não felicidade, porque felicidade é baseada em acontecimentos. A alegria é um sentimento muito mais profundo, que não depende de circunstâncias externas. A maioria dos grandes líderes falaram dessa alegria: Jesus Cristo, Buda, Gandhi, Martin Luther King, Madre Tereza e outros. Alegria é a satisfação interior e a convicção de saber que você está verdadeiramente em sintonia com os princípios profundos e permanentes da vida. Servir aos outros nos livra das algemas do ego e da concentração em nós mesmos, que destroem a alegria de viver. Para São Francisco de Assis, a alegria vem da simplicidade, que nada mais é do que a libertação do próprio egoísmo, voltando-se para a doação. A alegria é uma conseqüência dessa doação.

3. LIDERANÇA FRANCISCANA SECULAR: UMA CONSEQUÊNCIA DA CONSCIÊNCIA DE PERTENÇA À OFS.

3.1 Constatações de Algumas Características Pessoais do Líder Franciscano

Mas o que se poderia exigir, como características pessoais, de líderes franciscanos? Devemos observar, em resposta a esta questão, que certas características gerais de liderança são próprias de todos os líderes, independentemente de serem ou não franciscanos. Referi-las aqui é apenas um reconhecimento de que precisam ser desenvolvidas por todo aquele ou aquela cujas funções na OFS os obriguem a exercer algum papel de liderança.
Seguem, então, algumas dessas características gerais, além do que já foi dito:

· Exercitar comportamentos que o levem a influenciar, entusiasticamente, seus liderados para que executem as suas ordens. Lembremo-nos que organizações como a OFS dependem de voluntários, portanto, pessoas que ingressam na Ordem espontaneamente, sem coação. Assim, só conseguirá a obediência de seus comandados, o dirigente que souber usar de sua influência pessoal, isenta de autoritarismo.

· Identificar a necessidade de mudanças, quando elas se tornam necessárias. O mundo vive em constante mudança e essas mudanças tiram-nos da chamada “zona de conforto”. Quando nossas idéias são desafiadas, somos forçados a repensar nossas posições e isso é sempre desconfortável. O líder deve reconhecer a oportunidade dessas mudanças e encorajar seus liderados a enfrentá-las.

· Preparar-se para construir a liderança sobre o serviço e, se preciso, sobre o sacrifício. O líder deve esforçar-se em servir seus liderados, da mesma forma como Jesus fez, durante sua permanência entre nós. Aliás, é famoso o trecho evangélico sobre o bom pastor: “Eu sou o bom pastor: o bom pastor se despoja da própria vida por suas ovelhas.” . Assim, ao prestar o serviço que tende a aproximar-se do próprio sacrifício, o líder exerce a capacidade de amar. A palavra amor, utilizada neste sentido, é a mesma usada por Jesus em seus sermões e atitudes.

3.2 Ser Educador e Comunicador

Em princípio, todo líder franciscano deve ser educador e comunicador e dominar atitudes e técnicas de comunicação.

O líder franciscano deve discernir sobre os tempos ideais de intervenção para cada um de seus liderados. Isto exige disponibilidade e interesse de ambos, “mestre” e “discípulo”. O educador precisa apreender o ritmo das relações individuais, reconhecendo que nem sempre é a quantidade de palavras que pode explicar satisfatoriamente um conteúdo qualquer, mas o momento oportuno em que uma explicação poderá ser suficientemente clara e compreensível. Esse momento oportuno acontecerá coletiva ou individualmente, dependendo das características dos envolvidos.

Há, portanto, necessidade do educador estar em completa sintonia com seus educandos.

Em outras palavras, a frase seguinte resume o que foi dito acima:

“Para ensinar latim a João, não basta conhecer latim. É necessário conhecer João”.

Consideramos que alguns cuidados devem ser observados para que as condições ideais para a aplicabilidade do citado ritmo das relações individuais ocorra naturalmente, isto é, sem que se criem situações artificiais. Eles são indicados abaixo, como instrumentos operacionais:

1º Princípio: Conhecimento RecíprocoA Fraternidade que cresce deve abrir espaço para a crítica a determinados comportamentos e sua interpretação pelos líderes. Assim: Não deixar situações não esclarecidas: quando nos sentimos feridos pelo irmão e perdemos a vontade de estar com ele, a primeira coisa a ser feita é exatamente encontrar a oportunidade de nos esclarecer com ele. Não falar do irmão, mas com o irmão. São Francisco admoesta: “Bem-aventurado o servo que tanto ama e respeita seu irmão, quando este estiver longe dele como quando estiver com ele; e não disser por trás dele aquilo que, com caridade, não pode dizer diante dele” .

2º Princípio: O Líder Franciscano Deve Ser Um ComunicadorSaber comunicar é condição necessária, mas não suficiente para viver com plenitude toda relação interpessoal. Seguem algumas regras que devem ser observadas na comunicação entre as pessoas:

Todo comportamento é comunicação.Toda comunicação tem dois aspectos: de conteúdo (aquilo que é falado) e de relação (o valor pessoal daquele que fala).A coisa que se pretende comunicar é definida, em grande parte, pelo comportamento daquele que a comunica. Por exemplo, alguém fala a outros sobre a necessidade e as vantagens de ser honesto, quando, ele próprio, é pessoa sabidamente desonesta! Não passará a seus ouvintes credibilidade, ainda que aquilo que comunica seja, em princípio, bom.

3º Princípio: A Mensagem Passada de Boca-a-Boca é Modificada de Acordo com a Interpretação das Pessoas que a Recebem e Comunicam.A interpretação que Pedro dá sobre um fato qualquer não observado diretamente por ele, ao comunicá-lo a Joana, é diferente da interpretação que esta fará ao comunicá-lo a José e assim, sucessivamente. Em outras palavras, João disse que o Antônio falou que Maria é assim, assim, assim, assim.... O comunicador franciscano deve evitar dizer a outros aquilo de que “ouviu falar”, porque estará levando adiante uma mensagem viciada, provavelmente distante do fato verdadeiro que quer comunicar.

4º Princípio: Seres Humanos Comunicam-se Tanto Mediante a Imagem Explicativa Quanto Mediante a Palavra.A comunicação acontece sob duas formas: a verbal, isto é, as palavras empregadas, propriamente ditas e a não-verbal, isto é, a maneira como são ditas. Assim, por exemplo, dizemos a alguém que ela tem toda a nossa atenção, mas de vez em quanto olhamos para o relógio em nosso braço, atrevidamente, como se tivéssemos pressa em despachá-la. Neste exemplo, portanto ocorrem comunicações opostas, isto é, verbalizar uma afirmação e demonstrar uma negação.A Fraternidade deve construir-se com atitudes de igualdade, promover o verdadeiro espírito de fraternidade. Aquele que nos pede para ser ouvido deve perceber em nossa escuta uma atitude de humildade, de integral atenção a ele, muito mais intensa do que um simples comportamento de adivinhador (“atropelando” a fala do irmão, com uma interpretação precipitada), ou de simples questionador (que faz perguntas, umas atrás das outras, para atender a sua curiosidade, impedindo o irmão de desenvolver um raciocínio adequado à sua maneira de comunicar o que deseja).

5º Princípio: Aquele que Comunica deve Comportar-se Como Alguém Igual Àquele que Recebe a Mensagem. A nenhum irmão franciscano é dada a autoridade de colocar-se como um superior em relação aos demais. Assim a Fraternidade estará aberta ao diálogo fraterno e proveitoso.

3.3 Dominar Atitudes e Técnicas de Comunicação

O líder franciscano deve conhecer e praticar atitudes de relacionamento fraterno com o irmão. Além das já citadas, essas atitudes podem ser identificadas através das seguintes características de comportamento no ato de comunicar algo:

COMPORTAMENTOS INCORRETOS COMPORTAMENTOS CORRETOS

SER AVALIADOR: Colocar-se na posição de quem quer julgar os valores e comportamentos do outro.

SER DISCRETO: Exprimir um estilo comunicativo que não impulsiona o outro a mudar o próprio comportamento, mas a dar-lhe oportunidade de mostrar-se como é.

SER CONTROLADOR: Utilizar um comportamento autoritário, que cria no outro sentimentos negativos, contrários à comunicação fraterna.

SER ALGUÉM QUE BUSCA A ORIENTAÇÃO PARA O PROBLEMA: Manifestar o desejo de trabalhar juntos, num clima de confiança recíproca. Quem fala deve fazer o outro sentir-se valorizado.

SER MANIPULADOR: Usar o outro em proveito próprio ou de terceiros, gerando nele atitudes de defesa.

SER ESPONTÂNEO: Criar um clima de confiança recíproca, exprimindo autenticamente a si mesmo.

IMPOR AS PRÓPRIAS IDÉIAS COMO SE FOSSEM LEIS: Quando a comunicação está condicionada de forma rígida, impondo-se ao outro como algo imutável.

SER FLEXÍVEL:Buscar no diálogo, mesmo que haja confronto, que ele se estabeleça com base na busca da verdade.

3.4 Exercitar o Cuidado na Atribuição de Ações em Nome da OFS

Sabemos que São Francisco foi um autêntico missionário e estimulava seus frades a realizar missões entre os infiéis. Solicitava aos Provinciais que tivessem o cuidado de enviar apenas frades “idôneos” às missões, isto é que dessem testemunho de vida e estivessem preparados para anunciar o Evangelho.

Quem segue o Cristo fielmente, seja qual for sua personalidade é um líder, embora muitas vezes não tenha uma consciência clara disso. Constatamos, no entanto, que só pode exercer o Cuidado:

· Quem tem equilíbrio.

· Quem atende às necessidades espirituais e temporais de seus irmãos e irmãs da Fraternidade e de todo o mundo, na medida de suas possibilidades e prepara-se constantemente para isso:

  • Quem é acreditável;
  • Quem mostra a si mesmo e aos que o cercam, que de fato ama os pobres, como São Francisco.
  • Quem é pacífico e alegre em toda circunstância, abandonando-se confiante a Nosso Senhor, cuidando apenas de estar sempre junto Dele.
  • Quem deseja crescer na prática das virtudes, reconhecendo a própria pequenez e as graças que o Senhor lhe concede;
  • Quem procura ouvir com atenção;
  • Quem visita os enfermos e idosos, bem como os que vivem em solidão, interessando-se por suas vidas.
  • Quem verifica o que o irmão e a irmã realmente precisa também do ponto de vista material e acode, de preferência com outros membros da Fraternidade, as suas necessidades, de modo que se sintam confortados.
  • Quem reconhece sua imperfeição, dispondo-se a pedir perdão com humildade, quando necessário e por outro lado, sabe perdoar com generosidade.

Vejam que para tudo isso, somente um coração que ama intensamente unido a Jesus Cristo tem liderança para conseguir realizar essas ações no seu cotidiano. Isto porque Ele é o nosso modelo de liderança. Seguindo seus passos com fidelidade vamos nos transformando em nosso dia a dia, até que, quem sabe, possamos viver o que disse São Paulo: Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim . São Francisco tanto procurou viver essa fidelidade que foi chamado: Um outro Cristo.

3.5 Exercitar o Senso de Responsabilidade

O senso de responsabilidade é inerente a quem exerce uma liderança. Se disse sim à vivencia do Evangelho à maneira de São Francisco de Assis, fará tudo que estiver ao seu alcance para ser fiel. Buscará ser mensageiro da paz e do Bem em todas as circunstâncias de sua vida.

3.6 Praticar a Vivência

Sua identidade de franciscano secular o levará:

· A viver com fidelidade a Regra da OFS, na família, no trabalho, na fraternidade, na Igreja e na sociedade em geral;

· A dar prioridade à freqüência às reuniões e atividades da Fraternidade, mantendo contato freqüente com os irmãos e irmãs.

· A ser pessoa que testemunha uma fé viva, isto é, coerente com a própria vida.

· A apresentar-se aos familiares e outras pessoas que não conhecem a Fraternidade, como alguém que vive com serenidade e equilíbrio, mansidão e humildade, simplicidade e sabedoria de Deus, para que outros se interessem por saber o que é ser franciscano secular.

· A demonstrar grande respeito por todos os irmãos e irmãs da Fraternidade, da família e em todos os ambientes, mesmo com os mais difíceis, os jovens mais rebeldes, os idosos mais teimosos, procurando aí exercer a caridade e a paciência, lembrando sempre como é grande a que Nosso Senhor tem com cada um de nós.

· A converter-se a Cristo continuamente, vivendo em “penitência”, que no sentido evangélico é mudança de rumo e escolha de Deus.

· A evangelizar com a própria presença, através da Palavra de Deus que experimenta na vida, testemunhando ser alguém que vive no meio do mundo, mas abandona suas vaidades e vícios para dedicar-se às coisas de Deus.

· A mostrar, sobretudo aos mais jovens, a grande graça que recebeu quando disse SIM à vocação à qual o Senhor o chamou, para crescer no conhecimento, no amor e no serviço a Deus e aos irmãos e irmãs.

· A viver com alegria e ação de graças essa pertença, valorizando a si mesmo, a toda a Fraternidade, a toda a OFS, à Igreja, assim glorificando Nosso Senhor Jesus Cristo.

· A testemunhar com a abertura do coração e da mente, a “verdadeira liberdade dos filhos de Deus”.

· A procurar fazer com que a caridade para com todos seja a sua meta principal de todos os dias, fazendo tudo com muito amor, zelo e dedicação, na busca de transmitir com seu modo de ser, que vive para amar e ser amor para todos os que o cercam em todos os ambientes.

4 A MISSÃO DO LÍDER FRANCISCANO SECULAR

4.1 Viver e Ensinar a Viver a Forma de Vida Franciscana Secular

Os franciscanos seculares têm na Regra e nas Constituições Gerais (CCGG) verdadeiros guias de comportamento, se desejarem seguir os ensinamentos de Francisco em suas vidas de seculares. “A Regra é um guia para viver a vida evangélica franciscana; não é um texto que se lê superficialmente e de corrida.”

. As CCGG ajudam “a concretizar e a adaptar a Regra às mais distintas nações e fraternidades.”

Assim, através da leitura atenta desses documentos podemos identificar ações que levam à prática da liderança orientada para a forma de vida franciscana secular :

  • Ser co-responsável pela presença pessoal, pelo testemunho, pela oração, pela colaboração ativa e pela animação da Fraternidade.
  • Tornar-se disponível e responsável aos eventuais cargos de Ministro ou Conselheiro, abertos ao diálogo a fim de ajudar o irmão a realizar a própria vocação e colaborar para que a fraternidade seja uma verdadeira comunidade eclesial.
  • Preparar a animação espiritual e técnica das reuniões, difundindo ânimo e vida à Fraternidade.
  • Se Ministro ou Conselheiro, promover o espírito e a realidade da comunhão entre irmãos, buscando, acima de tudo, a paz e a reconciliação no âmbito da Fraternidade.
  • Reconhecer que as funções de Ministro e Conselheiros é temporária, não devendo ser ambicionada; que haja disponibilidade tanto para aceitar como para deixar o cargo.
  • Promover o respeito à personalidade e à capacidade de cada irmão. Respeitar e fazer respeitar a variedade cultural e a pluriformidade de manifestações.

4.2 Viver e Ensinar a Viver a Presença Ativa na Igreja e no Mundo

São ações que devemos pôr em prática em nossa vida comunitária, ligadas à Igreja :

  • Anunciar o Cristo pela vida e pela palavra.
  • Preparar os irmãos para a difusão da mensagem evangélica.
  • Apropriar-se do amor de São Francisco pela Palavra de Deus.
  • Colaborar com os movimentos que promovem o fraternismo; criar condições de vida digna para todos; trabalhar pela liberdade de qualquer povo.
  • Promover iniciativas de salvaguarda da criação.
  • Estudar o Evangelho e a Sagrada Escritura.
  • Empenhar-se na reflexão de fé sobre a Igreja, sua missão no mundo e o papel dos leigos franciscanos, aceitando desafios e responsabilidades.
  • Participar dos sacramentos da Igreja e colaborar para que seja viva a celebração dos sacramentos.
  • Prover a própria família e servir à sociedade, através do trabalho e dos bens materiais procurando viver, de modo peculiar, a pobreza, pela oração, diálogo, revisão de vida, escuta da Igreja e exigências da sociedade.
  • Agir como fermento no ambiente em que vive, mediante testemunho do amor fraterno.
  • Relacionar-se preferencialmente com pobres e marginalizados.
  • Empenhar-se no cumprimento dos deveres próprios do trabalho, assumir responsabilidades sociais e civis.
  • Colaborar na elaboração de leis e normas justas.
  • Tomar posições claras quando a pessoa humana for ferida na sua dignidade; servir fraternalmente o injustiçado.
  • Ser portador da paz na própria família e na sociedade.

5. NOVAMENTE UMA QUESTÃO DE IDENTIDADE...

No início os frades foram completamente ignorados pela comunidade.

Entretanto não desapareceram como Assis pretendia. O desprezo a eles foi-se transformando em admiração diante da tenacidade e da alegria que provocavam. Francisco tinha uma confiança inabalável no valor da caminhada comum. Apoiou seus irmãos em sua oposição a toda exclusão de seres humanos.

Juntos fizeram de seu compromisso de irmãos uma força social, mostraram as cores e a alegria do mundo novo anunciado por Jesus Cristo. Convidaram os homens todos a se congregar e cantar Deus e a criação.

Francisco e seus irmãos, pelas suas ações, mais do que por palavras, tornaram claros os atos e costumes geradores de injustiça e de escravidão. Assim fazendo, apresentou a todos o Deus de Jesus Cristo fora de um sistema de interesses que escravizava tanto a excluídos como a privilegiados.

A pobreza vivida por esses primeiros irmãos, era conseqüência e não causa de uma opção coerente de ver e viver o mundo, despojado dos artificialismos criados pelos poderosos, para subjugar seus semelhantes. A aproximação com todas as criaturas animadas e inanimadas, pessoas ou coisas, era, em suma, o verdadeiro caminho para a aquisição das riquezas colocadas à disposição pela graça do Criador.

Um exemplo dessa visão pode ser compreendida através da maneira figurada com que um primitivo escritor franciscano descreveu a visita da “Senhora Pobreza” a um grupo de frades franciscanos que a conduziram a um lugar onde pudesse repousar, pois estava cansada:

“Pediu [ela] um travesseiro para apoiar a cabeça. Eles [os frades] trouxeram logo uma pedra e a colocaram debaixo da cabeça dela. E ela, após um sono breve mas muito tranqüilo, levantou-se depressa e pediu que lhe mostrassem o convento. Conduziram-na a um certo monte, mostraram-lhe a região toda que se podia ver, e disseram: “Senhora, este é o nosso convento”.

Desta maneira, Deus estava presente tão visível e belo como o Sol naquele pequenino grupo. Nisso se encontra o enorme e altíssimo feito do pobrezinho de Assis!

A vivência da identidade franciscana exigiu liderança!

5.1 A Vida em Fraternidade

O viver numa Fraternidade da OFS é um compromisso de amor com Deus, consigo mesmo e com os irmãos.

São Francisco tinha prazer de encontrar os irmãos, caminhava muito para visitá-los quanto lhe permitiam suas forças, preocupava-se especialmente em servir aos doentes e necessitados.

Enfrentava em si mesmo as fraquezas humanas e por isso exortava os irmãos com muitos conselhos, para que perseverassem na vida fraterna, mesmo que surgissem dificuldades. Vamos confirmar isso com algumas palavras dele:

· “Aquele que prefere suportar antes os ataques de seus irmãos do que se separar deles, este persevera na verdadeira obediência, pois ele dá sua vida por seus irmãos” .

· “O melhor que te posso dizer com relação às dificuldades de tua alma é isto: considera como uma graça tudo quanto dificultar o teu amor a Deus nosso Senhor, bem como as pessoas que te causam aborrecimentos, sejam irmãos ou gente de fora, mesmo que cheguem a te fazer violência. Esta seja a tua vontade e nada mais” .

· “E guardem-se todos os irmãos de caluniar a alguém ou de [ocupar-se com discussões vãs] , mas antes tratem de guardar silêncio, tanto quanto lhes conceder a graça de Deus. Não devem também discutir entre si ou com outros, mas procurar responder humildemente dizendo: “Somos uns servos inúteis” .

· “Em toda parte onde estiverem ou se encontrarem os irmãos, que estejam a serviço uns dos outros..., pois se uma mãe nutre e cuida de seu filho carnal, com quanto mais cuidado não deve cada qual amar e nutrir seu irmão espiritual! Se um dos irmãos cair doente, os outros irmãos o devem servir como gostariam de ser servidos”.

CAPÍTULO II - A CAPACITAÇÃO DO LÍDER FRANCISCANO SECULAR

1 CONCEITO DE CAPACITAÇÃO

Segundo o dicionário, capacitar é habilitar, tornar capaz. Não basta a alguém ter as características de líder. É necessário que sua liderança se manifeste junto aos seus liderados. E essa manifestação se dá na medida em que o líder se mostra capaz de realizar coisas que esperam dele. Estudar, pesquisar, manter-se atualizado em relação a suas tarefas e compromissos, tudo isto cria condições de capacitação aos que já têm a responsabilidade de líderes, ou se sentem atraídos para exercer a liderança.

Em qualquer campo da atividade humana, só pessoas capacitadas terão oportunidade de desenvolvimento e crescimento na sua área de atuação.

Na OFS não poderia ser diferente. Nós, franciscanos seculares somos desafiados, no dia-a-dia, a buscar o entendimento dos fenômenos humanos -sociais, econômicos, religiosos, políticos – e, quando exigidas, as respectivas soluções. Uma outra atitude crítica cobrada do líder é saber posicionar-se eticamente a respeito dos citados fenômenos, cuja resposta positiva, através de suas opiniões e conduta, é esperada pelos seus liderados.

Este capítulo fornecerá apenas alguns esclarecimentos acerca da estrutura da OFS e das diversas características da capacitação para serví-la. Espera-se, entretanto, que os líderes franciscanos seculares se tornem capacitados pela busca incessante do crescente conhecimento da doutrina, das características peculiares da visão franciscana do mundo e da compreensão das coisas que o cercam, à luz da fé e do magistério da Igreja.

2 SABER TRANSMITIR CONHECIMENTO

Quando nossa vocação atinge a maturidade na OFS, percebemos que o tempo que dedicamos à vida fraterna, à meditação da Regra e do Evangelho, aos compromissos assumidos com a Profissão da Regra da OFS, tudo isto nos dá, de certo modo, um perfil de um franciscano ou franciscana secular que abriu o coração ao Espírito do Senhor para que em seu ser brotasse um líder franciscano, uma líder franciscana secular.

Esta constatação é confirmada na Fraternidade que vive a consciência de pertença:

“A Profissão não compromete unicamente os professos para com a Fraternidade, mas igualmente compromete a Fraternidade a se ocupar do bem estar humano e religioso deles” .

Assim sendo, para transmitir os CONHECIMENTOS que recebeu de Jesus Cristo, da Fraternidade, da Família Franciscana, da doutrina da Igreja e do mundo, as palavras de um franciscano ou franciscana secular só terão eco se corresponderem à expectativa de seus irmãos e irmãs quanto ao seu testemunho de vida.

Esse irmão ou irmã que transmite conhecimentos dentro e fora da Fraternidade como cristão franciscano engajado na vida da Igreja, precisa saber bem do que está falando, conhecer a pessoa de Nosso Senhor e fazer “do Cristo o inspirador e o centro de sua vida com Deus e com os homens” .

Para cumprir esta missão seguindo o modo de Jesus Cristo, podemos relembrar o seu plano para anunciar o reino de Deus, conforme a vontade do Pai, que já constava das Escrituras: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor”.

3 O EXERCÍCIO DA LIDERANÇA FRANCISCANA SECULAR POR MEMBROS DOS CONSELHOS LOCAIS E REGIONAIS DA OFS

Como membro de um Conselho de uma Fraternidade da OFS, esse irmão precisa ter consciência do que representa para os membros de sua Fraternidade, para os membros de outras Fraternidades e principalmente às pessoas da sociedade, porque foi chamado a exercer uma função de liderança. Assim, é sua responsabilidade:

· Saber que é uma referência especial.

· Espelhar-se como um líder, com tudo o que se espera de um franciscano secular autêntico: observa-se sua integridade como pessoa humana, a dedicação ao serviço, a disposição, a prontidão, a prática da justiça e da caridade, a vida de penitência, o ardor missionário e acima de tudo o amor que espalha com sua presença.

· Ser bom cidadão: sendo coerente com suas consciências moral, política e social onde vive, conhecer os documentos da OFS e da Família Franciscana, praticar o cultivo das virtudes, etc...

· Não se esquecer de que em qualquer lugar onde for apresentado como tal, nesse momento representa a OFS, não só a Fraternidade Local ou Regional a que pertence, mas a OFS como um todo. Por isso o testemunho de vida fala mais alto nos membros de Conselhos, principalmente porque representam oficialmente uma liderança dentro da OFS.

Alguém poderá pensar: bem, mas então não me sinto capaz para atuar no Conselho das Fraternidades de nenhum nível. Aí vem a reflexão de nossa situação de criaturas, todas imperfeitas, mas todas maravilhosas, que colocam generosamente seus dons (isto é, o que recebem de graça), à disposição dos irmãos e irmãs, porque disseram sim ao seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, à maneira de Francisco de Assis.

· Nada temer, pois o Senhor dá a graça de estado a quantos se dispõem a servi-Lo. Se pedirem a assistência do Espírito Santo, Ele os atenderá generosamente, basta que viva em comunhão com a Santíssima Trindade.
É de Deus que vem a força e toda graça para qualquer apostolado.

· Viver a Regra da OFS é ser apóstolo e apóstola de Cristo, cumprindo com o melhor de nós, o “sagrado encargo” que recebemos.

· Em sua vida tudo é efêmero, apenas uma coisa deve sustentar com profunda convicção e diríamos “teimosia”: a fé. Sim porque é ela que o impulsiona, faz ir adiante, lutar, recomeçar a cada dia, confiar na presença e misericórdia do Pai, saber esperar, apesar das adversidades, carregar a cruz sorrindo, ter força quando se sentir fraco, porque o sustento da fidelidade à vocação vem da presença de Cristo.

É das oportunidades que a vida lhe oferece e que aproveita para o crescimento da fé, que constrói espiritualmente, dia após dia, cuidando do ser interior para ter algo a dar a quem precisa e também para restituir ao Pai com ação de graças todo o bem que Ele lhe deu e lhe permitiu realizar.

Como animadores e guias de suas Fraternidades, todos exercem liderança e precisam, de fato, “vestir a camisa” da OFS, mostrando que suas fragilidades, seus desacertos, justamente revelam a transparência de que tudo o que fazem é graça de Deus. Por isso, têm a chance de recomeçar cada dia, buscando melhorar o que não planejam bem, aperfeiçoar seu relacionamento com aqueles e aquelas que se responsabilizam consigo para levar avante a Fraternidade, não esquecendo que o modo como a conduzem deve ser um convite para que outros queiram se agregar a eles.

Só conseguem isto se em suas vidas transparece uma liderança alegre e confiante na presença de Deus neles e em todos aqueles e aquelas com quem se relacionam.

A OFS é o lugar da santificação, do amor fraterno, do encontro com Deus, com São Francisco, Santa Clara, Santa Isabel da Hungria e com todos os irmãos e irmãs que buscam viver com eles a perfeição da caridade no estado secular.

Portanto é com muita alegria e vigor que devem servir à OFS. Esses momentos de suas vidas devem ser vividos com grande interesse de sua parte, pois constituem o que de melhor recebem na dignidade de amados filhos de Deus: a vocação.

Disso resulta que sempre devem chegar felizes em casa quando retornam de seus encontros fraternos. Pode ser que uma vez ou outra, algo lhes desagradou, ou os fez sofrerem, mas devem zelar pelos irmãos e irmãs e pela própria Fraternidade, evitando comentários negativos, que possam por em dúvida a validade e a qualidade da vida espiritual que todos buscamos incessantemente. O líder cuida da honra de Deus, procurando dizer apenas o que tem valor positivo para o Reino do Pai.

É de vital importância que a formação inicial seja muito bem acompanhada, para que não venham a professar pessoas despreparadas, ou que ainda não compreenderam bem a identidade da vocação que pretendem abraçar. Viver a Regra da OFS, é encarná-la em todos os momentos de suas vidas, de modo que ela os preencha totalmente e os torne cristãos franciscanos seculares vigorosos e felizes nos trabalhos, nas lutas, verdadeiros adoradores do Pai em espírito e verdade, em toda circunstância. Se conseguirem atestar isso com sua conduta, serão um atestado vivo de que vale a pena viver a vocação franciscana secular no século XXI.

Para viver esta consciência de pertença à OFS, constata-se que cada um, cada uma, traz em si uma liderança franciscana, e se enquadram no perfil dos homens e mulheres que decidem renovar-se no vigor do Evangelho, seguindo o exemplo de Francisco de Assis.

Com todos os recursos que temos hoje para trabalhar a animação vocacional, sem dúvida, o que fala mais alto é e será sempre o testemunho de vida, pois quem vive a coerência com o Evangelho é naturalmente um missionário do Reino de Deus, que atua com a liderança de Jesus Cristo encarnada em seu ser, promovendo a vida evangélica em todos os ambientes.

4 ALGUNS PONTOS FUNDAMENTAIS QUE GARANTEM A QUALIDADE DE UMA FRATERNIDADE:

  1. Uma acolhida generosa a todos que a visitarem, ou desejarem conhecê-la;
  2. Que a oração particular e comum dos irmãos e irmãs seja tanto quanto possível atenta à presença de Deus e afetuosa;
  3. Testemunhar a vida de penitência, pelo seguimento fiel de Nosso Senhor Jesus Cristo;
  4. Viver o fraternismo, significa renunciar à própria vontade e, portanto, todos devem unir-se e contribuir mutuamente para o bem comum da Fraternidade e de todos os que puderem ajudar com suas atividades apostólicas;
  5. É preciso inserir sua vida pessoal no ritmo comum. Isto é, você deve adaptar-se à vida da Fraternidade e não ela à sua. Este é o seu primeiro apostolado, que o ajuda a livrar-se de si mesmo;
  6. Com simplicidade, falem-se uns aos outros sobre seus problemas pessoais, comunitários e apostólicos, e todos sintam-se responsáveis pelo testemunho da Fraternidade como tal.

5 A ESTRUTURA ORGANIZACIONAL DA OFS NO MUNDO

A OFS é também uma organização humana. E, como tal, precisa de uma estrutura organizacional para que suas intenções e ações sejam praticadas por todos os níveis de governo, até chegar à base, que são as fraternidades locais.

Como se sabe, a sede da OFS está situada em Roma, porque é também a sede da Igreja universal, o que favorece a comunicação entre ambas. Detalhamos neste trabalho a composição da chamada Fraternidade Internacional, por ser ainda menos conhecida, cujos órgãos de governo são:

  • o Conselho Internacional (CIOFS);
  • a Presidência do CIOFS;
  • o Ministro Geral.

O Conselho Internacional tem a seguinte composição:

  • Os Conselheiros Internacionais, eleitos pelas Fraternidades Nacionais;
  • os membros seculares da Presidência do CIOFS;
  • os representantes da Juventude Franciscana (JUFRA);
  • os quatro Assistentes Gerais da OFS.

A Presidência do Conselho Internacional da OFS tem a seguinte composição:

  • O Ministro Geral;
  • o Vice Ministro;
  • sete Conselheiros da Presidência;
  • um membro da Juventude Franciscana;
  • os quatro Assistentes Gerais da OFS.

Abaixo são demonstrados os diversos níveis da OFS, até as fraternidades locais:


Essa estrutura não deve ser entendida como: “é mais importante quem está acima e é menos importante quem está abaixo”. A fraternidade local é, na verdade, o principal nível onde os irmãos se encontram e praticam o fraternismo. Todos os demais níveis têm apenas funções de coordenação.
O CIOFS é presidido por um ministro ou presidente do Conselho Internacional.

5.1 A Base Organizacional da OFS do Brasil

A organização da OFS do Brasil hoje existente começou a dar seus primeiros passos, com o surgimento do Secretariado Nacional (proposto em 1955 no Encontro Nacional no Rio de Janeiro) e aprovado em 1957 e que funciona no atual endereço, à Avenida 13 de Maio, 23 – 22º andar, com três salas no Edifício Darke no centro do Rio de Janeiro desde 21 de abril de 1965. A fusão das obediências com a unificação da assistência espiritual e da OFS do Brasil, iniciou-se em 1972.

5.2 O Secretariado Nacional

O Secretariado Nacional é o órgão realizador dos serviços burocráticos oriundos do planejamento e execução das ações emanadas do Ministro, Vice-Ministro e Conselheiros, no exercício de suas funções. O coordenador responsável pelos serviços realizados é o Secretário Executivo, que é nomeado pelo Conselho da Fraternidade Nacional.

5.3 A Revista Paz e Bem

A Revista Paz e Bem é uma publicação bimensal de formação e informação da OFS do Brasil. É publicada e enviada aos seus assinantes pelo Secretariado Nacional.

Em seu conteúdo podem ser encontradas reflexões sobre temas franciscanos, orações, breves notícias das fraternidades regionais e locais, temas de formação, biografias de santos franciscanos, a voz do Papa, dos Ministros Nacional e Internacional, atas e relatórios sobre as reuniões do Conselho Nacional, além de curiosidades diversas. Qualquer membro da OFS pode enviar matérias para serem publicadas em Paz e Bem, bastando, para isso, que sejam de interesse geral.

Paz e Bem é um verdadeiro elo de ligação direta entre os Conselhos Internacional e Nacional e os irmãos assinantes, que podem se manter informados dos acontecimentos da OFS no mundo inteiro. Envolve, portanto, muitas lideranças, tanto da equipe que a compõe, como dos membros da OFS que escrevem seus artigos.

O valor das assinaturas da revista faz parte do sistema de arrecadação do Conselho Nacional, o que lhe confere também importância na consecução dos planos da OFS do Brasil.

5.4 O REFRAN

O REFRAN, Relatório Anual da Fraternidade do Brasil, é um verdadeiro “banco” de dados, isto é, um depósito único de todas as informações, cujo conhecimento se faz necessário para o planejamento das ações da OFSB.

O fluxograma abaixo indica as etapas das atualizações anuais. A obediência aos prazos indicados permite que a montagem dos resultados ocorra dentro do ano a que se referem os dados coletados:

Essas informações fornecem uma riqueza de detalhes imprescindível para a formulação e de planos de ação apostólica ou de formação espiritual, assim como correções aos planos de ação já implantados, porque permitem um ajustamento da linguagem utilizada no material formativo e informativo às características dos seus destinatários, seja por questões de nível intelectual, seja por uma melhor escolha de assuntos, ora priorizando aspectos da vida paroquial, ora priorizando a vida familiar, ou a terceira idade, apresentando exemplos mais significativos aos seus leitores, porque melhor respeitam e ilustram a sua realidade. As atualizações do REFRAN constituem responsabilidade de todas as Fraternidades Locais e são executadas pelo Secretariado Nacional, que disponibiliza os dados às Fraternidades, em seus vários níveis, através da Internet ou, conforme solicitação, pelo correio.

6 A DIVULGAÇÃO DA OFS: EXPRESSÃO DE PERTENÇA

Vivemos em um mundo onde o marketing está presente praticamente em todos os meandros da vida do cidadão comum. A Igreja já se utiliza muito das técnicas da propaganda, na tentativa de buscar os recursos financeiros necessários para suprir as suas necessidades de caixa e para recrutar fiéis no meio do povo. Nada mais justo que esses recursos sejam utilizados, até porque a capacidade criativa do ser humano, quando utilizada para a sua sobrevivência e para o bem, é graça de Deus.

A OFS não é exceção à regra. Ela precisa manter-se atualizada em relação aos recursos e ao recrutamento de membros para suas fileiras, caso contrário envelhece e deixa de dar seu testemunho num mundo carente de espiritualidade.

Os líderes da OFS não podem concordar com menos. Todavia, nós somos os portadores e os responsáveis por um organismo atualíssimo, que tem no carisma franciscano secular uma mensagem a ser ouvida pelos que não conhecem o Evangelho. Francisco gritava aos quatro cantos: “o amor não é amado”, porque tinha medo que de não ser ouvido e que o Deus que tanto amava não recebesse as honras devidas.

Os irmãos da OFS devem procurar identificar-se cada vez mais, com essa forma de vida secular, ter a Regra tão entranhada em seus corações que seu proceder, obediente a ela, seja a principal fonte de divulgação do ser franciscano.

Cremos que este deve ser o principal meio de difusão de nossa espiritualidade.
Contudo, as fraternidades devem aproveitar os recursos que lhes são possíveis para divulgar a OFS, tais como: folders, a revista Paz e Bem, apresentações de teatros e atividades artísticas em casas franciscanas, exposições de artesanato, etc...

CAPÍTULO III – CONCLUSÕES

Este trabalho pretende ser um instrumento para ajudar nossos irmãos e irmãs da OFS a servir com o melhor que possam doar de seus dons para a glória de Deus, sua própria felicidade e fortalecimento da Ordem.

São Francisco não pretendia ser conscientemente um líder, mas exerceu uma liderança muito eficaz para a vida dos homens e mulheres de seu tempo, bem como para a Igreja. Isto porque desejava ardentemente ser um missionário do Reino de Deus e sentia necessidade de pregar a penitência e anunciar o Evangelho para a conversão dos pecadores. Mesmo doente, enquanto pode, ele não perdia a oportunidade de proclamar “as odoríferas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo”, assim chamadas por considerar a excelência da Palavra de Deus que liberta e salva a vida humana.

Toda liderança franciscana, só pode ser baseada e buscada na Sabedoria Divina, por isso aprendemos de nosso Seráfico Pai a pedir diariamente como todos os santos: ”Dai-nos Senhor, o vosso Santo Espírito e seu santo modo de agir”. Portanto, tudo o que aprendemos desse trabalho deverá ser utilizado para aperfeiçoar o modo de servir à maneira franciscana.

Nossa Ordem precisa de líderes, de pessoas que assumam com generosidade as responsabilidades nos Conselhos dos diversos níveis, para levar adiante o carisma da vocação franciscana secular na vida da Igreja do século XXI.

“É obrigação do líder incentivar e dar condições para que as pessoas se tornem o melhor que podem ser”. E isto nós devemos viver em nosso convívio fraterno e em nossa missão de evangelizar em todos os ambientes.

Temos no Brasil a edição do livro “A Vida em Fraternidade”, à disposição no Secretariado Nacional, que traz muitas contribuições aos líderes da OFS e da JUFRA, aos Assistentes Espirituais e a todos que desejam conhecer a organização e vivência da OFS. Recomendamos sua leitura como anexo a este trabalho.

Todos nós recebemos muitos talentos de Nosso Senhor e alguns podem estar escondidos, de modo que nem mesmo nós os percebemos. Mas se abrimos o coração e confiamos em Deus, Ele realmente faz por nós maravilhas. Daí vem esta contribuição para ajudar a capacitar nossas lideranças no reconhecimento de suas habilidades, para melhor viverem “a gloriosa liberdade dos filhos de Deus”.

Paz e Bem!

OBS:

1) Cada fraternidade poderá utilizar-se desse material de acordo com suas possibilidades e inclusive criar questões para trabalhos em grupo, dinâmicas e outras formas de estudo. As que dispuserem de computador, o Conselho Nacional poderá atender aos que solicitarem, enviando este texto por e-mail.

2) Como nossas atividades se desenvolvem mais em finais de semana, podem ser programados cursos em etapas, a fim de que os interessados possam assimilar bem os temas.

Maria Aparecida Crepaldi e Luiz Gonzaga Cortez Garcia é Membros da cordenadoria de formação da OFS

Extraído de http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/artigos/artigo.asp?id=19 acesso em 01 set. 2009.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Para onde vai a Ordem Franciscana Secular no Brasil?

Reflexões de um assistente depois do Capítulo de Manaus

(21-23 de agosto de 2009)

Frei Almir Ribeiro Guimarães,OFM (*)

1. A OFS do Brasil realizou sua XXXII Assembléia Nacional ou Capítulo Eletivo em Manaus. Um novo governo assumiu o serviço da Fraternidade Nacional. Todos se voltam para o paraense eleito Irmão Ministro Nacional, Antônio Benedito de Jesus da Silva Bitencourt e seu Conselho no sentido de que possam prestar um belo serviço à OFS. Penso que ele e seus colaboradores imediatos haverão de se revestir dos melhores propósitos de serviço e disponibilidade pela causa dos leigos e leigas que se consagram a Deus na OFS através de uma promessa/profissão de seguir o Evangelho à maneira de Francisco no meio do mundo, secularmente. As reflexões que seguem não são expressão da Conferência dos Assistentes, mas ponderações espontâneas de um irmão franciscano que há 9 anos acompanha de perto a vida da OFS nos Regionais e no Brasil.

2. No início deste triênio temos o dever irrenunciável de olhar a realidade, examinar os passos dados, as atitudes tomadas e traçar um caminho de futuro, marcado pela sinceridade em seguir Cristo Jesus. Por isso cabe esta pergunta: Para onde caminha, ou pode caminhar, a Ordem Franciscana Secular no Brasil? O Ministro Geral dos Menores (OFM), em texto dirigido aos frades fala da necessidade de que nos abramos ao futuro com confiança. O texto não se aplica, em primeiro lugar, aos irmãos da OFS, mas com as devidas adaptações pode nos ajudar a refletir: “Somos filhos e irmãos de um pai “gigante”, cuja santidade, audácia, intrepidez e criatividade permaneceram vivos por oito séculos e agora vivem no coração e na vida de muitos de nossos irmãos. Santidade, audácia, intrepidez e criatividade que todos nós somos chamados a reproduzir com coragem, deixando-nos arrastar pelo Espírito que nos impele para o futuro e nos dá a força da fidelidade criativa para recriar respostas novas para novos desafios. Neste contexto histórico em que vivemos, como muitos de nossos antepassados que, apaixonados por Jesus Cristo e seu Reino, agiram de tal forma que sua vida se incendiou ao invés de se apagar, assim também nós, longe de desperdiçar energias para conservar e manter uma vida consagrada e franciscana à qual falte energia e incisividade e, portanto, encanto e sedução, somos chamados a permanecer fiéis e atuais, de modo que o carisma de Francisco continue significativo para o homem de hoje. Agarrar-nos aos passado, chorá-lo nostalgicamente, levar-nos-ia a uma inevitável decadência. Não se trata de sermos aventureiros, mas também não nostálgicos. Não há alternativa para a vida consagrada e franciscana senão a de abrirmo-nos ao Espírito. Só a força do Espírito evitará que existam em nós vidas pela metade, sufocadas pela rotina e pela inércia, sujeitas ao funcionamento das estruturas. Só assim podemos abrir-nos com confiança ao futuro” ( Relatório do Ministro Geral José Rodriguez Carballo, ao Capitulo Extraordinário de 2006, n. 118).

3. Não é possível deixar de abrir caminhos novos. Não se trata da repetição monótona do que se vem fazendo. As visitas fraterno-pastorais não poderão deixar de incluir em sua pauta perguntas e indagações a respeito daquilo que as Fraternidades estão fazendo para criar o novo: fraternidades que sejam parábolas do reino, grupo de irmãos que andar ao encontro dos mais abandonados, pessoas que criam verdadeiros “eremitérios” onde as pessoas cheguem a uma oração profunda, jeito diferente de fazer uma pastoral que não seja repetição burocrática de exigências para a sacramentalização, mas conversas que levem as pessoas a sentirem o perfume do Evangelho. Os Conselhos regionais, de modo particular, deverão ajudar as Fraternidades a implementarem o novo na linha do jeito franciscano de viver. Sem isso morreremos de inércia, no dizer do Ministro Carballo.

4. Antes de mais nada espera-se que o Conselho eleito em Manaus, seja constituído de pessoas profundamente boas, transparentes, frágeis mas nitidamente buscadoras da santidade. Um Conselho não precisa ser constituído de peritos na arte da burocracia, mas de irmãos e de irmãs humildes, simples, fraternos e nunca buscadores do poder e do prestigio. A Regra da OFS lembra sempre isto: “Nos diversos níveis, cada Fraternidade é animada e conduzida por um Conselho e um Ministro que são eleitos pelos professor de acordo com as Constituições. Seu serviço, que é temporário, é um cargo de disponibilidade e de responsabilidade em favor de cada membro e dos grupos” ( n. 21).

5. Parece necessário, no momento em que novos irmãos assumem o serviço no Conselho Nacional, que nos lembremos do espírito de Francisco: “ ‘Não vim para ser servido mas para servir’ (Mt 20,28), diz o Senhor. Os que estão constituídos sobre os outros não se vangloriem de sua superioridade mais do que se estivessem encarregados de lavar os pés aos irmãos. E se a privação do cargo de superior os perturba maios que a privação do encargo de lavar os pés amontoam para si tanto mais riquezas com perigo para sua alma” ( Admoestação 4). Desnecessário dizer que os franciscanos que amam postos e cargos para mandar estão longe do espírito de Francisco e, com sua atitude, ferem gravemente o Evangelho.

6. A Ordem Franciscana Secular precisa formar leigos verdadeiramente conscientes de sua missão de cristãos no mundo. Não temos leigos que gostam apenas de circular nas regiões internas do culto e das coisas sagradas. Urge um estudo aprofundado a respeito do que vem a ser um leigo cristão. Não basta que alguns irmãos e irmãs se reúnam piedosamente algumas vezes por ano. Os franciscanos seculares precisam compreender e adotar o esquema do ver, julgar e agir. A OFS se aproxima daquele espírito da Ação Católica tão elogiado pelos Papas. À mão dos documentos da Igreja os seculares franciscanos ajudarão nas tarefas intra-eclesiais, mas serão restauradores da Igreja no meio do mundo: fermento na massa, sal da terra e luz do mundo. Se as Fraternidades não compreenderem de fato esta dimensão que sentido têm esses grupos?

7. Aproveitando a comemoração dos 800 anos do carisma franciscano a OFS não se limita a congressos, palestras e confraternizações. “Quando Francisco naquele certo dia encontrou-se com o Evangelho, este lhe soou como uma revelação e um convite: a exemplo de Jesus Cristo, tornar-se pequeno, menor despojado de poder e de riqueza e, ir, assim pelo mundo, anunciando o Reino de Deus e a conversão. Francisco e, em seguida Clara e os respectivos grupos, desencadearam um movimento evangélico-penitencial que, em boa parte, correspondia aos anseios do tempo” ( Reviver o sonho de Francisco e Clara de Assis no chão da América Latina , FFB, p.8).

8. A Ordem Franciscana Secular com sua Regra e sua mística corresponderia aos anseios de nosso tempo? Eis uma questão fundamental. Não basta repetir práticas, fazer capítulos, eleger novos ministros. Importa ter consciência clara que a OFS tem sentido. Há aqueles que não vêm na Ordem nada que responda aos anseios do tempo moderno. Outros grupos são mais atraentes, mais profundos, mais compromissados com o Evangelho. Muitos franciscanos seculares parecem sentir-se bem em alguns movimentos de oração mais intimista e convivência mais ruidosa. É que costumamos ouvir. Só podemos fazer propaganda vocacional, sobretudo no meio dos jovens, se os ministros e seus conselhos, nos diferentes níveis estão convencidos de que temos algo a oferecer. O que de bem concreto podemos propor aos homens e mulheres de hoje? Eis aí uma pergunta que em nível nacional precisa ser respondida sem adiamentos.

9. Pessoalmente estou convencido de que precisamos famílias evangelicamente franciscanas, trabalhadores franciscanos, políticos franciscanos, orantes franciscanos, cuidadores da natureza franciscanos, cristãos humildes e bons franciscanos. Se vivermos a Regra da OFS temos propostas belíssimas a serem feitas. Cabe, bem concretamente, neste contexto, elencar as grandes propostas evangélico-franciscanas-clarianas que temos a oferecer aos homens e mulheres da provisoriedade, do individualismo, do hedonismo e do consumismo o perfume do Evangelho que nossos predecessores ofereceram a tantos e tantas. Nessa direção deve ir a Ordem Franciscana Secular se quiser viver e ser fiel ao carisma. Será que a OFS está sabendo tirar frutos nesse tempo de comemoração dos 800 anos do carisma? O que o Nacional e os Regionais andam propondo? Parece fundamental que os formadores possam dispor de textos comentários a respeito da Regra que façam a ligação dos seus conteúdos com o mundo de hoje? Não seria esta uma tarefa urgente da formação? O texto da Regra é sugestivo e revestido de frescor. Será que os franciscanos seculares conseguem viver a Regra e mostrar sua atualidade? Por vezes penso que a Regra ainda não faz parte da vida dos franciscanos seculares.

10. Não somos orantes espalhafatosos. Os franciscanos, também os seculares, gostamos do deserto, das grutas, do silêncio. Temos saudades dos Carceri e do La Verna. Nosso Pai nos ensinou que devíamos rezar o Ofício como manda a Mãe Igreja. Rahner dizia que os cristãos dos tempos novos ou seriam místicos ou não seriam nada. Entendamos por místicos aqueles que têm contactos regulares, saborosos e densos com o Senhor. Os membros da OFS rezam de verdade. Quando deixamos a oração, a missa quase que diária somos facilmente presas do inimigo que nos oferece o fruto do poder, da vaidade e, depois, ficamos com vergonha de Deus e não podemos mais olhar em seus olhos. Quisemos ser como deuses e Deus nos abandonou. Não se pode negligenciar a vida de oração dos terceiros. Estão eles rezando com a Igreja? Estão tomando gosto pela contemplação? São eles capazes de ver Cristo no rosto dos mais atingidos pela doença e pelo abandono?

11.Os orantes franciscanos não se fixam. São sempre peregrinos, forasteiros. Espera-se que muitos irmãos e irmãs das fraternidades seculares se disponham a ser missionários, quem sabe, até em lugares mais distantes. Em nossos tempos, a palavra mágica é missão. Os franciscanos são missionários pela palavra e pela vida, missionários da família, missionários na paróquia, missionários de verdade. Será que irmãos e irmãs de fraternidades de São Paulo, do Rio Grande do Sul e do Centro Oeste não poderiam dedicar seis meses de suas vidas para um trabalho missionário fora de sua terra?

12. Não se pode imaginar uma Fraternidade Franciscana Secular aburguesada, contente com seu conforto, satisfeita com a repetição de ritos, mas sem viço e sem vocações. Todos os corações retos que poderiam querer fazer parte dos nossos desejam nos ver envolvidos com o mundo dos pobres. O amanhã de nossas Fraternidades passa pelo trabalho e a dedicação aos mais pobres. Todas as Fraternidades precisam ir ao encontro desses pobres que são os idosos mal cheirosos, as mães de filhos encarcerados e drogados, os doentes sem visitas e os jovens sem lenço, sem documento e sem esperança. Insisto na palavra pobre. Quando queremos responder à pergunta título desta reflexão inegavelmente a resposta aponta na direção dos pobres. Faço duas citações de Frei José Rodriguez Carballo, Ministro dos Menores. Ele se refere aos frades. Mutatis mutandis os leigos também podem incluidos por estes pensamentos. O Ministro escreve aos frades a respeito de fraternidades inseridas em ambientes pobres. “Tudo isso levou-nos a tomar consciência do fato de não podermos escolher arbitrariamente os lugares onde morar, mas é necessário deixar-nos seduzir pelos claustros esquecidos, pelos claustros inumanos onde a beleza e a dignidade da pessoa são continuamente ofuscadas. Assim, aproximamo-nos um pouco mais dos pobres, primeiros destinatários da missão de Jesus para nós fazermos misericórdia com eles (Com lucidez e audácia em tempos de refundação, n. 74). Mais ainda: “Tendo presente nossa forma de vida, é também evidente que não se pode separar nossa obra evangelizadora de nossa vocação para a minoridade, pobreza e solidariedade. Por sermos menores, somos servos de todos, renunciando a exercer qualquer tipo de poder ou domínio sobre os outros; por sermos pobres, deixamo-nos evangelizar pelos pobres; por sermos solidários, alargamos nossa tenda para fazer nossas as alegrias e tristezas dos mais pobres e daqueles que mais sofrem” ( Idem,n.75). Os franciscanos sentem-se bem entre os pequenos. Na medida em que os irmãos e irmãs vão vivendo esse espírito pode-se esperar que as eleições em nossos Capítulos tenham as característica de aceitar um fardo para servir e uma honra e um benefício em prol de seu ego.

13. A OFS cuidará de modo especial da vida em fraternidade. Os Capitulares escolheram como uma prioridade do próximo triênio o revigoramento e renovação das reuniões gerais e da vida fraterna. O encontro dos irmãos, seja na reunião geral ou em outros momentos, não pode ser um evento isolado e solto. O momento da reunião é aquele em que se manifesta a visibilidade dos irmãos que se estimam. Reuniões bem feitas, marcadas pela seriedade da formação, pela sinceridade na oração e pelo júbilo no encontro fraterno. Não se trata apenas da reunião. Os laços entre os irmãos serão reforçados, o serviço mútuo incentivado, a participação de todos uma exigência. Quando uma fraternidade cambaleia pode ser tal se deva à negligência dos conselhos e dos irmãos. Diria mais. Pode acontecer que algumas fraternidades tenham que ser fechadas porque alguns irmãos não quiseram entrar no processo de conversão e ali viveram como se vive num grupo de amigos. Nunca nos esqueçamos da palavra de Jesus: onde dois ou três estiverem reuinidos em seu nome, ele estará no meio deles. Até que ponto os irmãos e irmãs se reúnem na limpidez do coração e em nome do Senhor?

14. Se perguntamo-nos a respeito dos caminhos que a OFS precisa trilhar não haveremos de nos esquecer da aproximação dos jovens. A experiência nos diz que um número muito elevado de terciários franciscanos vieram de grupos de juventude franciscana e, de modo particular, da JUFRA. As reuniões e os encontros da OFS necessitam da presença de adolescentes e jovens. Eles chegam para cantar, para transmitir sua alegria. Somos obrigados a falar daquilo de que nosso coração está cheio, ou seja, de Francisco. Os Conselhos haverão de encontrar meios e modos de fazer com que jovens se aproximem e queiram ouvir o murmúrio franciscano que existe em nós. Estamos em condições de acolher, esporadicamente, jovens em nossos encontros? Não criaremos grupos de jovens ou não nos ligaremos aos jovens simplesmente porque desejamos completar as falhas de nossas fileiras. O motivo principal é que o carisma de Francisco continua atual. A razão é missionária. Muitos jovens poderão ser santos e seres esplendorosos se vierem a conhecer Francisco. Depois de tantos discursos a respeito da beleza do carisma franciscano existente há oitocentos anos, será preciso encarná-lo hoje.

15. A OFS necessariamente caminhará para o novo. Inventar o amanhã a partir de um presente de irmãos e irmãs em estado de conversão. Não se inventa o novo por decretos. O novo é obra do Espírito. Ele brota do vigor da vida. Ou não brota. Inimiga do novo é a mesmice e a rotina. Fraternidades surgirão em bairros pobres, com pouco irmãos, mas irmãos de verdade. Poderá surgir uma outra predominante de jovens universitários. Os Conselhos traçarão as linhas de uma formação que capacite o grupo a dar as razões de sua esperança. Alguns grupos se servirão da música, do teatro e da arte. Alguns irmãos farão experiências missionários em rregiões de missões mesmo fora do páis. A OFS está diante da necessidade de enfretntar o desafio do novo. O Documento da FFB vai na msma linha da descoberta do novo. Fala de andar por novas trilhas. “E, exatamente hoje e aqui, sob o império da mais valia, do desejo do lucro, do consumismo, quando de forma avassaladora a antropolotria, na sua face mais cínica – a indiferença para com as criaturas, a exclusão dos pequenos, o aburguesamento, a voracidade insaciável do sempre mais ter, parece não reter seus passos nem mesmo no espaço religioso e eclesial, exatamente aqui interpelam-nos Francisco e Clara a andarmos por outras trilhas... Interpelam-nos a não nos esquecermos a partilha do pouco que somos e temos, a solidariedade dos pequenos gestos, que – se não são suficientes para afrontar a frieza do mundo e os abusos contra as criaturas, nem para debelar as dissimetrias sociais e econômicas, a miséria das maiorias e a violência das guerras, declaradas ou não – pelo menos poderão levar o conforto de uma presença e um raio de esperança aos humildes: a esperança de que, no chão da América Latina e do Caribe, as trevas não haverão de ser isentas de luz na noite de seus sofrimentos. Num tempo em que,maciçamente vastas partes do cristianismo e da catolicidade parecem afeitas a colocar a mão no peito e a fechar os olhos para dentro de um intimismo inoperante, é altamente inspirador recordarmo-nos de Francisco e Clara e, recolhendo de sua claridade alguns raios para nossos caminhos, buscarmos restaurar, com ânimo e presteza, o mais sagrado dos templos de Deus: a vida dos seres humanos e do mundo” (Doc. FFB, p 35).

16. Muito trabalho para o triênio que se inaugurou com o Capítulo de Manaus. Antes de mais nada as pessoas, os franciscanos seculares, precisam se renovar. A reforma começa em casa, nos cantos dos corações das pessoas, na qualidade de nossos encontros, no jeito simples e fraterno de viver e no desejo de que sejamos habitados pelo Espírito de Deus ao qual tudo deve servir. E que ninguém se aposse de nada.... todos simples e bons, livres e fraternos.

São Paulo, 02 de setembro de 2009

(*) Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
Assistente Nacional pela OFM
Assistente Regional do Sudeste II

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/almir/artigos/ofs/10.php acesso em 02 set. 2009.

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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Petróleo Pré-Sal

Minhas amigas e meus amigos,

Hoje é um dia histórico.

O governo está enviando ao Congresso Nacional sua proposta do marco regulatório para a exploração de petróleo e gás no chamado pré-sal.

Estou seguro de que, nos próximos meses, os deputados e senadores, recolhendo também as contribuições de governadores e prefeitos, aperfeiçoarão as propostas do governo, trabalhando com responsabilidade, espírito público, compromisso com o país e, sobretudo, muita visão de futuro.

Estou seguro também de que o povo brasileiro entrará de corpo e alma nesse debate tão importante para o destino do Brasil e para o futuro dos nossos filhos.


Porque esse não é um assunto apenas para os iniciados e especialistas. Nem é tampouco um tema que deva ficar restrito somente ao parlamento. Ao contrário, ele interessa a todos e depende de todos.

Por isso mesmo, quero convocar cada brasileiro e cada brasileira a participar desse grande debate. Trabalhadores, donas de casa, lavradores, empresários, intelectuais, cientistas, estudantes, servidores públicos, todos podem e devem contribuir para que tomemos as melhores decisões.

Minhas amigas e meus amigos,

O chamado pré-sal contém jazidas gigantescas de petróleo e gás, situadas entre cinco e sete mil metros abaixo do nível do mar, sob uma camada de sal que, em certas áreas, alcança mais de 2 mil metros de espessura.

Não se pode ainda dizer, com certeza, quantos bilhões de barris o pré-sal acrescentará às reservas brasileiras. Mas já se pode dizer, com toda segurança, que ele colocará o Brasil entre os países com maiores reservas de petróleo do mundo.

Trata-se de uma das maiores descobertas de petróleo de todos os tempos. E em condições extremamente importantes: as reservas encontram-se num país de grandes dimensões, de grande população e de abundantes recursos naturais. Um país que conta com um regime político estável e instituições democráticas em pleno funcionamento. Um país pacífico que faz questão de viver em paz com seus vizinhos. Um país que possui uma economia sofisticada, com um parque industrial diversificado, uma agropecuária de ponta e um setor de serviços moderno. Um país que, tendo dado passos importantes na superação das desigualdades sociais, encontrou seu caminho e está maduro para dar um salto no desenvolvimento.

Como já disse em outra oportunidade, o pré-sal é uma dádiva de Deus. Sua riqueza, bem explorada e bem administrada, pode impulsionar grandes transformações no Brasil, consolidando a mudança de patamar de nossa economia e a melhoria das condições de vida de nosso povo.

Mas o pré-sal também apresenta perigos e desafios. Se não tomarmos as decisões acertadas, aquilo que é um bilhete premiado pode transformar-se em fonte de enormes problemas. países pobres que descobriram muito petróleo, mas não resolveram bem essa questão, continuaram pobres.

Outros caíram na tentação do dinheiro fácil e rápido. Passaram a exportar a toque de caixa todo o óleo que podiam e foram inundados por moedas estrangeiras. Resultado: quebraram suas indústrias e desorganizaram suas economias. E, assim, o que era uma dádiva transformou-se numa verdadeira maldição.

Para evitar esse risco, desde o primeiro instante, determinei à comissão de ministros que preparou o marco regulatório do pré-sal que trabalhasse em cima de três diretrizes básicas.

Primeira: o petróleo e o gás pertencem ao povo e ao Estado, ou seja, a todo o povo brasileiro. E o modelo de exploração a ser adotado, num quadro de baixo risco exploratório e de grandes quantidades de petróleo, tem de assegurar que a maior parte da renda gerada permaneça nas mãos do povo brasileiro.

A segunda diretriz é de que o Brasil não quer e não vai se transformar num mero exportador de óleo cru. Ao contrário, vamos agregar valor ao petróleo aqui dentro, exportando derivados, como gasolina, óleo diesel e produtos petroquímicos, que valem muito mais. Vamos gerar empregos brasileiros e construir uma poderosa indústria fornecedora dos equipamentos e dos serviços necessários à exploração do pré-sal.

A terceira diretriz: não vamos nos deslumbrar e sair por aí, como novos ricos, torrando dinheiro em bobagens. O pré-sal é um passaporte para o futuro. Sua principal destinação deve ser a educação das novas gerações, a cultura, o meio ambiente, o combate à pobreza e uma aposta no conhecimento científico e tecnológico, por meio da inovação. Vamos investir seus recursos naquilo que temos de mais precioso e promissor: nossos filhos, nossos netos, nosso futuro.

Ao examinar os projetos de lei que estamos enviando hoje ao Congresso, depois de tanto trabalho e estudo, vejo com satisfação que eles estão em perfeita sintonia com essas diretrizes.

Minhas amigas e meus amigos,

Uma mudança importante no marco regulatório será a adoção do modelo de partilha de produção no pré-sal e em outras áreas de potencial e características semelhantes. É uma mudança absolutamente necessária e justificada.

Estamos vivendo hoje um cenário totalmente diferente daquele que existia em 1997, quando foi aprovada a Lei 9.478, que acabou com o monopólio da Petrobras na exploração do petróleo e instituiu o modelo de concessão.

Naquela época, o mundo vivia um contexto em que os adoradores do mercado estavam em alta e tudo que se referisse à presença do Estado na economia estava em baixa. Vocês devem se lembrar como esse estado de espírito afetou o setor do petróleo no Brasil. Altas personalidades naqueles anos chegaram a dizer que a Petrobras era um dinossauro – mais precisamente, o último dinossauro a ser desmantelado no país. E, se não fosse a forte reação da sociedade, teriam até trocado o nome da empresa. Em vez de Petrobras, com a marca do Brasil no nome, a companhia passaria a ser a Petrobrax – sabe-se lá o que esse xis queria dizer nos planos de alguns exterminadores do futuro.

Foram tempos de pensamento subalterno. O país tinha deixado de acreditar em si mesmo. Na economia, campeava o desalento. O Brasil não conseguia crescer, sofria com altas taxas de juros, de desemprego, e juros estratosféricos, apresentava dívida externa elevadíssima e praticamente não tinha reservas internacionais. Volta e meia quebrava, sendo obrigado a pedir ao FMI ajuda, que chegava sempre acompanhada de um monte de imposições.

Além disso, não produzíamos o petróleo necessário para nosso consumo. Ferida, desestimulada e desorientada, a Petrobras vivia um momento muito difícil. Tinha dificuldades de captação externa e não contava com recursos próprios para bancar os investimentos. Nessa época, é bom lembrar – e a Dilma já falou – o preço do barril do petróleo estava em torno de US$ 19.

Hoje, nós vivemos um quadro é inteiramente diferente. Em primeiro lugar, os países e os povos descobriram na recente crise financeira internacional que, sem regulação e fiscalização do Estado, o deus-mercado é capaz de afundar o mundo num abrir e fechar de olhos. O papel do Estado, como regulador e fiscalizador, voltou, portanto, a ser muito valorizado.

A economia do Brasil vive também um novo momento. De 2003 a 2008, crescemos em média, 4,1% ao ano. Nos últimos dois anos, nosso crescimento foi superior a 5%. Nesse período, o país gerou cerca de onze milhões de empregos com carteira assinada. O desemprego caiu de 11,7% para 8%, em 2008. Hoje, as taxas de juros atuais são as menores de muitas décadas em nosso país.

Não só pagamos a dívida externa pública, como acumulamos reservas superiores a US$ 215 bilhões. E mais: reduzimos de modo consistente a miséria e as desigualdades sociais. Mais de 30 milhões de brasileiros saíram da linha da pobreza e 2 milhões ingressaram... e 20 milhões ingressaram na nova classe média, fortalecendo o mercado interno e dando vigoroso impulso à nossa economia.

O fato é que hoje temos uma economia organizada, pujante e voltada para o crescimento. Uma economia que foi testada na mais grave crise internacional desde 1929 e saiu-se muito bem na prova. Não só não quebramos, como fomos um dos últimos países a entrar na crise e estamos sendo um dos primeiros a sair dela. Antes, éramos alvo de chacotas e de imposições. Hoje, nossa voz, a voz do Brasil, é ouvida lá fora com muita atenção e com muito respeito.

Meus queridos companheiros e companheiras,

Desde o primeiro instante, meu governo deu toda força à Petrobras. Passamos a cuidar com muito carinho do nosso querido dinossauro. Os recursos da empresa destinados à pesquisa e ao desenvolvimento deram um salto de US$ 201 milhões, em 2003, para R$ 960 milhões, em 2008.

A companhia voltou a investir, aumentou a produção, abriu concursos para contratação de funcionários, encomendou plataformas, modernizou e ampliou refinarias, além de construir uma grande infra-estrutura de gás natural e entrar também na era de biocombustíveis.
Deixamos claro que nossa política era fortalecer, e não debilitar, a Petrobras. E a companhia – estimulada, recuperada e bem comandada – reagiu de forma impressionante.

Resultado: a Petrobras vive hoje um momento singular. É o orgulho do país. É a maior empresa do Brasil. É a quarta maior companhia do mundo ocidental. Entre as grandes petroleiras mundiais, é a segunda em valor de mercado. É um exemplo em tecnologia de ponta. Descobriu as reservas do pré-sal, um feito extraordinário, que encheu de admiração o mundo e de muito orgulho os brasileiros. É uma empresa com crédito e autoridade internacionais. Tanto que, nos últimos meses, levantou cerca de US$ 31 bilhões em empréstimos. Seus investimentos previstos até 2013 somam US$ 174 bilhões.

E ainda para ajudar, para completar, o preço do barril de petróleo oscila hoje em torno de US$ 65, mais do triplo do que em 1997.

Em suma, os tempos e o ambiente no mundo são outros. A situação da economia brasileira é outra. O Brasil e o prestígio do Brasil são outros. A Petrobras é outra. E outra também é a situação do mercado do petróleo.

Minhas amigas e meus amigos,

Também não há termos de comparação entre as áreas que vinham sendo exploradas até agora e as áreas do pré-sal.

No pré-sal, os riscos exploratórios são baixíssimos. A taxa de sucesso dos poços operados pela Petrobras na área é de 87%, sendo que nos blocos situados na Bacia de Santos ela é de 100%. Foram 13 poços perfurados. E nos 13 comprovou-se a existência de grandes quantidades de óleo e gás, com excelentes perspectivas de viabilidade econômica.

Nessas circunstâncias, seria um grave erro manter na área do pré-sal, de baixíssimo risco e grande rentabilidade, o modelo de concessões, apropriado apenas para blocos de grande risco exploratório e baixa rentabilidade.

No modelo de concessões, a União, proprietária do subsolo, permite que as companhias privadas procurem petróleo, mediante o pagamento de uma taxa chamada bônus de assinatura. Se elas encontrarem óleo ou gás, podem extraí-lo e comercializá-lo como quiserem. São donas do petróleo arrancado das entranhas da terra, porque, a partir da boca do poço, a União perde os direitos de propriedade, recebendo apenas uma parcela pequena da renda do petróleo, na forma de royalties e participações especiais.

Já no modelo de partilha, que prevalece em todo o mundo em áreas de baixo risco exploratório e grande rentabilidade, a União continuará dona da maior parte do petróleo e do gás mesmo depois de sua extração. Nesse modelo, o Estado não transfere toda a propriedade do óleo para grupos privados, mas fecha contratos para a exploração e a produção em determinada área – diretamente com a Petrobras ou, mediante licitação, no caso de outras companhias.

No modelo de partilha, as empresas são remuneradas com uma parcela do óleo extraído, suficiente para cobrir seus custos e investimentos e ainda proporcionar uma rentabilidade adequada ao risco do projeto. Já o Estado fica com a maior parte dos lucros da exploração e produção de petróleo, parte esta bem superior ao que recebe hoje no regime de concessão. A regra do modelo de partilha é clara: nas licitações, vence a empresa que oferecer a maior parcela do lucro da operação para o Estado e para o povo brasileiro.

Amigas e amigos,

Como no modelo de partilha a maior parte do petróleo, mesmo depois de extraído, continuará a pertencer ao Estado, ela controlará o processo de produção. Assim, ela poderá definir claramente o ritmo de extração, calibrando-o de acordo com os interesses nacionais, sem se subordinar às exigências do mercado. Dessa maneira, ficará mais fácil para o Brasil contornar os riscos inerentes à produção excessiva, que poderia inundar o país de dinheiro estrangeiro, desorganizando nossa economia – aquilo que os especialistas chamam de doença holandesa.

Além disso, poderemos produzir petróleo nas condições que mais convêm ao país. E desse modo poderemos aproveitar a riqueza do petróleo, que Deus nos deu, para produzir mais riqueza ainda com o nosso trabalho.

Dessa forma, consolidaremos uma poderosa e sofisticada indústria petrolífera, promoveremos a expansão da nossa indústria naval e converteremos o Brasil num dos maiores pólos mundiais da indústria petroquímica do mundo.

Trabalhando com essa perspectiva, encomendaremos – e produziremos aqui dentro – milhares e milhares de equipamentos, gerando emprego, salário e renda para milhões de brasileiros.

Minhas amigas e meus amigos,

Para gerir os contratos de partilha e os contratos de comercialização de petróleo e gás, zelando pelos interesses do Estado e do povo brasileiro, estamos criando uma nova empresa estatal na área do petróleo, a Petrosal.

Ela não concorrerá com a Petrobras, já que não participará da prospecção ou da exploração de petróleo e gás. Sua missão é inteiramente diferente. A nova estatal será, isso sim, a representante dos interesses do Estado brasileiro, o olho atento do povo brasileiro, acompanhando e fiscalizando a execução dos contratos firmados na área do pré-sal.

Será uma empresa enxuta, com corpo técnico altamente qualificado, formado por profissionais com experiência comprovada. Em vários países que adotaram o modelo de partilha, empresas com esse caráter revelaram-se imprescindíveis para defender os interesses públicos e nacionais nas negociações e na gestão de contratos e processos complexos e sofisticados como os que caracterizam a indústria petrolífera.
Minhas amigas e meus amigos,

Se vocês estão cansados, imaginem eu. Outra novidade importante é a criação do Fundo Social. Ele será responsável pela administração da renda do petróleo e pela sua aplicação em investimentos seguros e de boa rentabilidade, tanto no Brasil como no exterior.

De um lado, o novo fundo será uma mega-poupança, um passaporte para o futuro, que preservará e incrementará a renda do petróleo por muitas e muitas décadas. Os rendimentos do fundo serão canalizados, prioritariamente, para a educação, a cultura, o meio ambiente, a erradicação da pobreza e a inovação tecnológica. Vamos aproveitá-los para pagar a imensa dívida que o país tem com a educação e para permitir que a aplicação do conhecimento científico seja, na verdade, a nossa maior garantia do nosso futuro.

De outro lado, o novo fundo funcionará, também, como um dique contra a entrada desordenada de dinheiro externo, evitando seus efeitos nocivos e garantindo que nossa economia siga saudável, forte e baseada no trabalho e no talento dos milhões e milhões de brasileiros.

Assim, a renda gerada pela produção do pré-sal será administrada de forma planejada e inteligente. E seu ingresso na economia nacional será dosado de modo a fortalecê-la e a impulsioná-la, jamais a desorganizá-la.
Minhas amigas e meus amigos,

Não poderia deixar de prestar aqui uma sincera homenagem à Petrobras, a sua diretoria e a todo o seu corpo de funcionários.

A descoberta do pré-sal, que coloca o Brasil num novo patamar no cenário mundial, não foi fruto do acaso ou de um golpe de sorte. Ao contrário, ela só foi possível graças ao talento, à competência e à determinação da Petrobras. E também, é claro, graças ao revigoramento da empresa nos últimos anos, à recuperação da sua autoestima e aos investimentos crescentes em pesquisa e prospecção.

Poucas empresas no mundo têm hoje a experiência da Petrobras na exploração de petróleo em águas profundas e ultraprofundas. E nenhuma empresa petrolífera conhece e é capaz de obter resultados tão expressivos em nossa plataforma submarina como ela. Trata-se de um ativo, de um patrimônio de enorme valor, que deve ser bem e de forma extraordinária aproveitado.

Por isso mesmo, a Petrobras terá um status especial no marco regulatório do pré-sal. Será a única empresa operadora nessa província. Outras empresas poderão ter participação, inclusive majoritária, nos consórcios que explorarão os blocos contratados. Mas a operação – vale dizer, a exploração, o desenvolvimento, a produção e a desativação das instalações – estará sempre a cargo da nossa querida e orgulhos Petrobras.

Além disso, as reservas do pré-sal, que pertencem ao Estado e ao povo brasileiro, oferecem uma excelente oportunidade para que a União fortaleça a Petrobras para enfrentar os novos desafios. Nesse sentido, estamos enviando projeto de lei ao Congresso Nacional autorizando a União a promover aumento de capital da companhia. O valor total do aumento de capital será aquilo que a ministra Dilma já falou, de até cinco bilhões de barris equivalentes de petróleo, obviamente, relativos às jazidas contíguas às áreas que a empresa já detém no pré-sal.

Nos termos da lei, os acionistas minoritários que desejarem participar dessa chamada de capital poderão adquirir ações da companhia, o que contribuirá para reforçar economicamente nossa maior empresa nesse momento decisivo.

Se os acionistas minoritários não exercerem integralmente seus direitos de opção, a capitalização promovida pela União implicará aumento da participação do povo brasileiro no capital total da Petrobras.

Minhas amigas e meus amigos,

Nesse momento em que o Brasil discute o melhor caminho para se tornar um grande produtor mundial de petróleo, quero render minhas homenagens a todos os brasileiros que lutaram para que este sonho se transformasse em realidade.

Em primeiro lugar, homenageio os que acreditaram quando era mais fácil descrer. E não deram ouvidos às aves de mau agouro que, durante décadas, apregoaram aos quatro ventos que o Brasil não tinha petróleo. Foram, por isso, chamados de fanáticos e maníacos. Ainda bem que houve fanáticos que nos ensinaram a duvidar dos preconceitos e a ter fé em nossas próprias forças.

Rendo minha homenagem também aos que se insurgiram contra a ladainha que proclamava que, mesmo que o Brasil tivesse petróleo, não teria competência para explorá-lo. E que deveria deixar essa tarefa para o capital estrangeiro. Muitos foram tachados de lunáticos, prisioneiros de uma idéia fixa, como o grande e saudoso Monteiro Lobato, porque teimaram em lutar para que o Brasil explorasse suas riquezas. Benditos lunáticos que ensinaram o país a enxergar longe, em tempos de escuridão, e iluminaram os caminhos dos que vieram depois.

Rendo minha homenagem ainda aos que saíram às ruas em todo o país na campanha do “O Petróleo é nosso”, levando o presidente Getúlio Vargas a instituir o monopólio estatal do petróleo e a criar a Petrobras. Foi uma batalha travada em condições duríssimas. Basta ler os jornais da época, alguns em circulação até hoje, que ridicularizavam a campanha nacionalista. E eu digo: bendito nacionalismo, que permitiu que as riquezas da nação permanecessem em nossas mãos.

Rendo homenagem muito especial, por fim, a todos os que defenderam a Petrobras quando ela foi atacada ao longo de sua história – e ainda hoje – e aos funcionários e petroleiros que se mantiveram de pé quando a empresa passou a ser tratada como uma herança maldita do período jurássico. Benditos amigos e companheiros do dinossauro, que sobreviveu à extinção, deu a volta por cima, mostrou o seu valor. E descobriu o pré-sal – patrimônio da União, riqueza do Brasil e passaporte para o nosso futuro.

Olho para trás e vejo que há algo em comum em todos esses momentos, algo que unifica e dá sentido a essa caminhada, algo que nos trouxe até aqui e ao dia de hoje: é, sinceramente, a capacidade do povo brasileiro de acreditar em si mesmo e no nosso país. Foi em meio à descrença de tantos que querem falar em seu nome... O povo – principalmente ao povo – devemos esse momento atual.

É como se houvesse uma mão invisível – não a do mercado, da qual já falaram tanto, mas outra, bem mais sábia e permanente, a mão do povo – tecendo nosso destino e construindo nosso futuro. Não creio que seja uma coincidência o fato de a Petrobras ter descoberto as grandes reservas do pré-sal justamente num momento da vida política nacional em que o povo também descobriu em si mesmo grandes reservas de energia e de esperança. Num momento em que o país, deixando para trás o complexo de inferioridade que lhe inculcaram durante séculos, aprendeu como é bom andar de cabeça erguida e olhar com confiança para o futuro.

Muito obrigado, companheiros.

Extraído de http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=114792&id_secao=1 acesso em 01 set. 2009.

A identidade fraterna da Primeira Ordem Franciscana hoje

Frei Adelmo Francisco Gomes da Silva, OFM
O status jurídico da identidade fraterna da Primeira Ordem Franciscana

Nas comemorações da “Graça das Origens” apresentamos esta pequena contribuição em favor da reflexão sobre a identidade fraterna da Primeira Ordem Franciscana.

Em primeiro lugar, faremos memória de dois documentos da Igreja sobre a Vida Consagrada, depois recordaremos os artigos das Constituições Gerais dos três ramos da Primeira Ordem sobre esta identidade fraterna, bem como as atuais normas da Igreja a respeito dos Institutos de Vida Consagrada. Em seguida, serão apresentados alguns passos dados até o presente pela Primeira Ordem dos Frades Menores, em favor do reconhecimento jurídico, por parte da Igreja, desta identidade. No fim, faremos algumas considerações sobre a Ordem dos Frades Menores.

Esperamos que o momento de expectativa em relação a esta temática seja também um tempo de graça em favor da atualização daquilo que é bom e próprio das origens de um dom do Senhor à sua Igreja. Que seja também um tempo fecundo para a Igreja na sua missão de anunciar ao mundo o Reino de Deus e sua justiça.

1. Documentos da Igreja sobre a Vida Consagrada

Dois documentos da Igreja, Perfectae Caritatis e Vita Consecrata, destacam o elemento da atualização da identidade de origem da Vida Consagrada e da sua sã tradição. Existe ainda, no entanto, um caminho a ser percorrido em direção a uma integral realização desta atualização nos assim chamados “Institutos Mistos”.

1.1 O decreto Perfectae Caritatis (1966)

Já se passaram 40 anos desde a promulgação do Decreto Perfectae Caritatis sobre a renovação da Vida Religiosa e tal decreto continua atual, uma vez que pede o retorno às fontes, à primeira inspiração dos institutos religiosos e ao mesmo tempo a adaptação dos mesmos às diferentes condições dos tempos, em favor de uma verdadeira renovação conduzida pelo Espírito Santo, sob a guia da Igreja.

O primeiro critério de renovação é a fundamental norma do “seguimento de Cristo”. Cada Instituto deve procurar viver a sua índole própria, tanto para o seu próprio bem como para o bem de toda a Igreja. Daí a importância de se reconhecer e fazer atuar fielmente o espírito e as finalidades próprias dos fundadores bem como as sãs tradições do próprio Instituto Religioso.
O Decreto fala também de Institutos não meramente laicais:

"Os mosteiros masculinos, porém, e os Institutos não meramente laicais, podem admitir, de harmonia com a sua natureza e segundo as próprias constituições, clérigos e leigos, que terão os mesmos direitos e os mesmos deveres, exceto naquelas coisas que provêm da Ordem sacra" (Perfectae Caritatis 15).

1.2 A Exortação Apostólica pós-sinodal Vita Consecrata (1996)

Um outro documento que pede a atualização do carisma dos Institutos de Vida Consagrada é a Exortação Apostólica pós-sinodal Vita Consecrata do santo padre João Paulo II sobre a Vida Consagrada e a sua missão na Igreja e no mundo. Eis o que diz o documento:

"Alguns Institutos religiosos, que, no projeto originário do fundador, se apresentavam como fraternidades, onde todos os membros, sacerdotes e não sacerdotes, eram considerados iguais entre si, com o passar do tempo adquiriram uma fisionomia diversa. Importa que estes Institutos chamados « mistos » ponderem, na base de um aprofundamento do próprio carisma de fundação, se seria oportuno e possível voltar à inspiração original. Os Padres sinodais formularam o voto de que, em tais Institutos, seja reconhecida a todos os religiosos, igualdade de direitos e deveres, exceto os que derivam da Ordem sacra. Para examinar e resolver os problemas conexos com esta matéria, foi instituída uma específica comissão, cujas conclusões convém esperar para se fazerem depois as opções convenientes segundo aquilo que for autenticamente estabelecido " (Vita Consecrata, 61).

Deste texto podemos concluir que:
a) a Igreja reconhece a existência de Institutos que se configuram como Fraternidade, nos quais todos os seus membros são considerados iguais entre si;
b) estes Institutos, chamados “mistos”, devem examinar se é oportuno e possível o retorno à inspiração original;
c) uma específica comissão foi instituída para examinar e resolver os problemas ligados a esta matéria.
1.3 A comissão para aprofundar a questão dos Institutos Mistos

A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica recebeu o encargo de aprofundar a questão da categoria dos Institutos mistos e uma comissão de religiosos foi constituída por esta Congregação. Esta se reuniu no dia 14 de novembro de 1995 e no final da reunião foi feita a promessa de que seria enviada a cada membro da comissão a contribuição dos outros membros.

Infelizmente, os membros da comissão não receberam aquilo que foi prometido. Parece que este encontro foi único, uma vez que não existem notícias de outros encontros com os representantes dos Institutos . Quanto à “específica comissão”, na tarefa de estudar o problema, até agora não nos foram dadas notícias do seu trabalho.

2. As atuais Constituições e o atual Código de Direito Canônico

O que dizem as Constituições Gerais de cada ramo da Primeira Ordem Franciscana sobre a identidade fraterna de sua respectiva Ordem? Parece ser claro que qualquer coisa não vai bem, uma vez que estas Constituições afirmam que tal Ordem é reconhecida pela Igreja como Instituto Clerical. O atual Código de Direito Canônico da Igreja não resolve este problema e assim, o processo não avança.

2.1 As Constituições Gerais: somos uma fraternidade

A Primeira Ordem dos Frades Menores nos seus três ramos se define essencialmente como uma Fraternidade. Vejamos o que dizem as Constituições Gerais em vigor.

As Constituições Gerais OFMConv, aprovadas no Capítulo geral de 1983 e confirmadas pela Santa Sé em 1984, no seu primeiro artigo afirmam que a Ordem, desde a sua fundação, pela vontade de São Francisco, é uma verdadeira fraternidade, e por isso todos os seus membros têm iguais direitos e deveres, exceto aqueles que provêem da ordem sagrada, uma vez que “nossa Ordem é inserida pela Igreja entre os Institutos clericais” (CCGG OFMConv 1984, Art 1, 2-3) .

As Constituições Gerais dos Frades Menores Capuchinhos afirmam: “constituímos verdadeiramente uma Ordem de irmãos” (Const. 83, 5-6). E como Ordem de irmãos, “segundo a vontade de são Francisco e a genuína tradição capuchinha, todos os irmãos de votos perpétuos podem assumir todos os ofícios ou cargos, excepto aqueles que provêem da Ordem Sagrada” (Const. 115,6). E acrescenta: “Tratando-se do cargo de Superior, requere-se, para a validade, que tenha pelo menos três anos de profissão perpétua” (Const. 115, 6).

As Constituições dos Capuchinhos, aprovadas em Capítulo Geral não foram ainda confirmadas pela Sé Apostólica porque esperam o seu reconhecimento da parte da Igreja como Ordem de Irmãos. A definição contida no documento Ordem de Irmãos , seria uma alternativa adequada às duas previstas no Código de Direito Canônico:

"O reconhecimento da Ordem como instituto “nem clerical, nem laical”, com todas as conseqüências, deriva do ser Fraternidade - querido por São Francisco - e dos motivos evangélicos que fundamentam a profissão de vida como irmãos" (Ordem de Irmãos 1, 8).

As Constituições Gerais dos Frades Menores, no seu texto final de 8 de dezembro de 2004, logo no primeiro artigo afirma: “a Ordem fundada por são Francisco de Assis, é uma Fraternidade” (CCGG OFM art. 1, 1). No Artigo três se lê que a Ordem dos Frades Menores é composta de frades clérigos e leigos e que “em força da profissão, todos os frades são verdadeiramente iguais nos direitos e nos deveres religiosos, excetuado aquilo que provém da Ordem sagrada. A Ordem dos Frades Menores pela Igreja é enumerada entre os institutos clericais” (CCGG OFM art. 3, 1-2).

2.2 A inexistência de normas para os “Institutos Mistos” no Código de Direito Canônico

Aos três ramos da Primeira Ordem franciscana a santa Sé pediu que constasse no texto das suas Constituições Gerais, o reconhecimento da Ordem pela Igreja como Instituto Clerical. Sem esta clara afirmação não seria possível aprová-las. Somente os Capuchinhos não colocaram esta afirmação nas suas Constituições, e por isso aguardam até hoje as mudanças jurídicas necessárias, por parte da Igreja.

De fato, afirma o Código de Direito Canônico da Igreja no seu cânon 588:
§ 1. El estado de vida consagrada, por su naturaleza, no es ni clerical ni laical.
§ 2. Se llama instituto clerical aquel que, atendiendo al fin o propósito querido por su fundador o por tradición legítima, se halla bajo la dirección de clérigos, asume el ejercicio del orden sagrado y está reconocido como tal por la autoridad de la Iglesia.
§ 3. Se denomina instituto laical aquel que, reconocido como tal por la autoridad de la Iglesia, en virtud de su naturaleza, índole y fin, tiene una función propia determinada por el fundador o por tradición legítima que no incluye el ejercicio del orden sagrado (CJC 588).

Não foi previsto no Código (1983), aquilo que no documento Vita Consecrata (25 de março de 1996) foi chamado “Instituto Misto”. Não existe, portanto, uma legislação adequada para os Institutos Religiosos que pertencem a esta categoria de Instituto. Para examinar e resolver este problema jurídico, a Exortação Apostólica Vita Consecrata indica o caminho com a nomeação de uma específica comissão, cujas conclusões convém esperar.

3. A Primeira Ordem Franciscana, uma Ordem de Irmãos

Os três ramos da Primeira Ordem Franciscana fizeram, deste o Vaticano II, passos significativos para a resolução deste problema. O momento atual é de expectativa, mas também de empenho a fim de tornar claro de modo definitivo a identidade e o carisma próprio da Ordem.

3.1 A Primeira Ordem Franciscana e o seu reconhecimento como Ordem de Irmãos

A Exortação Apostólica pós-sinodal Vita Consecrata veio num tempo em que a Ordem dos Frades Menores e a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos desde 1994 trabalhavam juntas, com base numa clara e óbvia identidade de visão .
Os três ramos da Primeira Ordem Franciscana e a Terceira Ordem Regular, por meio da Conferência dos Ministros Gerais da Primeira Ordem Franciscana e da TOR, começaram a trabalhar juntos nesta questão depois da promulgação da Exortação Apostólica Vita Consecrata de 1996.

Com uma carta de 30 de dezembro de 1997, Frei Agostinho Gardin OFMConv, presidente de turno da Conferência, comunicava a decisão dos Ministros de constituir uma Comissão Interfranciscana para o estudo da Ordem franciscana como “Instituto misto”. O estudo foi publicado pelos órgãos oficiais das respectivas Ordens e trata dos aspectos teológicos e jurídicos da Fraternidade franciscana .

A conclusão a respeito dos aspectos Teológicos é que “O acesso de todos os frades à responsabilidade do ministerium fratrum na Ordem nunca foi considerado uma simples reivindicação de direitos em nível humano ou um elemento meramente estrutural ou sociológico; foi proposto ao ‘Senhor Papa’ e vivido como necessária conseqüência da impostação evangélica da identidade dos frades menores segundo a vontade ou a intenção de Francisco Fundador” (Aspectos Teológicos, 4) .

No que diz respeito aos aspectos jurídicos: “todos os cargos e ofícios na Ordem, segundo a vontade ou a intenção fundacional de Francisco, foram igualmente acessíveis a todos os irmãos, independente do seu estado clerical ou laical, conquanto conferidos em base à idoneidade de cada um” (Aspectos Jurídicos, 4) .
E conclui, afirmando que do ponto de vista do direito, Francisco não disse nada formalmente sobre isso , mas “é possível afirmar que a Ordem franciscana, no momento da sua fundação, foi, de fato, um instituto misto, no sentido em que foi uma realidade existencial e efetiva na qual coexistiam irmãos sacerdotes (clérigos) e irmãos não sacerdotes (leigos)” .

“Quero que esta fraternidade seja chamada Ordem dos frades menores”. Eis a vontade de Francisco. Simplesmente frades e menores, sem discriminações e preferências por motivo das condições eclesiais da pessoa, que não entram na fórmula da profissão para a vida franciscana .

3.2 Somos uma Ordem de Irmãos, clérigos e leigos

Junto ao Relatório do Ministro Geral dos Capuchinhos para o Capítulo de 2000, foi apresentado o relatório do grupo de trabalho intitulado “Ordem de Irmãos”, sobre a Identidade Fraterna da sua Ordem . Aquilo que lemos no segundo parágrafo do primeiro capítulo é válido para toda a Primeira Ordem Franciscana:

"À luz de numerosas buscas, reflexões e experiências, conseguimos individualizar nos substantivos irmão e fraternidade o núcleo evangélico específico da forma de vida que o Altíssimo revelou a São Francisco e, conseqüentemente, a caracterizar-nos nitidamente - sem assumir nenhuma qualificação “clerical” ou “laical” - como uma Ordem de irmãos (Const. 83, 5 ss.; 115, 6); ou seja, uma Ordem na qual todos os seus membros, devido à mesma vocação religiosa, são iguais e chamados a realizarem-se, sem distinção, segundo a lei evangélica da caridade com chave fraterna: “vocês são todos irmãos” (Mt 23, 8; Rnb 22, 35). Neste sentido, São Francisco tinha compreendido intuitivamente muito bem a realidade teológica primordial do estado religiosos: algo que “não é por si mesmo, nem clerical, nem laical” (cân. 588, 1) .

Existe uma idéia comum que une os três ramos da Primeira Ordem Franciscana: a vontade, em base à sua identidade fraterna, de que esta Ordem seja catalogada entre os institutos “mistos”, ainda que a nomenclatura em questão precise ainda ser melhor definida. Portanto, se faz necessário esperar o trabalho da especifica comissão anunciada na Exortação Apostólica pós Sinodal Vita Consecrata n. 61. Infelizmente, já se passaram dez anos e não temos notícias verificáveis do seu trabalho.

Nos comunicados de maio de 2006 do Definitório geral OFM, consta a decisão de apresentar ao Santo Padre um pedido para que nossa Ordem seja considerada pela Santa Sé como um Instituto “misto”, uma vez que é composta de frades presbíteros e leigos. Este pedido será apresentado juntamente com os Frades Menores Conventuais e Capuchinhos. O comunicado termina afirmando que um semelhante pedido já tinha sido precedentemente apresentado pelos três ramos da Primeira Ordem .

Conclusão

Do que até agora foi apresentado sobre a identidade da Primeira Ordem franciscana como fraternidade de clérigos e leigos, chegamos às seguintes conclusões:
a) A atualidade do decreto Perfectae Caritatis do Vaticano II e a importância do número 61 da Exortação pós Sinodal Vita Consecrata, que fala dos Institutos chamados “mistos” e da instituição da uma específica comissão para estudar a identidade jurídica destes Institutos.
b) Clareza sobre a identidade fraterna de cada um dos ramos da Primeira Ordem Franciscana. Identidade garantida em uma única e mesma “regra e vida” e atualizada nas respectivas Constituições Gerais em conformidade com as sãs tradições de cada um destes ramos.
c) Unidade dos três ramos em não quererem ser catalogados entre os institutos clericais, mas “mistos” uma vez compostos de frades clérigos e leigos.
d) Situação de expectativa em relação ao trabalho da específica comissão pós sinodal para examinar e resolver a questão dos Institutos Mistos: como está sendo realizado o seu trabalho, a participarão dos Institutos que nesta categoria se identificam, as conseqüências jurídicas das suas conclusões.
É necessário crescer sempre mais no conhecimento de nossa identidade, de nossa vocação e da nossa missão na Igreja e no mundo, principalmente neste momento de celebração da Graça das Origens dos três ramos da Primeira Ordem Franciscana, legitimamente reconhecidos pela Igreja. Por isso é necessário dar um passo adiante para esclarecer melhor a nível teológico, o papel, a identidade e a missão de nossa Ordem no seio da Igreja.

Além disso e de um e de um autêntico empenho no viver o dom da fraternidade na minoridade, existe a necessidade da manifestação desta identidade também a nível jurídico, para superar a atual situação de discriminação, não na mentalidade, nem nas relações fraternas, mas nas leis em vigor, que impedem o acesso dos frades leigos ao serviço ordinário de guardiães e ministros. Tal discriminação não existe na Regra Bulada da Ordem , nem foi esta a intenção de Francisco de Assis.

O status da Ordem Franciscana como Ordem “mista” muito contribuirá, com certeza, para uma verdadeira e mais autêntica atualização do carisma franciscano, para a renovação da própria Igreja e para seu testemunho profético no mundo, enquanto comunidade de irmãos e irmãs na busca da realização da vontade do Pai.

Algumas considerações a respeito da OFM

Da parte da Ordem dos Frades Menores, o comunicado do pedido que foi apresentado juntamente com os Frades Menores Conventuais e Capuchinhos à santa Sé, pelo reconhecimento de nossa Ordem como Ordem “mista”, e em particular sobre o artigo 3 das nossas Constituições Gerais, foi uma tomada de posição do Governo Geral. Faz-se necessário, porém:
  • continuar a promover a reflexão sobre o tema,
  • tornar sempre melhor conhecidas as reflexões que já elaboramos e
  • manter informados os frades da Ordem sobre a relação com a Santa Sé.
Isto pode estimular o nosso avanço não somente em direção ao reconhecimento jurídico da Ordem como Ordem “mista”, mas também no processo formativo e na ação evangelizadora.

Uma vez que do Capítulo Geral de 2003 não saíram novas proposições sobre esta temática, continuam válidas e atuais as orientações e propostas sobre a identidade da Ordem como Instituto “misto” contidas no documento “Da Memória à Profecia” do Capítulo Geral da Ordem de 1997 e seria oportuno continuar a divulgá-las no sentido de favorecer o cultivo de nossa identidade fraterna, a animação e o discernimento vocacional e para cobrir a necessidade de mudança de mentalidade e superação de palavras e comportamentos que revelam a mentalidade clerical que vigora em nosso meio.

Pode acontecer que os frades de vocação laical continuarem a ser uma grande minoria em meio à totalidade dos irmãos na Ordem. Isto não seria um problema grave, desde que cada frade responda e viva com todo empenho a vocação à qual foi chamado. Isso também não impediria o empenho da Ordem por ser reconhecida pela Igreja como Ordem de Irmãos.

Na verdade, esta “identidade de irmãos” é uma questão de vocação tanto na sua dimensão institucional como na sua dimensão pessoal. Trata-se de um dom do Senhor à sua Igreja. É Ele quem deseja uma tal identidade de Vida Consagrada na Igreja e por isso continua chamando aqueles que quer para dar testemunho da fraternidade evangélica em Institutos Religiosos que, com a bênção e o reconhecimento da Igreja, manifestam este dom nas suas estruturas de governo.

Não é conveniente tratar este assunto como uma simples questão de opção institucional ou pessoal sem o fundamento evangélico vocacional. Não se trata de fazer uma sondagem para saber qual o desejo da maioria dos frades em relação a isso, mas de tomar consciência da beleza deste dom à Igreja, da necessidade de conhecê-lo sempre mais, de cultivá-lo, vivê-lo e anunciá-lo.
De fato, tratando-se do ministério de governo da fraternidade, esta é uma questão delicada. Porém, a Ordem pode e deve dar a sua contribuição na reflexão, pois professa uma Regra e Vida na qual o “ministério de governo da fraternidade” e o “ofício da pregação” podem ser exercidos legitimamente e com a bênção da Igreja por aqueles que o Senhor quer e chama para tais serviços, seja um irmão clérigo ou um irmão leigo.

O Vaticano II nos pede atualização do carisma e o documento Vita Consecrata indica o caminho. Enquanto aguardamos e colaboramos para o reconhecimento jurídico da identidade original da Ordem, façamos a nossa parte, tanto na formação como na evangelização, a fim de que sejamos verdadeiramente frades menores e como tais sejamos reconhecidos.

Que todo serviço prestado nesta causa seja conduzido pelo próprio Senhor e que a Ele retornem em ação de graças e louvor os frutos deste trabalho. A Ele seja toda a glória, a Ele que é o Sumo Bem e a quem é devido o reconhecimento de todo o bem.

Frei Adelmo Francisco Gomes da Silva ofm
Assis, 30 de setembro de 2006

Anexo

NOSSA IDENTIDADE COMO INSTITUTO "MISTO"
(Capítulo Geral OFM 1997. Da memória à profecia - Orientações e Propostas)


4. Nossa identidade como Instituto "misto"
23. A reconquista de nossa identidade como Fraternidade, na qual todos são e se chamam Irmãos, deve acontecer em nível de princípios, da legislação e da conscientização

1. Declaração de princípios

24. Considerando que a Congregação para os Institutos de Vida consagrada e as Sociedades de Vida apostólica admite a possibilidade de uma terceira categoria de Institutos, os "Institutos mistos", e considerando que a Exortação Apostólica pós-Sinodal Vita Consecrata, n. 61, convida os Institutos chamados "mistos" a avaliar, baseados no aprofundamento do próprio carisma fundacional, se é oportuno e possível voltar à inspiração originária, o Capítulo geral decide:

A Ordem dos Frades Menores, em virtude do carisma fundacional, declara ser um Instituto religioso "misto" (ou clerical e laical), constituído de irmãos clérigos e leigos.

«A Ordem dos Frades Menores, fundada por São Francisco, é uma Fraternidade» (CG 1 (section)1): portanto, todos os frades realmente são e se chamam irmãos, com iguais deveres e direitos, também quanto à possibilidade de assumir o cargo de guardião e ministro, ficando firme o princípio que os irmãos leigos deverão exercer por meio de sacerdotes da Ordem os atos que exigem Ordem sacra (cf. (RegB 7,2).

Os Ministros (Superiores maiores), clérigos ou leigos, governam "ad instar ordinariorum" com o poder que o Código de Direito Canônico concede aos Ordinários religiosos.

2. Modificação das Constituições gerais

25. Se a Santa Sé reconhecer a Ordem dos Frades Menores como Instituto "misto", o Capítulo geral propõe a mudança dos seguintes artigos das Constituições gerais:

Art. 3 (section)1: A Ordem dos Frades Menores compõe-se de irmãos, clérigos e leigos. Pela Profissão todos os irmãos têm absolutamente os mesmos direitos e obrigações religiosas, salvo os que provêm da Ordem sacra.

Art. 3 (section)2 novo: A Igreja inclui a Ordem dos Frades Menores entre os Institutos "mistos" de direito pontifício (A ser inserido se for necessário).

Art. 174: São Superiores maiores na Ordem: o Ministro geral, o Ministro provincial, o Custódio da Terra e seus respectivos Vigários.

Art. 174 (section)2 novo: Os Superiores maiores da Ordem, clérigos ou leigos, governam ad instar ordinariorum com o poder que o Código de Direito Canônico concede aos Ordinários religiosos.

Art. 174 (section)3 novo: Se o Ministro é leigo, para os atos que exigem Ordem sacra, deve designar um sacerdote da Ordem, de acordo com os Estatutos gerais.

3. Promoção da identidade da Ordem e da igualdade de todos os Frades

26. Considerando que a Ordem, como grande parte da vida religiosa, com o tempo, sofreu um forte processo de clericalização e considerando a urgência de promover nossa identidade e a igualdade de todos os irmãos, o Capítulo geral decide:

Para fomentar um maior aprofundamento de nossa identidade de Frades Menores e para promover a mudança de mentalidade e de certas estruturas, os Ministros e os Guardiães empreguem todos os meios de animação que nossa legislação lhes concede e cuidem de elaborar adequados programas de formação permanente.

Todos os Frades e todos os Ministros cuidem de, com atenção, apresentar claramente, na Igreja e na sociedade, a identidade da Ordem como Fraternidade e como Instituto misto, especialmente na pastoral vocacional, na formação franciscana e no serviço da evangelização.

Em toda a formação inicial seja prioritária a referência ao carisma franciscano e à natureza da Ordem.

No período da Profissão temporária seja reservado a todos os Frades, indistintamente, um tempo adequado, de ao menos um ou dois anos, dedicado exclusivamente à formação franciscana.

O serviço de evangelização, inclusive o tipicamente clerical como as paróquias, deve ser exercido de modo tal que apareça sempre a identidade dos Frades Menores.

A Ordem se esforce por introduzir os irmãos leigos no serviço da evangelização.


Frei Adelmo Francisco Gomes da Silva é Mestrando em Teologia Espiritual
Extraído de http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/artigos/artigo.asp?id=21 acesso em 01 set. 2009.

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