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quinta-feira, 23 de junho de 2016

EM BUSCA DA SANTIDADE...


EM BUSCA DA SANTIDADE

“Sede santos, assim como o vosso Pai do céu é Santo”. (Mt 5,48).

Às vezes pensamos que é muito difícil atingir esse grau de santidade que Jesus nos propõe; achamos que a santidade é própria dos santos e santas que já estão no céu. De fato, olhando a nossa condição de seres contingentes (limitados) perguntamos: Senhor, como ser santos num mundo como o nosso? Pois, eis como São Paulo o descreve: “Nota bem o seguinte: nos últimos dias haverá um período difícil. Os homens se tornarão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão a realidade. Dessa gente, afasta-te!” (2Tm 3,1-5).

Creio ser essa resposta do Senhor: “Meus filhos e filhas, não tenham como base de suas vidas os maus exemplos e os falsos testemunhos que vedes; pois quando olhais os pecados alheios e ficais só nisso, eles não servem para nada, mas se tirais daí uma lição, vereis que estou presente em todos os acontecimentos, porém, para vos ajudar a não cometerdes os mesmos delitos, mas sim para vos fazer crescer na graça e no conhecimento de minha misericórdia e do meu amor a fim de vos comunicar a minha santidade, “porque sem mim não podeis fazer”.” (Jo 15,5).

Ora, meditando sobre este imperativo divino: “Sede santos, assim como o vosso Pai do céu é Santo”, compreendemos que Jesus está nos dizendo que a santidade é própria de todos os filhos e filhas de Deus, renascidos “da água e do Espírito Santo”, quando fomos batizados. Aliás, essa verdade São João também nos deu a conhecer em sua Primeira Carta: “Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato. Por isso, o mundo não nos conhece, porque não o conheceu. Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é. E todo aquele que nele tem esta esperança torna-se puro, como ele é puro”. (1Jo 3,1-3).

Logo, ser santos é sermos aquilo que já somos por fazermos parte do Povo de Deus, a Santa Igreja, Corpo de Cristo (cf. Cl 1,18), parte visível do Reino de Deus neste mundo. Para isto o Senhor nos pede que vivamos como ele viveu (cf. 1Jo 2,3-6); ou ainda, como escreveu São Paulo na sua Carta aos Efésios: “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados. Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo, que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor”. (Ef 5,1-2).

Por isso, precisamos deixar de lado tudo o que não nos convém, como ele acrescenta: “Quanto à fornicação, à impureza, sob qualquer forma, ou à avareza, que disto nem se faça menção entre vós, como convém a santos. Nada de obscenidades, de conversas tolas ou levianas, porque tais coisas não convêm; em vez disto, ações de graças. Porque sabei-o bem: nenhum dissoluto, ou impuro, ou avarento - verdadeiros idólatras! - terá herança no Reino de Cristo e de Deus. E ninguém vos seduza com vãos discursos. Estes são os pecados que atraem a ira de Deus sobre os rebeldes. Não vos comprometais com eles”. (Ef 5,3-7).

Por fim, meditemos com São Pedro sobre santidade de nossa vida quando dos últimos acontecimentos desta vida: “Entretanto, virá o dia do Senhor como ladrão. Naquele dia os céus passarão com ruído, os elementos abrasados se dissolverão, e será consumida a terra com todas as obras que ela contém. Uma vez que todas estas coisas se hão de desagregar, considerai qual deve ser a santidade de vossa vida e de vossa piedade, enquanto esperais e apressais o dia de Deus, esse dia em que se hão de dissolver os céus inflamados e se hão de fundir os elementos abrasados! Nós, porém, segundo sua promessa, esperamos novos céus e uma nova terra, nos quais habitará a justiça. Portanto, caríssimos, esperando estas coisas, esforçai-vos em ser por ele achados sem mácula e irrepreensíveis na paz”. (2Pd 3,10-14).

Destarte, a santidade é a plenitude de todas as virtudes, ela é o nosso passaporte para o céu, pois Cristo Jesus, o Filho de Deus, veio para nos comunicar sua Santidade, porque “sem ela ninguém poderá ver a Deus” (cf Hb 12,14). Desse modo, ser santo é a vocação primordial de todos os filhos e filhas de Deus. Porquanto: “Cingi, portanto, os rins do vosso espírito, sede sóbrios e colocai toda vossa esperança na graça que vos será dada no dia em que Jesus Cristo aparecer. À maneira de filhos obedientes, já não vos amoldeis aos desejos que tínheis antes, no tempo da vossa ignorância. A exemplo da santidade daquele que vos chamou, sede também vós santos em todas as vossas ações, pois está escrito: ‘Sede santos, porque eu sou santo’ (Lv 11,44)”. (1Pd 1,13-16).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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sábado, 26 de março de 2016

"HOJE MESMO ESTARÁS COMIGO NO PARÍSO"


O ÚLTIMO DOM: “HOJE MESMO ESTARÁS COMIGO NO PARAÍSO”

Hoje, Senhor, contemplamos a tua ressurreição depois de ver as injustiças cometidas contra ti e contra os que te seguem. Ora, quem vive no pecado enxerga tudo a partir do pecado que comete; e mesmo, tendo a noção do que é justo, contradiz a própria consciência, por instigação do inimigo escondido no pecado que carrega na alma, pois a alma é o lugar onde os pecados cometidos ficam gravados; como também do inimigo causador da perdição dos que o seguem. De fato, os que vivem metidos no pecado se tornam cegos espirituais, que nada enxergam além da culpa nos outros; mesmo que estes sejam inocentes; é uma espécie de projeção, projetam nos outros o que carregam na alma.

Aqui estou Senhor, constatando que com tua morte e ressurreição venceste o pecado, venceste o diabo, causador do pecado, e todos os males que o pecado traz. Pois essa realidade maléfica que nos cerca, tem sua causa nos pecados cometidos, dando lugar ao inimigo que age na mente de seus seguidores, de uma forma tão visível que não podemos negar. No entanto, tua misericórdia sobrepõe a tudo e a todos os males, pois, o que seria dos injustiçados se tu não lhes desse o teu amparo? E o que seria dos injustos se tu não lhes oferecesse a tua divina misericórdia? Estou por vê alguém igual a ti, Senhor. Alguém que se compadeça dos pecadores, porque tem a solução que os torna dignos da vida eterna por pura misericórdia.

Sim, Senhor, tua vitória sobre o mal é incontestável, pois em teu infinito amor, és misericordioso com todos os pecadores; e, mesmo sofrendo as agruras que te causaram e aos teus, não queres que se perca nenhum daqueles por quem deste a vida, ou seja, os que estavam perdidos, para os quais viestes (cf. Mt 18,11). Pois assim como deste o perdão aos teus algozes, continuas perdoando todos os pecadores arrependidos que buscam a tua divina misericórdia por meio de tua Santa Igreja, no sacramento da reconciliação, porque somente por tua misericórdia somos capazes de ascender contigo ao infinito amor do Pai. Pois “o amor de Deus é um amor sem medida, chamado misericórdia”.

Portanto, não cheguemos a Deus sem Deus, mas profundamente arrependidos, pois é no arrependimento que o encontramos e nos reconciliamos com Ele, que nos ama como a filhos e filhas destinados ao Reino dos Céus, morada definitiva dos redimidos pelo sangue precioso de Cristo Jesus, Filho amado Deus. Assim sendo, compreendemos que o arrependimento é o último dom que Deus deu ao ser humano, como vimos no facínora pregado na cruz ao lado de Cristo, que arrependido, disse: “Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino”; ao que o Senhor respondeu: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”.

Feliz Páscoa!

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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quinta-feira, 10 de março de 2016


A MARCANTE EXPERIÊNCIA DE DEUS…

Fazer a experiência de Deus é viver uma interação real com Ele. Não é apenas um contato com Deus, mas um encontro permanente, pois quem encontra o Senhor jamais poderá esquecê-lo; e mesmo que o queira, não consegue, porque esse encontro é tão marcante e maravilhoso que é impossível negá-lo. Ora, tudo o que vivemos e fazemos fora da graça de Deus é perda, porque o viver humano sem a experiência da graça divina é um caos que termina com uma morte angustiante, sem esperança alguma. Dante Alighieri, no seu Poema A Divina Comédia, escreveu na porta do inferno o seguinte: “Deixe fora toda esperança”. Imagina, uma vida sem esperança não é vida, é um tormento eterno. Deus nos livre disso e de todo o mal.

De fato, quando temos esse encontro com Deus, por exemplo, no santo batismo, a primeira experiência que fazemos é a da ressurreição, como bem mencionou são Paulo, na sua carta aos Romanos: “Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova”. (Rm 6,4-5). Ressuscitar com Cristo é experimentar o resultado de sua doação total ao Pai por nós, pois ninguém amou mais o Pai e a nós do que Jesus ao se deixar crucificar, derramando todo o seu sangue em expiação dos nossos pecados.

Nas mais diversas religiões, os homens buscam encontrar um ser supremo; já no cristianismo se dá um fenômeno novíssimo, pois é Deus quem vem ao nosso encontro, enviando o seu Filho Jesus Cristo, e por ele nos resgata de nosso nada, descendo e assumindo o nosso nada. Essa verdade encontramos no ensinamento de são Paulo aos Efésios e que assumimos como graça santificante do amor de Deus por nós, vejamos: “E vós outros estáveis mortos por vossas faltas, pelos pecados que cometestes outrora seguindo o modo de viver deste mundo, do príncipe das potestades do ar, do espírito que agora atua nos rebeldes.

Também nós todos éramos deste número quando outrora vivíamos nos desejos carnais, fazendo a vontade da carne e da concupiscência. Éramos como os outros, por natureza, verdadeiros objetos da ira (divina). Mas Deus, que é rico em misericórdia, impulsionado pelo grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos em consequência de nossos pecados, deu-nos a vida juntamente com Cristo – é por graça que fostes salvos! -, juntamente com Ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus, com Cristo Jesus. Ele demonstrou assim pelos séculos futuros a imensidão das riquezas de sua graça, pela bondade que tem para conosco em Jesus Cristo”. (Ef 2,1-7).

Com efeito, depois de tudo o que meditamos, precisamos entender também que essa graça do encontro permanente com o Senhor, nos leva a vivermos uma profunda experiência de amor e intimidade com Ele; mais ainda, é uma relação paternal filial, ou seja, é Deus que nos trata como filhos e filhas que voltam ao seu convívio, à sua casa, para assumirmos nossa herança eterna, perdida com o pecado e agora recuperada por sua divina misericórdia.

Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos. Vós sois meus amigos, se fazeis o que vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai”. (Jo 15,12-15). “Vede com que amor o Pai nos amou, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato. Por isso, o mundo não nos conhece, porque não o conheceu. Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que haveremos de ser. Sabemos que quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como Ele é. E todo aquele que nele tem esta esperança torna-se puro, como ele é puro”. (1Jo 3,1-3).

Portanto, mesmo sabendo que os nossos dias estão contados, acendamos ainda mais a chama do amor incondicional ao nosso Pai do céu, por nos ter dado a vida eterna por meio de Seu Filho Jesus Cristo, Senhor e Salvador de nossas almas e de toda a criação; e façamos da esperança nossa bandeira triunfal na expectativa da vinda gloriosa do Senhor, que despontará nos céus com os seus anjos para julgar os vivos e mortos, e o seu reino não terá fim. A Ele toda honra, toda glória, todo poder e todo louvor, agora e por toda a eternidade, amém!

“Aquele que atesta estas coisas diz: 'Sim! Eu venho depressa!' Amém. Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20).

“A graça do Senhor Jesus esteja com todos.” (Ap 22,21).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

CONVERSÃO, URGENTE E NECESSÁRIA PARA A SALVAÇÃO...


CONVERSÃO, URGENTE E NECESSÁRIA PARA A SALVAÇÃO...

Quando nas pegadas do tempo,
lá pelas tantas de minha vida...
Eu te encontrei ó Jesus...
Depois de ter experimentado as dores do pecado,
vi que o diabo se esconde nele...
E por isso não quis mais pecar...
Porque ao Ti encontrar, Senhor...
Experimentei em teu amor,
a dor de não ter te seguido,
como fora estabelecido no santo batismo que de ti recebi...

Agora, arrependido de tudo o que fiz longe do teu amor...
Aqui estou para te dizer sim, mas um sim tão autêntico...
que nada e ninguém neste mundo possa tirá-lo de mim...
Porque, nas lições da vida aprendi que dependo cem por cento de ti...
E assim, só quero ser fiel, devotar-me totalmente à missão...
De testemunhar a tua ressurreição,
vivendo a eternidade que nela recebi...

Mas, Senhor, infelizmente, são tantos e tantos...
os que continuam fazendo da ignorância e do pecado,
um estado mórbido e desvairado de vida infernal...
Por isso, fazem tanto mal com as próprias palavras...
Tendo o inimigo nelas, tornam-se seus porta vozes...
Com blasfêmias e sarcasmos, coisas mesmo do diabo,
a quem servem em seus livres-arbítrios...

E o que dizer, Senhor, de tudo isso?
Creio que não estão percebendo o abismo no qual estão caindo,
se afastando de tua divina misericórdia...
Que os espera e conforta,
quando arrependidos voltam ao teu convívio, Jesus...
Pois, o teu sacrifício de cruz, é a grande prova de amor...
Que a humanidade recebeu, para ter a vida eterna, o céu...
Que preparaste para aqueles que te amam...

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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domingo, 7 de fevereiro de 2016

"PORQUE A BOCA FALA DO QUE LHE TRANSBORDA DO CORAÇÃO"


 “PORQUE A BOCA FALA DO QUE LHE TRANSBORDA DO CORAÇÃO”

Que mais posso dizer se o mundo fala, fala, fala...
e não diz coisa com coisa?
É inútil falar por falar...
É inútil tagarelar à toa...
É inútil zoar e pensar que seja sensatez...

Por sua vez,
É preciso que aprendamos:
As palavras ditas são eternas...
Por isso, podem ser retiradas ou não...
Porque elas são ondas sonoras
em busca da imensidão,
gravadas em nosso coração
e no coração da eternidade....
Pelas quais haveremos de prestar contas...

Com efeito, o Espírito do Senhor enche o universo,
e Ele, que tem unidas todas as coisas, ouve toda voz.
Aquele que profere uma linguagem iníqua, não pode fugir dele,
e a Justiça vingadora não o deixará escapar;
pois os próprios desígnios do ímpio serão cuidadosamente examinados;
o som de suas palavras chegará até o Senhor,
que lhe imporá o castigo pelos seus pecados”.

É, com efeito, um ouvido cioso, que tudo ouve:
nem a menor murmuração lhe passa despercebida.
Acautelai-vos, pois, de queixar-vos inutilmente,
evitai que vossa língua se entregue à crítica,
porque até mesmo uma palavra secreta não ficará sem castigo,
e a boca que acusa com injustiça
arrasta a alma à morte”. (Sab 1,7-11).

Quem dentre vós é sábio e inteligente?
Mostre com um bom proceder
as suas obras repassadas de doçura e de sabedoria.
Mas, se tendes no coração um ciúme amargo
e gosto pelas contendas, não vos glorieis,
nem mintais contra a verdade.
Esta não é a sabedoria que vem do alto,
mas é uma sabedoria terrena, humana, diabólica”.

Onde houver ciúme e contenda,
ali há também perturbação e toda espécie de vícios.
A sabedoria, porém, que vem de cima,
é primeiramente pura, depois pacífica, condescendente,
conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos,
sem parcialidade, nem fingimento.
O fruto da justiça semeia-se na paz
para aqueles que praticam a paz”. (Tia 3,13-18).

Por isso, “Nenhuma palavra má saia da vossa boca,
mas só a que for útil para a edificação,
sempre que for possível, e benfazeja aos que ouvem.
Não contristeis o Espírito Santo de Deus,
com o qual estais selados para o dia da Redenção”.

Toda amargura, ira, indignação, gritaria e calúnia
sejam desterradas do meio de vós, bem como toda malícia.
Antes, sede uns com os outros bondosos e compassivos.
Perdoai-vos uns aos outros,
como também Deus vos perdoou, em Cristo”. (Ef 4,29-31).

Assim, meus caríssimos,
vós que sempre fostes obedientes,
trabalhai na vossa salvação com temor e tremor...
Porque é Deus quem, segundo o seu beneplácito,
realiza em vós o querer e o executar.
Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas,
a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes,
filhos de Deus íntegros
no meio de uma sociedade depravada e maliciosa,
onde brilhais como luzeiros no mundo,
a ostentar a palavra da vida”. (Fil 2,12-16a)

Visto que,
Ou dizeis que a árvore é boa e seu fruto bom,
ou dizeis que é má e seu fruto, mau;
porque é pelo fruto que se conhece a árvore.
Raça de víboras, maus como sois,
como podeis dizer coisas boas?
Porque a boca fala do que lhe transborda do coração”.

O homem de bem tira boas coisas de seu bom tesouro.
O mau, porém, tira coisas más de seu mau tesouro.
Eu vos digo: no dia do juízo os homens prestarão contas
de toda palavra vã que tiverem proferido.
É por tuas palavras que serás justificado ou condenado”. (Mt 12,33-36).

Portanto...
Não procureis a morte por uma vida desregrada,
não sejais o próprio artífice de vossa perda.
Deus não é o autor da morte,
a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma.
Ele criou tudo para a existência,
e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação.
Nelas nenhum princípio é funesto,
e a morte não é a rainha da terra, porque a justiça é imortal.
Mas, (a morte), os ímpios a chamam com o gesto e a voz.
Crendo-a amiga, consomem-se de desejos, e fazem aliança com ela;
de fato, eles merecem ser sua presa”. (Sab 1,12-16).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Chiara Frugoni, o de Giotto não é Francisco

Canonização de Francisco / Giotto. Basílica Superior
"Chiara Frugoni não se limita às histórias de São Francisco, e submete a uma análise fechada e escrupulosa toda a decoração da igreja, começando pela área onde se iniciaram os trabalhos, no transepto direito, a partir das obras do jovem Giotto", escreve Marco Mascolo, em artigo publicasdo por Il Manifesto, 27-12-2015. A tradução é de Ivan Pedro Lazzarotto.

Eis o artigo.

A Basílica de São Francisco de Assis, grandioso complexo cultural que detém algumas das mais nobres apreciações da arte ocidental, desperta há muito tempo a atenção de estudiosos de vários tipos, dos historiadores da arte aos historiadores tout court. Os primeiros sinais do conflito que, desde que Francisco ainda estava vivo, começou a dividir a nova Ordem ainda podem ser encontrados na divisão das duas igrejas: a Superior, destinada a abrigar os religiosos da nova Ordem e os fiéis, com um papel mais oficial e mais público com relação a Inferior, com o seu ambiente acolhedor e propício a oração dos peregrinos.

O problema da apropriação e da formalização de uma mensagem um tanto explosiva como aquela de São Francisco de Assis ter encontrado uma das suas maiores expressões pintada próxima à superfície da Basílica Superior. Muito mais do que os memorandos papais, dos tratados destinados a interpretar a vida de Francisco ou as biografias do santo, as imagens tiveram um papel extraordinário para afirmar e estabelecer somente uma imagem única e original do santo.

No seu recente trabalho, Chiara Frugoni aborda e defronta estes problemas. Desde o título, Qual Francisco? A mensagem escondida nos afrescos da Basílica superior de Assis (Einaudi, 612 p., 222 ilustrações), se torna claro o objetivo do grande volume: qual foi o Francisco que se deseja promover das paredes da Basílica de Assis? O pobre frei ascético que pregava a renúncia aos bens materiais e tentava redefinir as relações entre a Igreja de Roma e os fiéis? Ou um Francisco cuja mensagem foi atenuada e de certa forma “adocicada” frente ao rigor inicial, capaz agora de ser absorvido no interior dessa própria Igreja?

A pesquisadora já estava concentrada no seu Francisco e a invenção dos estigmas (Einaudi, 1993), sobre os fatos que levaram a Igreja a se apropriar da mensagem repleta de elementos subversivos tanto para a autoridade pontifícia quanto para sua hierarquia, dos freis da Ordem franciscana. Uma nova Ordem, cuja obediência era devida somente ao sumo Pontífice e que saía, então, da jurisdição dos bispos. Detalhe este que desencadeou uma verdadeira batalha ao som de textos e, como era de se esperar, de imagens.

Este processo, longo e acidentado, vê uma primeira, e substancial, vitória para Roma ao afirmar, em 1266, a Legenda Maior de São Boaventura como única biografia oficial do santo, com a consequente destruição de outras biografias de Francisco, iniciando pela de Tomás de Celano. Exatamente sobre a base de Boaventura, teria sido elaborado o programa iconográfico das histórias do santo na Basílica superior, adornando com afrescos as paredes da nave central no registro mais baixo e, assim, próximo ao olhar dos fiéis.

Mas, dessa vez, Chiara Frugoni não se limita às histórias de São Francisco, e submete a uma análise fechada e escrupulosa toda a decoração da igreja, começando pela área onde se iniciaram os trabalhos, no transepto direito, a partir das obras do jovem Giotto. A pesquisadora rastreia as referências contidas presentes nos afrescos, questiona as razões para as correspondências das cenas pintadas entre as diversas paredes da nave. A narração bíblica procede de cima para baixo: inicia com a Criação, atravessando as histórias do Antigo e do Novo Testamento, chegando por fim na vida de São Francisco. Uma história, porém, naquele momento, bonificada e mitigada, perfeitamente alinhada com as orientações e exegeses propostas por São Boaventura na sua Legenda Maior.
A estrutura do livro de Frugoni, substancialmente bipartida, permite a aproximação às pinturas em Assis com uma instrumentação não usual. E muitas são as personalidades que ao se aproximar das páginas do livro – por teólogos eruditas como Gerardo de Borgo San Donnino ou Guglielmo di Sant’Amore até o herege Joaquim de Fiore, sem esquecer de mencionar os papas e cardeais -, dentre estes um com papel especial oportunamente valorizado, Jerônimo de Ascoli, Ministro Geral da Ordem na década de 1270, que se torna Nicolau IV, primeiro papa franciscano a subir ao trono de Pedro em 1288.

Após cinco capítulos, que seguem envoltos em profundas controvérsias desencadeadas dentro e fora da Ordem Franciscana – e basta mencionar um bom capítulo, o terceiro volume, sobre lutas para tomar as habituais classes da Universidade de Paris, ou aqueles frades que seguiam uma regra, como os franciscanos e dominicanos, e leigos que, ao contrário dos primeiros, não seguiam ordens -, a autora conduz o leitor dentro da Basílica e, com paciência, se dedica à análise de cada uma das cenas, dos seus significados, do seu sentido, à luz dos mesmos instrumentos que apresentou ao leitor nos capítulos precedentes.

A necessidade de “amenizar” a mensagem de São Francisco envolveu a atuação da Cúria Pontifícia, em uma série de contramedidas que neutralizassem a força, de fato explosiva, do seu ensinamento. O livro permite mergulhar nos processos dos quais as obras trazem uma forte mensagem ideológica e se transformam em precursores de valores bem precisos. Ao longo do tempo, o passar dos séculos amenizou, com sempre acontece, os aspectos mais controversos dessas operações, mas as páginas da Frugoni, com a sua visão histórico-iconográfica, permitem de recuperá-las ao vivo.

A pesquisadora avalia posteriormente as datas impressas nas pinturas, voltando aos trabalhos de decoração da Basílica Superior nos últimos anos do século XIII. Essa ideia vale frisar, foi apoiada primeiramente por Luciano Bellosi. Cabe a ele de fato, referindo-se a um estudo de Hans Belting de 1977 (que seria verdadeiramente o caso de traduzir ao italiano), ter reconduzido a essa datação toda a decoração da Basílica, contendo as Histórias de São Francisco, obra de Giotto. Bellosi argumentou a sua intuição com muitos detalhes em 1985 (entre outros, exatamente neste ano foi publicado novamente o seu livro, A ovelha de Giotto) e em 1998.
Mas exatamente sobre um problema de datas, talvez, seria necessário discutir com os posicionamentos da Frugoni quando, um pouco nítido demais, afirma que os afrescos de Cimabue na abside e no transepto seria obra de 1270, e não, como sustenta Bellosi, cuja posição não é única, em anos não distantes do papado de Nicolau IV, que reinou como pontífice de 1288 a 1292. Além de determinados aspectos, porém, sobre os quais é necessário voltar com a devida dimensão, Frugoni reconhece – e isso é uma peça chave – a forte unidade do programa iconográfico, o objetivo de dotar a igreja mãe da Ordem com uma decoração à altura do prestígio do local, alinhado com as intuições e as pesquisas de Bellosi.

Tirando o fato de que não é uma leitura fácil, mas, certamente apaixonante, o leitor chega ao passado longínquo e pode alcançar uma série de nuances que caracterizavam o debate teológico daqueles anos sobre o problema, por exemplo, dos estigmas e de como tratar o milagre surpreendente concedido a São Francisco na história milenar da Igreja. Mas o debate assumia também conotações estritamente políticas, onde um dos governantes mais potentes do mundo, o papa, via uma forte ameaça a sua autoridade por parte de Francisco e seus seguidores.

Muitas são as ilustrações que acompanham o texto e que permitem que se siga, acima de tudo na segunda parte do volume, o raciocínio de Chiara Frugoni. Um livro que deveria fazer refletir, ainda, sobre temas tão atuais e tratados de uma forma inadequada, como o poder que as imagens guardam no seu uso ideologicamente orientado.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Quem tem medo do irmão Francisco?


por Alessandro Barbero

Os primeiros freis estavam duramente divididos sobre quem era realmente o fundador e, consequentemente, sobre qual Francisco devia ser representado nos afrescos da basílica de Assis. Como era possível representar aquele homem atormentado e o seu projeto de absoluta pobreza, sem embaraçar aquilo em que a Ordem tinha se tornado?

A opinião é do historiador italiano Alessandro Barbero, professor da Universidade do Piemonte Oriental, em artigo publicado no jornal La Stampa, 15-12-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O sonho de Inocêncio III [Detalhe] / Giotto.
Basílica Superior de S. Francisco (Assis, Itália)
Em 1220, seis anos antes de morrer, Francisco de Assis abandonou a direção da Ordem Franciscana, em polêmica muito dura com uma organização que escapava da sua mão e que não se assemelhava mais, senão como uma caricatura, ao movimento que ele tinha sonhado em fundar.

O pequeno grupo de companheiros tinha crescido para além de todas as previsões; a pobreza tinha se tornado um símbolo e não uma prática de vida, os freis viviam em espaçosos conventos, em vez de dormir na estrada, ninguém mais falava sobre ganhar a vida trabalhando, sandálias confortáveis tinham substituído os pés descalços dos Apóstolos.

Pior: o sucesso do movimento tinha lotado as comunidades franciscanas de pessoas influentes e ambiciosas, escanteando para as margens os pobres e os ignorantes. Francisco desconfiava daqueles que estudavam, convencido de que a doutrina torna a pessoa presunçosa e não é compatível com a pobreza – muito menos em um mundo onde um livro custava o equivalente a milhares de euro.

Ele era um leigo e sonhava com um movimento de leigos; e, quando uma velha mulher, mãe de um dos freis, veio lhe pedir uma ajuda, ele ordenou a vender o único Evangelho que possuíam: Deus, garantiu ele aos freis estupefatos, ficará muito mais contente ao ver que ajudamos "a nossa mãe" do que ao nos ver lendo o Evangelho.

Mas grande parte dos freis já usava a lúcida tonsura que indicava a pertença ao clero e a separação da plebe analfabeta. Por isso, Francisco renunciou e, nos seis anos que lhe restavam, combater uma cansativa batalha, aceitando os compromissos da Regula bullata – a única versão do seu programa que obteve uma aprovação escrita pelo papa – e, depois, redigindo um testamento que repropunha regras mais severas e obrigava os freis a observá-las sem introduzir nelas qualquer mudança.

Apenas quatro anos depois da morte, o corpo do santo havia sido transladado com grande pompa para a nova basílica de Assis, e o papa providenciava anular o seu testamento, declarando que os freis não eram obrigados a observá-lo.

A biografia reescrita

Chiara Frugoni, que há muitos anos vive na intimidade de Francisco e perscrutou cada centímetro dos afrescos de Assis, acaba de publicar pela editora Einaudi um livro extraordinário (Quale Francesco? Il messaggio nascosto negli affreschi della Basilica superiore ad Assisi [Qual Francisco? A mensagem escondida nos afrescos da Basílica superior em Assis], 608 páginas, 222 a cores), em que parte de uma pergunta muito simples: por que as paredes da basílica superior, destinada às reuniões dos freis, foram afrescadas apenas meio século depois, por Cimabue e depois por Giotto? Por que, em um mundo onde cada superfície de muro, se apenas houvesse os meios, era coberta com afrescos, aquelas paredes permaneceram nuas por tanto tempo?

A resposta é que os freis estavam duramente divididos sobre quem era realmente o fundador e, consequentemente, sobre qual Francisco devia ser representado. Como era possível representar aquele homem atormentado e o seu projeto de absoluta pobreza, sem embaraçar aquilo em que a Ordem tinha se tornado?

Mas não era possível nem mesmo censurá-lo, porque ainda havia muitos freis que recordavam o movimento das origens e o sentiam a sua falta no seu coração. Naqueles anos, aqueles que receberam o encargo de escrever a Vida do santo experimentaram plenamente a contradição: como Tomás de Celano, continuamente solicitado a modificar e a reescrever e acrescentar, tanto que, no fim, desabafou: "Não podemos produzir coisas novas todos os dias, nem mudar em redondo aquilo que é quadrado". Por isso, as paredes da basílica superior permaneceram despojadas.

Alter ego de Cristo

A virada decisiva, como demonstrou Chiara Frugoni no passado, ocorreu com o generalato de Boaventura de Bagnoregio, que, na Legenda Maior, ditou a versão definitiva da vida de Francisco, transformando o fundador em um alter ego de Cristo: mais divino do que humano, como demonstravam os estigmas e, portanto, por definição, inimitável.

Em boa medida, o Capítulo Geral ordenou a destruição das Vidas anteriores; só muito poucos manuscritos sobreviveram a essa medida stalinista, para serem redescobertos entre os séculos XIX e XX.

Agora, a estudiosa foi mais longe: Boaventura não propôs apenas uma nova imagem de Francisco, mas também uma nova interpretação da Ordem Franciscana e do seu destino providencial.

Utilizando os escritos proféticos de Joaquim de Fiore, o ministro geral explicou que Francisco havia sido um precursor: ele, sim, havia realizado uma vida inspirada no Evangelho, mas os tempos não estavam maduros para que o mundo o seguisse. Esses tempos chegariam, mas só Deus sabia quando; enquanto isso, os freis tinham que se preparar, estudar e rezar, sem esperar implementar logo, prematuramente, o desígnio divino prefigurado por Francisco.

Sem traí-lo totalmente

Somente quando essa interpretação se impôs é que foi possível encomendar os afrescos para a basílica superior e inserir neles uma infinidade de detalhes eloquentes, dos quais todos os dignitários da Ordem, na época, captariam o significado, e que para nós, hoje, escapariam completamente, se não houvesse Chiara Frugoni para nos assinalá-los.

Tornou-se possível representar Francisco sem traí-lo totalmente, de pés descalços e com a barba dos leigos, e em torno dele os freis calçados e raspados, em saios amplos e cômodos, e às vezes até com um livro nas mãos: sem escândalo, porque Francisco, como o Anjo do Apocalipse, profetizara um futuro que ainda não tinha se cumprido.

Boaventura tinha descoberto uma verdade que, muitos séculos depois, seria redescoberta pelos dirigentes da União Soviética: é mais fácil anunciar às pessoas que o paraíso está previsto para um futuro não muito longe, em vez de declará-lo já realizado aqui e agora.

Com esse livro, Chiara Frugoni não apenas escreveu uma página nova na história da Ordem Franciscana, mas também ampliou a nossa compreensão do pensamento e da mentalidade medievais.

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