Altíssimo e glorioso Deus,
ilumina as trevas do meu coração!
Dá-me, Senhor,
uma fé reta,
uma esperança certa
e uma caridade perfeita,
senso e conhecimento
para que realize
Teu santo e veraz mandato.
Amém!

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Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

São Francisco de Assis : biografia

VIDA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS

SUA ORIGEM
São Francisco nasceu no ano de 1181 ou 1182, em Assis, na Itália. A data exata não se sabe. Ao ser batizado, ele recebeu da mãe o nome de João. Na Idade Média, o nome João ou Joana, por uma grande devoção a São João Batista, era muito popular. Havia também o costume de, às vezes, a pessoa trocar de nome e o nome de batismo ficar esquecido. Foi o que aconteceu com Francisco de Assis. Ele recebeu, no Batismo, o nome João. Porém, o seu pai, Pedro di Bernardone, por gostar muito da França, onde fazia bons negócios, comprando tecidos para vender em Assis, não estando presente na ocasião do seu Batismo, mudou o nome de João para Francisco, prevalecendo este nome. Coisa parecida aconteceu com o nome da mãe de São Francisco: nós a conhecemos pelo nome de Pica, mas é porque ela nasceu numa região da França chamada Picardia. O seu nome era Joana. Francisco teve também um irmão, chamado Ângelo, de quem pouco se sabe.

FRANCISCO VAI À GUERRA
No ano de 1198, houve um conflito em Assis: a nobreza feudal, detentora do poder econômico e político, contra os comerciantes, classe emergente que lutava por seus direitos. O pai de Francisco fazia parte desta classe.
O conflito foi assim: os comerciantes entraram em Assis, destruíram uma fortaleza, chamada Rocca Maggiori, símbolo do poder da nobreza feudal, e, com as pedras dela, fizeram uma muralha em torno de Assis.
Francisco certamente participou deste conflito, pois era filho de comerciante e já tinha 16 ou 17 anos. Na época, os rapazes eram considerados de maior idade aos 14 anos.
Os nobres se refugiaram em Perusa, cidade próxima de Assis. Entre as famílias nobres que para lá haviam ido, estava a de Clara, que, em 1198, tinha 4 ou 5 anos de idade. Clara ficou em Perusa até 1204.

A PERSONALIDADE DE FRANCISCO
Como vimos, Francisco participava dos eventos sociais da época. Não era alheio aos acontecimentos. De fato, participava das festas, gostava de usar roupas coloridas e alegres, era músico e poeta. Era uma espécie de “rei da juventude”.
Também tinha um coração muito generoso: tratava bem os pobres e dava ricas esmolas. Tinha a coragem e a audácia do seu pai, próspero comerciante, e a fineza e cortesia da mãe, uma nobre francesa. Gostava de cantar na língua francesa, a língua do charme, na época.
Se, em 1198, os comerciantes de Assis se saíram bem no confronto com os senhores feudais e pensavam que o conflito acabara, enganavam-se. No ano de 1202, foi a vez da revanche: os comerciantes perderam a batalha, num lugar chamado Colestrada e Francisco ficou um ano preso em Perusa. Apesar disso, ele não perdeu a esportiva: sempre alegre, animava os colegas prisioneiros. Foi solto em 1203, quando o pai pagou uma fiança.

O PRIMEIRO ENCONTRO COM O SENHOR
De volta a Assis, Francisco tentou retornar à vida que levara antes. Ele, que fazia parte de um grupo de jovens amigos chamado “Companhia do bastão”, tentou voltar às festas, aos banquetes e a cantar pelas ruas de Assis.
Certa vez, após se banquetear com os amigos, ficou um pouco para trás, quando retornava para casa. Neste dia, o Senhor visitou o seu coração com admirável doçura. Os amigos perguntaram se ele estava pensando em se casar. Ele respondeu que sim, mas referindo-se à Dama Pobreza. A partir deste momento, começou a abandonar as coisas que antes tinha amado. Começou a dar esmolas mais abundantemente. Chamava os pobres para comer pão à sua mesa. Apesar de estar ainda “no mundo”, se dedicava a dar esmolas, oferecendo até as suas roupas ricas e coloridas para os pobres. Aos poucos, Deus ia modelando o seu coração.

O ENCONTRO COM O LEPROSO
Como vimos, Francisco se dedicava a dar esmolas aos pobres. Só um pobre o assustava: o leproso. Os leprosos eram os irmãos mais pobres dentre os pobres. Tinham que viver fora dos muros da cidade. Fazia-se um ritual para eles quando eram excluídos do meio social: uma procissão, e, a partir daí, tinham que tocar uma sineta para alertar aos que se aproximavam deles. Era como “enterrar vivo”. Os leprosos eram a “escória”, a massa que sobrava dentro dos muros de Assis e que não podia ficar com os sãos. Um dos deveres do prefeito era mantê-los afastados dos sadios.
Francisco também tinha nojo deste tipo de pessoa. Ele lhe causava arrepio e ânsia de vômito. Porém, um dia houve uma coisa extraordinária: Francisco encontrou um leproso, andando pelas estradas fora de Assis, esporeou o cavalo para se afastar, mas, depois, caindo em si, voltou, deu-lhe esmola e um beijo. Depois disto, repetiu a obra por várias vezes. Este acontecimento marcou tanto a vida dele que, dos muitos fatos ocorridos em sua vida, este foi o primeiro que entrou em seu Testamento, “pois o que antes era amargo se converteu em doçura da alma e do corpo”.

ENCONTROS
Podemos dizer que o encontro de Francisco com o leproso foi o encontro dele com os crucificados históricos - e não imaginários - deste mundo. A partir deste encontro, ele intensificou, ainda mais, a assistência aos pobres.
Mas haveria muito mais encontros. Outro deles foi com o crucificado numa igrejinha em ruínas, cujo padroeiro era São Damião. Nela, Francisco recebeu do crucificado o mandato de restaurar a Igreja. Obediente ao mandato, Francisco pôs-se logo a trabalhar. Reconstruiu três pequenas igrejinhas abandonadas: a de São Damião, a de Santa Maria dos Anjos e a de São Pedro. Todas fora dos muros de Assis, da mesma forma que os leprosos também viviam fora dos muros. Pensando que o mandato do Senhor se referia somente à reconstrução da igreja de pedra, assim o fez.
Mas depois o Espírito Santo lhe revelou que se tratava, principalmente, da Igreja viva, formada pelas pessoas pelas quais o Senhor derramou o seu sangue. Esta revelação se deu através de um novo encontro: o do Evangelho do envio dos Apóstolos, lido em 1208, na Igreja de Santa Maria dos Anjos, na festa de São Matias, Apóstolo. Foi aí que o Senhor pedia para não levar bastão, túnica, etc. Após a explicação do sacerdote, Francisco disse com entusiasmo: “É isso que eu quero, isso que eu procuro, é isso que eu desejo fazer de todo o coração!” Com um novo mandato do Senhor – o de pregar o Evangelho -, vai lá Francisco, com todo o entusiasmo, e começa a reconstruir a Igreja formada por pessoas.

A PREGAÇÃO DO EVANGELHO E OS SEUS FRUTOS
São Francisco teve vários encontros em sua vida: com o leproso, com o crucificado em São Damião, com o Evangelho na Porciúncula. Também recebeu alguns mandatos do Senhor: o de restaurar a Igreja e o de pregar o Evangelho. Podemos dizer: restaurar a Igreja com a pregação do Evangelho.
Obediente ao mandato do Senhor de pregar o Evangelho, Francisco, entusiasmado, vai ao encontro dos homens. Pregava a penitência com grande fervor de espírito e com muita alegria. Sua pregação era em linguagem simples e com nobreza de coração. Palavra penetrante, que edificava os ouvintes. Na Regra dos Irmãos Menores, ele alerta: “nos sermões que fazem, seja a sua linguagem ponderada e piedosa, para a utilidade e edificação do povo, ao qual anunciem os vícios e as virtudes, o castigo e a glória, com brevidade, porque o Senhor, na terra, usou de palavra breve” (Regra Bulada 9,3-4).
Francisco pregava a penitência e a paz. Em suas pregações, iniciava dizendo: “O Senhor vos dê a paz!” Percorria as cidades e povoados pregando o Reino de Deus. E a pregação dele não tinha a eloqüência da sabedoria humana, mas se baseava na doutrina e na demonstração do Espírito.
Mais tarde, quando já tinha muitos companheiros, pedia para que os frades se entregassem a estudos espirituais, para transmitir ao povo palavras colhidas da boca do Senhor. O pregador deveria orar a Palavra em segredo, para depois transmiti-la. Deve esquentá-la por dentro, para não transmitir palavras frias.
Cumprindo o mandato do Senhor desta maneira, fez com que grandes multidões de homens e mulheres, ricos e pobres, entrassem novamente na regra e na conduta da Igreja. Desta forma, restaurou a Igreja de Jesus.

NASCE A FAMÍLIA FRANCISCANA
O primeiro companheiro a se juntar a Francisco, em 1208, foi Bernardo de Quintavalle, homem rico. Neste mesmo ano, vieram também Pedro Cattani, advogado, e Egídio, agricultor. O número de companheiros foi crescendo tanto que, em 1209, já eram doze. Neste ano, Francisco foi a Roma e o Papa Inocêncio III aprovou a sua Regra. Surge a Fraternidade dos Irmãos Menores, a Primeira Ordem.
Mas o movimento dos Penitentes de Assis não pára aí. No Domingo de Ramos de 1212, uma nobre senhora, chamada Clara de Favarone, foi procurar Francisco para abraçar a vida minorítica. Alguns dias depois, Inês, sua irmã, segue-lhe o caminho. Surge a Fraternidade das Pobres Damas, a Segunda Ordem.
Aqueles que eram casados ou tinham suas ocupações no mundo e não podiam ser frades ou irmãs religiosas, mas queriam seguir os ideais de Francisco, não ficaram na mão: por volta de 1220, Francisco deu início à Ordem Terceira Secular para homens e mulheres, casados ou não, que continuavam em suas atividades na sociedade, vivendo o Evangelho.
Assim teve início a grande Família Franciscana!

A PRIMEIRA ORDEM CRESCE
Não só a Família Franciscana, como um todo, cresceu, como vimos anteriormente, mas também a Primeira Ordem, isto é, a Ordem dos Frades Menores.
Em 1215, entrou um grande número de pessoas estudadas. O número de frades cresceu tanto que a Ordem, em 1217, foi dividida em províncias, isto é, as divisões dos territórios onde se encontravam os frades. Cada uma delas tinha um encarregado, chamado ministro provincial.
Com o grande número de frades, a Ordem pôde instalar casas fora da Itália. O próprio Francisco, em 1217, quis ir para a França, mas não foi.
Em 1219, houve, enfim, uma grande expansão: Alemanha, Hungria, Espanha, Marrocos e França. Interessante é que muitos frades não sabiam falar os idiomas destes países. Houve casos assim: os frades só sabiam falar “sim” na língua do país. Ao lhes perguntarem se eram hereges (contrários à fé cristã), eles responderam que sim. Muitos apanharam por causa disso!...
Neste mesmo ano, o próprio Francisco realizou o seu sonho: ir em missão para o Oriente.

SÃO FRANCISCO E OS RUMOS DA ORDEM
Quando Francisco foi para as missões no Oriente, em 1219, deixou dois Vigários Gerais na Ordem. Eles começaram a impor certas normas estranhas à Ordem, como: um jejum mais rigoroso, parecido com o dos monges; além disto, começaram a construir um prédio para escola e biblioteca. Um frade saiu escondido e foi ao Oriente contar a Francisco tudo o que estava acontecendo na Itália. Francisco voltou imediatamente e foi conversar com o Cardeal Hugolino, protetor da Ordem. Sentindo que não estava mais sendo aceito como Ministro Geral da Ordem – porque os frades estudados achavam que o cargo era exigente demais para Francisco, homem iletrado –, Francisco se demitiu do cargo. No lugar dele, entrou Frei Pedro Cattani.
Todos estes fatos foram muito marcantes na vida de Francisco. Aquele projeto de Fraternidade, iniciado em 1209, agora fugia das mãos dele. A criatura fica maior do que o criador e escapa de suas mãos.
Aquele texto da “perfeita alegria”, que se encontra nas Fontes Franciscanas, pode muito bem ser datado de 1219 e pode perfeitamente se referir ao episódio da demissão de Francisco da direção da Ordem.

REGRAS (1)
Anteriormente, falamos que, em 1209, Francisco iniciou um projeto de Fraternidade. Este projeto, aprovado pelo papa Inocêncio III, tinha uma pequena Regra que regulamentava a vida fraterna destes Irmãos, que eram doze. Na verdade, era um conjunto de versículos do Evangelho que a formava, com poucas palavras e escrita de modo simples. Mas esta Regra, escrita para doze apaixonados pelo Evangelho, não podia regulamentar a vida de aproximadamente cinco mil homens, em 1219. Ela foi crescendo à medida que crescia o número de Irmãos e se faziam necessárias “leis complementares”. Fato é que aquele pequeno escrito de 1209 tinha 5.519 palavras no ano de 1221, distribuídas em vinte e quatro capítulos. Parecia mais um álbum de fotografias familiares, colocadas meio fora de ordem, do que uma Regra propriamente. A Igreja, então, pediu para que os Frades Menores dessem uma enxugada em sua cartilha de regulamentação fraterna.

REGRAS (2)
O tempo vai passando e, com ele, a forma de viver. Uma coisa é uma Regra de São Francisco quando tinha doze frades (em 1209, eram doze frades e, em 1221, mais ou menos cinco mil frades!). Fato é que doze anos depois, em 1221, os tempos mudaram e o número de frades também. Daí a necessidade de uma nova Regra para os Irmãos Menores. Aquela Regra de 1209 (chamada Primeira Regra ou Proto-Regra) não servia mais. São Francisco escreveu uma outra Regra, que foi perdida.
Mas aos 29 de novembro de 1223 ele escreveu a Regra que foi aprovada pelo papa Honório. É a que temos até hoje e que fez com que muitos homens se tornassem santos no seguimento de Jesus Cristo.

DANDO JESUS CRISTO
As Regras de São Francisco começam assim: “A regra e a vida dos Irmãos Menores é esta: viver o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo...” Dar Jesus Cristo aos homens sempre foi o objetivo de São Francisco de Assis. Podemos dizer que, aos 29 de novembro de 1223, ele deu Jesus Cristo aos Frades através da Regra, porque muitos se tornaram santos seguindo-a. Mais ou menos um mês depois, ele deu Jesus Cristo a toda a humanidade. Refiro-me ao dia 25 de dezembro, data em que São Francisco celebrou o Natal com o presépio na cidade de Greccio. De fato, como se diz deste acontecimento, naquela noite o Menino Jesus, que estava dormindo em muitos corações, acordou para muitos, graças à pregação de São Francisco. Portanto, São Francisco deu Jesus Cristo a todos os homens e mulheres: aos frades e às clarissas, através das Regras; a todos os homens e mulheres, por meio do presépio.

RECEBENDO JESUS
Em nosso número anterior, falamos que Francisco deu Jesus. Agora, vamos mostrar que Francisco recebeu Jesus. Estou me referindo a um fato importante: Francisco recebeu as chagas de Jesus crucificado em seu próprio corpo. É provável que isto ocorreu aos 17 de setembro de 1224, no Monte Alverne, um dos eremitérios dos frades.
Mas este fato foi um desfecho de outro fato que ocorreu próximo à conversão de Francisco. Refiro-me a janeiro de 1206. Foi a provável data em que o Crucificado falou com ele na igrejinha de São Damião. Fala-se que lá o Crucificado imprimiu as suas chagas no coração de Francisco. Portanto, o fato de 1224, no Monte Alverne, foi o desfecho do que ocorreu em São Damião, em 1206.
Nestas duas datas, Francisco recebe Jesus crucificado: primeiramente, as chagas no coração; depois, as chagas no próprio corpo. Assim, poderíamos dizer que a vida de conversão de Francisco foi marcada pela Cruz do Senhor, no começo (1206) e próximo ao fim (1224). Portanto, após esta constatação, é interessante verificar alguns fatos marcantes na vida de Francisco entre estes dois fatos.

A ESTIGMATIZAÇÃO E OS CRUCIFICADOS DA HISTÓRIA
Em nossa narrativa da vida de São Francisco, chegamos à estigmatização dele em 17 de setembro de 1224, no Monte Alverne. Além disso, localizamos a vida de São Francisco entre este evento e aquele de janeiro de 1206: Francisco se encontra com o crucificado na Igreja de São Damião e lá é estigmatizado no coração. Portanto, a vida de conversão dele foi marcada pelo estigma da cruz do começo ao fim. Por isso, seguir as pegadas do crucificado é um dos elementos essenciais do franciscanismo.
Pois bem, o nosso propósito era descrever o que aconteceu de importante na vida de Francisco entre 1206 e 1224. E isso faremos agora.
Em primeiro lugar, Francisco se encontrou com um crucificado histórico concreto: em 1204, deu um beijo no leproso, o excluído dos excluídos. O encontro com o crucificado em São Damião, em 1206, fortaleceu a experiência de 1204. A partir de 1206, Francisco foi marcado pela Paixão de Cristo, tornando-se um apaixonado pela humanidade. Foi graças a esta paixão que não abandonou os irmãos quando foi excluído do governo geral da Ordem em 1219. Com esta experiência, pôde aconselhar um Ministro Provincial que queria abandonar a Província e ir morar num eremitério. Francisco o aconselha a ficar na Província porque era o momento concreto de o dito ministro seguir as pegadas do crucificado.
O amor de Francisco de Assis pelos crucificados e excluídos era tão grande que, no fim de sua vida terrena, já quase cego e muito doente, quis servir aos leprosos como no início, em 1204. Para isso, andava num jumentinho, porque já não conseguia andar a pé como antes. Por isso, antes de morrer, lançou o desafio aos frades de ontem e de hoje: “Irmãos, recomecemos, pois nada ou pouco fizemos até agora”.
Foram estes os principais episódios ocorridos entre 1206 e 1224.

A PÁSCOA DE SÃO FRANCISCO
Entre 1225 e 1226, tivemos os últimos escritos de São Francisco, dentre eles o Cântico das Criaturas e o Testamento. Nestes mesmos dois anos, Francisco vai a vários lugares da Itália para tratar de suas vistas. Passa por diversas cirurgias. Morre aos 03 de outubro de 1226, num sábado. Morreu nu aquele que começou a vida de conversão nu na praça de Assis diante do bispo, do pai e amigos. Morreu ouvindo o Evangelho de João, onde se narra a Páscoa do Senhor, aquele que recebeu os primeiros companheiros após ouvir o Evangelho do envio dos apóstolos. Foi sepultado no dia 04 de outubro de 1226, Domingo, na Igreja de São Jorge, na cidade de Assis.
Aos 16 de julho de 1228, Francisco foi canonizado pelo papa Gregório IX. Aos 25 de maio de 1230, os ossos de São Francisco foram levados da Igreja de São Jorge para a nova Basílica construída para ele, a Basílica de São Francisco, hoje aos cuidados dos Frades Menores Conventuais.

(Textos de Frei Mauro Odones, OFM, publicados no Boletim “Vocacionando”, nn. 1-14 e 16, de abril de 1997 a dezembro de 2000)

Extraído de http://www.mifra.org/modules.php?name=Content&pa=showpage&pid=11 acesso em 6 jul. 2009.

Blog da Fraternidade Santa Clara de Assis - OFS - Canoas, RS


http://fraternidadesantaclaraofs.blogspot.com

Sábado, 4 de Julho de 2009

A DEVOÇÃO MARIANA DE SÃO MAXIMILIANO MARIA KOLBE














"A DEVOÇÃO MARIANA DE SÃO MAXIMILIANO"

A vida é um dom de Deus e precisamos vivê-la como tal, pois, é para o encontro definitivo com o Senhor que estamos indo. Vivemos em meio ao Mistério da Criação como parte integrante de um Grande Plano de Amor que transcende o nosso entendimento; e para além do somos ou podemos, temos que cooperar de bom grado com esse Plano Divino a nosso favor. A Sagrada Escritura nos revela que somos “imagem e semelhança de Deus”, e certamente ainda não nos damos conta disso, dada à finitude que nos cerca e mesmo o que aparentamos ser.

São Maximiliano Maria Kolbe é um santo dos tempos atuais profundamente imbuído da vivência desse Plano Salvífico do Senhor para toda a humanidade. Desde a infância a “Mão do Senhor” já delineava o que haveria de ser esse filho e como daria o seu testemunho de sangue perante toda a criação. A experiência de fé polonesa passa, indubitavelmente, pelas mãos da Virgem Mãe, que além de Padroeira da Polônia e dos poloneses, é ainda padroeira de tantos outros países devotos que a ela recorrem para que interceda junto ao seu Filho, a fim de que sejamos prontamente atendidos em nossas necessidades e para que se cumpra em tudo a Santa Vontade de Deus em nossa vida.

Contam os biógrafos que o pequeno Raimundo Kolbe (nome de batismo de são Maximiliano) era de índole esperta e por isso mesmo um tanto travesso. Certa feita em uma de suas travessuras sua mãe, um pouco incomodada, o chamou a atenção dizendo-lhe: “Menino, o que será de sua vida?” Ao que, como de costume, o menino correu junto ao oratório em um dos cômodos de sua casa para rezar e perguntar em sua inocente oração à Virgem Imaculada o que seria de sua vida. Obteve como resposta a aparição da Santíssima Mãe do Senhor mostrando-lhe duas coroas, uma branca e outra vermelha - as mesmas cores da bandeira da Polônia, sua pátria amada e também as cores do Espírito Santo, doador de todos os dons - perguntando-lhe qual das duas queria para si. Ao que o pequeno infante, depois de breve hesitação, respondeu: quero as duas. E foi precisamente assim que se definiu sua vocação, ser totalmente consagrado a Deus na vida religiosa e ser mártir da caridade pela Imaculada em defesa da família e da salvação do maior número de almas possíveis.

Desse modo, como Davi e a própria Virgem Maria, o Espírito do Senhor apoderou-se também do menino Raimundo e fez dele um grande santo de alma devotada à Vontade de Deus por meio da Imaculada, a quem se entregou, como ainda todo o seu ministério. Seu lema era: “Ganhar o mundo inteiro para Cristo pela Imaculada”. Por isso, se refugiava no Imaculado Coração da Virgem Mãe e com o auxílio de suas preces procurou servir ao Reino de Deus difundindo-o em todo o mundo, fazendo jus ao lema que escolhera para sua vida. Movido por um incondicional amor a Maria, fundou o movimento de apostolado mariano “Milícia da Imaculada”. Trabalhou incansavelmente na confecção do Cavaleiro da Imaculada, pequena revista de evangelização mariana; fundou ainda jornais, rádio; e tencionava fundar também canais de televisão para difundir a devoção à Imaculada, a fim de levar a cabo todo o empreendimento evangelizador que Deus lhe confiara.

Destarte, no fim dos seus dias, recebeu das mãos da Beatíssima Mãe a segunda coroa que lhe destinara Deus, o martírio no campo de concentração nazista Auschwitz, tomando o lugar de um pai de família que estava para ser sacrificado no Bunker da fome, assumindo assim, até as últimas conseqüências, sua vocação mariana, o martírio do amor incondicional; a certeza do céu, a realização do Plano de Deus, por meio do Seu Filho Jesus Cristo, Fruto Bendito da Virgem Imaculada.

“Quero ser reduzido a pó pela Imaculada e espalhado pelo vento do mundo”. (São Maximiliano Maria Kolbe – 1894-1941).

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.

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Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Oração: Terapia ou Ilusão?


A proclamação da morte de Deus e das religiões retorna de tempos em tempos. Como também retorna de tempos em tempos a afirmação de que as crenças são perigosas, tanto para o equilíbrio pessoal, quanto para o equilíbrio social.

No contexto do Brasil vários episódios ocorridos ultimamente serviram de pretexto para, em outras palavras, serem ressuscitados fantasmas antigos. Confundem-se eventuais declarações ou ações infelizes de algum personagem ligado à alguma religião para tirar conclusões de cunho abrangente, quando não totalizante. E na esteira desses episiódios se aproveita para proclamar que "a Igreja está perdendo" espaço.

Ao lado disso, porém, é preciso ser cego para não perceber que existe outra leitura não só legítima, como imposta pela verdade dos fatos. Em primeiro lugar, em que pese o fanatismo injustificável de alguns grupos religiosos, é preciso não esquecer que eles representam uma parcela mínima de uma multidão incalculável de pessoas que crêem e guiam suas vidas por suas crenças. No caso do Brasil, por exemplo, sem o cristianismo nós nos sentimos incompreensíveis para nós mesmos: seríamos um povo que perdeu suas raízes mais profundas.

Há outro fato ainda que não pode passar desapercebido para quem está atento a uma série de publicações recentes que tanto ressaltam o fenômeno religioso, quanto a força salutar do que denominamos de oração. Essa força é antes de tudo representada pela grande aceitação de uma série de livros que de uma forma ou de outra carregam consigo as marcas de uma espiritualidade de cunho oriental. Não menor aceitação têm livros que levam títulos como "A caminho", "Experiência transformadora da meditação"; "Caminhos para a paz interior"; "Entre meditação e psicoterapia".

Especial atenção chama o vínculo entre neurologia, psicoterapia, meditação e oração. Evidentemente que não vem ao caso procurar pelo "gene de Deus" ou tentar estabelecer uma relação direta entre fenômenos religiosos e certas regiões do cérebro, através de uma espécie de "capacete de Deus", que estimularia os sentimentos religiosos, e vice-versa, sentimentos religiosos influenciando sobre o equilíbrio pessoal e social.

Uma coisa é certa: desde que não se confunda oração com a simples repetição de palavras mágicas, ou meditação com uma espécie de transe, não há dúvida de que todas as grandes figuras que marcaram espiritualmente a história da humanidade foram homens e mulheres dados à meditação e à oração. Em que importa se se consideravam religiosos ou não eles mergulhavam na profundidade do seu ser, lá onde o humano e o divino se encontram.

Meditação e oração podem ser facilidades por certas posturas corporais e mormente pela criação de um ambiente de recolhimento. Só que ambas vão além do ambiente, que pode ser um apoio e não o substitutivo do encontro acima referido. Nesse sentido não há dúvida de que aquilo que todas as religiões pressupõem, oração e meditação verdadeiras carregam consigo uma força terapêutica ímpar, pois ainda que nem sempre restituam a vida aos mortos, elas fazem viver mais intensamente até aqueles que se preparam para o Grande Encontro.

(*) PROF. DR. ANTÔNIO MOSER - É frade da Província Franciscana da Imaculada Conceição, teólogo, professor do ITF e assessor da CNBB para assuntos de Bioética. Confira o perfil completo


Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/vidacrista/artigos/moser/artigos_37.php acesso em 03 jul. 2009.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Humor franciscano: o capuchinho e o conventual

Num retiro espiritual,
um jovem capuchinho
cruza no pátio
com um jovem conventual,
ambos concentrados,
rezando o braviário.
Para admiração do capuchinho,
o conventual,
sem interromper suas rezas,
fuma um charuto.

O capuchinho,
surpreso,
espera o colega concluir suas orações
e diz:
- Perguntei ao superior
se eu podia fumar
enquanto rezava
e ele não me permitiu...

Ao que o conventual responde:
- Ah, é?
Eu perguntei
se podia rezar
enquanto fumava
e ele permitiu...

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

O JOVEM QUE BUSCAVA OS DONS DE DEUS

O JOVEM QUE BUSCAVA OS DONS DE DEUS.

Havia, no Monte Carmelo, uma gruta na qual se refugiava um homem de Deus dotado de muitos dons; homem iluminado pela graça divina e cheio dos dons do Espírito Santo, incansável nas práticas ascéticas, revestido de virtudes celestiais e estimado por todos. A quem lhe procurava estendia os favores divinos da oração, do conselho, da sabedoria e da ciência do Senhor, para que, vivendo a fé, permanecessem os fiéis nos caminhos da verdadeira salvação.

Havia também, naquela região, um jovem que decidira pôr em prática os santos mandamentos das Leis de Deus e, com firmeza de alma, seguir este propósito. Ouvindo falar da sabedoria do Padre do deserto, pôs-se a caminho para pedir-lhe conselhos. Ao Chegar á gruta, o jovem ouviu admirado as sábias palavras do santo ermitão e contou-lhe sua história e o desejo de seu coração de receber os dons de Deus para dedicar-se, como ele, à salvação dos homens.

Pediu ao ancião que orasse suplicando a Deus para atender o seu desejo. E assim foi feito. Agora o jovem, cheio da graça divina, ficava de prontidão diante da gruta, recepcionando os peregrinos que dali se aproximavam a fim de suplicar socorro divino para as suas necessidade. Deus concedeu-lhe o dom da ciência de forma que podia enxergar o estado da alma de cada peregrino que por ali passava pedindo auxílio ou a intercessão do homem santo.

Estando ele em profunda meditação, aproximou-se certo homem pedindo para falar com o santo ermitão e o jovem, olhando o estado da alma daquele homem, começou a repreendê-lo dizendo: “vede em que estado encontra-se tua alma, és perverso, mal feitor, assassino e ainda queres aproximar-te do santo homem com tuas maldades?”. Ao ouvir tal repreensão, o homem que vinha como penitente, afastou-se profundamente consternado perdendo toda esperança de salvação.

Vendo pela graça de Deus o que havia acontecido, o ancião repreendeu o jovem dizendo: “realmente tens o dom de Deus, mas ages como insensato, pois aquele homem que acabas de afastar do caminho da salvação, arrependeu-se de seus pecados e estava aqui como penitente para confessá-los e receber a absolvição e uma vida nova”. O jovem, então caiu de joelhos a seus pés pedindo-lhe para que orasse por ele suplicando a Deus que lhe tirasse o dom de enxergar o estado da alma dos homens, pois acabara de perder uma alma arrependida pelo mau uso que fez do dom.

O ancião o abençoou e disse: “filho, envio-te para o meio dos homens a fim de que, trabalhando para o bem de todos, uses as graças divinas com o mesmo propósito que o faço, pois ‘os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis’. (Rom 11,29). E acrescentou: “ó abismo de riqueza, de sabedoria e de ciência em Deus! Quão impenetráveis são os seus juízos e inexploráveis os seus caminhos! Quem pode compreender o pensamento do Senhor? Quem jamais foi seu conselheiro? Quem lhe deu primeiro, para que lhe seja retribuído? Dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele a glória por toda a eternidade! Amém!”(Rom 11,33-36).

Vitalizado por tão bela exortação, o jovem aprendiz despediu-se de seu pai espiritual para se dedicar à nova missão. Partindo dali viajou por terras distantes e por onde passava os milagres e prodígios se repetiam e muitos eram os agraciados com a conversão e a salutar alegria do Espírito Santo.

Certa vez, passando por um povoado, pernoitou numa hospedaria que havia na beira da estada e lá estando pediu um quarto que ficasse nos fundos, pois queria dedicar-se à contemplação. Por graça de Deus pode ver o estado da alma do dono daquele estabelecimento e viu também que aqueles pecados o levariam à condenação. Mais que depressa o jovem peregrino pôs-se em oração e pediu a Deus pelo arrependimento e conversão daquele homem entregue ao infortúnio do pecado e da morte, ao que foi atendido, pois pouco tempo depois o hospedeiro converteu-se, tornando um homem de ilibada conduta e de muitos préstimos ao seu povoado.

Admirados com as graças que advinham das orações do jovem peregrino, perguntaram-lhe por que o Senhor era tão solícito à sua intercessão, ao que o jovem respondeu: “caros irmãos e irmãs, quando por graça de Deus vejo o mórbido estado de uma alma, dedico-me à sua salvação amarrando minha alma a ela, que se encontra perdida, e me apresento diante do Senhor de toda vida com jejuns, orações e súplicas até que o estado de graça seja restabelecido e aquela alma torne-se plena diante do Senhor Deus todo-poderoso que nos enviou o seu Filho para que tenhamos vida e vida sem fim.

Por isso lhe digo: “ó glorioso Deus altíssimo, iluminai as trevas do meu coração, concedei-me uma fé verdadeira, uma esperança firme e um amor perfeito; dai-me Senhor o reto sentir e conhecer a fim de que eu possa cumprir o sagrado encargo que na verdade acabais de me dar-me. Amém’.”

Paz e Bem!

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Domingo, 21 de Junho de 2009

Um pouco de espiritualidade


Frei Neylor J. Tonin
Status quaestionis: Tanto quanto a Psicologia, também a Espiritualidade, como ciência e florescimento da vida, pensa no ser humano como destinatário privilegiado e possível casa da felicidade. Seu quartinho especial chama-se coração.

Grandes Mestres Espirituais sempre se fizeram sensíveis a essa profunda aspiração do cora-ção humano: ser feliz. Esmeraram-se em refletir sobre ela, em definir-lhe a natureza, denunciando possíveis engodos, que chamaram de tentações, e propondo comportamentos pertinentes, que chamaram de virtudes, à sua realização.

Na Espiritualidade concentra-se o que de melhor conhecemos da sabedoria humana. De Jesus, seu mais ínclito expoente, diz-se que foi a encarnação e revelação da sabedoria de Deus. Nele se deram as mãos duas realidades, a saber: o paraíso perdido, que ele reabriu com seu sangue, e as promessas do Reino dos Céus, que ele anunciou com palavras e con-firmou com milagres.

Se, em Jesus, a vida espiritual conheceu sua mais excelente expressão, não deixou, igualmente, de brilhar em grandes e conhecidos homens ou mulheres que criaram escolas de espiritualidade e em pessoas simples e anônimas que foram e são, indiscutivelmente, mestras da arte de viver espiritualmente.

É escusado admitir que há muitas Espiritualidades, além da cristã. Todas elas, enquanto humanas, são legitimamente sadias e caminhos a serem seguidos e perseguidos com denodo e segurança.

Como pessoas, estamos abertos, na admiração, a todas experiências espirituais. Não é pre-ciso ser cristão para dizer que se deve rezar sem neuroses, morrer sem desespero e não cul-par Deus pelo que nos acontece. Não é também preciso ser cristão para saber o quanto é bom perdoar, corrigir o que está errado e não idolatrar o diabo.

Como cristãos, encareceremos, com alegria, a importância de alimentar os sentimentos de Cristo, almejando o ideal duma santidade sem rabugices e refletindo sobre os dolorosos e beatificantes caminhos de crer na Palavra de Deus, sem parcimônia e de olhos fechados.

Não dá para ter espiritualidade cristã sem ter em Cristo o mestre de nosso itinerário espiritual, sem ter fé em suas palavras ou nos destinos humanos a quem ele serviu e exaltou, sem fazer ascese por amor a ele e ao seu Reino. Quando alguém, conscientemente, se entrega ao itinerário do crescimento espiritual, mudam-se seus horizontes e aprofundam-se seus compromissos com o que lhe é superior.

A verdadeira Espiritualidade, assim como a boa Psicologia, tem, no fundo, um discurso que aponta para o paraíso perdido e apresenta propostas e caminhos de felicidade. Uma Espiritualidade que não conhecesse o endereço da Casa da Felicidade, mas teimasse em entristecer as pessoas, seria falsa.

Estou convencido que a pior estupidez humana é a da guerra que mata a vida e que o supremo bem da vida é a paz. É isto o que prega a Espiritualidade dos grandes mestres: que vivamos em paz, que nos amemos como irmãos e que, em paz, honremos o santo nome de Deus. Sem paz não dá para ajoelhar-se numa igreja nem fazer a festa da vida. Hoje, como sempre, os sonhos do amor procuram o endereço da casa da Paz. E só com paz no coração é possível ter espiritualidade e ser espiritual.

1. Ter espiritualidade e ser espiritual

As Igrejas, em geral, falam muito da Espiritualidade e todas as religiões oferecem a seus seguidores um itinerário de vida espiritual. Bastaria lembrar Buda, Confúcio, Moisés, Maomé, Jesus, para lembrar que há muitas Espiritualidades e muitos modos de ser espiritu-al, pensando, entendendo e vivendo a vida. Todos propõem o mesmo ideal: chegar a uma plenitude. Os caminhos, no entanto, são bastante diversos.

O grande teólogo e místico franciscano, São Boaventura, escreveu, no século XIII, um be-líssimo livro sobre a experiência de Deus, intitulado Itinerarium Mentis in Deum (Itinerário da Mente para Deus). A Editora VOZES publicou, na coleção "Herança Espiritual da Humanidade", alguns excelentes estudos que seriam de grande proveito para os interessados em Espiritualidade: Budismo, de Dennis Gira, Islamismo, de Jacques Jomier, Espiritualidade Cristã, de Jesús Espeja e Peregrinos Russos e Andarilhos Místicos, de Mi-chel Evdokimov. Aliás, uma das conseqüências da agitada e estressante vida moderna parece ser a do reflorescimento de uma vida espiritual mais intensa.

Mas antes de olhar para os livros, talvez seja útil à pessoa contemplar e entender seu próprio mistério ou complexidade, formada de corpo e espírito. Pesada por ser corpo e com raízes para não perder a identidade, ela é também leve e rica por ter espírito e asas para insuspeitados vôos, que a fazem sofrida e altaneira diante das pulsões instintivas do bicho que vive dentro dela.

Um e outro, corpo e espírito, somos nós. Não somos só corpo nem só espírito. Somos os dois somados, interligados, interdependentes, fusionados e amalgamados, em permanente comunhão e conflito, no qual o corpo se faz sempre mais exigente e nunca satisfeito e o espírito luta para não soçobrar no desafio de compor com o irmão corpo, sem desequilíbrios, esta difícil unidade.

A espiritualidade tem tudo a ver com esta complexa convivência entre corpo e espírito que, quando não consegue ser integrada, nos torna complicados. A pessoa humana não é um corpo desespiritualizado nem um espírito desencarnado. O modo como trabalhamos esta dualidade, rica e trágica, complexa e difícil de ser integrada, é que, finalmente, definirá nossa espiritualidade.

Ser simplesmente gente já é uma experiência espiritual. Os anjos também são espirituais, mas de outro jeito. O nosso jeito é humano, com corpo e alma, com matéria e espírito, com definições problemáticas e sentimentos desencontrados, com tempo que se esvai e eternida-de que nos assusta. A espiritualidade, por isso, que tem no espírito seu princípio de qualifi-cação, expressa-se eloqüentemente no corpo e somos espirituais na totalidade do nosso ser, por dentro e por fora, no corpo e no espírito, com um e outro.

A força espiritual de uma pessoa se mede pelo grau de intensidade com que faz algo ou como vive os ideais e suas relações. Quanto mais a pessoa se entrega, de corpo e alma, a alguma coisa, ação ou pessoa, mais espiritual ela o é. É muito espiritual, por conseguinte, quem é muito intenso e pouco espiritual quem é melancolicamente superficial.

Alguém pode ser muito espiritual quando trabalha, faz esporte, convive em família ou vai a uma igreja. Pode também ser minimamente espiritual quando reza, come ou faz amor. Bem entendido, um ato sexual pode ser mais espiritual do que a participação em uma procissão, quando o primeiro é feito com corpo e alma e a segunda, só com o corpo e sem alma. Que não haja dúvidas: a caraterística principal da espiritualidade é a intensidade com que se faz o bem, pouco importando que bem, materialmente, se faça.

Ressaltemos, no entanto, que não basta apenas intensidade desregrada de aplicação, que um animal e um bandido também podem ter. Faz-se necessário também retidão justa de inten-ção, que ocorre quando o espírito comanda e coordena o processo de busca do bem deseja-do. Não se pode, por isso, dizer que um animal, na caça de sua presa, ou um malvivente, em suas ações criminosas, sejam espirituais. Para o animal, faltar-lhe-ia espírito; para o bandi-do, correção de intenção e integração de suas forças. O primeiro é só animal em estado puro e instinto, enquanto o segundo é pouco espírito e muito animal em estado desintegrado e desumano.

A vida, em suas múltiplas facetas, será sempre a fonte primária para a espiritualidade. A inspiração poderá vir da paz e da alegria, da vida e da morte, do trabalho e da dor, da artes e dos esportes, da cidadania e do poder, do amor e do lazer, da terra, da natureza e de Deus.

Por sermos gente, todos somos espirituais, ou temos espiritualidade. Santos ou bandidos, piedosos seres eclesiais ou pecadores penitentes ou reincidentes, ninguém deixa de ser espi-ritual. Uns são mais, outros menos, uns de uma forma, outros de outra, mas espiritualidade todos têm porque todos são seres humanos. Na verdade, a experiência nos diz que uns são mais gente do que outros. É pois segundo este mais ou menos que somos mais ou menos espirituais.

Para ser profundamente espiritual não é preciso ser religioso. Bom seria que pessoas de confissão religiosa fossem também luminosamente espirituais, mas não é isto o que sempre se vê na prática. É bastante freqüente a confusão que se faz entre Espiritualidade e Religião. Diz-se, por exemplo, que determinada pessoa é muito espiritual porque tem muita religião. Pode ser um equívoco. Dentro das Igrejas cultiva-se uma religião que não transforma, sem mais, pessoas religiosas em seres espirituais. Não será, por isso, injustiça afirmar que, nas Igrejas, muitas vezes, temos pessoas com muita religião e pouca espiritualidade e, fora de-las, pessoas sem nenhuma religião, mas com muita espiritualidade.

Para os cristãos, a fonte, o caminho de vida, o critério e o alimento da espiritualidade são o Cristo da ressurreição e a história de Jesus. Quem segue esta espiritualidade deveria ser uma expressão intensa de Cristo, ecoando seus sentimentos e caráter. Ele é a cor da paixão dos cristãos pela vida, pelos pobres, doentes e pecadores, pelos perdidos e marginalizados, pelos que não têm pai e mãe, pelos que vivem separados pelos muros das mais várias se-gregações. A cor de Cristo é a da misericórdia e do perdão, da compaixão e da ternura, da consagração a Deus e da ousadia da santidade. É também a cor que abraça a ovelhinha transviada, a cor da beleza arrependida da pecadora pública, a cor da simplicidade cativante da vida, a cor da graça de ter irmãos, a cor da alegria de comer, de pescar e de viver. Tudo isto, somado à sua determinação pelo Reino de Deus, é a cor da verdadeira espiritualidade cristã.

Com vergonha, podemos confessar que estamos longe disso, mas sem esquecer que a espi-ritualidade é um processo longo e doloroso e, mais do que um dado, é um caminho de espi-ritualização. Não somos espiritualmente redondos, acabados. Muito lentamente, vamos nos fazendo mais espirituais e cristãos, na medida em que vamos nos tornando mais plenamente humanos à luz de Cristo e em seu seguimento.

"A glória de Deus, afirmou Santo Irineu (+202), é a pessoa plenamente viva". Ninguém se sente assim, mas podemos chegar lá. O que não podemos é abdicar da tarefa de fazer flo-rescer, de modo harmonioso, a graça da vida ou o nosso jeito humano de ser.

Frei Neylor J. Tonin
Irmão menor e pecador

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/vidacrista/artigos/janeiro_artigo.php acesso em 15 fev. 2009.

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