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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A VIRTUDE DA HUMILDADE


A VIRTUDE DA HUMILDADE

A palavra humildade vem do termo latino húmus que é a terra processada e tornada fecunda, capaz de fazer germinar as sementes nela depositadas tornando-as profundamente férteis e bastante produtivas. De fato, fazendo uma analogia entre o húmus e a virtude da humildade, vemos que o húmus dessa virtude consiste em transformar os resíduos dos pecados alheios e pessoais em fecundidade da alma imersa na misericórdia de Deus. Ou seja, transformar os dejetos deste mundo em graças especiais para a nossa salvação eterna.

Ora, ninguém é autossuficiente o bastante para dizer “não preciso”, pelo contrário, dependemos de tudo naturalmente e também uns dos outros nas mais diversas necessidades pessoais. Por isso mesmo, precisamos entender que, quem depende sempre, não manda em nada fora de sua necessidade, mas precisa obedecer sempre, para que haja solidariedade entre todos e assim cheguemos à saciedade desejada, para que haja comunhão, ou seja, para que nos tornemos um, como é vontade de nosso Pai do céu (cf. Jo 17,11.21).

Temos ainda um belo exemplo do fruto da humildade na Sagrada Escritura, por meio da partilha dos bens temporais: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém dizia que eram suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era comum. Com grande coragem os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. Em todos eles era grande a graça. Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras e casas vendiam-nas, e traziam o preço do que tinham vendido e depositavam-no aos pés dos apóstolos. Repartia-se então a cada um deles conforme a sua necessidade”. (At 4,32-35).

Também São Paulo se refere a essa virtude a partir da unidade com outras virtudes: “Se me é possível, pois, alguma consolação em Cristo, algum caridoso estímulo, alguma comunhão no Espírito, alguma ternura e compaixão, completai a minha alegria, permanecendo unidos. Tende um mesmo amor, uma só alma e os mesmos pensamentos. Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses, e sim os dos outros”. (Fil 2,1-5).

Por fim, meditemos nessa frase de São Paulo: “Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses, e sim os dos outros”. Essa frase nos ensina a perfeição da humildade revestida da caridade, que consiste em servir “ao próximo como a si mesmo”. De fato, só serve quem não tem nada de próprio, quem rompeu com os apegos deste mundo, quem vê tudo como dádiva de Deus para todos, e que pense consigo, a ninguém falte coisa alguma enquanto aqui estivermos, mesmo que os homens tentem nos tirar tudo.

Aprendemos esta verdade de nosso Senhor e Salvador que disse: “Porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em redenção por muitos”. (Mc 10,45). De fato, somos servos, e o servo só faz o que o seu Senhor ordena (cf. Mq 6,8), sem a ordem do Senhor, o que faremos? Agimos por conta própria e quando essa ação não é conforme a vontade de Deus, tudo dá errado em nossa vida. Porque o Senhor também nos ensinou: “De mim mesmo não posso fazer coisa alguma. Julgo como ouço; e o meu julgamento é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”. (Jo 5,30).

Ou seja, na vida de quem serve a Deus humildemente, mesmo que aparentemente tudo dê errado aos olhos dos homens; no entanto, aos olhos de Deus, “tudo concorre para o bem daqueles que o amam”, pela santa obediência. E por esse serviço humilde e despojado, eis a recompensa do Senhor: “Bem-aventurados os servos a quem o senhor achar vigiando, quando vier! Em verdade vos digo: cingir-se-á, fá-los-á sentar à mesa e servi-los-á”. (Lc 12,37).

Sentar à mesa do Senhor com o Senhor a nos servir, isso se dará à medida do nosso serviço, “pois tudo o que fizestes ao menor dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes”; por isso, não queira nada fora da vontade do Senhor, pois Ele nos dá conhecer sua vontade pelas virtudes que nos concedeu, dentre elas a virtude da humildade vigilante, porque é assim que o servimos e o amamos de todo coração.

Conta-se um fato acontecido na vida de Santa Tereza D’avila. Ao meditar sobre virtude da humildade, ela fez ao Senhor o seguinte propósito: “Senhor meu, hei de escolher sempre o último lugar, pois tu mesmo disseste, ‘quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado’”. Por isso, nas refeições diárias sempre procurava se alimentar por último. Certo dia, depois de vê que todas as irmãs já estavam na fila, ela se pôs no último lugar; quando, mais que de repente, sentiu uma leve brisa soprando por entre sua cabeça e as costas, ao que indagou: mas não sou eu a última das irmãs? Voltando-se viu Jesus que lhe respondeu: “Tereza, não sabes que o último lugar é o meu?”. Assim, ela entendeu que, quem procura o último lugar, encontra nele o Senhor.

Portanto, ser humilde é ser o que Deus quer, é ser como Deus é, “manso e humilde de coração”, como ele mesmo nos ensinou: “Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve”. (Mt 11,29).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O GRANDE MISTÉRIO DA NOSSA SALVAÇÃO


O GRANDE MISTÉRIO DA NOSSA SALVAÇÃO...

Quando tratamos do que chamamos de mistério, tratamos daquilo que ainda não é conhecido por nós em sua essência, porque na verdade só Deus conhece essencialmente todas as coisas e não é conhecido por ninguém (cf. Sl 138;Jo 3,31-35;1Jo 3,19-20;1Cor 2,9-12). Estamos acostumados a lidar com o que vemos, e podemos até, de certa forma, dominar e manipular ao nosso bel prazer; mas, quando se trata dos Mistérios de Deus e de sua criação, tudo foge ao nosso controle, isto porque entramos no campo da fé, e como diz são Paulo: “Sem fé é impossível agradar a Deus, pois para se achegar a ele é necessário que se creia primeiro que ele existe e que recompensa os que o procuram”. (Hb 11,6).

Ora, sabemos que todos os seres vivos estão naturalmente condenados à morte, e nós, humanos, temos plena consciência desse mistério, pois o vemos acontecer na vida dos outros, e o veremos também na nossa, quando chegar o nosso dia eterno. Com efeito, além do mistério da morte, temos ciência de tantos outros, como por exemplo, o mistério do universo, do sistema solar; das leis naturais, das coisas visíveis e invisíveis; o mistério da iniquidade, ou seja, do mal, etc., são tantos que nem cabe nas nossas estatísticas. Mas um em particular chama mais à nossa atenção, é o Mistério da nossa salvação, pois, é o que mais desejamos em meio a este vale de lágrimas que habitamos. Porém, como entender este Grandíssimo Mistério?

De fato, só é possível pelo entendimento da fé, ou seja, pela Sabedoria divina advinda da fé, como bem nos ensinou São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios: ”Entretanto, o que pregamos entre os perfeitos é uma sabedoria, porém não a sabedoria deste mundo nem a dos grandes deste mundo, que são, aos olhos daquela, desqualificados. Pregamos a sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que Deus predeterminou antes de existir o tempo, para a nossa glória. Sabedoria que nenhuma autoridade deste mundo conheceu (pois se a houvessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória). É como está escrito: Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Todavia, Deus no-las revelou pelo seu Espírito, porque o Espírito penetra tudo, mesmo as profundezas de Deus”. (1Cor 2,6-9).

Ou seja, o Mistério da nossa Salvação passa impreterivelmente pelo Mistério de “Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos; mas, para os eleitos - quer judeus quer gregos -, força de Deus e sabedoria de Deus. Pois a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens...” (!Cor 1,23-25). “A cruz está estreitamente ligada à Paixão de Cristo e à nossa salvação. É o símbolo mais eloquente do amor de Deus por nós. A cruz venceu a morte e nos deu a vida eterna. Por esse motivo é justo que seja celebrada, exaltada e venerada por todos nós”. (http://goo.gl/twSWd2).

Na sua Carta aos Romanos, São Paulo, discorre sobre este Grande Mistério: “Com efeito, quando éramos ainda fracos, Cristo a seu tempo morreu pelos ímpios. Em rigor, a gente aceitaria morrer por um justo, por um homem de bem, quiçá se consentiria em morrer. Mas eis aqui uma prova brilhante de amor de Deus por nós: quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós. Portanto, muito mais agora, que estamos justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira”. (Rm 5,6-9).

E continua: “Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na sua morte pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova. Se fomos feitos o mesmo ser com ele por uma morte semelhante à sua, sê-lo-emos igualmente por uma comum ressurreição”. (Rm 6,3-5).

Sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que seja reduzido à impotência o corpo (outrora) subjugado ao pecado, e já não sejamos escravos do pecado. (Pois quem morreu, libertado está do pecado.) Ora, se morremos com Cristo, cremos que viveremos também com ele, pois sabemos que Cristo, tendo ressurgido dos mortos, já não morre, nem a morte terá mais domínio sobre ele. Morto, ele o foi uma vez por todas pelo pecado; porém, está vivo, continua vivo para Deus! Portanto, vós também considerai-vos mortos ao pecado, porém vivos para Deus, em Cristo Jesus”. (Rm 6,6-9).

Deste modo, afirma São Paulo: “De agora em diante, pois, já não há nenhuma condenação para aqueles que estão em Jesus Cristo. A lei do Espírito de Vida me libertou, em Jesus Cristo, da lei do pecado e da morte”. (Rm 8,1-2). E ainda: “Justificados, pois, pela fé temos a paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Por ele é que tivemos acesso a essa graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança de possuir um dia a glória de Deus. Não só isso, mas nos gloriamos até das tribulações. Pois sabemos que a tribulação produz a paciência, a paciência prova a fidelidade e a fidelidade, comprovada, produz a esperança. E a esperança não engana. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. (Rm 5,1-5).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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terça-feira, 9 de agosto de 2016

OS FRUTOS DA ORAÇÃO


OS FRUTOS DA ORAÇÃO

Ao longo da história humana, muito se tem falado sobre o dom da oração; de fato, não se pode pensar ou falar em Deus sem que tenhamos acesso a Ele, e a oração é um dos meios mais eficazes desse acesso. Porém, como defini-la se já tantos a definiram antes? Realmente, mesmo em meio a tantas definições, cada um que se põe em oração tem sempre uma experiência nova de Deus, pois o modo de ser vivido nesta experiência, divino-humana, ilumina nosso testemunho de fé, aumenta a graça santificante e faz Deus bem presente em meio à contingência que nos atinge.

Daí surge uma pergunta: como fazer para que a nossa oração seja eficaz, isto é, seja profundamente proveitosa? Ou, em outras palavras, seja atendida? A vida humana e suas manifestações é feita de encontros, permanências temporárias e quem sabe eternas. Quando ouvimos do Senhor pérolas como estas: “Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai, para que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos”. (Jo 15,5.7-8); logo nos convencemos que mais do que pedidos, a oração é a base de toda comunhão perfeita com Deus, que nos criou para vivermos eternamente em sua presença numa convivência para além da finitude de nossa humanidade.

Então, vamos à eficácia e aos frutos de nossa oração. Segundo Santo Tomás de Aquino, “a oração é um desdobramento de nossas necessidades diante de Deus”. Desse modo, quando tratamos da oração pessoal, “as condições para a infalibilidade” dela, são as seguintes: “pedir por si, as coisas necessárias à salvação, piedosamente e com perseverança”.

Além do aspecto impetratório, isto é, de pedido, diz-se que a oração [pessoal] tem ação meritória e satisfatória, pois nos alcança, respectivamente, o aumento da graça santificante e a expiação de nossas culpas, fazendo-se especialmente necessária: a) quando se cometeu pecado grave; b) quando há perigo de pecar; c) em perigo de morte”. Porquanto, “como observa Santo Tomás de Aquino, a boa oração deve ser humilde, fruto da confiança sobrenatural que é infusa pelo Espírito Santo”.

OS BENEFÍCIOS DA ORAÇÃO DO PAI NOSSO

O Pai nosso é a oração por excelência, mãe e modelo de toda oração, pois ensinada por Jesus, nosso Senhor e Salvador, nos faz participantes da filiação divina diretamente, uma vez que pedimos como filhos muito amados, como afirma São João: “Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato. Por isso, o mundo não nos conhece, porque não o conheceu. Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é. E todo aquele que nele tem esta esperança torna-se puro, como ele é puro”. (1Jo 3,1-3).

Quando se refere ao dom da oração, e o modo como fazê-la, o próprio Jesus nos ensina que a sua prática em si é vontade de Deus para nós; por isso, ele mesmo a praticou perseverantemente para realizar em tudo com sua vida a Vontade do Pai (cf. Lc 6,12-13;9,18-22;9,28-36;11,1-2;22,31-32;22,39-46;23,34.46). São Lucas quando trata do ensinamento de Jesus sobre a perseverança na oração, observa: “Propôs-lhes Jesus uma parábola para mostrar que é necessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo”. (Lc 18,1). Ou seja, a oração é necessidade permanente para que tenhamos acesso aos bens eternos e à Fonte desses bens, Deus nosso Pai.

“Em seu Tratado Sobre a Oração do Senhor, São Cipriano observa que “se temos a Cristo como advogado diante do Pai para interceder pelos pecados, apresentemos Suas palavras ao pedirmos perdão de nossas faltas”. E tanto mais confiante se nos apresenta a oração do Senhor ao considerarmos que Cristo mesmo, que nô-la ensinou a orar, a escuta junto ao Pai, cumprindo o que diz o salmo: “Clamará por mim e Eu o ouvirei” (Sl 91,15). Acrescenta ainda São Cipriano que “dirigir-se ao Senhor com suas próprias palavras é fazer uma oração afetuosa, devota e familiar”. Daí dizer-se que ninguém conclui o Pai-nosso sem fruto algum, porquanto, como ensina Santo Agostinho, ele ao menos nos perdoa os pecados veniais”.[1] (Enchiridion, c71; PL 40,265).

Ainda segundo São Cipriano, “Vontade de Deus é a que Cristo praticou e ensinou: humildade na vida, estabilidade na fé, veracidade nas palavras, justiça no agir, misericórdia nas obras, disciplina nos costumes, não saber injuriar, tolerar a injúria recebida, manter a paz com o irmãos, querer a Deus com todo o coração, amando-O como Pai e temendo-O como Deus, absolutamente nada antepor a Cristo, porque Ele também nada antepôs a nós; aderir inseparavelmente à Sua caridade, unir-se à Sua cruz com firmeza e fé, e, quando houver combate por Seu nome e honra, manifestar pela palavra e constância com que o confessamos diante dos juízes, a firmeza do nosso certame. Manifestemos, enfim, na morte, a paciência pela qual somos coroados: isso é ser coerdeiro de Cristo, isso é cumprir a vontade do Pai”.[2]

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.


[1] Tomás de Aquino, Santo, Comentário ao Pai-Nosso: tradução e notas: Omayr José de Morais Junior  - Rio de Janeiro: Lotus do Saber, 2002. Pgs 25-26.
[2] Idem
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segunda-feira, 11 de julho de 2016

O PERFEITO AMOR LANÇA FORA O TEMOR...


O PERFEITO AMOR, LANÇA FORA O TEMOR...

No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor”. (1 Jo 4,18).

Convém lembrar que o apóstolo São João não está se referindo ao santo temor do Senhor, dom do Espírito Santo, mas o temor medo... De fato, quem ama o Senhor, o ama porque o Senhor nos amou primeiro ao dar a sua vida por nós, e isto porque tem o poder de retomá-la, como Ele mesmo disse: “Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de mim mesmo e tenho o poder de a dar, como tenho o poder de a reassumir. Tal é a ordem que recebi de meu Pai”. (Jo 10,18). Para que assim tivéssemos a vida eterna que só a Ele pertence.

Desse modo, precisamos entender que o amor não é apenas um sentimento, mas a essência da vida, de tal forma que se estende aos nossos sentimentos e nos cura, nos liberta, nos salva, nos dá a verdadeira felicidade, porque o amor é o próprio Deus, como escreveu são João: “Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amorNós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele”. (cf. 1Jo 4,8.16).

Portanto, amar a Deus e vencer o temor medo, é obedecê-lo, como bem nos ensina são João: “Todo o que crê que Jesus é o Cristo, nasceu de Deus; e todo o que ama aquele que o gerou, ama também aquele que dele foi gerado. Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus: se amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos. Eis o amor de Deus: que guardemos seus mandamentos. E seus mandamentos não são penosos, porque todo o que nasceu de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé”. (1Jo 5,1-4).

Mais precisamos chegar à perfeição desse amor, e como o fazemos? Pela mesma santa obediência, pois assim nos ensina são João: “Eis como sabemos que o conhecemos: se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz conhecê-lo e não guarda os seus mandamentos é mentiroso e a verdade não está nele. Aquele, porém, que guarda a sua palavra, nele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito. É assim que conhecemos se estamos nele: aquele que afirma permanecer nele deve também viver como ele viveu”. (1Jo 2,3-6).

Ora, só amamos a Deus assim porque Ele nos amou primeiro, e nos deu em seu Filho, Jesus Cristo, o Seu Santo Espírito, para permanecermos em comunhão permanente com Ele. Desse modo, somos morada de Deus por seu amor, como nos ensinou o próprio Senhor: “Respondeu-lhe Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada. Aquele que não me ama não guarda as minhas palavras. A palavra que tendes ouvido não é minha, mas sim do Pai que me enviou”. (Jo 14,23-24). Logo, amar a Deus e ser Sua morada, consiste em servi-lo, “em justiça e santidade, todos os dias de nossa vida”, como seus filhos e filhas sem nenhum temor (medo), aqui e por toda a eternidade. Amém!

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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segunda-feira, 27 de junho de 2016

A PEDAGOGIA DIVINA E A LÓGICA HUMANA


A PEDAGOGIA DIVINA E A LÓGICA HUMANA...

A lógica de Deus não é a nossa, isto porque a nossa lógica se baseia apenas nas leis naturais, enquanto a lógica divina tem como fundamento a lei perfeita do amor. Em nossa lógica medimos tudo, pontuamos, criamos regras, fórmulas, para obtermos os resultados desejados; em Deus não há medida, não há fórmulas contingentes, mas há dois dons fundamentais que nos ajuda a entender o agir divino em nosso favor. São eles, fé e obediência; pela fé acreditamos nos santos mandamentos, que é a lei perfeita do amor, e que nos leva a percorrer o caminho da perfeição; e a nossa obediência como correspondência amorosa para que Sua teofania (ação direta de Deus) plenifique nossa vida.

Eis o que a Sagrada Escritura nos ensina sobre a pedagogia divina e a lógica humana:

Buscai o Senhor, já que ele se deixa encontrar; invocai-o, já que está perto. Renuncie o malvado a seu comportamento, e o pecador a seus projetos; volte ao Senhor, que dele terá piedade, e a nosso Deus que perdoa generosamente. Pois meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é o meu, diz o Senhor; mas tanto quanto o céu domina a terra, tanto é superior à vossa a minha conduta e meus pensamentos ultrapassam os vossos. Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão”. (Is 55,6-11).

Desse modo compreendemos que a fé não é uma teoria, mas uma prática que fundamenta o dom amor de Deus em nossa vida; e a obediência é o dom que em nós acolhe a vontade do Senhor... Ou seja, a Palavra de Deus dita se realiza, enquanto a vontade humana a segue por meio da fé e da obediência; pois de Sua Palavra dependemos cem por cento, não somente nós, mas também toda a criação... Então, sejamos testemunhas da Palavra Divina, pois só há autenticidade no agir humano, quando ele tem como fundamento o que Deus fala e faz...

Vejamos como se dá isso:

Irmãos, também eu, quando fui ter convosco, não fui com o prestígio da eloquência nem da sabedoria anunciar-vos o testemunho de Deus. Julguei não dever saber coisa alguma entre vós, senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado. Eu me apresentei em vosso meio num estado de fraqueza, de desassossego e de temor. A minha palavra e a minha pregação longe estavam da eloquência persuasiva da sabedoria; eram, antes, uma demonstração do Espírito e do poder divino, para que vossa fé não se baseasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus.

Entretanto, o que pregamos entre os perfeitos é uma sabedoria, porém não a sabedoria deste mundo nem a dos grandes deste mundo, que são, aos olhos daquela, desqualificados. Pregamos a sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que Deus predeterminou antes de existir o tempo, para a nossa glória. Sabedoria que nenhuma autoridade deste mundo conheceu (pois se a houvessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória).

É como está escrito: Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Todavia, Deus no-las revelou pelo seu Espírito, porque o Espírito penetra tudo, mesmo as profundezas de Deus.

Pois quem conhece as coisas que há no homem, senão o espírito do homem que nele reside? Assim também as coisas de Deus ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas sim o Espírito que vem de Deus, que nos dá a conhecer as graças que Deus nos prodigalizou e que pregamos numa linguagem que nos foi ensinada não pela sabedoria humana, mas pelo Espírito, que exprime as coisas espirituais em termos espirituais.

Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar. O homem espiritual, ao contrário, julga todas as coisas e não é julgado por ninguém. Por que quem conheceu o pensamento do Senhor, se abalançará a instruí-lo (Is 40,13)? Nós, porém, temos o pensamento de Cristo. (1Cor 2).

Destarte, “Ó abismo de riqueza, de sabedoria e de ciência em Deus! Quão impenetráveis são os seus juízos e inexploráveis os seus caminhos! Quem pode compreender o pensamento do Senhor? Quem jamais foi o seu conselheiro? Quem lhe deu primeiro, para que lhe seja retribuído? Dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele a glória por toda a eternidade! Amém”. (Rom 11,33-36).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

PS: “Já te foi dito, ó homem, o que convém, o que o Senhor reclama de ti: que pratiques a justiça, que ames a bondade, e que andes com humildade diante do teu Deus.” (Miq 6,8)

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quinta-feira, 23 de junho de 2016

EM BUSCA DA SANTIDADE...


EM BUSCA DA SANTIDADE

“Sede santos, assim como o vosso Pai do céu é Santo”. (Mt 5,48).

Às vezes pensamos que é muito difícil atingir esse grau de santidade que Jesus nos propõe; achamos que a santidade é própria dos santos e santas que já estão no céu. De fato, olhando a nossa condição de seres contingentes (limitados) perguntamos: Senhor, como ser santos num mundo como o nosso? Pois, eis como São Paulo o descreve: “Nota bem o seguinte: nos últimos dias haverá um período difícil. Os homens se tornarão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão a realidade. Dessa gente, afasta-te!” (2Tm 3,1-5).

Creio ser essa resposta do Senhor: “Meus filhos e filhas, não tenham como base de suas vidas os maus exemplos e os falsos testemunhos que vedes; pois quando olhais os pecados alheios e ficais só nisso, eles não servem para nada, mas se tirais daí uma lição, vereis que estou presente em todos os acontecimentos, porém, para vos ajudar a não cometerdes os mesmos delitos, mas sim para vos fazer crescer na graça e no conhecimento de minha misericórdia e do meu amor a fim de vos comunicar a minha santidade, “porque sem mim não podeis fazer”.” (Jo 15,5).

Ora, meditando sobre este imperativo divino: “Sede santos, assim como o vosso Pai do céu é Santo”, compreendemos que Jesus está nos dizendo que a santidade é própria de todos os filhos e filhas de Deus, renascidos “da água e do Espírito Santo”, quando fomos batizados. Aliás, essa verdade São João também nos deu a conhecer em sua Primeira Carta: “Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato. Por isso, o mundo não nos conhece, porque não o conheceu. Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é. E todo aquele que nele tem esta esperança torna-se puro, como ele é puro”. (1Jo 3,1-3).

Logo, ser santos é sermos aquilo que já somos por fazermos parte do Povo de Deus, a Santa Igreja, Corpo de Cristo (cf. Cl 1,18), parte visível do Reino de Deus neste mundo. Para isto o Senhor nos pede que vivamos como ele viveu (cf. 1Jo 2,3-6); ou ainda, como escreveu São Paulo na sua Carta aos Efésios: “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados. Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo, que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor”. (Ef 5,1-2).

Por isso, precisamos deixar de lado tudo o que não nos convém, como ele acrescenta: “Quanto à fornicação, à impureza, sob qualquer forma, ou à avareza, que disto nem se faça menção entre vós, como convém a santos. Nada de obscenidades, de conversas tolas ou levianas, porque tais coisas não convêm; em vez disto, ações de graças. Porque sabei-o bem: nenhum dissoluto, ou impuro, ou avarento - verdadeiros idólatras! - terá herança no Reino de Cristo e de Deus. E ninguém vos seduza com vãos discursos. Estes são os pecados que atraem a ira de Deus sobre os rebeldes. Não vos comprometais com eles”. (Ef 5,3-7).

Por fim, meditemos com São Pedro sobre santidade de nossa vida quando dos últimos acontecimentos desta vida: “Entretanto, virá o dia do Senhor como ladrão. Naquele dia os céus passarão com ruído, os elementos abrasados se dissolverão, e será consumida a terra com todas as obras que ela contém. Uma vez que todas estas coisas se hão de desagregar, considerai qual deve ser a santidade de vossa vida e de vossa piedade, enquanto esperais e apressais o dia de Deus, esse dia em que se hão de dissolver os céus inflamados e se hão de fundir os elementos abrasados! Nós, porém, segundo sua promessa, esperamos novos céus e uma nova terra, nos quais habitará a justiça. Portanto, caríssimos, esperando estas coisas, esforçai-vos em ser por ele achados sem mácula e irrepreensíveis na paz”. (2Pd 3,10-14).

Destarte, a santidade é a plenitude de todas as virtudes, ela é o nosso passaporte para o céu, pois Cristo Jesus, o Filho de Deus, veio para nos comunicar sua Santidade, porque “sem ela ninguém poderá ver a Deus” (cf Hb 12,14). Desse modo, ser santo é a vocação primordial de todos os filhos e filhas de Deus. Porquanto: “Cingi, portanto, os rins do vosso espírito, sede sóbrios e colocai toda vossa esperança na graça que vos será dada no dia em que Jesus Cristo aparecer. À maneira de filhos obedientes, já não vos amoldeis aos desejos que tínheis antes, no tempo da vossa ignorância. A exemplo da santidade daquele que vos chamou, sede também vós santos em todas as vossas ações, pois está escrito: ‘Sede santos, porque eu sou santo’ (Lv 11,44)”. (1Pd 1,13-16).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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sábado, 26 de março de 2016

"HOJE MESMO ESTARÁS COMIGO NO PARÍSO"


O ÚLTIMO DOM: “HOJE MESMO ESTARÁS COMIGO NO PARAÍSO”

Hoje, Senhor, contemplamos a tua ressurreição depois de ver as injustiças cometidas contra ti e contra os que te seguem. Ora, quem vive no pecado enxerga tudo a partir do pecado que comete; e mesmo, tendo a noção do que é justo, contradiz a própria consciência, por instigação do inimigo escondido no pecado que carrega na alma, pois a alma é o lugar onde os pecados cometidos ficam gravados; como também do inimigo causador da perdição dos que o seguem. De fato, os que vivem metidos no pecado se tornam cegos espirituais, que nada enxergam além da culpa nos outros; mesmo que estes sejam inocentes; é uma espécie de projeção, projetam nos outros o que carregam na alma.

Aqui estou Senhor, constatando que com tua morte e ressurreição venceste o pecado, venceste o diabo, causador do pecado, e todos os males que o pecado traz. Pois essa realidade maléfica que nos cerca, tem sua causa nos pecados cometidos, dando lugar ao inimigo que age na mente de seus seguidores, de uma forma tão visível que não podemos negar. No entanto, tua misericórdia sobrepõe a tudo e a todos os males, pois, o que seria dos injustiçados se tu não lhes desse o teu amparo? E o que seria dos injustos se tu não lhes oferecesse a tua divina misericórdia? Estou por vê alguém igual a ti, Senhor. Alguém que se compadeça dos pecadores, porque tem a solução que os torna dignos da vida eterna por pura misericórdia.

Sim, Senhor, tua vitória sobre o mal é incontestável, pois em teu infinito amor, és misericordioso com todos os pecadores; e, mesmo sofrendo as agruras que te causaram e aos teus, não queres que se perca nenhum daqueles por quem deste a vida, ou seja, os que estavam perdidos, para os quais viestes (cf. Mt 18,11). Pois assim como deste o perdão aos teus algozes, continuas perdoando todos os pecadores arrependidos que buscam a tua divina misericórdia por meio de tua Santa Igreja, no sacramento da reconciliação, porque somente por tua misericórdia somos capazes de ascender contigo ao infinito amor do Pai. Pois “o amor de Deus é um amor sem medida, chamado misericórdia”.

Portanto, não cheguemos a Deus sem Deus, mas profundamente arrependidos, pois é no arrependimento que o encontramos e nos reconciliamos com Ele, que nos ama como a filhos e filhas destinados ao Reino dos Céus, morada definitiva dos redimidos pelo sangue precioso de Cristo Jesus, Filho amado Deus. Assim sendo, compreendemos que o arrependimento é o último dom que Deus deu ao ser humano, como vimos no facínora pregado na cruz ao lado de Cristo, que arrependido, disse: “Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino”; ao que o Senhor respondeu: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”.

Feliz Páscoa!

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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