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quarta-feira, 11 de março de 2026

São Francisco de Assis e o Ecumenismo entre Igrejas Católica e Protestantes


São Francisco de Assis e o Ecumenismo entre Igrejas Católica e Protestantes

Rev. Edson Cortasio Sardinha - OFSE

         A história da Igreja cristã é marcada por momentos de unidade e também por períodos de profundas divisões. Entretanto, ao longo dos séculos, Deus levantou testemunhas cuja vida ultrapassa as fronteiras institucionais das igrejas. Entre essas figuras destaca-se São Francisco de Assis, o pobre de Assis, cuja espiritualidade continua a inspirar cristãos católicos e protestantes.

        Mesmo tendo vivido séculos antes da Reforma Protestante, Francisco tornou-se, paradoxalmente, uma figura apreciada também no mundo protestante. Sua vida, profundamente enraizada no Evangelho de Jesus Cristo, oferece um caminho espiritual comum para cristãos de diferentes tradições.


O Evangelho como centro da vida cristã

        O ponto central da espiritualidade de Francisco não foi uma teologia sistemática, mas a simplicidade do Evangelho. Quando ouviu a leitura do envio missionário dos discípulos (Mt 10), ele compreendeu que Deus o chamava a viver literalmente segundo o Evangelho.


Seu desejo era simples: seguir Cristo de forma radical.

        O primeiro biógrafo franciscano, Tomás de Celano, registra que Francisco desejava apenas “viver segundo a forma do santo Evangelho”.¹ Essa expressão tornou-se a base da espiritualidade franciscana.

        Essa centralidade da Palavra de Deus aproxima, em certo sentido, Francisco de ênfases importantes da tradição protestante. Reformadores como Martinho Lutero insistiram que a Igreja deve constantemente retornar à autoridade das Escrituras e ao chamado do Evangelho.²

        Embora Francisco não tenha sido um reformador institucional, sua vida apontava para uma reforma espiritual permanente: voltar ao Cristo do Evangelho.


A pobreza evangélica como testemunho profético

        No início do século XIII, a Igreja vivia um período de grande poder social e econômico. Foi nesse contexto que Francisco escolheu voluntariamente a pobreza.

        Ele desejava viver como Cristo e como os apóstolos. Essa escolha não foi uma rebelião contra a Igreja, mas um chamado profético para que os cristãos redescobrissem a simplicidade do discipulado.

        Por essa razão, diversos historiadores da espiritualidade consideram Francisco uma das grandes vozes de renovação da Igreja medieval.³

        Sua vida lembrava que a Igreja não existe para acumular riquezas, mas para testemunhar o Reino de Deus.


A fraternidade universal

        Outro aspecto profundamente marcante da espiritualidade franciscana é a fraternidade universal. Francisco via todas as criaturas como parte da criação de Deus. Por isso falava de “irmão sol”, “irmã lua” e “irmã água”.

        Essa visão aparece de forma belíssima no Cântico das Criaturas, um dos textos espirituais mais conhecidos da tradição cristã.

        Essa espiritualidade da criação influenciou profundamente o pensamento cristão moderno, especialmente na teologia da paz, da criação e da reconciliação.

        Não é por acaso que, em tempos recentes, encontros de oração pela paz entre diferentes religiões foram realizados na cidade de Assis, inspirados pelo testemunho de Francisco e convocados por Papa João Paulo II.⁴


A redescoberta protestante de Francisco

        Durante muito tempo, ambientes protestantes mantiveram certa distância da espiritualidade dos santos. Entretanto, ao longo do século XX, muitos cristãos redescobriram a profundidade espiritual da vida de Francisco.

        Teólogos, historiadores e pastores passaram a estudar sua vida não como objeto de devoção, mas como testemunho cristão exemplar.

        O escritor cristão G. K. Chesterton contribuiu muito para essa redescoberta com sua famosa biografia sobre Francisco, apresentando-o como um homem profundamente apaixonado pelo Evangelho.⁵

        Hoje não é raro encontrar comunidades protestantes que estudam a espiritualidade franciscana ou mesmo fraternidades inspiradas em sua vida simples de oração, serviço e amor aos pobres.


Francisco e o espírito do ecumenismo

        O movimento ecumênico busca a unidade visível entre os cristãos sem negar as diferenças históricas entre as igrejas.

        Nesse contexto, o testemunho de Francisco oferece importantes caminhos espirituais:


1. Centralidade de Cristo

Toda a vida de Francisco girava em torno de Cristo crucificado e ressuscitado.

2. Testemunho antes de controvérsia

Ele anunciava o Evangelho mais pelo exemplo de vida do que por disputas teológicas.

3. Humildade e conversão do coração

A verdadeira unidade cristã nasce da humildade, do arrependimento e da reconciliação.

Esses princípios são fundamentais para o diálogo ecumênico contemporâneo e inspiram o trabalho de organismos cristãos internacionais, como o Conselho Mundial de Igrejas.⁶


Conclusão

        A vida de São Francisco continua a falar profundamente à Igreja de hoje.

        Católicos o veneram como santo e fundador de uma das maiores tradições espirituais do cristianismo. Muitos protestantes, por sua vez, o reconhecem como um poderoso testemunho de discipulado evangélico.

        Em tempos marcados por divisões históricas entre igrejas, o pobre de Assis recorda a todos os cristãos uma verdade essencial: quando o Evangelho é vivido com simplicidade e fidelidade, ele se torna uma ponte de comunhão entre os discípulos de Cristo.

        Assim, a vida de Francisco permanece como um convite permanente à Igreja: voltar ao Evangelho, viver em humildade e buscar a unidade no Senhor.


Autor: edsoncortasio@gmail.com


Notas

1. Tomás de Celano. *Vida de São Francisco*. Primeira biografia oficial do santo, escrita no século XIII.

2. Martinho Lutero. Ver especialmente sua ênfase na autoridade das Escrituras e na necessidade de reforma constante da Igreja.

3. LE GOFF, Jacques. *São Francisco de Assis*. Rio de Janeiro: Record.

4. Encontro inter-religioso de oração pela paz realizado em Assis por iniciativa de Papa João Paulo II em 1986.

5. G. K. Chesterton. *São Francisco de Assis*. São Paulo: Ecclesiae.

6. Conselho Mundial de Igrejas, organismo internacional dedicado à promoção do diálogo ecumênico entre igrejas cristãs.

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