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quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Cantico do irmão sol em alemão, espanhol, esperanto, francês, inglês, italiano, latim, neerlandês e romeno
Conversões no Ministério de Francisco de Assis
Assim ele reconheceu Francisco. Nunca tinha lhe visto antes.
- Rev. Edson Cortasio Sardinha
Pastor metodista
edsoncortasio@hotmail.com
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
A palavra de ordem é renovar
Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM (*)
1. Não há dúvida. O tempo é de renovação, de rasgar novos caminhos, de retomar o sopro das origens, de inventar o novo. Não basta colocar remendos novos em panos velhos. Para tempos novos, novos panos. Será preciso criatividade, abertura ao Espírito, sabedoria e discernimento na leitura dos sinais dos tempos. Renovar... ou morrer. Todos sabem disso. Hoje, fala-se muito em reciclagem, formação permanente, atualização. Não se trata apenas de entregar-se afoitamente ao modismo do novo, mas ao novo que vem da eterna novidade de Deus. A Igreja e a Ordem precisam ter um significado para os tempos modernos. Manifestantes em Londres, por ocasião da visita do Papa Bento XVI em setembro de 2010, mostravam faixas dizendo que não precisavam de Deus e, com isso, exprimiam seu desagrado pela visita do Pontífice Romano e uma vontade de construir sua vida e a sociedade sem Deus, sem Cristo, sem fé. Será que a Igreja e os franciscanos temos condições contestar esses gritos com nossa vida evangélica?
2. Os franciscanos seculares sabem onde puseram o fundamento de seu caminho: “... procurem a pessoa vivente e operante do Cristo...”.(Regra n.5). “Os irmãos que viveram com ele sabem com quanto ternura e suavidade, cada dia e continuamente, falava-lhes de Jesus. Sua boca falava da abundância do seu coração e a gente teria dito que a fonte do puro amor, que enchia a sua alma, jorrava de sua superabundância. Quantos encontros entre Jesus e ele. Levava Jesus em seu coração, Jesus em seus lábios, Jesus nos ouvidos, Jesus nos seus olhos, Jesus em suas mãos, Jesus em toda parte...” (1Celano 115). Francisco se conforma a Cristo, se identifica ao Mestre e até realiza em seu corpo e em seu espírito todos os mistérios de Cristo. Renovar não é apenas inventar novidades mas assumir, de fato, a novidade que é Cristo.
3. Franciscanos da Primeira Ordem, quando pensamos na Ordem Franciscana Secular, temos para com seus membros os mesmos sentimentos e as mesmas preocupações que nutrimos pelos nossos: desejo de voltar às origens, reencontro de um novo élan, procura de novas vocações, saudade da contemplação e urgência em tornar o Amor amado. Não se trata de teimar em continuar por continuar, mas continuar porque vale a pena, porque o carisma que nos foi dado tem sentido neste mundo que é o nosso. Não se trata de preservar custe o que custar. O importante é a verdade e não a teimosia. Temos a convicção de que o Senhor nos chamou. Trata-se de uma verdadeira vocação. Sem a vivência do chamado as coisas se tornam secas e as fraternidades vivem ressentimentos e esvaziamento.
4. Nossos tempos são de questionamentos e interrogações. Situamo-nos no coração de um Igreja que busca, nem sempre com facilidade, formar discípulos missionários e criar espaços comunitários que sejam plataformas para a missão. Nos últimos tempos vemos a Igreja da América Latina e do Brasil preocupada com a formação de discípulos missionários. Toda a Igreja, todas as paróquias, todos os movimentos, todas as famílias são missionários. Necessitam ser evangelizados para serem missionários. Temos estudado com cuidado o Documento de Aparecida. Um outro filão de renovação da Igreja se apresenta num empenho de revitalizar a vida cristã a partir de um processo de inspiração catecumenal (Iniciação à vida cristã) ) Estudos da CNBB 97).
5. Não é aqui o lugar de elencar todas as preocupações que vivemos nós, franciscanos, o mundo e a Igreja. Há, por detrás de todos os desafios internos e externos, algumas convicções que permanecem e questões para as quais buscamos juntos respostas que não podem demorar a chegar. Nada está terminado. Tudo está por ser refeito. Algumas dessas sombras: individualismo exacerbado, desinteresse pelo próximo, exclusão, marginalização, drogas, adoção de uma postura de indiferença e de indiferentismo, esvaziamento de nossas paróquias e comunidades, expressões religiosas sem profundidade, proliferação de seitas, envelhecimento dos membros da Ordem, dificuldades em alimentar, efetivamente, a fé das pessoas, implementação de pastorais que nem sempre conseguem transformar as pessoas e acompanhar seus passos e descompassos, leigos que não chegam a uma maturidade cristã, sacerdotes sem condições de serem pastores, irmãos e irmãs que professam na Ordem e abandonam. Há, talvez, uma pergunta mais de fundo que nos inquieta: Até que ponto os cristãos na Igreja têm expressão? Nossas fraternidades franciscanas têm um significado nas paróquias, nas dioceses ou no mundo?
6. Há algumas convicções que nos estimulam e nos fazem pessoas esperançosas. Vemos surgirem, aqui e ali, movimentos de renovação evangélica. Há fraternidades franciscanas seculares promissoras. Há províncias dos frades menores em que os membros vivem verdadeiramente como franciscanos. Partimos sempre da convicção de que a Regra de Paulo VI é um ponto de referência fundamental em toda tentativa de renovação. A compreensão e a vivência de todos os tópicos da Regra colocam o movimento franciscano secular na trilha firme de levar seus membros a uma eminente santidade de vida e qualificá-os a serem missionários. Não precisamos buscar soluções complicadas. A Regra da OFS é o fundamento do caminho que os irmãos e irmãs precisam trilhar. Infelizmente, a Regra ainda não foi assimilada.
7. Cremos que a Ordem não é nossa, nem de Francisco, mas nasceu de uma iniciativa de Deus. Não podemos querer ser os seus “salvadores”. A nós cabe escutar a voz de Deus e não colocar óbices à sua ação. Nada de angústia, nem desespero. O que tem surgido de proposta nova em capítulos avaliativos locais, regionais? Nada? Por quê?
8. Sempre de novo, na OFS, somos convidados a rever a maneira com vem sendo feita a formação dos começos e aquela que chamamos de permanente. A missão do ministro local e do formador é de capital importância. Inspirados em reflexões do Documento de Aparecida, os formadores se preocuparão com a formação dos discípulos missionários franciscanos. Respeitarão o processo da formação do discípulo (cf. Doc. de Aparecida n. 278):
- encontro com Jesus Cristo: anunciar de verdade Cristo para propiciar o encontro com o Senhor; não supor que este encontro já se tenha dado; cultivá-lo e renová-lo;
- verificar se as pessoas (no caso os candidatos à Ordem e os professos) estão num processo de conversão, se estão mudando a forma de pensar e de agir, de compreender o que significa carregar a cruz; seguir Cristo em todos os momentos;
- a pessoa precisa amadurecer no seguimento de Cristo: catequese permanente e vida sacramental que permitem ao discípulo permanecer fiel no mundo que desafia;
- “como os primeiros cristãos que se reuniam em comunidade, o discípulo participa da vida da Igreja e no encontro com os irmãos, vivendo o amor de Cristo na vida solidária... é também acompanhado e estimulado pela comunidade e seus pastores para amadurecer na vida do Espírito;
- a missão é inseparável do discipulado... não se concebe um discípulo sem forte zelo missionário.
10. Durante o tempo da formação inicial, de modo especial, os membros de um fraternidade precisam ser levados a fazerem uma profunda experiência de Deus na oração e no irmão. Uma formação livresca é insuficiente. Daí, a urgência de expedientes que levem os irmãos à fidelidade na oração não papagueada e superficial, experiência da presença de Deus em suas vidas e em momentos mais ou menos longos de contemplação. Como são nossos retiros? Qual a qualidade de nossa oração pessoal e comunitária? Este capítulo é fundamental. Não se pode negligenciá-lo. Os formadores levarão os irmãos a conhecer Cristo no rosto de doentes, abandonados, marginalizados. Não basta uma formação teórica. Renovar ou morrer.
11. Nesse empenho de renovação e revitalização das pessoas e da Ordem será fundamental que os irmãos revisitem seu interior, que não sejam estranhos dentro do próprio corpo, que se sintam bem, vivendo com uma dimensão de interioridade que se adquire com o silêncio, a leitura, a paciência e o respeito pelas lentidões da história de cada um. Nunca perdemos de vista que a conversão começa e continua no fundo de nosso ser. Não podemos ser pessoas derramadas nas coisas.
12. Algumas convicções:
- Colocar no centro de tudo a figura de Cristo e levaremos as pessoas a viverem uma vida sacramental, sem sacramentalismo.
- Velaremos sempre pela qualidade da vida da fraternidade local. Nada de discursos intelectuais e propostas grandiloqüentes. O que conta é a fraternidade local: ministros dedicados, encontros suculentos, experiência de Deus, vontade de estar com irmãos que o Senhor nos dá. Tudo começa na fraternidade local.Tudo é possível se há vocação, se está em curso um processo de conversão. A qualidade da reunião geral é fundamental. Como fazê-la de uma forma nova, mais profunda, mais participativa?
- Vivemos num mundo plural. Nossas fraternidades são lugares onde discutimos os grandes temas da fé e do mundo: casamento, educação das novas gerações, novas formas de convivência (uniões homossexuais), necessidade dos sacramentos, ecumenismo, neoliberalismo, sexualidade, etc.
- Desta forma, a fraternidade local oferecerá a seus membros e aos que quiserem: retiros, tardes de oração, mesas redondas, propostas de livros para que as pessoas se encontrem ou reencontrem.
- Num mundo de posturas profundamente individualistas, os franciscanos seculares primarão pelo testemunho da fraternidade em seus encontros, nos encontros com todas as pessoas e mesmo no respeito pelo criado.
- Num mundo que se satisfaz com a mediocridade, os franciscanos seculares mostrarão que estão buscando, efetivamente, a santidade de vida de forma eminente.
- Não podemos esperar que as pessoas venham a nós. Temos que ir ao seu encontro. Buscaremos meios e modos de atingi-los e de acenar que venham conhecer o tesouro que encontramos.
- Não podemos imaginar o amanhã da Ordem Franciscana Secular sem a formação de lideranças locais, regionais e nacionais. Precisamos de lideranças que seja capazes de refletir sobre o mundo, suas transformações, os caminhos novos a serem percorridos. Que coloquem isso por escrito. O amanhã da Ordem depende muito desses leigos que liderem a caminhada.
- Seja por meio da JUFRA ou por outros expedientes, os franciscanos, sejam eles da I ou III Ordem precisarão ter cuidados especiais na formação de rapazes e moças que não adiram às drogas, à colega, à mediocridade nas salas de aula, que sejam capazes de se encantar com Francisco e optarem pelo seu seguimento.
- Em todo o nossos trabalho evangelizador e em consonância com as prioridades do Capítulo de Manaus (2009) parece importante que os franciscanos seculares realizem um trabalho evangelizador da família.
- Em nossas reuniões gerais e outros eventos estarão presentes membros de nossas famílias, simpatizantes. Sempre teremos pessoas girando à nossa volta.
- Sem posturas românticas, será fundamental que a Ordem (I –III) trabalhe pela preservação da casa em que vivemos, esse planeta chamado terra.
Retomamos o texto das Orientações de Vida, anterior à Regra da Paulo VI:
Aceitaremos com toda lucidez todas as solidariedades humanas e as assumiremos cristãmente. Não queremos ser fraternos apenas com o homem encontrado, mas cada vez mais com todos os homens. Queremos nos comprometer com todos para construir um mundo fraterno. Associar-nos-emos a todos os homens de boa vontade para lutar contra os obstáculos à fraternidade universal: a desigual repartição dos bens da terra, as múltiplas formas de opressão e de injustiça, o racismo, a guerra, a violência, o ódio... Em nossa vida de todos os dias e na escala do mundo participaremos com todos os homens no estabelecimento da justiça, da concórdia e da paz.
(*) Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
Assistente Nacional da OFS pela OFM e Assistente Regional do Sudeste III
Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/almir/artigos/ofs/23.php acesso em 23 set. 2010.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Uma leitura alternativa de São Francisco de Assis
Mas o que caracteriza a leitura sabateriana não é a abordagem de Francisco-homem, mas seus pressupostos. Nossa tentativa será a de fazer uma leitura alternativa à de Sabatier.
O notável pesquisador fez uma leitura muito própria de Francisco de Assis. Pelo fato de ter sido ele o inaugurador dessa leitura ou, pelo menos, o que a aplicou a Francisco, é que preferimos denominá-la de leitura sabateriana. Ela, porém, não terminou com a morte do grande estudioso, mas foi retomada por estudiosos imediatamente posteriores a ele e ainda é praticada por estudiosos e escritores de hoje, caracterizando uma maneira muito comum de abordagem da figura do santo de Assis.
Daí as perguntas: Basicamente, em que consistiria esta leitura? Quais os seus pressupostos fundamentais? Que implicações poderia ela trazer? Comportaria uma modificação da imagem de Francisco? Que imagem de Francisco ela nos apresenta?
Sem dúvida, uma leitura ou interpretação comporta uma imagem que é transmitida. Inevitável e inconscientemente, quando fazemos uma leitura de um personagem como Francisco de Assis, acabamos por projetar nele nossas próprias atitudes, anseios, lutas, problemáticas. Colocamo-nos de tal modo na "pele" dele que o fazemos pensar como nós pensamos, desejar o que nós desejamos, julgar como e o que nós julgamos. Isto, porque nunca conseguiremos desvencilhar-nos de nosso subjetivismo. Jamais alcançaremos a pura objetividade. Importante, no entanto, é ter sempre presente que nossa leitura não coincide absolutamente com a realidade lida, mas representa apenas uma busca da objetividade, um esforço de aproximação da realidade a ser lida ou interpretada. Portanto, qualquer leitura deve ser relativizada, inclusive a que nós nos propomos neste pequeno estudo.
No entanto, embora a objetividade absoluta seja inalcançável (não é o que se pretende aqui), existem abordagens que mais se aproximam e outras que mais se distanciam da realidade lida. O que nos pode garantir uma maior aproximação da objetividade é o uso criterioso e crítico das fontes e o recurso à história, embora saibamos que estas, por sua vez, foram escritas sempre a partir de subjetividades, dentro de contextos sócio-culturais determinados e determinantes.
a) O pressuposto de Paul Sabatier
b) A utilização das fontes
c) A imagem de Francisco
Uma primeira imagem que se infere da leitura sabateriana - e aqui não se compreende apenas a leitura feita por Sabatier unicamente, mas por muitos que percorrem a sua trilha - é a de um Francisco ingênuo que, em sua simplicidade e humildade, se deixa manipular pelas autoridades eclesiásticas e se lhes submete como um cordeiro indefeso diante de um lobo voraz; a de um Francisco sem fibra diante de frades que se impõem e fazem da Ordem o que bem entendem; a de um Francisco incapaz de conduzir os destinos da Ordem, o qual deve ceder às pressões dos frades, especialmente dos letrados, e modificar a regra de acordo não com sua vontade, mas para atender aos interesses deles.
Outra imagem resultante desta leitura é a de um Francisco reformador da Igreja e da sociedade, segundo o modelo de Lutero ou de Calvino, o qual, porém, não conseguiu seu intento, pois a Igreja teria sido bastante hábil, absorvendo-o dentro da "oficialidade" para anular-lhe o impulso renovador e quaisquer pretensões de reforma. Uma justificativa talvez para o fato de Francisco não ter passado à história como um crítico reformador da Igreja e da sociedade, ou como um irreverente contestador, ou talvez até mesmo como um renitente herege.
Francisco.
b) No que concerne à utilização das fontes - A rejeição apriorística das primeiras hagiografias, igualmente sem uma comprovação que a justifique, negando-lhes sem mais a fidedignidade, não deixa de caracterizar-se como posição de puro subjetivismo.
E, curiosamente, as fontes tardias que a leitura sabateriana utiliza também não lhe dão respaldo em seu pressuposto fundamental.
Além do mais, não se pode esquecer que os primeiros hagiógrafos estavam sob o controle da comunidade, isto é, eles não podiam inventar ou falsificar os dados, pois aqueles que viveram com Francisco ainda estavam vivos. Interessante é que Frei Leão, companheiro de Francisco e apontado por Sabatier como o legítimo hagiógrafo dele em oposição aos primeiros, em uma carta escrita em Gréccio em 1246, atesta, juntamente com Ângelo e Rufino, a fidedignidade das primeiras hagiografias.
A aprovação, porém, não significava ausência de conflitos. Certos setores da Igreja, como bispados e paróquias, viam o caminho alternativo de Francisco com desconfiança e suspeita. Em algumas dioceses e paróquias, os frades eram proibidos de pregar. Em outras, eram considerados hereges ou confundidos com eles. Mas isto não significa que devamos considerar a Ordem como vítima de uma oposição sistemática da Igreja. Trata-se de um processo normal. Em qualquer sociedade, o aparecimento de um grupo diferente ou de uma proposta alternativa causa estranheza a certos setores. E a inserção de um grupo novo na sociedade não se dá sem arranhões. E o grupo novo tinha a tarefa de encontrar na Igreja e na sociedade o seu espaço e desempenhar seu papel específico, caso contrário, ou se colocaria à margem da sociedade ou teria que abandonar o caminho alternativo. Trata-se, portanto, de processos históricos absolutamente normais. Com a Ordem franciscana não se deu de modo diferente.
Extraído de http://www.franciscanos.org.br/itf/artigos/2010/010.php acesso em 23 set. 2010.
Iluatração: Their First Quarrel, a 1914 print by Charles Dana Gibson. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Their_First_Quarrel,_Gibson.jpg acesso em 23 set. 2010.
Desafios e sinais de esperança para o catolicismo do século XXI
A partir da viagem do Papa Bento XVI, entre os dias 16 e 19 de setembro, ao Reino Unido, do novo escândalo do Banco do Vaticano e da forte declaração da Comissão de Doutrina da Conferência dos Bispos dos EUA acusando dois teólogos da Creighton University, universidade jesuíta norte-americana, de distorcer a tradição moral católica em questões como a homossexualidade, a contracepção e a reprodução artificial, John L. Allen Jr. apresenta aqui três observações gerais sobre esses acontecimentos.
Duas delas falam sobre os desafios endêmicos que se colocam diante do catolicismo no alvorecer do século XXI, e uma terceira aponta para alguns sinais encorajadores.
A análise foi publicada no sítio National Catholic Reporter, 24-09-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Tensões Igreja-Estado
A investigação do Banco do Vaticano provavelmente deveria ser vista em conjunto com as blitz policiais nas propriedades da Igreja na Bélgica no início deste ano, como parte de uma investigação sobre alegações de abuso sexual, ou com as revisões dos subsídios à Igreja na Espanha e a "lei da igualdade" de 2007 no Reino Unido, que negou às agências de adoção da Igreja que recebem financiamento público o direito de se recusar a entregar crianças a casais do mesmo sexo.
Ao longo disso tudo, a tendência no Ocidente nos dias de hoje é eviscerar qualquer coisa que pareça ser um privilégio ou um "tratamento especial" para as instituições religiosas, especialmente a Igreja Católica. Os dias em que as autoridades civis trataram a Igreja com luvas de pelica basicamente acabaram, até mesmo na ultracatólica Itália.
Cada vez mais, procuradores, polícia e ativistas da sociedade civil olham para a Igreja católica aproximadamente da mesma forma com que olham para o grande negócio, para o lobby e a política, até mesmo para o esporte profissional – como zonas potenciais de corrupção que precisam ser responsabilizadas e que de forma alguma devem estar "acima da lei".
Em última análise, isso pode fazer muito bem à Igreja, induzindo-a à visão de João Paulo II articulada em 1984 – que a Igreja deveria ser uma "casa de vidro", em que todos do lado de fora podem olhar e ver o que está acontecendo. Em curto prazo, no entanto, é provável que isso signifique que os pontos de ebulição entre Igreja e Estado vão crescer tanto em frequência quanto em intensidade.
Um alerta: se uma vez a configuração padrão com relação à Igreja foi de deferência e cuidado, daqui em diante a tendência, muitas vezes, provavelmente, será a de atirar primeiro e perguntar depois.
Divisões internas
A repressão aos teólogos da Creighton University é um lembrete das persistentes divisões dentro da Igreja, que tendem a se tornar especialmente visíveis e especialmente virulentas em torno de questões da moral sexual. Os bispos estão, naturalmente, em seu direito de dizer que as posições assumidas por Lawler e Salzmann não refletem o magistério católico oficial, mas isso não significa que elas não sejam compartilhadas por uma ampla faixa da população católica.
Esse ponto foi destacado mais recentemente durante a viagem do Papa Bento XVI ao Reino Unido, quando uma pesquisa realizada pelo jornal Sunday Independent revelou que uma sólida maioria dos ingleses católicos discorda da linha oficial em todos os tipos de questões, incluindo o aborto no caso de estupro e o controle artificial de natalidade.
A manchete inflamada foi: "O senhor está errado, dizem os católicos ao Papa".
Diante dessas divisões, um grupo poderia defender revisão global do ensino da Igreja para acomodar as sensibilidades pós-modernas; outro grupo poderia defender a expulsão de qualquer pessoa que não esteja preparada para assinar embaixo; e outro grupo poderia ainda defender que se ignore o problema completamente. (Respectivamente, esses grupos seriam alguns liberais, alguns conservadores e alguns bispos).
Sinceramente, nenhuma das opções acima parece ser uma solução especialmente satisfatória.
O que é necessário é a reconstrução de um "commons católico", um espaço em que os membros das várias tribos que pontilham a paisagem eclesiástica possam se reunir e construir amizades, de modo que uma profunda "espiritualidade de comunhão" possa ocorrer. Do outro lado desse esforço, novas formas de expressar as verdades eternas podem surgir, o que pode atenuar, embora talvez nunca eliminar completamente, as linhas de falha na Igreja.
Quem puder imaginar o projeto para um novo "commons católico" pode ter nas mãos a chave para a vitalidade da Igreja no século XXI.
Raios de esperança
O sucesso da viagem de Bento XVI ao Reino Unido aponta para dois raios de esperança.
Primeiro, até mesmo naquelas que parecem ser sociedades completamente secularizadas, o instinto religioso raramente se extinguiu. As multidões ao redor de Bento superaram as expectativas, impulsionadas pela substancial participação católica. O que foi mais fascinante, no entanto, foi o apelo da viagem a outros cristãos, membros de outras religiões e pessoas seculares comuns, que de alguma forma ainda sentem o estímulo da fé.
Além dos ativistas, que têm uma reclamação específica com o Papa, a maioria das pessoas pareciam curiosas sobre o que Bento XVI dizia e fazia, e também estavam genuinamente impressionadas com a sinceridade e a boa vontade das multidões de peregrinos ao longo desses quatro dias.
Bento XVI não encheu magicamente as Igrejas ou conquistou ondas de convertidos, mas o interesse amplamente favorável pela religião que a sua presença estimulou ofereceu um lembrete de que muitas pessoas, mesmo no coração do mundo secular, ainda querem acreditar – mesmo que, como o sociólogo Grace Davies indicou, eles achem muito mais difícil pertencer.
Em segundo lugar, a viagem foi um lembrete de que, quando exercido com sabedoria, o papado ainda é um púlpito intimidador original, o único maior ativo que o catolicismo tem para moldar o debate público. É difícil imaginar qualquer outra figura no planeta que poderia ir à Grã-Bretanha e liderar um exame nacional de consciência de quatro dias sobre o papel da religião na vida pública como Bento XVI fez.
Em parte, a razão de Bento XVI ter sido capaz de estimular isso foi porque ele não deu nenhuma razão para quem estava preparado para repudiá-lo. Ele não entrou na cidade cuspindo fogo contra as leis de igualdade, o aborto, o casamento gay ou qualquer uma das outras frentes das guerras culturais. Pelo contrário, ele se dirigiu aos fundamentos da questão – o direito de cidadania das pessoas de fé em uma cultura secular que preza pela tolerância e as contribuições positivas que os fiéis podem fazer acerca das preocupações humanitárias e sociais comuns.
Posto dessa forma, era praticamente impossível retratar o Papa como um extremista, e isso fez com que a afirmação de Dawkins de que Bento XVI é um "inimigo da humanidade" parecesse um tanto ridícula. Com efeito, a viagem de Bento XVI ao Reino Unido ofereceu um modelo de como os líderes religiosos podem se engajar com sucesso em diálogos seculares, por meio do modelo da "ortodoxia afirmativa" – sem compromissos com a doutrina da Igreja, mas colocada em termos dos "sins" que a Igreja diz, em vez do seu catálogo bem conhecido de "nãos".
Essa foi 17ª viagem de Bento XVI ao exterior, e muitas delas deixaram para trás o mesmo tipo de breve luminescência, até serem rapidamente inundadas por alguma nova crise ou colapso de relações públicas em Roma. Só podemos esperar que, neste caso, o passado não seja o prólogo.
Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=36733 acesso em 28 set. 2010.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
sábado, 25 de setembro de 2010
Bem-aventurado Bernardino de Feltre
Religioso e sacerdote: 1439-1494
Memória litúrgica: 28 de setembro
Martinho, como foi chamado no batismo, nasceu em 1439, em Tomo, lugarejo minúsculo, distante alguns quilômetros de Feltre (na região de Belluno, na Itália). Foi o primogênito de dez irmãos, todos filhos do nobre e abastado Donato Tomitano e de Corona Rambaldoni, prima do célebre educador Vittorino de Feltre. Criança precoce, ávido de leituras, Martinho se mostrou dotado de grande memória desde os primeiros estudos humanísticos, tanto que aos onze anos lia e falava corretamente o latim. Cresceu numa família bem estruturada e de nível culturalmente elevado e, assim, conseguiu adquirir um espírito de discernimento diante de comportamentos sociais da época.
Também em Pádua, onde estudou Direito, fez-se admirar pela seriedade de sua conduta e acuidade de suas reflexões. Profundamente tocado pela morte repentina de três de seus professores universitários, pelos quais sentia-se profundamente amado e ao mesmo tempo conquistado pela pregação que São Tiago das Marcas fazia na catedral de Pádua, Martinho interrompeu os estudos a 14 de maio de 1456 e tomou o hábito dos Frades Menores no Convento de São Francisco das mãos de Frei Tiago. Este, para honrar São Bernardino de Sena, deu a Martinho o nome de Frei Bernardino.
O pai desse jovem de 17 anos tentou demovê-lo da idéia de se tornar franciscano. Martinho, no entanto, tinha plena convicção de sua vocação, a respeito da qual nunca teve dúvidas. Em suas posteriores pregações, gostava de abordar o tema: Nolite diligere mundum. Começando um rigoroso tempo de noviciado no Convento de Santa Úrsula, fora de Pádua, Frei Bernardino se propôs a imitar o espírito do santo que era seu patrono celeste, vivendo uma vida santa e dedicando-se à pregação.
Terminados os estudos de teologia, foi ordenado sacerdote em 1463. Depois de ter ensinado gramática durante um certo tempo, a 19 de maio de 1469 foi nomeado pregador. Atemorizado com esta incumbência, pediu que os superiores o dispensassem desta função alegando saúde frágil, timidez e mesmo dizendo ser de baixa estatura. No dia seguinte, festa de São Bernardino, foi lhe solicitado que fizesse um discurso sobre o santo. Fê-lo com ardor e força a tal ponto que as pessoas ficaram admiradas. A partir de então começou sua atividade de pregador itinerante percorrendo a Itália centro e sul sem calçados, mesmo em condições atmosféricas desfavoráveis.
Defensor dos pobres, impávido combatente contra usurários e hereges, apóstolo iluminado do Monte da Piedade, era solicitado para pregar nos principais púlpitos da Itália. Causava maravilha o fato que ele, homem tão frágil, minado pela tísica, resistisse a constantes ataques, insídias e adversidades de quantos, tanto usurários quanto judeus, tentavam eliminá-lo ou fazê-lo calar. Muitas cidades o chamavam e chegavam a pedir a intercessão do Papa para que ele pregasse em suas igrejas. Em 1481 foi nomeado pregador apostólico in forma solita e, em 1484, pregador apostólico in forma maiori.
Graças à obra de seu fiel confrade, Frei Francesco Bernardino Bulgarino, foram conservados os ciclos mais importantes de sua pregação que, com as clássicas denominações Nolite diligere mundum; Attende tibi e Habe illius curam, oferecem as chaves mais significativas de sua oratória contra a corrupção, pela reforma dos costumes em todos as camadas sociais. Bernardino era um pregador vivo, corajoso, franco. Levava seus ouvintes a colaborarem na vida da comunidade, a começar pelos políticos que ele condenava cada vez que estes administravam a coisa pública em vista de seus interesses pessoais.
Partindo sempre da Sagrada Escritura, sem desprezar o testemunho do pensamento clássico, adaptava-se aos ouvintes e às circunstâncias. Prendia a atenção de seus ouvintes com exemplos da vida cotidiana, ora falando da injustiça e avidez dos ricos, ora a falta de pudor das mulheres ou da tão difundida ilegalidade.
A década de 1484-94 representa o período da mais intensa atividade oratória desenvolvida pelo bem-aventurado a serviço da solidariedade, defesa dos pobres e dos oprimidos com a fundação ou reforma dos Montes da Piedade contra a usura frente à qual foi inflexível, enfrentando lutas terríveis, como em Trento (1476), Florença (1488) e Milão (1491). Condenava sem medo e em termos atuais o exasperado individualismo, criticando a validade ética da riqueza quando esta é instrumento de injustiças sociais. No contato cotidiano com as categorias sociais da época, Bernardino havia chegado à conclusão que o monopólio do capital monetário nas mãos de alguns poucos, a qualquer denominação religiosa a que pertencessem, terminava por anular o direito de trabalho dos mais necessitados, muitas vezes paralisados em suas iniciativas devido ao alto custo do dinheiro. A esta idéia, simples mas profunda, se unia a verdadeira e específica função dos Montes de Piedade que foram um instituto caritativo e beneficente, mas sobretudo um instrumento de retificação de todo o sistema econômico, através de uma equitativa distribuição dos recursos financeiros postulados pelas sadias forças produtivas contra a erosão do empréstimo privado. Por isso, o Bem-aventurado Bernardino de Feltre é elencado entre os grandes sociólogos do Renascimento.
Em Vicenza, durante a pregação do Advento de 1492, exortou a cidade a fundar uma “Companhia” para socorrer os “pobres envergonhados”, envolvendo de modo especial no empenho os nobres e os ricos. Pregou com tanto ardor que conseguiu a fundação da Companhia do Nome de Jesus, cujos estatutos foram depois reformados por um seu confrade, o venerável Antônio Pagani. Morreu a 28 de setembro de 1494. Foi venerado ininterruptamente em Pávia e em Feltre e, em 1654, o Papa Inocêncio X decretou sua beatificação.
Tradução e adaptação do livro Frati Minori Santi e Beati, publicado pela Postulação Geral da Ordem dos Frades Menores, Roma, p. 196-199
Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/almir/bau/09/04.php acesso em 04 set. 2010.
Ilustração: Bernardin de Feltre par Gonzaga, Francesco disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/Image:427px-Bernardine_of_Feltre.jpg?uselang=it acesso em 04 set. 2010.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Caros colegas: é inútil procurar a prova da existência de Deus
A análise é de Marco Cattaneo, publicada no jornal La Repubblica, 18-09-2010. A tradução é de Benno Dischinger.
A ciência não é nova a descobertas “contra-intuitivas”, que desmentem as impressões mais superficiais. Hoje quase todos sabemos que um corpo mais pesado não cai mais velozmente que um mais leve, como ensinava Aristóteles, nem o Sol gira em torno da Terra, embora pareça fazê-lo a cada dia. Tocou precisamente a Darwin, grande admirador de Paley, dar-se conta por primeiro que os organismos evoluem por conta própria e não pela mão de um projetista escondido atrás dos bastidores. Estas observações inauguraram um longo e doloroso trabalho interior que o levou com os anos a abandonar a fé, com grande perturbação da mulher que temia que o marido prejudicasse seu futuro ultra-terrestre.
Os físicos, bem antes dos biólogos, se tinham dado conta que o funcionamento do mundo pode ser explicado sem precisar levantar a hipótese da existência de um Deus. Já hoje, de resto, talvez nem sequer os teólogos pensem que Deus tenha criado cada uma das espécies vivas, ou que eventualmente teria criado o antepassado a todas comum. Se neste século, como é muito provável, se conseguirá gerar a vida em laboratório de matéria não viva, a “hipótese de Deus” deverá dar um novo passo para trás. É verdade, quem quiser crer na existência de um Criador supremo, poderá dizer que Deus quer permanecer por trás dos bastidores para não interferir com a liberdade do homem. “A natureza gosta de esconder-se”, dizia Heráclito: eis uma afirmação que o homem de ciência e o homem de religião podem interpretar de modos diametralmente opostos.
Não nos parece que a existência ou não de Deus possa ser provada logicamente. Entre os cientistas também se encontram pessoas de fé religiosa. De nossa parte, o fato de que da matéria possa ter nascido a vida e que a vida tenha dado forma a si mesma em centenas de milhões de formas diversas no decurso de sua longuíssima história, é não só razão de espanto, admiração e estupor, mas nos suscita uma curiosidade inexaurível e a imensa satisfação de participar disso. Se raciocinarmos sobre nossa espécie, encontramos como entusiasmante o fato de que todo comportamento, toda ética, toda filosofia e ciência, bem como toda política sejam uma simples criação humana e sempre mais assim no decurso dos aproximadamente 100.000 anos de evolução do homem moderno. E que não exista um parâmetro divino sobre o qual mensurar-se, nem alguma verdade absoluta, mas somente a certeza de nascimento e morte. Isso investe de responsabilidade cada gesto nosso. De suas ações o homem há de responder somente a si mesmo, aos outros homens e à natureza. Depende de nós, seres humanos, fazermos da vida um paraíso ou um inferno e do planeta um jardim ou um deserto.
A responsabilidade pessoal de cada um diante de tudo e de todos é a raiz de uma moralidade verdadeira que nos abre a possibilidade de desenvolver os melhores potenciais humanos. De dar, por assim dize, novas formas a nós mesmos. Seria assim se tivéssemos sido formados por um “projeto” que nos precede? Que exista ou não exista um Deus, a humanidade tem mostrado ter disso necessidade, em geral, pelo menos no decurso dos últimos milênios. A incerteza do futuro, o medo da dor e da morte, condições miseráveis de vida, o triunfo perene da violência e da injustiça: projetamos a esperança de um resgate fora de nós e além das repugnâncias da vida, portanto além da própria vida, se esta não tem outra coisa a oferecer. A fé religiosa pode assim revelar-se uma vantagem do ponto de vista evolutivo, porque a esperança de uma vida melhor no além atenua o terror da morte e dá força para levar em frente a vida, por dura que seja, e a esperança de um juízo divino que se abaterá sobre os culpados conforta quem já não espera mais na justiça humana.
Se não ajudassem a sobreviver e reproduzir-se, de resto, as religiões teriam desaparecido a tempo da face da Terra. Satisfazem a necessidade de um pai e de uma mãe, de um guia para viver, de esperar que a sorte nos reserve algo melhor e especial. Fantasias que por milênios tem sido quase uma necessidade, mas das quais o mundo moderno tende a fazer progressivamente menos caso. A moralidade laica de quem sabe que deve prestar contas somente a si mesmo e aos outros nos parece amplamente preferível e mais avançada, do que a moralidade de quem age com base em critérios fixados por entes eternos ou, talvez, por temor de punições post mortem.
Se quisermos, a verdadeira prova da inexistência de Deus não vem da lógica, mas da história: é nos horrores, nos morticínios, nas iniqüidades sem fim de que se tem tornado responsáveis as religiões, as confissões, as igrejas. A idéia de Deus naufragou nos mares de infâmias praticadas em seu nome, com freqüência promovidas por seus sumos sacerdotes. “Alguns o chama Ram; os outros o chamam Rahim; depois se matam um contra o outro”. Assim dizia Kabir, místico indiano que viveu no século quinze, dos muçulmanos e dos hindus seus contemporâneos. Em línguas diversas, tanto “ram” como “rahim” significam “amor”.
Para ler mais:
- ''O transcendente não pode deduzir-se do imanente''
- O grande desígnio
- ''Hawking se equivoca, porque aplica categorias finitas ao infinito''
- A ideia de Deus como criador do Universo é descartada por Hawking
- ''Deus não criou o Universo'', afirma Stephen Hawking
- Hawking e o universo: com ou sem Deus?
- Incrível mesmo seria se a ciência usasse fé como explicação
Imagem: Detalhe de Vitral ciência na Fuculdade de Direito da UFRGS / Eugenio Hansen, OFS. 2010. Original disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Direito-ufrgs-5.JPG acesso em 24 set. 2010.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Festa dos Estigmas de são Francisco – Homilia
Fr. José Rodríguez Carballo, ofm – Ministro geral OFM
Monte Alverne, 17 de setembro de 2010
Há poucos dias celebramos a festa da exaltação da santa Cruz. Hoje, em todo o mundo franciscano e particularmente nesta santa montanha do Alverne, santificada pela presença do Senhor em forma de serafim e pela presença de Francisco, o estigmatizado do Alverne, celebramos o mistério da Cruz que se fez visível na carne do Poverello, realizando-se em seu corpo, de forma visível, aquilo que disse o Apóstolo: “de agora em diante ninguém me moleste, pois carrego em meu corpo as marcas do Senhor Jesus”(Ga 6,17). Paulo carregava em seu corpo as cicatrizes das tribulações suportadas por Cristo (cf. 2Cor 6,4-5; 11,23ss), Francisco leva em suas mãos, pés e no lado, os estigmas da Paixão de Cristo.
As biografias do santo nos narram como aconteceu o prodígio singular dos Estigmas. Perto da festa da Santa Cruz, dois anos antes de sua morte, o seráfico pai subiu a esta montanha, para iniciar a quaresma que costumava praticar em honra do Arcanjo São Miguel. Desejando ardentemente conhecer a vontade de Deus, para configurar-se todo a Cristo, abriu por três vezes o livro dos Evangelhos em nome da santa Trindade, e encontrando sempre a narração da Paixão do Senhor, orava insistentemente para sentir em seu corpo as dores do Crucificado. Teve, então, uma visão da qual sentiu muito gozo e uma profunda dor ao mesmo tempo: era o Senhor em forma de serafim crucificado que lhe manifestava que seria transformado totalmente na imagem de Cristo crucificado. Terminada a visão apareceram na carne deste amigo de Cristo os sinais da Paixão do Senhor: os cravos que traspassaram suas mãos e seus pés, e uma chaga em seu lado (cf. LM XIII, 1ss).
Nesta memória litúrgica dos Estigmas de são Francisco, procuremos acentuar alguns aspectos importantes que nos oferecem este evento prodigioso, partindo da narração que nos oferece são Boaventura. O Doutor Seráfico introduz a narração da impressão das chagas com estas palavras: «Francisco havia aprendido a distribuir tão prudentemente o tempo a sua disposição: parte dele o empregava em fadigas apostólicas em favor do próximo, parte o dedicava às tranqüilas elevações da contemplação. E, por isso, depois de haver se empenhado em procurar a salvação dos demais, segundo o exigiam as circunstâncias dos lugares e tempos, abandonando o ruído das multidões, se dirigia ao mais recôndito da solidão» (LM XIII, 1).
Francisco nos ensina que não podemos ser todo para os demais se não se é todo para o Senhor. E não se pode ser todo para o Senhor, quem não se encontra constantemente consigo mesmo. O Poverello nos ensina a necessidade de buscar para a nossa existência, um “projeto de vida ecológico”, como diríamos hoje, onde o compromisso a favor dos demais seja acompanhado de “vacare Deo”, como diziam os antigos, ou seja, dedicar tempo para Deus, e dedicar tempo para nós mesmos. Francisco, verdadeiro “mendicante de sentido”, estava sempre a procura do homem e sempre a procura de Deus e de sua vontade, como observa São Boaventura, buscava incessantemente encontrar-se consigo mesmo e por isso buscava e amava a solidão.
O homem é certamente um “ser social”, criado “para a relação”, porém, a experiência demonstra, que só quem pode viver sozinho também sabe viver plenamente as relações. Só quem não teme descer na própria interioridade sabe afrontar o encontro com a alteridade, com Deus e com os demais. Ao invés, a incapacidade de interiorização, de habitar a própria vida interior, se converte também em incapacidade de criar e de viver relações sólidas, profundas e duradouras com Deus e com os demais. Claro que nem toda solidão é positiva: existem formas de fugas, que são patológicas, como o isolamento e o medo de relacionar-se com os outros. Porém entre estas patologias e o ativismo desmedido, a solidão é equilíbrio e harmonia, força e firmeza. Quem assume a solidão como fez Francisco, é quem mostra o valor de enfrentar-se consigo mesmo, de reconhecer e aceitar como tarefa própria o ser “ele próprio”. Por outro lado, se alguém, como Francisco, tem como objetivo buscar a vontade de Deus (cf. LM XIII, 1), não pode a encontrar refugiando-se no “grupo”, no anonimato da multidão e nem mesmo fechando-se em si mesmo. Oxalá não seja a solidão um dos maiores sinais do amor: para conosco mesmos, para com Deus e para com os outros.
A solidão é lugar de unificação do próprio coração e da comunhão com Deus e com os demais. Quando a solidão nos leva a encontrar-nos conosco mesmos, então é purificação das relações, e, para nós, cristãos, é também um lugar de comunhão com o Senhor. Ao comentar o texto de João 5,13, onde se diz que o homem que foi curado não sabia quem o havia curado, já que Jesus havia desaparecido entre a multidão, Santo Agostinho escreve: “É difícil ver a Jesus em meio da multidão; necessitamos da solidão. Na solidão, com efeito, se a alma observa bem, Deus se deixa ver. A multidão é ruidosa, para ver a Deus necessitamos do silêncio”. Por outro lado, a solidão é o crisol do amor: as grandes relações humanas e espirituais não podem deixar de cruzar a solidão. Certamente, o cristão, como Jesus, deve preencher a solidão com a oração, com a luta espiritual, com o discernimento da vontade de Deus, com a busca de seu rosto. Francisco em tudo isto se nos apresenta como um verdadeiro mestre, tendo sido um verdadeiro discípulo de Cristo.
Na verdade, o Cristo, em quem dizemos que cremos e que dizemos amar, o encontramos constantemente em lugares afastados para orar, buscando a solidão para viver a intimidade com o Abba e para discernir sua vontade. Aquele que viveu na cruz a plenitude da intimidade com Deus, conhecendo o abandono de Deus, recorda ao cristão que a solidão é mistério de comunhão e nos ensina que a máxima solidão manifestada na cruz é mistério de amor, a maior manifestação do amor do Pai para conosco. “Tanto Deus amou o mundo que deu o seu Filho único” (Jo 3,16); a maior manifestação de amor de Jesus pela humanidade: “nos amou e se entregou por nós” (Ef 5,2).
«Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me” (Lc 9,23), escutamos no Evangelho de hoje. Encontramos nestas palavras um compêndio da vida cristã, o espelho da Palavra com que o discípulo deve conformar o seu próprio rosto. Como cristãos, nossa vida deve levar impressas as características de Jesus, o Filho crucificado por amor. Olhando «ao que traspassaram» (Jn 19,37), a cruz se converteu num selo de pertença a Deus em Jesus (cf. Ap 7,2ss; Ez 9,4). Levar a cruz cada dia é assumir nossos males, é morrer cotidianamente por Cristo, vivendo para ele, até poder dizer: «Estou crucificado com Cristo: vivo, e não sou mais eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Ga 2,20). Tomar a cruz significa sentir-se crucificado com Cristo, ser partícipes da Paixão do Senhor Jesus, sentir que somos dele e que já não nos pertencemos mais a nós mesmos. Disse Bento XVI: Para levar a pleno comprimento a obra da salvação, o Redentor continua a associar a si e à sua missão homens e mulheres dispostos a tomar a cruz e segui-Lo. Como para Cristo, assim também para os cristãos levar a cruz não é opcional, mas é uma missão que deve abraçar com amor. Em nosso mundo atual, onde parecem dominar as forças que dividem e destroem, Cristo continua oferecendo a todos, seu claro convite: “quem quiser ser meu discípulo, renegue ao próprio egoísmo e carregue comigo a cruz”. Peçamos a intercessão do Estigmatizado do Alverne, para que o Senhor nos conceda seguir com decisão atrás dEle, conformar-nos à Paixão de Cristo e ser partícipes de sua Ressurreição.
Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/carisma/documentos/2010/index01.php acesso em 23 set. 2010.
Ilustração: Stained glass window depicting San Francisco receiving the stigmata at the Temple of San Francisco in Oaxaca city, Mexico / Alejandro Linares Garcia. 2010. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:StainedStigmataSFOaxaca.JPG acesso em 23 set. 2010.
A MORTE NÃO É O FIM...

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