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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

As reformas no interior da Ordem de Santa Clara Séculos XV e XVI

Introdução

O século XIV assinala para as Clarissas, assim como para os franciscanos, um período de queda no fervor e na observância inicial. Crescendo o número de Irmãs, cresceram também as posses e vendas acumuladas pelas doações de generosos benfeitores e pelos dotes. Passaram a existir condescendências fáceis para o luxo, recorrendo-se mesmo às dispensas pontifícias da vivência da pobreza.
 
Facilmente eram admitidas nos mosteiros damas nobres, que por motivos interesseiros, não eram modelos de virtudes, mas até mesmo pedra de escândalo para as Irmãs simples. Essas damas da nobreza procuravam conseguir rodear-se de pompas e de criadagem dentro dos claustros, obtendo privilégios papais, contrariando assim expressamente o que dispunha Santa Clara na sua Regra. Com o cisma do Ocidente, em que três papas dirigiam a Igreja ao mesmo tempo, e a confusão reinara, a situação piorou seriamente. A Clausura, que por bula de Bonifácio VIII, em 1298, (“Periculoso”) havia se convertido em lei universal para todos os mosteiros femininos, mas que por motivos diversos deixava-se de observar com freqüência, deu ocasião a numerosas intervenções dos visitadores e alguma vez da própria Santa Sé.

Visão da Beata Clara de Rimini 
Os Estatutos de Benedito XII, em 1336, trataram de por fim aos abusos, com uma reorganização da vida religiosa, segundo formas mais acentuadamente monacais. Porém, a decadência era visível e aumentava. Naquilo que toca a Ordem de Santa Clara, com a independência dos mosteiros entre si, não se pode falar de uma decadência simultânea nem universal. Não faltaram exemplos de santidade, ainda que raros no século XIV: a Bem-aventurada Matia de Matélica (1253-1319)). a Bem-aventurada Clara de Rímini (+1326) e a Bem-aventurada Petronila de Troyes (+1355) comprovam isto. Além disso, a aspiração de Santa Clara de ver suas filhas sendo orientadas e ajudadas pelos frades Menores ia aos poucos se realizando. Os Provinciais foram aos poucos assumindo o cuidado das Clarissas em diversas regiões. Além do recurso ordinário às visitas canônicas houve, sobretudo a partir da segunda metade do século XIV visitadores apostólicos extraordinários, alguns encarregados de reformar mosteiros em algumas regiões. Esse foi o caso dos mosteiros de Clarissas no reino de Castela, por exemplo, entre os anos de 1373-1376. Quatro franciscanos foram encarregados de visitá-los e reformá-los.

Também a excessiva duração dos cargos tornou-se prejudicial nesta época de decadência do espírito primitivo da Ordem. Clara não limita o tempo de governo da abadessa, mas dispôs que quando j  não fosse idônea para o serviço e atividade das Irmãs, estas a depusessem e elegessem outra. Esse recurso jurídico não era de fácil aplicação. Em 1405, o Papa Inocêncio VII declarou que as abadessa não fossem vitalícias, mas eleitas a cada dez anos. Mais tarde o tempo foi reduzido a três anos. Entretanto, continuaram a existir mosteiros onde a abadessa continuava a ser vitalícia.

As reformas e os remédios não poderiam vir de fora. A verdadeira reforma vem sempre de dentro, do contato com o verdadeiro espírito que move a vivência evangélica. Senão, quando muito podem sustentar a observância exata das prescrições e evitar abusos, mas são vazios de idealismo.

A Ordem de Santa Clara, que desde o princípio representou um novo princípio de vida evangélica, sofreu com as estruturas impostas de fora. Mas os ideais da Regra própria de Santa Clara serviram  sempre como fermento renovador. Numerosas clarissas fizeram a experiência de amar e de atualizar em sua época o seu ideal. Essas reformas nasceram de dentro. Outras surgiram a partir de fora, da parte da Igreja ou dos Frades, mas foram acolhidas como bênção e realização de esperanças.

Estudaremos as grandes reformas da Ordem surgidas nos séculos XV e XVI. Ao renovar-se o ideal, abriu-se o caminho para a restauração da regularidade, da vida comum, da clausura, da oração, da sororidade e da dimensão penitencial, com um novo espírito, radicado em Clara - a fundadora - mas que recebeu característica peculiares, segundo a época e os lugares, das diversas reformadoras ou reformadores.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

800 anos da Vocação Clariana : [O Crucifixo de S. Damião]

Este filme celebra os 800 anos da Ordem de Santa Clara. Foca o Crucifixo de S. Damião como origem do carisma francisclariano. Inicia com a conversão de Francisco e apresenta, a seguir, a consagração de Clara nas suas mãos, perpetuada nas Clarissas de hoje e sempre.

 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Homilia do Ministro Geral OFM em Canindé, 04 jun. 2011

Missa de Abertura do VIII Centenário da Fundação
Das Irmãs Pobres de Santa Clara

Queridas Irmãs Clarissas, Irmãos e Irmãs,
 
“O Senhor vos dê a paz!”

Às vésperas do último Domingo de Ramos iniciamos em Assis as celebrações do VIII Centenário da consagração de Clara na Porciúncula e com isso o início da Ordem das Irmãs Pobres de Santa Clara. Hoje o fazemos aqui, neste Encontro da Federação Sagrada Família que representa todas as Irmãs Clarissas espalhadas no território do inteiro Brasil. E o fazemos tendo presente as cerca de 20 mil Clarissas no mundo inteiro, e neste contexto nós perguntamos: que queremos celebrar durante este Ano Jubilar?
 
A resposta me parece óbvia e eu a formularia com as palavras de João Paulo II no início do III milênio. Queremos olhar o passado com gratidão, viver o presente com paixão e abraçar o futuro com esperança (cf. NMI 1). Olhar, viver, abraçar, gratidão, paixão, esperança são atitudes que não podem faltar na celebração deste VIII Centenário da Fundação da Ordem das Irmãs Pobres de Santa Clara.

Não se trata, portanto, de celebrar somente uma data histórica. Isto seria simplesmente fazer arqueologia e tudo se concluiria como um fato de crônica. Trata-se de ver estes 800 anos com o olhar de Deus, isto é: com os olhos da fé, contemplando tudo o que de bom fez o Senhor através de Francisco e da sua “plantinha” a Irmã Clara, contemplar todo o bom e o bem que o Senhor realizou e segue realizando através dos Irmãos Franciscanos e neste ano sobretudo através das Irmãs Clarissas de ontem e de hoje. Contemplando o passado com os olhos de Deus, com os olhos da fé, a história que aparentemente se apresenta como uma simples história humana, acaba sendo “história de salvação”. O que para um simples historiador é um suceder-se de acontecimentos, com luzes e sombras como em toda a obra humana, para um cristão, para um Franciscano, ou para uma Clarissa tudo acaba sendo um tempo de graça no qual também há falhas, fragilidades inclusive infidelidades que, porém, são sinais e oportunidades para bendizer e louvar o Altíssimo, Onipotente e Bom Senhor, “do qual procede todo dom precioso e toda dádiva perfeita” (Tg 1,17). É na nossa fraqueza (defeito) que se manifesta a grandeza e a bondade do Senhor.

Escutemos todos, e particularmente vós minhas queridas irmãs Clarissas , as palavras da Irmã Clara em seu Testamento e consideremos os imensos dons que Deus tem derramado sobre vós durante estes 800 anos, e dai graças sem sessar ao Pai das Misericórdias por tanta bondade (cf. TestC 2,6). Vossa história é graça, vossa história é surpresa de um Deus que se colocou de vosso lado. Que este Ano Jubilar possa transcorrer em ininterrupto louvor à Santíssima Trindade (cf Ap 11,17), sobretudo pelos frutos de santidade que concedeu à nossa comum e única Fraternidade e que representam “ao vivo o rosto de Cristo”. Esta é uma herança que não se pode perder ou descartar, pelo contrário deve ser transmitida como um dever de perene gratidão e com renovado propósito de imitação (NMI 7).

O Centenário, não sendo um simples fato de crônica que olha só para o passado, se converte deste jeito em acontecimento do presente que visa levar-nos a viver com paixão este tempo que o Senhor nos concede. E quando falamos de paixão, falamos de entrega total e incondicional, falamos de uma vida vivida na lógica do dom, da gratuidade. É a experiência de toda a pessoa profundamente enamorada, que só pensa na pessoa amada, querendo agradá-la nos dias comuns e nos dias festivos, nas pequenas e nas grandes ocasiões. Esta tem sido a experiência de “nosso bem-aventurado Pai Francisco, verdadeiro amante e imitador” do Filho de Deus, como define Santa Clara em seu Testamento (TestC 5). Esta tem sido a experiência de Clara, a “plantinha” de Francisco, a “mulher cristã”. Esta foi e segue sendo a experiência de tantas Irmãs e Irmãos que, conhecendo a beleza e a perfeição da vocação recebida (TestC 3), lembrando-se de sua decisão de seguir de perto o Evangelho como Regra e vida, estão dispostos, “em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro”, a seguir o caminho traçado pelo mesmo Jesus.

Vivamos, pois, minhas queridas Irmãs e queridos Irmãos este Centenário não só como memória do passado, mas também como profecia do futuro (NMI 3), de tal modo que nos leve a voltar o primeiro amor, como diz o Profeta Oséias (Os 2) e a renovar a entrega generosa e apaixonada dos nossos primeiros dias. Não vamos ceder nunca à tentação de domesticar as palavras proféticas do Evangelho, nossa Regra e vida (cf. 2R 1,1; RSC 1,1). Acolhamos, antes, a urgência de nascer e começar sempre de novo (cf. Jo 3, 3), tanto em âmbito pessoal como fraterno. Sejamos protagonistas em fazer surgir uma nova primavera em nossas vidas e em nossa fraternidade, e se para dar mais fruto, ou seja, se para tornar nossa vida e missão mais significativa e profética se for necessário fazer poda (cf. Jo 18, 20-26), assumamos tal exercício, sendo doloroso e sangrento, como uma possibilidade que o Senhor nos oferece para poder re-significar-nos e sermos sinais legíveis de vida no momento histórico sedento de “novos céus e novas terras” (Is 65, 17; Ap 21, 1). Que este Centenário seja um verdadeiro kairós que nos permita conformar-nos plenamente com Cristo e “repropor corajosamente o espírito de iniciativa, criatividade e a santidade” de Francisco e de Clara, “como resposta aos sinais dos tempos no mundo de hoje” e como garantia de uma profunda renovação de nossa vida, fiel a inspiração originária de nosso carisma franciscano/clariano (cf. VC 37). Vivamos nossa vocação como verdadeiros enamorados de Cristo Pobre e Crucificado, como em seu tempo o fizeram Francisco e Clara, pois só assim poderemos abraçar o futuro com esperança.
Este deve ser Irmãos e Irmãs o fruto precioso deste Centenário: voltar nosso olhar para o futuro, para o qual nos impele o Espírito, porque Aquele que escreveu no passado uma grande história em nossa fraternidade de Irmãos e de Irmãs, deseja seguir escrevendo conosco uma grande história no presente e no futuro (VC 110).

Para isso, porém, temos de assumir uma permanente atitude de conversão e de renovação, buscando, quando seja necessário, novas formas para expressar a beleza e a atualidade do carisma franciscano/clariano, o qual exige, como pede Clara em seu Testamento, conhecer nossa vocação. Como irmão que vos quer e vos ama, queridas Irmãs Clarissas, hoje no inicio deste Centenário vos peço que presteis particular atenção à vossa identidade, que passa necessáriamente por uma revitalização da vossa vida em fraternidade – sois Irmãs– por uma vida significativa de pobreza, porquanto possa viver sem nada de próprio- sois Irmãs Pobres - e possam assumir com alegria vossa condição de Clarissas sem dupla pertença, pois sois Irmãs Pobres de Santa Clara. E, para consolidar esta identidade, sede em todo momento contemplativas, o que implica em fazer experiência profunda de Deus. Para isso é necessária uma intensa vida de oração pessoal e fraterna, familiaridade com a Palavra de Deus em atitude de fé, através da leitura orante da Palavra e uma vida sacramental profunda.

Ao longo deste Centenário, como nos pedem as leituras apenas proclamadas, em profunda comunhão com Francisco e Clara, deixai-vos queridas Irmãs, deixemo-nos queridos Irmãos, conduzir ao deserto,para renovar aí a nossa união com Cristo, a vossa união esponsal com Cristo em justiça, misericórdia e fidelidade (Os 2,17.21-22), a vossa pertença exclusiva a ELE eu sempre descubro neste Evangelho que acabamos de proclamar, me chama atenção que por dez vezes o Senhor nos pede de permanecer... permanecer, sem ELE não podemos dar frutos, sem ELE não podemos fazer nada. E fazendo memória do nosso e vosso propósito, como dizia Clara, “permaneceremos sempre unidos a Ele, como os ramos à videira, para que demos fruto e fruto abundante (cf. Jo 18, 20-26).
 
Que o Senhor vos conceda queridas Irmãs Clarissas, que o Senhor nos conceda a todos nós de viver este Ano Jubilar com este sentimento e palavras que eu repito ainda uma vez do Beato João Paulo II, significa “voltar ao passado com muita gratidão, abraçar o futuro com muita esperança”, porque Deus é vivo, e o carisma de Francisco e de Clara está vivo, e para isso para abraçar o futuro com esperança, e viver o presente com paixão.

Paz e Bem Irmãs e Irmãos.

Frei José Rodriguez Carballo, OFM
Ministro Geral
 
Canindé (CE), 04 de junho de 2011.

domingo, 3 de abril de 2011

Acontecimentos e eventos em São Damião

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
Mês após mês, com a ajuda de Chiara di Assisi, texto sólido de Chiara Giovanna Cremaschi (Ed. Porziuncola, Assisi) estamos acompanhando a história de Clara e de suas irmãs, nos seus começos, dentro da singeleza de São Damiao. O subtítulo da obra diz bem: Un silenzio che grida. Hoje nos ocuparemos de pequenos e grandes eventos que iam acontecendo antes de 1220 (p. 72-75).

1. Na época do surgimento da vida das irmãs pobres de São Damião, lideradas pela figura de Clara de Assis, houve uma proliferação de movimentos religiosos femininos que se inseriam na corrente pauperistica, ou seja, num desejo  bastante difundido de se viver mais profundamente a pobreza evangélica como virtude e prática. No começo dos anos 1000 até início de 1200 vão aparecendo grupos de mulheres que se sentem chamadas a uma vida de contemplação caracterizada por forte acentuação na pobreza, não apenas pessoalmente, como eremita,  mas também através  de vida comum. Normalmente, esses movimentos giravam em torno de uma mulher, que com dons especiais, reunia em sua própria casa as que quisessem optar por tal gênero de vida. O fenômeno se manifesta de modo muito particular na Itália setentrional e central. Não se pode dizer com certeza até que ponto o movimento recebeu influência de Francisco, de seu movimento e seguidores. Cada grupo desses tinha sua própria história. É possível que, eventualmente, frades tenham encontrado mulheres de tais grupamentos e que tivessem exercido influência sobre tais grupos.

2. O fenômeno é particularmente intenso  no período da história que estamos traçando com relação a São Damião. No clima espiritual que vivia a Igreja vão aparecendo esses grupos que querem viver sem posses. São Damião, em torno de 1218, começa a crescer e vai assumindo as características de um mosteiro. O Papa Honório  III delega o Cardeal Hugolino de Segni  como  “cuidador”  desses novos mosteiros femininos de pobres que iam surgindo. Ele tentará colocar ordem na espontaneidade e nas diferenças. O  escrito do Papa o autoriza a aceitar, em nome da Santa Sé apostólica, edifícios e terrenos onde vivem estas mulheres. Fala-se em mulheres pobres dos vales de Espoleto e da Toscana, caracterizando-as com elementos específicos: opção pela pobreza em comum, sem nada possuir sob o céu; privilégio de isenção, isto é, não dependência dos bispos, não precisando pagar impostos, pedágios, dízimos e outras taxas semelhantes devido à pobreza.  Esses novos grupos deveriam se reger pela Regra de São Bento. No fundo, desejava-se colocar ordem na casa.

3. Em 1219, Hugolino escreve uma Forma vivendi para São Damiao, para aquela que ele considerava a sua Ordem. Apoiava-se na Regra de São Bento e acrescentava outros elementos com caraterísticas de uma verdadeira  Regra. Como Clara se situa diante desta novidade?  Ela tinha o escrito de Francisco como  sua forma de viver. Não conhecemos sua reação. Podemos intuir que ele tenha decidido dar tempo ao tempo para ver como seu instituto evoluiria. São Damião parecia muito diferente comparado com outros mosteiros de mulheres pobres.

4. Em torno de 1220 ou um pouco antes, ingressam na sororidade (fraternidade de irmãs)  algumas vocações enviadas por Francisco, que cuida da vida daquela casa mandando novas plantinhas. Nesta circunstância,  manifesta-se a personalidade da mãe das irmãs pobres (esta parece ter sido a designação mais primitiva das irmãs de Santa Clara) e sua profunda liberdade interior, mesmo com relação a Francisco. Ele manda cinco jovens. Tudo indica que não o fez uma vez só, ou seja, que de quando em vez  mostrava a jovens o caminho que levava a São Damião.  Desta vez, Clara recebe quatro, não achando idônea a quinta.  A testemunha que conta o episódio fala do espirito de profecia da madre (mãe).  Talvez não se tratasse tanto de espirito de profecia, mas de sensibilidade para o discernimento, dom humano que resulta da docilidade ao Espírito. Vale transcrever o depoimento da Irma Cecilia, filha de Messer Gualtieri Cacciaguera de Spello: ”Também disse que dona Clara tinha espirito de profecia. Num dia em que São Francisco mandou cinco mulheres para serem recebidas no mosteiro, ela se levantou e recebeu quatro, dizendo que não ia aceitar a quinta porque não perseveraria no mosteiro... depois acabou recebendo-a pelo muito que importunou, mas mulher ficou só meio ano” (Processo 6,15)

5. Este episódio  mostra algo a respeito de problemas concretos de uma comunidade nos seus inícios, manifesta a atenção de Clara ao valor fundamental de uma vocação ou chamamento: a divina inspiração que considerava requisito essencial para abraçar a  Forma de vita.  Em maio deste ano entra em São Damião  Irmã Cristiana de Messer Bernardo de Suppo de Assis que conhecia Clara quando mocinha, porque morava na sua casa. Dando seu testemunho no Processo,  ela contará pormenores da fuga que certamente só ele conhecia (13,1).  No ano seguinte chega uma outra  concidadã:  irmã Inês de Oportulo, molto mammola, ou seja, ainda criança. Contará quanto ficou impressionada no primeiro período do mosteiro: lembrava-se do cilício feito de pelos de cavalo trançados que Clara usava. A nova irmã tentou usá-lo por três dias,  mas não aguentou. Tudo isso denota o clima de família que respirava a sororidade (fraternidade de irmãs).

6. Nesse interim, O cardeal Hugolino deseja conhecer Clara. Sua fama tinha chegado até ele. Na Páscoa de 1220, ele se encontra em Assis e se dirige a São Damião. Fica fascinado com a personalidade desta jovem que conversa com ele com toda simplicidade. Clara, nesta altura, está com 27 anos. Quando conversam a respeito do  Corpo de Cristo, o prelado experimenta uma profunda alegria quando se dá conta de que tudo o que Clara diz vem de uma íntima fonte de vida interior vivida com o Senhor na qualidade de amado e amada. Voltando depois ao lugar de trabalho sente saudades desse encontro.  Escrevendo a Clara  designa-a de mãe de sua salvação, confiando-lhe sua alma e seu espírito. Em seu Escrito, Hugolino exprime um sentido profundo da missão da mulher consagrada, que entregando-se sem reserva, com Cristo, gera irmãos para a vida da graça. Clara crescerá nesta consciência, vivendo sua vocação  numa dimensão materna e mariana, como colaboradora de Deus e aquela que soergue os membros frágeis do Corpo inefável de Cristo.

7. Os anos que se seguiram á visita  de Hugolino são caracterizados pela tentativa de fazer com que os mosteiros que viessem a surgir se caracterizassem por uma pobreza radical, naquilo  que Clara chamava de sua Ordem.  As comunidades que começam a nascer  olham para a sororidade (fraternidade de irmãs) como ponto de referência, desejando adotar o mesmo estilo de vida. Alguns mosteiros  buscam assumir a Forma vivendi dada por Francisco. Pode ser que neste momento irmãs que tinham vivido em São  Damião tenham saído para novas fundações. Começaria, assim, a difusão do espírito de São Damião.

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