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sábado, 20 de fevereiro de 2010

De pé descalço nas pegadas de Jesus

Francisco de Assis experimenta e segue Cristo
Fr. Niklaus Kuster OFMCap
1. Juventude não religiosa no centro de Assis e um Deus distante

Porque vive uma pessoa jovem, socializada pela Igreja, no ano de 1200, “como se Cristo não existisse”? E isto no centro duma cidade que dispõe de mais de uma dúzia de igrejas e centros monásticos, ao mesmo tempo, que só tem 2000 habitantes? A resposta pode ser insinuada pelo portal da Catedral de São Rufino, que foi construído naquela época: representa uma imagem de Deus, normal em 1200: o Deus do mundo românico, no trono, assistido pelo sol e pela lua, altamente sublime. O que tem esse Cristo poderoso do mundo a ver com a vida cotidiana das pessoas, com as preocupações burguesas, negócios planejados, festas e sonhos com carreiras?

“O mais humano de todos os santos” escreve Raoul Manselli sobre a primeira metade da vida que tinha “vivido sem Cristo”. O autor traduz assim, para a linguagem moderna, o que Francisco de Assis expressa no seu testamento desta maneira: “cum essem in peccatis” (“como eu estivesse em pecados”). O jovem negociante, sem dúvida, pratica a religião como toda a camada burguesa: vai à missa aos domingos, participa das procissões nos dias festivos e peregrina com sua família, de vez em quando, para Roma. No entanto, olhando para trás, a fé parece não ter influência em sua vida. Agir e decidir. Naquela época é o clero que se ocupava da religião. O clero que está presente em grande proporção na cidade, não acompanha a rápida mudança do tempo. O culto celebrado não significa, de maneira nenhuma, espiritualidade vivida.

Deus mesmo se mostra altamente paciente com o jovem negociante que, durante muitos anos, desfruta do lado dourado da vida. O “Altíssimo” pode esperar até as pessoas o procurarem por iniciativa própria – e Ele espera o que o procura nos lugares mais estranhos. Contudo, este tema vai ser abordado mais tarde.

2. Guerra – Calabouço – Doença
Tocar Aquele que é “luminoso acima de todas as coisas”

Só quando o jovem ambicioso, mimado pela vida, tropeça nos planos audazes da sua ambição, então desperta a sua alma. Aos 20 anos experimenta, na batalha no Tibre, um colapso terrível, é prisioneiro de guerra, passa um ano nos calabouços escuros de Perusa, é liberto pelo pagamento de uma fiança, depois adoece gravemente. Quando, um ano mais tarde, se restabelece, a sua vida comovida começa a procurar mais profundidade.

“Business as usual” na grande empresa do seu pai, passeios a cavalo aos mercados, no arredores e festas noturnas nos dois anos seguintes, fazem crer que tudo se tem normalizado. Sem que os seus amigos e a sua família o notem, o jovem comerciante desliza para uma dupla procura. Francisco começa, primeiramente, a descobrir o silêncio. Nos arrabaldes da cidade encontra umas cavernas. Nelas pode dar espaço às suas experiências e às perguntas da sua alma. Nas horas de silêncio, possivelmente, também começa a aprender aquela oração que, dois anos mais tarde, se manifesta em São Damião. “Altíssimo Deus luminoso, ilumina a escuridão do meu coração! Dá-me fé que leve para diante, uma esperança que leve através de tudo, e um amor, que não exclua ninguém...” (OrCr).

A Igreja como instituição e comunidade de fé fica afastada desta procura: Francisco procura sozinho, embora não faltem igrejas, clérigos e centros espirituais em Assis. Não são os espaços sagrados, nem a Bíblia, nem os sacerdotes que vão buscar o jovem na sua procura de sentido. Cavernas escuras atraem a ele – lugares que, aparentemente, correspondem ao seu mundo interior. “Ilumina a escuridão do meu coração”. O silêncio – ainda ameaçador, nas longas noites da prisão e da doença, agora se torna aliado para o jovem habitante urbano.

3. “O Altíssimo conduziu-me entre os mais humildes”
Experiências-chave de uma longa procura

Ao mesmo tempo que descobriu o silêncio nas cavernas e nos bosques fora da cidade, o jovem comerciante reparou, também nas penumbras de sua Assis cheia de sol. Até agora, o centro da pequena cidade cheio de vida era o seu mundo: as casas senhoriais das mais importantes corporações, as lojas magníficas no centro, a “piazza” por si. Ainda hoje quase nenhum turista se perde nas ruelas sujas da cidade baixa – “vicoli” estreitas e tortas, pátios interiores sombrios, as casas das famílias dos operários.

Francisco, que no seu interior pede nova alegria e novo sentido na vida, descobre os operários, os desempregados, os/as mendigos/as e os pobres de Assis. E é atraído cada vez mais para baixo, para o meio dos marginais, na sombra da cidade. As vias para cima, para o silêncio, fazem com que o jovem Bernardone encontre a paz interior, e as vias para baixo, para junto dos pobres para os quais põe a própria mesa, o levam por dois anos de perturbação crescente. Ambos os movimentos de procura preparam duas experiências-chave decisivas.

Os passos de Francisco tornam-se mais radicais: durante uma viagem a Roma. O jovem distancia-se da dureza de coração da sua corporação, atirando o dinheiro da viagem furiosamente sobre o túmulo de São Pedro e trocando secretamente suas vestes com um mendigo, para mendigar ele mesmo diante de São Pedro. Na planície, abaixo de Assis, encontra um leproso a quem a princípio, despreza e, depois abraça descobrindo que “o amargo se tornou doce”. Inesperadamente, o comerciante experimenta nova alegria na vida muito “em baixo”, para onde se sente “conduzido pelo Altíssimo”. Poucas semanas depois do encontro com o leproso, Francisco reza perto do asilo dos leprosos, o qual tem visitado desde então, na igreja rural meio destruída - São Damião. Diz palavras que têm acompanhado sua procura desde há meses. Concretizam pela primeira vez uma influência do anúncio da Igreja deixando, ao mesmo tempo, faltar qualquer indicação para uma imagem concreta de Deus: Quem procura encontra Deus, conforme a compreensão românica, como Senhor do universo. Espera DELE fé – esperança – caridade.

Altíssimo, glorioso Deus,
Ilumina as trevas do meu coração
Dá-me uma fé verdadeira,
uma esperança firme e um amor perfeito.
Dá-me sensibilidade e conhecimento, ó Senhor,
a fim de que eu cumpra o vosso santo e veraz mandamento. (OC)


A respeito da Igreja, como instituição e congregação de fiéis, pode-se constatar com assombro: Francisco continua a tatear sozinho, sem acompanhamento espiritual e também sem conselheiro. O orante procura, durante anos seguidos a Deus, procura fontes de luz e sentido novo de vida. Fá-lo, aparentemente, sem a intervenção de um sacerdote.

Refeições com mendigos e horas de silêncio preparam paulatinamente o primeiro impulso. Pode ser datado na primavera de 1206 e verifica-se em dois passos e em poucas semanas. A experiência com leprosos às portas da cidade tornou o comerciante, que ainda se apresenta montado num cavalo, sensível para o Rei do Universo, que andava descalço no chão. Francisco descreve a experiência decisiva no seu testamento com as seguintes linhas tão breves quanto concisas: Vivi vinte anos como se Cristo não tivesse existido. Naquele tempo parecia-me repugnante e amargo ver os leprosos. Porém, Deus conduziu-me para o meio deles, e no encontro com eles, o meu amor despertou. Então, aquilo que me parecia amargo, transformou-se em doçura para a alma e o corpo. Passado pouco tempo deixei o mundo. (Test 1-3)

Na sua procura por um sentido na vida, o comerciante tinha rezado até à data, a um Deus nas alturas. Encontros com as pessoas mais humildes de Assis fazem com que ele descubra que o Altíssimo atua de maneira surpreendente: muito em baixo. “Deus mesmo levou-me para o meio dos leprosos” (Test). O abraço de um leproso abre o coração da pessoa que procura para o encontro místico em São Damião. Deus aparece-lhe aí – como amigo dos mais humildes – inesperadamente ao mesmo nível. Giotto pintou magistralmente este encontro surpreendente ao mesmo nível: o ricamente vestido vê-se perante o Cristo nu; o bem situado (com 8 casas em Assis) perante Deus que está suspenso , sob à chuva – sente-se sufocado e ajoelha-se.

No conflito seguinte, com o próprio pai, a cruz de São Damião ensina Francisco a considerar o conflito mais grave de Jesus com os homens. Ameaçado pelo pai, Francisco vive durante semanas perto de São Damião, onde, provavelmente, o pároco aí residente, trata dele e, possivelmente o acompanha por primeiro. Francisco encontra na cruz a mão do Pai nos Céus, que leva o Seu Filho – o “Filho do Homem” - à Sua Luz através de recusa, ódio e sofrimento. Francisco vai considerar o Pai de Jesus como o seu próprio pai, algumas semanas mais tarde: o único Pai neste mundo e depois ele. “A partir de agora, já não digo “pai Pietro”, mas sim “Pai Nosso que estais nos Céus” (Leg3C 20). (...)

Experiências limites decisivas feitas no inverno de 1205/06, trilham, dentro de poucos e agitados meses, um caminho cheio de descobrimentos. O “Altíssimo” leva aos mais humildes, responde no Filho descalço na terra e pode ser conhecido como Pai por cada ser humano. O descobrimento do homem Jesus na terra faz com que o Pantocrátor românico se torne num “Deus ao nosso nível” – um Deus que se apresenta ao jovem comerciante fora da cidade e das suas igrejas, à margem da sociedade, entre os mais pobres, em cavernas sossegadas e na ruína de uma igreja.

A experiência de um Pai de todos os homens e do Único Filho que se faz irmão dos mais humildes, leva Francisco a uma imagem do mundo fraternal e radical. Mostra-se mais revolucionário do que a República de Assis e oposto ao pensamento eclesiástico hierárquico. (...)

Como Francisco experimentou aos 16 anos, e na revolução urbana em que a ordem comunal rompe com os modelos patriarcais na sociedade, e desenvolve idéias democráticas, a sua imagem do homem e do mundo radicaliza-se em 1206, a partir de uma vivência comovente de fé. Deus mesmo escolhe a carreira descendente, o Altíssimo iguala-se aos mais pequenos. (...)

O revolucionário desta espiritualidade em relação à sociedade e à Igreja mostra-se nas suas conseqüências, em comparação com o modelo patriarcal de Bento, que orienta a Igreja hierárquica até hoje. Talvez, Francisco chegue a conhecer o famoso prólogo à Regra de Bento já na primavera de 1206, imediatamente depois de ter sido deserdado, estando ao serviço do beneditinos de Vallingegno, o mais tardar, no entanto, sendo frade migrante, que desfruta bastantes vezes da hospitalidade dos frades. Esboça, nos seus últimos anos, numa carta dirigida aos próprios irmãos, um modelo notável de contraste:

Regra de S. Bento:
Escuta, meu filho, as doutrinas do mestre e incline o ouvido do teu coração. Aceita de boa vontade a admoestação do Pai misericordioso e cumpre com ela autuando...

Francisco à sua Ordem:
Ouvi, Filhos de Deus e meus irmãos, e escutai as minhas palavras com os vossos ouvidos. Inclinai o ouvido do vosso coração e cumpri a voz do Filho de Deus. Preservai os Seus mandamentos em todo o vosso coração e cumpri os Seus conselhos com espírito pleno.

Enquanto para Bento de Núrsia, o convento é uma escola de amor e de perfeição “sob prior e regra”, o Francisco caminhante há de procurar a comunhão da fé no seguimento do Filho de Deus fraternal.

4. Vita evangélica et apostolica
A vida dos amigos que rodeavam Jesus

Francisco transporta como leigo a missão de Jesus transmitida aos apóstolos e a sua vida de caminhantes com o Mestre para a sua época e o seu mundo úmbrio. Inspirado pelo discurso sobre a missão dos discípulos (Mt 10) arranca de mãos vazias, procura levar paz às casas e às ruas, fazer bem aos leprosos, fazer sentir o amor de Deus no dia-a-dia dos homens e viver o Evangelho. Embora experimente rejeição e desprezo, os primeiros companheiros não tardam a segui-lo.

Francisco reage assombrado e embaraçado a este fato. “Quando o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrou o que deveria fazer. O Altíssimo mesmo confirmou que deveríamos viver segundo o molde do Evangelho”. (Test) A cena é conhecida: Em vez de converter-se ele mesmo em mestre dos seus companheiros pergunta com eles o único Senhor de todos. O abrir três vezes a Bíblia na pequena igreja de Plathea revela poucos conhecimentos da Bíblia: mas, como pode Francisco ler na Bíblia sendo ele paupérrimo e não possuindo livros? O que poderia parecer como fundamentalista manifesta-se, mais tarde, como uma tradução, que é tanto enraizada numa fé profunda como também prudente e realista dum encontro de Cristo na Bíblia para a própria Igreja. Um ano mais tarde, o papa mais poderoso da Idade Média – um teólogo brilhante – há de confirmar uma simples regra para a vida consistente meramente de citados tirados dos Evangelhos permitindo aos irmãos leigos a pregação simples “em toda a orbe terrestre”.

A primeira regra começa com a frase característica e programática: “A vida dos irmãos é esta: seguir a doutrina e o exemplo do nosso Senhor Jesus Cristo” (Reg NB 1). Antes de descobrir as pegadas de Jesus, Francisco descobriu a Cruz. A meditação sobre a Paixão que é contada na cruz de São Damião, desde o cantar do galo, passando pela manhã da Páscoa até à Ascensão, demonstra ao comerciante buscante a Encarnação de Deus: como Mestre pobre e simples na terra, com companheiros e companheiras e num amor extensivo mesmo aos inimigos. Após dois anos de vida como eremita, Francisco descobriu, na vida ambulante dos apóstolos que rodeavam Jesus, o seu próprio caminho. Com os companheiros que o seguem aceita a vida galiléa dos amigos que rodeavam Jesus. Como Jesus andava pelas aldeias e cidades para se retirar de noite também para lugares sossegados e montes, o movimento dos primeiros franciscanos “cidade e silêncio”, liga tempos ao serviço dos homens com tempos em “lugares solitários”.

5. Nas Pegadas do Filho do Homem
Liberdade Evangélica

A história seguinte, que nos é contada por Jordão de Jano, na sua crônica, demonstra claramente, como Francisco e a primeira fraternidade transpõem o Evangelho para sua própria realidade.

Os cronistas dos cruzados escrevem o ano do Senhor 1219. Estamos em fins do outono e, na Palestina, as colheitas estão recolhidas. Francisco anda pela Terra Santa com a autorização do Sultão que ficou seu amigo em Setembro. O “poverello” tinha andado muito comovido pelos caminhos que viram “as pegadas do Senhor”. Certo meio-dia – assim conta Jordão de Jano – Francisco estava à mesa alhures na Judéia ou na Galiléia. Como aconteceu mais vezes, alguém o convidou a ele e aos seus companheiros Pietro di Cattaneo, Elias e Cesar de Spira. Talvez os anfitriões, desta vez, tivessem sido cruzados, um família modesta, talvez muçulmanos ou malteses para uma pousada de peregrinos. Estando reunidos, aparece de repente um irmão, suado, comovido com o desejo inquieto de encontrar Francisco. Saiu depressa da Itália, para lhe comunicar o que tinha acontecido aí, em Setembro. Gregório de Nápoles e Matteo de Narni, nomeados pelo poverello como os seus substitutos, tinham reunido os irmãos mais versados para um capítulo. Este decretou, entre outras coisas, severas prescrições em relação à comida. Não era permitido aos irmãos que obedecessem simplesmente às regras de jejum que são válidas para todos os leigos: durante todo o ano não deviam comer carne nas quintas e sextas-feiras! Os irmãos não deviam ficar por trás das ordens que se tinham tornado velhas e cômodas! O que é a norma para os monges, deve ser o mínimo para os frades menores. Assim, o capítulo decidiu regras de jejum e abstinência que prescreviam exatamente quando era proibido comer carne ou lacticínios. Francisco ficou assustado com o relatório do mensageiro. É verdade que ame a pobreza, que seja mais radical do que todos os outros, mas, para ele, não é uma ação ascética, nenhum trabalho, cuja renúncia possa ser medida em gramas ou em ganhos. E a sua reação é, portanto, tão elucidativa como libertadora: pergunta, com serenidade, aos seus companheiros, que estão sentados diante da carne nos pratos, não sabendo se podem continuar a comer, o que o Senhor tinha recomendado aos discípulos quando os tinha mandado por este país. Lucas nos conta (10,5-8): “Comam e bebam do que tiverem!“ Como os pobres que recebem com gratidão o que lhes é dado, que não estão habituados a escolher... e, oxalá, possam desfrutar do que a bondade das pessoas lhes der.

A reação do irmão que continua comendo – não fazendo caso das regras de jejum – é orientador e indica a decisão fundamental da sua espiritualidade: é necessário seguir o Evangelho, e não quaisquer normas, e medir-se só na prática de Jesus, e não nas indicações de frades, por mais santos que sejam: O Mestre é o único Senhor – Ele, que não era asceta, que amava a vida, mostrando-se tão amigo dos homens que multiplicou o vinho e que, inclusive, seus adversários chamaram de comilão e beberrão, depois de um banquete (Mt 11,19).

A pobreza evangélica não tem nada a ver com renúncias mensuráveis, com sucessos autoimpostos. É muito mais radical e, simultaneamente, mais libertadora. O conselho de Jesus ao jovem rico indica o primeiro passo fundamental. O Mestre encoraja o jovem que está disposto a fazer tudo, com as seguintes palavras: “Deixa tudo!” Tudo o que tens, dá aos pobres e segue-me com as mãos livres! “Francisco experimentou que a promessa se torna realidade para todos que seguem este conselho: “Quem arrisca tudo pelo Reino de Deus, quem, por isso, renuncia inclusive à casa, família, profissão e carreira, quem seguir Cristo com as mãos e os pés livres, com corpo e alma e com um coração livre, deixa muitas coisas, é verdade, mas recebe a seguir cem vezes mais!” (...) A confissão de uma pobreza que arrisca muito mais do que a pobreza dos monges que, no recolhimento de uma abadia levam uma vida regular e segura: a pobreza dos apóstolos faz com que o poverello percorra a Itália dum modo inseguro e com as mãos vazias, não sabendo de manhã onde poderá receber um pedaço de pão ao meio-dia e onde poderá repousar à noite. Numa pobreza que confia totalmente na bondade das pessoas e na misericórdia divina, é levado como irmão até França e Espanha, até o Egito e o acampamento do Sultão – com a confiança de mãos vazias e seguidor da missão pascal dada aos Apóstolos “anunciar o Evangelho a todos as criaturas” e “até aos confins do mundo“. Mesmo os supostos inimigos tornam-se amigos, como demonstra o próprio Sultão Malik al Kamil“.

Também esta história exemplifica como Francisco e sua primeira fraternidade transpõem o Evangelho para a sua própria realidade. Possívelmente, aconteceu um pouco mais tarde. Francisco voltou da Palestina à Itália:

O Poverello está outra vez na Cidade Santa, e o Cardeal Hugolino convida-o para comer. O bispo e “Senhor de Ostia” aproveita a oportunidade de apresentar o frade, que se tinha tornado famoso, aos seus familiares, nobres da família dos condes de Segni e a outros prelados. Há um banquete rico ao qual participam os senhores na hora do almoço. Para Francisco, está previsto o lugar de honra – bem visível para todos – ao lado do anfitrião. No entanto, no meio dos senhores nobres e excelências, o irmão menor parece não se sentir muito bem – ou é desta vez o banquete rico? De qualquer modo, pede licença por pouco tempo, desce para a ruela e senta-se no meio dos mendigos que pedem os restos da comida à porta do Senhor Cardeal. Quando Francesco tem suficientes migalhas de pão e restos de legumes no seu recipiente de madeira, volta para a companhia de Hugolino, distribui a cada hóspede algo das suas dádivas e senta-se outra vez... Após a refeição, Hugolino leva o poverello à parte, abraça-o perguntando-lhe um pouco embaraçado porque o tinha comprometido sobremaneira com esta atitude: “Não Vos honrei?” – ao que Francisco responde: – “Honrando um Senhor maior? Deus mesmo ama a pobreza, e eu quero seguir o meu Senhor que abdicou da sua riqueza, tornando-se pobre por nossa causa”.

A pobreza que Francisco chegou a amar seguindo os passos de Jesus tem uma força de união. A riqueza de Hugolino, no entanto, divide. O poverello supera o abismo existente entre o rico banquete do Cardeal com os seus amigos escolhidos, e os mendigos famintos à sua porta. O “Senhor de Ostia”, ex ofício “sucessor dos apóstolos” não conheceu esta pobreza que dá tudo o que tem, cujo amor une e liberta os homens, que dá vida e, repartindo também dá ao doador – cem vezes mais. A atitude exemplar do poverello na casa de Hugolino, é o paralelo de uma parábola de Jesus, da qual o prelado muito bem se recorda. Também na Roma medieval há Lázaros pobres e ricos comilões: bendito quem supera o abismo enquanto houver tempo.

6. “Agradar Cristo e seguir as suas pegadas”
Sucessão na fantasia do amor

Francisco estima, medita sobre e interioriza o Evangelho de tal maneira que lhe mostra, em todas as situações da vida, as “pegadas” de Jesus e faz ouvir a voz “do Filho de Deus” (CtOrd). A Palavra de Deus não só quer ser conhecida e estudada, mas sim quer fazer nascer Cristo de novo em nós através da nossa vida (Carta aos Fiéis). Num caso extremo deve-se, até mesmo, dar o único livro de Evangelhos se não for possível ajudar uma pessoa sofrente de outra maneira. No inverno de 1220/21, Francisco pede ao responsável da “Comunidade Exemplar” que se ofereça o único Livro de Evangelhos de Porciúncula a uma mãe empobrecida de dois irmãos para que ela o possa vender vencendo assim a sua miséria. Pois, Cristo gosta mais que os irmãos convertam a sua Palavra em ações concretas do que apenas rezem e meditem: “Tive fome e vós destes-me de comer.”

A prontidão de seguir com ações concretas o conselho de Jesus dirigido ao homem rico torna-se o critério para novas vocações no caminho da “fraternitas” franciscana. Escreve em 1223 na sua regra definitiva o que resulta da experiência própria radical e libertadora:

Se alguém movido pelo espírito de Deus quiser adotar esta vida e vem até aos nossos irmãos deve ser acolhido por eles com carinho. Se estiver decidido a escolher esta forma de vida... então os responsáveis devem dizer-lhe a Palavra do Evangelho para que ele vá a vender tudo o que possua cuidando de distribuir o provento entre os pobres. (RegB 2)

Não deve haver outra norma do que o Evangelho. A fantasia do amor demonstra a cada irmão como agradar melhor a Cristo. Uma sucessão autêntica desenvolve-se no signo duma amizade pessoal para com Cristo.

Fr. Leão já se encontra a caminho com o “poverello” há dez anos e é o seu mais íntimo. Embora já não seja principiante anseia instruções mais precisas para a sucessão. Em linhas escritas desajeitadamente, Francisco responde ao “seu irmão” e é ao mesmo tempo sensível como uma mãe. Mas, a sua liberdade evangélica, que escolheram juntos, não precisa de normas. Francisco evita entrar no papel dum líder ou dum mestre:

Fr. Leão, do teu irmão Francisco Paz e todo o Bem. Assim te digo, meu filho, como uma mãe, por todas as palavras que tocamos durante o caminho, resumo abreviando nesta palavra e aconselho-te tal – e tu, (depois,) não precisas de vir até mim, para ser aconselhado. Pois aconselho-te o seguinte: de que modo te pareça melhor agradar ao Senhor nosso Deus e seguir as Suas pegadas e a Sua pobreza, fá-lo com a benção do Senhor Nosso Deus e fraternalmente unido a mim. E se for necessário para a tua alma para obter uma consolação ou se quiseres por ti voltar para mim – vem!” (Leão)

A cartinha que Leone mantém durante mais de 50 anos no seu hábito, refleta a liberdade original franciscana da vida. Auto-responsabilidade une-se à solidariedade. Nenhum irmão e nenhuma prescrição, nenhuma pessoa e nenhum cargo devem colocar-se entre Cristo e aqueles ou aquelas que O sigam por amor. Nem leis ou instruções dum outro, mas sim a própria fantasia sabe melhor de que modo o discípulo agrada ao seu Mestre e o amigo agrada ao seu amigo. O “poverello” desperta no companheiro a coragem para se deixar dirigir na sucessão de novo pela fantasia do próprio amor.

7. “forma vivendi”
Núcleo da forma franciscana de viver

O texto mais antigo de Francisco que nos foi transmitido é a chave mais bonita da sua espiritualidade que se abre em relações ricas e intensas, através do seguimento de Jesus Cristo. Nos primeiros tempos da sua comunidade, Clara pede ao irmão que escreva a sua forma de viver em poucas linhas. O Poverello sintetiza numa única frase o que admira em São Damião, por volta de 1212. Mais tarde, há de aplicar esta ótica da vida cristã em toda a sua liberdade e em toda a sua riqueza a cada forma cristã de viver, apresentando-a na carta dirigida aos fiéis.

Movido pelo amor, Francisco escreveu a forma de viver da seguinte maneira:

“Visto que, por divina inspiração vos fizestes filhas e servas do altíssimo e sumo Rei, o Pai celeste, e desposastes o Espírito Santo, escolhendo viver segundo a perfeição do santo Evangelho, quero e prometo, por mim e por meus irmãos, ter sempre por vós diligente cuidado e especial solicitude, como tenho por eles” (RSC, VI,3-4)

A estrutura interna desta forma de vida torna-se mais nítida quando a única frase um pouco complicada será dividida nos seus sujeitos atuantes e, depois, num esboço:

Em escritos posteriores, esta primeira espiritualidade – vivida pelas irmãs de Clara e descrita por Francisco – apresenta-se como caminho para todos os fiéis de qualquer forma de viver. Na carta dirigida a todos os fiéis, a relação com Cristo abre-se numa tríplice forma de intimidade:

„E à medida que todos aqueles e aquelas fizerem tais coisas e perseverarem até o fim, pousará sobre eles o espírito do Senhor... e serão filhos e filhas do Pai celestial cujas obras realizam. E são esposos, irmãos e mães do nosso Senhor Jesus Cristo. Somos esposos, quando a alma fiel se une pelo Espírito Santo a Jesus Cristo. Somos seus irmãos, quando fazemos a vontade do Pai que está nos céus; somos mães, quando O trazemos em nosso coração e nosso corpo através do amor e da consciência pura e sincera; damo-lo à luz por santa ooperação que deve brilhar como exemplo aos outros (2Fi 48-53)“.

8. Encarnação
Admiração da “proximidade de Deus na terra”

As pegadas de Jesus levam o irmão peregrino também a Belém, o mais tardar em 1220, e isso, com corpo e alma. O seu compromisso contra a cruzada fracassa, no campo da aliança cristã, mas, do outro lado do Nilo, ganha um amigo, o Sultão al-Malek al-Kamil. Este consente que o Poverello continue livremente o caminho rumo à Palestina. De volta à Europa e, no Natal, o irmão procura meios de levar, também os camponeses da Itália, aos campos dos pastores de Belém: espiritual e palpavelmente. A festa natalícia de Greccio havia de entrar para a história. Francisco encenou o nascimento de Jesus, de tal forma realista, fundando assim a tradição do presépio, por ocasião da festa. O irmão passou a época fria do Advento de 1223, com poucos companheiros, na eremitagem de Greccio: era constituída de grutas sobre o vale de Rieti com a vista panorâmica para a planície suave até aos montes Sabinos ao norte de Roma.

Tempos de silêncio, após semanas de caminho, permitem refletir sobre as experiências e vivências feitas. Simultaneamente, abrem espaço para beber de fontes profundas e para estar só com Deus. Francisco quer, da mesma forma que seu Mestre, ir até Deus quando vem do meio dos homens, e vir de Deus quando for a estes (cf Mc 1,21-39). O biógrafo inicia a narrativa da festa natalina digna de menção, com a indicação de que o santo teria, “refletindo constantemente sobre as palavras do Senhor, não perdendo de vista nunca as Suas obras. Sobretudo, porém, sua humildade na encarnação e o seu amor na morte deixaram profundas marcas na sua memória.” A admiração sobre o caminho de Deus na terra inspira o poverello, duas semanas antes do Natal, a preparar uma festa especial juntamente com um fidalgo amigo, da região. A mesma devia, de maneira palpável, chamar a atenção, dos irmãos e do povo, para o amor e a humildade de Deus. Efetivamente, as pessoas munidas de archotes encontram na noite santa, na gruta dos irmãos, um menino recém-nascido em cueiros, deitado em palhas entre um boi e um burro. Na celebração da Eucaristia, sobre o presépio vivo, Francisco lê o Evangelho, ao qual a gruta, as palhas, os animais, o pequeno menino e a multidão fornecem um colorido nunca experimentado. Naquele tempo, como termina a descrição da comovente celebração, “nasceu o menino Jesus, de novo, nos corações de muita gente.” (1Cel 84-87).

Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/bibliothek/charisma/Kuster_Text.shtml?navid=103 acesso em 20 fev. 2010.

Ilustrações:
Cinema Strenge w czasie festiwalu Castle Party 2008 / Lilly M. 2008. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cinema_Strenge_Castle_Party_2008_08.jpg acesso em 21 fev. 2010.

Detainees at Camp X-Ray / Shane T. McCoy, U.S. Navy. 2002. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Camp_x-ray_detainees.jpg acesso em 21 fev. 2010.

The Lord's Prayer / James Tissot. Brooklyn :Brooklyn Museum, 1886-1896. (The Life of Christ). Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:TissotLordsPrayer.JPG acesso em 21 fev. 2010.

Thousands of footprints in the surge ash deposit of the Avellino eruption (1660 BC ca.-(+/-43 yrs, carbon-dated)) testify to an en masse exodus from the devastated zone / Giuseppe Mastrolorenzo, Pierpaolo Petrone, Lucia Pappalardo, and Michael F. Sheridan. 2006. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:SheridanVesuviusFootprints.jpg acesso em 21 fev. 2010.

Anbetung vor dem Thron Gottes. ca. 1000. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:BambergApocalypseFolio010vWorshipBeforeThroneOfGod.JPG acesso em 21 fev. 2010.

Vitrail l'Annonciation / par l'abbé Suger. Saint-Denis : Basilique de Saint Denis, Séc. XII. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vitraux_Saint-Denis_190110_19.jpg acesso em 21 fev. 2010.

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