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sexta-feira, 29 de junho de 2012

A PIOR DOR É A DOR DA SOLIDÃO, A DOR DO PECADO...




A PIOR DOR É A DOR DA SOLIDÃO, A DOR DO PECADO...

As aparências enganam...
Vivemos em uma sociedade hedonista...
Que prega o prazer pelo prazer, o estético pelo estético.
E, no entanto, as almas afundam no vazio existencial...
Porque a busca do estrelato, contrasta com dor da solidão,
do anonimato perante Deus...

Muitos vendem a alma por quinze segundos de fama...
Outros expõem o corpo como meio eficaz para atingi-la mais rápido...
Todavia, o voo catapulta rumo ao cume de celebridade...
Só tem aumentado a decadência, subtraindo-lhe a dignidade...
E nesses casos, as aparências que parecia ser tudo, é nada...

De fato, não se medem os homens pelo que aparentam ser ou ter,
Mas pelo viver sem mácula...
Pelos frutos que a árvore dá...
Só que toda árvore recebe seiva de alguma fonte...
E logo sabemos, pela fonte, qual é o fruto produzido...
Então, que fonte está abastecendo a árvore do viver?

Infelizmente, em nossa sociedade, a mídia tem sido a fonte...
E quem tem abastecido a mídia?
Os interesses materiais...
Os status sociais...
O ”Ibope” e seus derivados...
E quem dá mais...

Amparada pelo poder político, jurídico e seus mandatários...
Assim, a bola da vez se chama corrupção,
Sustentada por “bons” advogados e “Habeas Corpus” comprados...
De tal forma, que contraventor é tratado como “digna” celebridade...
E os “justos juízes” que ainda existem e investigam,
emitem mandados que são considerados escutas ilegais
Por isso, são pessoas “non gratas”...

E assim, ninguém pune ninguém...
Tudo fica como está ou “ vai dá em pizza”...
E ai de quem falar da mídia...
Porque isso é censura, e lembram a ditadura,
para assim se defenderem mais facilmente dos ataques adversos aos seus interesses midiáticos...

Então, Tvs podem mentir,
Jornais e revistas podem omitir a verdade...
Porque o importante é que a massa mal informada,
permaneça mal informada...
Pois uma mentira bem contada, torna-se “verdade absoluta”...
Visto que, o que se leva em conta é a surpresa da notícia...
E não a verdade como ela é ou deva ser dita...
Contanto que a maldita da corrupção prevaleça...

E assim, milhares e milhões se ligam na televisão
e outros meios de comunicação...
E o pior de tudo, tem sido a única fonte de informação
e formação do nosso povo...
Que grudado na Globo e outras tantas por ai,
faz aumentar o patamar de desinformação e alienação...
Sem que tenhamos qualquer chance de uma sociedade mais justa e igualitária...

Mas, atenção, muita atenção...
Porque a todos foi dado um tempo...
Para que nesse tempo cultivemos os valores eternos presentes em nossas almas...
Amor, perdão, bondade, fidelidade, obediência, mansidão, simplicidade, honestidade, conversão, etc...
O fato é que esse tempo se esgota a cada instante vivido...

Porém, ai daqueles que nesse tempo,
enveredam pela via da contravenção,
da desonestidade, da malignidade, da perversão...
Esses não terão outro futuro na eternidade,
a não ser a perdição que cultivaram...
Não por falta de aviso,
porque Deus deu a todos o ser, a consciência e a liberdade...
que é o poder de decisão para o bem e não para o mal...
Assim, cada um sentirá o alívio ou dor que causou no tempo que lhe foi dado...
Todavia, a pior dor é a dor da solidão, a dor do pecado...

Dizem os homens: as aparências enganam,
Porque quem vê cara não vê coração...
Isso é verdade, mas não podemos esquecer que,
onde há fumaça também há fogo...
Ora, Deus conhece a essência de cada um de nós...
E por isso, haveremos de ter um juízo justo...

“Então, não julguemos antes do tempo;
esperemos que venha o Senhor.
Ele porá às claras o que se acha escondido nas trevas.
Ele manifestará as intenções dos corações.
Assim, cada um receberá de Deus o louvor que merece”. (1Cor 4,5).

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.


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quinta-feira, 28 de junho de 2012

A Oração das Cinco Chagas

  • Tradução Fr. José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap

Como nos diz sua Legenda (LSC 30), Santa Clara rezava frequentemente uma "Oração das Cinco Chagas". Qando a santa estava à morte, pediu que a Irmã Inês de Opórtulo lhe recitasse essa oração (ProcC 10,10). Depois de ter estudado diversos manuscritos, Frei Zeffirino Lazzeri OFM apresentou-nos um texto (AFH 16 (1923) 246-249). Quem quiser poderá encontrar aí melhor documentação. Apresento apenas a tradução da oração. Nessa ocasião, alertou que provavelmente essa oração não foi composta por Santa Clara, como já se acreditou, mas ela a aprendeu como tinha a-prendido o Ofício da Paixão de São Francisco.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

A tentação da palhota

 
Fr. Fabiano Aguilar Satler, ofm

Ao fim deste itinerário de visita e de presença nos lugares associados à vida de Francisco na região da Umbria, do Lascio e da Toscana, uma certeza resulta clara: Assis não é o meu lugar, a Porciúncula não é o meu lugar, o Monte Alverne não é o meu lugar. Na verdade, nenhum dos eremitérios ou igrejinhas visitadas é o meu lugar. Explico-me. Esses lugares, principalmente os eremitérios no alto dos montes e no meio dos bosques, gritam o nome de Francisco, de Clara e dos seus primeiros companheiros. Nesses lugares, as pedras, das grutas ou das igrejinhas, falam continuamente ao longo de oito séculos: Francisco, Clara, Leão, Bernardo, Inês, Egídio, Rufino, Filipa, Masseo e tantos outros nomes da primeira geração do franciscanismo. O silêncio no meio dos eremitérios grita o nome de Deus. A natureza, no alto das montanhas ou na baixada dos vales, proclama em alta voz a fonte e a origem de quem ela espelha tamanha beleza. Diante de tudo isso, a tentação resulta clara: erguer aqui a nossa palhota e estabelecer nesses santuários a nossa zona de conforto. Ceder a essa tentação seria um grave erro por dois principais motivos.

O primeiro deles é que o próprio Francisco não se estabeleceu nesses lugares. Nesse sentido, ele nada mais fez do que seguir, mais uma vez, os passos do Filho de Deus, que continuamente se afastava da multidão e subia ao monte para rezar e para descansar no Pai. O Pai, entretanto, nao deixava o seu Filho descansar e o impelia, novamente, para o meio da multidão, para revelar a ela o rosto paterno-materno-compassivo de Deus. Foi assim com Francisco, que, enquanto a saúde o permitiu, alternava períodos passados nos eremitérios com períodos de itinerância e de pregação nos povoados e cidades próximos. Estes espaços sagrados do franciscanismo, portanto, ao mesmo tempo que são patrimônio espiritual, teológico, arquitetônico e ecológico da humanidade inteira, não são, paradoxalmente, o meu espaço.

O segundo motivo é que o tempo de Francisco e de Clara, ao qual todos esses espaços nos remetem, não são, afinal, o nosso tempo. A essa constatação óbvia parecemos não dar a importância devida. Profundas mudanças marcam o nosso tempo em relação ao tempo de Francisco e de Clara. Por exemplo, há diferenças marcantes entre o primitivo sistema econômico da nascente burguesia do tempo de Francisco e o intrincado sistema econômico atual, onde a má gestão pública e econômica de um país pequeno qualquer repercute imediatamente na economia e na vida política de grandes países em continentes diversos. Começamos a viver, no nosso tempo - e estamos experienciando apenas o princípio das dores -, as consequências de uma crise ecológica inexistente no tempo de Francisco. A guerra, algo totalmente amador no tempo de Francisco (é quase cômico notar que, como Francisco, para se tornar um soldado, bastava comprar a armadura, a espada, o cavalo e, pronto, o hábito fazia o monge, nesse caso, o guerreiro), tornou-se, hoje, uma indústria bélica com vida própria e acima dos governos nacionais. E, para citar apenas uma última diferença, talvez a mais significativa delas para nós, franciscanos e franciscanas, Deus não ocupa mais, no nosso tempo, o horizonte que ele ocupava na sociedade feudal do tempo de Francisco. A pós-modernidade é uma realidade com a qual ainda não aprendemos a lidar ou apreender de maneira satisfatória.

Diante dessa realidade, nós, franciscanos e franciscanas, temos a tarefa irrenunciável de discernir os elementos fundamentais do franciscanismo das origens e de traduzí-los para o nosso tempo e para o espaço social onde nos inserimos. Renunciar ou executar mal essa tarefa significa perder a nossa relevância carismática no meio da Igreja e do mundo. Se isso vier a acontecer, vamos morrer lenta e inexoravelmente e nos transformaremos em um capítulo, volumoso, certamente, nos anais da história eclesiástica. Essa não é uma realidade totalmente implausível. Como na teologia dos textos bíblicos, uma boa hermenêutica se fundamenta em uma boa exegese. Para ensaiarmos uma tradução significativa para o nosso tempo do franciscanismo das origens, é necessária uma compreensão adequada dos elementos fundamentais do fenômeno que foi o movimento de Francisco e de Clara. Se não fizermos isso, cairemos no erro de, a exemplo de alguns grupos de cunho pentecostal, que se multiplicam na Igreja do Brasil, nos fantasiarmos com um hábito franciscano e nos entregarmos à falta de higiene e de formação a que é submetida a população de moradores de rua. Esses grupos são sinceros na sua intenção. E pitorescos e exóticos. Nada mais.

Assim, de uma maneira bem simples e informal, mais rezado no coração nestes dias de passagem pelos santuários franciscanos, do que refletido com a ajuda imprescindível das ciências acadêmicas, tento discernir alguns desses elementos, sobre os quais, acredito, há um certo consenso.

O primeiro desses elementos do fenômeno franciscano é a dimensão da fraternidade. Essa dimensão é uma consequência lógica da identificação de Francisco com o crucificado, que, com a encarnação, se fez nosso irmão e que sentenciou: todos vocês são irmãos (Mt 23,8). A fraternidade exprimiu-se de maneiras diversas na vida de Francisco e de Clara: no amor aos irmãos e às irmãs, nos regulamentos da vida comum, na organização dos serviços de governo da fraternidade. na sua comunhão com a Igreja, na sua irmandade com as demais criaturas e no envio missionário. A fraternidade na vida franciscana manifesta-se no microcosmo das relações interpessoais dentro da fraternidade local de frades, freiras ou franciscanos seculares, e no macrocosmo da fraternidade em níveis mais amplos: outros atores dentro da Igreja, sociedade e o restante da criação. Na sociedade civil, um termo fala forte: solidariedade. A fraternidade é o nome cristão para a solidariedade. O franciscanismo poderia fermentar as estruturas e a hierarquia da Igreja com um pouco mais de fraternidade. Teríamos, então, estruturas mais fraternas e menos piramidais, mais inclusivas e menos exclusivas, mais femininas e menos machistas de discernimento e de tomada de decisões na Igreja. E a Igreja teria, então, um lastro moral para propor, ao mundo, essa mesma fraternidade cordial e organizacional que ela vive. Infelizmente, pelo menos nos três ramos da Ordem dos Frades Menores, essa cultura organizacional fraterna foi perdida logo a seguir à morte de Francisco. Desde o generalato de São Boaventura, a Ordem Franciscana encontra-se dividida e discriminada institucionalmente entre frades clérigos (padres) e frades leigos (irmãos), sendo proibido a esses últimos o acesso ao ministério de superiores na Ordem. Essa discriminação fere a fraternidade querida por Francisco, que se veria, hoje, proibido de governar a sua fraternidade como ele o fez, até que renunciasse em favor de outro irmão, Pedro Catani. Por mais grave que essa discriminação possa parecer para alguns, não o é para a quase totalidade de frades na Ordem, clérigos e mesmo leigos. Neste sentido, pelo menos para os frades menores, sobre o tema da fraternidade deveria ser feito, paradoxalmente, o mais absoluto silêncio, sob o risco de expormos, ainda mais, a nossa arraigada incoerência institucional a respeito.

O segundo elemento é o primado de Deus e a centralidade de Jesus como acesso à vida trinitária. Visitando as igrejas de Roma e das cidades medievais do itinerário de Francisco, uma constatação foi-se confirmando: das igrejas medievais que sobreviveram aos terremotos ao longo dos séculos, poucas sobreviveram ao renascimento e ao barroco.  Do lado de fora ficou a fachada medieval em pedra. No interior, a exuberância do renascimento e do barroco, que substituiu a construção original. Há algo de carnavalesco nas igrejas renascentistas. O desfile das escolas de samba no Rio de Janeiro são um grandioso e bonito espetáculo de cores e de esculturas imensas compondo carros alegóricos cada ano maiores. Correndo o risco de parecer grosseiro, a sensação ao entrar em uma igreja renascentista foi essa: adentrar uma imensa Marquês de Sapucaí, sem samba e silenciosa, sem corpos nus, mas com pessoas vestidas com decoro, com esculturas feitas não de isopor para durarem a efemeridade de pouco mais de uma hora, mas de mármore para a posteridade. Tudo é belo. Entretanto, o olhar e a atenção se perdem diante de tantas esculturas, pinturas e mosaicos. Onde está o altar? Onde está o crucificado? Onde está o ressuscitado? Por ali, no meio daquela profusão de esculturas e de pinturas de santos, de papas, de anjos e de outras coisas que a criatividade humana foi capaz de fazer. Uma igreja medieval, como a de Santa Maria Maior, ao lado da casa do bispo, em Assis, é diferente. Há apenas a parede nua em pedra e o crucifixo ao fundo, com o altar. Desde a entrada, os nossos olhos se fixam apenas em um elemento: o ícone do crucificado. Abrimos e fechamos os nossos olhos na oração e temos sempre à nossa frente a mesma imagem: o crucificado. A mesma experiência pode ser feita nas igrejinhas dos eremitérios franciscanos. Talvez se trate apenas de uma experiência e preferência estética. No Brasil, entretanto, a profusão barroca é mais do que uma realidade arquitetônica ou estética. É uma forma de religiosidade que continua a marcar a nossa Igreja. A pessoa de Jesus e do seu evangelho encontram-se misturados e perdidos em um emaranhado de santos, de ladainhas, de novenas, de promessas e de outros produtos religiosos, que o pentecostalismo católico tenta manter vivo por meio de um marketing de caráter duvidoso. Puebla ressaltou o papel da religiosidade popular na América Latina. Mas, será isso ainda válido na geração da internet? A religiosidade barroca dos nossos pais está tendo alguma incidência na vida dos filhos? Acredito que pouco e, certamente, menos ainda em um futuro próximo.

Nesse contexto, como propor às novas gerações a experiência salvífica do crucificado-ressuscitado que guiou o itinerário de Francisco? Como devolver à nossa Igreja a dimensão mistagógica dos seus ritos e sacramentos, levando àqueles que neles tomam parte uma transformação cristificante, a exemplo do que aconteceu com Francisco e Clara? Como passar do rito à vida e da vida ao rito em uma sociedade tão conflituosa e violenta como a brasileira? Acredito que esse caminho franciscano passa a léguas de distância do triste espetáculo de mal-gosto em que tem se transformado a celebração da eucaristia no Brasil, que tem servido mais para emoldurar o ego de padres televisivos e cantores, do que para sinalizar o mistério do crucificado-ressuscitado presente em nosso meio. Nas nossas passagens pelos grandes santuários franciscanos, pudemos experimentar um pouco da beleza que o rito e o canto proporcionam ao orante. Essa milenar tradição orante da Igreja pode ser um ponto de partida para oferecer alimento saudável às novas gerações.

Finalmente, o terceiro elemento talvez seja a dimensão ecológica do carisma franciscano. Assis e os seus arredores são exatamente aquilo que o nosso coração imagina: uma cidade cercada de oliveiras, de trigais manchados de flores campestres, onde o vento faz movimentos como nas águas de um oceano, cheia de canto de pássaros. Os eremitérios franciscanos são um misto de rocha bruta mesclado com um verde próprio dos bosques daqui. Junte-se a isso o céu azul, o canto dos pássaros, o sibilar do vento e o silêncio das montanhas e compreendemos com facilidade a personalidade ecológica de Francisco. Nele foram reunidas todas as virtudes cardeais ecológicas. Quando nos deparamos com os vícios e males ambientais da sociedade brasileira, compreendemos a atualidade de Francisco de Assis. Talvez esteja no nosso empenho pela integridade ambiental  a principal contribuição da família franciscana do Brasil à diversidade carismática da Igreja. Há uma séria crise ambiental em curso em relação à qual estamos fechando os nossos olhos. Estamos nos comportando como os nossos antepassados do regime colonial e monárquico, que fecharamos os olhos à grave questão da escravatura negra e encheram os conventos franciscanos e clarianos no Brasil com mão-de-obra escrava. Vamos perder, mais uma vez, o bonde da história?

A Amazônia tornou-se uma das principais praças mundiais no que se refere à crise ambiental. Nela, tudo assume grandes proporções: a extensão geográfica, a imensidão das matas, o porte das árvores, a extensão dos rios e a capilariedade da bacia hidrográfica, o volume de água doce, a biodiversidade, a variedade étnica e linguística dos povos indígenas. Mas, nela igualmente assumem proporções catastróficas a devastação das matas, as queimadas, os conflitos relacionados com a invasão de reservas indígenas, a ambição das mineradoras e os projetos bilionários do Governo Federal para a região. Para grandes obras, grandes desvios de dinheiro para o caixa dois do partido no governo e de seus aliados. Um mapeamento da presença franciscana no Brasil mostrará o quanto estamos ausentes dessa realidade. Vamos perder, mais uma vez, o bonde da história?

Apesar da ilusão presente, não acredito que o cristianismo do futuro no Brasil seja um fenômeno de massas. Menos ainda o será a vida consagrada e, por extensão, a vida franciscana. Temos uma opção simples a fazer: ou sermos uma minoria qualitativa que projeta o seu futuro em uma determinada direção, ou meros administradores de trabalhos e obras herdadas, instalados comodamente em nossa zona de conforto.

No eremitério de Montecasale, há um simpático e idoso frade capuchinho. Lá, ele conta com um sorriso no rosto uma história apócrifa relacionada com São Francisco durante a sua estadia nesse local. Conta-se que, nesse local, dois jovens procuraram Francisco desejando tornarem-se frades. Francisco os levou até a horta e pediu aos dois para ajudá-lo a plantar couves da maneira como ele fazia: com raízes para cima e as folhas enterradas. Um dos canditados assim o fez. O outro, entretanto, replicou: mas, não é essa a forma de se plantar o que quer que seja; as raízes devem ser postas na terra. São Francisco replicou: vejo que és inteligente; não és, porém, obediente. E dispensou o jovem. O outro candidato que plantou a couve tal qual fora instruído por São Francisco, tornou-se, alguns anos depois, o guardião da fraternidade de frades desse lugar. E, conta-se, também, que a sua couve plantada às avessas enraizou e produziu belas folhas, enquanto a outra secou e murchou. Essa pequena história, piedosa, como tantas outras acerca de São Francisco, carrega uma verdade profunda: quem quiser se colocar na estrada do seguimento de Cristo, ao modo de Francisco, deve aprender a plantar couves com raízes para cima, isto é, fazer as coisas e ser de um jeito diferente do esperado.

A morte de Cristo e o seu retorno à comunhão trinitária tem um motivo pedagógico: permitir que amadurecêssemos enquanto Igreja, que aprendêssemos a caminhar com nossas próprias pernas, guiados pela memória do ensinamento e da prática de Jesus. Também Francisco sentenciou próximo à sua morte: fiz a minha parte, o Senhor vos ensine a fazer a vossa. Para discernirmos a parte que nos cabe, é importante subir os lugares ermos do franciscanismo da Itália e os lugares ermos no Brasil. Mas, tão importante quanto subir é descer e discernirmos a presença salvadora de Deus na conflituosa história humana.

terça-feira, 26 de junho de 2012

DE ONDE NASCEM OS NOSSOS PENSAMENTOS?




DE ONDE NASCEM OS NOSSOS PENSAMENTOS?

São três as coisas que manifestam e distinguem a vida cristã: a ação, a palavra e o pensamento. Das três, tem o primeiro lugar o pensamento. Em seguida, a palavra, que nos revela o pensamento concebido e impresso no espírito. Depois do pensamento e da palavra vem, na ordem, a ação, realizando por fatos o que o espírito pensou.

Portanto, se alguma coisa na vida nos induz a agir ou a pensar ou a falar, é necessário que o nosso pensamento, a nossa palavra e a nossa ação sejam orientados para a regra divina daqueles nomes que descrevem a Cristo, de modo a nada pensarmos, nada dizermos e
nada fazermos que se afaste do seu alto significado.

Então, o que terá de fazer aquele que se tornou digno do grande nome de Cristo, a não ser examinar diligentemente os próprios pensamentos, palavras e ações, julgando se cada um deles tende para Cristo ou se lhe são estranhos? De muitas maneiras operamos este magnífico discernimento. Tudo quanto fazemos, pensamos ou falamos com alguma perturbação, de nenhum modo está de acordo com Cristo, mas traz a marca e a figura do inimigo, que mistura a lama das perturbações à pérola da alma para deformar e apagar o esplendor da joia preciosa.

O que, porém, está livre e puro de toda afeição desordenada, relaciona-se com o Autor e Príncipe da tranquilidade, o Cristo. Quem dele bebe, como de fonte pura e não poluída, as suas ideias e os seus sentimentos, revelará em si a semelhança com o princípio e a origem, tal como a água na própria fonte é igual à que corre no límpido regato e à que brilha na jarra.

De fato, é uma só e mesma a pureza de Cristo e a que se encontra em nossos espíritos. Mas a pureza de Cristo brota da fonte, enquanto que a nossa dela flui e chega até nós, trazendo consigo a beleza dos pensamentos para a vida. Portanto, a coerência do homem interior e do exterior aparece harmoniosa, quando os pensamentos que provêm de Cristo guiam e movem a modéstia e a honestidade de nossa vida.

Paz e Bem!

Fonte: Do Tratado sobre a verdadeira imagem do cristão, de São Gregório de Nissa, bispo (PG46,283-286) (Séc.IV).


Revista São Francisco em conversa

Revista [eletrônica]
São Franscisco em conversa

domingo, 24 de junho de 2012

A Nobre Família de Clara de Assis

Gemma Fortini


Publicado originalmente na revista
Franciscan Studies, v. 42. ano 20, 1982.
P. 48-67.
Tradução Fr. José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap

Pouco se sabe sobre a família de Santa Clara de Assis. O que é conhecido está na Legenda de Santa Clara Virgem, escrita por Tomás de Celano, e no Processo de Canonização.¹

A razão desse silêncio sobre a famosa linhagem nobre de Clara está no desejo dela mesma. Benvinda de Perusa, que seguiu a Santa no convento no mesmo ano de sua conversão, diz o seguinte: "Dona Clara não queria falar de coisas seculares, nem queria que as Irmãs as lembrassem".² Mas chegaram informações básicas até nós para nos ajudar a estabelecer os fatos a respeito de sua família. Clara nasceu em Assis em 1193, e morreu na mesma cidade em 1253, aos sessenta anos.

Sobre ela se escreveu: "a Virgem Clara era de nobre nascimento"; "seu pai, messer Favarone, era nobre, grande e poderoso na cidade, ele e os outros de sua casa"; "Clara era da mais nobre parentela de toda a cidade de Assis, do lado do pai e da mãe"; "seu pai era militar, e a família, de cavaleiros, dos dois lados." Favarone, seu pai, era, portanto, miles, isto é, um cavaleiro feudal³, capaz de combater a cavalo e de perseguir bandos de inimigos de espada em riste. Também está escrito: "A casa era muito grande e continha vastas riquezas herdadas pela família de seu pai."

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Blog Frat. S. Leopoldo Mandic, OFS, Teresópolis

Blog da
Fraternidade São Leopoldo Mandic
Teresópolis, RJ

CRÔNICAS DE MINHA ALMA: A VIRTUDE DA HUMILDADE






CRÔNICAS DE MINHA ALMA: A VIRTUDE DA HUMILDADE

A humildade não é um simples sentimento, pois tudo o que sentimos naturalmente passa com o tempo, porque naturalmente os sentimentos se sucedem conforme as fases da vida. De fato, quando falo de sentimento, digo daquilo que sentimos psiquicamente, fisicamente, moralmente e espiritualmente.

Na verdade, porém, muito mais que um simples sentimento, a humildade é uma das virtudes do Espírito Santo de Deus presente na alma humana desde o primeiro instante do nosso batismo, pois a partir de então fomos feitos novas criaturas, dotadas de todas as virtudes celestes, para vivermos a vida nova dos filhos e filhas de Deus, isto é, em estado de graça, em plena comunhão com a vontade do Altíssimo.

O contrário da virtude da humildade, é o pecado da soberba ou orgulho, este é de origem espiritual e leva a alma humana a sofrer danos irreparáveis, quando não confessando e perdoado, porque seus efeitos são extremamente graves, tanto a nível pessoal como coletivo, visto que esses efeitos tornam o viver humano um inferno. Eis algumas atitudes do pecado da soberba: desprezo dos outros, ou seja, sentir-se melhor que os outros; oprimir e humilhar os menos favorecidos; achar-se a cima de tudo e de todos; não dar o braço a torcer, isto é, não se arrepender, não reconhecer os próprios erros, etc.

Santo Agostinho via a soberba como o pecado que levou Satanás a se afastar de Deus. O profeta Isaías assim escreveu sobre a arrogância satânica: “Tu dizias: Escalarei os céus e erigirei meu trono acima das estrelas. Assentar-me-ei no monte da assembleia, no extremo norte. Subirei sobre as nuvens mais altas e me tornarei igual ao Altíssimo. E, entretanto, eis que foste precipitado à morada dos mortos, ao mais profundo abismo”. (Is 14,13-15).

A motivação maior do orgulhoso é querer satisfazer o seu próprio ego. Rapidamente, porém, ele esbarra no “paradoxo do hedonismo”: quanto mais se busca o prazer, menos ele é encontrado” (*). E assim, segue a vida na insatisfação e no desespero de nunca encontrar a paz, por isso, procura projetar toda sua frustração em forma de revolta, procurando causar a infelicidade no maior número possível de almas que possa encontrar e atingir, já que não consegue o que quer. Desse modo, abre um abismo de perdição para si mesmo e para aqueles que se submetem às suas chantagens psíquicas e espirituais, ou seja, aqueles que se submetem às suas sugestões pecaminosas e se deixam levar por elas. É como nos ensinou o Senhor Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo: todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo”. (Jo 8,34).

Com efeito, assim escreveu Santo Agostinho: “Foi a soberba que transformou os anjos em demônios, mas é a humildade que torna os homens em anjos”. Na verdade, “a virtude da humildade é, talvez, a virtude que mais se distancia do arquétipo pregado pela cultura secular” (*). Porque, enquanto a cultura secular prega o vencer e aparecer a todo custo; a virtude da humildade ensina os humildes a amar a Deus acima de todas as coisas, procurando vencer-se a si mesmos, entregando-se aos seus desígnios de amor, a fim de que seja implantado o Reino de Deus e suas justiça.

Jesus, nas bem aventuranças, descreveu os humildes, assim: “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus!” (Mt 5,5). Portanto, “Os pobres de coração (os humildes) são chamados “bem-aventurados” não porque sua pobreza lhes conceda alguma condição meritória, mas porque precisamente apesar disso e em meio a sua sempre deplorável condição, o reino dos céus lhes traz a redenção pela graça de Cristo” (*). Porque, por sua humilde obediência amorosa, se submetem ao Senhor em tudo o que lhe apraz. De fato, o céu pertence aos humildes, àqueles que se submetem a Deus e o amam incondicionalmente.

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.

***
Tende um mesmo amor, uma só alma e os mesmos pensamentos. Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses, e sim os dos outros”. (cF. Fil 2,1-8).

***

(*) http://goo.gl/qh1ze


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quinta-feira, 21 de junho de 2012

"Entre vocês não seja assim"

Quem escapa da ânsia de sucesso e de influência, da disputa pelos primeiros lugares do desejo de reconhecimento e de aplausos? Associado a este sentimento está o sonho de subir, de estar acima dos outros. Ambição e eficiência são pré-requisitos óbvios para conseguir alguma coisa no estudo, no esporte, no trabalho e na vida cotidiana. Tudo depende da justa medida! Perdendo-se a medida surgem os problemas e a vida fica prejudicada.

Jesus mostra aos discípulos, onde estão as pedras de tropeço. Estando uma vez com os discípulos mais próximos, os doze apóstolos, observou neles este desejo tão humano de subir, de ter posição; então, ele deixou claro que esta vontade de alcançar os primeiros lugares, leva à arrogância e que o poder pode levar à corrupção e à dominação. "Entre vocês, não deverá ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês, e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos" (Mc 10, 43s).

Trata-se de uma inversão na escala de valores. O que é pequeno e insignificante deve ser considerado grande e o que é grande e valioso deve ser considerado pequeno e insignificante. Jesus fundamenta isto em sua própria missão. Ele, o Filho de Deus encarnado, não veio para ser servido, mas para servir (cf. Mc. 10,45). Deus pensa diferente dos seres humanos. Os pequenos estão no centro e os poderosos devem servir. A tarefa dos discípulos é concretizar no mundo esta divina e revolucionária conversão e para transforma-lo num mundo melhor.

Alguém realmente compreendeu esta lógica divina foi Francisco de Assis. Os leprosos lhe abriram os olhos. Quando ditou seu Testamento, pouco antes de sua morte, ele quis lembrar a todos os seus seguidores como tudo começou: mudando seu lugar social do centro rico de Assis para a periferia da cidade, vivendo aí nova vida ao lado dos pobres, no seguimento de Jesus de Nazaré. Aos irmãos que desejam partir em missão ele exorta: "Não litiguem nem porfiem, mas sejam submissos a toda criatura humana por causa de Deus e confessem que são cristãos. Quando virem que agrada a Deus, anunciem a Palavra de Deus..." (RnB, 16,5-6) Ele muda o conceito da missão: Missão como paciência e sensibilidade. Missão como serviço e não conquista, missão através do testemunho de vida.

Isto implica também numa forma diferente de compreender o envio da Igreja. Trata-se essencialmente de concretizar a mensagem libertadora de Jesus sobre o Reino de Deus, aqui e agora. Para isto Jesus convocou seu povo, sua Igreja como povo de Deus, como é apresentada na Constituição conciliar Lumen Gentium. Uma Igreja, na qual todos tenham a mesma dignidade porque todos participam no sacerdócio comum de Cristo. Uma Igreja, na qual todos os carismas e serviços têm lugar e onde "os grandes" são os servidores de todos, como Jesus o exige dos seus apóstolos.

Com certeza, na Igreja também existiu o desejo de poder. Muitas vezes, a missão se realizou com ajuda da espada, a arrogância de umas culturas e religiões triunfou sobre outras culturas e religiões. Mas também sempre houve mulheres e homens seguiram radicalmente a Jesus que, durante sua vida, serviram aos demais, tornando assim, visível o Deus que ama a humanidade.

É isso que homens e mulheres de hoje esperam. Como Cristãos somos enviados para este serviço ao mundo. Isto exige de nós tolerância e respeito frente a quem pensa e crê de modo diferente, exige buscar o diálogo de igual para igual. Exige a disposição de dar e receber. Conforme São Francisco, este relacionamento só é possível ao "submeter-se mutuamente", isto é, escutando e aprendendo dos demais. Francisco nos deu um exemplo que continua realmente ajudando hoje.


Andreas Müller OFM

quarta-feira, 20 de junho de 2012

VERDADES QUE PRECISAMOS OUVIR...





Ø  De fato, a idolatria permanece a mesma... Todavia, o perfeito que achamos nos outros, na verdade é o que desejamos para nós...

Ø  O amor verdadeiro é fundamentado na fidelidade, que goza a liberdade de ser único na vida de quem ama e por quem é amado...

Ø  Palavras são palavras; virtudes são virtudes, porém, precisamos falar com profunda convicção e humildade para que nossas palavras sejam virtuosas e façam um bem enorme aos que as ouvirem...

Ø  A Única Fonte inesgotável do amor é Jesus, presente na Eucaristia; qualquer outra fonte fora dele não convém, porque nenhuma delas gera a vida eterna...

Ø  A vida é bem mais do que tudo o que está fora de nós e que no mais das vezes introjetamos; ora, conhecemos isto pelo aquilo que resulta dessa introjeção; todo conteúdo que não vem de Deus, nos ofende, causa danos à nossa alma, nos faz débeis e dependentes de tais conteúdos...

Ø  Ao contrário, quando introjetamos os conteúdos que veem de Deus, eles geram em nós uma profunda paz, porque nos levam à permanência Nele... Pois tudo o que vivemos e fazemos na presença do Senhor e sob o seu comando, dá certo e gera profunda satisfação vinda do estado de graça que Ele nos dá...



Ø  Agora, se perguntarmos ao Senhor, é possível viver neste mundo sem pecado? Certamente ouviremos Dele: decida...

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.


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terça-feira, 19 de junho de 2012

O PECADO EXISTE E PRECISAMOS VENCÊ-LO






Desde que o homem pecou pela primeira vez,
que a condição pecaminosa ou a inclinação para o mal,
passou a fazer parte de sua vida...
Deste modo, o pecado se tornou não apenas um enorme peso,
mas também sinônimo de todo tipo de tragédia, de morte,
e de perdição temporal e eterna...
E isto acompanha a humanidade em sua trajetória existencial, rumo ao desfecho definitivo que se dá com a morte temporal...

Pela revelação divina, sabemos que o homem conheceu o pecado quando decidiu pela desobediência a Deus, aceitar a sugestão satânica de ser como Deus, a partir de suas próprias decisões sem a participação da graça divina...
Assim, cedeu ao mal sua liberdade e tudo o que tinha recebido de Deus; e o mal passou a querer dominá-lo a todo custo e a mantê-lo sob jugo de seu maléfico poder, mediante à escravidão das paixões desordenadas...

E então, como se libertar de tudo isto?
O que fazer para reconquistar a liberdade,
perdida pela desobediência e o subjugo das concupiscências?
Só existe um meio de sermos livres do pecado,
do poder do inferno e da morte eterna...
Esse meio se chama Jesus Cristo,
o Filho de Deus vivo e está presente no meio de nós...
E é por sua obediência agindo em nós que nos reconciliamos com Deus, nosso Pai e Senhor de nossa vida...

Com efeito, assim escreveu São Paulo:
“Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher e nasceu submetido a uma lei, a fim de remir os que estavam sob a lei, para que recebêssemos a sua adoção.
A prova de que sois filhos é que Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” (Gl 4,4-5).

Por isso: “De agora em diante, já não há nenhuma condenação para aqueles que estão em Jesus Cristo [pelo batismo que recebemos].
A lei do Espírito de Vida me libertou, em Jesus Cristo, da lei do pecado e da morte. O que era impossível à lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez. Enviando, por causa do pecado, o seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne, a fim de que a justiça, prescrita pela lei, fosse realizada em nós, que vivemos não segundo a carne, mas segundo o espírito”. (Rm 8,1-4).

“Portanto, irmãos, não somos devedores da carne, para que vivamos segundo a carne.        De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis, pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Porquanto não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Aba! Pai! (Rm 8,12-15).

(Cf. 2Cor 5,12-21.6,1-2).

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.



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Antonio Cechin, irmão marista, Profeta da Ecologia


Publicado por IHU On-Line, na edição de segunda-feira, 18 de junho de 2012.
Onem, domingo, dia 17 de junho, celebramos os 85 anos de vida de Antonio Cechin.
Antônio Cechin, irmão marista, miltante dos movimentos sociais, autor do livro  Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação. Porto Alegre: Estef, 2010. Ele publica, periodicamente, os seus artigos nas Notícias do Dia do sítio do IHU. A última, intensamente comentda e debatida, se intitula Carroças em Porto Alegre, um símbolo.
A celebração do aniversário foi realizada ontem, domingo, no salão da Igreja Na. Sa. da Pompéia, na Barros Cassal, em Porto Alegre.
Muitos militantes dos movimentos sociais do Rio Grande do Sul estiveram presentes. Foi destacada a presença de dezenas de participantes do movimentos de catadores e recicladores de Porto Alegre e região metropolitana, os Profetas da Ecologia.
Esteve presente igualmente Tarso Genro, governador do Rio Grande do Sul - PT e Adão Villaverde, pré-candidato à prefeitura de Porto Alegre pelo PT.
Pe. Agostinho Sauthier, secretário executivo do Regional Sul 3 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB destacou o trabalho catequético e ecológico de Antônio Cechin.
Irmão Antônio Cechin - um apaixonado pelo povo.
Antônio Cechin influenciou uma geração de militantes no Rio Grande do Sul e no país. Foi o criador da Romaria da Terra, da Romaria das Águas e idealizador da missa em honra a São Sepé Tiaraju. É também co-fundador do Movimento Nacional Fé e Política. Foi perseguido pela ditadura militar, preso e torturado. Incompreendido em sua própria Congregação religiosa, o Ir. Antônio Cechin dedicou a sua vida em defesa dos mais pobres.
Atualmente, é Agente de Pastoral em diversas periferias da região metropolitana de Porto Alegre, assessor de Comunidades Eclesiais de Base do Rio Grande do Sul, dos catadores e recicladores. Desempenha ainda a função de coordenador do Comitê Sepé Tiaraju e da Pastoral da Ecologia do Regional Sul-3 da CNBB.
Um pouco da vida do Ir. Antônio Cechin pode ser conhecida através de duas entrevistas que concedeu ao IHU On-Line. A primeira delas publicada no dia 23-02-2007, intitulada “A utopia da Terra sem males”.
E a segunda, mais recente, recordando os seus 80 anos de vida, publicada na revista IHU On-Line, edição 223, 11-06-2007, intitulada “Os pobres me evangelizaram”.
Alguns depoimentos de militantes e amigos do Ir. Antônio Cechin também podem ser lidos na edição da Revista IHU On-Line n. 223, 11-06-2007. Nas Notícias do Dia pode ser lido o depoimento de João Pedro Stédile que foi lido por ocasião da celebração dos 80 anos.
Ao Ir. Antônio Cechin as nossas homenagens pelos seus 85 anos e agradecimento pelo exemplo de vida e dedicação aos pobres do Reino.
Fonte: IHU On-Line

sábado, 16 de junho de 2012

MARIA CONSERVAVA TUDO EM SEU CORAÇÃO




MARIA CONSERVAVA TUDO EM SEU CORAÇÃO

Maria refletia consigo mesma em tudo quanto tinha conhecido, através do que lia, escutava e via; assim, progredia de modo admirável na fé, na sabedoria e em méritos, e sua alma se inflamava cada vez mais com o fogo da caridade! O conhecimento sempre mais profundo dos mistérios celestes a enchia de alegria, fazia-lhe sentir a fecundidade do Espírito, a atraía para Deus e a confirmava na sua humildade. Tais são os efeitos da graça divina: eleva do mais humilde ao mais excelso e vai transformando a alma de claridade em claridade.

Feliz o coração da Virgem que, pela luz do Espírito que nela habitava, sempre e em tudo obedecia à vontade do Verbo de Deus. Não se deixava guiar pelo seu próprio sentimento ou inclinação, mas realizava, na sua atitude exterior, as insinuações internas da sabedoria inspiradas na fé. De fato, convinha que a Sabedoria de Deus, ao edificar a Igreja para ser o templo de sua morada, apresentasse Maria Santíssima como modelo de cumprimento da lei, de purificação da alma, de verdadeira humildade e de sacrifício espiritual.

Imita-a tu, ó alma fiel! Se queres purificar-te espiritualmente e conseguir tirar as manchas do pecado, entra no templo do teu coração. Aí Deus olha mais para a intenção do que para a exterioridade de tudo quanto fazemos. Por isso, quer elevemos nosso espírito à contemplação, a fim de repousarmos em Deus, quer nos exercitemos na prática das virtudes para sermos úteis ao próximo com as nossas boas obras, façamos uma ou outra coisa de maneira que só a caridade de Cristo nos impulsione. É este o sacrifício perfeito da purificação espiritual, que não se oferece em templo feito por mão humana, mas no templo do coração onde Cristo Senhor entra com alegria.

Paz e Bem!

Fonte: Dos Sermões de São Lourenço Justiniano, bispo (Sermo 8, in festo Purificationis B.M.V.: Opera 2, Venetis1751,38-39)


sexta-feira, 15 de junho de 2012

Não é possível abrir caminhos para o Reino de Deus de qualquer maneira

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 4,24-34 que corresponde ao XI Domingo do Tempo Comum, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.
Eis o texto
Com humildade e confiança

Preocupava e muito a Jesus o fato de que seus seguidores terminassem o dia desalentados ao ver que os seus esforços por um mundo mais humano e ditoso não obtinham o êxito esperado. Esqueceriam o reino de Deus? Manteriam a sua confiança no Pai? O mais importante é que não esqueçam nunca como devem de trabalhar.

Com exemplos retirados da experiência dos camponeses da Galileia, anima-os a trabalhar sempre com realismo, com paciência e com uma confiança grande. Não é possível abrir caminhos para o Reino de Deus de qualquer maneira. Tem que ver como Ele trabalha.

O primeiro deles é saber que o seu trabalho é semear, e não colher. Não viverão pendentes dos resultados. Não se devem preocupar com a eficácia nem com o êxito imediato. A sua atenção centra-se em semear bem o Evangelho. Os colaboradores de Jesus têm de ser semeadores. Nada mais.

Depois de séculos de expansão religiosa e grande poder social nós, os cristãos, temos que recuperar na Igreja o gesto humilde do semeador. Esquecer a lógica do colhedor que sai sempre a recolher frutos e entrar na lógica paciente de quem semeia um futuro melhor.

O início do semear é sempre humilde. Mais ainda se se trata de semear o Projeto de Deus no ser humano. A força do Evangelho não é nunca algo espetacular ou clamoroso. Segundo Jesus, é como semear algo tão pequeno e insignificante como “um grão de mostarda” que germina secretamente no coração das pessoas.

Por isso o Evangelho só se pode semear com fé. É o que Jesus quer lhes fazer ver com as Suas pequenas parábolas. O Projeto de Deus de fazer um mundo mais humano leva dentro uma força salvadora e transformadora que já não depende do semeador. Quando a Boa Nova desse Deus penetra numa pessoa ou num grupo humano, ali começa a crescer algo que a nós nos desborda.

Em momentos como esse, na Igreja não sabemos como atuar nesta situação nova e inédita, em meio a uma sociedade cada vez mais indiferente a dogmas religiosos e códigos morais. Ninguém tem a receita. Ninguém sabe exatamente o que há para fazer. O que necessitamos é procurar caminhos novos com a humildade e a confiança de Jesus.

Mais cedo ou mais tarde, nós, os cristãos, sentiremos a necessidade de voltar ao essencial. Descobriremos que só a força de Jesus pode regenerar a fé na sociedade descristianizada dos nossos dias. Então aprenderemos a semear com humildade o Evangelho como início de uma fé renovada, não transmitida pelos nossos esforços pastorais, mas gerada por Ele.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Caminho da Graça na Conversão de São Francisco de Assis



Caminho da Graça na Conversão de São Francisco de Assis

Irmão Rev. Edson Cortasio Sardinha

O Catecismo da Igreja Católica afirma que “A graça do Espírito Santo procura despertar a fé, a conversão do coração e a adesão à vontade do Pai”. [1]
É esta graça que atuou na vida de Francisco. A ação da Graça de Deus em sua história é um claro testemunho do que Deus pode fazer na vida da pessoa que se entrega totalmente a Cristo.
O caminho de conversão de Francisco provoca em nós mudanças e nos leva a um desequilibro. A pessoa que lê o testemunho de Francisco percebe o poder de Cristo que transforma e muda a alma humana. O segredo de São Francisco está em sua conversão. Este conversão também é o caminho que tem transformado a vida de santos e santas de Deus. Somos desafiados a olhar Francisco e Clara como testemunhos vivos da conversão que o Espírito de Deus deseja operar em nossas vidas cotidianamente.
Leio o caminho da conversão de Francisco fazendo caminhos para a minha própria conversão ao projeto de Deus.

  1. A conversão é um ato da graça de Deus.
Pela graça de Deus qualquer pessoa pode ter uma experiência total e até mesmo progressiva de conversão espiritual. A conversão é uma ação de Deus na vida da pessoa. Não nasce do esforço humano, mas da graça do Senhor e seu imenso desejo de transformar. Qualquer pessoa pode ser transformada por Deus.
            Tomás de Celano evidencia a graça de Deus na vida de Francisco. Ele escreve: “Desde então esteve sobre ele a mão do Senhor e a destra do Altíssimo o transformou para que, por seu intermédio, fosse concedida aos pecadores a confiança na obtenção da graça e desse modo se tornasse um exemplo de conversão para Deus diante de todos”[2].
            Francisco se transformou em exemplo de conversão por intermédio unicamente da graça de Deus.
            Celano diz que Francisco era um homem simples “não pela natureza, mas pela graça”[3]
            A luta que Francisco travou com sigo mesmo pela sua conversão foi possível pela ação da graça de Deus em sua vida, como diz a Legenda dos Três Cavaleiros: “Desde então começou cada vez mais a desprezar-se, até conseguir, pela graça de Deus, a mais perfeita vitória sobre si mesmo”[4].
            Foi a ação da Graça de Deus que o fez ser um novo homem. Francisco não escolheu Deus. Ele foi escolhido pelo Senhor. O Anônimo Perusiano diz: “Por graça divina sentiu-se de repente mudado, assim lhe parecia, num outro homem”[5].
            Foi a graça de Deus que deu a Francisco os primeiros discípulos na caminhada da conversão radical e evangélica. “Vendo e ouvindo isto, dois homens de Assis, inspirados pela graça divina, aproximaram-se humildemente dele”.[6], conforme o Anônimo Perusiano.
            A experiência de Francisco foi unicamente com a graça de Deus. Zavalloni diz que  “é na conversação com Deus, é na oração, que Francisco compreendeu de que coisa o seu tempo tinha necessidade: não andou a consultar nem doutos nem bibliotecas, mas lançou-se na perspectiva focal do mistério de Deus”[7].




  1. A conversão é um ato da graça de Deus que espera uma resposta humana.
Francisco seguia um caminho de pecado. Tomás de Celano fala de sua vida mundana. Um homem que não tinha tempo para Deus e que gastava o dinheiro de seu pai sem responsabilidade. Pensava no imediatismo.
Tomás de Celano inicia sua Biografia dizendo: “Vivia na cidade de Assis, na região do vale de Espoleto, um homem chamado Francisco. Desde os primeiros anos foi criado pelos pais insensatamente, ao sabor das vaidades do mundo. Imitou-lhes por muito tempo o triste procedimento e tornou-se ainda mais frívolo e vaidoso”[8].
Francisco foi educado para ser um jovem “mundano”. Celano diz que: “Nesses tristes princípios foi educado desde a infância... Neles perdeu e consumiu miseravelmente o seu tempo quase até os vinte e cinco anos. Pior ainda: superou os jovens da sua idade nas frivolidades e se apresentava generosamente como um incitador para o mal e um rival em loucuras. Todos o admiravam e ele procurava sobrepujar aos outros no fausto da vanglória, nos jogos, nos passatempos, nas risadas e nas conversas fúteis, nas canções e nas roupas delicadas e luxuosas”.[9]
Deus foi sinalizando sua graça na vida de Francisco. Esta sinalização levou um bom tempo. O período da prisão na Perúsia foi um período de encontro com as sinalizações da Graça na vida de Francisco. Sua longa doença foi um caminho de graça. A voz que ouviu no caminho para a batalha ("Quem te pode ser melhor, o senhor ou o escravo?" Ele responde: "O senhor". A voz lhe replicou: "E então, por que abandonas o Senhor pelo escravo; o Príncipe pelo empregado?" Francisco responde: "Senhor, que queres que eu faça?" A voz tornou: "Volta para a tua cidade, para fazer o que o Senhor te vai revelar")[10] foi um grito da graça na vida de Francisco.
Todos estes sinais da graça foram realizados esperando pacientemente a resposta humana de Francisco.
Como responder? Procurando mais na Bíblia, na igreja e na liturgia. Dando as roupas e os tecidos do pai aos pobres. Beijando o mendigo e leproso. Reconstruindo capelas e igrejas. Se submetendo as orientações de seus líderes. Amando a Igreja. Francisco em sua conversão como resposta a graça de Deus foi dando passos e descobrindo caminhos.
Pela graça alcançou sua conversão total. Mas teve que responder a esta graça e trabalhar diariamente sua conversão. Boaventura diz: “Como leal seguidor de Jesus crucificado, Francisco crucificou sua carne com suas paixões e concupiscências, desde o inicio de sua conversão, impondo-se uma disciplina rigorosa...”.[11]
            Francisco insistiu em trabalhar sua experiência de conversão. A conversão é um ato da graça de Deus que exige uma resposta humana. Francisco “como verdadeiro imitador e discípulo do Salvador, entregou-se, no princípio de sua conversão, com todo esforço, com todo desejo, com toda decisão a buscar, encontrar e preservar a santa pobreza, sem duvidar de adversidades, sem temer nada de sinistro, sem fugir a nenhum trabalho, sem escapar de nenhuma angústia do corpo, para que lhe fosse dada finalmente a opção de chegar àquela a quem o Senhor entregou as chaves do reino dos céus”[12].         

  1. A Conversão como ato da graça de Deus é experiência espiritual
Algumas pessoas desejam trilhar os caminhos de Francisco a partir de eixos carnais, sociais e humanos. Isso é possível até certo ponto do caminho, mas também é frustrante no final. Vocação sem encontro com Deus se resume em cansaço.
Tudo foi possível para Francisco por causa de sua experiência espiritual com Deus. A Legenda Perusiana, relatando o sofrimento de Francisco com relação ao tratamento da enfermidade nos olhos nos informa que, mesmo diante da dor, “ele era arrebatado na contemplação de Deus[13]. Ele suportava a dor e cumpriu sua vida de testemunho por causa de sua experiência espiritual com Deus.
Não conseguimos construir projetos de conversões sem uma experiência espiritual com Deus. Seria um caminho impossível. Todos os santos e santas de Deus nos apontam para Deus. É Nele, o mistério, que reside nossa conversão para o caminho da santidade.
Sabemos que Francisco é um inspirador e provocador.
Vemos Francisco e desejamos ser como Francisco. Então começamos a tentar andar atrás de Francisco. Isso é fascinante. Mas percebemos que é uma utopia baseada no calor da emoção. Quando tentamos dar profundidade a nossa experiência, construímos com as próprias mãos caminhos, estatutos e Regras para fornecer a experiência necessária. Mas isso também não dá certo.
As irmandades, Ordens e Casas Religiosas conseguem celebrar o carisma, mas o carisma não é passado como uma transfusão de sangue na instrumentalidade das instituições humanas.
A conversão como ato da Graça de Deus é uma experiência espiritual com Deus. Francisco conseguiu trilhar este caminho devido seu encontro com Deus.

Quantos encontros Francisco teve com Deus? Muitos.
Alguns foram registrados nas Fontes Biográficas e nos primeiros escritos; e outros não. O Encontro de Francisco com Deus não dá para ser colocado num papel. É uma experiência única, intransferível em uma dimensão pessoal/espiritual.
Vemos um homem transformado pela graça e vivendo a realidade de Cristo. O mais parecido com Cristo. O mais apaixonado por Cristo. Desejamos imitar. Criamos legendas. A História é contata e enfeitada a cada dia. O conto se desenvolve tanto que acaba sendo artificial e raso. Fica apenas uma imagem estática de um ser que talvez não existisse ou é venerado pela religiosidade popular como uma imagem muito rápida e apressada de alguém.
Mas todo o caminho de Francisco, por mais provocador da sociedade, por mais palpável para as teologias sociais, por mais que seja ícone dos discursos de políticos parecendo “bons meninos”, foi um caminho da Graça que nasceu de uma experiência espiritual.
Parece que vejo Francisco apontando para o Cristo crucificado e morto, e me dizendo: “Faça sua própria experiência com Ele”!
A experiência de Francisco foi unicamente com Cristo. O Cristo lhe falou e converteu seu coração. Seu interior ficou derretido pela experiência com o Cristo crucificado, como ensinou seu discípulo Tomás de Celano[14].
Aqui está um problema muito sutil e que muitas vezes não conseguimos enxergar. Minha experiência franciscana não pode ser com Francisco, mas com o JESUS que Francisco experimentou em sua conversão e vida.
Se eu conseguir perceber a graça de Deus e sua vocação para minha vida, terei um encontro com JESUS e serei um autêntico Franciscano, caminhando no caminho que Francisco caminhou. Minha experiência será enriquecedora e verdadeira baseada no Encontro com Cristo.
A Experiência da conversão é um caminho espiritual com Cristo.
Francisco não confiava na força de sua vontade ou na carne. Por conhecer a própria fraqueza humana, buscava força na sua constante e progressiva experiência com Cristo através da oração. Boaventura diz que “A oração era também uma defesa ao se entregar à ação, pois persistindo nela, fugia de confiar em suas próprias capacidades, punha toda a sua confiança na bondade divina, lançando no Senhor os seus cuidados[15].


  1. A Conversão progressiva pela graça
Francisco não teve a totalidade de sua experiência no longo período de enfermidade. Também não conseguiu sua plena conversão construindo igrejas.
Sua conversão foi um caminho. Caminho longo, de aprendizado, experiências e renuncias.
Boaventura fala deste longo caminho de renúncia:

 “No inicio de sua conversão, com a coragem e o fervor do Espírito, chegou, em pleno inverno, a se lançar num fosso d'água gelada ou de neve para sufocar inteiramente o inimigo que cada qual traz em si e preservar dos ataques da volúpia a veste branca da inocência. Foi por essas práticas que começou a brilhar nele a bela pureza, o inteiro domínio que ele obteve sobre a carne. Parecia que tinha feito contrato com os olhos (cf. Jó 31,1): não só fugia a qualquer espetáculo que pudesse deleitar a carne, mas se recusava mesmo a olhar tudo o que apresentasse caráter de curiosidade ou de futilidade”[16].

Ele amava a igreja, aprendia com a igreja e através da igreja teve suas experiências com Deus. Mas também, de forma solitária, buscou um crescimento em Cristo e teve várias de suas experiências diretas com Deus.  
Sua conversão progressiva é trabalhada no silêncio e nos diversos retiros espirituais que exercia.
Tomás de Celano dá um importante testemunho a este respeito:

Passado algum tempo nesse lugar (um lugar calmo, secreto e solitário para poder se entregar a Deus)  e tendo conseguido, por uma oração contínua e uma contemplação freqüente, uma inefável familiaridade com Deus, teve vontade de saber o que o Rei eterno mais queria ou podia querer dele. Buscava com afã e desejava com devoção saber de que modo, por que caminho e com que desejos poderia aderir com maior perfeição ao Senhor Deus segundo a inspiração e o beneplácito de sua vontade[17].

Francisco foi um homem com fome de Deus. Entendeu que o céu sustentava a terra. Sentava com a graça de Deus diariamente. A graça de Deus trabalhou em sua vida progressivamente a conversão.

  1. A conversão que provoca
A conversão de Francisco de Assis não foi um encontro religioso que o colocou no padrão dos fiéis da época.
Sua conversão não o colocou na média de sua geração. Não foi uma conversão medíocre. Foi uma conversão abaixo, escandalizadora, anormal, transformadora e provocante.
Foi uma conversão provocadora.
Francisco provocou sua geração acolhendo o leproso com seus abraços e beijos. Sua atitude causou perseguição, exclusão e revolta nos próprios religiosos.
A conversão de Francisco provocou e trouxe reações imediatas sobre várias áreas:

a)      Sobre a família:
A Família de Francisco vivia da venda do comércio e do status. A lepra era conhecida como uma desgraça que causava exclusão total do indivíduo com relação até com a família. A conversão que levou Francisco a beijar um leproso trouxe angústia para a própria família. Além de prejudicar as vendas dos tecidos, rebaixar o status da família, também vinha o desconforto em poder ter um filho doente  e excluído da sociedade e dos sonhos dos jovens.
A conversão de Francisco causou prejuízo financeiro na empresa do pai. O fato de pegar os tecidos e dar aos pobres foi uma afronta provocadora aos projetos do mercado.
A família também sofreu com o novo estilo de vida que a conversão causou em Francisco. Passou a andar como mendigo, recolhendo pão para sobreviver. Ele perdeu a menor das vaidades e passou a ser um indigente diante dos olhos dos pais.
O pai poderia ser consolado se Francisco pelo menos aceitasse entrar na estrutura normal da igreja e ser um padre ou um monge agostiniano ou beneditino. Francisco não aceita esta opção. Para ele este não era o caminho exigido pela sua conversão.
Francisco abre mão da herança do pai terreno e ganha as heranças do pai celeste. Tomás de Celano testemunha que Francisco disse “na frente de muitas pessoas que se tinham ajuntado: "Agora poderei dizer livremente: Pai nosso, que estais nos céus. Pedro Bernardone já não é meu pai, e a ele devolvo tanto o dinheiro como a minha roupa toda. Irei nu para o Senhor"[18].

    
b)     Sobre a Igreja
A Igreja tinha caminhos prontos. Francisco teve a oportunidade de viver sua conversão nos caminhos tradicionais e naturais da igreja. Mas sua conversão além de restaurar a igreja que estava com as bases quebradas, também causou um abalo em bases estabelecidas. Todos que viviam na fé de que a riqueza e a glória eram sinais de bênçãos, foram criticados por sua conversão silenciosa. “Enquanto viveu neste vale de lágrimas, o santo pai desprezou as míseras riquezas dos filhos dos homens e, ambicionando a mais alta glória, dedicou-se de todo coração à pobreza”[19].
Os homens da igreja tentaram levar Francisco para o clero ou para o monastério[20]. Francisco resistiu. Deseja apenas ser um arauto de Deus e anunciar livre sua grande descoberta: O Evangelho do Senhor JESUS.
Pela graça de Deus, Francisco teve o apoio do papa Inocêncio III[21].
Se Francisco não tivesse o apoio do Papa, sua relação com a igreja poderia ser desastrosa e sofredora, pois sua conversão não estava na trilha do cristianismo de sua época. Sua conversão provocou a própria igreja, apesar de venerar os valores, doutrinas e a hierarquia da igreja. Não falou contra a igreja, apenas caminhou no caminhou que muitos da igreja não caminhavam.

c)      Sobre a sociedade de sua época.
A conversão de Francisco provocou a sociedade. Ele desprezou os que os pobres mais desejavam e fez os ricos se sentirem culpados. Caminhou na contramão de sua época. Desprezou o resultado do esforço egoísta dos homens. Estabeleceu em sua vida um caminho a margem de sua época. Sua conversão influenciou médicos, advogados, professores, príncipes.
Seus discípulos saíram do trilho da sociedade. Cantaram o que ninguém cantava e dançaram a música que ninguém tocava. Francisco viveu os valores do Reino de Deus de forma radical, total e inquietante. Colocou o Evangelho de Cristo como meta em sua vida sem pedir licença. Quis viver a radicalidade do amor e da fé evangélica mesmo contra o bom senso de sua sociedade.

d)     Sobre seu futuro
O que Francisco como jovem desejava para seu futuro?
Gostava de gastar o dinheiro do pai, vivia nas festas e no pecado. Seria um comerciante ou um grande cavaleiro. Seu pai desejava muito seu envolvimento na Cruzada para trazer prestígio e poder para a própria família. O futuro do jovem Francisco seria maravilhoso. Mas Francisco joga tudo fora por amor ao Evangelho do Senhor.
Seu futuro fica comprometido. Ele sai da rota. Joga os sonhos juvenis no lixo e caminha radicalmente contrário a todos. A sua conversão faz com que as expectativas dos outros fossem frustradas, principalmente suas próprias expectativas. 

e)      Sobre o cristianismo
Escrevo este texto como protestante de uma igreja Histórica do século XVIII. Ouvi a história de Francisco em minha preparação para a Primeira Comunhão. Li o “Cântico do Irmão Sol” quando ainda era aluno do primário, com 8 anos de idade. Li textos, assisti filmes e me apaixonei por sua conversão. Foi o homem mais evangélico de conheci.
Não apenas a Igreja Católica foi provocada pela experiência de Francisco, mas toda a cristandade tem sido impactada pela história de sua conversão. Atualmente existem muitos grupos franciscanos dentro das igrejas protestantes.
A protestante Madre Schlink, da Irmandade Evangélica de Maria, em seu livro “O Mundo de São Francisco” escreve:

“Em sua personalidade, seu caráter e sua vida descobri a mensagem do Evangelho: "Se não vos tornardes como crianças... Graças te dou, ó Pai, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos, aos fracos e ignorantes..." O cativante coração infantil e humildade de Francisco de Assis, que se tornaram a fonte de todo poder e autoridade no seu ministério por Jesus, tocaram o meu coração. O ardente amor por Jesus, nascido do arrependimento, a estreita comunhão do coração com Jesus, quem é a fonte de toda a alegria. Tudo isso eu podia ver na vida de S.Francisco. Isso fortaleceu em mim o desejo de amar mais a Jesus. Dos resultados da vida e discipulado de S.Francisco, percebi que somente o amor ardente por Jesus traz a solução para os problemas e dificuldades na Igreja e no mundo,  como foi demonstrado em certo sentido na sua época[22].

A conversão de Francisco abalou e abala o cristianismo, provoca a religião de mercado, ridiculariza as conversões artificiais e rasas das muitas igrejas chamadas evangélicas da atualidade. A conversão de Francisco restaura um modelo de conversão que não se encaixa nas estruturas do cristianismo moderno.
  
f)       Sobre o mundo
O mundo rejeita o pobre e trabalha num projeto de exclusão. Os valores do mundo leva-nos a ter bens além do necessário. Somos viciados pelo comércio e pelas novas tecnologias.
O mundo diz que precisamos do seguinte produto para ser feliz. Ser feliz é comprar uma cama nova. Ser feliz é andar na moda. Ser feliz é ter a última tecnologia. O ter exclui e aumenta a desigualdade social.
A conversão de Francisco denuncia e incomoda a sociedade atual. Alguns pais ficam desesperados quando seus filhos desejam uma conversão radical como a que Francisco teve. Ser franciscano incomoda o mundo e traz inquietação.  

Conclusão:  Um Chamado a conversão
Sou cristão e sirvo o Senhor como presbítero, mas leio Francisco de Assis como um forte apelo a minha própria conversão cotidiana. Uma conversão que causa estranheza em minha própria rota. Uma conversão que frustra as expectativas que os outros tem sobre mim. Uma conversão que coloca Deus em seu verdadeiro lugar em minha vida. Uma conversão que me dá medo.
Mas, na essência da minha vida, é esta conversão que desejo sempre. Não ganhar a Salvação pelo esforço religioso, mas viver na celebração da Salvação que ganhei pela Graça. Viver rico não tendo nada. Viver dançando sem música, por ter a música da conversão dentro de mim.
Francisco viveu uma conversão radical, transformadora e evangélica.
É esta que busco para a minha curta, pequena e insignificante peregrinação.
Toda a nossa vida e morte são para o “louvor, glória e honra de Nosso Senhor Jesus Cristo, cujo reino e império permanecerá firme e estável por todos os séculos dos séculos. Amém”[23].

Irmão Rev. Edson Cortasio Sardinha – Presbítero (pastor) da Igreja Metodista no Brasil, Teólogo, Educador, Especialista em Ciências da Religião e em Liturgia e Artes Sacras.



[1] Catecismo da Igreja Católica. C.75.10 Conversão dom do Espírito Santo - §1098
[2] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.1. - 2
[3] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.21. - 58
[4] LEGENDA DOS TRÊS COMPANHEIROS : C.5. parágrafo 11
[5] ANÔNIMO PERUSINO : C.2. – Parágrafo 6.
[6] ANÔNIMO PERUSINO : C.2. – Parágrafo 10.
[7] Zavalloni, Roberto. Pedagogia Franciscana. Desenvolvimento e perspectivas. Editora Vozes: Petrópolis RJ, 1999. pg 131.
[8] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.1. - 1
[9] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.1. - 2
[10] ANÔNIMO PERUSINO : C.2. – parágrafo 6.
[11] S. Boaventura LEGENDA MENOR : C.3. Parágrafo 1
[12] SACRUM COMMERCIUM” ALIANÇA DE SÃO FRANCISCO COM A SENHORA POBREZA: C.1. Parágrafo 4.
[13] LEGENDA DE PERUSA: C.86. “E se deleitava tanto com elas, e seu espírito tinha tamanha compaixão e piedade por elas que se perturbava quando alguém não as tratava bem. E também conversava com elas com alegria interior e exterior, como se sentissem, entendessem e falassem de Deus, de forma que, muitas vezes, quando fazia isso, era arrebatado na contemplação de deus. Pois, uma vez, quando estava sentado perto do fogo, sem que ele percebesse, o fogo invadiu seus panos de linho que cobriam a perna. Quando sentiu o calor do fogo e o seu companheiro viu que o fogo estava queimando seus panos, correu para apagá-lo. Mas ele lhe disse: “Irmão caríssimo, não queira fazer mal ao irmão fogo”. E assim não lhe permitiu de modo algum que o apagasse”.
[14] Tomás de Celano TRATADO DOS MILAGRES DO BEM-AVENTURADO FRANCISCO: C.2. Parágrafo 2. "Francisco, vá reparar minha casa que, como vês, está sendo toda destruída". Desde então ficou profundamente gravada em seu coração a lembrança da paixão do Senhor e, realizada uma enorme conversão interior, sua alma começou a derreter-se, quando o amado lhe falou.”
[15] S. Boaventura LEGENDA MAIOR : C 10. Zelo na oração e poder de sua prece. – Parágrafo 1
[16] S. BoaventuraLEGENDA MENOR : C .3. AS VIRTUDES COM QUE DEUS O DISTINGUIU – parágrafo 1
[17] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.2,  C 2. O maior desejo de São Francisco. Compreende a vontade de Deus a seu respeito ao abrir o livro.
[18] Tomás de Celano. SEGUNDA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L 1, C 7. A perseguição do pai e de seu irmão de sangue.
[19] Tomás de Celano SEGUNDA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.6, C 25. Louvor à Pobreza.
[20] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.13 : “São Francisco também se apresentou ao senhor bispo de Sabina, João de São Paulo, que se destacava entre os outros príncipes e dignitários da Cúria Romana por "desprezar as coisas terrenas e aspirar às celestiais" Este o recebeu com "bondade e caridade" e elogiou bastante sua resolução e seus projetos. Entretanto, prudente e discreto, interrogou-o sobre muitos pontos e tentou persuadi-lo a passar para a vida monástica ou eremítica. Mas São Francisco recusou com humildade e quanto lhe foi possível esse conselho, sem desprezar os argumentos, mas por estar piedosamente convencido de que era conduzido por um desejo mais elevado. Admirava-se o prelado com seu fervor, e temendo que fraquejasse em tão altos propósitos, mostrava-lhe caminhos mais fáceis. Afinal, vencido por sua constância, anuiu a seus rogos e procurou apoiar sua causa diante do Papa”.
[21] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.13. Tendo-lhes feito muitas exortações e admoestações, abençoou São Francisco e seus irmãos e lhes disse: "Ide com Deus, irmãos, e conforme o Senhor se dignar inspirar-vos, pregai a todos a penitência. Quando o Senhor vos tiver enriquecido em número e graça, vinde referir-me tudo com alegria, e eu vos concederei mais coisas do que agora e, com maior segurança, vos confiarei encargos maiores".
[22] Madre Basiléia Schlink. Os Irmãos Franciscanos de Canaã. In http://www.canaan.org.br/irmandade_irmaos.htm
[23] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.4, C.7.

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