Frei Luís Leitão - (luisleitao@promapa.org.br): Frei Luis Leitão pertence a Província Capuchinha Nossa Senhora do Carmo. Atualmente reside no Pós-Noviciado de Filosofia e também é o vice-diretor geral do IESMA(Instituto de Estudos Superiores do Maranhão)Comemoram-se neste ano 150 anos da obra clássica de Darwin “A Origem das Espécies” (1859). Nesta obra, Darwin apresenta ao mundo um novo modo de conceber a existência dos seres viventes, dentre os quais o homem. Ora, se com Darwin, a partir do século XIX, o cientista passou a afirmar a origem do homem como um processo evolutivo de ancestrais símios, o crente desde mais ou menos 1.800 a.C até o século XXI, afirma a origem do homem como um ato voluntário da criação divina. Observa-se, com isto, que existe aqui um confronto inevitável entre ciência e fé. Por esta razão, este artigo intitula-se: “A evolução das espécies: aspectos religiosos”.
Pois bem, se a nossa arena é religiosa ou teológica, cabe, então, clarear de início isto que vou dizer: analisar a “Origem das Espécies”, a partir da vertente religiosa, significa ter como base central de referência do discurso e da discussão o Criador e não o criado; o inatingível e invisível da Revelação e não o fóssil tangível e visível da paleontologia, enfim, o princípio ontológico, que é Deus como causa incausada e fonte do ser, e não o fenômeno, que é o que nos aparece ou se nos apresenta na mutabilidade do mundo em devir.

Dado, pois, que “o homem, na sua estrutura humana, um ser composto, ontologicamente considerado, é algo misterioso para as limitações acanhadas da razão finita que o observa”[13], há de dizer que a figura do homo sapiens sapiens (que é o homem atual) se apresenta – nos traços hoje disponíveis – com características tais que impõem à ciência mesma interrogações ainda mais problemáticas das de suas origens biológicas. Por exemplo, nesta nova espécie (homo sapiens sapiens) a “mente” se impõe como uma verdadeira “novidade”. TH. Dobzhansky, pesquisador e pensador que deu contribuições fundamentais ao tema da evolução, reconhece: ‘“Sem dúvida a mente humana separa de modo claro a nossa espécie dos animais não humanos. (...). A grandeza da diferença é uma diferença de tipo, não de grau. Por causa desta diferença primária a humanidade se torna um produto extraordinário e único da evolução biológica”[14].
Esta novidade do homo sapiens sapiens comunica que sua estrutura biológica é uma evidente obra prima intrinsecamente vinculada a uma componente não de ordem material, mas estreitamente espiritual. Componente esta que exercita a função mente, raiz comum das duas faculdades intelecto e vontade. Há uma estreitíssima relação mente-corpo, relação que implica dois aspectos: uma de ordem psicológica entre inteligência, vontade e livre-arbítrio e funções neurofisiológicas e fisiológicas do corpo; e uma de ordem metafísica na relação alma-corpo. Observam-se aqui forças não materiais, mas espirituais, das quais o cérebro não é consciente, mas o é a pessoa. E isto porque, segundo C.M. Streeter ao expor uma visão antropológica das neurociências, afirma: ‘“O cérebro não é a mente. O cérebro é a infra-estrutura fisiológica da mente”’[15].
Diante destas colocações, constata-se mais e mais que mente e consciência são dois fatores que separam nitidamente a espécie homo sapiens do resto do mundo animal. Mente, energia que pensa, reflete e se exprime através de uma linguagem compreensível, imensamente desenvolvida e extraordinariamente guiada pela atividade de milhões de neurônios que operam ordenadamente sem paragem no cérebro. E consciência, reflexão que examina o que a mente exprime para, a partir daí, julgar o valor: bem ou mal. No debate, pois, da Teoria da Evolução, a visão religiosa com sua inteligência da fé afirma e reafirma que o ser da espécie humana deve ser visto também a partir de um nível muito superior ao estritamente biológico, o qual não poderá nunca fornecer uma explicação convincente[16]. E sobre isto, convém dizer que, se para Darwin o mecanismo primário que determina a transformação são as mutações puramente genéticas casuais, e as que garantem uma melhor adaptação ao ambiente sobrevivem, há de dizer que os primeiros problemas para Darwin chegam com a descoberta das leis sobre a hereditariedade do sacerdote G.J Mendel (1822-84) e a sucessiva redescoberta que encaminha a genética moderna com a descoberta do DNA, uma vez que se chegará à conclusão de que a transmissão hereditária dos caracteres ocorre independentemente do ambiente e do corpo do indivíduo e se desdobra em base a leis precisas, não casuais[17]. Tal descoberta científica dá credibilidade à visão religiosa para continuar a afirmar que a espécie humana não é soma do acaso, mas obra precisa proveniente do intelecto criador. E aqui, deve-se saber que a posição religiosa não é anticientífica, mas transcientífica[18].
Por isso, “seria tolo e falso declarar a teoria da evolução como um produto da fé, embora também a fé tenha contribuído para que se desenvolvesse aquele horizonte de pensamento no qual se podia originar o problema da evolução. Mais tolo ainda seria considerar a fé como uma espécie de ilustração da teoria da evolução, fazendo que esta seja confirmada por aquela. O plano das perguntas e respostas da fé é absolutamente outro”[19].
Hoje a Igreja reconhece a autonomia dos pesquisadores no caminho científico para escolher a teoria que melhor esclareça o fenômeno da evolução[20]. E isto é muito pacífico porque, a batalha com Darwin já foi superada, uma vez que o postulado de seleção natural e a sobrevivência do mais forte recebem um contexto novo e atual. Com efeito, “ainda que o monge agostiniano Mendel nunca tenha falado de ‘genes’, ele se encontra na origem de uma nova maneira de ver o mundo, tanto em sua evolução quanto em sua continuidade”[21].
Por causa disto, “hoje não discutimos mais se Darwin tinha ou não tinha razão. Pelo contrário, hoje gostaríamos de saber o que a teoria da evolução significa para a fé e para a teologia. Que significa esta nova visão para uma visão crente do cosmo, da vida e do homem?”[22]. Se é importante na seleção natural a sobrevivência do mais forte, o que tem que ver esta teoria da evolução com Deus? Pois a salvação não se dirige acima de tudo aos derrotados?[23]. “Como se entende propriamente o mundo, se o concebemos de modo evolutivo?”.
Haja vista isto, concluo com o que diz o teólogo Joseph Ratzinger, atual Bento XVI: “A teoria da evolução não elimina a fé; ela tampouco a confirma. Contudo, ela a provoca a que se entenda mais profundamente a si mesma, ajudando assim o homem a entender-se a si mesmo e a tornar-se mais e mais aquilo que é: o ser que deve dizer eternamente tu a Deus”[24].
- Cf. HARING, hermann e THEOBALDO, Christoph. Evolução e fé. Concilium (fasc. 284-288). Petrópolis: Vozes, 2000. p.7.
- Cf. CATÃO, Bernardo. O Evolucionismo. Conceitos em Confronto com a Teologia. REB, vol. 21, fasc. 1. Petrópolis: Vozes, 1961. p.4.
- KOSER, Constantino. Avatares do Evolucionismo na Origem da Espécie Humana. REB, vol. 19, fasc.3. Petrópolis: Vozes, 1959. p.640.
- LOPES, Paulo. Poligenismo e Antropologia Teológica. REB, vol.21, fasc.1, 1961. p.29.
- LOPES, Paulo. Poligenismo e Antropologia Teológica. p.26.
- Cf. HARING, Hermann e THEOBALDO, Christoph. Evolução e fé. Concilium (fasc. 284-288), 2000. p.17.
- SERRA, Angelo. A 150 anni dall’origine delle specie di Darwin. La civiltà cattolica, vol.1, anno 160, quaderni 3805-3810. Roma, 2009.p.350.
- SERRA, Angelo. Le origini biologiche dell’uomo. La civiltà cattolica. Vol.4, quaderno 3559. Roma, 1998.p. 29.
- Cf. SERRA, Angelo. A 150 anni dall’origine delle specie di Darwin. p.352.
- RATZINGER, Joseph. Dogma e Anunciação. São Paulo: Loyola, 1977. p.114.
- KOSER, Constantino. A transmissão do pecado original e a origem da espécie humana. REB, vol. 21, fasc. 1. Petrópolis: Vozes, 1961. p.40
- RATZINGER, Joseph. Dogma e Anunciação. p.114.
- LOPES, Paulo. Poligenismo e Antropologia Teológica. p.24.
- Cf. SERRA, Angelo. Le origini biologiche dell’uomo. p.30.
- [15] Cf. SERRA, Angelo. A 150 anni dall’origine delle specie di Darwin. p.356.357.
- [16] Cf. SERRA, Angelo. A 150 anni dall’origine delle specie di Darwin. p.38.359.
- [17] Cf. RESPINTI, Marco. Processo a Darwin (resenha bibliográfica). La civiltà cattolica, vol.3, anno 159, quaderni 3793-3798. Roma, 2008.p.346.
- [18] Cf. LOPES, Paulo. Poligenismo e Antropologia Teológica. p.38.
- [19] RATZINGER, Joseph. Dogma e Anunciação. p.117.
- [20] Cf. MICHOLLET, Bernard. A evolução e o conceito de ser humano. Ensaio de interpretação de imago Dei. Concilium (fasc. 284-288). Petrópolis: Vozes, 2000. p.98.
- [21] MOSER, Antônio. Biotecnologia e bioética. Para onde vamos? Petrópolis: Vozes, 2004.p. 67.
- [22] Cf. HARING, hermann e THEOBALDO, Christoph. Evolução e fé. p.7.
- [23] IERSEL, Bas Van. Evolução e Bíblia. Dois códigos, duas mensagens. Concilium (fasc. 284-288). Petrópolis: Vozes, 2000. p.134.
- [24] RATZINGER, Joseph. Dogma e Anunciação. p.117.120.
Extraído de http://www.promapa.org.br/2006/index.php?pag=artigos&exibartigo=152 acesso em 21 nov. 2009.
Foto: Statue of Charles Darwin in the Natural History Museum, London / statue was created by Sir Joseph Boehm. 1885. Fotógrafo Patche99z, 2009. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Charles_Darwin_statue_5661r.jpg acesso em 21 nov. 2009.
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