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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A passagem de Deus pela América Latina

Artigo de Jon Sobrino

“Como será a passagem de Deus pela América Latina e com quem passará, está por se ver, e em suma é coisa de Deus. Mas é coisa nossa desejá-la, trabalhar para isso, e aprender de como aconteceu no passado em torno de Medellín”, escreve Jon Sobrino, em artigo publicado no sítio espanhol Eclesalia, 23-02-2012. A tradução é do Cepat.

Jon Sobrino é teólogo espanhol radicado em El Salvador, sobrevivente da chacina que, em novembro de 1989, dizimou a vida de seis jesuítas e duas funcionárias da Universidade Centro-Americana (UCA). É autor de vários livros, entre os quais, Fora dos pobres não há salvação (Paulinas, 2008), Cristologia a partir da América Latina (Vozes, 1983); Jesus, o Libertador: a história de Jesus de Nazaré (Vozes, 1994).

Eis o artigo.

Os dez anos que se passaram entre Medellín (1968) e Puebla (1979) foram únicos na época moderna da Igreja católica na América Latina. Depois começou um declive ao qual Aparecida (2007) quis colocar um freio, embora até agora reste muito a ser feito.

Ao fazer este juízo, não nos fixamos na Igreja assim como é analisada pelos sociólogos, mas na “passagem de Deus”. Sem dúvida, é mais difícil calibrar, mas toca a dimensão mais profunda da Igreja, e a serviço de que deve estar. Em suma, qual a sua contribuição para os seres humanos e para o mundo como um todo. E, obviamente, é preciso se perguntar “que Deus” é que passa pela história em um dado momento.

Medellín

Foi um salto qualitativo. Irromperam os pobres, e neles irrompeu Deus. Foi um fato fundante que penetrou na fé de muitos e configurou a Igreja.

Surpreendentemente, para a assembleia dos bispos a prioridade não era a Igreja em si mesma, mas o mundo de pobres e vítimas, isto é, a criação de Deus. Suas primeiras palavras proclamam a realidade do continente: “uma pobreza em massa fruto da injustiça”. Os bispos agiram, sobretudo, como seres humanos, e deixaram falar a realidade que clamava ao céu. São os clamores que Deus escutou no êxodo que o fizeram sair de si mesmo e entrar decididamente na história. De igual modo, com Medellín Deus entrou na história latino-americana.

A partir desta irrupção dos pobres, e de Deus neles, Medellín pensou o que é ser Igreja, qual é a sua identidade e missão fundamental, e qual deve ser seu modo de estar em um mundo de pobres. A resposta foi “uma Igreja dos pobres”, semelhante à ilusão que teve João XXIII e o cardeal Lercaro. No Concílio não prosperou, em Medellín sim. A Igreja sentiu compaixão pelos oprimidos e decidiu trabalhar por sua libertação. Por muitos, com maior ou menor consciência explícita, foi acolhida como bênção. Por outros, foi percebida, com razão, como grave perigo.

Cedo o poder reagiu. Em 1968, Nelson Rockefeller escreveu um relatório sobre o que estava acontecendo, e essa Igreja, nova e perigosa, tinha que ser fragilizada e freada, e o mesmo aconteceu no início da Administração Reagan. Oligarquias com o capital, exércitos, esquadrões da morte, desencadearam uma perseguição contra a Igreja, desconhecida na história da América Latina. A perseguição, e o manter-se firme nela, deixou claro o novo e evangélico que estava acontecendo: a Igreja de Medellín estava com o povo pobre e perseguido, e correu sua própria sorte. Milhares foram assassinados, entre eles meia dúzia de bispos, dezenas de sacerdotes, religiosos e religiosas, e uma multidão de leigos, mulheres e homens. Com limitações, erros e pecados, era uma Igreja muito mais casta que meretriz, muito mais evangélica que mundana.

Na Igreja católica, Paulo VI propiciou e animou esta nova Igreja, mas altos personagens da cúria romana, e de outras cúrias locais, a desqualificaram, trataram mal e injustamente os seus representantes, inclusive bispos, e construíram uma Igreja alternativa, diferente e mesmo contrária, mais devocional, intimista, de movimentos, submissos aos defensores da hierarquia. E o que havia que evitar era que a Igreja voltasse a entrar em conflito com os poderosos. A Igreja popular, nascida em torno de Medellín, crente e lúcida, de comunidades de base, que vivia a pobreza do continente, sofreu a dupla perseguição do mundo opressor, e, com alguma frequência, da própria Igreja.

Uma Igreja assim foi testemunha e seguidora de Jesus de Nazaré. Encarnada, defensora e companheira dos pobres, carregava a cruz e com frequência morria nela. Anunciou uma Boa Nova como Jesus na sinagoga de Nazaré. Teve seus “doze apóstolos”, os Padres da Igreja latino-americana com dom Hélder Câmara um dos pioneiros, com Enrique Angelelli, dom Sergio Mendez Arceo, Leonidas Proaño, com dom Romero, pastor e mártir do continente, e outros. Chegou a ser ekklesia, na qual mulheres e varões, religiosas e leigos, latino-americanos e vindos de fora, chegaram a formar corpo eclesial, uma grande comunidade de vida e missão. Entre os de casa e os de longe se gerou uma solidariedade nunca vista: se fortaleciam mutuamente. Cresceu a esperança e a alegria. E do amor dos mártires nasceu uma brisa de ressurreição, alheia a toda alienação, que remetia novamente à história para viver nela como ressuscitados.

Nessa Igreja soprava o Espírito, o espírito de Jesus e o espírito dos pobres. Esse espírito inspirava oração, liturgia, música, arte. E também inspirava homilias proféticas, cartas pastorais lúcidas, textos teológicos de casa, não textos simplesmente importados que não passaram pelo crisol de Medellín.

No centro de tudo estava o evangelho de Jesus. Lucas 4, 16: “Eu vim para anunciar a boa nova aos pobres, para libertar os presos”. Mateus 25, 36-41: “Tive fome e destes de comer”. João 15, 13: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos irmãos”. E Jesus de Nazaré, o crucificado ressuscitado, Atos dos Apóstolos 2, 23-24: “Aquele que vocês mataram Deus o devolveu à vida”.

E agora?

Pesquisas, estudos sociológicos e antropológicos, econômicos e políticos, oferecem dados e explicações sobre a Igreja católica e outras Igrejas cristãs. Dizem-nos se aumentamos ou diminuímos em número e em influxo na sociedade. Desde essa perspectiva nada tenho a acrescentar. E estritamente falando, também não é a minha maior preocupação qual será o futuro do que chamamos “Igreja”, embora nela tenha vivido e vivo, e me acostumei a pertencer à família.

O que me interessa, e me alegra, é que “Deus passe por este mundo”. E a razão é simples. O mundo está “gravemente enfermo”, dizia Ellacuría, “enfermo de morte”, disse Jean Ziegler. Isto é, necessita de salvação e cura. Por isso, como crente e como ser humano, desejo que “Deus passe por este mundo”, pois essa passagem sempre traz salvação às pessoas e ao mundo em seu conjunto. Tivemos a sorte de sentir essa passagem de Deus com Medellín, com dom Romero, com muitas comunidades populares. Com muitas pessoas boas, simples em sua maioria. Com uma plêiade de mártires. E também, embora isso só se possa sentir “em um difícil ato de fé”, como dizia Ellacuría ao explicar a salvação trazida pelo servo sofredor de Isaías, com o povo crucificado.

Como estamos atualmente? Seria cometer um grave erro cair em simplismos em coisas tão sérias. Seria injusto não ver o bom que, de muitas formas, existe nas Igrejas. E seria arrogante não tentar descobri-lo, embora às vezes se esconda atrás de uma crosta que não remete claramente a Jesus de Nazaré. Em todo o caso, a passagem de “Deus” sempre será mistério inescrutável, e só na ponta dos pés e com máximo respeito a todos os seres humanos podemos falar sobre isso. Mas com todas estas cautelas algo se pode dizer. Mencionaremos as realidades dos fiéis e suas comunidades, mas temos em mente sobretudo as instâncias, altas em hierarquia, historicamente muito responsáveis pelo que acontece, e às quais não se pode pedir conta com eficácia. Com simplicidade dou minha visão pessoal.

De diversas formas abunda o pentecostalismo, como forma de Igreja diferente dos problemas reais de vida e morte das maiorias, embora traga coragem e consolo aos pobres, o que não é desdenhar quando não têm onde se agarrar para que sua vida tenha sentido – diferente é a situação de classes mais acomodadas. Prolifera um grande número de movimentos, dezenas deles, proliferam os meios de comunicação das Igrejas, emissoras de rádio e televisão, excessivamente submissos a ideais e normas que provêm de cúrias, sem dar sensação de liberdade para tomar eles mesmos em suas mãos um evangelho que anuncia a boa nova para os pobres, em forma de justiça, e sem suspeitar da necessidade de um estudo, reflexivo, minimamente científico, da Palavra de Deus, e em geral da teologia propiciada pelo Vaticano II e Medellín. Proliferam devoções de todo tipo, as de antes e as de agora. Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e morreu crucificado, é deixado de lado com facilidade a favor do menino Jesus, seja de Atocha, de Praga, o Deus menino, dito com grande respeito. Com facilidade se dilui o Jesus vigoroso da Galileia, do Jordão, o profeta de denúncias do templo de Jerusalém, a favor de devoções, baseadas em aparições com um transfundo sentimental e excessivamente melífluo. Para dizer com simplicidade, a divina providência pode atrair mais que o Pai de Jesus, o Filho que é Jesus de Nazaré, o Espírito Santo, que é Senhor e dador de vida, e Pai dos pobres, como se canta no hino do Pentecostes.

Em seu conjunto custa hoje encontrar na Igreja a liberdade dos filhos e filhas de Deus, a liberdade diante do poder, que não por ser sagrado deixa de ser poder. Nota-se excessivo servilismo e submissão em relação a tudo o que seja hierarquia, o que chega a se converter em medo paralisante. Desde as instâncias de poder eclesial aponta o triunfalismo, e o que chamei de a pastoral da apoteose, de multidões, midiática. Em muitos seminários a discussão e a arte de pensar são substituídas pela memorização. Nas reuniões do clero, pelo que sabemos, as perguntas, a discussão e o debate são substituídas pelo silêncio. As cartas pastorais dos anos 1970 e 1980 – verdadeiro orgulho das Igrejas, que reverdecem em ocasiões, na Guatemala, por exemplo – são substituídas por breves mensagens, recatadas e comedidas, com argumentos tomados das últimas encíclicas do papa. O centro institucional já não parece estar na América Latina, mas na distante Roma. Tudo isto é dito com respeito.

Como será a passagem de Deus pela América Latina e com quem passará, está por se ver, e em suma é coisa de Deus. Mas é coisa nossa desejá-la, trabalhar para isso, e aprender de como aconteceu no passado em torno de Medellín.

Bom é saber e analisar os vaivens dos adeptos e o influxo das Igrejas na sociedade. Pelo que dizem os dados, em ambas as coisas a Igreja católica vai mal. Mas é preciso ter mais presente as raízes de cuja seiva viveu a passagem de Deus. E regá-la humildemente, com águas vivas.

O que acontecerá à nossa Igreja, e a todas as Igrejas, está por se ver. Meu desejo é que, aconteça o que acontecer no exterior, se coloque a serviço da passagem de Deus por este mundo, o Deus de Jesus, compassivo, profeta e crucificado. E o Deus dador de esperança.

Estas são perguntas que podemos sempre fazer. Mas talvez seja bom fazê-las no começo da quaresma. Este tempo exige de nós fortaleza para caminhar para Jerusalém. E nos oferece esperança de nos encontrar ali com o Jesus crucificado e ressuscitado.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

"ORAI SEM CESSAR". (1Tess 5,17).














“ORAI SEM CESSAR.” (1Tess 5,17).

A oração é a luz da alma

A oração, o diálogo com Deus, é um bem incomparável, porque nos põe em comunhão íntima com Deus. Assim como os olhos do corpo são iluminados quando recebem a luz, a alma que se eleva para Deus é iluminada por sua luz inefável. Falo da oração que não é só uma atitude exterior, mas que provém do coração e não se limita a ocasiões ou horas determinadas, prolongando-se dia e noite, sem inter­rupção.

Com efeito, não devemos orientar o pensamento para Deus apenas quando nos aplicamos à oração; também no meio das mais variadas tarefas - como o cuidado dos pobres, as obras úteis de misericórdia ou quaisquer outros serviços do próximo - é preciso conservar sempre vivos o desejo e a lembrança de Deus. E assim, todas as nossas obras, tempe­radas com o sal do amor de Deus, se tornarão um alimento dulcíssimo para o Senhor do universo. Podemos, entretanto, gozar continuamente em nossa vida do bem que resulta da oração, se lhe dedicarmos todo o tempo que nos for possível.

A oração é a luz da alma, o verdadeiro conhecimento de Deus, a mediadora entre Deus e os homens. Pela oração a alma se eleva até aos céus e une-se ao Senhor num abraço inefável; como uma criança que, chorando, chama sua mãe, a alma deseja o leite divino, exprime seus próprios desejos e recebe dons superiores a tudo que é natural e visível.

A oração é venerável mensageira que nos leva à presen­ça de Deus, alegra a alma e tranquiliza o coração. Não penses que essa oração se reduza a palavras. Ela é desejo de Deus, amor inexprimível que não provém dos homens, mas é efeito da graça divina, como diz o Apóstolo: Nós não sabemos o que devemos pedir, nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis (Rm 8,26).

Semelhante oração, quando o Senhor a concede a al­guém, é uma riqueza que não lhe pode ser tirada e um alimento celeste que sacia a alma. Quem a experimentou inflama-se do desejo eterno de Deus, como que de um fogo devorador quê abrasa o coração.

Praticando-a em sua pureza original, adorna tua casa de modéstia e humildade, torna-a resplandecente com a luz da justiça. Enfeita-se com boas obras, quais plaquetas de ouro, ornamenta-se de fé e de magnanimidade em vez de paredes e mosaicos. Como cúpula e coroamento de todo o edifício, coloca a oração. Assim prepararás para o Senhor uma digna morada, assim terás um esplêndido palácio real para o receber, e poderás tê-lo contigo na tua alma, transformada, pela graça, em imagem e templo da sua presença.

Paz e Bem!

Fonte: Das Homílias do Pseudo-Crisóstomo (Supp., Hom. 6 de precatione: PG 64,462-466) (Séc. IV)

Blog Franciscanos Mococa


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Quaresma: O Jejum de São Francisco de Assis e de São Romano

Francisco foi um homem de Oração e jejum. O seu jejum era extremo ao ponto de sofrer por falta de alimento. Certa vez chegou a fazer uma Quaresma inteira de Jejum. Tinha no Jejum uma fonte de vida espiritual. Buscava no jejum uma intimidade com o Senhor.
Muitos anos antes de Francisco, São Romano Melodista (? – c. 560), compositor de hinos, escreveu um belo texto sobre o jejum:

"Entrega-te, minha alma, ao arrependimento; une-te a Cristo pela razão e, gemendo, grita: Concede-me o perdão das minhas faltas, para que de Ti receba, Tu só que és bom (Mc 10,18), a absolvição e a vida eterna. [...]
Moisés e Elias, essas torres de fogo, foram grandes nas suas obras. [...] Foram os primeiros de entre os profetas a falar livremente a Deus e a comprazer-se em d'Ele se aproximar para Lhe rezar e falar face a face (Ex 34,6; 1Rs 19,13), facto admirável e incrível, e, apesar disso, não deixaram de recorrer ao jejum, que os unia a Deus (Ex 34,28; 1Rs 19,8). Assim, tal como as obras, o jejum conduz à vida eterna.
Pelo jejum são os demónios afastados como pela espada, porque lhe não suportam os benefícios: o que eles adoram são a folia e a embriaguez. Por isso, ao olharem o rosto do jejum, não podem tolerá-lo e fogem para bem longe, como nos ensina o Senhor nosso Deus: «estes demónios podem ser expulsos pelo jejum e pela oração» (Mc 9,28 Vulg.). É por isso que o jejum nos traz a vida eterna. [...]
O jejum devolve aos que o seguem a habitação paterna donde Adão foi expulso. [...] Foi o próprio Deus, o amigo dos homens (Sb 7,14 Vulg.), que confiou o homem ao jejum como a uma mãe extremosa ou a um mestre, tendo-o proibido de provar apenas duma árvore (Gn 2,17).
Tivesse o homem observado esse jejum e viveria para sempre com os anjos. Ao rejeitá-lo, causou para si a dor e a morte, a fereza dos espinhos e das silvas, e a angústia duma vida dolorosa (Gn 3,17ss.) Ora, se o jejum se revelou proveitoso no Paraíso, quanto mais o não será neste mundo para nos proporcionar a vida eterna!"

Oração: Senhor Jesus. Desejo viver esta Quaresma voltado para o seu projeto em minha vida. O meu próximo sofrido, as minhas limitações carnais, as minhas inquietações, serão o alvo do meu jejum. Me ajude a depender unicamente da graça e utilizar o meu Jejum como meio de Graça para viver de acordo com a sua santa vontade. Senhor Jesus. Necessito unicamente de ti. salva-me e ajuda-me a viver santamente. Amém.

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE O PAPA BENTO XVI PARA A QUARESMA DE 2012














MENSAGEM DE SUA SANTIDADE O PAPA BENTO XVI PARA A QUARESMA DE 2012

«Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (Hb 10, 24).

Irmãos e irmãs!

A Quaresma oferece-nos a oportunidade de refletir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito, este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.

Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (Heb 10, 24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor «com um coração sincero, com a plena segurança da fé» (v. 22), de conservarmos firmemente «a profissão da nossa esperança» (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, «o amor e as boas obras» (v. 24).

Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre atual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal.

1. «Prestemos atenção»: a responsabilidade pelo irmão.

O primeiro elemento é o convite a «prestar atenção»: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a «observar» as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e, todavia, são objeto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a «dar-se conta» da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41).

Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a «considerar Jesus» (3, 1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela «esfera privada».

Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o «guarda» dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o fato de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. 

Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo atual sofre sobretudo de falta de fraternidade: «O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo» (Carta enc. Populorum progressio, 66).

A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é «bom e faz o bem» (Sal 119/118, 68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades.

A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, «passam ao largo» do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19).

Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de «prestar atenção», de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de «ter misericórdia» por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre.

Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: «O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende» (Pv 29, 7). Deste modo entende-se a bem-aventurança «dos que choram» (Mt 5, 4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança.

O fato de «prestar atenção» ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje é-se muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro.

Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Pv 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11).

A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de «corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão.

Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Pv 24, 16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1 Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais retamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.

2. «Uns aos outros»: o dom da reciprocidade.

O fato de sermos o «guarda» dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a atual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que «leva à paz e à edificação mútua» (Rm 14, 19), favorecendo o «próximo no bem, em ordem à construção da comunidade» (Rm 15, 2), sem buscar «o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos» (1 Cor 10, 33). Esta recíproca correção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã.

Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social.

Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que «os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros» (1 Cor 12, 25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum.

Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e omnipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a ação do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5, 16).

3. «Para nos estimularmos ao amor e às boas obras»: caminhar juntos na santidade.

Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1 Cor 12, 31 – 13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efetivo sempre maior, «como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Pv 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.

Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de «pôr a render os talentos» que nos foram dados para o bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1 Tm 6, 18-19). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre atual, para tendermos à «medida alta da vida cristã» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12, 10).

Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica.

Vaticano, 3 de Novembro de 2011

BENEDICTUS PP. XVI

Com carros em chamas

Com carros em chamas
Carnaval vai terminando
Vem Quarta de Cinzas.


Shiranai Kumo Do Brasil

Licença Creative Commons
O trabalho Com carros em chamas de Shiranai Kumo Do Brasil foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - CompartilhaIgual 3.0 Brasil.
Com base no trabalho disponível em brasilfranciscano.blogspot.com.

2.Ed.: Francisco de Assis : uma sintese biografica

Paz e bem! Substituí algumas ilustrações e principalmente alterei a licença de uso agora o uso comercial também está liberado.

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