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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Não é possível abrir caminhos para o Reino de Deus de qualquer maneira

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 4,24-34 que corresponde ao XI Domingo do Tempo Comum, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.
Eis o texto
Com humildade e confiança

Preocupava e muito a Jesus o fato de que seus seguidores terminassem o dia desalentados ao ver que os seus esforços por um mundo mais humano e ditoso não obtinham o êxito esperado. Esqueceriam o reino de Deus? Manteriam a sua confiança no Pai? O mais importante é que não esqueçam nunca como devem de trabalhar.

Com exemplos retirados da experiência dos camponeses da Galileia, anima-os a trabalhar sempre com realismo, com paciência e com uma confiança grande. Não é possível abrir caminhos para o Reino de Deus de qualquer maneira. Tem que ver como Ele trabalha.

O primeiro deles é saber que o seu trabalho é semear, e não colher. Não viverão pendentes dos resultados. Não se devem preocupar com a eficácia nem com o êxito imediato. A sua atenção centra-se em semear bem o Evangelho. Os colaboradores de Jesus têm de ser semeadores. Nada mais.

Depois de séculos de expansão religiosa e grande poder social nós, os cristãos, temos que recuperar na Igreja o gesto humilde do semeador. Esquecer a lógica do colhedor que sai sempre a recolher frutos e entrar na lógica paciente de quem semeia um futuro melhor.

O início do semear é sempre humilde. Mais ainda se se trata de semear o Projeto de Deus no ser humano. A força do Evangelho não é nunca algo espetacular ou clamoroso. Segundo Jesus, é como semear algo tão pequeno e insignificante como “um grão de mostarda” que germina secretamente no coração das pessoas.

Por isso o Evangelho só se pode semear com fé. É o que Jesus quer lhes fazer ver com as Suas pequenas parábolas. O Projeto de Deus de fazer um mundo mais humano leva dentro uma força salvadora e transformadora que já não depende do semeador. Quando a Boa Nova desse Deus penetra numa pessoa ou num grupo humano, ali começa a crescer algo que a nós nos desborda.

Em momentos como esse, na Igreja não sabemos como atuar nesta situação nova e inédita, em meio a uma sociedade cada vez mais indiferente a dogmas religiosos e códigos morais. Ninguém tem a receita. Ninguém sabe exatamente o que há para fazer. O que necessitamos é procurar caminhos novos com a humildade e a confiança de Jesus.

Mais cedo ou mais tarde, nós, os cristãos, sentiremos a necessidade de voltar ao essencial. Descobriremos que só a força de Jesus pode regenerar a fé na sociedade descristianizada dos nossos dias. Então aprenderemos a semear com humildade o Evangelho como início de uma fé renovada, não transmitida pelos nossos esforços pastorais, mas gerada por Ele.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Caminho da Graça na Conversão de São Francisco de Assis



Caminho da Graça na Conversão de São Francisco de Assis

Irmão Rev. Edson Cortasio Sardinha

O Catecismo da Igreja Católica afirma que “A graça do Espírito Santo procura despertar a fé, a conversão do coração e a adesão à vontade do Pai”. [1]
É esta graça que atuou na vida de Francisco. A ação da Graça de Deus em sua história é um claro testemunho do que Deus pode fazer na vida da pessoa que se entrega totalmente a Cristo.
O caminho de conversão de Francisco provoca em nós mudanças e nos leva a um desequilibro. A pessoa que lê o testemunho de Francisco percebe o poder de Cristo que transforma e muda a alma humana. O segredo de São Francisco está em sua conversão. Este conversão também é o caminho que tem transformado a vida de santos e santas de Deus. Somos desafiados a olhar Francisco e Clara como testemunhos vivos da conversão que o Espírito de Deus deseja operar em nossas vidas cotidianamente.
Leio o caminho da conversão de Francisco fazendo caminhos para a minha própria conversão ao projeto de Deus.

  1. A conversão é um ato da graça de Deus.
Pela graça de Deus qualquer pessoa pode ter uma experiência total e até mesmo progressiva de conversão espiritual. A conversão é uma ação de Deus na vida da pessoa. Não nasce do esforço humano, mas da graça do Senhor e seu imenso desejo de transformar. Qualquer pessoa pode ser transformada por Deus.
            Tomás de Celano evidencia a graça de Deus na vida de Francisco. Ele escreve: “Desde então esteve sobre ele a mão do Senhor e a destra do Altíssimo o transformou para que, por seu intermédio, fosse concedida aos pecadores a confiança na obtenção da graça e desse modo se tornasse um exemplo de conversão para Deus diante de todos”[2].
            Francisco se transformou em exemplo de conversão por intermédio unicamente da graça de Deus.
            Celano diz que Francisco era um homem simples “não pela natureza, mas pela graça”[3]
            A luta que Francisco travou com sigo mesmo pela sua conversão foi possível pela ação da graça de Deus em sua vida, como diz a Legenda dos Três Cavaleiros: “Desde então começou cada vez mais a desprezar-se, até conseguir, pela graça de Deus, a mais perfeita vitória sobre si mesmo”[4].
            Foi a ação da Graça de Deus que o fez ser um novo homem. Francisco não escolheu Deus. Ele foi escolhido pelo Senhor. O Anônimo Perusiano diz: “Por graça divina sentiu-se de repente mudado, assim lhe parecia, num outro homem”[5].
            Foi a graça de Deus que deu a Francisco os primeiros discípulos na caminhada da conversão radical e evangélica. “Vendo e ouvindo isto, dois homens de Assis, inspirados pela graça divina, aproximaram-se humildemente dele”.[6], conforme o Anônimo Perusiano.
            A experiência de Francisco foi unicamente com a graça de Deus. Zavalloni diz que  “é na conversação com Deus, é na oração, que Francisco compreendeu de que coisa o seu tempo tinha necessidade: não andou a consultar nem doutos nem bibliotecas, mas lançou-se na perspectiva focal do mistério de Deus”[7].




  1. A conversão é um ato da graça de Deus que espera uma resposta humana.
Francisco seguia um caminho de pecado. Tomás de Celano fala de sua vida mundana. Um homem que não tinha tempo para Deus e que gastava o dinheiro de seu pai sem responsabilidade. Pensava no imediatismo.
Tomás de Celano inicia sua Biografia dizendo: “Vivia na cidade de Assis, na região do vale de Espoleto, um homem chamado Francisco. Desde os primeiros anos foi criado pelos pais insensatamente, ao sabor das vaidades do mundo. Imitou-lhes por muito tempo o triste procedimento e tornou-se ainda mais frívolo e vaidoso”[8].
Francisco foi educado para ser um jovem “mundano”. Celano diz que: “Nesses tristes princípios foi educado desde a infância... Neles perdeu e consumiu miseravelmente o seu tempo quase até os vinte e cinco anos. Pior ainda: superou os jovens da sua idade nas frivolidades e se apresentava generosamente como um incitador para o mal e um rival em loucuras. Todos o admiravam e ele procurava sobrepujar aos outros no fausto da vanglória, nos jogos, nos passatempos, nas risadas e nas conversas fúteis, nas canções e nas roupas delicadas e luxuosas”.[9]
Deus foi sinalizando sua graça na vida de Francisco. Esta sinalização levou um bom tempo. O período da prisão na Perúsia foi um período de encontro com as sinalizações da Graça na vida de Francisco. Sua longa doença foi um caminho de graça. A voz que ouviu no caminho para a batalha ("Quem te pode ser melhor, o senhor ou o escravo?" Ele responde: "O senhor". A voz lhe replicou: "E então, por que abandonas o Senhor pelo escravo; o Príncipe pelo empregado?" Francisco responde: "Senhor, que queres que eu faça?" A voz tornou: "Volta para a tua cidade, para fazer o que o Senhor te vai revelar")[10] foi um grito da graça na vida de Francisco.
Todos estes sinais da graça foram realizados esperando pacientemente a resposta humana de Francisco.
Como responder? Procurando mais na Bíblia, na igreja e na liturgia. Dando as roupas e os tecidos do pai aos pobres. Beijando o mendigo e leproso. Reconstruindo capelas e igrejas. Se submetendo as orientações de seus líderes. Amando a Igreja. Francisco em sua conversão como resposta a graça de Deus foi dando passos e descobrindo caminhos.
Pela graça alcançou sua conversão total. Mas teve que responder a esta graça e trabalhar diariamente sua conversão. Boaventura diz: “Como leal seguidor de Jesus crucificado, Francisco crucificou sua carne com suas paixões e concupiscências, desde o inicio de sua conversão, impondo-se uma disciplina rigorosa...”.[11]
            Francisco insistiu em trabalhar sua experiência de conversão. A conversão é um ato da graça de Deus que exige uma resposta humana. Francisco “como verdadeiro imitador e discípulo do Salvador, entregou-se, no princípio de sua conversão, com todo esforço, com todo desejo, com toda decisão a buscar, encontrar e preservar a santa pobreza, sem duvidar de adversidades, sem temer nada de sinistro, sem fugir a nenhum trabalho, sem escapar de nenhuma angústia do corpo, para que lhe fosse dada finalmente a opção de chegar àquela a quem o Senhor entregou as chaves do reino dos céus”[12].         

  1. A Conversão como ato da graça de Deus é experiência espiritual
Algumas pessoas desejam trilhar os caminhos de Francisco a partir de eixos carnais, sociais e humanos. Isso é possível até certo ponto do caminho, mas também é frustrante no final. Vocação sem encontro com Deus se resume em cansaço.
Tudo foi possível para Francisco por causa de sua experiência espiritual com Deus. A Legenda Perusiana, relatando o sofrimento de Francisco com relação ao tratamento da enfermidade nos olhos nos informa que, mesmo diante da dor, “ele era arrebatado na contemplação de Deus[13]. Ele suportava a dor e cumpriu sua vida de testemunho por causa de sua experiência espiritual com Deus.
Não conseguimos construir projetos de conversões sem uma experiência espiritual com Deus. Seria um caminho impossível. Todos os santos e santas de Deus nos apontam para Deus. É Nele, o mistério, que reside nossa conversão para o caminho da santidade.
Sabemos que Francisco é um inspirador e provocador.
Vemos Francisco e desejamos ser como Francisco. Então começamos a tentar andar atrás de Francisco. Isso é fascinante. Mas percebemos que é uma utopia baseada no calor da emoção. Quando tentamos dar profundidade a nossa experiência, construímos com as próprias mãos caminhos, estatutos e Regras para fornecer a experiência necessária. Mas isso também não dá certo.
As irmandades, Ordens e Casas Religiosas conseguem celebrar o carisma, mas o carisma não é passado como uma transfusão de sangue na instrumentalidade das instituições humanas.
A conversão como ato da Graça de Deus é uma experiência espiritual com Deus. Francisco conseguiu trilhar este caminho devido seu encontro com Deus.

Quantos encontros Francisco teve com Deus? Muitos.
Alguns foram registrados nas Fontes Biográficas e nos primeiros escritos; e outros não. O Encontro de Francisco com Deus não dá para ser colocado num papel. É uma experiência única, intransferível em uma dimensão pessoal/espiritual.
Vemos um homem transformado pela graça e vivendo a realidade de Cristo. O mais parecido com Cristo. O mais apaixonado por Cristo. Desejamos imitar. Criamos legendas. A História é contata e enfeitada a cada dia. O conto se desenvolve tanto que acaba sendo artificial e raso. Fica apenas uma imagem estática de um ser que talvez não existisse ou é venerado pela religiosidade popular como uma imagem muito rápida e apressada de alguém.
Mas todo o caminho de Francisco, por mais provocador da sociedade, por mais palpável para as teologias sociais, por mais que seja ícone dos discursos de políticos parecendo “bons meninos”, foi um caminho da Graça que nasceu de uma experiência espiritual.
Parece que vejo Francisco apontando para o Cristo crucificado e morto, e me dizendo: “Faça sua própria experiência com Ele”!
A experiência de Francisco foi unicamente com Cristo. O Cristo lhe falou e converteu seu coração. Seu interior ficou derretido pela experiência com o Cristo crucificado, como ensinou seu discípulo Tomás de Celano[14].
Aqui está um problema muito sutil e que muitas vezes não conseguimos enxergar. Minha experiência franciscana não pode ser com Francisco, mas com o JESUS que Francisco experimentou em sua conversão e vida.
Se eu conseguir perceber a graça de Deus e sua vocação para minha vida, terei um encontro com JESUS e serei um autêntico Franciscano, caminhando no caminho que Francisco caminhou. Minha experiência será enriquecedora e verdadeira baseada no Encontro com Cristo.
A Experiência da conversão é um caminho espiritual com Cristo.
Francisco não confiava na força de sua vontade ou na carne. Por conhecer a própria fraqueza humana, buscava força na sua constante e progressiva experiência com Cristo através da oração. Boaventura diz que “A oração era também uma defesa ao se entregar à ação, pois persistindo nela, fugia de confiar em suas próprias capacidades, punha toda a sua confiança na bondade divina, lançando no Senhor os seus cuidados[15].


  1. A Conversão progressiva pela graça
Francisco não teve a totalidade de sua experiência no longo período de enfermidade. Também não conseguiu sua plena conversão construindo igrejas.
Sua conversão foi um caminho. Caminho longo, de aprendizado, experiências e renuncias.
Boaventura fala deste longo caminho de renúncia:

 “No inicio de sua conversão, com a coragem e o fervor do Espírito, chegou, em pleno inverno, a se lançar num fosso d'água gelada ou de neve para sufocar inteiramente o inimigo que cada qual traz em si e preservar dos ataques da volúpia a veste branca da inocência. Foi por essas práticas que começou a brilhar nele a bela pureza, o inteiro domínio que ele obteve sobre a carne. Parecia que tinha feito contrato com os olhos (cf. Jó 31,1): não só fugia a qualquer espetáculo que pudesse deleitar a carne, mas se recusava mesmo a olhar tudo o que apresentasse caráter de curiosidade ou de futilidade”[16].

Ele amava a igreja, aprendia com a igreja e através da igreja teve suas experiências com Deus. Mas também, de forma solitária, buscou um crescimento em Cristo e teve várias de suas experiências diretas com Deus.  
Sua conversão progressiva é trabalhada no silêncio e nos diversos retiros espirituais que exercia.
Tomás de Celano dá um importante testemunho a este respeito:

Passado algum tempo nesse lugar (um lugar calmo, secreto e solitário para poder se entregar a Deus)  e tendo conseguido, por uma oração contínua e uma contemplação freqüente, uma inefável familiaridade com Deus, teve vontade de saber o que o Rei eterno mais queria ou podia querer dele. Buscava com afã e desejava com devoção saber de que modo, por que caminho e com que desejos poderia aderir com maior perfeição ao Senhor Deus segundo a inspiração e o beneplácito de sua vontade[17].

Francisco foi um homem com fome de Deus. Entendeu que o céu sustentava a terra. Sentava com a graça de Deus diariamente. A graça de Deus trabalhou em sua vida progressivamente a conversão.

  1. A conversão que provoca
A conversão de Francisco de Assis não foi um encontro religioso que o colocou no padrão dos fiéis da época.
Sua conversão não o colocou na média de sua geração. Não foi uma conversão medíocre. Foi uma conversão abaixo, escandalizadora, anormal, transformadora e provocante.
Foi uma conversão provocadora.
Francisco provocou sua geração acolhendo o leproso com seus abraços e beijos. Sua atitude causou perseguição, exclusão e revolta nos próprios religiosos.
A conversão de Francisco provocou e trouxe reações imediatas sobre várias áreas:

a)      Sobre a família:
A Família de Francisco vivia da venda do comércio e do status. A lepra era conhecida como uma desgraça que causava exclusão total do indivíduo com relação até com a família. A conversão que levou Francisco a beijar um leproso trouxe angústia para a própria família. Além de prejudicar as vendas dos tecidos, rebaixar o status da família, também vinha o desconforto em poder ter um filho doente  e excluído da sociedade e dos sonhos dos jovens.
A conversão de Francisco causou prejuízo financeiro na empresa do pai. O fato de pegar os tecidos e dar aos pobres foi uma afronta provocadora aos projetos do mercado.
A família também sofreu com o novo estilo de vida que a conversão causou em Francisco. Passou a andar como mendigo, recolhendo pão para sobreviver. Ele perdeu a menor das vaidades e passou a ser um indigente diante dos olhos dos pais.
O pai poderia ser consolado se Francisco pelo menos aceitasse entrar na estrutura normal da igreja e ser um padre ou um monge agostiniano ou beneditino. Francisco não aceita esta opção. Para ele este não era o caminho exigido pela sua conversão.
Francisco abre mão da herança do pai terreno e ganha as heranças do pai celeste. Tomás de Celano testemunha que Francisco disse “na frente de muitas pessoas que se tinham ajuntado: "Agora poderei dizer livremente: Pai nosso, que estais nos céus. Pedro Bernardone já não é meu pai, e a ele devolvo tanto o dinheiro como a minha roupa toda. Irei nu para o Senhor"[18].

    
b)     Sobre a Igreja
A Igreja tinha caminhos prontos. Francisco teve a oportunidade de viver sua conversão nos caminhos tradicionais e naturais da igreja. Mas sua conversão além de restaurar a igreja que estava com as bases quebradas, também causou um abalo em bases estabelecidas. Todos que viviam na fé de que a riqueza e a glória eram sinais de bênçãos, foram criticados por sua conversão silenciosa. “Enquanto viveu neste vale de lágrimas, o santo pai desprezou as míseras riquezas dos filhos dos homens e, ambicionando a mais alta glória, dedicou-se de todo coração à pobreza”[19].
Os homens da igreja tentaram levar Francisco para o clero ou para o monastério[20]. Francisco resistiu. Deseja apenas ser um arauto de Deus e anunciar livre sua grande descoberta: O Evangelho do Senhor JESUS.
Pela graça de Deus, Francisco teve o apoio do papa Inocêncio III[21].
Se Francisco não tivesse o apoio do Papa, sua relação com a igreja poderia ser desastrosa e sofredora, pois sua conversão não estava na trilha do cristianismo de sua época. Sua conversão provocou a própria igreja, apesar de venerar os valores, doutrinas e a hierarquia da igreja. Não falou contra a igreja, apenas caminhou no caminhou que muitos da igreja não caminhavam.

c)      Sobre a sociedade de sua época.
A conversão de Francisco provocou a sociedade. Ele desprezou os que os pobres mais desejavam e fez os ricos se sentirem culpados. Caminhou na contramão de sua época. Desprezou o resultado do esforço egoísta dos homens. Estabeleceu em sua vida um caminho a margem de sua época. Sua conversão influenciou médicos, advogados, professores, príncipes.
Seus discípulos saíram do trilho da sociedade. Cantaram o que ninguém cantava e dançaram a música que ninguém tocava. Francisco viveu os valores do Reino de Deus de forma radical, total e inquietante. Colocou o Evangelho de Cristo como meta em sua vida sem pedir licença. Quis viver a radicalidade do amor e da fé evangélica mesmo contra o bom senso de sua sociedade.

d)     Sobre seu futuro
O que Francisco como jovem desejava para seu futuro?
Gostava de gastar o dinheiro do pai, vivia nas festas e no pecado. Seria um comerciante ou um grande cavaleiro. Seu pai desejava muito seu envolvimento na Cruzada para trazer prestígio e poder para a própria família. O futuro do jovem Francisco seria maravilhoso. Mas Francisco joga tudo fora por amor ao Evangelho do Senhor.
Seu futuro fica comprometido. Ele sai da rota. Joga os sonhos juvenis no lixo e caminha radicalmente contrário a todos. A sua conversão faz com que as expectativas dos outros fossem frustradas, principalmente suas próprias expectativas. 

e)      Sobre o cristianismo
Escrevo este texto como protestante de uma igreja Histórica do século XVIII. Ouvi a história de Francisco em minha preparação para a Primeira Comunhão. Li o “Cântico do Irmão Sol” quando ainda era aluno do primário, com 8 anos de idade. Li textos, assisti filmes e me apaixonei por sua conversão. Foi o homem mais evangélico de conheci.
Não apenas a Igreja Católica foi provocada pela experiência de Francisco, mas toda a cristandade tem sido impactada pela história de sua conversão. Atualmente existem muitos grupos franciscanos dentro das igrejas protestantes.
A protestante Madre Schlink, da Irmandade Evangélica de Maria, em seu livro “O Mundo de São Francisco” escreve:

“Em sua personalidade, seu caráter e sua vida descobri a mensagem do Evangelho: "Se não vos tornardes como crianças... Graças te dou, ó Pai, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos, aos fracos e ignorantes..." O cativante coração infantil e humildade de Francisco de Assis, que se tornaram a fonte de todo poder e autoridade no seu ministério por Jesus, tocaram o meu coração. O ardente amor por Jesus, nascido do arrependimento, a estreita comunhão do coração com Jesus, quem é a fonte de toda a alegria. Tudo isso eu podia ver na vida de S.Francisco. Isso fortaleceu em mim o desejo de amar mais a Jesus. Dos resultados da vida e discipulado de S.Francisco, percebi que somente o amor ardente por Jesus traz a solução para os problemas e dificuldades na Igreja e no mundo,  como foi demonstrado em certo sentido na sua época[22].

A conversão de Francisco abalou e abala o cristianismo, provoca a religião de mercado, ridiculariza as conversões artificiais e rasas das muitas igrejas chamadas evangélicas da atualidade. A conversão de Francisco restaura um modelo de conversão que não se encaixa nas estruturas do cristianismo moderno.
  
f)       Sobre o mundo
O mundo rejeita o pobre e trabalha num projeto de exclusão. Os valores do mundo leva-nos a ter bens além do necessário. Somos viciados pelo comércio e pelas novas tecnologias.
O mundo diz que precisamos do seguinte produto para ser feliz. Ser feliz é comprar uma cama nova. Ser feliz é andar na moda. Ser feliz é ter a última tecnologia. O ter exclui e aumenta a desigualdade social.
A conversão de Francisco denuncia e incomoda a sociedade atual. Alguns pais ficam desesperados quando seus filhos desejam uma conversão radical como a que Francisco teve. Ser franciscano incomoda o mundo e traz inquietação.  

Conclusão:  Um Chamado a conversão
Sou cristão e sirvo o Senhor como presbítero, mas leio Francisco de Assis como um forte apelo a minha própria conversão cotidiana. Uma conversão que causa estranheza em minha própria rota. Uma conversão que frustra as expectativas que os outros tem sobre mim. Uma conversão que coloca Deus em seu verdadeiro lugar em minha vida. Uma conversão que me dá medo.
Mas, na essência da minha vida, é esta conversão que desejo sempre. Não ganhar a Salvação pelo esforço religioso, mas viver na celebração da Salvação que ganhei pela Graça. Viver rico não tendo nada. Viver dançando sem música, por ter a música da conversão dentro de mim.
Francisco viveu uma conversão radical, transformadora e evangélica.
É esta que busco para a minha curta, pequena e insignificante peregrinação.
Toda a nossa vida e morte são para o “louvor, glória e honra de Nosso Senhor Jesus Cristo, cujo reino e império permanecerá firme e estável por todos os séculos dos séculos. Amém”[23].

Irmão Rev. Edson Cortasio Sardinha – Presbítero (pastor) da Igreja Metodista no Brasil, Teólogo, Educador, Especialista em Ciências da Religião e em Liturgia e Artes Sacras.



[1] Catecismo da Igreja Católica. C.75.10 Conversão dom do Espírito Santo - §1098
[2] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.1. - 2
[3] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.21. - 58
[4] LEGENDA DOS TRÊS COMPANHEIROS : C.5. parágrafo 11
[5] ANÔNIMO PERUSINO : C.2. – Parágrafo 6.
[6] ANÔNIMO PERUSINO : C.2. – Parágrafo 10.
[7] Zavalloni, Roberto. Pedagogia Franciscana. Desenvolvimento e perspectivas. Editora Vozes: Petrópolis RJ, 1999. pg 131.
[8] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.1. - 1
[9] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.1. - 2
[10] ANÔNIMO PERUSINO : C.2. – parágrafo 6.
[11] S. Boaventura LEGENDA MENOR : C.3. Parágrafo 1
[12] SACRUM COMMERCIUM” ALIANÇA DE SÃO FRANCISCO COM A SENHORA POBREZA: C.1. Parágrafo 4.
[13] LEGENDA DE PERUSA: C.86. “E se deleitava tanto com elas, e seu espírito tinha tamanha compaixão e piedade por elas que se perturbava quando alguém não as tratava bem. E também conversava com elas com alegria interior e exterior, como se sentissem, entendessem e falassem de Deus, de forma que, muitas vezes, quando fazia isso, era arrebatado na contemplação de deus. Pois, uma vez, quando estava sentado perto do fogo, sem que ele percebesse, o fogo invadiu seus panos de linho que cobriam a perna. Quando sentiu o calor do fogo e o seu companheiro viu que o fogo estava queimando seus panos, correu para apagá-lo. Mas ele lhe disse: “Irmão caríssimo, não queira fazer mal ao irmão fogo”. E assim não lhe permitiu de modo algum que o apagasse”.
[14] Tomás de Celano TRATADO DOS MILAGRES DO BEM-AVENTURADO FRANCISCO: C.2. Parágrafo 2. "Francisco, vá reparar minha casa que, como vês, está sendo toda destruída". Desde então ficou profundamente gravada em seu coração a lembrança da paixão do Senhor e, realizada uma enorme conversão interior, sua alma começou a derreter-se, quando o amado lhe falou.”
[15] S. Boaventura LEGENDA MAIOR : C 10. Zelo na oração e poder de sua prece. – Parágrafo 1
[16] S. BoaventuraLEGENDA MENOR : C .3. AS VIRTUDES COM QUE DEUS O DISTINGUIU – parágrafo 1
[17] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.2,  C 2. O maior desejo de São Francisco. Compreende a vontade de Deus a seu respeito ao abrir o livro.
[18] Tomás de Celano. SEGUNDA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L 1, C 7. A perseguição do pai e de seu irmão de sangue.
[19] Tomás de Celano SEGUNDA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.6, C 25. Louvor à Pobreza.
[20] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.13 : “São Francisco também se apresentou ao senhor bispo de Sabina, João de São Paulo, que se destacava entre os outros príncipes e dignitários da Cúria Romana por "desprezar as coisas terrenas e aspirar às celestiais" Este o recebeu com "bondade e caridade" e elogiou bastante sua resolução e seus projetos. Entretanto, prudente e discreto, interrogou-o sobre muitos pontos e tentou persuadi-lo a passar para a vida monástica ou eremítica. Mas São Francisco recusou com humildade e quanto lhe foi possível esse conselho, sem desprezar os argumentos, mas por estar piedosamente convencido de que era conduzido por um desejo mais elevado. Admirava-se o prelado com seu fervor, e temendo que fraquejasse em tão altos propósitos, mostrava-lhe caminhos mais fáceis. Afinal, vencido por sua constância, anuiu a seus rogos e procurou apoiar sua causa diante do Papa”.
[21] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.13. Tendo-lhes feito muitas exortações e admoestações, abençoou São Francisco e seus irmãos e lhes disse: "Ide com Deus, irmãos, e conforme o Senhor se dignar inspirar-vos, pregai a todos a penitência. Quando o Senhor vos tiver enriquecido em número e graça, vinde referir-me tudo com alegria, e eu vos concederei mais coisas do que agora e, com maior segurança, vos confiarei encargos maiores".
[22] Madre Basiléia Schlink. Os Irmãos Franciscanos de Canaã. In http://www.canaan.org.br/irmandade_irmaos.htm
[23] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.4, C.7.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

POR QUE A CRUZ? SERÁ QUE ELA É NECESSÁRIA?





CRÔNICAS DE MINHA ALMA: POR QUE A CRUZ? SERÁ QUE ELA É NECESSÁRIA?

Para nós que contemplamos Jesus crucificado, a cruz é o selo da perfeita obediência. Não podemos esquecer que a queda do homem se deu pela desobediência, e o que resultou depois da queda foi a tragédia que se estabeleceu no seio da criação e até hoje sofremos as consequências do primeiro pecado e de todos os pecados que se sucedem a este. Mas Deus em sua infinita bondade jamais se esqueceu de agir com misericórdia para conosco, afastando de nós o mal, e nos fazendo experimentar sua misericórdia cada vez que a buscamos de todo o coração.

Sendo assim, não há dúvida de que a misericórdia do Senhor prevalece sobre todos os pecados da humanidade. Por sua vez, sabemos que entre nós tudo tem limite, até mesmo os nossos pecados, mas misericórdia e a paciência divina para conosco, não tem limite; no entanto, o Senhor por seu poder e governo, está passando a limpo tudo e todos, para que prevaleça sua justiça, e todos os justos que se deixaram justificar por Jesus Cristo, seu Filho amado. Ele se submeteu livremente ao sofrimento de cruz por puro amor e obediência ao Pai, para reparar o pecado da desobediência humana que tanto sofrimento traz à toda criação.

Assim, quem nasce da água e do Espírito Santo, pelo batismo, e decide seguir livremente o Filho de Deus, sofre, não porque pecou, mas, porque espera a manifestação da plenitude do Reino de Deus, como nos ensinou São Paulo: “Sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia. Não só ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos em nós mesmos, aguardando a adoção, a redenção do nosso corpo. Pois a criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou, o pecado humano), todavia com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus”. (Rom 8,22-23.20-21).

Portanto, Cristo Jesus foi enviado pelo Pai para nos libertar do pecado e das consequências do pecado; no entanto, tudo aquele que decide permanecer no pecado, terá como quinhão o sofrimento e a morte que o pecado traz. ”Porque o salário do pecado é a morte, enquanto o dom de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”. (Rom 6,23).

Paz e Bem!

***
Em seguida, Jesus disse a seus discípulos: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á. Que servirá a um homem ganhar o mundo inteiro, se vem a prejudicar a sua vida? Ou que dará um homem em troca de sua vida?... Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai com seus anjos, e então recompensará a cada um segundo suas obras”. (Mt 16,24-27).
***


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FREI FERNANDO, VIDA, FÉ E POESIA by Frei Fernando,OFMConv. is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Compartilhamento pela mesma Licença 2.5 Brasil License.

terça-feira, 5 de junho de 2012

A IGREJA É COMO UMA GRANDE BARCA QUE NAVEGA PELO MAR REVOLTO DESTE MUNDO



A IGREJA É COMO UMA GRANDE BARCA QUE NAVEGA PELO MAR REVOLTO DESTE MUNDO

A Igreja é como uma grande barca que navega pelo mar deste mundo. Sacudida nesta vida pelas diversas ondas das tentações, não deve ser abandonada a si mesma, mas governada. Na Igreja primitiva temos o exemplo de Clemente, Cornélio e muitos outros na cidade de Roma, de Cipriano em Cartago, de Atanásio em Alexandria. Sob o reinado dos imperadores pagãos, eles governaram a barca de Cristo, ou melhor, a sua caríssima esposa, que é a Igreja, ensinando-a, defendendo-a, trabalhando e sofrendo até ao derramamento de sangue.

Ao pensar neles e noutros semelhantes, fico apavorado; o temor e o tremor me penetram e o pavor dos meus pecados me envolve e deprime! (Sl 54,6); gostaria muito de abandonar inteiramente o leme da Igreja, se encontrasse igual precedente nos Padres ou na Sagrada Escritura.

Mas não sendo assim, e dado que a verdade pode ser contestada, mas nunca vencida nem enganada, nossa alma fatigada se refugia nas palavras de Salomão: Confia no Senhor com todo o teu coração, e não te fies em tua própria inteligência; em todos os teus caminhos, reconhece-o, e ele conduzirá teus passos (Pr 3,5-6). E noutro lugar: O nome do Senhor é uma torre fortíssima. Nela se refugia o justo e será salvo (cf. Pr 18,10).

Permaneçamos firmes na justiça e preparemos nossas almas para a provação; suportemos as demoras de Deus, e lhe digamos: Vós fostes um refúgio para nós, Senhor, de geração em geração (Sl 89,1). Confiemos naquele que colocou sobre nós este fardo. Por não podermos carregá-lo sozinhos, carreguemo-lo com o auxílio daquele que é onipotente e nos diz: O meu jugo é suave e o meu fardo é leve (Mt 11,30).

Fiquemos firmes no combate, no dia do Senhor, porque vieram sobre nós dias de angústia e de tribulação (cf. Sl 118,143). Se Deus assim quiser morramos pelas santas leis de nossos pais (cf. 1Mc 2,50), a fim de merecermos alcançar junto com eles a herança eterna.

Não sejamos cães mudos, não sejamos sentinelas caladas, não sejamos mercenários que fogem dos lobos, mas pastores solícitos, vigilantes sobre o rebanho de Cristo. Enquanto Deus nos der forças, preguemos toda a doutrina do Senhor ao grande e ao pequeno, ao rico e ao pobre, e todas as classes e idades, oportuna e inoportunamente, tal como São Gregório escreveu em sua Regra Pastoral.

Paz e Bem!

Fonte: Das Cartas de São Bonifácio, bispo e mártir (Ep.78:MGH, Epistolae, 3,352.354) (Séc.VIII)

domingo, 3 de junho de 2012

GLÓRIA A DEUS QUE É UNO E TRINO




GLÓRIA A DEUS QUE É UNO E TRINO

Luz, esplendor e graça na Trindade e da Trindade

Não devemos perder de vista a tradição, a doutrina e a fé da Igreja católica, tal como o Senhor ensinou, tal como os apóstolos pregaram e os Santos Padres transmitiram. De fato, a tradição constitui o alicerce da Igreja, e todo aquele que dela se afasta deixa de ser cristão e não merece mais usar este nome.

Ora, a nossa fé é esta: cremos na Trindade santa e perfeita, que é o Pai, o Filho e o Espírito Santo; nela não há mistura alguma de elemento estranho; não se compõe de Criador e criatura; mas toda ela é potência e força operativa; uma só é a sua natureza, uma só é a sua eficiência e ação. O Pai cria todas as coisas por meio do Verbo, no Espírito Santo; e deste modo, se afirma a unidade da Santíssima Trindade. Por isso, proclama-se na Igreja um só Deus, que reina sobre tudo, age em tudo e permanece em todas as coisas (cf. Ef 4,6). Reina sobre tudo como Pai, princípio e origem; age em tudo, isto é, por meio do Verbo; e permanece em todas as coisas no Espírito Santo.

São Paulo, escrevendo aos coríntios acerca dos dons espirituais, tudo refere a Deus Pai como princípio de todas as coisas, dizendo: Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos (lCor 12,4-6).

Os dons que o Espírito distribui a cada um vêm do Pai por meio do Verbo. De fato, tudo o que é do Pai é do Filho; por conseguinte, as graças concedidas pelo Filho, no Espí­rito Santo, são dons do Pai. Igualmente, quando o Espírito está em nós, está em nós o Verbo, de quem recebemos o Espírito; e, como o Verbo, está também o Pai. Assim se cumpre o que diz a Escritura: Eu e o Pai viremos a ele e nele faremos a nossa morada (Jo 14,23). Pois onde está a luz, aí também está o esplendor da luz; e onde está o esplendor, aí também está a sua graça eficiente e esplendorosa.

São Paulo nos ensina tudo isto na segunda Carta aos coríntios, com as seguintes palavras: A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós (2Cor 13,13). Com efeito, toda a graça que nos é dada em nome da Santíssima Trindade, vem do Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. Assim como toda a graça nos vem do Pai por meio do Filho, assim também não podemos receber nenhuma graça senão no Espírito Santo. Realmente, participantes do Espírito Santo, possuí­mos o amor do Pai, a graça do Filho e a comunhão do mesmo Espírito.

Paz e Bem!

Fonte: Das Cartas de Santo Atanásio, bispo - (Ep. l ad Serapionem, 28-30: PG 26,594-595.599) (Séc. IV).

sábado, 2 de junho de 2012

AS INVOCAÇÕES DA LADAINHA DE NOSSA SENHORA




AS INVOCAÇÕES DA LADAINHA DE NOSSA SENHORA


Virgem prudentíssima

A virtude da prudência sempre foi a mãe e guarda de todas as virtudes a ponto de o nosso salvador no-la recomendar: “Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas”. (Mt 10,16). São Paulo entendeu perfeitamente esse ensinamento de Jesus, e baseado nele nos exortou: “Quero que sejais prudentes no tocante ao bem, e simples no tocante ao mal. (Rom 16,19b). De fato, a virtude prudência nos faz evitar precipitações, nos dá o discernimento preciso para evitarmos o mal e o direcionamento seguro para que aconteça somente a vontade de Deus em nossa vida.

Maria santíssima sempre trouxe consigo esta virtude em grau máximo, por isso é chamada Virgem prudentíssima, porque tinha o seu refúgio no Senhor e agia sempre conforme o seu Conselho. Vemos o exercício desta virtude por parte da Virgem nos seguintes episódios do Evangelho: o nascimento de Jesus (cf. Lc 2,1-21); a apresentação de Jesus no templo (cf. Lc 2,22-40); a fuga da Sagrada Família para o Egito (cf. 2,13-23); a perca e o encontro do menino Jesus no templo (cf. Lc 2,41-52); e nas bodas de Caná (cf. Jo 2,1-12).

Virgem venerável

Veneração é um ato sublime de reconhecimento das virtudes dos santos e da importância que esses santos tiveram e têm diante de Deus, por sua escolha, por sua dedicação a Deus e por tudo o que viveram para que o Plano da Salvação se realizasse plenamente no meio de nós. Quando dizemos: “Veneração dos santos, dizemos de uma especial devoção aos santos, que são considerados modelos de vida cristã e que gozam no Céu da vida eterna, podendo interceder pelos fiéis, sendo a veneração uma forma de prestar-lhes respeito”.

“O Culto Divino está devidamente reservado apenas para Deus (latria) e nunca para os santos. Embora o termo "veneração" ou "culto" seja frequentemente utilizado, verdadeiramente significa apenas prestar honra ou respeito (Dulia) aos santos. Veneração não deve ser confundida com idolatria”. (Wikipédia).

Por que veneramos Maria, a Mãe de Jesus? Porque em nenhum outro ser humano se deu a graça de Deus como seu deu nela. Serva fiel do altíssimo teve a honra de receber em seu ventre o Filho de Deus, gerado pelo Espírito Santo, e que permaneceu com ela desde a concepção até sua morte de cruz e subida ao céu. Ora, em ninguém deste mundo ou do outro esse acontecimento se dará novamente. A carne do Salvador é carne da Virgem, o Sangue Redentor é sangue da Virgem, ou seja, Maria está sempre presente em Jesus e Jesus sempre presente em Maria e isto é único, não se repetirá mais. Então, quando veneramos a Virgem Mãe, estamos reconhecendo nela as sublimes virtudes que o Senhor lhe concedeu, como ela mesma nos revelou: “Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo”. (Lc 1,46-49).

Virgem louvável

O louvor é próprio dos filhos e filhas de Deus, porque, conduzidos pelo Espírito Santo, são receptores e condutores das graças que Deus nos prodigalizou, para o louvor de Sua Glória. Ora, assim como o Senhor, por meio do seu Espírito, nos dá a graça de reconhecermos as sublimes virtudes de sua e nossa Mãe, de igual modo, Ele também nos dá a graça de emitirmos o louvor que Ela merece, nada mais justo, pois, qual o filho que amado por sua mãe até o heroísmo de sua entrega, não a louva?

Grandíssimo mérito tens, ó Virgem louvável, por teres vivido neste mundo como morada definitiva de Deus. E ao partires daqui para os céus, continuas a nos assistir por tuas preces junto ao teu amado Filho Jesus, para que recebamos em toda a sua plenitude as graças que Ele nos prometeu. Ó Mãe amável, recebe o nosso louvor e admiração, pois somos os teus filhos e filhas, ó Mãe santíssima da nossa redenção.

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.


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sexta-feira, 1 de junho de 2012

Deus não está preso a um lugar sagrado

Deus não está preso a um lugar sagrado.

Não pertence a uma religião 

 

O melhor amigo

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 28, 16-20 que corresponde ao Domingo da Santíssima Trindade, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.
Eis o texto.

No núcleo da fé cristã num Deus trinitário há uma afirmação essencial. Deus não é um ser tenebroso e impenetrável, encerrado egoisticamente em si mesmo. Deus é Amor e só Amor. Nós cristãos acreditamos que no mistério último da realidade, dando sentido e consistência a tudo, não há senão Amor.
Jesus não escreveu nenhum tratado acerca de Deus. Em nenhum momento o encontramos expondo aos camponeses da Galileia alguma doutrina sobre Ele. Para Jesus, Deus não é um conceito, uma bela teoria, uma definição sublime. Deus é o melhor Amigo do ser humano.

Os investigadores não duvidam de um dado que recolhem dos evangelhos. As pessoas que escutavam Jesus a falar de Deus e o viam atuar em seu nome experimentavam Deus como uma Boa Nova. O que Jesus diz de Deus soa-lhes a algo de novo e bom. A experiência que comunica e contagia parece-lhes a melhor notícia que podem escutar de Deus. Por quê?

Talvez o primeiro que captam é que Deus é de todos, não só dos que se sentem dignos para apresentar-se ante Ele no templo. Deus não está preso a um lugar sagrado. Não pertence a uma religião. Não é uma propriedade dos piedosos que peregrinam a Jerusalém. Segundo Jesus, ele “faz sair o seu sol sobre bons e maus”. Deus não exclui nem discrimina ninguém. Jesus convida todos a confiar Nele: “Quando oreis dizei: Pai!”

Com Jesus eles vão descobrindo que Deus não é só dos que se aproximam dele carregados de méritos. Antes deles, escuta a quem lhe pede compaixão porque se sentem pecadores sem remédio. Segundo Jesus, Deus anda sempre procurando aqueles que vivem perdidos. Por isso se sente tão amigo de pecadores. Por isso lhes diz que Ele “veio procurar e salvar o que estava perdido”.

Também se dão conta de que Deus não é só dos sábios e entendidos. Jesus agradece ao Pai porque gosta de revelar aos pequenos coisas que estão ocultas aos ilustrados.  Deus tem menos problemas para entender-se com o povo simples do que com os doutos que acreditam saber tudo.

Sem dúvida, a vida de Jesus foi dedicada em nome de Deus a aliviar o sofrimento dos doentes, libertar os possuídos por espíritos malignos, resgatar leprosos da marginalização, oferecer o perdão a pecadores e prostitutas..., o que os convenceu que Jesus experimentava Deus como o melhor Amigo do ser humano, que só procura o nosso bem e apenas se opõe aos que nos fazem mal. Os seguidores de Jesus nunca puseram em dúvida que o Deus encarnado e revelado em Jesus é Amor e só Amor para todos.

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