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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Alceu Amoroso Lima

Onde outros dariam ou deram o seu saber, a sua astúcia, a sua coragem, Francisco deu apenas isso: o seu coração. Esse ISSO revolucionou a História. Com sua fé infantil, renovou a alma e o mundo. Por isso é tão atual no século XX quanto foi no século XIII.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

SÉRIE MEDITAÇÕES: O AMOR, A VERDADE E OUTRAS VIRTUDES (CONTINUIDADE)...



SÉRIE MEDITAÇÕES

O AMOR, A VERDADE E OUTRAS VIRTUDES (CONTINUIDADE)...


JUSTIÇA

A Justiça dá a cada ser o que lhe é devido na medida certa...
Por isso, Ela busca sempre a verdade dos fatos, porque esta lhe dá a capacidade de ação para o bem estar de todos...
Repara o mal que de fato houve...
Pune o que devido, liberta o que preciso...
Assim é e sempre será a Justiça...
Destarte, só Deus é Justo, e por seu Filho Jesus Cristo,
Justifica todos os injustiçados... (cf. Mt 5,6)

PIEDADE

A Piedade é a verdade em oração no coração das almas santas...
Uma alma piedosa ama a Deus com profunda reverência...
Clama por sua clemência, e se põe à disposição de sua vontade...
Cresce na intimidade e no fervor, e sabe guardar com amor todas as pérolas divinas que lhes são confiadas, não as atirando aos porcos...
Todavia as multiplica pela oração,
Ornando com a unção divina e salutar as almas mais necessitadas...


A Fé é como um expectorante para a alma,
visto que põe para fora dela toda desconfiança,
firmando-a na esperança que não decepciona....
Isto porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações,
pelo Espírito Santo que nos foi dado...(cf. Rom 5,5).
A fé tudo alcança, porque obtém de Deus todo poder,
Por isso, tudo é possível ao que crer...

ESPERANÇA

A Esperança é alma gêmea da fé,
porque tem certeza do que não vê...
Diz o ditado popular: quem espera em Deus nunca cansa,
porque Deus não falha nunca...
A esperança também se chama convicção,
porque quem espera em Deus nunca duvida de suas promessas,
pois sabe que elas são o motivo e o fundamento de sua aliança conosco...

CARIDADE

A Caridade é o amor assistindo as necessidades,
reparando as injustiças e imperfeições dos homens...
Ela por sua vez é assistida pela Providência Divina,
que consola os corações caridosos pelo milagre do bem feito aos mais necessitados...
Ela é como que a mão do Senhor a socorre-nos em seu amor...
Pela caridade somos anjos de resgate...
Apoiando os caídos, assistindo os desvalidos,
libertando os oprimidos que o egoísmo de alguns mutilou...
A caridade nunca passa, até que cheguemos ao céu...
Todavia, não busque nela alguma salvação pessoal,
Pois ninguém é salvo pelas obras...
Porém, convém saber que as boas obras só existem,
porque fomos salvos por Jesus Cristo, o Filho de Deus...

TEMPERANÇA

A Temperança é o equilíbrio perfeito entre os desejos da carne e os do Espírito; isto porque a aspiração da carne é a morte; enquanto a aspiração do Espirito é a vida e a paz; pois a carne (concupiscência) não se submente à Lei de Deus e nem o pode, porque os que vivem segundo a carne rejeitam as graças do Espírito de Deus...

“Portanto, irmãos, não somos devedores da carne, para que vivamos segundo a carne. De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis, pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”. (Rom 8,12-14).

SOBRIEDADE, MODÉSTIA

Em cada área do nosso ser existe a possibilidade do prazer, pois o dom de sentir prazer é um dom que Deus nos deu, e que gera em nós certa satisfação prazerosa, isto é, certa sensação de felicidade. Todavia, é preciso que haja equilíbrio em todos os nossos sentidos para que estas sensações não se transformem em fuga de nós mesmos, dos outros e de Deus; ou mesmo desemboquem nos vícios que levam ao precipício da perca de liberdade, porque toda sensibilidade carnal é passageira e fugaz, quando não equilibrada pela sobriedade.

A Sobriedade é a virtude que Deus nos deixou para não nos afastarmos do seu amor, que é a nossa eterna fonte de felicidade. É ela que nos equilibra e nos conduz à moderação no comer e beber; no pensar e falar; no olhar e sentir; no vestir e se portar. A sobriedade é prima irmã da modéstia, pois esta faz a festa da graça de Deus em nossas almas. (cf. Rom 12,16).

MANSIDÃO

Quem vive cultivando a virtude da Mansidão tem seu coração em Deus, que nos ensina por seu Filho amado, a nunca nos alterarmos em meio aos desequilíbrios dos homens (cf. Mt 11,28-30). Essa virtude vem também acompanhada de uma promessa, os mansos possuirão a terra, indício da posse do céu, terra eterna prometida por Deus aos filhos seus (cf. Mt 5,5; 2Ped 3,11ss).

INOCÊNCIA

A inocência nos torna imunes à todo tipo de perseguição e violência, porque todo inocente é livre e tem na inocência sua maior defesa. Alguém é inocente quando vive a verdade diante de Deus e dos homens, porque o fato de existir naturalmente já é a verdade em si. Todavia, precisamos vive-la com ela é, transparente sempre, como o próprio Deus. Os mais temidos dos homens são os inocentes, porque até mesmo o seu silêncio causa tortura aos seus algozes. Por isso, todo inocente é invencível, pois nem a morte o poderá destruir.


PENITÊNCIA

Jesus começou seu ministério nos ensinando a fazer penitência: "Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho”. (Mc 1,15).

Como vimos nesse ensinamento do Senhor, a penitência é o reforço da fé, pois o verdadeiro arrependimento precisa de penitência para que haja verdadeira conversão. Não basta dizer, “creio em Jesus Cristo”; pois, a fé é muito mais do que uma simples afirmação; ela precisa do esforço da alma penitente para se firmar e crescer na graça santificante, e dar os frutos da adesão ao Senhor, por meio da vivência do seu evangelho. Fazer penitência é vencer-se a si mesmo, como nos ensinou São Francisco de Assis, em sua décima Admoestação: “O pior inimigo do homem é ele mesmo, vence-te a ti mesmo e vencerás todos os teus inimigos visíveis e invisíveis”. Porquanto, ajuda-nos Senhor a penitenciar-nos em tua presença, pois sem Ti nada podemos fazer (cf. Jo 15,5).

PRUDÊNCIA

A Prudência é a aliada que perpassa todas as outras virtudes...
Por ela ninguém erra...
Por ela evita-se a dúvida atroz e o desengano...
Porque a Prudência nos faz atentos, nos dá alento para decidirmos somente pela vontade de Deus...
Desse modo, Ela é o discernimento perfeito e a razão de ser do equilíbrio de todas as outras virtudes em nossa vida...

COERÊNCIA

A Coerência é a autêntica vivência da fé, é ela a despenseira de todas as graças, para darmos os frutos de santidade que o Senhor nos concede na Santa Comunhão. Ela é o motivo de sermos recebidos e atendidos diante de Deus. Por ela somos livres desde já de todo julgamento diante do tribunal do Senhor.

É a Coerência que ilumina nossas almas com a luz que nunca se apaga e por isso, se torna nosso escudo de proteção para todos que a vivem. Ela põe por terra toda falsidade, porque faz valer a verdade e a autoridade divina em nossa vida. Foi pela virtude da coerência que Natanael foi identificado por Jesus e recebeu dele o mais belo elogio entre os apóstolos, e uma especial revelação do Senhor. (cf. Jo1,43-51).

O QUE DIZER AINDA MAIS A RESPEITO DAS VIRTUDES?

Todas as virtudes com que Deus nos criou...
Foram-nos concedidas para permanecermos fieis ao seu amor,
E gozarmos da liberdade infinita em sua Presença bendita...
Por isso, abusar da misericórdia e da bondade divinas...
É deixar de viver no santo temor...
É perder-se na agonia e na dor de não amar o Senhor,
e não se deixar amar por Ele eternamente...

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.


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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

SÉRIE MEDITAÇÕES: A FÉ É UM DOM DE DEUS



SÉRIE MEDITAÇÕES

A FÉ É UM DOM DE DEUS?


A fé é um dom de Deus e uma de suas leis naturais presente em todas as suas criaturas. Ora, naturalmente todos já nascem acreditando seja na própria vida, seja em algum credo que professa, seja no seguimento de alguma ideologia, seja ainda pela incredulidade ou indiferença com que alimenta sua alma; o fato é que todos creem, e isto é inegável. Porém, em todos os batizados a fé é dom do Espírito Santo que lhes concede a percepção das graças que Deus nos prodigalizou (cf. 1Cor 2,12).

Tanto na vida dos que creem como dos que não creem, a fé ou a falta dela, surte efeitos inigualáveis. Para os que creem a fé é fonte de salvação, como nos ensinou nosso Senhor Jesus Cristo: “Tudo é possível ao que crê”. (Mc 9,23). Por ela nos aproximamos de Deus e com Ele interagimos, porque, “A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê” (Heb 11,1). “Por ela, o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra” (II Tim 3,17).

Ela é também uma arma poderosa na luta contra o mal (cf. Ef 6,10-18), e, juntamente com as outras virtudes, uma graça especial na conquista da vida eterna: “Mas tu, ó homem de Deus, foge dos vícios e procura com todo empenho a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão. Combate o bom combate da fé. Conquista a vida eterna, para a qual foste chamado...”. (1Tim 6,11-12a).

Já na vida dos que não creem, a falta de sua força salvadora, leva estes à perca do sentido eterno da vida por não amarem a Deus e nem interagirem com Ele. Visto que, “Sem fé é impossível agradar a Deus, pois para se achegar a ele é necessário que se creia primeiro que ele existe e que recompensa os que o procuram” (Heb 11,6). De fato, um rastro de morte se faz presente nos corações incrédulos, pois, ao negarem a evidência divina, afirmam a impiedade e a perversidade humanas, aprisionando pela injustiça a verdade que os podia salvar. Porque, “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar”. Assim, “Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos” (Rom 1,20.22).

Porém, nos ensina São Paulo: “Acima de tudo, recomendo que se façam preces, orações, súplicas, ações de graças por todos os homens... Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tim 2,1.3-4).

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.


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O Cristo de Francisco / Janete Rosane Roiek, PCC



segunda-feira, 12 de novembro de 2012

SÉRIE MEDITAÇÕES: O AMOR, A VERDADE E OUTRAS VIRTUDES...





SÉRIE MEDITAÇÕES

O AMOR, A VERDADE E OUTRAS VIRTUDES...

Perguntei a uma criança da catequese, o que é virtude? Ela me respondeu bem de mansinho: virtude é uma qualidade boa, frei... Nossa! Como eu fiquei feliz com essa resposta, pois percebi que o Espírito Santo fala com as crianças e por meio delas... Então, meditemos sobre algumas dessas virtudes das quais fomos dotados por Deus...


AMOR

O Amor é o fundamento de todos os dons que Deus nos deu...
A maior de todas as virtudes é amar,
amar a Deus acima de todas as coisas
e amar aqueles que Deus nos dar para amar...
Entretanto, basta a raiva, o ódio, o ressentimento...
Para macular esse precioso presente que Deus nos deu...
Portanto, o maior dom de cura é o perdão, por ele o amor permanece sempre...


VERDADE

A Verdade está dentro de todo ser humano e presente em tudo que existe...
Mesmo que alguém minta, tem consciência dela,
e sabe que a está traindo...
Então, não faça da mentira seu ofício,
porque ela será a causa de sua ruína...
Pois a mentira é como uma areia movediça,
quanto mais alguém se move nela, mais afunda e se perde...


OBEDIÊNCIA

A Obediência é a ciência daqueles que se tornam capazes de dar a própria vida, para não desorganizar o que a Sabedoria de Deus organizou...
Por isso, todo ser obediente é também humilde, porque não faz valer seus interesses pessoas, mas sim os interesses dos demais em vista dos santos interesses de Deus...
Todo ser obediente serve sempre, porque não faz a própria vontade, mas somente a vontade de Deus...


PUREZA

A Pureza de coração nos leva à visão de Deus...
“Bem aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus”.
Ora, todos nós sabemos disso...
Mas por que todos não a praticam?
Por causa do imediatismo da impureza,
que faz a carne experimentar o que a alma rejeita...
E porque a alma rejeita?
Porque a impureza leva ao precipício do egoísmo...
Mesmo assim milhares e milhões caem nas chantagens psíquicas dos egoístas de plantão e se tornam também escravos do imediatismo...


FIDELIDADE

À Fidelidade se contrapõe a traição ou infidelidade...
Traço da terrível maldade de Judas contra Jesus...
O fato é que todo traidor só morre na desgraça...
A não ser que se arrependa,
peça perdão e repare sua maldade...
Caso contrário, jamais se salvará...


BONDADE

A Bondade se contrapõe à todo tipo de maldade que se comete na face da terra...
E todos temos a virtude da bondade no mais íntimo de nós, mas quantos a cultivam?
É por falta do cultivo da bondade que a perversidade tem se alastrado como peste maligna em todos os campos da vida...


HONESTIDADE

A Honestidade põe por terra a ganância, a corrupção e seus derivados, chamados falcatrua, estelionatários, corruptores e corrompidos...
A honestidade é a maior prova de nossa inocência...
E quem tem a consciência limpa, não precisar provar nada...
Estes já receberam de Deus a liberdade eterna...


GENEROSIDADE

A Generosidade é irmã da solidariedade,
esposa e mãe de todo bem que há...
Liberta dos apegos e dos medos das percas materiais...
Liberta da avareza, vileza que leva muitos à idolatria do dinheiro...
Uma alma generosa é rica em satisfação,
porque é alento para os necessitados
e porta aberta da salvação...


SIMPLICIDADE

A simplicidade descomplica tudo...
Não faz de um pingo uma tempestade,
Visto que nunca se liga na maldade de quem quer que seja...
Os simples de coração são os humildes que Deus pôs neste mundo para derrotar o cão imundo da soberba...


POR ENQUANTO FIQUEMOS ASSIM, LOGO, LOGO TEM MAIS...

Todas estas são virtudes presentes em todos nós...
Nelas encontramos a Deus e com ele convivemos...
Elas são vias de perfeição com as quais Deus nos ornou...
Por elas Ele nos comunica sua santidade,
por meio de seu Filho amado, Jesus Cristo,
caminho, verdade e vida de todos os que se exercitam pela via de sua redenção...

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.

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Santinho Santa Isabel da Hungria

Paz e bem!

Um santinho que produzimos
e que está pronto para imprimir (frente e verso),
cortar e dobrar:

domingo, 11 de novembro de 2012

Religião e internet: microalterações e evoluções da fé

Na religiosidade disponível na internet, a questão em aberto é: que imagem de Deus, de Igreja e de fiel é fomentada pela religiosidade ofertada nesses sites? Ainda há muito a avançar nessa reflexão.

A opinião é do jornalista e doutorando em comunicação Moisés Sbardelotto, autor do livro E o Verbo se fez bit: A comunicação e a experiência religiosas na internet (Ed. Santuário, 2012). A entrevista foi publicada no blog da Editora Santuário, 09-11-2012.

Eis a entrevista.
Por que decidiu escrever sobre o tema?

O interesse pela relação entre internet e religião vem da minha própria formação pessoal e acadêmica. Como cristão e católico, interessa-me perceber as novas manifestações de Deus, hoje, e como as pessoas em geral experimentam essas manifestações, também com o avanço da tecnologia e das novas formas de comunicação, gerando uma religiosidade também nova. Além disso, tanto no âmbito eclesial quanto no âmbito comunicacional, essa relação é algo ainda muito novo, pouco estudado, que traz muitas dúvidas e muitos desafios, em termos de pastoral e de prática social. Por isso, decidi encarar o desafio e tentar colaborar nesse debate.

Quanto tempo demorou para que a obra estivesse pronta? Quais foram suas fontes mais relevantes de pesquisa?

A obra nasceu a partir de minha pesquisa de mestrado na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), entre 2009 e 2011, sob orientação de Antonio Fausto Neto. Entre 2011 e 2012, em eventos acadêmicos, fui aprimorando a pesquisa, no debate com outros pesquisadores e estudantes. Ao longo de 2012, a partir do interesse da Editora Santuário de publicar o texto, revisei e ampliei toda a pesquisa, “lapidando” alguns pontos, aprofundando outros. Para isso, me baseei muito nos estudos de Fausto Neto e de Pedro Gilberto Gomes SJ, ambos professores da Unisinos, que já têm diversas publicações sobre as relações entre mídia e religião. Em termos comunicacionais, foram fundamentais os estudos de José Luiz Braga, da Unisinos, de Lev Manovich e de Carlos Scolari. Outros autores – como Andrea Grillo, Antonio Spadaro SJ, Gianni Vattimo, João Batista Libanio SJ, Leonardo Boff, Mircea Eliade, Stefano Martelli – também foram muito importantes para aprofundar as questões teológicas da religiosidade e da experiência religiosa na internet.

Qual parte é mais relevante ou especial para o senhor?

Sou suspeito para responder a essa pergunta. Mas, para não cair no lugar-comum de dizer que “todo o livro é relevante ou especial para mim”, penso que, para as leitoras e leitores em geral, os capítulos 1 e 7, que abrem e encerram o livro, dão uma visão bastante ampla sobre a comunicação e a experiência religiosas na internet. No capítulo 1, por exemplo, eu relato a história de um fiel chamado Fábio, que contou, em um site católico, em um serviço chamado “Padre Online”, uma experiência religiosa muito particular que ele teve por meio da TV. Esse testemunho me indicou que, de fato, as novas modalidades de comunicação estão gerando uma nova forma de ser religioso – e a partir desse relato é que começa o livro.

Já no capítulo 7, apresento meus principais “achados”, que obviamente não são “conclusões”, já que estamos no meio do olho do furacão das tecnologias digitais. Mas são algumas primeiras aproximações e reflexões sobre a religiosidade que desponta na internet. Os capítulos intermediários também são relevantes para as leitoras e leitores que se interessam em estudar essa problemática, com bastante documentação, exemplos, imagens e referências para futuras pesquisas.

E, caso o miolo do livro não agrade às leitoras e leitores, eles poderão encontrar um material precioso na Apresentação escrita por Fausto Neto, no Prefácio de Antonio Spadaro SJ, e no Posfácio escrito por Andrea Grillo, aos quais agradeço publicamente e que trazem um aprofundamento muito importante para esse debate.

Qual é a principal ideia que o leitor terá ao acabar de ler o livro?

Permito-me citar diretamente um trecho do livro: “Se a comunicação (suas lógicas, seus dispositivos, suas operações) está em constante evolução, a religião, ao fazer uso daquela, também acompanha essa evolução e é por ela impelida a algo diferente do que tradicionalmente era. (…) Se a internet traz consigo novas formas de lidar com o tempo, o espaço, as materialidades do sagrado, o discurso e os rituais, a religiosidade como tradicionalmente a conhecemos também está mudando, e a ‘nova religião’ que se descortina diante de nós nesse ‘odre novo’ traz também um ‘vinho novo’ que caracteriza a midiatização digital (suas formas características de ser, existir, pensar, saber, agir na era digital). Junto com o desenvolvimento de um novo meio, como a internet, vai nascendo também um novo ser humano e, por conseguinte, um novo sagrado, uma nova religiosidade e uma nova religião” (p. 313-315).

Qual é o público que o senhor deseja atingir?

Todas as “mulheres e homens de boa vontade”… Mas especialmente aqueles que se interessam pelas temáticas da comunicação e da religião, e de suas inter-relações. Penso que tanto pesquisadores e estudantes, quanto fiéis e ministros de todas as religiões poderão encontrar subsídios para refletir sobre as novas religiosidades que surgem com o avanço da midiatização.

Qual foi a vivência ou experiência que o fez escrever o livro?

Foi um conjunto de fatores: primeiro, uma grande oferta e uma grande demanda de práticas religiosas na internet. Chamou-me a atenção o fato de que a grande maioria dos sites católicos que visitei ao longo da pesquisa ofereciam não apenas informações sobre a religião, mas também ambientes para que o fiel pudesse vivenciar e experimentar sua fé por meio da internet, nas chamadas “capelas virtuais”. E que inúmeros fiéis narravam suas experiências religiosas nesses sites. Além disso, o depoimento do fiel Fábio, no serviço “Padre Online”, que eu relato no livro, foi a “sarça ardente” que me apontou com clareza para a “montanha digital” à qual inúmeros fiéis sobem para se encontrar com Deus. E eu não podia ficar indiferente diante disso.

Qual é o impacto para a religião e a popularização do uso da Web e quais serão esses resultados?

Mais do que um impacto, eu percebo pequenas “microalterações” na religiosidade por meio dessas novas práticas religiosas midiatizadas, que mostram que as pessoas passam a encontrar uma oferta de experiência religiosa não apenas nas igrejas de pedra, nos padres de carne e osso e nos rituais palpáveis, mas também na religiosidade existente e disponível nos bits e pixels da internet. Formam-se, assim, novas modalidades de percepção e de expressão do sagrado em novos ambientes de culto: novas formas de manifestação de Deus (teofania) e do sagrado (hierofania), agora midiatizadas: midioteofanias e midio-hierofanias que lançam a religião para novos patamares de existência.

Ou seja, as mídias não são mais apenas extensões dos seres humanos, mas também o ambiente no qual tudo se move, inclusive a religião: um novo “bios religioso”. O que pudemos perceber, a partir disso, é que a fé vivenciada, praticada e experienciada nos ambientes digitais aponta para uma mudança na experiência religiosa do fiel e da manifestação do religioso, por meio de novas temporalidades, novas espacialidades, novas materialidades, novas discursividades e novas ritualidades marcadas centralmente por lógicas midiáticas, e que são detalhadas no livro.

Quais são as principais características de interface interacional, interação discursiva e interação ritual?

No livro, eu dedico mais de 150 páginas a essa questão, analisando detalhadamente os sites católicos nesses três âmbitos: interface, discurso e ritual. Dessa forma, tentamos compreender como se dão as interações entre fiel-sagrado para a experiência religiosa nos sites analisados.

Com relação à interface interacional (materialidades), analisamos os níveis tecnológicos e simbólicos que orientam a construção de sentido religioso do fiel a partir de quatro níveis: 1) a tela; 2) periféricos como teclado e mouse; 3) a estrutura organizacional das informações (menus); e 4) a composição gráfica das páginas em que se encontram disponíveis os serviços e rituais católicos.

Já nas interações discursivas (narrativas), buscamos compreender como o fiel se posiciona em meio à encruzilhada de “discursos” que lhe falam, pois, além de um discurso ao fiel, existe também um discurso do fiel. Esses discursos foram analisados a partir de três atores: o próprio fiel, um “outro” (o sistema ou outro internauta) e um “Outro” (o sagrado).

Nas interações rituais (práticas), analisamos a “liturgia digital” que os fiéis precisam seguir para que os rituais ocorram. Assim, o internauta passa a participar, viver, agir e interagir em uma “ambiência” religiosa nova, que o remete – seja qual for a profundidade de sua experiência religiosa, independentemente também de quando e onde estiver – para Deus.

A interação por meio da internet diminui a fé se tornando um ato de imediatismo? Ou Não?

Na internet, os processos lentos, vagarosos e penosos da espiritualidade (os “séculos dos séculos”, “até que a morte os separe”) vão sendo agora substituídos pela lógica da velocidade absoluta, por uma “eternidade intensiva”. Fomenta-se, assim, uma expectativa de onitemporalidade e de imediaticidade da manifestação de Deus. A vastidão do “tempo sagrado” é agora substituída por microinstantes, “átomos temporais” em que os sites nos exigem reações instantâneas a eventos que ocorrem na velocidade da luz.

Além disso, eu destacaria outros quatro “riscos”, quatro “pontos em aberto” na experiência religiosa online: 1) o risco de pensar que, se Deus se faz bit, o bit também é Deus; 2) o risco de confundir conexão com comunhão; 3) o risco de pensar que Deus e o sagrado estão “ao alcance de um clique”; 4) o risco de nos contentarmos com experiências religiosas midiatizadas, sem atentar para as manifestações “extramidiáticas” de Deus, especialmente no “próximo” e no “pobre”, confundindo “dizer” com “fazer”: ou seja, é importante escutar e anunciar a Palavra, mas é ainda mais importante tentar colocá-la em prática.

É possível alcançar – viver a experiência – do divino por meio da web?

Nas palavras de Brenda Brasher, se os fiéis de hoje, como o Moisés bíblico, “sobem a montanha digital”, é porque viram uma “sarça ardente” em seu topo. Por exemplo, em apenas um dos sites analisados, são acesas entre 3.000 a 4.000 “velas virtuais” por dia! Por isso, é impossível negar que essas pessoas têm uma experiência de Deus e do sagrado por meio desses rituais. Mas essa “encarnação em bits” só ganha sentido na vida do fiel – são experiências totalmente livres, íntimas, misteriosas, enão nos é permitido penetrar nessa zona de tão elevada intimidade. O que sabemos é que elas ocorrem, o que pode ser confirmado pelas próprias narrações dos fiéis nesses sites: algo ocorre, e algo sagrado.

Porém, nesses rituais, há facetas de Deus e do sagrado que mais se manifestam, e outras que se manifestam menos, experiências religiosas que são fomentadas, e outras que não o são. E tudo isso por determinações e escolhas do programador, dos próprios sites. O risco, como afirma a teóloga Mary Hunt, é de não perceber que “a linguagem sobre Deus é uma das mais difíceis e perigosas com que trabalhar, porque pode resultar em estruturas opressivas ou ser um trampolim para a libertação”. A questão em aberto é: que imagem de Deus, de Igreja e de fiel é fomentada pela religiosidade ofertada nesses sites? Ainda há muito a avançar nessa reflexão.

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