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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Pobres (e Copas da FIFA) sempre tereis

Bueno... faz tempo que não escrevo por aqui... O texto a seguir foi publicado originalmente no meu blog, em 11/06/14 (confira aqui), mas, dada a relevância do assunto, resolvi compartilhá-lo também neste espaço. Vejam:

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Amanhã começa a tão falada Copa da FIFA. Embora não a reconheça como torneio mundial, não é bem disso que pretendo falar. O que tem me irritado é o cansativo refrão dos que teimam em fazer alarde sobre os gastos com a construção dos estádios. O que há de legítimo em tamanha preocupação com o dinheiro público?
Pouco antes da condenação e crucifixão, Jesus passa por uma situação onde – segundo três do quatro evangelhos – é criticado por seus próprios discípulos. A narrativa, comum e, ao mesmo tempo, muito particular a cada um dos quatro evangelistas, está em Mt 26,6-13; Mc 14,3-9; Lc 7,36-50; Jo 12,1-8. Uma mulher (anônima, dizem os sinóticos; pecadora, segundo Lucas; Maria, irmã de Lázaro e Marta, afirma João) unge a cabeça (ou os pés?) do Nazareno com um óleo caríssimo (nardo, perfume ou mirra?). Alguém (sejam os discípulos, o anfitrião, ou mais especificamente Judas Iscariotes) condena a atitude da mulher mas, principalmente, a conivência do Mestre. Exceto Lucas, a queixa é a mesma: daria para construir hospitais... digo... daria para transformar esse óleo em dinheiro – muito dinheiro – e doá-lo aos pobres. Hum... Acusação similar à de um certo refrãozinho, não!?
Num primeiro momento, a resposta de Jesus parece de um conformismo extremamente oposto ao que vinha pregando até então: “Os pobres sempre estão (estiveram e estarão) com vocês!” Por um lado, somos levadas e levados a crer que não importa o que façamos para melhorar as coisas: sempre haverá pobres em nosso meio. Mas, por outro lado – e aí é necessário pôr em prática o senso crítico para se chegar a esta conclusão – a frase enigmática do Messias pode estar a nos provocar: os pobres sempre estiveram aí, e vocês nada fizeram por eles; por que, agora, tamanha preocupação?
Paremos pra pensar em quem mais repete este refrão. Não é a oposição ao governo que está aí? E essa mesma oposição não era governo até outro dia? Essa mesma oposição não esteve anos e anos no poder? O que fizeram pelos pobres? Onde estão os hospitais e escolas que eles construíram? João, que põe a queixa contra Jesus e a mulher na boca de Judas Iscariotes, é quem melhor explica o real motivo para tanto alarde. Segundo ele, Judas era o chefe do Congresso... digo... o responsável pela bolsa comum. Com a venda do óleo, o dinheiro depositado nela poderia ser embolsado facilmente. Entendido por que tanto chororô?
Ok, sejamos francos: a construção dos estádios não tem uma função tão nobre quanto a do óleo (seja lá qual tenha sido) que ungiu Jesus. Dilma e Lula, aliás, estão longe de ser o Messias. Mas vamos procurar entender por que a oposição está fazendo tanto barulho em relação a isso. E vamos procurar pautar a crítica sobre esse megaevento pela ótica popular. É nossa missão, como anfitriões, perguntar o que essa Copa vai nos trazer e o que vai levar de nós. Alguém aí já assistiu O Banheiro do Papa? A história é interessante (clique aqui para ver o filme). Uma cidade uruguaia muito pobre, fazendo fronteira com o Brasil, prepara-se para receber a visita do Papa. A expectativa é muito grande, principalmente porque, atrás dele, virá uma multidão de brasileiros. Os uruguaios veem uma oportunidade de fazer dinheiro com o acontecimento. O protagonista, um homem muito humilde, resolve construir um banheiro. Espera alugá-lo para os romeiros. Gasta as parcas economias da família no investimento. Chegado o grande momento, a visita dura poucos instantes, ninguém lucra nada e, quando estão indo embora, os brasileiros ainda deixam atrás de si uma grande desordem e sujeira. Aos nativos resta limpar a bagunça. Para este senhor, pai de família, a situação é ainda pior, pois gastou o que não tinha e não obteve nenhum retorno. Será que não estamos indo para o mesmo caminho? Há pouco tempo, uma camiseta publicitária sugeria facilidades para o turismo sexual em nosso país. De que forma podemos nos precaver do turismo predatório? Os nossos pobres estão sendo despejados para “embelezar” as áreas por onde deverão passar os turistas e delegações. Como garantir que sejam devida e dignamente realocados? Há centenas de pessoas voluntárias trabalhando em função da Copa. Será que não se faz necessário também um voluntariado para combater, entre outros, o ambiente facilitado para o tráfico humano? A FIFA escolheu o tatu-bola como mascote da Copa 2014. Você sabia que ele é um animal com risco de extinção? Que tal solicitarmos à FIFA que aproveite o ensejo para motivar uma campanha de preservação da espécie? Essas são só algumas questões. Ao ler estas linhas, tenho certeza de que você poderá enriquecer a lista com preocupações e precauções. Mas o principal é nos perguntarmos: como combater a prática exploratória externa (a entidade FIFA e tudo o que vem junto com ela) e interna (caso dos nossos Judas Iscariotes) que oprimem e empobrecem ainda mais o nosso povo?
É disso que se trata, afinal. Como vimos, os textos bíblicos não concordam em praticamente nada. Nem em quem eram os anfitriões. No texto de João, são os irmãos Maria, Marta e Lázaro. Em Marcos e Mateus, é um tal de Simão, o leproso. Só para constar, leproso é também o significado do nome Lázaro. Mas Lucas, para garantir definitivamente o nó na nossa cabeça, nada fala sobre a doença e diz que esse Simão é um fariseu. Entretanto, apesar de tantas divergências, num ponto todos concordam: Jesus estava em Betânia, que significa “Casa dos Pobres”. Que lugar interessante para afirmar que os pobres sempre estarão conosco. É como se Ele dissesse: Só agora vocês repararam que os pobres existem? Vocês querem hospitais e escolas para eles; mas já se perguntaram o que eles querem? Vocês costumam frequentar Betânia, isto é, a casa dos pobres? Vocês conhecem a realidade dessa gente? Ou seja, quando Cristo diz que os pobres estão em nosso meio, Ele também quer perguntar: E vocês? Estão com (a FIFA ou com) os pobres?

sábado, 7 de junho de 2014

QUANDO VIER O PARÁCLITO, O ESPÍRITO DA VERDADE, ENSINA-VOS-A TODA VERDADE...


QUANDO VIER O PARÁCLITO, O ESPÍRITO DA VERDADE, ENSINA-VOS-A TODA VERDADE...

Pensar a vida sem o Espírito de Deus é pensa-la conforme o mundo e não conforme Deus. Ora, o Senhor Jesus prometeu (cf. Jo 15,26) que enviaria o Espírito Santo para nos ensinar, nos defender e nos dar todo apoio e assistência necessária para permanecermos fiéis até que se complete o tempo de sua segunda vinda e a nossa ida definitiva para a glória do seu Reino, onde não há morte nem choro nem luto nem dor (cf. Jo 14,1-4).

O Espírito Santo de Deus é o perfeito coordenador de nossas ações enquanto de nossa estadia neste mundo, basta que ouçamos suas moções e nos deixemos conduzir por Ele, como o fizeram os profetas, Maria Santíssima, os apóstolos e todos os santos. Pois assim disse o Senhor: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão”. (Jo 16,13). Ora, creio que todos nós desejamos ver o desfecho final da obra da criação, isto é, a vinda da plenitude do Reino de Deus, pois do jeito que estamos vivendo atualmente, a paz entre os povos é impossível.

Então, há de se perguntar, como identificarmos a presença do Espírito de Deus em nossa vida? Ora, os meios para isto os batizados já o tem, pois quem foi batizado, foi batizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ou seja, em nome da Santíssima Trindade e se tornou filho/a de Deus. Essa filiação divina nos torna aptos à esse reconhecimento, pois é a vontade de Deus que sejamos um só com Ele, por seu Filho, Jesus Cristo, no Espírito Santo. Para que isto aconteça precisamos dissipar de nossas mentes todo e qualquer mau pensamento ou vãs inclinações para o pecado; e o jeito mais preciso para isto aconteça é usar o dom da oração, pois com essa arma poderosa, podemos expulsar de nossa mente tudo o que não é do Espírito de Deus.

Sabemos, por graça de Deus, que naturalmente podemos identificá-lo em meio à criação, isto por meio da visibilidade de sua obra, pois conhecendo a obra se conhece o bem feitor que a produziu; todavia, o Senhor mesmo se nos deu a conhecer pelo seu Espírito Santo que enviou por seu Filho, Jesus Cristo, autor e consumador da nossa salvação. Quem crê no Filho de Deus tem a vida. Mas, o crê em Cristo não é algo isolado ou à mercê do querer humano; mais que isto, crê é fazer parte do Corpo Místico de Cristo, que é a sua Igreja, fundada e mantida por Ele na pessoa de São Pedro, príncipe dos apóstolos. À ela o Senhor enviou o Seu Espírito para que a nossa fé fosse uma fé carismática, isto é, dom do Seu Espírito Santo em nós.

Com efeito, Santo Hilário, escreveu a respeito dessa ação do Espírito Santo para identificarmos Deus em nossa vida e por nosso proceder; vejamos o que ele disse: “O Senhor mandou batizar em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, quer dizer, professando a fé no Criador, no Filho e no que é chamado Dom de Deus. Um só é o Criador de todas as coisas. Pois um só é Deus Pai, de quem tudo procede; um só é o Filho Unigênito, nosso Senhor Jesus Cristo, por quem tudo foi feito; e um só é o Espírito, que foi dado a todos nós.

Todas as coisas são ordenadas segundo suas capacidades e méritos: um só é o Poder, do qual tudo procede; um só é o Filho, por quem tudo começa; e um só é o Dom, que é penhor da esperança perfeita. Nada falta a tão grande perfeição. Tudo é perfeitíssimo na Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo: a infinidade no Eterno, o esplendor na Imagem, a atividade no Dom.

Escutemos o que diz a palavra do Senhor sobre a ação do Espírito em nós: Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de compreendê-las agora (Jo 16,12), É bom para vós que eu parta: se eu me for, vos mandarei o Defensor (cf. Jo 16,7). Em outro lugar: Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará uni outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade (Jo 14,16-17). Ele vos conduzirá à plena verdade. Pois ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido; e até as coisas futuras vos anunciará. Ele me glorificará porque receberá do que é meu (Jo 16,13-14).

Estas palavras, entre muitas outras, foram ditas para nos dar a conhecer a vontade daquele que confere o Dom e a natureza e a perfeição do mesmo Dom. Por conseguinte, já que a nossa fraqueza não nos permite compreender nem o Pai nem o Filho, o Dom que é o Espírito Santo, estabelece um certo contato entre nós e Deus, para iluminar a nossa fé nas dificuldades relativas à encarnação de Deus.

Assim, o Espírito Santo é recebido para nos tornar capazes de compreender. Como o corpo natural do homem permaneceria inativo se lhe faltassem os estímulos necessá­rios para as suas funções - os olhos, se não há luz ou não é dia, nada podem fazer; os ouvidos, caso não haja vozes ou sons, não cumprem seu ofício; o olfato, se não sente nenhum odor, para nada serve; não porque percam a sua capacidade natural por falta de estímulo para agir - assim é a alma humana: se não recebe pela fé o Dom que é o Espírito, tem certamente uma natureza capaz de conhecer a Deus, mas falta-lhe a luz para chegar a esse conhecimento.

Este Dom de Cristo está inteiramente à disposição de todos e encontra-se em toda parte; mas é dado na medida do desejo e dos méritos de cada um. Ele está conosco até o fim do mundo; ele é o consolador no tempo da nossa espera; ele, pela atividade dos seus dons, é o penhor da nossa esperança futura; ele é a luz do nosso espírito; ele é o esplendor das nossas almas”. (Do Tratado Sobre a Trindade, de Santo Hilário, bispo (Lib. 2,1.33.35: PL 10,50-51.73-75)(Séc. IV)

Portanto, eis a razão de ser de nossa fé católica e de nossa vida, deixar-nos conduzir pelo Espírito Santo de Deus, como bem escreveu São Paulo: “todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”. (Rm 8,14). Porque fomos batizados para isto, como ele mesmo disse: “Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na sua morte pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova”. (Rm 6,3-4). Pois: “Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura. Passou o que era velho; eis que tudo se fez novo!” (2Cor 5,17).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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sábado, 24 de maio de 2014

Irmão Sol, Irmã Lua

Título original: Brother Sun, Sister Moon
Direção: Franco Zeffirelli
Ano de produção: 1972

Este é atualmente o filme mais conhecido sobre São Francisco e não são poucos os que têm nesta obra o seu primeiro contato com a vida do pobre de Assis. Contudo Franco Zeffirelli neste filme concentra-se nos primeiros anos da vocação de Francisco: da Guerra contra Perúgia (1202) até a aprovação oral da Regra (1209).

No enredo é facilmente perceptível as influências da época em que foi produzido. A luta contra a Guerra do Vietnã e o movimento hippie são refletidos nas cenas e reforçados pela música do escocês Donovan. Isto não é algo que condene o filme, pois toda obra de arte em maior ou menor grau reflete desejos e preocupações de seu autor e da sociedade existente quando de sua criação.

Franco Zeffirelli toma certas liberdades artísticas para apresentar o relacionamento entre Francisco e Clara e, inclusive, modifica os fatos históricos ao trazer a vocação clareana para antes de 1209. Além disto coloca na boca de Francisco e seus companheiros a Oração da Paz, que apesar de ser conhecida como de São Francisco é um texto do início do século XX.

Uma cena muito interessante é a que apresenta as origens da OFS: um dos primeiros companheiros de Francisco definitivamente não tem vocação para o celibato e de quando em quando arde pelo desejo sexual. Francisco, que já tinha percebido isto, em vez de forçar um vocação inexistente libera-o para casar.

Em fim, esta talvez não seja a melhor obra para conhecermos nosso Pai, mas como é a obra em que muitos são apresentados à ele não deve ser descartada como instrumento de formação. Mesmo com suas falhas (e todos filmes os têm) pode ser um instrumento útil para tal.

Eugenio Hansen, OFS
Frat. N. Sª dos Anjos da Porciúncula
Porto Alegre - RS

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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Cinema e formação franciscana secular

Paz e bem1!

Caros irmãos,
Caras irmãs:

Dias atrás o Everaldo2 me honrou com o convite para escrever sobre filmes que possam servir para a formação franciscana secular. Não sou um expert em cinema e não me considero habilitado para falar em formação, mas mesmo assim estou aceitando este convite.

1 Apresentação

Meu nome é Eugenio Hansen, 45 anos, casado com a Isabel, pai do Zezé, fiz minha promessa definitiva em dezembro último, sou bibliotecário e trabalho na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Uma curiosidade sobre minha casa é que aqui convivem duas famílias espirituais: eu sou franciscano e minha esposa é noviça oblata beneditina - fazemos a piada que o Zezé será carmelita secular pra não descontentar nenhum de nós.

2 Cinema

O cinema é chamado de sétima arte e não tenho dúvidas de que é uma arte específica, com sua própria linguagem e estética. Os filmes (tanto de cinema como de TV) nos contam histórias reais ou imaginárias que penetram profindamente em nós pois nos atingem pelos dois principais sentidos que temos: visão e audição.

Por nos atingir tão fortemente muitas vezes nos esquecemos que mesmo filmes que tratam fatos reais (documentários ou não) o que fazem é nos apresentar um possibilidade sobre o que poderia ter ocorrido e que é a visão do diretor para aquela história - mas isto não ocorre apenas com o cinema, Tomás de Celano escreveu quatro biografias de São Francisco e em cada uma delas nos apresenta diferentes facetas de nosso pai.

3 Formação

Seja na formação inicial, seja na formação permanente os filmes podem ser usados como instrumentos que nos levem a aprofundar nossos conhecimentos e a refletir sobre nosso seguimento dos passos de Jesus.

Basicamente há duas formas de uso:
a) Apresentação de um filme completo e depois comentar sobre o mesmo.
b) Apresentação de um ou mais trechos e igualmente comentar.

Uma variante da segunda forma é apresentar o mesmo episódio retratado por diferentes diretores. A dificuldade da primeira opção é que a exibição pode ser demorada e depois pode-se ter pouco tempo para comentar. Já na segunda forma o problema é que cortamos uma obra e não vemos o seu conjunto.

Obviamente a decisão sobre qual forma usar caberá ao mestre de formação ou o responsável por esta atividade formativa.

1 Este artigo foi escrito originalmente em 2009 e mantinha-se nao puplicado desde então, mesmo que as reflexões não tenham sido aproveitada até o momento, creio que já é tempo de virem à luz.
2 Everaldo Souto Salvador, Secretário do Conselho Nacional da OFS do Brasil (2006/2009).
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sexta-feira, 28 de março de 2014

O primeiro ano do Papa Francisco

Entrevista com John L. Allen Jr.

Há um ano, a Igreja Católica escolhia um novo papa. O cardeal Jorge Mario Bergolio inaugurou uma nova era surpreendente para a Igreja – uma era que ele introduziu ao escolher o seu nome papal, um de seus primeiros atos como pontífice. Ele escolheu Francisco, em honra ao santo italiano medieval dedicado à humildade e aos pobres.

A reportagem é da Rádio Boston, 25-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mais mudanças estavam por vir. Na Quinta-feira Santa do ano passado, o Papa Francisco lavou os pés de 12 jovens detidos, incluindo duas mulheres e dois muçulmanos. Ele fez um selfie [autorretrato]. Ele se declarou como alguém não "de direita". E disse que, se alguém é gay e busca ao Senhor e tem boa vontade, "quem sou eu para julgar?".

A mudança radical no tom e no estilo fez de Francisco um papa surpreendentemente popular. Mas, no fim, a balança pendem mais para o simbolismo ou para a substância? E o que o primeiro ano do Papa Francisco significa para o futuro da Igreja Católica – uma instituição em si mesma não propensa a mudanças radicais e repentinas?

Sobre isso, entrevistamos John Allen Jr., autor de nove livros sobre a Igreja Católica e editor associado do jornal The Boston Globe.

Eis trechos da entrevista concedida à Rádio Boston.

Sobre a eleição do papa Francisco:
Para ser honesto com você minha primeira reação foi de frustração, porque eu estava em um estúdio da CNN tentando contar essa história para o mundo e, quando o cardeal – o cardeal Jean Louis Tauran – saiu para fazer o que chamamos de anúncio Habemus papam – isto é, o anúncio do novo nome do papa –, nós ficamos sem áudio. Então, eu vi os lábios do cardeal em movimento, mas não tinha ideia de que nome ele estava nos dizendo. Assim, por 30 segundos de agonia, eu estava desesperadamente tentando descobrir quem era realmente o próximo papa. Felizmente, havia uma equipe da TV mexicana atrás de nós que estava gritando "Bergolio! Bergolio!". Então, eu tive uma ideia da situação.

Depois disso, para ser honesto com você, eu fiquei chocado com a escolha do nome. É preciso lembrar que a primeira decisão que qualquer papa sempre faz é o que o nome pelo qual será chamado. A forma pela qual isso funciona, dentro do conclave, é que, assim que um candidato ultrapassa o mágico limiar dos dois terços, o cardeal mais idoso vai abordá-lo e dizer-lhe: "Você aceita a sua eleição como Sumo Pontífice?". No momento em que ele disser que sim, ele é o papa. A próxima pergunta é: "Por qual nome você quer ser conhecido?". Por isso, essa é, por definição, a primeira escolha que ele faz.

E vou ser honesto com você, eu entrevistei historiadores da Igreja ao longo dos anos que disseram que nunca poderia haver um papa Francisco, pelas mesmas razões que nunca poderia haver um Papa Jesus ou um Papa Pedro, que eram figuras singulares e irrepetíveis na vida da Igreja. Mas, mais do que isso, para ser honesto, eu fiquei espantado com a ousadia dele. Porque o nome Francisco é todo um programa de governo em miniatura. Essa figura icônica no imaginário católico que desperta essas imagens da antítese da Igreja institucional – ou seja, a liderança carismática. Perto da terra, perto dos pobres, simplicidade, humildade. Esse é uma enorme quantidade de peso para você colocar sobre os seus ombros logo na saída do portão. Se você não estiver preparado para colocar suas palavras em prática, então você vai estar em apuros de verdade. Francisco, no entanto, durante o seu primeiro ano, de forma convincente, colocou suas palavras em prática.

Sobre a adequação de Francisco para o mundo moderno:
Eu acho que uma das coisas marcantes é que não é como se o Papa Francisco fosse o primeiro papa popular. Quero dizer, eu acompanhei João Paulo II em todo o mundo. Eu estive com ele no México, quando ele teve multidões em torno de 7 milhões de pessoas ao seu redor. Eu estive com ele em Manila, nas Filipinas, quando ele teve 5 milhões. Eu estive na missa do seu funeral em 2005, quando mais de 5 milhões apareceram. E Bento XVI, à sua maneira, em termos de alguém interno ao mundo católico, certamente tem seguidores. Eu acho que o que é único em relação a Francisco é que, no mínimo, ele é ao menos tão popular e potencialmente ainda mais popular fora da Igreja do que dentro dela. Quero dizer, ele é uma figura que parece ideal para se engajar neste mundo secular pós-moderno que não fala mais a linguagem religiosa e tem dificuldade para engolir conceitos religiosos. Ele usa esse tipo de linguagem e, por causa das percepções sobre a sua integridade pessoal, ele carrega uma espécie de autoridade moral que, de algum modo, lhe permite transcender esses limites e se tornar um parceiro de diálogo credível para o mundo inteiro.

Sobre a crítica de que este primeiro ano foi mais sobre o estilo do que sobre a substância:
Depende de como você define substância. Se por substância você se refere a mudar a doutrina da Igreja Católica, então é uma crítica perfeitamente acurada, porque o papa não mudou uma única vírgula do Catecismo da Igreja Católica, que é o seu código oficial de ensino. E, sobre os temas quentes que tendem a estimular a mente ocidental – coisas como sacerdotisas ou aborto, casamento gay, contracepção –, ele deixou claro várias vezes que não vai fazer quaisquer alterações.
Mas eu acho que o ponto é que você pode mudar a Igreja Católica profundamente sem mudar o seu ensino oficial. De um lado, ele criou muito mais espaço para a aplicação pastoral flexível da doutrina – isto é, traduzindo aquele ensino oficial em prática no nível de varejo, nas paróquias e assim por diante. A outra coisa que ele fez foi empurrar a Igreja, chutando e gritando, na direção da verdadeira mudança estrutural em questões como transparência, responsabilização e aquilo que se pode chamar de bom governo.

Ele acabou de criar uma estrutura de finanças inteiramente nova no Vaticano, nomeou um cardeal duro como pedra para geri-la, alguém que tem a mente de um teólogo e os instintos de um zagueiro. Esse homem é basicamente um Brian Urlacher [jogador de futebol americano] de batina, certo? E ele vai pressionar por mudanças significativas. E tudo isso pode não ter o sex appeal de convidar três sem-teto para o café da manhã, mas, vou lhe dizer, não há nenhuma forma para quebrar o domínio da velha guarda no Vaticano de forma mais profunda do que tirando o seu poder e, com efeito, foi isso que Francisco fez. Então, se a sua definição de substância é mudar o ensino da Igreja, então não, não houve mudança substantiva. Se você entende que há um caminhão de formas para engendrar mudanças estruturais na Igreja Católica sem mudar o ensino, então sim. Esse é um agente de mudança estrutural historicamente significativo.

domingo, 23 de março de 2014

O HÁBITO FRANCISCANO, UMA CURIOSA HISTÓRIA DA VESTE MEDIEVAL

O HÁBITO FRANCISCANO, UMA CURIOSA HISTÓRIA DA VESTE MEDIEVAL



A primeira coisa que chama a atenção de quem se aproxima dos franciscanos é o hábito. Porque suscita curiosidade e perplexidade, dado que a forma e a cor variam segundo as diversas famílias franciscanas, seja masculina ou feminina. Por isso, uma das perguntas mais frequentes dos peregrinos e turistas que vão à Basílica de São Francisco, onde é fácil confrontar-se, é esta: porquê negro ou cinza? Mas o hábito franciscano não é castanho?

Neste artigo daremos uma resposta ao argumento do ponto de vista da forma e da cor, sem mencionar o significado teológico-espiritual do hábito franciscano, que merece ser estudado à parte.

Hoje nenhuma das ordens ou congregações franciscanas, nem pela forma, nem pela cor, veste o hábito de São Francisco, que era em forma de cruz e de cor acinzentada ou de terra, resultado da mistura, em partes iguais, de fios de lã branca e negra ou castanha escuro. Existe quem afirme que o Santo de Assis e os seus companheiros não se vestiam de forma diferente dos pobres e camponeses do seu tempo, mas nos seus escritos e biografias diz-se alguma coisa diferente.

O certo é que o modo de vestir dos frades menores (túnica longa, capuz, corda e calças) era muito mais pobre do que o dos outros religiosos de então, e isto permitia-lhes estar mais próximos dos indigentes e mendicantes, mas não se pode negar que foi um verdadeiro distintivo religioso, que os distinguia dos seculares.

As duas regras de São Francisco e as biografias referem-se em particular mais à humildade do hábito dos frades menores que da cor ou da forma da túnica e do capuz. Não negligenciando o aspecto externo, a coisa mais importante nos inícios foi a modéstia e a pobreza no vestir. Mas, quando a Regra bulada impõe aos frades de não julgar, nem desprezar "aqueles que vestem roupas suaves e coloridas", diz-se, na prática, que a cor do seu hábito deveria ser natural.


 
As biografias e as relíquias do Santo permitem-nos assegurar que as túnicas tinham a forma de cruz ou de "tau", de modo a recordar que, o irmão menor deve exprimir em si mesmo os sofrimentos do mundo. O capuz que encontramos nas primeiras representações dos frades e de São Francisco é, de costume, pontudo e alongado, similar aos dos Capuchinhos. Aquele conservado nas relíquias da Basílica tem exatamente o aspecto de uma manga (de roupa), de modo que muitos não concordam que se trate de um capuz, que foi posto no lugar da manga esquerda que está faltando.

Existem outros capuzes daquele período, mais curtos e com a extremidade arredondada, pelo qual não se pode falar de um único modelo de capuz para toda a ordem. Uma outra característica é que o capuz primitivo era costurado ao colo, mas bem cedo foi substituído por um capuz separado da túnica, que passava pela cabeça e se apoiava amplamente sobre o ombro e ao redor do pescoço, em modo de prega. Esta prega foi-se alargando ao longo dos séculos, até obter a forma do capuz atual dos Menores, Conventuais e Terceiros Regulares. Então, desta forma, fala-se da cor.

No Espelho de Perfeição fala-se que, entre todos os outros pássaros, Francisco amava com predileção as cotovias, chamadas "de capuz" porque "têm o capuz como os religiosos e é um humilde pássaro... a vestimenta da cotovia, a sua pena, isto é, tem a cor da terra: assim oferece aos religiosos o exemplo de não ter vestes elegantes e de belas tinturas, mas de modesto valor e cor semelhante à terra, que é o mais humilde dos elementos" ( FF. 113).
A terra todavia, como todos sabem, tem uma infinidade diversa de tonalidades. Tomás de Celano, no Tratado dos Milagres, fala de um "pano cinzento" como aquele dos cistercienses de Oltremare, que Francisco moribundo pede a Jacoba de Settesoli para o seu funeral.

A referencia mais direta à cor do hábito minorítico é aquele da Crônica de Roger de Wendover (falecido em 1236) e de Mateus de Paris, onde se diz que "os frades chamados Menores... caminham descalços, com corda na cintura, túnicas cinza longas até aos tornozelos e remendadas, com um capuz vil e áspero.

Num documento de 1223, o rei da Inglaterra ordenava ao vice conde de Londres a aquisição de certa quantidade de panos, metade de "blaunchet" ou branco para os Pregadores ou Dominicanos, e outra metade "russet" para os frades menores de Reading. O "russet" era o "rusetus pannus" o pano avermelhado, resultado da mistura natural de lã branca e castanha. As Constituições de Narbona de 1260 estabeleciam que " as túnicas externas não sejam nem de tudo negras, nem de tudo brancas", deixando então uma ampla margem às tonalidades de cinza.

Nos frescos de Giotto da Basílica Superior de Assis é comum encontrar, numa mesma imagem, hábitos cinza e avermelhados, sempre, porém em tonalidades claras. As Constituições Farinerie de 1354 prescrevem, no entanto, que os superiores não permitam o uso dos panos com "tinturas de diversas cores, nem muito próximo ao branco, nem ao negro".

A variedade de cores dos hábitos primitivos deu-se principalmente pela variedade das cores naturais da lã negra, que por vezes tendia ao castanho, e também pelo facto de que o pano para as túnicas não era ainda confeccionado expressamente para os frades. Estes, no mais eram adquiridos no mercado pelos benfeitores dos frades. Eram estes selecionados pela cor e pela qualidade, também se o pano presenteado superava o controle dos superiores, segundo os Decretos de João XXII (1317) e de Bento XII (1336).

Uma maior rigidez quanto à cor, observa-se a partir da divisão da Ordem entre Observantes e Conventuais, acontecida em 1517, sobretudo pelo valor simbólico do cinza, que recorda as cinzas da penitencia e o pó do qual fomos criados. O cinza foi à cor oficial de todas as famílias franciscanas até à metade do século XVIII. Tanto é verdade que, devido à dificuldade para ter um pano tal em quantidade suficiente, sucedeu que as Constituições dos Observantes e Capuchinhos dispuseram que cada província fabricasse os próprios panos para obter a máxima uniformidade.

Assim, por exemplo, o Capítulo Geral de 1694 da Regular Observância ordenava que fabricassem "panos de tudo similar na cor e na qualidade, no entrançado e na espessura, tecidos com lã branca e negra mesclada numa proporção tal que, em juízo dos peritos, resulte um pano cinza como vemos nos hábitos e mantos de N. P. S. Francisco, S. Bernardino de Sena e S. João de Capistrano, os quais, por conservando-se em diversas províncias e países, são de uma mesma cor cinza, mais ou menos claro".

Nos Menores Conventuais observa-se já na segunda metade de 1700, certa tendência pelo negro, não obstante as Constituições Urbanas de 1803 que obrigava ainda o uso do hábito cinza. A prescrição veio a desaparecer na edição de 1823, em parte porque a supressão napoleônica extinguiu as corporações religiosas, os seus membros viram-se obrigados a usar o hábito talar negro do clero secular. Restaurada a Ordem, os frades preferiram continuar com o hábito negro. Hoje, porém, o cinza tradicional esta retornando, de modo que já o vestem quase todos os frades conventuais da Ásia, África, Austrália e América, e algumas províncias da Europa.

Os Frades da Observância mudaram do cinza para o castanho pouco mais de um século atrás. Iniciaram na França e foi imposto para toda a Ordem no capítulo de Assis em 1895, quando o papa Leão XIII reunificou numa só as diversas famílias da Observância: Observantes, Alcantarinos, Recoletos e Reformados ("a cor sintética das vestes externas assemelha-se à cor da lã natural escura com tendência ao vermelho, cor que em italiano se chama marrone e em francês marron").

Os Menores Capuchinhos seguiram da mesma forma a evolução dos Observantes, também para evitar qualquer diferença local. Em 1912 estabeleceu-se que a cor do hábito devia ser castanho, como aquele dos observantes, ainda que um pouco mais amarelado ("a cor deve ser castaneum, em italiano castagno, em francês marron, em inglês chestnut, em alemão kastanienbraun, e espanhol castaño"). O hábito que mais se assemelha ao de São Francisco e dos primeiros frades menores, é o dos Capuchinhos, sobretudo pelo capuz alongado e costurado na gola da túnica.

O hábito dos Observantes ou Menores caracteriza-se por ser mais ajustado e pelo capuz ser destacado da túnica que cai sobre o ombro em forma de manta, cortada dos lados, mais longa e pontuda atrás, até a cintura. O hábito dos Conventuais é similar ao dos Observantes, difere somente no capuz que é mais redondo e o manto mais longo, sem igualar as curvas. O hábito dos Terceiros Regulares ou frades da TOR, pouco tempo faz era semelhante ao dos Conventuais pela forma e pela cor, mas recentemente retornaram ao cinza tradicional, com manto longo e pontudo nas costas.

Nos últimos tempos estão surgindo outras congregações franciscanas com hábitos diversos, mais ou menos semelhantes àqueles já citados, com túnica e capuz cinza ou castanho.

Existem algumas também com tendência ao azul celeste, como o dos Frades da Imaculada e outros de cor acastanhada clara ou creme, e mesmo verde.
Além dessas diferenças de forma e cor, o que distingue os franciscanos e franciscanas dos membros de outras Ordens ou Congregações religiosas da Igreja, é o uso exclusivo do cordão de lã branca, que Francisco escolhe para substituir o cinto de couro em cumprimento do mandamento evangélico de Cristo aos seus apóstolos: "não levem nada pelo caminho...nem cinto..." (cf. Mt 10). Ao início não existia um número estabelecido de nós que tivesse a função prática de encurtar a corda, de modo que, não tocasse a terra. Com o passar do tempo, impôs-se a tradição dos três nós, como se para recordar os três votos da profissão religiosa: obediência, castidade e pobreza.

Enfim, quanto ao calçado, o Pobrezinho caminhou sempre descalço, conforme o mandamento de Jesus: "não usem sandálias..." Somente nos dois últimos anos da sua vida, para esconder as faixas ensanguentadas dos estigmas dos pés, teve de usar calçado de pele ou de pano, como se veem ainda nas relíquias da Basílica em Assis.

A Regra não impõe nem de andar descalço, nem de utilizar sandálias. Descreve, no entanto, que os frades possam utilizar calçado em caso de necessidade.

As sandálias, de qualquer modo, bem depressa se impuseram na ordem, como se pode ver nos frescos de Giotto, onde as trazem todos os frades e também São Francisco. Mais tarde, por volta de 1400, os frades das reformas que moravam nos eremitérios usavam uma espécie de sandálias com as solas altas de madeira chamadas "zoccoli", e eis porque, na Itália, os Observantes foram popularmente conhecidos com o nome de "zoccolanti".

Mais recentemente, as diversas Constituições deixaram de impor as sandálias aos Menores e aos Capuchinhos, e os sapatos aos Conventuais, mas tais disposições só foram tiradas depois do Concílio, sendo que não é estranho encontrar Conventuais com sandálias e barba, Menores com sapatos, e Capuchinhos sem barba.

Enfim, passada a rigidez dos últimos séculos, fazemos votos, então, de não perdermos o espírito dos inícios, quando, daquela época, pela forma e pela cor, se insistia no aspecto da pobreza e da aspereza dos tecidos e nas cores naturais do cinza e da terra, sinal de humildade e penitência.

Mesmo que a este propósito, São Francisco tenha escrito na Regra que os ministros poderiam proceder "diversamente segundo Deus" (RB 2).

Por Frei Tomás Gálvez, OFMConv. (in memoriam)
Revista San Francesco - giugno 2004, p. 40-43.
Trad. Frei Marcelo Veronez, OFMConv.

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