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domingo, 30 de novembro de 2008

O amor aos pobres: um jeito franciscano de ser

A vida franciscana começa com amor aos pobres; com São Francisco dando-lhes esmolas abundantes, trocando suas roupas preciosas pelos farrapos dos pobres, na frente da Igreja de São Pedro em Roma, trocando seu cavalo e suas armas com um cavalheiro pobre. Tudo isso para ir experimentado a convivência com os pobres e para assumir a vida deles. Foi nesse caminho que São Francisco descobriu a pessoa de Jesus no mais pobre: o leproso, como o próprio santo dá testemunho no testamento, “foi assim que o Senhor me concedeu mim, frei Francisco iniciar uma vida de penitencia: como estivesse em pecado parecia de veras insuportável olhar para leprosos. E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles. E enquanto me retirava deles, justamente o que antes me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo. E depois disso demorei só bem pouco e abandonei o mundo” (Testamento).

Foi o encontro e a vitória marcante de sua vida. O Senhor quebrou uma grande barreira em sua vida: o fez amigo dos pobres e leprosos. E quando o Senhor lhe deu irmãos, ele os levou no meio destes novos amigos, para celebrar com eles o encontro, a partilha, a amizade, a reconciliação. Dizia uma irmã: “pobre é a coqueluche do momento”. Guiados por esse pai, uma multidão de irmãos e irmãs ficou com essa doença, perpassando toda história da vida franciscana: com Santo Antônio o pai do pão dos pobres; com Isabel da Hungria que servia os pobres e doentes de joelhos; com os primeiros Capuchinhos que construíam seus “lugares” aonde tinham doentes de peste; com São Francisco Maria de Camporosso, que ao pedir esmola para os pobres foi cuspido no rosto, e respondeu: isso é para mim e para os pobres o que você me dá?; com nossa irmã Dulce que começa uma grande obra cuidando dos pobres em um galinheiro e que agora se tornou o hospital que acolhe os pobres com dignidade e amor.

Portanto, é esse o jeito franciscano de ser impresso no corpo e no coração de muitos irmãos, que no anonimato continua essa história de amor.

Frei Francisco Carloni, OFMCap
Extraído de http://reflexoesfranciscanas.blogspot.com/2008/11/o-amor-aos-pobres-um-jeito-franciscano.html acesso em 30 nov. 2008.

sábado, 29 de novembro de 2008

A VERDADE

A VERDADE

As palavras são todas iguais e compostas das mesmas letras. O que as difere, no entanto, são: o conteúdo e a fonte que o inspirou; assim, elas precisam de um motivo nobre para que, de fato, não sejam apenas palavras, mas, verdade.

A Verdade não escreve nada dela mesma, Ela fala e faz o que Ela é, Verdade. Seus seguidores, porém, inspirados pelo Espírito Santo, vivem Nela, Dela e para Ela e A deixam por escrito como testemunho para a posteridade.

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade”. (Jo 1,1.14).

“O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da vida - porque a vida se manifestou, e nós a temos visto; damos testemunho e vos anunciamos a vida eterna, que estava no Pai e que se nos manifestou -, o que vimos e ouvimos nós vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo. Escrevemos-vos estas coisas para que a vossa alegria seja completa. (1Jo 1,1-4).

“Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais. E vós conheceis o caminho para ir aonde vou”. (Jo 14,1-4).

“Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho? Jesus lhe respondeu:Eu sou o caminho, a Verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”. (Jo 14,5-6).

“Aquele que diz conhecê-lo e não guarda os seus mandamentos é mentiroso e a verdade não está nele. Aquele, porém, que guarda a sua palavra, nele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito. É assim que conhecemos se estamos nele: aquele que afirma permanecer nele deve também viver como ele viveu”. (1Jo 2,4-6).

"Disse-lhes outra vez Jesus: Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida”.(Jo 8,12).

“Ora, este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, pois as suas obras eram más. Porquanto todo aquele que faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas aquele que pratica a verdade, vem para a luz. Torna-se assim claro que as suas obras são feitas em Deus”. (Jo 3,19-21).

“Escreve isto: Antes de vir como justo Juiz, venho como Rei da Misericórdia. Antes de vir o dia da justiça, nos céus será dado aos homens este sinal: Apagar-se-á toda luz do céu e haverá uma grande escuridão sobre a Terra. Então aparecerá o sinal-da-Cruz no céu, e dos orifícios onde foram pregadas as mãos e os pés do Salvador sairão grandes luzes, que, por algum tempo, iluminarão a Terra. Isso acontecerá pouco antes do último dia” (D.83). (Diário de Santa Faustina).

A Palavra da Verdade vem ao nosso coração como um profundo alento, renovando todo nosso interior e nos fazendo compreender qual é o destino eterno que nos espera. Porque aqui com o nosso viver, escrevemos o livro de nossa vida e ao chegar diante de Deus faremos a leitura de suas páginas conforme foram vividas; se, porém, algumas páginas foram mal escritas, é necessário que as reescrevamos, por meio do arrependimento e do perdão sacramental, para que a sua leitura seja agradável aos olhos do Senhor. “Então cada um receberá de Deus o louvor que merece”. (1Cor 4,5d).

Paz e Bem!

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Ouçam Frei Almir Guimarães

Paz e bem!

Ouçam as "crônicas" que Frei Almir Guimarães, OFM
apresenta na Rádio Jovem Pan,
o endereço é http://jovempan.uol.com.br/jp/index.php%3Fcomentarista%3DFrei+Almir+Guimar%E3es%26id%3D30

Impressões de um osservatore quase sempre atento

Capítulo Geral da Ordem Franciscana Secular
Impressões de um osservatore quase sempre atento

Por Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM


1. Em nossos encontros capitulares há diferentes categorias de participantes. Há os que são membros natos por seu cargo. Há os que adquirem direitos pela votação, os assim chamados delegados. Votam e podem ser votados. Levantam as bandeirolas verdes, vermelhas ou brancas. Parece que há os que votam, mas não podem ser votados. Há os convidados e os observadores que não têm vez, nem voz. Por vezes nem mesmo falam. Passam um capitulo inteiro sem que tenham podido dar a conhecer o timbre de sua voz e quem sabe a riqueza de seu interior. Assistem simplesmente ou assessoram o desenrolar do evento. Eu estive presente no XII Capítulo Geral e Eletivo da Ordem Franciscana Secular que se realizou em Dobogóko, na Hungria, fazendo-me presente na qualidade de simples observador (osservatore na língua italiana). Assim era minha classificação no crachá. O Capitulo se realizou na dita localidade de Dobogóko, bem perto da encantadora capital da Hungria, a elegante Budapeste. O evento se deu entre os dias 15 e 22 de novembro deste ano de 2008. As linhas que seguem não pretendem descrever o Capítulo. Não constituem uma reportagem completa do evento. Outros devem ter se encarregado desta tarefa (ver: www.ciofs.org). O presente texto pretende apenas transcrever algumas impressões de um osservatore mais ou menos atento, quase sempre atento.

2. No dia 14 de novembro, pouco depois de 13 horas, já tinha eu feito o check-in, no aeroporto romano de Fiumicino. Parecia que tudo estava normal, que os pilotos de Alitalia não mais iam fazer greve (sciopero). O avião que devia sair às 15 horas e pouco só deixou Roma perto das 20 horas, com o destino de Paris. Os passageiros começaram a se enervar. Um italiana elegante e bem vestida dizia com voz trêmula: “Diante de tudo isso só tenho uma palavra: como italiana tenho imensa vergonha do que está se passando, desta total falta de respeito para com os passageiros que têm o direito de ir e vir. Tenho vergonha”. Um outro passageiro, também italiano, fez algumas perguntas ao atendente a respeito do piloto...Nessa publicação não posso transcrever o que ele disse. E as injúrias as disse com voz quase meiga. Fato é que, depois de espera extremamente incômoda, o avião da Alitalia levantou vôo rumo a Charles De Gaulle. Perdi a conexão para Budapeste. Air France me colocou num hotel e me alimentou. Recebi mesmo uma bolsa com aparelho de barba, sabonete, pasta de dente...já que minha mala tinha sido despachada até o destino final. Sem querer dormi na França que conheci nos meus tempos de jovenzinho...

3. Numa manhã chuvosa deixei o aeroporto Charles De Gaulle rumo a Budapeste, pela companhia húngara, Malev Air Lines. Ali, nos espaços do aeroporto de Paris, esses funcionários de todos os cantos do mundo fazendo os serviços simples: atendimento aos clientes, limpeza, segurança... negros, árabes, gente da Europa Central, dos antigos países comunistas... e poucos franceses de verdade. A avião da Malev, subiu, atravessou as nuvens, encontrou o sol e aos poucos pudemos ver os Alpes cobertos de neve desde a França, passando pelo norte da Itália, Áustria. Um espetáculo deslumbrante. Tentei trocar umas palavras, poucas palavras, com um passageiro albanês...Nosso inglês não ia lá das pernas, nem o dele, e muito menos o meu... Havia uma senhora alta, gorda, na verdade inchada, com cabelos pintados de cor caju. Levava uma complicada aparelhagem de filmagem. Depois fui encontrá-la no Capitulo. Fiquei sabendo que era uma americana, cujo primeiro nome era Loris, grandíssima especialista em Isabel da Hungria. Devido a deficiências de língua não pudemos conversar. Ela, aliás, andava sempre sozinha, carregando certamente uns 120 quilos! No aeroporto, na chegada, estávamos uma polonesa, um húngaro, um frade franciscano de Florença, um japonês, um costariquenho e um brasileiro, este osservatore que escreve essas linhas. Nesse Capitulo esta era minha identidade.

4. Estava eu para viver a experiência de um capítulo geral da OFS que aprendi a estimar desde os meus 15 anos. Pensava nessas fraternidades todas que fui conhecendo ao longo da vida e dos tempos: os irmãos de Araruama, a fraternidade de Gaspar, os irmãos de Mococa. Esse capítulo precisava pensar nessas fraternidades, nas suas alegrias e nos seus problemas. Um capítulo geral precisa ser um momento de esperança, sobretudo para as fraternidades envelhecidas e desmotivadas.

5. O Capitulo se passou alguns quilômetros fora da capital, numa antiga casa dos jesuítas (Manreza), hoje hotel. Há um conjunto de algumas casas, ou seja, o prédio central e outros mais ou menos distantes perdidos no meio de alguns pinheiros verdes e de muitas árvores secas e nuas nesse tempo de inverno...Despojamento, um ar de tristeza. Ouvi que, no tempo do comunismo, os russos ocuparam esses espaços como lugares estratégicos. Quem disse isso foi o Fr. Filipe Schillings que já foi de nossa província e até mesmo aluno meu em catequese. Estava na qualidade de tradutor. Sim, um dia já fui professor de catequese. Como essa atividade é importante! Eu não era o único osservatore. Havia outros. Não posso esquecer de mencionar uma brasileira de Lajes, amiga de muitos frades, Solange. Eu e ela tínhamos os quartos no último andar de um dos prédios, no sótão, espaço bem aquecido, com água quente e cama bonita, mas lá no alto. Eu e o Solange já passamos dos 70...

6. Os leitores sabem o que acontece nessas ditas assembléias capitulares, de modo especial nas eletivas. Há nomeação de secretários, escrutinadores, membros da comissão para textos conclusivos, tradução dos textos das palestras. Há um clima de tensão e de certa política. As pessoas falam baixinho. Tudo foi feito conforme as regras e estatutos. Penso naquelas nomeações e escolhas: secretários, escrutinadores etc. etc. Presidiu a primeira parte Encarnación del Pozzo, ministra do sexênio que se encerrava e que seria reeleita para mais seis anos. Seguiram-se relatórios e textos relativos aos temas centrais do Capitulo. Não é aqui o lugar de mencionar tudo. Apenas uma ou outra idéia mais marcante. Lembro apenas que o tema central do evento foi assim formulado: “A profissão dos franciscanos seculares e seu senso de pertença à Ordem Franciscana Secular”.

7. Do relatório da presidência destaco linhas para o futuro sugeridas: sempre de novo cuidar do aprofundamento da formação nas fraternidades nacionais; intensificação e revitalização criativa da fraternidade local; viver novas formas da fraternidade local; intensificar o sentido missionário; atrair e buscar grupos de famílias ou de casais jovens; não esquecer que os franciscanos seculares são chamados à santidade; necessidade de que os conselheiros internacionais cumpram sua missão levando e trazendo informações e experiências, continuar o trabalho com as assim chamadas fraternidades emergentes. Não se pode deixar de frisar: será preciso aproximar-se das famílias e convidá-las a percorrer o caminho franciscano, assim como de jovens. Penso que não se trata de arrebanhar de qualquer modo, mas que nossas fraternidades franciscanas seculares sejam espaços de aprofundamento do ser humano, do ser cristão e do ser franciscano. Talvez nelas os jovens possam percorrer um caminho de busca de sua identidade, com o testemunho dos que já fizeram boa parte do caminho.

8. Emanuela De Nunzio, ex-Ministra Geral, mulher admirável, refletiu sobre o tema da pertença à OFS. A ex-ministra acompanhou todos os avanços da OFS, tendo a seu lado, entre muitos outros, nosso estimado professor Paulo Machado da Costa e Silva. Num italiano extremamente agradável de ser ouvido ela prendeu a atenção. Pena que no final, nas conclusões, alguns pontos de suas considerações não tenham sido contemplados. Espero que, no Brasil, venhamos a traduzir o texto em questão. Deve-se dizer que os encartes da revista Paz e Bem, nos últimos tempos, abordaram a questão. Não se trata apenas de exigir uma pertença externa, ou seja comparecimento às reuniões, pagamento da contribuição... Pertença se liga ao tema da identidade. Trata-se de voltar ao fundo de cada um. Quem sou eu? O que é ser um humano? O que é ser homem e ser mulher? O que e ser cristão? O que vem a ser uma família? O que é ser franciscano e franciscano secular?Trata-se de construir a identidade no seio de uma fraternidade de vida. Estamos de cheio na questão da formação . Emanuela de Nunzio insiste na formação feita no seio da comunidade: participação dos iniciantes, formandos e membros professos juntos. Não se trata apenas de se ter umas cores, uns ares franciscanos. Não basta. E a palestrante insistia na formação sócio-politica, no voluntariado, numa atenção maior a ser prestada aos jovens (ajudá-los a encontrar sua identidade cristã). Não se trata de fazer encontros festivos e barulhentos, mas possibilitar aos jovens e aos que chegam que vivam em comunidades de vida cristã e construam sua identidade. A palestrante mencionou ainda outros pontos importantes na busca da identidade e na clarificação da pertença: reforçar o engajamento no sentido de buscar um estilo sóbrio de vida, busca da paz, aproximação de todos os excluídos.

9. Em sua análise a palestrante (ou palestrista?) fez alusão a um discurso do Geral dos OFM, Pe José Carballo, a 30 de junho de 2007: “Muitos são os que vivem sob o efeito da emoção e do provisório e se deixam dominar pela ditadura do relativismo segundo a qual tudo é suspeito, tudo pode sempre ser negociado. Essa ditadura do relativismo, em muitos corações, alimenta sentimentos de insegurança e de instabilidade. Não existe mais nada de sagrado, de garantido ou que deva ser conservado. São muitos numerosas as vítimas da dúvida sistemática coagidas a se refugiar no imediato e na emotividade. Muitos são seduzidos pela cultura do part time e do zapping, que leva a não assumir os compromissos de longa duração, a passar de uma experiência a outra, sem aprofundar nenhuma delas. Muitos são ainda seduzidos pela cultura do light, que não deixa lugar para a utopia, o sacrifício e a renúncia. Muitos são seduzidos pela cultura do subjetivismo; para estes o indivíduo é a medida de tudo e tudo é visto e avaliado a partir de si mesmo, de sua própria realização. Esta realidade pós-moderna engendra, particularmente nas novas gerações, uma personalidade indecisa que torna mais difícil ainda a compreensão daquilo que, em si, já é complicado, ou seja as exigências radicais no seguimento de Cristo, do caminho na seqüela de Cristo”. Até que ponto nossas fraternidades não se limitam apenas a uma reunião nem sempre vivida com o coração? Até que ponto a formação leva em consideração esse antropologia complicada dos tempos de hoje?

10. O Padre Felix Cangelosi, Vigário Geral do Capuchinhos, especialista em liturgia, nos brindou com uma bela palestra sobre o profissão na OFS, tendo como ponto de partida, o ritual franciscano secular. Pode-se dizer que se tratava da teologia da liturgia da profissão: celebrada durante uma eucaristia, ligação da profissão e da fraternidade, identidade original penitencial. Uma bela e profunda conferência. Nossas fraternidades locais , penso eu, precisam rever o tema da profissão. Muitas vezes a revista Paz e Bem tem se ocupado do assunto. O que posso dizer de concreto seria o seguinte:

  • só tem sentido fazer profissão na OFS quando se tem consciência de que se trata de uma consagração de vida franciscana e secular, consagração que abarca todo o tempo da existência;
  • compromisso numa fraternidade e compromisso não sujeito a revisões;
  • compromisso ligado ao dom da vida de Cristo, celebrado na Eucaristia, reiterado com Cristo na celebração da missa;
  • a profissão deverá ser precedida de um retiro, de uma conversa com o assistente da fraternidade que ajudará o candidato a fazer um discernimento;
  • no momento da profissão tudo deverá ser belo, o ministro se apresentará sem nervosismo, os participantes deverão se sensibilizar, o celebrante, de preferência um religioso franciscano, saberá fazer com que esse momento seja um gesto de propaganda vocacional.

11. No dia 17 de novembro, festa de Santa Isabel da Hungria, estivemos em Estergon, primeira capital da Hungria, terra da santa. Pelas 4 horas da tarde houve uma solene concelebração de encerramento dois anos comemorativos do centenário da patrona principal da OFS. Presidiu a cerimônia o Cardeal Laszlo Paskan, homem alto, porte digno. A ministra lhe dirigiu umas palavras cheias de cordialidade. Muitos padres se fizeram presentes. O húngaro se misturava ao latim, os cantos locais com um esplêndido coral de jovens se uniam à Missa d Angelis... A igreja catedral quase cheia numa tarde de frio e de vento. Algumas mulheres trajavam roupas típicas. Quem sabe uma delas pudesse ser descendente de Santa Isabel da Hungria? De maneira breve e simples o cardeal húngaro ressaltou traços da biografia da santa. Alguns dos participantes talvez tivessem desejado alguma coisa mais. Faltou talvez um pouco do ardor de nossas celebrações....Vale a pena lembrar que Estergon se situa às margens do Danúbio. Num vento frio, podíamos ver, do outro lado, a Eslováquia e também a Áustria. E o vento frio cortava nosso rosto...

12. Presidiu o Capitulo Eletivo o Ministro Geral dos Conventuais, Fra Marco Tasca, homem alegre e dinâmico. A ele coube cumprir todas as determinações jurídicas para que as eleições fossem feitas com correção e com validade. O Ministro Conventual desempenhou sua missão com competência e simplicidade. Brindou-nos com uma profunda e bela reflexão sobre Os inícios do carisma (Gli inizi del carisma). Desenvolveu o tema em três momentos: a conversão, a vida evangélica e a configuração com o Cristo pascal. Quando se fala dos 800 anos dol carisma franciscano não se pode pensar apenas na visita de Francisco ao Papa pedindo licença para seu novo gênero de vida. Será preciso olhar outros aspectos: houve um momento fundamental de mudança, o encontro com o mundo dos leprosos; na Porciúncula Francisco compreendeu que precisava viver a vida evangélica e toda a sua vida foi uma conformação com o mistério de Cristo crucificado e ressuscitado (mistério pascal). A conversão dura a vida toda. Francisco mostra os passos da transformação em suas admoestações: gloriar-se na cruz do Senhor, ser capaz de sofrer injúrias, expropriar-se. Os interessados no tema poderão encontrá-lo site já mencionado anteriormente.

13. Fizeram-se as eleições com relativa facilidade. Quase todos foram eleitos em primeiro escrutínio. A ministra Encarnación foi eleita quase que por unanimidade. Recebeu, assim, do Capitulo a autorização de continuar a servir os irmãos talvez do mesmo modo como vinha fazendo. Houve nítida manifestação de confiança em sua pessoa. Maria Aparecida Crepaldi, nossa Cidinha, confirmou sua credibilidade.

14. Tivemos um dia de passeio em Budapeste. O tempo não colaborou muito. Na parte da manhã um pouco de sol. Deu para sentir a grandeza dessa cidade ligada aos belos tempos do Império Austro-Húngaro. Praças magníficas, a esplendorosa visão do Parlamento, a Igreja de Santo Estevão que não pudemos visitar, cúpulas aceboladas (em forma de cebola), certo requinte. Claro que Budapeste não tem a suntuosidade de Berlim, nem de Praga segundo me informaram, mas se trata de uma belíssima capital. Nesse dia fomos cordialmente recebidos e acolhidos pelos Frades Menores. O guardião nos saudou efusivamente, em húngaro é claro, e nos foi servida uma refeição simples, sem requinte, mas carinhosa e saborosa. Não posso deixar de mencionar um pormenor. Os doces húngaros são particularmente saborosos. E no final de nossa refeição foram servidos copiosamente. Em nossa casa Manreza tivemos ocasião também de saborear deliciosos pavês. Digo de passagem que a comida húngara é de bom paladar, mas será preciso prestar atenção aos condimentos. Há pratos densa e exageradamente apimentados.

15. Uma breve palavra a respeito dos participantes. O continente africano tinha poucos representantes. Os dramas do Congo impediram saída de irmãos. Havia forte representação da Europa central. Há vocações e fraternidades da OFM e OFS numerosas: Croácia, Polônia, Eslovênia, etc. Esses todos tentam falar alemão e inglês. Na Croácia, a JUFRA é forte. Na Ásia (Índia, Filipinas, etc) há também um vigor da OFS e seus representantes eram significativos neste Capitulo. Os latino-americanos se fizeram representar. Pena que não tivesse havia um tempo para apresentações dos êxitos, desejos e carências das diferentes fraternidades. Parece que a forte presença dos europeus do centro é que caracterizou o Capitulo.

16. Não permaneci até o último momento do evento devido a horários de avião. Nas sessões finais a Ministra Internacional tentou coordenar uma assembléia para captar prioridades e detectar conclusões. A assembléia pediu que fossem prioridades as seguintes: formação, melhorar em todos os níveis a comunicação, cuidados e atenções com a JUFRA e os jovens em geral, a presença dos franciscanos seculares no mundo e o trabalho que deve continuar a ser desenvolvido junto às fraternidades ditas emergentes. Cabe ao Conselho Internacional agilizar estas prioridades.

17. Com a experiência de alguns anos acompanhando fraternidades regionais e a fraternidade nacional do Brasil chamaria atenção para alguns aspectos que decorreram do Capítulo e para outros que estavam nas linhas ou entrelinhas ou que, se não estiveram, penso eu, deveriam estar:
  • urgência de um trabalho vocacional realizado pelo testemunho de franciscanos seculares que vivem sua conversão no dia-a-dia e inseridos numa Igreja em estado de missão juntamente com jornadas franciscanas abertas a pessoas de boa vontade; dar credibilidade à OFS;
  • sempre de novo recomeçar um empenho de diálogo com os jovens, de aproximação deles, sejam eles da JUFRA ou não;
  • em nível nacional e regional, entre nós, não se pode mais adiar esse trabalho entre OFS e JUFRA;
  • na esteira do que foi refletido no Capitulo, tentar buscar casais e pessoas que estejam na faixa dos 35-50 anos;
  • no capitulo da formação ter sempre em mente que as pessoas vivem no fluido, no vago: sem querer fazer uma formação meramente doutrinal será preciso ao longo de um certo tempo provocar as pessoas para que dêem sua adesão à verdade que liberta, levá-las ao êxodo de si mesmas que as torna peregrinas de uma terra que Deus nos mostra; cavar sempre maior profundidade através do cultivo do silêncio e da leitura do sinal dos tempos;
  • um palavra ocorreu muitas vezes no Capítulo, ou seja, discernimento: na aceitação dos candidatos, na hora da profissão, na opção pela ação missionária; no tipo de colaboração a ser dada â igreja local;
  • num tempo de provisoriedade fazer com que a profissão da OFS seja um marco na vida dos irmãos e, ao mesmo tempo, um apelo a que se dediquem aos outros;
  • lutar para que os irmãos desmotivados possam ganhar novo ânimo: o Ministro local e seu Conselho não podem descansar porque o futuro da Ordem passa por cada fraternidade concreta;
  • num tempo em que a Igreja convidou a todos os cristãos a fazerem uma reflexão sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, importante que em nossa vida pessoal e na vida da fraternidade a Palavra de Deus ocupe um lugar de destaque, Palavra compreendida não apenas como um texto que descansa num livro, mas como interpelação constante feita aos sedentos e famintos de plenitude;
  • hoje e sempre os franciscanos seculares ou não estarão diante da missão de se aproximarem dos mais simples e menos aquinhoados;
  • num tempo em que as famílias acreditaram que era melhor deixar que os jovens encontrassem por si mesmo seus caminhos, a OFS precisa formar famílias que sejam capazes não de endoutrinar os filhos mas de lhes transmitir a alegria de uma vida iluminada pela fé;
  • num tempo de forte crise econômica que leva as pessoas a viverem mais modestamente dar o testemunho de que sabemos alegremente, como dizia São Paulo, viver na abundância e na privação.

Conclusão


Eis algumas observações de um osservatore muito contente de ter participado do Capitulo Geral da querida Ordem Franciscana Secular. Desejo que ele produza muitos frutos.

Quase ia me esquecendo de dizer que na volta de Budapeste para Roma não houve problemas de pilotos e de aeroportos. Quer dizer houve, sim. O piloto do avião da Air France avisou que não podia decolar porque havia uma raposa na pista caçando ratos. Que esta seja minha última observação.

Foto: Fr. Almir [de manta xadrezz]; José Carlos (de chapéu), min. nac. e cons. intern. da OFS do Brasil; e Anderson Moura, cons. intern. OFS para a JUFRA da América do Sul.

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/carisma/ofs/capgeral_08/index_01.php acesso em 28 Nov. 2008.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A Paz e o Bem, na perspectiva de São Francisco de Assis

“A paz que anunciais com os lábios deveis tê-la no coração”

São Francisco viveu em um mundo conturbado, cheio de conflitos, lutas, guerras, nações divididas, e em buscas de ascensão social, política e econômica. Todas estas divergências vividas pelo mundo feudal despertam em Francisco a busca por uma ascensão social. Francisco vivencia tudo isso e desperta nele um desejo de ser um cavaleiro medieval, com o intuito de se tornar famoso, reconhecido e aplaudido por todos. Mas todo este desejo material muda em desejo espiritual, todas as aspirações humanas mudam através do encontro que ele tivera com o Cristo. Esta luta de Francisco se torna mais forte quando ele se depara com o Crucificado. Com efeito, tudo aquilo que era amargo se converte em doçura, e aquilo que era doce se converte em amargura. A conversão do pobrezinho de Assis foi possível, porque há uma abertura de sua parte para o encontro definitivo com o Criador. Aos poucos o reino de Deus que é amor, paz, justiça, solidariedade, promoção do bem vai sendo realizado por aquele jovem e os demais irmãos que Deus lhes dera. Francisco “tinha um desejo ardente de realizar sempre, ele e seus irmãos, ações que fossem para louvar ao Senhor e restituir a dignidade dos marginalizados". Dizia: "Assim como anunciais a paz com a boca, tende sempre a paz no coração, de modo que nunca provoqueis à ira e escândalo; assim, por meio de vossa paz e mansidão, todos sejam chamados à paz e à bondade. Esta bondade tem muita consonância com o bem que Francisco vivenciava e difundia entre os seus". Nós somos chamados para esta missão: socorrer os feridos, curar os fracos, chamar ao bom caminho os que erram. Nos Escritos de São Francisco, número 38 do Anânimo Parugino tem uma frase que norteou a vida de Francisco: “A paz que anunciais com os lábios deveis tê-la no coração”.

O nosso autor, na verdade faz uma estreita ligação entre o anúncio da paz e a possessão afetiva da mesma. Também podemos chamar esta estreita união entre desejar a paz e a Vivência da paz, com coerência. A coerência de viver ardorosamente a paz e ser sinal de paz é motivada por algo maior. Só pode ser sinal de paz quem vive a dimensão do bem. “Bem” nos recorda a criação do mundo. Deus quando Cria, ele cria por Amor e para o Amor. E na criação Deus contempla a beleza de sua obra magnífica e afirma que tudo era bom. Se a obra que Deus realizara era boa, o fato de ser boa não está não obra e sim em Deus. Deus é o bem absoluto. O Sumo Bem. Por esta razão, Francisco com o desejo ardente de realizar a paz também se transforma numa pessoa de bem. O fato dele querer promover o bem é acima de tudo porque Deus é o Bem Absoluto em sua vida. Deste modo, a paz e o bem anunciado por Francisco são as mesmas vividas por ele. A paz é fruto de um constante trabalho de reconciliação. O bem provoca atração, é próprio do bem atrair. Quando nos reportamos para a dimensão do bem, somos atraídos para vivê-lo e promovê-lo. Francisco foi homem de paz e bem, porque soube contemplar a beleza de Deus na criação. De fato, para Francisco todos são irmãos, pois saímos de Deus e para ele um dia retornaremos. Deste modo, São Francisco continua sendo referência mundial como aquele que anunciou a paz e promoveu o bem. Esta expressão deve ser a marca impressa nos corações de tantos irmãos que perderam de vista a importância de serem portadores de paz e bem. Para que o mundo tenha paz se faz necessário que eu, você, enfim, todos façam da vida uma cultura de paz. Sejamos nós instrumentos de paz e bem para que o mundo seja mais humano e mais fraterno.

frei Fernandes Pereira, OFMCap
Extraído de http://reflexoesfranciscanas.blogspot.com/2008/11/paz-e-o-bem-na-perspectiva-de-so.html acesso em 27 Nov. 2008.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

MARIA DOS MIL NOMES...


"E o nome da Virgem era MARIA" (Lc 1,27).

O nome de uma pessoa diz respeito à identidade dessa pessoa ou mesmo à missão a que essa pessoa se destina; assim, mais que identidade o nome revela o essência de cada ser diante de Deus. É como dizia São Francisco de Assis: “O homem é o que é aos olhos de Deus e nada mais”.

Ora, com Maria não seria diferente, pois, a Virgem representa a suma flor da humanidade, isto é, a magnificência da humana criatura, pois, ninguém mais bela do que ela, ninguém mais pura do que a Virgem que concebeu o Salvador do mundo, pela ação do Espírito Santo. E é por isso que ela foi concebida sem pecado original e recebeu um tão grande e único privilégio, ser a mãe de Jesus Cristo, o Filho de Deus.

Não resta dúvida que Maria é única; seu nome hebraico Miriam significa: senhora soberana; aquela que traz consigo a força da vida. Realmente, por sua missão e escolha de Deus, ela carrega consigo alguns privilégios que a fazem participante direta da obra da redenção do seu Filho amado. Eis alguns privilégios da Virgem: Imaculada Conceição, Santa mais que todas entre as mulheres; Mãe do Filho de Deus, Virgem Santíssima, visto que traz, o Santo dos Santos, o Senhor dos senhores, o Rei dos reis, no Sacrário do seu Ventre; e por conseqüência disso, ela é Medianeira de todas as graças e Mãe da Igreja.

“Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. E exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor? Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio. Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas”! (Lc 1,41-45).

“E Maria disse: Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo”. (Lc 1,46-49).

Constatada essas maravilhas do Senhor na vida da Virgem Mãe, sua profecia começou a se cumprir em todas as partes da criação como havia anunciado, “todas as gerações me proclamarão bem-aventurada”. Assim, “Fatos de sua vida ou lugares aonde viveu deram-lhe nome: Nossa Senhora de Nazaré, Nossa Senhora do Sim, Nossa Senhora de Belém, Nossa Senhora do Desterro, Nossa Senhora da Apresentação, Nossa Senhora do Cenáculo, Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora da Glória”. Também “lugares ou aparições ou intervenções sua deram-lhe nome: Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Nossa Senhora de Lourdes, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora de Salete e Nossa Senhora de Guadalupe”, etc. (Dom Mário Teixeira Gurgel, SDS - Revista Aparecida, nº38).

E ainda, “praticamente todos os países católicos têm Nossa Senhora como sua padroeira, sob um título especial. Vejamos alguns países da América Latina: Brasil - Nossa Senhora da Conceição Aparecida; Colômbia - Nossa Senhora de Chiquinquira; Venezuela - Nossa Senhora de Coromoto; Peru - Nossa Senhora da Evangelização; Bolívia - Nossa Senhora de Copacabana; Chile - Nossa Senhora do Carmo; Paraguai - Nossa Senhora da Assunção; Argentina - Nossa Senhora de Lujan; Uruguai - Nossa Senhora dos Trinta e Três (relembra os 33 homens que, sob a proteção de Nossa Senhora, empreenderam a independência do país em 1825)”. (Dom Mário Teixeira Gurgel, SDS - Revista Aparecida, nº38).

A grandeza de Maria, Mãe de Deus e da Igreja, justifica plenamente tantos títulos e nomes lhe foram dados; aliás, eles “são expressões de amor e carinho, com que queremos homenagear nossa Mãe espiritual, procurando, de certa maneira, tornar mais pessoal o nosso relacionamento com Ela”. (Dom Mário Teixeira Gurgel, SDS - Revista Aparecida, nº38).

Caríssimos, é preciso entender, porém, que esses títulos e nomes se referem à mesma e única Virgem Maria, mãe de Jesus e nossa mãe. É como escreveu o cantor Roberto Carlos em uma de suas canções: “Todas as nossa Senhoras são a mesma Mãe de Deus”.

Virgem Santíssima: rogai por nós!

Paz e Bem!

Cântico das Criaturas

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Legenda dos três companheiros (2)

Fr. Sílvio João Santos do Carmo, OFMcap
freisilviocarmo@hotmail.com

Para esta empreitada, nessa segunda reflexão pessoal, da legenda dos três companheiros, Paul Sabetier nos conta que os três companheiros que escreveram a vida de são Francisco, foram de fato digno de tal empreendimento: “Essa legenda tem como autores homens dignos de narrar a história de São Francisco e, certamente, também os mais capazes de faze-los. Os três viveram em sua intimidade e o acompanharam durante os anos mais importantes”. Observamos assim, uma obra cheia de intimidade, de aprofundamento, de certeza, de vivência, não do tipo: me contaram, me desceram, mas sim de uma narração de dentro para fora, isto é, da verdadeira escuta, do verdadeiro olhar, do verdadeiro silêncio, da verdadeira afetividade. Pois, quando um relacionamento só é vivido externamente, temos a certeza que dura pouco ou quase nada, e aí, perdemos a oportunidade de conhecer aqueles que pela graça de Deus foram colocados em nosso meio para amarmos. Todavia, quando encontramos espaço – pessoas verdadeiramente acolhedoras – tudo fica mais fácil e o que está dentro do coração se manifesta como desabrochar de uma flor.

Os três companheiros de Francisco nos contam que, ele era um jovem alegre e liberal. Que gostava da convivência com os do mesmo temperamento”. Seus pais, o ama com ternura, permitindo fazer “coisas”, para não entristecê-lo. Já na juventudeguardava o firme propósito de jamais dirigir injúrias a quem quer que fosse. Antes, sendo jovem, brincalhão e boêmio, fez consigo mesmo o propósito de nunca responder a quem lhe falasse torpezas”. Partindo destas virtudes, depois de sua conversão diz: “Se és generoso e cortes com os homens de quem não recebes coisa alguma, a não ser favores transitórios e de pouco proveito. É justo que, por amor de Deus, que é generosíssimo em retribuir, o sejas também com os pobres”. A partir daí fez o propósito em seu coração de nunca mais negar a quem pedissem em nome do grande Senhor. Na prisão durante a guerra entre Perusa e Assis, Francisco, vendo como um dos soldados tivesse injuriado a um companheiro e por esta causa, “todos dele queriam afastar-se, só Francisco não lhe negou a amizade”.

Depois de várias experiência boas e cheias de fantasias com seus companheiros, Francisco foi gradativamente sendo visitado pelo Senhor. Experiências que nunca esqueceu e, que foram contadas – acredito eu – varias vezes, a ponto de serem lembradas com detalhes pelos três companheiros: Após a refeição saíram de casa: os companheiros iam na frente cantando pelas ruas da cidade, e ele, um pouco atrás, ia meditando com atenção. O Senhor o visitou, e seu coração ficou repleto de doçura. A partir daí tudo vai mudando, tudo vai se “transformando pela graça de Deus”. Sua primeira atitude, conta seus companheiros foi: “estar em alguma cidade, onde, desconhecido pudesse tirar as próprias roupas e, em troca, vestir as roupas de algum pobre, para experimentar pedir esmolas pelo amor de Deu”. Desejoso de experimentar cada vez mais a doçura do Senhor em seu coração sem ainda ter como explicar, certa vez, encontra-se com um homem leproso, alcança a mais “perfeita vitória sobre si mesmo”. Aquilo que “antes um amargo mudara-se em doçura”, “Apeou e ofereceu-lhe uma moeda, beijando-lhe a mão”.

Partindo daí, Francisco desejoso de possuir o verdadeiro tesouro, vai travando uma batalhar com seu próprio desejo humano. Procurando uma caverna perto de Assis, orava a Deus e ao sair da caverna, apareceu diante de um companheiro em “um outro homem”. Depois dessa experiência, outras foram se sucedendo gradativamente. O desejo de reformar a pequena igreja de são Damião. Diante do crucifixo, trêmulo e atônito disse: “com muito boa vontade o farei Senhor”. “Com estas palavras ficou repleto de tanta contentamento, que sentiu em sua alma a presença de Cristo crucificado que lhe havia falado”. Diante das várias experiências desagradáveis e amargas com sua família e de modo particular com seu pai. Da caridade e o amor para com os sacerdotes. Os vários encontros com os cônsules e com o senhor bispo, que lhe foi de grande ajuda em momentos tão difíceis: “Tem pois, filho, confiança no Senhor, e comporta-te varonilmente”. Francisco “despojando de todas as coisas do mundo, dedica-se ao serviço divino por todos os modos possíveis”.

Os três companheiros nos contam também, que todas estas experiências foram para Francisco grande provação. Uma grande luta pessoal, uma amargura sem fim, um sofrimento necessário, uma angústia compartilhada do Cristo na Cruz e uma dor profunda. Depois, tudo em sua vida vai tomando outros rumos, outra realidade, para lembrar-nos que precisamos fazer sempre a renúncia necessária, diante da família, de si mesmo e dos bens. Tendo concluído a obra que desejava realizar, da igreja de São Damião, Francisco, vai mudando seu modo de se vestir. Suas roupas de finas e elegantes passam em um primeiro momento para um hábito de eremético, de cajado na não, calçados nos pés e correia na cintura. Depois, fazendo com suas próprias mãos, usa uma túnica rústica e uma corda por cíngulo. É sempre assim, quando a mudança começar de dentro, o externo muda. Não temos como escapar. Sentimos forte desejo de despojamos do velho homem, para vive o homem novo. O novo, para quem é verdadeiramente agraciado pela graça divina, não causa medo e sim, explosão de alegria sem fim. Tudo é maravilhoso, gostoso, alegre, encantador, radiante e profundo. Tudo muda: o olhar, o andar, o jeito, o afeto, o falar, o amor, o relacionamento, o afeto. Portanto, nada mais tem sentido diante da transformação que Deus realiza quanto estamos vivendo o TUDO, o SUMO BEM, o MISTÉRIO ETERNO em nós.

A partir desse momento, Francisco, “começou, por inspiração divina, a apresentar-se como anunciador da perfeição evangélica e a pregar a penitência em público e de modo simples”. Agora seu desejo, não era mais reconstruir igrejas em ruínas pela cidade de Assis e sim, falar, falar muito do que estava sentindo com sua vida; de como poderia transmitir para todos a transformação que Deus fez em sua alma. Seus três companheiros, narram que Francisco, escutando sempre mais as Palavras de Jesus na celebração da Santa Missa, começa a pregar o Evangelho. Segundo eles “suas palavras não eram vazias nem dignas de riso mais cheiras de virtude do Espírito Santo e penetravam o âmago do coração, de modo a levar vivamente os ouvintes ao espanto”. Sim, foi desta maneira que Francisco foi cativando as pessoas de seu tempo. Sim, foi com palavras cheias de virtudes do Espírito de Deus, pois é isso que se espera de um apaixonado pelo Senhor; é isso também que as pessoas desejam ver no pregador: virtudes espirituais. Sem isso, não falamos nada porque não sentimos nada para depois dizer e, aí, como cativar as pessoas para Deus? Como motiva a fé de muitos que já perderam “sua fé” no mundo tão marcado pelo individualismo e pelo materialismo?

Demos isso como certo: quanto mais nos aproximarmos do MISTÉRIO, tanto mais teremos condições de ajudar muitas pessoas. Quando Francisco começou a pregar de “modo simples” e chegando ao conhecimento de muitos a verdade tanto da doutrina quanto do testemunho da vida, com nos fala os três companheiros, após dois anos, alguns homens começaram a ser animados pelo seu exemplo de vida santa. É isso que veremos na última e III reflexão. Que o Senhor cheio de Amor para conosco, nos dê a sua verdadeira Paz. Amém!


Frei Sílvio João
Extraído de http://www.promapa.org.br/2006/index.php?pag=artigos&exibartigo=72 acesso em 24 nov. 2008.

Observação:
Não foi localizada a terceira reflexão sobre a Legenda dos Três Companheiros.

domingo, 23 de novembro de 2008

Site da Custódia Imaculada Conceição OFMconv

Custódia Imaculada Conceição
Ordem dos Frades Menores Conventuais
Rio de Janeiro:
http://www.fradesmenoresconventuaisrj.locaweb.com.br/

Legenda dos três companheiros (1)

Fr. Sílvio João Santos do Carmo, OFMcap
freisilviocarmo@hotmail.com
Depois de alguns dias, lendo e relendo, em minha meditação pessoal, a legenda dos três companheiros, obra que faz parte das fontes biográficas de são Francisco, compartilhando com Paul Sabatier, quando diz que a mesma é “o mais belo monumento franciscano e uma das produções mais deliciosas da Idade Média”(1), gostaria, eu também, de compartilhar através de três reflexões esta importante fonte.

Desde já, digo que a mesma não tem nenhum valor cientifico e não tem a intenção de olhar a obra como única, mas de servir de ajuda para os que sentem desejo de aprofundar nosso carisma franciscano através das leituras dos escritos, fontes, documentos, crônicas, como também, dos que vivem da espiritualidade franciscana na ordem capuchinha. Isso, acredito eu, pode servir também, para nossos jovens vocacionados e formandos nas diversas etapas de nossa formação, como também para os que desejam retornar ao fervor da espiritualidade de São Francisco.

Conhecemos, através da hagiografia – biografia de santos -, que também os santos tiveram seus grandes amigos. Há amizade sempre marca a vida das pessoas. São pessoas de relacionamento, do dialogo, dos encontros, do acolhimento, da escuta, da partilha, da solidariedade, mesmo que seja por algum tempo. Assim sendo, o bom relacionamento, acompanhado da amizade ajuda a preservar a memória. Sim, uma verdadeira amizade, faz bem e ajuda a lembrar momentos vividos que muitas vezes esquecemos e, aí o outro, com tanta facilidade, sem esconder nada, nos faz recordar coisas importantes do passado que às vezes não lembramos com tanta facilidade. Demonstrado, assim, interesse, fidelidade e respeito. Pois, sempre acreditei que, quando temos verdadeiros amigos o passado é sempre lembrado para mantermos sempre vivo o futuro, mantendo assim o verdadeiro sentido da amicitia/amizade: afeto, estima, dedicação recíproca entre pessoas. Arturo Graf(2), escreveu certa vez que: El que posee um amigo verdadero piede decir que posee dos almas / “quem tem um amigo verdadeiro pode afirmar que possui duas almas”. Acredito que ele tem toda a razão, pois, quando temos amicus/amigos, o outro – “outra alma” – sabe lembrar várias coisas vividas a dois. E quando acreditamos na amizade das pessoas, compartilhamos com dois, três ou mais nossa amizade. Aí a convivência se torna maior e tudo vai ganhado mais liberdade e temos assim vontade de viver nossos planos, projetos, desejos, futuro. Somos levados a revelar – pela convivência – até mesmo nossa transcendência, nossa espiritualidade, nosso desejo profundo de ir ao encontro de Deus. No companheirismo “uma boca amena multiplica os amigos, uma língua afável multiplica a afabilidade”(3) diz o Eclesiástico. Portanto, devemos aumentar nossas relações com todos, mas poucos são verdadeiramente fiéis e dignos de confiança. Assim, faz-nos pensar os que foram os primeiros companheiros de Francisco, ou seja, aqueles que participaram de sua vida, de suas ocupações, de seus sonhos, alegrias e tristezas, de suas aventuras. Por outro lado, Francisco, cheio de ternura do Senhor fez amigos verdadeiros, pois tal como ele era, assim eram seus amigos.

Na experiência do dia-a-dia, muitas pessoas passam em nossas vidas e não deixam nada de bom, passam como passa o vento. Com alguns, até compartilhamos “algumas coisas”. Depois, como o tempo, tudo o que foi vivido toma outro rumo e, tudo passa sem deixa algo de concreto que possa se lembrado com entusiasmo ou celebrado como memória. Outros por mais que se esforcem, fingem serem fiéis companheiros ou amigos, por acreditarem que podem tira proveito de alguma coisa. Quando não consegue, se afastam deixando seu rastro de destruição e incerteza. No futuro, com certeza, estes nunca serão lembrados, porque foram esquecidos, sem deixar uma semente para ser germinada.

Num mundo marcado pelo individualismo, a amizade para muitos se torno sinônimo de falsidade, de um sentimento que não existe. Todavia, a dúvida quanto aos maus e bons amigos invade a mente das pessoas a cada realidade vivida. Diante disso, “a dúvida não deve esta automaticamente ligada a uma negação da fé. Podemos confrontar-nos seriamente com várias questões que nos inquietam e, confiar em Deus no núcleo essencial da fé”(4). Quanto às contradições da vida, do tipo, como devemos nos posicionar frente às más amizades? Diríamos que não podemos tentar encontrar soluções para tudo, porém, podemos confiar em que se possa resolver o que muitas vezes não podemos solucionar. Dizia o então cardeal Joseph Ratzinger: “Sabe, em todo o caso não é possível amar as pessoas coletivamente. Existe pessoas que temos grandes dificuldades. E às vezes até podemos começar a duvidar da bondade do Homem e interrogar-nos se o Criador não perdeu demasiadamente o controle sobre isso, ao ponto de Sua criatura ir tornando-se perigosa e deixar de ser digna de ser amada. Mas então é preciso assumir a seguinte atitude: algumas eu não conheço, portanto não me cabe julga-los; outros, tenho de os deixar tais como são. E as pessoas boas que conheço vão me dando a certeza de que o Criador sabe bem o que fez”(5).

Dos três companheiros de Francisco, podemos ter a certeza de que a philia/amizade foi maior do que as normas e as leis. Pois, todo conhecimento do outro é o resultado de um diálogo: um conhece o outro, o outro conversa com o outro e, aí o conhecimento dos outros será sempre uma construção de conhecimento sempre renovado. A vivência, portanto, é fundamental no desenvolvimento do indivíduo. O sentido da vida fraterna está justamente na intensiva e genuína interação entre os irmãos.

A qualidade das relações fraternas segundo a psicologia religiosa, deve assim, “proporcionar o equilíbrio entre os interesses individuais e os coletivos, garantido, a diversidade e a individualidade nas relações”(6). O que os três companheiros viveram e contaram de seu grande amigo nunca será esquecido, porque o bem não morre e, a verdadeira amizade é sem fronteira e eterna. Assim sendo, os verdadeiros amigos acreditam no que a gente diz. E, como duvidar deste sentimento? Se não podemos dividir o coração em duas partes para agradecer, podemos expressar pela gratidão por todos os momentos fraternos que viveram juntos os freis Francisco, Leão, Ângelo e Rufino. Portanto, ao longo destas reflexões teremos a oportunidade de aprofundar um pouco mais esta rica fonte biográfica, onde três caros companheiros de nosso pai Francisco nos proporcionam com sua verdadeira amizade, um maior conhecimento de sua vida entre nós. Que o Senhor nos abençoe e nos guarde hoje e sempre. Amém!

Notas:

(1) Cf. SABATIER. Paul. Vida de São Francisco de Assis. Bragança Paulista, São Paulo. Universitária, 2006, p.64

(2) Arturo Graf (1848 – 1913), escrito e poeta italiano. Cf. Palavras mágicas de amizade. V&R editoras. Cotia, São Paulo, 2005, p. 66

(3) Cf. Eclo 6, 5

(4) Cf. RATZINGER, Joseph. O Sal da Terra: O Cristianismo e a Igreja no século XXI: um diálogo com Peter Seewald, Rio de Janeiro, Imago, 2005, p. 12

(5) Id. Ibid. p. 26

(6) Cf. JUNG. C.G. Psicologia e religião. Petrópolis, Vozes: 1995. p. 57

Extraído de http://www.promapa.org.br/2006/index.php?pag=artigos&exibartigo=69 acesso em 23 nov. 2008.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Conselho Internacional da OFS 2008-2014

Paz e bem!

Dia 19 nov., durante o XII Capítulo Geral da OFS, foi eleito o Conselho Internacional que dirigirá a Ordem Franciscana Secular de 2008 a 2014. A composição do conselho eleito é:
☆ Ministra: Encarnación del Pozo (Espanha)
☆ Vice-Ministro: Doug Clorey (Canadá)
☆ Conselheira para a Área de Língua Espanhola: Consuelo Nuñez (Venezuela)
☆ Conselheiro para a Área 1 de Língua Inglesa (América do Norte e Europa): Tibor Kausser (Hungria)
☆ Conselheira para a Área 2 de Língua Inglesa (África, Oceania e Ásia): Lucy Almirañez (Filipinas)
☆ Conselheira para a Área de Língua Francesa: Michéle Altmeyer (França)
☆ Conselheira para a Área de Língua Portuguesa: Maria Aparecida Crepaldi (Brasil)
☆ Conselheira para a Área de Língua Alemã: Ewald Kreuzer (Áustria)
☆ Conselheira para a Área de Língua Italiana: Benedetto Lino (Itália)
☆ Conselheira da JUFRA: Ana Fruk (Croácia)

Foto: Ministra-Geral da OFS, Encarnación del Pozo

Os franciscanos de Oxford

Existiram algumas circunstâncias históricas que possivelmente podem haver favorecido o estudo e o desenvolvimento da filosofia natural pelos franciscanos na Grã-Bretanha. A convocação papal para as atividades pertinentes à Inquisição não os atingiu. Adicionalmente, ao contrário da Europa continental, não havia herança ou cultura muçulmana a combater, mas sim, ao contrário, plenas condições de estudá-la e absorvê-la. No que se refere aos judeus, o rei Eduardo I baixou em 1275 um Estatuto onde lhes impunha restrições até determinar sua expulsão em 1290.

A inexistência, ao menos explícita, de infiéis e hereges na Grã Bretanha dos séculos XII e XIII implicou em que pregação cristã da ordem ficasse voltada ao povo local, já cristianizado, e plenamente apoiada pelos clérigos e autoridades locais.

Não encontramos referências diretas a uma “escola franciscana de Oxford”, como foi o caso da “escola franciscana de Paris”, da qual Alexandre de Hales (1185-1245), Doctor Irrefragabilis, e São Boaventura (1221-1274), Doctor Seraphicus, foram os expoentes máximos. Hales, que ingressou na ordem aos 50 anos, já como mestre em teologia e filosofia, teve entre seus alunos Tomás de Aquino e o próprio Boaventura.

No entanto, não resta dúvida quanto à existência da escola de Oxford, bem como de sua importância na filosofia escolástica dos séculos XIII e XIV. Como se sabe, São Tomás de Aquino foi declarado doutor oficial da ordem dos dominicanos, decisão reafirmada em vários capítulos gerais da ordem realizados entre 1278 e 1315.

Assim, os primeiros franciscanos de Oxford mantiveram sua independência em relação à doutrina albertino-tomista, o que não significa de modo algum sua rejeição completa. Os franciscanos foram, sem dúvida, devedores de Robert Grosseteste – não apenas de seus ensinamentos, mas também de sua autoridade na universidade e na diocese de Lincoln, (da qual Oxford era parte) em favor da ordem dos frades menores, os quais acolheu em 1224, três anos após os dominicanos. Na condição de Bispo de Lincoln, Grosseteste teve papel importante na organização e na formulação das regras da ordem franciscana na Inglaterra, facilitando ainda o seu relacionamento com o clero secular e monástico. Além disso, Grosseteste dirigiu uma carta ao Papa Gregório IX exaltando o trabalho dos franciscanos, a simpatia e o respeito com que a ordem era tratada e vista pelos fiéis ingleses.

A ligação de Grosseteste com os franciscanos de Oxford foi muito estreita, a ponto de fontes como a Catholic Encyclopedia citarem que ele teve a intenção de se tornar membro dessa ordem.

Entendemos como o aspecto mais significativo entre os franciscanos de Oxford, na Baixa Idade Média, o fato de sendo eles (como de resto praticamente todos os letrados do Ocidente) herdeiros da cultura grega, tenham se voltado ao entendimento da Natureza com uma peculiar visão matemática que diferia tanto de Platão como de Aristóteles.

A maneira mais segura de se apresentar o pensamento dos franciscanos de Oxford quanto à filosofia natural é respeitando a cronologia que, quase sempre, significa ascendência na transmissão do conhecimento. Esta abordagem não pretende expor o conjunto de obras dos religiosos, nem ao menos aprofundar o posicionamento filosófico daquela escola, mas apenas focar seu pensamento no que se refere aos movimentos locais. Nosso objetivo é tão somente delimitar o que Bradwardine herdou, neste aspecto particular, de seus antecessores em Oxford, para melhor contextualizar sua obra.

Sem dúvida não é simples conhecer o pensamento franciscano medieval, o qual abriga personagens tão diferentes não apenas em idéias, mas entre si, como Boaventura e João Duns Scotus, Raimundo Lúlio e Guilherme de Ockham, Rogério Bacon e Pedro Olivi. À primeira vista, poderíamos pensar em colocá-lo em oposição à escola dominicana, mas tal idéia não progrediria, pois alguns franciscanos comungaram das mesmas idéias de São Tomás de Aquino, como também ocorreu com os dominicanos em relação a Santo Agostinho.

Pelo que se depreende de seus estudos voltados à natureza, a filosofia cristã que predominou na escola franciscana de Oxford pode ser vista sob vários aspectos. Deus, por sua natureza essencialmente espiritual, exerce sobre nós um contato ontológico que se exerce quer pela própria criação do ser, quer por iluminação dos princípios em que se baseiam a inteligência humana. Sofrer a ação da Causa não significa conhecê-la. Portanto, podemos concluir que na escola franciscana o conhecimento das coisas da Natureza permite conhecer a obra de Deus, mas não leva ao conhecimento de Deus. Ou seja, o conhecimento das coisas naturais não implica no conhecimento dos desígnios de Deus, cujos atributos são, univocamente, seus.

Apesar de clérigo secular, Bradwardine parece concordar com o pensamento linguagem matemática seu entendimento de como interagem as potências que resultam na velocidade dos corpos em movimento.

Podemos então concluir que as circunstâncias históricas locais, e a herança cultural de Grosseteste, podem ser considerados entre os fatores que influenciaram na vocação dos franciscanos ingleses voltada à leitura crítica dos textos filosóficos relativos à filosofia natural. A importância explícita dada à matemática no estudo dos fenômenos da natureza especialmente por Grosseteste e Bacon, também foi parte da tradição existente em Oxford, quando Bradwardine para lá se dirigiu, no início do século XIV. Conforme já comentamos, o papel desempenhado pela matemática e sua aplicação a questões referentes à filosofia natural era bastante comum nesta fase final do medievo: “Para muitos filósofos naturais, as ciências exatas, ou ciências intermediárias, como a astronomia e a ótica, eram tidas como aspectos matemáticos da filosofia natural”¹.

¹ E. Grant, “The Foundations of modern science in the Middle Ages”, p. 148


Roberto César de Castro Rios
Roberto César de Castro Rios é economista e exerce a função de Auditor Fiscal da Receita Federal na Delegacia Especial de Assuntos Internacionais em São Paulo. É Mestre em História da Ciencia pela PUC-SP, e tem especial interesse pela História da Física e sua relação com a Religião.
São Paulo - SP
acesso em 21 nov. 2008.

Os Franciscanos e a Pregação das Cruzadas

Escrito por Profº Silvano Tenorio Félix, em 24-09-2008 12:47

1. Introdução

No ano de 1234 os ministros da Ordem dos Frades Menores e da Ordem dos Pregadores da Lombardia recebiam uma bula, determinando que fossem nomeados dois frades para a pregação da cruzada naquelas regiões. No ano seguinte, no dia 30 de dezembro de 1235 era mandada uma bula a todos os arcebispos, bispos e prelados da França, anunciando a nomeação de frei Guilherme de la Cordelle, da Ordem dos Frades Menores, para pregar as cruzadas nos seus domínios. Frei Guilherme deveria recolher os fundos necessários à organização dos exércitos, além de receber os votos dos que se dispusessem a partir. Esses dois documentos marcam o início do envolvimento dos frades menores com o "negotium crucis", as cruzadas.

Nosso objetivo, na presente exposição, não é fazer uma história das cruzadas. Pretendemos, sob a chave de leitura da pregação de cruzadas pelos franciscanos, fazer uma averiguação do processo através do qual a Ordem, surgida num contexto de simplicidade, de "minoridade", aos poucos vai assumindo cargos e ofícios que parecem se contrapor aos princípios sobre os quais a mesma tinha sido fundada. O fato de a Ordem se destacar, com vários nomes, no ofício da pregação de cruzadas, é um dos fatores onde melhor aparece o seu possível "alinhamento" com o poder papal, com a Cúria romana. Como se chegou a esse alinhamento? Pode-se afirmar, como querem alguns historiadores, que ao assumir a defesa da Cúria papal, os franciscanos traíram o projeto de Francisco de Assis? Teria a Cúria papal cooptado a Ordem, de tal modo que, apenas alguns anos após a morte do fundador, esta teria pouco do primitivo ideal? Numa época em que toda a cristandade era exortada veementemente a pegar em armas contra os "infiéis", o "usurpador" da Terra Santa, Francisco de Assis foi ao Egito, tentar converter o sultão, usando as armas do diálogo ao invés da violência. Como, em tão pouco tempo (oito anos após sua morte), seus seguidores recebem do próprio papa que tinha sido um dos maiores amigos de Francisco, o cardeal-protetor da Ordem, uma missão que parece trair os ideais de Francisco? É o que pretendemos analisar nesta exposição. Nos ocuparemos do período que cobre aproximadamente os 0 primeiros anos da Ordem franciscana, de 1210 a 1240.

2. As cruzadas nos inícios da Ordem Franciscana

O apelo do papa Urbano II no concílio de Clermont, em 1095, "Deus o quer!", (Deus lo vult!) tinha sido amplamente ouvido. Até os inícios do século XIII, quatro expedições armadas tinham se dirigido às terras do Oriente, para combater os infiéis. A quarta cruzada atacou Constantinopla, deixando às claras todo o jogo de interesses nada espirituais que motivavam os senhores da guerra. Apesar da deturpação da idéia de cruzada, que acabou opondo cristãos a cristãos, Inocêncio III (1198-1216) acalentava o projeto de uma nova expedição, e na abertura do IV concílio do Latrão externou seus sentimentos. Coube a seu sucessor Honório III (1216-1227) levar em frente seu projeto. A quinta cruzada atacou o Egito, tomando a cidade de Damieta, em 1219. É durante esta cruzada que acontece o encontro de Francisco com o sultão.

Com a morte de Honório, foi eleito Gregório IX (1227-1241). Em 1229 o imperador Frederico II estabeleceu uma trégua de 10 anos com o sultão. Chegando ao fim desse período, a organização de uma nova cruzada se fazia urgente. Gregório IX mandou pregadores, a partir de 1235, para a França, e em 1239 partia a expedição, de aproximadamente mil cavaleiros, sob o comando de Thibaud, rei de Navarra.

Além de todo o aspecto espiritual envolvido na idéia de cruzada, representado pela "peregrinatio" a Jerusalém, pela penitência e purificação das próprias faltas, pela indulgência, a cruzada desempenhava um importante papel político na Cúria romana: além de ajudar a manter a disciplina e aplacar a violência que grassava pela europa, através do "voto" cruzado, as cruzadas eram um instrumento de confirmação da autoridade papal. As entradas oriundas das esmolas e décimas também não podiam ser ignoradas. Por estes e outros motivos, as cruzadas eram muito bem vistas pela própria hierarquia papal: não é por acaso que, entre os papas do século XIII, vários vieram dos reinos latinos do além-mar, criados e defendidos (a duras-penas) pelos cruzados e pela Igreja: Tiago Pantaleão, Patriarca de Jerusalém, em 1261 é eleito papa, com o nome de Urbano IV; Tebaldo Visconti, arcidiacono de Liegi, participou da cruzada de Eduardo de Cornualha, e foi ainda na Terra Santa que recebeu a notícia de ter sido eleito papa, escolhendo o nome de Gregório X. Era de bom tom defender e incentivar as cruzadas. Opor-se a elas, ainda quando fracassavam, era um mal negócio. Basta ver que as maiores lideranças da cristandade se envolveram, de um modo ou de outro, nas cruzadas: os reis da França, da Alemanha, da Inglaterra, da Hungria, além de nobres das mais altas estirpes européias.

O IV Concílio do Latrão, em 1215, sob o comando de Inocêncio III (1198-1216), organizou a cruzada no século XIII. Inocêncio reforçou o suporte financeiro às cruzadas: instituiu a redenção e a comutação do voto cruzado, o direito de conseguir indulgência parcial em troca de ajuda material, a coleta de dinheiro e taxas. Organizou também o apoio moral-espiritual aos cruzados da parte daqueles que ficavam e toda uma série de práticas litúrgicas ligadas à cruzada, através de orações, procissões, e outras formas de intercessão. Não menos importante é o aparato teológico que se criou, com teólogos, inclusive franciscanos, empenhando-se em justificar a "guerra justa". Para Inocêncio III, a reorganização da cruzada fazia parte do programa muito mais amplo de reforma da Igreja. Tal mentalidade vai guiar os pontífices seus sucessores.

3. As cruzadas e os frades menores

Por que um clérigo tinha que pregar a cruzada? Antes de mais nada, porque era um evento "religioso", uma "peregrinação". A "propaganda", através da pregação, foi no início confiada aos legados papais e ao clero local. Este nem sempre correspondeu: os bispos viviam envolvidos em questões políticas locais, o clero secular nem sempre tinha o nível intelectual exigido para a pregação; além do mais, ordens vindas de Roma eram recebidas como ingerência não devida nos negócios da Igreja local. Devido a esses contratempos, desde cedo a Igreja recorreu ao auxílio de pessoas especializadas na pregação, especialmente membros das ordens monásticas, muito próximas do ambiente da Cúria papal. Basta lembrarmos a lendária figura de Bernardo de Claraval, pregador de grande impacto. O sucesso dos pregadores deixou claro que uma cruzada, para ter bom êxito, tanto quanto do número de combatentes, dependia também da qualidade do pregador. Nas primeiras décadas de 1200, o papel desempenhado outrora pelas ordens monásticas, passa a ser exercido pelas ordens mendicantes.

A Ordem dos pregadores (dominicanos) e a Ordem dos frades menores (franciscanos) surgem com a explícita missão de pregar o Evangelho. Espalhados em pouco tempo por toda a europa, com uma grande mobilidade, sem o impedimento da stabilitas loci, própria dos monges, recebendo desde o início entre seus quadros pessoas de altíssimo nível intelectual e moral, logo atraem a atenção da Cúria romana, que percebe o enorme potencial que se esconde entre aqueles cléricos aparentemente simples e humildes.

3.1 Os frades menores e a Cúria romana

O Cardeal Hugolino de Óstia, amigo de São Francisco, foi, a pedido deste, nomeado cardeal protetor da Ordem. Eleito papa com o nome de Gregório IX, Hugolino demonstra desde cedo sua confiança nos frades menores, escolhendo entre eles vários de seus colaboradores diretos. Alguns foram escolhidos como capelães e penitenciários da Cúria papal. A outros foram confiadas missões diplomáticas delicadas; foi-lhes confiada a inquisição contra os hereges; aos poucos os frades começam a ser escolhidos também para as dignidades eclesiásticas mais altas: em 1241 frei Leão de Perego foi nomeado arcebispo de Milão, e em 1248 frei Eudes Rigaud foi consagrado arcebispo de Rouen. Os capelães e penitenciários viviam na Cúria romana; eram os colaboradores diretos e de confiança do romano pontífice, desempenhando as mais variadas funções, inclusive diplomáticas, nas regiões mais distantes. Os papas sabiam que podiam contar com os mendicantes. Entre as missões confiadas aos menores e aos dominicanos, estava a de pregadores das cruzadas.

3.2 Os pregadores de cruzadas

O processo de nomeação de frades para pregar as cruzadas se inicia com Gregório IX. Não apenas na pregação da cruzada "ultramarina", mas também na "cismarina", contra os hereges, no próprio continente. As bulas eram enviadas ao Ministro Geral ou aos provinciais, que nomeavam os pregadores e coletores de subsídios. As bulas continham instruções minuciosas sobre os poderes concedidos aos pregadores: conceder indulgências e comutar os votos, dispensar de certas obrigações da Regra, como por exemplo a proibição de andar a cavalo; ordenava de proteger aqueles que se alistassem nas cruzadas, permitia receber os proventos pecuniários, os dons voluntários, as taxas sobre os bens do clero, os legados testamentários, as restituições, etc. Tinham que prestar contas anualmente de sua gestão, dos trabalhos e resultados obtidos. O dinheiro arrecadado deveria ser colocado em lugar seguro, em geral nos conventos dos frades.

Para a pregação da cruzada eram escolhidos religiosos que se destacavam pelos dotes oratórios e intelectuais, conhecedores da doutrina que iriam pregar, além de comprovada conduta moral e religiosa. No que consistia a pregação? Era antes de mais nada uma pregação em nome de Deus, expressa por intermédio do Papa, seu porta-voz: "Deus o quer!", era o mote que se tornou famoso desde o concílio de Clermont. Os pregadores iam de cidade em cidade, pregando, numa espécie de missão volante, dormindo nos mosteiros ou nos conventos da própria Ordem, ou nos albergues. A pregação acontecia normalmente onde se reuniam multidões: nas praças, nas feiras, nos torneios, nos dias de festas, nas igrejas. Era um ofício de comunicação, de propaganda, que deveria atingir o maior número de pessoas.

3.2.1 Os frades pregadores de cruzadas: alguns nomes

Os três primeiros religiosos das ordens mendicantes nomeados pregadores de cruzadas eram íntimos do círculo de amizade do papa Gregório IX. Todos eram penitenciários papais, e estiveram envolvidos em várias atividades diplomáticas a serviço do papado. O primeiro franciscano nomeado foi o francês frei Guilherme de la Cordelle, nomeado por bula de 1235. Guilherme era um dos onze penitenciários de Gregório IX. Em 1236 foi o mediador num litígio entre o rei Luis da França e o bispo de Beauvais. Em 1238 partiu para a cruzada guiada por Thibaud de Champagne. Esteve até 1243 na Terra Santa, pregando aos cruzados.

Outro nome de destaque, bem mais conhecido, é o do francês frei Gilberto de Tournai. Nascido por volta de 1200, estudou em Paris, onde ensinou teologia até 1240. Entre seus colegas de ensino estavam Boaventura de Bagnoregio, Alexandre de Halles, Giovanni de La Rochelle. Em 1240 resolveu entrar na Ordem franciscana. Existem dúvidas a respeito de uma sua suposta participação na cruzada de 1248-1254, ao lado do rei Luis IX. Em 1259, é mandado, por obediência, de volta a Paris, onde assume o cargo de mestre-regente do "studium" franciscano daquela cidade. Em 1270 ainda se encontrava ativo na França. Entre suas várias obras, algumas eruditas, encontramos três Sermões aos Cruzados. Gilberto também escrevia sermões para os pregadores de cruzadas.

No contexto da pregação das cruzadas pelos frades menores, merece destaque o nome de frei Benedito de Alignano. Antes de seu ingresso na Ordem, este frade foi monge beneditino. Em 1224 era abade da Abadia de Nossa Senhora da la Grasse, em Aude (França). Em 1226 obteve êxito na negociação pela rendição dos habitantes de Carcassone ao rei Luis IX. Em 1228 foi nomeado bispo de Marselha, e provalvelmente pouco depois ingressou na Ordem franciscana. Esteve na Terra Santa em 1239 e em 1260. Morreu em 1268. Frei Benedito escreveu um tratado sobre a Santíssima Trindade, que ficou mais conhecido por causa de um capítulo, onde trata das relações dos cristãos com os muçulmanos. Neste capítulo, o autor declara que "os absurdos deste Maomé, que fala à maneira dos loucos e das bestas, não são dignos de debate, mas devem ser extirpados pelo fogo e pela espada". Os argumentos do autor são tirados, em sua maioria, da teologia da época e da Sagrada Escritura. Benedito é taxativo: o muçulmano deve ser eliminado, bem como os pagãos e hereges. A obra se caracteriza pela dureza de linguagem, ultrapassando o radicalismo de alguns teólogos, e da própria Cúria romana. "Benedito deu a justificação para o uso ilimitado da força nas cruzadas, e seu ideal de cruzada era definido primeiramente pela eliminação do Sarraceno, não pela defesa da cristandade contra o Islã ou pela pregação aos muçulmanos". O tratado de frei Benedito teve larga difusão no século XIV no Oriente e na Europa Central, onde foi empregado no combate à heresia Hussita.

O fato de a Cúria recorrer aos franciscanos para a propaganda das cruzadas encontra respaldo num elemento fundamental da Ordem: a pregação é a missão por excelência dos frades menores.

4. Os franciscanos e a pregação

Os mestres de espiritualidade franciscana são concordes em afirmar que Francisco de Assis não fundou uma Ordem com uma finalidade específica. O objetivo dos frades era viver a vida evangélica no mundo, como menores, seguindo "a pobreza e a humildade de Nosso Senhor Jesus Cristo". Mas desde os inícios fica claro que a proclamação da Palavra de Deus é a missão por excelência dos frades menores. Se Francisco deixa claro que esta proclamação deve dar-se pelo exemplo, não exclui a possibilidade da pregação pela palavra. Várias passagens de sua vida o atestam: quando ouve o texto do Evangelho de Mateus, em que Jesus envia seus discípulos dois a dois, ele exclama: "é isso que eu quero, é isso que eu procuro, é isso que eu desejo de todo o coração...". Quando o número de irmãos chega a oito, Francisco, manda os frades dois a dois, para pregar. O papa Inocêncio III, quando confirma sua forma de vida, os envia como pregadores: "Ide irmãos... pregai a todos a penitência...". Pregar a "penitência" (presente também em outros movimentos pauperísticos) era a pregação dos "vícios e das virtudes", uma espécie de exortação à conversão, diferente da pregação com conteúdos doutrinais, reservada aos ministros ordenados.

Se nos seus inícios os membros da Ordem se enquadram neste tipo de pregação, de forte conteúdo ético-religioso, com o passar dos anos, com o ingresso de sacerdotes, intelectuais e pessoas letradas, e com a expansão para centros urbanos mais desenvolvidos, a pregação deixa de ser o anúncio simples e direto da "boa-nova", para se tornar pregação em sentido doutrinal, sofisticada, o que impõe a necessidade do estudo da teologia. E isso exige o contato com os centros "escolásticos" e universitários, que então estavam se expandindo e se impondo em várias partes da europa.

O quadro social da Ordem franciscana, cerca de dez anos depois de sua aprovação por Roma, mostrava-se bem diferente dos inícios. Cada vez mais ingressavam na ordem homens envolvidos com o mundo dos estudos, das universidades. Este processo de "intelectualização" da Ordem vai exercer sua influência no modo como a mesma presta seus serviços à Igreja. O papado, atento ao seu desenvolvimento, bem cedo começa a envolver os frades menores nas missões que envolvem "pregação", "anúncio".

4.1 O processo de "intelectualização" da Ordem

Nos inícios da Ordem, reuniram-se a Francisco não só companheiros originários da nobreza, como Bernardo de Quintavale e Pedro Catani, mas também pobres trabalhadores e pequenos artesãos. Já em 1212-1213, segundo indica Tomás de Celano, entravam "alguns letrados e nobres". Jacques de Vitry diz, em 1216, que entre os irmãos menores, entravam "muitos seculares ricos de ambos os sexos"; a diversidade social vai se alargando com o tempo. O cronista acena também ao ingresso de membros da Cúria papal, de membros da hierarquia eclesiástica que ocupam altos postos de comando. Também juristas, teólogos, e pessoas dos mais variados campos da cultura ingressam na Ordem logo nos primeiros anos, após sua aprovação pelo papa. Até 1219-1220, intelectuais e simples artesãos convivem lado a lado, sem maiores diferenças.

À medida que vai ganhando notoriedade, e os frades vão se infiltrando nas realidades urbanas, é cada vez maior o número de membros do clero secular e regular, artistas, expoentes da aristocracia, doutores, teólogos, expertos em direito, que entram na Ordem. Isso vai fazer com que, paulatinamente, a Ordem começe a se desenvolver em um sentido não previsto por Francisco. Em 1220, quando estava retornando do Egito, a situação foge ao seu controle: as "novidades" repudiadas revelam as divergências existentes entre Francisco e os vigários no modo de entender o novo estilo de vida religiosa. Situa-se por essa época também o conflito de Bolonha, quando da construção do primeiro edifício estável para a Ordem.

Começam a entrar cada vez mais homens que pensam com a cabeça em Roma, mais do que com a cabeça em Assis. Aos poucos vão prevalecer os que pensam com a cabeça em Bolonha e em Paris. A partir de 1219-1220 forma-se um grupo dirigente onde sobressaem os mestres de direito e de teologia, que interpretam a presença dos menores na Igreja e na sociedade à luz de uma cultura, que não era a de Francisco. Em 1230 este processo está mais ou menos consolidado: quando um grupo de frades vai ao papa pedir a explicação da Regra e sua relação com o Testamento, não havia entre eles nenhum representante da primeira fraternidade, os mais próximos a Francisco, e que poderiam talvez interpretar melhor as suas intenções expressas no Testamento. Ao contrário, a delegação é composta de irmãos letrados, de grandes capacidades Intelectuais e pastorais, como vai ficar claro no desenvolvimento posterior da Ordem.

A delegação de 1230 marca o ponto de chegada de um processo. Neste processo de "intelectualização" desempenha um papel importante a procedência dos frades menores. De onde vinham? Qual o extrato social ao qual pertenciam? Quais os valores dos quais estavam imbuídos? Antes de mais nada, há um rápido deslocamento da área de atuação dos próprios frades menores. De zonas marginais, aos poucos se passa aos centros habitados. Palavras como locus, ecclesia, claustrum, conventum, vão aos poucos aparecendo e se tornando comuns nos documentos da Ordem. O historiador Antonio Rigon, analisando a área de atuação dos frades menores, principalmente na Itália, afirma que no sul, encontram-se, entre os candidatos à Ordem, membros de famílias em oposição ao poder imperial (Frederico II); no centro da Itália é comum encontrar entre os frades membros das famílias papais; em Pisa os mercadores estão entre os seguidores dos menores; em Treviso encontram-se vários juristas que ingressam na Ordem, enquanto em Pádua, proprietários de terra, famílias ligadas aos condes, e os mais importantes grupos dirigentes da sociedade, contribuem para o crescimento da nova religião. Estabelece-se um estreito vínculo entre os irmãos menores e os grupos da nobreza, graças à conversão de membros, inclusive da aristocracia de sangue e de dinheiro, e à beneficiência e à proteção exercitada por este grupo em favor dos menores.

Poderíamos nos questionar sobre o papel desempenhado pela Cúria romana neste processo de intelectualização da Ordem. Teria ela, através de seus dirigentes, apoiado uma facção da Ordem, em detrimento de outra? Qual o papel do cardeal Hugolino neste processo?

4.2 Cardeal Hugolino

Quando o papa propõe a Francisco de Assis que escolha um cardeal-protetor para a Ordem, este não hesita em escolher seu amigo, o cardeal Hugolino. Hugolino estava em 1220 na Lombardia, como legado papal, para combater as heresias, os desvios doutrinais, as revoltas sociais e políticas. Honório III (1216-1227) esperava obter a pacificação da região para poder assim convocar uma nova cruzada. Hugolino teve oportunidade de se encontrar várias vezes com Francisco, e conhecia bem suas intenções, pois partilhara dos momentos mais importantes de sua vida. Na missão que desempenhava, tinha necessidade de fiéis e inteligentes colaboradores. Os membros mais cultos das jovens ordens religiosas, pregadores e menores, era o que de melhor se oferecia ao legado papal.

Lombardia porém significava também direito, estudo, intelectuais. Jovens de toda Europa se dirigiam a Bolonha, e mais tarde, também a Pádua e Verceli, para estudar. A primeira edificação estável dos menores, que causou indignação a Francisco, quando voltou do Egito, estava em Bolonha. Em Bolonha tem início, como atesta a carta escrita em fins de 1223 e início de 1224 de Francisco para Antônio, o primeiro estudo organizado na Ordem.

Talvez pela experiência tida como legado papal na terras lombardas, imediatamente após a eleição, quando assumiu o nome de Gregório IX, Hugolino traçou um programa de reforma, baseado nos decretos do IV Concílio do Latrão, confiando principalmente nos frades pregadores e nos beneditinos, que logo seriam coadjuvados pelos menores: entre 1227 e 1228 estes combatem a heresia em Bassano e em Milão. Nos anos seguintes participam de uma campanha de pregação e pacificação entre a população do Vêneto, com destaque para Antônio de Pádua. Em 1233 estão, junto com o pregadores, envolvidos no movimento devoto chamado Alleluia.

Gregório IX tem um papel importante no processo de desenvolvimento da Ordem, não apenas enquanto amigo de Francisco, mas como aquele que viu na Ordem um elemento de fundamental importância para a realização de seus planos de reforma. Hugolino conhecia a Ordem por dentro. Sabia que podia contar com os frades, com sua obediência e prontidão. Os menores (bem como os pregadores) foram recebendo dos papas uma série de privilégios, que aos poucos foram moldando a Ordem dentro da Igreja.

A canonização de Francisco (1228), menos de dois anos após sua morte, foi um momento de afirmação da autoridade papal. Contribuiu para apressar a canonização a vontade de reafirmar a autoridade do magistério papal, em um momento de áspera contenda com o imperador Frederico II. A canonização de Antônio (1232) serve também para contrapor, à humildade e "ignorância" de um certo setor da Ordem, a figura de um frade douto, intelectual, mestre de ortodoxia: por longo tempo, na iconografia, Francisco vai ser representado ao lado de Antônio.

O percurso feito desde 1210, quando da aprovação oral da forma de vida pelo papa Inocêncio III, até a Quo elongati (1230), culminando com o capítulo de 1239, quando são colocadas rígidas restrições ao ingresso de irmãos não-sacerdotes, deixa evidente a plena inserção da Ordem nos mecanismos da Igreja, inclusive como instrumento de afirmação do poderio papal em todo o Ocidente, não só através da pregação de cruzadas, mas também assumindo missões diplomáticas, legações, aceitando nomeações episcopais. Boaventura aceita o cardinalato em 1273. O auge do processo se dá em 1288, com a eleição ao cargo pontifício de Nicolau IV (1288-1292), primeiro papa franciscano.

5. Conc
lusão

Na avaliação do processo que leva os frades menores à plena inserção no intrincado jogo de poder eclesiástico, defendendo as prerrogativas papais, entre outros através da pregação das cruzadas, algumas conclusões podem ser tiradas. Antes de mais nada, o processo não tem nada daquele complô da Cúria papal, denunciado por alguns historiadores, que teria propositalmente traído o ideal de Francisco. Francisco e seus frades, estão a serviço da Igreja. Num momento em que "pululavam" movimentos heréticos por toda a Europa, Francisco quis uma vida evangélica dentro da Igreja, e submissa a ela. Que os frades "sejam católicos, vivam como católicos e falem como católicos"; é o desejo maior de Francisco. Quanto à pregação, que esteja de acordo com as prescrições da Igreja: "Nullus frater praedicet contra formam et institutionem sanctae Ecclesiae".

Francisco também determina que os frades não preguem nas dioceses onde os bispos não derem autorização. Tal submissão não é apenas ao papa e aos bispos, mas também aos sacerdotes, nas suas paróquias, ainda que fossem ignorantes ou pecadores, Francisco pede submissão e respeito. Esta submissão é expressão da catolicidade de Francisco: Francisco quer um apostolado dentro da Igreja, diferentemente dos outros movimentos que caíram na heresia por não se submeterem à Igreja. Não existe conflito entre Francisco e Igreja. Ao contrário, nas duas Regras transparece uma firme vontade de inserir a nova fraternidade na estrutura fundamental da Igreja.

Não menos importante foi toda a novidade representada pelo estilo de vida dos frades menores: a simplicidade, a busca da verdadeira vida evangélica, a inserção em todos os meios sociais, fizeram com que os mesmos fossem estimados pelo povo simples e pelos nobres. Numa época de decadência e conflitos na Igreja, quando a estrutura eclesiástica enfrentava duros ataques, os frades aparecem com autoridade religiosa e moral diante da sociedade. Por isso foram escolhidos pelo papado como porta-vozes de seus projetos, principalmente das cruzadas.

Outro elemento a destacar é dar o devido peso à pessoa do cardeal Hugolino no processo. Tal processo não é responsabilidade única de Gregório IX. Como primeiro cardeal-protetor da Ordem, ele contribuiu de forma decisiva para formar o quadro jurídico, e manteve uma intensa relação pessoal com Francisco. Mas já desde o tempo de Francisco iniciara-se uma lenta mas gradual transformação da Ordem, e Francisco percebeu isso. Tanto que procurou salvaguardar sua experiência originária no seu Testamento. No fim dos anos vinte, prevalece na Ordem a linha dos que defendem um maior interesse e inserção na vida da Igreja e da sociedade. Hugolino, homem prático, percebeu que, ou a Ordem se institucionalizava ou desaparecia. Por isso ajuda Francisco a escrever a Regra. "A exigência de uma regra se apresentava... como uma necessidade peremptória e inderrogável". Era um processo natural, intrínseco à própria existência da Ordem, que, de outro modo, teria desaparecido, como desapareceram tantas outras ordens similares, no II concílio de Lião, em 1274. Se podemos afirmar que o projeto traçado pela Regra não sobreviveu integralmente à morte de Francisco, isto deveu-se, mais que à influência da Igreja, à evolução e à dinâmica interna da Ordem ela mesma.

Notas

1. Palestra realizada pelo autor na 5ª Semana de Estudos Medievais realizado no Programa de Estudos Medievais da UFRJ, ocorrido nos dias 17-19 de novembro de 2003.

2. Para se conhecer o progressivo e rápido envolvimento dos frades menores com as Cruzadas, as fontes mais importantes são os documentos conservados no Bullarium Franciscanum, a obra de Lucas Wadding, Analles Minorum, e a obra de G. Golubovitch, Bibliotheca Bio-bibliografica della Terra Santa e dell'Oriente Francescano. Além disso existem artigos de vários historiadores, esparsos nas várias revistas especializadas de história da Ordem, como Archivum Franciscanum Historicum, Studi Francescani, La France Franciscaine, Analecta franciscana, etc.

3. Por "Cruzada" entendemos as guerras pregadas e dirigidas em nome do papa enquanto chefe da cristandade, contra os inimigos da fé ou da Igreja. De caráter supranacional, participam soldados de diversas nacionalidades cristãs. O papa concede a indulgência plenária de todos os pecados a todos os que se alistam sob o estandarte da Cruz (o Vexillum Crucis ou Vexillum Sancti Petri), estandarte que o próprio papa entrega a um seu legado, para que o leve em combate. Veja-se sobre as cruzadas: ROUSSET, Paul. História das Cruzadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1980. RUNCIMAN, Steve. História das Cruzadas. Rio de Janeiro: Imago, 2002.

4. Várias fontes nos relatam a viagem de Francisco ao Egito. Celano é o único que relata as duas precedentes tentativas, quando Francisco teve que voltar da costa da Dalmácia, e quando voltou, doente, da Espanha. A terceira tentativa, de 1219, que teve êxito, é relatada também por Jordão de Jano e por Jacques de Vitry. Não nos toca aqui fazer o estudo crítico deste episódio. Apenas atestamos, com os historiadores, que não existem dúvidas sobre o fato de que Francisco esteve no Egito, em 1219, durante o assédio de Damieta, e que de fato encontrou-se com o sultão. O que aconteceu neste encontro é envolto em mistério. Francisco foi, conversou com o sultão, e voltou são e salvo. Francisco não foi a Damieta com o intuito de opor-se à quinta cruzada. Ao contrário, seu objetivo era o mesmo dos cruzados. Como os cruzados, e como todo cristão, Francisco queria liberar os lugares santos na Palestina dos muçulmanos. O que era diferente era a estratégia. Francisco quer sua total submissão à fé cristã. Fora disso não haveria paz. A diferença é que Francisco vai ao encontro do sultão usando não as armas dos cruzados, mas a arma da palavra, da pregação, mesmo que isso lhe custasse a própria vida, através do martírio. Alguns autores que tratam do assunto: LEMMENS, L. De Sancto Francisco Christum Praedicante coram sultano Aegypti. Archivum Franciscanum Historicum, (citaremos sempre AFH) n. 19, p. 559-578, 1926. CARDINI, F., Nella presenza del soldan superba: Bernardo, Francesco, Bonaventura e il superamento spirituale dell'idea di crociata. Studi Francescani, n. 71, p. 199-250, 1974.

5. Trata-se do cânon Ad liberanda. A partir de 1215 todas as bulas de cruzada o reproduzirão, ou a ele se referirão. Cfr. ALBERIGO, Giuseppe et alii (Org.), Conciliorum Oecumenicorum Decreta, Bolonha: Edizione Dehoniane Bologna, 1991. p. 267-270.

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