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sábado, 18 de junho de 2011

A sabedoria franciscana

Francisco entende Jesus Cristo encarnado-crucificado não como um fato apenas, mas como um processo ou grande ato em contínua presença e expansão em cada acontecimento ou criatura. Assim, em cada criatura ou acontecimento reina (Reino dos céus no meio de vós) o Senhor com sua presença, simples, humilde de irmão e companheiro, luz que ilumina, orienta e conduz todo o homem que vem a este mundo.


Esse ato se inicia com a Encarnação e culmina com a Cruz. Quando no auge de sua entrega ao Pai em favor dos homens exclama “Pai em tuas mãos entrego o meu espírito” principia seu verdadeiro reinado no mundo. A partir daquele momento o véu do templo se rasgou pois agora o santo dos santos é todo o universo, os túmulos se abrem pois agora não existem mais mortos, as rochas se fenderam pois agora nenhum coração humano por mais endurecido que seja pode resistir a tão grande ato de amor e doação.


A Cruz de Cristo passa a ser a nova Sabedoria, a nova ciência que comanda, rege não apenas a humanidade, mas toda a criação: o novo céu a nova terra de que falavam os profetas e agora São João.


Esta sabedoria não está nem longe e nem mesmo fora de nós. Está na raiz do ser e, consequentemente, na vocação e missão de cada criatura. Nas criaturas irracionais ela se expande e pode reinar ao natural instintivamente, sem nenhuma oposição. No homem, ao contrário ela deseja, espera e quer que nós a acompanhemos a modo de esposas, amigos, irmãos, mães e companheiros (Carta aos Fiéis).


Agora podemos entender as exortações de Francisco referentes ao trabalho e à restrição dos estudos.


Quanto ao trabalho primeiramente exorta que todos os irmãos trabalhem com as próprias mãos num trabalho honesto e os que não sabem trabalhar o aprendam não pela cobiça de receber alguma recompensa, mas por causa do exemplo e para repelir a ociosidade (T). Em segundo lugar dá também o espírito que deve mover o frade em seu trabalho: fiel e devotamente (RB 5) e, principalmente, no espírito da santa oração e devoção.


Fidelidade, devoção e oração, aqui, antes de atributos da subjetividade de Francisco (como se fossem virtudes dele) são características, marcas da obra, do próprio trabalho. Em outra palavras, cada profissão, trabalho ou obra tem sua devoção, sua fidelidade, sua escuta, doação, entrega, sua oração, sua condução sábia e admirável. E é esta sabedoria que cada trabalhador ou profissional precisa e deve aprender e saber e nenhuma outra. Ir atrás de outras ciências ou saberes é ociosidade e vanglória.


Ora o frade menor não tem nenhum outro trabalho senão o de seguir JC pobre e crucificado. E como JC crucificado é o reino (serviço) de Deus na raiz de cada criatura ou trabalho o frade menor não tem melhor escola do que dedicar-se com fidelidade e devoção à graça do trabalho que o Senhor lhe deu.


A missão que Francisco escolheu para si e para seus primeiros companheiros não requeria uma erudição para além do que serviria a seus fins práticos e imediatos. Francisco não pretendia responder, ele sozinho, a todas as necessidades do coração e do espírito do homem, nem possuía, ele sozinho, os remédios da ciência para a glória de Deus. Que outros se sirvam dos estudos, erudição e ciência para glorificar a Deus; que outros reproduzam os traços de Cristo, Doutor e mestre de toda a verdade! O que, porém, Francisco, ele mes- mo, queria era imitar o Cristo humilde, pobre, amando e sofrendo. O seu apostolado e o da sua ordem, sua vocação, não é a de, com a ajuda de polêmicas sábias, defender a fé da Igreja contra seus inimigos de fora, mas sim renovar no seio da Igreja a vida conforme ao Evangelho e isto, pela força do exemplo e a pregação da penitência.


Os doutores, com a ajuda da ciência, da dialética e da controvérsia, demonstram a verdade do Evangelho. Francisco, por sua vez, mostra a beleza oculta, a intimidade da ternura do mistério evangélico. Para essa busca intensa e total de encontro corpo a corpo, humilde, estudos científicos lhe pareciam inúteis e perigosos para o espírito de vida interior, de simplicidade, humildade e pobreza, que são os fundamentos da sua ordem (2Cel 195; LP 70). Os estudos e a ciência exigem a posse de ricas bibliotecas, moradia estável, conforto e ambiente protegido. A ciência orna a fronte de quem a possui de uma aura de glória, e atrai honras (2 Cel 194). Além disso, Francisco desconfiava principalmente do saber livresco. Dizia: "A ciência torna muitas pessoas indóceis, não deixando que alguma coisa de rígido nelas se dobre aos ensinamentos humildes " (2 Cel 194, 195). A rejeição de Francisco contra o saber livresco vinha do receio de que o saber livresco criasse um intelectual inepto à ação e vazio de obras (2Cel 195) (HH 158-159).


Por isso não precisa de outra sabedora. Sua missão é, pois, pregar JC pobre crucificado pelo exemplo. A evangelização por outros meios, pela pregação, pelo cuidado aos doentes, pobres e necessitados, etc. é para outras Ordens.


Francisco crê piamente que Deus está atuando em cada criatura e em cada empreendimento humano. Se eu grudar bem nesse empreendimento, de corpo e alma, direta e imediatamente serei impregnado de sua atuação, e sua sabedoria passará para mim. E essa é a única sabedoria de que preciso e nenhuma outra. Já a sabedoria que se estuda e aprende nos livros e cursos é sempre indireta, intermediada.


A única sabedoria que interessa a Francisco é aquela que ele precisa para elaborar bem sua vida e sua missão, trabalho. Para ele qualquer outro saber é vão e prejudicial porque tira-o do foco de sua profissão. Esta sabedoria não se encontra nos livros.

                  Frei Dorvalino Fassini, OFM

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