Arquivo do blog

terça-feira, 25 de agosto de 2026

O Legado de Francisco de Assis no Pensamento Histórico e Religioso

 


O Legado de Francisco de Assis 

no Pensamento Histórico e Religioso

    Por que Francisco de Assis, um cristão medieval do século XIII, continua a cativar e provocar tantos homens e mulheres ao longo dos séculos?

    O marco divisor na redescoberta acadêmica e protestante do "Poverello de Assis" deu-se no final do século XIX, com a publicação da monumental biografia crítica Vie de S. François d'Assise (1894), escrita pelo pastor e historiador protestante francês Paul Sabatier. Ao aplicar métodos rigorosos de análise documental, Sabatier apresentou Francisco não como um produto da hierarquia eclesiástica, mas como um reformador espiritual autônomo, cuja vivência radical do Evangelho antecipou os anseios de liberdade e pureza da própria Reforma [1].

    Esse fascínio ultrapassou barreiras confessionais, atraindo a admiração de intelectuais seculares, cientistas e pensadores de tradição protestante. Vejamos alguns exemplos expressivos:

  • Albert Einstein (Físico Teórico): Einstein via em Francisco uma das almas mais puras da história, aproximando-o de grandes pensadores livres pela busca incansável de essência e simplicidade. A esse respeito, escreveu: "Considerados deste ponto de vista, homens como Demócrito, Francisco de Assis e Espinosa se assemelham profundamente" [2].

  • Hermann Hesse (Escritor, Poeta e Filósofo Protestante): Criado em um lar com forte herança pietista, Hesse era profundamente fascinado pelo santo, chegando a dedicar-lhe uma biografía. Para o autor, Francisco personificava a alma que reconcilia o ser humano com a natureza, resumindo sua essência na célebre premissa: "E, se os homens se esquecessem dele [Francisco], as pedras e as fontes, as flores e os pássaros dele falariam" [3].

  • Paul Tillich (Teólogo e Filósofo Protestante): Um dos maiores teólogos do século XX, Tillich valorizava o movimento franciscano por resgatar a dimensão mística e a presença viva do divino no mundo natural, rompendo com o legalismo estrito. Para ele, o ideal de pobreza e a mística de Francisco representaram uma tentativa radical de superar a cisão entre criatura e Criador, apontando para "uma profundidade e grandeza da existência" [4] onde a fé se manifesta na simplicidade imediata do amor.

  • Martinho Lutero (Reformador Protestante): Embora fizesse severas críticas à Igreja medieval e ao sistema de ordens religiosas, Lutero abria exceções em seus sermões para exaltar a pureza de intenções de Francisco em imitar a vida de Cristo na pobreza. O reformador apontava que, dentre os grandes nomes daquela tradição, o santo esteve entre os raros que buscaram "seguir a Cristo em extrema pobreza e simplicidade de coração, despido de glória mundana" [5].

    Ao revisitarmos essa trajetória, percebemos que continuamos a descobrir e a nos inspirar no testemunho daqueles que abraçaram a fé com singularidade. Francisco de Assis destaca-se como uma figura ecumênica que atinge católicos romanos, ortodoxos e protestantes, apontando sempre para o alto e reconduzindo nossa caminhada a uma vivência unicamente cristocêntrica.

    Louvado seja Deus pelo nosso irmão Francisco de Assis.

Edson Cortasio Sardinha

Referências

[1] SABATIER, Paul. Vida de São Francisco de Assis. Tradução de Basílio de Magalhães. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1928. (Nota: A primeira edição francesa foi publicada em Paris pela Fischbacher em 1894).

[2] EINSTEIN, Albert. The Expanded Quotable Einstein. Editado por Alice Calaprice. Princeton: Princeton University Press, 2000. (Reflexões sobre pensadores livres e a ordem cósmica).

[3] HESSE, Hermann. Francisco de Assis. Tradução de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Record, 2022.

[4] TILLICH, Paul. A Era Protestante. São Paulo: Astrolábio / Editora da USP, 1984. (Ensaios sobre mística medieval e o protestantismo).

[5] LUTERO, Martinho. Doutrina e Vida: Conversas à Mesa (Tischreden). [S.l.]: Obras Selecionadas, (Registros sobre a pobreza voluntária e os reformadores).

domingo, 23 de agosto de 2026

"E Eu ti digo: tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja".

 Homilia do 22°Dom do tempo comum (Mt 16,13-20)(23/8/26)

.

1. Caríssimos, por nossa naturalidade facilmente nos acostumamos com o que simpatizamos e rejeitamos prontamente tudo o que não nos agrada, e até afirmamos: isso é normal em nosso modo de ser. Todavia, quando se trata da vivência da fé, esta consiste em viver segundo a Vontade de Deus, num amor sem igual a Ele sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.

.

2. Na Evangelho de hoje o Senhor Jesus nos ensina que o essencial da vida é conhece-lo tal qual o Pai no-lo revela, como o revelou a Pedro. Ora, não se trata de ter uma noção de quem é Jesus, mas de conhece-lo e conviver com Ele no mais íntimo de nossas almas, porque é dessa convivência que nasce o verdadeiro amor, pelo qual nos unimos uns aos outros no seio de Sua Santa Igreja.

.

4. Com efeito, o que mais nos chama a atenção nesse Evangelho de hoje são estas duas frases: "a minha Igreja" e "as chaves do Reino dos Céus". Após a profissão de fé de Pedro, o Senhor Jesus disse: "Por isso, eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vence-la." (Mt 16,18).


5. E a outra frase de igual importância é: "Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus." (Mt 16,19). Ora, Jesus é Deus conosco, a Sua Palavra é a Palavra do Pai (cf. Jo 14,24), desse modo, Sua Palavra é irrevogável, ela se cumpre na íntegra.

.

6. São Paulo se referindo à Igreja como esposa de Cristo, escreveu: "Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santifica-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível." (Ef 5,25-27). Desse modo, a Igreja jamais poderá ser vista fora do contexto dessas palavras.

.

7. Portanto, caríssimos, Pedro hoje é o Santo Padre, o Papa Leão XIV, e isso é inegável, porque, como ouvimos do Senhor: "Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus." (Mt 16,19). "O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão." (Mt 24,35).

.

Paz e Bem!

.

Frei Fernando Maria OFMConv.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

QUAL É A TUA RECOMPENSA?

 PEQUENO SERMÃO DE CADA DIA (Mt 20,1-16a)(19/8/26).

1. Caríssimos, a primeira leitura desta liturgia começa com o Senhor instruindo o Profeta Ezequiel para que profetize contra os maus pastores, mostrando-lhes quanto foram negligentes no cuidado com as suas ovelhas, pois se aproveitando delas, apascentaram a si mesmos, e por isso, elas se dispersaram perdendo-se a esmo. Todavia, nem tudo está perdido uma vez que promete Ele mesmo apascenta-las.

2. De fato, assim como no tempo do Profeta Ezequiel, também em nosso tempo não é diferente principalmente por conta da infiltração de lobos vorazes que com suas terríveis ideologias teem deixado de lado o Evangelho, que é o alimento sólido das almas, para lhes oferecer o alimento podre que as envenena e as dispersa, e assim tiram proveito dos seus despojos. 

3. No Evangelho de hoje o Senhor Jesus conta a Parábola do patrão que busca operários para a sua vinha, os encontra em várias horas do dia, mas ao findar a tarefa dá o mesmo salário para todos começando pelos últimos; o que provocou a ira e a murmuração dos primeiros que chegaram ao trabalho. Porém, a resposta do Senhor não deixou dúvida: "Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”

4. Comentando esse Evangelho disse o saudoso Papa, Bento XVI: "Jesus, ao contar essa Parábola, mostra com evidência que o salário representa a vida eterna, uma dádiva que Deus reserva para todos. De fato, precisamente aqueles que são considerados "últimos", se o aceitarem, tornam-se "primeiros", enquanto que os "primeiros" podem correr o risco de acabar por ser "últimos". 

5. Uma primeira mensagem desta parábola reside no próprio fato de que o mestre não tolera, por assim dizer, o desemprego: ele quer que todos estejam envolvidos na sua vinha. E na realidade, ser chamado já é a primeira recompensa: poder trabalhar na vinha do Senhor, colocar-se ao seu serviço, colaborar no seu trabalho, isso constitui em si mesmo uma recompensa inestimável, que compensa todo o trabalho.

6. Mas somente aqueles que amam o Senhor e o seu Reino compreendem isto; aqueles que, pelo contrário, trabalham apenas por remuneração nunca se aperceberão do valor inestimável deste tesouro." (Bento XVI - Angelus 21/07/2008).

7. Portanto, caríssimos, na vida tudo o que fazemos no nosso dia a dia é um serviço a Deus e à difusão do seu reino, contanto que façamos por amor à Ele em obediência ao seu chamado, pois todos que fomos batizados somos operários da sua vinha, e mais dia menos dia, receberemos a recompensa independente do tempo que trabalhamos. 

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria OFMConv.

Firefox