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terça-feira, 17 de setembro de 2013

BUSCAR-ME-EIS, E ME ACHAREIS, QUANDO ME BUSCARDES DE TODO CORAÇÃO...(Jr 29,13)


BUSCAR-ME-EIS, E ME ACHAREIS, 
QUANDO ME BUSCARDES DE TODO CORAÇÃO... (Jr 29,13)


Pensando bem, estamos sempre em busca de algo que nos faça viver o que nos convém ou o que nos propomos na existência. Todavia, nem sempre encontramos esse algo, objeto do nosso desejo, porque no mais das vezes, nem sequer perguntamos a Deus se esse algo procurado faz parte dos seus planos para a nossa salvação. E quando descobrimos isso, a tendência é de nos frustrarmos ou até nos revoltarmos, porque as coisas não aconteceram como desejávamos ou ainda como tínhamos planejado. Não podemos esquecer que estamos a caminho da eternidade e que essa eternidade já se faz presente aqui; e é aqui que a começamos viver, pois é em Deus que nós “vivemos, nos movemos e somos” (cf. At 17,28); ou sem Ele. (cf. Mt 7,21-23).

Quem poderá dizer: por que eu nasci? “Por que não morri no seio materno, por que não pereci saindo das entranhas de minha mãe?” (Jó 3,11). Talvez todos nós tenhamos essas indagações, mas não temos resposta convincente e definitiva para elas fora da vontade de Deus. Aqui não se trata de pessimismo ou egoísmo, trata-se apenas de que, por não sermos autossuficientes, mas sim, dependentes, nos tornamos frágeis e insuficientes por nós mesmos. E por causa dessa nossa contingência, nos tornamos seres inseguros, imaturos, inclinados às concupiscências e ao mal que está no mundo. Com efeito, diz o Senhor no Livro de Sabedoria: “Não procureis a morte por uma vida desregrada, não sejais o próprio artífice de vossa perda. Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma. Ele criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação. Nelas nenhum princípio é funesto, e a morte não é a rainha da terra, porque a justiça é imortal”. (Sab 1,12-15).

Então, o que fazer diante tal constatação? Creio que só há uma resposta que nos ajuda a compreender melhor a vida, fazer aquilo o que Deus nos ensina: ”Já te foi dito, ó homem, o que convém, o que o Senhor reclama de ti: que pratiques a justiça, que ames a bondade, e que andes com humildade diante do teu Deus”. (Miq 6,8). Pois não somos frutos do acaso, visto que o acaso não responde ao nosso desejo de vida permanente. Assim, entendemos que, o fato de existirmos aponta para um devir que não tem fim, isto é, a vida não se resume ao limite no qual estamos, mas, ao contrário, para além do que somos, existe toda uma eternidade que nos envolve. Ela é esse mistério divino, que nos responde a tudo pelo sofrimento, morte e ressurreição de Jesus Cristo, e nos faz compreender que por sermos “imagem e semelhança” de Deus, também somos eternos como Deus é. Desse modo, todos os mistérios que se nos apresenta à nossa experiência, nos são revelados pela fé no Filho de Deus, que nos amou e se entregou por nós, para que tivéssemos a salvação, a vida eterna Nele com Ele e para Ele.

Qualquer experiência de fé fora da cruz de Jesus, não conduz a ressurreição, porque para os filhos de Deus, a cruz de Cristo é o caminho perfeito da liberdade e da felicidade dos justos, ou seja, daqueles que foram justificados pelo sangue do “Cordeiro de Deus imolado que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). O próprio Senhor nos deu esse ensinamento: Jesus tornou a dizer-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: eu sou a porta das ovelhas. Todos quantos vieram antes de mim foram ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os ouviram. Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim será salvo; tanto entrará como sairá e encontrará pastagem. O ladrão não vem senão para furtar, matar e destruir. Eu vim para que as ovelhas tenham vida e para que a tenham em abundância”. (Jo 10,7-10).

Com efeito, São Paulo nos ensina que a fé que nasce da cruz do Senhor nos foi dada pelo Sacramento do Batismo, eis o que ele diz: “Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na sua morte pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova. Se fomos feitos o mesmo ser com ele por uma morte semelhante à sua, sê-lo-emos igualmente por uma comum ressurreição”. (Rom 6,3-5).

Desse modo, entendemos que se unir a Cristo Jesus pelo batismo nesta vida é encontrar-se com o próprio Deus e permanecer Nele, pois assim nos ensinou o Senhor: “Se me conhecêsseis, também certamente conheceríeis meu Pai; desde agora já o conheceis, pois o tendes visto. Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta. Respondeu Jesus: Há tanto tempo que estou convosco e não me conheceste, Filipe! Aquele que me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai... Não credes que estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que vos digo não as digo de mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, é que realiza as suas próprias obras. Crede-me: estou no Pai, e o Pai em mim. Crede-o ao menos por causa destas obras”. (Jo 14,7-11). “Eu e o Pai somos um”. (Jo 10,30).

Portanto, escutemos o profeta Isaías: ”Buscai o Senhor, já que ele se deixa encontrar; invocai-o, já que está perto. Renuncie o malvado a seu comportamento, e o pecador a seus projetos; volte ao Senhor, que dele terá piedade, e a nosso Deus que perdoa generosamente. Pois meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é o meu, diz o Senhor; mas tanto quanto o céu domina a terra, tanto é superior à vossa a minha conduta e meus pensamentos ultrapassam os vossos. Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão”. (Is 55,6-11).

Por fim, meditemos o que diz o primeiro mandamento da Lei de Deus: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças”. (Dt 6,5). E como é amar a Deus assim? São João nos responde a essa pergunta com perfeita maestria: Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus: se amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos. Eis o amor de Deus: que guardemos seus mandamentos. E seus mandamentos não são penosos, porque todo o que nasceu de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé”. (1Jo 5,2-4). Logo, “buscar a Deus de todo coração” é unir-se a Cristo Eucarístico e permanecer fiel a Ele até o fim, pois o Senhor assim nos exortou: ”Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim”. (Jo 6,54-57). Ficai, atentos, pois: “Aquele perseverar até o fim, será salvo”. (Mt 10,22b).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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domingo, 15 de setembro de 2013

Pobres em fuga

“É curioso que ultimamente tenha havido eloquentes gestos do Papa desalojando de suas poltronas bispos ou padres acusados de abuso sexual que colocam preto no branco a gravidade de tais ações que incompatíveis com a tarefa eclesial. Mas, ao mesmo tempo, chama a atenção que não haja ações concretas que apontem os culpados e os responsáveis pelas políticas que geram pobreza, miséria, violência, injustiça e que atingem milhões de pessoas”, escreve Marcelo Ciaramella, em artigo publicado no jornal argentino Página/12, 13-09-2013. A tradução é de André Langer.

E conclui sua reflexão perguntando: “Quando a Igreja se separará em sua análise, seus gestos e ações proféticas de resistência, de um projeto de mundo que só produz pobres em fuga?”

Marcelo Ciaramella é membro do argentino Grupo de Sacerdotes na Opção pelos Pobres.
Eis o artigo.
A lógica do sistema hegemônico de acumulação capitalista, que obriga os seres humanos a viverem dentro da lógica absoluta da valorização do valor, provoca o surgimento da “humanidade sobrante”. Massas “inúteis” que não trazem um valor agregado que se converta em capital acumulado e que contam com um poder aquisitivo quase nulo. Periferias de um centro poderoso que, como uma centrífuga, os arremessa contra as paredes que limitam com o nada. Pessoas que vão daqui para lá perambulando pelo mundo, expondo-se a tremendos perigos, experimentando a sensação de terem nascido no planeta errado, culpabilizados por serem a periferia que não tem direito nem oportunidade de aceder ao lugar dos privilegiados, acusados com frequência pelo crime de serem visíveis, pelo desatino de existirem, e são condenados a uma fuga eterna buscando um esconderijo onde redimir o pecado da exposição pública. Por isso, existe uma enorme quantidade de acampamentos, casas de acolhida, refúgios que, como a edícula, escondem tudo o que não serve para o uso cotidiano ou o que se usa de vez em quando, para que não seja visto pelas visitas.

O Papa Francisco voltou a repetir um de seus fortes gestos solidários com os pobres da periferia, escondidos, neste caso, no Centro Astalli de Roma, o serviço dos jesuítas para os refugiados na Itália. Voltou a chamar de maneira eloquente de “carne de Cristo” os sofredores, neste caso os condenados a viver como párias neste mundo por diferentes situações. E desnudou a incoerência de tantos conventos vazios diante de tanta “humanidade sobrante” necessitada de um lugar para comer, vestir-se e ser atendida. Mas estes gestos – na minha opinião – perdem força e acabam confinados a um álbum de fotos ou a uma coleção de discursos quando não são acompanhados de uma análise que produza um diagnóstico que leva finalmente a uma interpretação, uma tomada de posição, uma ação dirigida a encurralar as causas destes males.

Lamentavelmente, a Igreja substituiu a análise pela ética. Os documentos sociais em geral – além de extemporâneos em relação aos fatos que analisam e que mudam com uma rapidez vertiginosa – propõem uma reflexão de princípios, sempre válidos mas necessitados de mediações que os convertam em ações eficazes contra as causas dos males que se enumeram. Fazer uma análise em que a perspectiva crente seja auxiliada pelas ferramentas das ciências sociais, gera a necessidade de elaborar ações, projetar um modelo de mundo, construir a fé histórica.

É curioso que ultimamente tenha havido eloquentes gestos do Papa desalojando de suas poltronas bispos ou padres acusados de abuso sexual que colocam preto no branco a gravidade de tais ações que incompatíveis com a tarefa eclesial. Mas, ao mesmo tempo, chama a atenção que não haja ações concretas que apontem os culpados e os responsáveis pelas políticas que geram pobreza, miséria, violência, injustiça e que atingem milhões de pessoas.

Lembro da minha visita a Chiapas – estando na casa religiosa que me hospedou, situada perto dos territórios autônomos zapatistas e com plena relação com eles: escutei uma canção composta pelas bases civis, profundamente crentes, lutando contra a violência paramilitar, que beirava a lamentação e se chamava “Não basta rezar”: “Não, não, não basta rezar, necessitamos de muitas coisas para conseguir a paz, não, não, não basta rezar. E rezam de boa fé e rezam de coração, mas também reza o piloto quando entra no avião para bombardear as crianças no Vietnã, para bombardear as crianças no Iraque”.

Os crentes zapatistas que visitei têm muito claro que a fé é para mudar o mundo e não para salvar a alma. Porque Jesus deu a vida por um projeto de mundo, querido pelo Deus da Vida, justo, solidário, fraterno, igualitário, próximo dos pobres e em luta contra as causas da vida indigna e injusta.

A Convenção de Refugiados de 1951 explica que um refugiado é uma pessoa que, “temendo ser perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, pertença a determinado grupo social ou opiniões políticas, encontra-se fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou, em virtude desse temor, não quer valer-se da proteção desse país”. Segundo o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, os padrões globais de migração tornaram-se cada vez mais complexos nos tempos modernos, com a participação não apenas dos refugiados, mas também de milhões de migrantes econômicos. Os migrantes, especialmente os econômicos, decidem mudar-se com o objetivo de melhorar as perspectivas de futuro seus e de suas famílias. Os refugiados têm que se mexer caso queiram salvar suas vidas ou sua liberdade. Eles não têm a proteção do seu próprio Estado – de fato, é com frequência seu próprio governo que os está perseguindo. Se outros países não lhes oferecerem a proteção necessária e não os ajudarem uma vez dentro do respectivo país, então poderão estar condenando à morte ou a uma vida insuportável nas sombras, sem sustento e sem direitos. Às vezes, também os desequilíbrios ambientais provocados pela insaciável sede de recursos para produzir, expulsam muitos de suas terras que se tornaram desertos ou lugares inabitáveis.

O chanceler da Bolívia, David Choquehuanca, na reunião da Acnur, em 2011, em Genebra, defendeu que “...somente ultrapassando este cruel sistema capitalista é que vamos diminuir as vítimas dos deslocamentos forçados no mundo e vamos recuperar a dignidade de todas as pessoas evitando que devam que buscar refúgio em outras terras (...) hoje devemos solicitar à comunidade internacional para que seja responsável, para que, em vez de utilizar seus recursos econômicos na fabricação de armamentos, bombardeios, bloqueios, perseguições políticas e ataques armados, invista esses recursos na cooperação internacional, para mudar este sistema que só busca o consumismo e denigre o ser humano”.

A disputa vai ficando cada vez mais clara: um mundo para poucos versus um mundo para todos. A ideologia capitalista liberal nos impõe o mérito e a competição como a premissa para adquirir direitos de vida digna. A perspectiva cristã, defende claramente que o direito à vida digna neste mundo não consiste em ter méritos, mas no simples fato de ter nascido. Se há refugiados é porque há perseguidores que se arrogam o direito de decidir quem fica dentro do sistema, desrespeitando a liberdade de viver e morrer com dignidade de todo ser humano. Quando a Igreja se separará em sua análise, seus gestos e ações proféticas de resistência, de um projeto de mundo que só produz pobres em fuga?

Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/noticias/523720-pobres-em-fuga acesso em 2013-09-15

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A teologia da libertação e a Igreja que precisa de todos

Artigo de Ugo Sartorio

A questão dos pobres é, em perspectiva evangélica, a grande questão, o que realmente faz a diferença, tanto que deu origem a uma reflexão teológica, a latino-americana em primeiro lugar. Isso, porém, não acrescenta um novo tema de reflexão à teologia, mas sim determina "um novo modo de fazer teologia".
A opinião é do frei franciscano italiano Ugo Sartorio, diretor da revista Il Messaggero di Sant’Antonio. O artigo foi publicado no jornal do Vaticano, L'Osservatore Romano, 04-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.
Com um papa latino-americano, a teologia da libertação não podia permanecer por muito tempo no cone de sombra em que foi relegada há alguns anos, ao menos na Europa. Posta fora de jogo por um duplo preconceito: aquele de que ela ainda não metabolizou a fase conflituosa de meados dos anos 1980, muito enfatizada pela mídia, e faz dela uma vítima do Magistério romano; e o preconceito engessado na rejeição de uma teologia considerada muito de esquerda e, portanto, tendenciosa.

É preciso acrescentar o fato de que alguns chegaram até a dar por morta e sepultada a teologia da libertação, fruto de uma época que se concluiria finalmente com a queda do Muro de Berlim (1989) e a implosão do império soviético ligado à ideologia marxista.

Curiosa, a propósito, é a reação de um dos maiores expoentes desse filão teológico, o peruano Gustavo Gutiérrez, relatada por Luiz Carlos Susin: "O conhecido teólogo peruano lamentou-se com o seu proverbial senso de ironia, dizendo que, se a teologia libertação está morta, ele não foi convidado para o funeral. Ele acrescenta que, se fosse verdade, ele ficaria muito contente, porque isso significaria que teríamos chegado a viver em um mundo justo, no reino de Deus, o reino da liberdade escatológica, e não devemos mais sustentar o esforço da luta e da fidelidade, sempre tentada e fatigante, para conquistar a libertação" (Silvia Scatena, Luiz Carlos Susin e Sandro Gallazzi, Chiesa e teologia in America Latina, Pádua: Messaggero, 2013, p. 51-52).

O mesmo Gutiérrez, no livro que estamos apresentando, esclarece que 1989 é, seguramente, paradigmático para a relação entre Oriente e Ocidente, já que, por muitos anos, a história ficou bloqueada nesse eixo, mas que, no entanto, a teologia da libertação não está interessada na pobreza dos países do Oriente. Ela se move, ao contrário, a partir da desumana situação de pobreza na América Latina e no Caribe, que não parece ter se mitigado significativamente nas últimas décadas e que exige ser lida à luz da fé. "Estado de coisas e teologia – esclarece Gutiérrez sem rodeios – que, substancialmente, têm pouco a ver com o colapso do socialismo real" (p. 46).

Em todo caso, ainda em 2002, o teólogo Robert J. Schreiter descrevia a teologia, melhor, as teologias da libertação "entre resistência e reconstrução" (cf. The New Catholicity, Orbis Books, p. 98-115), portanto, em busca de identidade dentro de contextos mudados. E não é possível deixar de levar em conta que, na América Latina, como ainda há 30 anos ilustrava o teólogo jesuíta argentino Juan Carlos Scannone (cf. Problemi e prospettive di teologia dogmatica, Bréscia: Queriniana, 1983, p. 406-414), a teologia da libertação nunca foi um fenômeno unitário, mas sim caracterizado por correntes também muito diversificadas entre si.

Dentro dessa diversidade, existe uma teologia da libertação argentina, compartilhada pelo cardeal Bergoglio, hoje Papa Francisco, que, "como a teologia da libertação, utiliza o método 'ver-julgar-agir', liga práxis histórica e reflexão teológica, e recorre à mediação das ciências sociais e humanas. Porém, privilegia uma análise histórico-cultural em vez de uma análise socioestrutural de tipo marxista" (Scannone, La teologia di Francesco, in Il Regno, Attualità 6/2013, p. 128).

D. Gerhard Ludwig Müller,
Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé

Mas voltemos ao livro em questão, escrito a quatro mãos por dois teólogos de exceção. O já citado padre Gutiérrez (padre, pode-se dizer, em dois sentidos: seja porque, como padre diocesano, se fez dominicano e, portanto, agora pertence à Ordem dos Freis Pregadores, seja porque, em bom direito, é considerado o "pai da teologia da libertação", p. 77) e o atual prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o arcebispo Gerhard Ludwig Müller, professor honorário da Universidade Ludwig-Maximilian de Munique e editor da opera omnia de Joseph Ratzinger-Bento XVI.

O livro – traduzido ao italiano em coedição pelas Edizioni Messaggero Padova e pela Editrice Missionaria Italiana – é, de fato, um texto que apareceu originalmente em língua alemã em 2004 (Augsburg, Sankt Ulrich Verlag). O título permanece idêntico (An der Seite der Armen; "do lado dos pobres"), enquanto o subtítulo alemão que diz Theologie der Befreiung, "a teologia da libertação", é ampliado com o acréscimo de "teologia da Igreja". Com o intuito de evidenciar o sumo da publicação inteira, ou seja, o valor eclesial de uma teologia que, em muitos de seus expoentes, dentre os quais se destaca Gutiérrez, desenvolveu um caminho que, sem dúvida, a coloca no sulco da catolicidade e a seu serviço, como teologia da Igreja e para a Igreja.

Das 183 páginas de texto, 117 (em três contribuições) são do teólogo peruano, enquanto 76 (em quatro intervenções) foram escritas pelo arcebispo Müller. Chama a atenção o tom pacato, às vezes meditativo, da exposição e, principalmente, o fato de que é banido toda intenção reivindicativa: quem fala são os fatos, as argumentações, as referências voltadas tanto aos textos das Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano, quanto aos textos do Magistério romano.

Os dois autores vão, embora com passo diferente, na mesma direção, a de uma teologia que, como afirma a recente encíclica escrita a quatro mãos por Bento XVI e pelo Papa Francisco, Lumen fidei, "compartilha a forma eclesial da fé", para a qual "a sua luz é a luz do sujeito crente que é a Igreja. Isto implica, por um lado, que a teologia esteja ao serviço da fé dos cristãos, vise humildemente preservar e aprofundar o crer de todos, sobretudo dos mais simples; e por outro, dado que vive da fé, a teologia não considera o magistério do papa e dos bispos em comunhão com ele como algo de extrínseco, um limite à sua liberdade, mas, pelo contrário, como um dos seus momentos internos constitutivos, enquanto o magistério assegura o contacto com a fonte originária, oferecendo assim a certeza de beber na Palavra de Cristo em toda a sua integridade" (n. 36).

Essa linha, perseguida com confiança pelos nossos dois autores, contrasta com os clichês jornalísticos de uma teologia da libertação inquieta, perenemente sob o ataque de um Magistério pelo qual ela se sentiria incompreendida, ainda colorida demais de ideologia. A teologia, escreve Gutiérrez, é uma "função eclesial" e oferece o seu serviço à comunicabilidade da fé: "O seu conteúdo é a proclamação de Cristo e da sua libertação integral, anúncio que deve ser feito em uma linguagem fiel à mensagem e que seja eloquente para os nossos contemporâneos" (p. 6).

É preciso notar que se fala de libertação "integral", portanto, de todo o ser humano de todos os males (a partir da raiz de todo o mal, que é o pecado), e de um renovado estilo de anúncio.
Não é por acaso que João Paulo II falou de modo estruturado de nova evangelização ("Nova em seu ardor, em seus métodos, em sua expressão"), justamente falando ao Conselho Episcopal Latino-Americano, no Haiti, no dia 9 de março de 1983. A expressão "nova evangelização", sublinha Gutiérrez (p. 150), encontra-se no documento preparatório de Medellín (Colômbia), berço da teologia da libertação, e na Mensagem dessa conferência, e estamos em 1968.

Um reconhecimento implícito da teologia da libertação como "nova evangelização" veio do último Sínodo dos Bispos sobre esse tema, em outubro passado: "A proclamação do Evangelho compromete a Igreja a estar com os pobres e a ocupar-se dos seus sofrimentos, como Jesus. (…) Pôr-se ao lado de quem está ferido pela vida não é só uma prática de socialidade, mas antes de tudo um fato espiritual. (…) A presença do pobre nas nossas comunidades é misteriosamente poderosa: muda as pessoas mais do que um discurso, ensina fidelidade, faz compreender a fragilidade da vida, pede oração: em síntese, conduz a Cristo" (Mensagem ao Povo de Deus, 26 de outubro de 2012, n. 6 e 11).

A questão dos pobres, portanto, é, em perspectiva evangélica, a grande questão, o que realmente faz a diferença, tanto que deu origem a uma reflexão teológica, a latino-americana em primeiro lugar (como se dizia, não devemos esquecer que hoje é preciso falar de teologias da libertação, no plural), que gira em torno desse ponto: isso, porém, não acrescenta um novo tema de reflexão à teologia, mas sim determina "um novo modo de fazer teologia" (Teologia della liberazione, Bréscia: Queriniana, 1972, p. 25).

Como escreveu Johann Baptist Metz em um artigo publicado em 1993 pela revista Stimmen der Zeit, "a teologia da libertação é algo mais e algo diferente de uma teoria social de esquerda ou de uma consequente teologia pastoral. Ela é teologia". Com que peculiaridade? Enquanto as teologias europeias, mesmo as mais envolvidas com as questões sociais (como a "teologia política" e a "teologia da esperança") sempre têm como interlocutor o ser humano adulto e emancipado de memória bonhoefferiana, o não crente que luta para reconhecer Deus e o marginaliza, a teologia da libertação tem a ver com o não ser humano, o pobre (ou, melhor, o empobrecido, no sentido de que a pobreza nunca é apenas uma fatalidade), aquele que é privado de direitos e não tem voz.

Os teólogos latino-americanos falam, a esse propósito, de "povo crucificado" (Ignacio Ellacuría), também por causa do difuso e doloroso fenômeno do martírio: de fato, a América Latina é o único "continente pobre e ao mesmo tempo cristão" (p. 55), onde alguns que se dizem cristãos matam outros cristãos alinhados em favor dos pobres.

Se, na Europa, portanto, o problema de ontem era o ateísmo militante e, o dos nossos dias, a opaca indiferença, a teologia da libertação está sempre lutando contra a idolatria do dinheiro e do poder, que derrama o sangue do pobre para dele tirar lucro. Uma idolatria que é morte e cujo oposto é o Deus da vida (cf. Gutiérrez, Il Dio della vita, Bréscia: Queriniana, 1992), o único capaz de restaurar dignidade ao pobre: gloria Dei vivens pauper, como gostava de dizer o bispo Óscar Arnulfo Romero, ecoando a célebre expressão de Santo Irineu.

Fique claro que, no centro da teologia da libertação, não está o pobre, mas o Deus dos pobres, de modo que a razão principal da ''opção preferencial pelos pobres" não é a análise social (como defendem os opositores da teologia da libertação), mas sim o Deus em quem os cristãos acreditam na comunhão da Igreja.

Isso faz da teologia da libertação uma teologia contextual, em sentido pleno (mesmo que dizer "teologia contextual", especifica o teólogo peruano, é, por si só, uma tautologia), uma teologia plenamente católica, que nasce de uma prática de espiritualidade vivida e de uma solidariedade concreta: de fato, a teologia continua sendo sempre "ato segundo", diante de um "ato primeiro" que é a dimensão ativa da práxis em favor dos pobres.

E é isso o que realmente importa, como afirma Gutiérrez na conclusão da sua terceira e última intervenção: "Devo confessar que estou menos preocupado com o interesse ou a sobrevivência da teologia da libertação do que com os sofrimentos e as esperanças do povo a que pertenço, e especialmente com a comunicação da experiência e da mensagem de salvação em Jesus Cristo. Esta última é matéria da nossa caridade e da nossa fé. Uma teologia, por mais relevante que seja a sua função, nada mais é do que um meio para aprofundá-las. A teologia é uma hermenêutica da esperança vivida como um dom do Senhor. Com efeito, trata-se disto: de proclamar a esperança ao mundo no momento que vivemos como Igreja" (p. 174).

E, acima de tudo, de levantar as grandes questões, como faz a Escritura, quando YHWH comunica a Moisés uma prescrição a ser transmitida ao povo, a de se preocupar com onde dormirão aqueles que não têm com o que se cobrirem (cf. Êxodo 22, 25-26). Pergunta-se Gutiérrez a respeito desse texto: "Onde vão dormir os pobres no mundo que se prepara e que, de um certo modo, já deu os primeiros passos? O que será dos preferidos por Deus no futuro próximo?" (p. 112).

As intervenções do arcebispo Müller, que não esconde a sua amizade com o teólogo peruano, se voltam a valorizar a teologia da libertação, definida como "uma nova compreensão da teologia", e, mais especificamente, "reflexão teológica a serviço da práxis libertadora de Deus" (p. 22).

Recordando as suas origens em uma conferência realizada em 1968 por Gutiérrez em Chimbote, no norte do Peru (ele, na verdade, tinha que falar sobre teologia do desenvolvimento, mas, preparando a palestra, se deu conta de que era mais bíblico e mais teológico deslocar a ênfase para a teologia da libertação [cf. Rosino Gibellini, Il dibattito sulla teologia della liberazione, Bréscia: Queriniana, 1986, p. 126]), material que depois confluiu no famoso e emblemático Teologia da Libertação. Perspectivas (dezembro de 1971, Lima, na edição peruana, e março de 1972 na edição italiana, que foi lançada antes da espanhola [a brasileira é de 1979]), Müller faz referência à décima edição do livro (1992), na qual o autor, em uma ampla introdução, esclarece algumas expressões passíveis de mal-entendidos, entre elas "opção preferencial pelos pobres", "luta de classes", "teoria da dependência", "pecado estrutural e social".

"Aqui, ele também desmonta de modo convincente as acusações que foram feitas contra ele de horizontalismo e imanentização do cristianismo, que nunca deve ser instrumentalizado por uma ideologia voltada à edificação de um suposto paraíso na terra criado pelo homem. Ao contrário da teologia existencial de matriz europeia, a teologia da libertação se pergunta – mas não só – o que Deus, a graça e a revelação comportam com relação à compreensão de si dos cristãos inseridos em um contexto de sociedade do bem-estar e socialmente garantida. A teologia da libertação entende o trabalho teológico como participação ativa, prática – e, portanto, transformadora – do agir libertador integral, abrangente, inaugurado por Deus, graças ao qual o agir histórica do homem é feito capaz e chamado ao serviço da libertação e da humanização do próprio homem. Deve-se notar que a teologia da libertação não é uma construção teórica nascida abstratamente. Ela se vê em continuidade com o desenvolvimento global da teologia católica nos séculos XX e XXI" (p. 22).

Em seguida, Müller identifica as sua fontes principais na Populorum Progressio, de Paulo VI, na Constituição Pastoral Gaudium et Spes do Vaticano II e na visão expressada pela Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja como sacramento de salvação para o mundo, mas também nas grandes Conferências do Episcopado Latino-Americano de Medellín (1968), Puebla (1979) e Santo Domingo (1992), que receberam e atualizaram a teologia católica do século XX no contexto sociocultural e espiritual do subcontinente latino-americano (sendo o texto de 2004, não é citada a Assembleia Geral de Aparecida, de 2007).

Assim amadurecida e fortalecida, "a teologia da libertação não é apenas uma sociologia coberta de teologia ou uma espécie de de socioteologia. A teologia da libertação é teologia em sentido estrito" (p. 28). Não por acaso, o primeiro dos dois pronunciamentos vaticanos de 1984 (Libertatis Nuntius) – sintetiza Müller – evidencia que "as antropologias empíricas devem ser esclarecidas à luz de uma antropologia filosófica e teológica, tornando-se, assim, fecundas para uma investigação de tipo teológico" (p. 29).

A segunda instrução vaticana (Libertatis conscientia, 1986) especifica, por sua vez, o sentido cristão da liberdade e da libertação, e, dada a centralidade desse tema, o discurso é retomado no sétimo e último capítulo do livro: "Vagliate ogni cosa e tenete ciò che è buono". A 25 anni dall’istruzione Libertatis conscientia sulla teologia della liberazione ["Examinem tudo e fiquem com o que é bom". A 25 anos da instrução Libertatis conscientia sobre a teologia da libertação] (p. 181-187).

Aqui Müller indica a finalidade de ambas as intervenções da Congregação para a Doutrina da Fé, citadas acima: "Elas se propõem a preservar as 'teologias da libertação' de se tornarem ideologias, perdendo assim o seu caráter de teologia" (p. 182). A segunda, em particular, reconhece que, por sua natureza, o Evangelho "é mensagem de liberdade e libertação" (n. 1), embora a liberdade cristã não equivalha a anarquia e nunca é sem vínculos, enquanto a missão libertadora da Igreja deve fugir de todo tipo de violência (cf. n. 62). A instrução Libertatis conscientia também identifica os conteúdos positivos das novas abordagens elaboradas pela teologia da libertação, mostrando a sua fecundidade .

Deve-se lembrar que, no mesmo ano, 1986, em uma carta à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil do dia 9 de abril (a instrução vaticana traz a data de 22 de março), João Paulo II afirmou que, "na medida em que se empenha por encontrar aquelas respostas justas (…), a teologia da libertação é não só oportuna mas útil e necessária".

Encerramos esta resenha com os agradecimentos que o arcebispo Müller dirige ao amigo teólogo Gutiérrez pelo seu precioso trabalho em favor da teologia europeia e da Igreja universal, selo de uma visão de Igreja que precisa de todas as melhores contribuições: "Justamente Gustavo Gutiérrez indica ao nosso olhar totalmente concentrado na perspectiva europeia o que significa Igreja universal. Com a teologia da libertação, a Igreja Católica pôde aumentar ainda mais o pluralismo dentro dela. A teologia da América Latina revela e propõe hoje novos aspectos da teologia que integram uma perspectiva europeia muitas vezes incrustada" (p. 178).

O QUE É A FÉ?


O QUE É A FÉ?


De imediato, a fé é um dom de Deus inato, pois já nascemos com ela, isto porque, naturalmente acreditamos na vida que temos, e naquilo que perfaz o nosso ser e estar no mundo. Todavia, a fé é também um dom sobrenatural, carismático, recebido do Espírito Santo quando fomos batizados; nesse sentido, pela vivência da fé, podemos alcançar o impossível, pois assim nos ensinou o Senhor: “Tudo é possível ao que crê” (Mc 9,2). Ora, acreditar em Jesus é assemelhar-se a ele na convivência com o Pai, é fazer em tudo sua vontade (cf. 1Jo 2,6); pois a fé incondicional significa obediência total, mesmo que essa obediência resulte em morte de cruz. Logo, acreditar no Senhor é unir-se perfeitamente a ele pela ação do Espírito Santo na Eucaristia, ou seja, é comungar seu Corpo e Sangue, sua Alma e Divindade, e obter como resultado a santidade que o Senhor mesmo nos comunica. Por isso, só crê verdadeiramente quem ama incondicionalmente, porque a fé verdadeira é fruto do amor a Deus acima de todas as coisas e do amor ao próximo como a si mesmo.

São Tiago nos ensina que, “a fé sem obras é morta”, neste caso, ele se refere às obras do amor, e elas começam com o perdão dado e recebido por um coração misericordioso que tem no perdão o maior dom de cura, visto que, um coração reconciliado vive em permanente comunhão com o Senhor e é conduzido por ele. Quaisquer outras obras são frutos da missão que recebemos de Deus para que se cumpra sua Palavra: “Porque é gratuitamente que fostes salvos mediante a fé. Isto não provém de vossos méritos, mas é puro dom de Deus. Não provém das obras, para que ninguém se glorie. Somos obra sua, criados em Jesus Cristo para as boas ações, que Deus de antemão preparou para que nós as praticássemos”. (Ef 6,8-10).

Existe na Igreja um cântico do creio onde cantamos: “Creio Senhor, mas aumentai minha a fé”... Certa feita, “Os apóstolos disseram ao Senhor: Aumenta-nos a fé! Disse o Senhor: Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: Arranca-te e transplanta-te no mar, e ela vos obedecerá”. (Lc 17,5-6). Ou seja, o Senhor está nos indicando que a fé é dom gratuito, com o poder divino de suspender até as próprias leis da natureza para que se cumpra a vontade de Deus em vista da salvação das almas. Por isso, quando digo: creio, estou frente a frente com Deus em minha vida e tudo o que a compõe; desse modo, a fé é fruto do relacionamento filial e uma firme disposição a serviço do Reino de Deus e de sua justiça. Ela é submissão amorosa, dependência total que libera o poder de Deus em favor de seus filhos e filhas.

Portanto, a fé como dom de Deus não é apenas uma profissão, mais do que isto, ela é um modo de ser que faz acontecer a vontade de Deus em todos os sentidos da vida; é isso o que vemos na vida de Jesus, “autor e consumador de nossa fé” (Heb 12,2). Crer é viver segundo a vontade de Deus e assim ser vontade de Deus para toda criação a começar pela realidade na qual nos encontramos. “Na realidade, pela fé eu morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou pregado à cruz de Cristo. Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”. (Gal 2,19-20). Essa é a fé que nos foi comunicada pelo Espírito Santo para a nossa salvação e de toda a humanidade; sem a cruz de Cristo não há fé verdadeira.

Destarte, uma fé baseada na prosperidade material é falsa, porque não é dom de Deus, mas uma artimanha do inimigo de nossas almas que quer que acreditemos no ter mais e não no ser um só com Cristo, que nos diz: “Se alguém quer seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de Mim, vai encontrá-la. Com efeito, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua vida? O que pode um homem dar em troca da sua vida? Porque o Filho do Homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a própria conduta”. (Mt 16,24-27). “[Porque] sem fé é impossível agradar a Deus, pois para se achegar a ele é necessário que se creia primeiro que ele existe e que recompensa os que o procuram”. (Heb 11,6).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

UMA CRÔNICA FRANCISCANA: AH! FRANCISCO DE ASSIS, COMO TENHO SAUDADE DE TI...



UMA CRÔNICA FRANCISCANA: AH! FRANCISCO DE ASSIS, COMO TENHO SAUDADE DE TI...


Ah! Francisco de Assis, como tenho saudade de ti. Sem teorias, te servias dos Evangelhos e das Sagradas Escrituras como Palavras de Deus a serem obedecidas e praticadas fielmente, com todas as virtudes do Espírito Santo presentes em nossa vida desde que fomos batizados. Quanta singeleza em teus ensinamentos e exemplos a serem seguidos:

        “A Regra e a vida dos frades menores é esta: observar o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem propriedade e em castidade”. (RB).

        “E abstenham-se os irmãos e seus ministros de se incomodar com as suas coisas temporais, para que eles, como o Senhor lhes inspirar, disponham delas com liberdade”. (RB).

        “Os irmãos, aos quais o Senhor deu a graça de trabalhar, trabalhem com fidelidade de maneira que afugentem o ócio, inimigo da alma, e não percam o espírito de oração e piedade, ao qual devem servir todas as coisas temporais”. (RB).

        “Os irmãos não tenham propriedade sobre coisa alguma, nem sobre casa, nem lugar, nem outra coisa qualquer; mas, como peregrinos e viandantes (cf. lPd 2,11) que neste mundo servem ao Senhor em pobreza e humildade, peçam esmolas com confiança; disso não se devem envergonhar, porque o Senhor se fez pobre por nós, neste mundo (cf. 2Cor 8,9)”. (RB).

        “E onde quer que estiverem e se encontrarem os irmãos, mostrem-se afáveis entre si. E, com confiança, manifeste um ao outro as suas necessidades, porque, se uma Mãe ama e nutre seu filho carnal (cf. lTs 2,7), com quanto maior diligência não deve cada um amar e nutrir a seu irmão espiritual? (RB).

        “E tomem cuidado em não se encolerizar ou perturbar com o pecado de alguém, porque ira e perturbação entravam a caridade em si e em outros”. (RB).

        “Também admoesto e exorto os mesmos irmãos a que, nos sermões que fazem, seja a sua linguagem ponderada e piedosa (cf. Sl 11,7 e 17,31), para utilidade e edificação do povo, ao qual anunciem os vícios e as virtudes, o castigo e a glória, com brevidade, porque o Senhor, na terra, usou de palavra breve (cf. Rm 9,28)”. (RB).

        “Mas cuidem que, antes de tudo, devem desejar o espírito do Senhor e seu santo modo de operar: rezar sempre a Deus com coração puro; ser humilde e paciente nas perseguições e enfermidades; amar aqueles que nos perseguem, censuram e atacam; porque diz o Senhor: “Amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem e caluniam. Bem-aventurados os que padecem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos céus”. (RB).

Eis alguns dos ensinamentos do nosso seráfico pai, São Francisco, aos quais devemos dar toda atenção e acolhimento na certeza que eles são a via de perfeição que levou ele e milhares de irmãos atingirem a santidade de vida, à qual todos somos chamados, pois sem essa santidade, verdadeiro passaporte divino, ninguém entra no Reino dos céus.

Em nossos dias, falamos tanto, discutimos tanto, e, no entanto, quase nenhuma mudança interior e exterior apresentamos; é como se o muito falar nos cause exaustão demasiada ou uma espécie de cansaço espiritual estéril. Ou nos unimos ao Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar, como o fez e ensinou nosso seráfico pai, São Francisco, ou só vamos carregar dele o nome, “franciscanos”, mas não o seu exemplo de santidade e amor incondicional ao crucificado e à causa do seu reino de amor.

Hoje em dia ainda se fala muito de “opção preferencial pelos pobres”. Creio que há um certo equívoco nessa fala, pois quando pensamos e falamos sobre os pobres e a pobreza, pensamos quase sempre em termos de posses materiais; quando na verdade pobre é todo homem que se deixa dominar pelo pecado. Ora, Jesus veio para nos libertar do pecado e de tudo aquilo que nos causa o pecado, por isso, Ele disse: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos; conhecereis a verdade e a verdade vos livrará”. Pois, “Em verdade, em verdade vos digo: todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo”. (Jo 8,32.34). Logo, pobres e pobreza não devem ser entendidos só nestas duas dimensões, mas também na dimensão que o Senhor nos mostra em sua bem aventurança: “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus!” (Mt 5,3). Ou seja, a pobreza como virtude evangélica.

Nesse sentido, a pobreza franciscana é uma das virtudes do Espírito Santo e um dos carismas de nossa Ordem por excelência; é ela que nos leva a depender da providência divina que nunca falha; e que, por isso mesmo, nos faz ricos de todas as outras virtudes do Espírito. Assim, ela é a mais sublime herança que podemos adquirir neste mundo. Com efeito, como carisma essencial, a pobreza não precisa ser discutida, mas simplesmente ser vivida como São Francisco a viveu e ensinou, a partir das Palavras de nosso Senhor Jesus Cristo: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á. Que servirá a um homem ganhar o mundo inteiro, se vem a prejudicar a sua vida? Ou que dará um homem em troca de sua vida?... Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai com seus anjos, e então recompensará a cada um segundo suas obras”. (Mt 16,24-27).

A respeito da fraternidade franciscana, creio que também não é preciso teorias para explica-la, basta-nos os exemplos de fraternidade de São Francisco e dos outros confrades que com ele conviveram, tendo como base as Palavras do Senhor: “amai-vos uns aos outros como eu vos amo” (Jo 15,12). Ou seja, o ser fraterno é uma graça especial na vida de todos os consagrados por sua condição religiosa, pois ser fraterno é ser amor, é amar, é conviver bem com os outros; e isso é um privilégio que Deus dá sempre aos seus filhos e filhas, principalmente aos que lhes são consagrados por toda vida.

A minoridade é também um carisma nosso que não precisa de outro entendimento fora deste que o Senhor já nos deu: “Todo o que quiser tornar-se grande entre vós, seja o vosso servo; e todo o que entre vós quiser ser o primeiro, seja escravo de todos. Porque o Filho do homem não veio para ser servido, as para servir e dar a sua vida em redenção por muitos”. (Mc 10,43-45).

E, conventualidade, o que é? É São Francisco suspendendo o próprio jejum para se alimentar com o irmão que chora por não suportar o rigor do jejum. Ou seja, é está presente na vida e necessidade dos irmãos e lhes ser solidário. Conventualidade é são Francisco indicando o caminho vocacional do frade que achava improvável guardar a castidade; ou seja, é criar condições para se ter um discernimento preciso a respeito da vocação franciscana, ou uma outra vocação. Conventualidade é São Francisco nunca mandar algo contra os mandamentos do Senhor e a regra da ordem, isto é, nunca mandar algo contrário à salvação da alma ou da observância da regra. Enfim, conventualidade, é ser convento, isto é, lugar da morada do Senhor.

Portanto, cuidemos, pois quanto mais palavras, menos prática; porém, quanto mais oração e convivência com Deus e os irmãos, mais virtudes vividas e exemplos de vida. É esta a herança que recebemos de São Francisco e que não podemos desperdiçar com nossa vontade própria. Por exemplo: o que Deus falou em tua oração? E, o que vás fazer? Caso contrário tua oração é estéril, sem fruto. Frade sem vida de oração é frade a caminho da perda da fé e da própria vocação, por lhe faltar a intimidade do Senhor; pois tanto a fé quanto a intimidade tem na oração seu crescimento e a disposição para servir o Senhor na pessoa dos irmãos e do povo de Deus presente em nossa realidade. Nosso próximo é todo aquele que Deus nos dá para cuidar.

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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