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sábado, 2 de fevereiro de 2013

Clara de Assis, vida de serviço e amor fraterno

Por Frei Almir Ribeiro Guimarães
Somos membros da grande Família Franciscana. Temos muita alegria em poder nos deixar formar e modelar pelo espírito  de Clara de Assis. Hoje queremos prestar atenção em seus gestos fraternos e nos serviços que prestava às irmãs e à Ordem de São Francisco. Temos diante dos olhos o texto  Nourrir… chérir… prendre soin, escrito por uma religiosa clarissa e publicado na  revista  Évangile d’Aurjourd’hui, n. 233. Não aparece o nome completo da autora. Simplesmente se diz Irmã Clara de Chamalières (França).
1. O pano de fundo da presente reflexão é constituído por alguns versículos da Regra de Santa Clara que transcrevemos: “Porque todas devem prover e servir  suas irmãs enfermas, como gostariam de ser servidas, se tivessem alguma doença. Manifeste com segurança uma à outra, sua necessidade. E se uma mãe ama e nutre sua filha (1Ts 2,7) carnal, quanto mais diligentemente deve uma irmã amar e nutrir  sua irmã espiritual?” Com toda evidência está por detrás destas linhas, Clara que ama, alimenta e serve.

2. Durante muito tempo a Ordem de Santa Clara teve a reputação de ser uma Ordem muito austera: privações, jejuns, toda sorte de mortificação, extrema pobreza, tanto pessoal quanto comunitária.  Certos costumeiros da Ordem no início do século XX ainda insistem muito nesse estilo extremamente duro de vida ascética.  Inegavelmente muitas clarissas chegaram  a uma altíssima santidade  através de numerosas mortificações. A redescoberta das fontes clarianas, o estudo comparativo das diversas formas monásticas do século XIII, a reconstituição paciente da forma de Vida das Irmãs Pobres aprovada no final de vida da santa nos obrigam a reconsiderar o projeto  fundamental da Mulher de Assis. Queremos aqui destacar  duas grandes preocupações dela: a luta de toda uma vida para conseguir a aprovação do Privilégio da Pobreza (o privilégio de viver sem privilégio no dizer de  M. Bartoli) e o vínculo material e espiritual  com a Ordem dos  Frades Menores.

3. Talvez um aspecto que até então não tinha ainda fica tão nítido foi a grande novidade do tipo de relações fraternas que Clara queria instaurar deliberadamente em São Damião, na esteira de Francisco.  Temos a chance de poder contar com depoimentos das irmãs e de alguns leigos no Processo de Canonização da santa. Apoiando-se nesse documento, Tomás de Celano escreveu a Vida de Santa Clara a pedido do Papa. Não se pode esquecer que, na Idade Média, a hagiografia era  uma obra teológica: personagem principal  não era o santo, mas Deus atuando em sua vida. Celano procura ser fiel às Fontes sempre fazendo com que a santidade de Clara fosse  conforme a ideia da santidade monacal da época. O biógrafo é particularmente sensível aos aspectos da vida fraterna em São  Damião. Perscrutar os fatos aqui e ali narrados, interpretá-los, comparar com a  Regra de Clara  (1253),   às sucessivas legislações a que forma submetidas as irmãs antes que  a fundadora resolvesse ela própria  escrever  a forma de vida  faz com que encontremos uma forma original de laços e   liames fraternos.

4. Antes de seu ingresso em São Damiao Clara já demonstrava atenções para com os pobres.  Encontramos na Legenda uma observação que pode ser mero clichê para as biografias oficiais: “Estendia a mão com prazer para os pobres (cf. Pr  31,20) e da abundância de suas riquezas supria a indigência”  (Legenda, 2). Há, no entanto, logo em seguida, um detalhe pessoal: “… privava seu próprio corpinho dos alimentos mais delicados” para socorrer pessoas indigentes, manifestando desta sorte empatia que viria a ser um traços característicos de sua personalidade. Adolescente, toma uma iniciativa  que  manifesta determinação,  perspicácia e generosidade: envia importância em dinheiro a Francisco e seus irmãos que estão restaurando Nossa Senhora dos Anjos, para que comprassem carne(Processo  17,7).

5. Antes mesmo de ter deixado a casa paterna, Clara já estava  impregnada dos ensinamentos de Francisco. Sentia que este a olhava com solicitude pensando naquilo que ela poderia vir a ser. Entre  os dois  houve sempre respeitosa reserva.  Francisco, de modo especial nos começos, dedicava muita atenção a São  Damião. Chegava mesmo a se preocupar com o regime alimentar da comunidade.  Sabe-se pelo Processo que pediu que moderassem o drástico jejum  determinado pela jovem fundadora. Fez mesmo com que o bispo interviesse sobre o tema. Na Terceira Carta a Inês de Praga Clara toca na questão do jejum e das orientações de Francisco a esse respeito: as  irmãs  não são obrigadas ao jejum  no tempo pascal, nas festas de Nossa Senhora e dos apóstolos, nem às quintas feiras… normas  não rigorosas para a época.  No  Audite Poverelle,  Francisco pede as irmãs utilizem as esmolas sem excessivo escrúpulo. Que se preste atenção nas irmãs doentes ou mais frágeis.

6. Em seu  Testamento  Clara se considera a “plantinha  de Francisco”.  Designa sua comunidade de plantação do bem-aventurado Pai que e cultivou e fez crescer,  como fundador  e plantador (jardineiro). Com estas imagens da horticultura  sentimos como Clara via em Francisco um “cuidador” das irmãs. Francisco, efetivamente, tinha afeto e ternura para com elas. Este cuidado atencioso era fruto de admiração respeitosa. Quando o pão era pouco, a metade que se tinha ia para os frades que moravam junto do mosteiro.

7. Quando  Francisco tem dúvidas  a respeito de sua orientação de vida, ou seja, vida eremítica  ou de pregação itinerante,  recorre a  Clara (também a frei Silvestre).  Gravemente doente ele vem descansar em São Damião  por cinquenta dias e é ali que ele compõe  o Cântico do Sol.  Quando ele fala de lua, estrelas claras, preciosas e belas, irmã água pura e casta  não podemos deixar de pensar que Clara esteja por detrás de tais imagens.

8. Francisco já havia escrito em seu Testamento: “Ninguém me mostrou o que devia fazer, mas o  próprio Altíssimo me revelou que eu devia viver segundo a forma do Santo Evangelho”. Clara, no coração de sua Regra,  transcreve o embrião do texto normativo que ele havia composto para as irmãs de São Damião, texto em que se nota a identidade comum de sua vocação evangélica: “Visto que por inspiração divina,  vos fizestes filhas e servas do altíssimo e sumo Rei, o Pai celeste e desposaste  o Espírito,  Santo escolhendo viver segundo a perfeição do Santo Evangelho, quero e  prometo por mim e por meus irmãos ter sempre por vós diligente cuidado e especial  solicitude como tenho por eles…” (Regra de Santa Clara, Cap.VI).

9. Estudos recentes afirmam que, quando Clara se dispõe a escrever  uma Regra não tem a intenção de estabelecer normas a serem rigorosamente observadas em vista de se atingir um ideal de perfeição como as Regras  de Hugolino e Inocêncio  -  mas de definir uma vocação, um encontro com  uma pessoa viva, o Senhor Jesus Cristo.  Estudos recentes assinalam que no modelo de vida proposto por  Francisco e Clara  “somos irmãos e irmãs porque  filhos  do Único Pai e irmãos do Único Irmão”. Como caracterizar a novidade desta vida fraterna  segundo o Evangelho?

10. Fundamentalmente, sem dúvida, trata-se qualidade do olhar dirigido  às pessoas: olhar de confiança, de esperança, de respeito, de maravilhamento, como olhar da mãe para com os filhos, como o olhar do jardineiro sobre as plantas que crescem. Este não sabe como se dá o crescimento  mesmo tendo ele sido o plantador.

11. Em seguida, uma atenção concreta para com as pessoas.  Em São Damião havia muitas irmãs doentes. Em sua Regra, Clara alude ao fato em quase todos os capítulos: faz-se necessário providenciar roupas, alimentação, medicamentos, velar pelo repouso. As irmãs partilharão esses cuidados com a abadessa. Na enfermaria será sempre possível falar com discrição para distrair as irmãs… quando pessoas vêm visitá-las poderão dizer palavras edificantes, o que em outras Regras é formalmente proibido. Com as orientações da Regra de Clara estamos longe das Constituições de Hugolino  sugerindo na medida do possível  que as doentes tivessem um lugar afastado. Lá estariam separadas das irmãs de boa saúde para não causar desordem nem perturbação nas atividades da casa ou no descanso das irmãs…  Vale observar que a maioria dos milagres operados por Clara, durante sua vida e depois de sua morte, visavam doentes e enfermos. Clara é toda compaixão. O Processo de Canonização, a Vita de Celano nos mostram Clara muito próxima de irmãs atormentadas: se uma ou outra fosse presa do desgosto e da tentação, Clara chamava-a à parte e chorava com ela… colocava-se de joelhos diante das irmãs que sofriam e lhes prodigalizava carinhos maternos…

12. Uma vida segundo o Evangelho supunha, no pensamento de Clara,  grande liberdade entre as irmãs.  Em sua Regra, a maior parte das determinações  se acham acrescidas de observações como estas:  “se  acharem bom..”… “se julgarem oportuno”…  Quando, de outro lado,  há uma  fórmula do gênero : “que sejam firmemente obrigadas”… refere-se  à abadessa que deverá pedir o consentimento de todas as irmãs…”.  Entre as irmãs, Clara  vê igualdade total. Ela se comporta como mãe, irmã e serva de todas. Deseja também que as irmãs desempenhem esses papéis. Por isso, ela retoma textualmente  no capítulo  VIII de sua Regra o que Francisco que havia escrito:  “E onde estão e onde quer que se encontrarem os irmãos, mostrem-se mutuamente familiares entre si. E com confiança um manifeste ao outro a sua necessidade, porque se a mãe nutre a  seu filho  carnal, quanto mais diligentemente  não deve cada  um amar e nutrir a seu irmão espiritual”. Antes deste texto, para seus irmãos itinerantes,  Francisco havia observado: “Em todos os lugares em que se encontrarem os irmãos,  mostrem-se da mesma família uns para com os outros, o que implica simplicidade, familiaridade, tomada de consideração da vida cotidiana. Clara, por sua vez, mesmo num ambiente fechado  como era o mosteiro de São  Damião,  pede que as irmãs se encontrem, se estimem,  se “nutram” espiritualmente:  “Porque todas devem prover e servir  suas irmãs enfermas, como gostariam de ser servidas, se tivessem alguma doença. Manifeste com sua segurança, uma à outra,  sua necessidade. E se uma mãe ama e nutre sua filha carnal, quanto mais diligentemente  deve uma irmã amar e nutrir  sua irmã espiritual?” (cap. VIII).  Clara não tem medo da ternura e de suas manifestações. Em seu Testamento tem ela uma exortação cheia de brilho: “E amando-vos umas  às outras com a caridade de Cristo, demonstrai por fora, por meio de boas obras, o amor que tendes dentro para que provocadas por este exemplo, as irmãs cresçam sempre  no amor de Deus na mútua caridade.

13. Esta mesma dimensão de amor compaixão Clara manifesta para com a cidade de Assis (duas vezes sitiada) e para pessoas de fora do mosteiro:  doentes, deficientes, infelizes acorrem a São Damião para buscar cura.  Somos obrigados a relativizar a afirmação de Celano: “… elas adquiriram especial graça de abstinência e do silêncio a ponto de absolutamente não precisarem esforçar-se por coibir o apetite e a frear a língua; e algumas delas estavam tão desacostumadas a conversas que quando a necessidade exige que elas falem, mal se recordam de formar palavras como convém (1Celano 20). “Clara unificou profundamente sua vida e seu olhar para ir além  das aparências: na contemplação do Cristo pobre e crucificado de São Damião, Clara  compreende o sofrimento  indizível do homem Deus e por ele abraça todos aqueles pelos quais ele morreu. Recebem elas seus irmãos e os filhos dos homens como seus filhos espirituais os quais ale nutre e ama  como uma mãe ama seu filho, manifestando-lhes afeto por ato sua ternura.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

domingo, 24 de junho de 2012

A Nobre Família de Clara de Assis

Gemma Fortini


Publicado originalmente na revista
Franciscan Studies, v. 42. ano 20, 1982.
P. 48-67.
Tradução Fr. José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap

Pouco se sabe sobre a família de Santa Clara de Assis. O que é conhecido está na Legenda de Santa Clara Virgem, escrita por Tomás de Celano, e no Processo de Canonização.¹

A razão desse silêncio sobre a famosa linhagem nobre de Clara está no desejo dela mesma. Benvinda de Perusa, que seguiu a Santa no convento no mesmo ano de sua conversão, diz o seguinte: "Dona Clara não queria falar de coisas seculares, nem queria que as Irmãs as lembrassem".² Mas chegaram informações básicas até nós para nos ajudar a estabelecer os fatos a respeito de sua família. Clara nasceu em Assis em 1193, e morreu na mesma cidade em 1253, aos sessenta anos.

Sobre ela se escreveu: "a Virgem Clara era de nobre nascimento"; "seu pai, messer Favarone, era nobre, grande e poderoso na cidade, ele e os outros de sua casa"; "Clara era da mais nobre parentela de toda a cidade de Assis, do lado do pai e da mãe"; "seu pai era militar, e a família, de cavaleiros, dos dois lados." Favarone, seu pai, era, portanto, miles, isto é, um cavaleiro feudal³, capaz de combater a cavalo e de perseguir bandos de inimigos de espada em riste. Também está escrito: "A casa era muito grande e continha vastas riquezas herdadas pela família de seu pai."

quinta-feira, 1 de março de 2012

O desejo do martírio em Santa Clara de Assis


Supremo amor por Cristo e em Cristo
No processo de canonização de Santa Clara também é mencionado seu desejo de martírio: “Irmã Cecília, Filha de Messer Gualtieri Cacciaguerra de Spello, uma irmã do Mosteiro de São Damião, fazendo juramento disse: que tinha ouvido de dona Clara, de santa memória, antiga abadessa do predito mosteiro, que devia ter uns quarenta e três anos que ela estava no governo das Irmãs; A testemunha entrou na Ordem uns três anos depois que a senhora tinha entrado na Religião pela pregação de São Francisco. A testemunha entrou pelas exortações de dona Clara e de Frei Filipe, de boa memória. Desde esse tempo, quarenta anos, esteve sob o santo governo de dona Clara, mas não se achava competente para falar como se deve sobre sua vida, louvável e maravilhosa, e sobre seu comportamento. Também disse que dona Clara tinha tanto fervor de espírito, que gostaria de enfrentar o martírio por amor do Senhor. Demonstrou isso quando ouviu contar que alguns frades tinham sido martirizados em Marrocos e disse que queria ir para lá. A testemunha até chorou. Mas foi antes que ela ficasse doente. Interrogada sobre quem tinha assistido a isso, respondeu que as Irmãs então presentes já tinham morrido”.
Outra testemunha afirma «Irmã Balbina de Messer Martinho da Cocorano, monja do Mosteiro de São Damião, declarou sob juramento: que estivera no mosteiro por mais de trinta e seis anos, quando era abadessa dona Clara, de santa memória, cuja vida e comportamento foram adornados pelo Senhor com muitos dons e virtudes, que de modo algum daria para contar. E a senhora foi virgem desde o seu nascimento. Era a mais humilde entre todas as Irmãs e tinha tanto fervor de espírito que, por amor de Deus, teria suportado de boa vontade o martírio pela defesa da fé e de sua Ordem. Antes de ficar doente, queria ir para Marrocos, onde se dizia que os frades tinham sofrido o martírio.
Interrogada sobre como sabia dessas coisas, respondeu que esteve com ela durante todo esse tempo, vendo e ouvindo o amor que a senhora tinha pela fé e pela Ordem”.


Ficamos profundamente emocionados por este testemunho sobre Clara, que nos narra com expressões muito vivas, o seu desejo de ir para onde os frades protomártires franciscanos haviam dado suas vidas, ao morrer por Cristo. Este testemunho nos revela o fato que Clara, permanecendo inflamada no seu íntimo, pela notícia do martírio dos frades, gera em seu corpo e em sua mente o desejo de se unir a eles. Clara é atraída pelo testemunho dos protomártires francisacanos até ao ponto de sentir dentro de si o ardente desejo de ir até à terra onde eles derramaram o seu sangue, para que assim, também ela possa dar a vida para testemunhar e defender a fé.
Este desejo de Clara, testemunhado no processo, é reflexo do desejo de Francisco, segundo as palavras de São Boaventura: aqui também se fala de um desejo vivo, um fervor de caridade poderosíssimo e do mesmo desejo de martírio de São Francisco, como se afirma no capítulo IX da Vida do Bem-aventurado Francisco (Legenda Maior): «No fervoroso incêndio de sua caridade, emulava o triunfo dos santos mártires, nos quais não se extinguiu a chama do amor nem fraquejou a fortaleza. Por isso ele também desejava, inflamado naquela caridade perfeita, que joga fora o temor, oferecer-se como uma hóstia viva ao Senhor pela chama do martírio, para corresponder assim ao amor de Cristo, morto por nós na cruz, e para provocar os outros para o amor divino. Então, no sexto ano de sua conversão, ardendo de desejo do martírio, resolveu embarcar para a Síria para pregar a fé cristã e a penitência aos sarracenos e aos outros infiéis».
Sugiro, neste momento, comparar o que consideramos até agora, com o texto da Regra não Bulada, capítulo XVI. São Francisco de Assis descreve como deve ser a atitude dos frades que forem à terra daqueles que não têm a fé cristã: “os frades que vão, podem com-portar-se espiritualmente entre eles de dois modos. Um modo é que não façam nem litígios nem contendas, mas estejam submetidos a toda criatura humana por Deus e confessem que são cristãos. Outro modo é que, quando virem que agrada ao Senhor, anunciem a palavra de Deus, para que creiam em Deus onipotente, Pai e Filho e Espírito Santo, criador de tudo, no Filho redentor e salvador, e que sejam batizados e se tornem cristãos, porque quem não renascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no reino de Deus”.

Partindo deste texto, podemos observar que nas duas modalidades indicadas por Francisco não há uma visão “anônima” do testemunho; também o exemplo de vida - sem o anúncio explícito da Palavra - é sempre acompanhada pela confissão da fé. Posteriormente, por inspiração do Senhor, pode-se chegar ao anúncio explícito da Palavra, a fim de suscitar a fé na Santíssima Trindade. 

Considerando o caráter  confessante do testemunho desejado por Francisco para os seus frades, pode-se compreender porque os mais recentes estudos sobre o desejo do martírio, presente no início da  família franciscana,  faz desaparecer a clássica contradição sentida entre o capítulo XVI e as histórias hagiográficas sobre este ponto: de fato, o horizonte interpretativo não é aquele de um heroísmo provocado nos confrontos com uma fé diferente, mas uma expressão do amor por Cristo, a paixão de comunicar o encontro com Ele e de ser introduzido na fileira de sua imitação.


Neste sentido, as hagiografias franciscanas, particularmente dos protomártires, evidenciam que, nestes e em outros mártires franciscanos, representa-se o que aconteceu nos mártires dos primeiros séculos, ou seja, repete-se o que aconteceu nos mártires dos primeiros séculos, ou seja, a disposição de dar a vida pelo Evangelho até à morte.

Na realidade, aqui não é resultado do antagonismo religioso, que poderia parecer, hoje, uma atitude inconveniente no âmbito de uma relação pacífica com outras religiões, mas do desejo, da paixão arrebatadora pela pessoa de Cristo; é o desejo de assemelhar-se a Ele e de poder, em qualquer situação, dar testemunho d’Ele, que deu a vida por nós; desejo de martírio é, portanto, desejo por Cristo, desejo de corresponder de um modo total, ao dom que Cristo fez por nós.


Von Balthasar diz em seu famoso Cordula: “enquanto vou colocando totalmente em risco a minha vida, atesto haver compreendido a verdade cristã, como a revelação mais elevada possível do amor eterno”. O desejo do martírio - provocado ou buscado diretamente - surge como expressão radical de amor por Cristo e neste mesmo amor de Cristo por cada homem, por quem Ele deu a vida. 


O mártir cristão - seguindo os passos do próprio Cristo - expõe-se a si mesmo, por amor de Cristo e da liberdade dos irmãos; doa-se por aquilo que lhe é mais caro ao coração: o dom eucarístico, que Cristo fez de si, com o sacrifício de si mesmo, por amor da própria vida.


A palavra “martírio” indica exatamente “ser testemunhas”. Queria, nesta circunstância, lembrar duas expressões muito fortes, de Bento XVI, na exortação apostólica Sacramentum Caritatis, em relação ao testemunho e ao martírio.


Primeiramente um texto que explica a natureza do testemunho, - testemunho é uma palavra que por sua natureza preserva a auteridade: “Tornamo-nos testemunhas quando, através de nossas ações, palavras e modo de ser, um Outro se faz presente e se comunica. Pode-se dizer que o testemunho é o meio pelo qual a verdade do amor de Deus atinge o homem na história, convidando-o a acolher livremente esta novidade radical. No testemunho, Deus se expõe, podemos dizer, ao risco da liberdade do homem”.
No mesmo documento se fala do testemunho e do martírio com relação à Eucaristia, mostrando que os primeiros mártires cristãos entendiam o sacrifício de suas vidas, como o ápice da experiência espiritual, como logiké latreia, culto espiritual, ou como deveríamos dizer: culto conveniente ao humano (R. Penna): “o próprio Jesus é a testemunha fiel e verdadeira (cfr Ap 1,5; 3,14); e veio para dar testemunho da verdade (cfr Jo 18,37)... o testemunho do dom de si ao martírio, sempre foi considerado na história da Igreja o ápice do novo culto espiritual: “Oferecei os vossos corpos” (Rm 12,1). Consideremos, por exemplo, a história do martírio de São Policarpo de Esmirna, discípulo de São João: todo o drama é descrito como liturgia, como se o próprio mártir se tornasse Eucaristia. Pensemos também na consciência eucarística que Inácio de Antioquia exprime em vista de seu martírio: ele se considera “trigo de Deus” e deseja tornar-se, pelo martírio, “pão puro de Cristo”. O cristão que oferta a sua vida no martírio, entra em plena comunhão com a Páscoa de Jesus Cristo e assim, torna-se, com Ele, Eucaristia. Ainda hoje não faltam à Igreja, mártires, em quem se manifesta de modo supremo o amor de Deus. 
Temos aqui uma significativa confirmação do caráter eucarístico do martírio cristão, presente no cristianismo desde suas origens.


Aprendemos que o verdadeiro sentido da existência é dar a vida pelos irmãos, porque, como diz Jesus, não há maior amor do que dar a vida pelos amigos. Todos somos chamados a descobrir o valor determinante do testemunho da nossa fé que pode chegar até ao martírio; um testemunho que na relação com o outro, seja quem for, expõe-se a si mesmo, oferecendo-lhe aquilo que tem de mais precioso, Jesus Cristo e a verdade de seu amor; deste modo, o testemunha se oferece ao risco da liberdade do outro.


Como afirmou recentemente, o neo arcebispo de Milão, Cardeal Angelo Scola: “O martírio, graça que Deus concede aos desarmados e ao qual ninguém pode pretender, é um gesto insuperável de unidade e de misericórdia. O martírio é a derrota de qualquer eclipse de Deus, é a sua volta em plenitude, através da oferta da vida por parte dos Seus filhos. Uma entrega de si, que vence os males, mesmo aqueles “injustificáveis”, porque reconstrói a unidade, mesmo com aquele que mata. Como Jesus tomou sobre Si os nossos males, perdoando-nos com antecedência,  assim, o mártir, abraça com antecipação, o seu carrasco, em nome do dom de amor do próprio Deus, reconhecido por todos, como absoluto transcendente (verdade)”.


Por este motivo não podemos deixar de ser gratos a Clara e a Francisco, por seu desejo de martírio, como expressão de supremo amor por Cristo e em Cristo, a cada homem, aos protomártires franciscanos, a todos os confessores e mártires, a Christian de Chergé, a Shahbaz Bhatti e a Padovese: eles nos mostraram o Deus que nunca nos abandona; o rosto terno e forte do Deus da verdade, do amor e da paz.


Prof. Paolo Martinelli, OFMCap
Preside Istituto Francescano di Spiritualità
Pontificia Università Antonianum – Roma


Relatório realizado por ocasião da apresentação do livro de Giovanna Casagrande, Intorno a Chiara. Il tempo della svolta. Le compagne, i monasteri, la devozione. (Viator, 13), Edições Porciúncula, Assis, 2011 - promovido pelo Protomosteiro S. Clara - Instituto Teológico de Assis - Escola Superior de estudos Franciscanos e Medievais da Pontifícia Universidade Antonianum (Assis, Basílica de Santa Clara - sexta-feira, 15 de abril, 2011).
Pubblicato in: L'Osservatore Romano , giovedì 11 agosto 2011, p. Publicado em: L'Osservatore Romano, quinta-feira, agosto 11, 2011, p. 4. 4.
Il martire cristiano – e prima di lui Cristo stesso – non dà la morte a nessuno con la sua morte ma espone se stesso per amore di Cristo e della libertà dell'altro a causa di ciò che gli sta più a cuore: il dono eucaristico che Cristo ha fatto di sé con il sacrificio per amore della propria vita.


Tradução: Irmã Luzinete Ana Maria, OSC
Mosteiro Santa Clara
Anápolis - GO

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Espiritualidade e o Carisma de Clara de Assis (I)


Autora: Irmã Sandra Maria, Clarissa
 
Introdução

Desejamos elucidar os temas espiritualidade e carisma, primeiro em termos de experiência cristã, em seguida, dentro do sentido e da diretiva que Clara de Assis com originalidade aponta, para que possamos aprofundar o caminho de experiência espiritual clariano. Falar de espiritualidade e de carisma é falar de experiência. A experiência não é uma realidade assim tão clara. É sempre difícil partir da experiência e clarificá-la, porque é um dos conceitos mais enigmáticos e difíceis da filosofia. Mas podemos nos aproximar de forma simples do mundo da experiência espiritual cristã, franciscana e clariana, colocando em evidência seus matizes próprios. Nossa espiritualidade está ligada ao modo de viver os dons que Deus nos deu, e precisamos ter clareza sobre as suas linhas fundamentais.

1. O que é espiritualidade

Espiritualidade é a realidade vivida, elaborada (transformada em teoria), uma modalidade própria de viver e encarar os princípios teologais, a nossa fé, a esperança e a caridade, o seguimento evangélico. Para viver uma espiritualidade autêntica precisamos de docilidade à ação do Espírito e aos seus desenvolvimentos e moções, numa vida conforme nosso Senhor Jesus Cristo: isso implica um caráter existencial, concreto, afetivo e dinâmico. É necessário nos comportarmos de modo a progredir na espiritualidade. Uma vida segundo o Espírito é progressão aberta a ulteriores realizações, segundo a graça do batismo atuando em nós. Espiritualidade é uma sabedoria de vida, uma vivência que implica ascese, mística, orientação, oração, relacionamento com Deus, consigo mesma, com as pessoas e com as criaturas, e desenvolvimento dos dons do Espírito e dos carismas recebidos. Portanto espiritualidade e carisma se interpenetram: o carisma está implicado na vivência da espiritualidade.

1.1. Experiência

O fenômeno que chamamos experiência possui uma grande complexidade. O que parece muito simples e fácil é efeito de mecanismos complicados, que a psicologia humana e religiosa ainda desconhece. A experiência é um processo. E o conhecimento dos processos humanos e religiosos vai lentamente sendo desvendado, sem jamais se esgotar. Nossas ações e reações podem ser identificadas somente em parte. Existe uma fome de experiência religiosa e de espiritualidade. Karl Rhaner chegou a afirmar que “o cristão do futuro ou será um místico, ou seja, alguém que experienciou alguma coisa, ou não será cristão”. Isto quer dizer que a experiência profunda das coisas de Deus determina o grau da espiritualidade e da mística.

As experiências significativas sempre fizeram parte da vida do povo de Deus e da Igreja. Nasceram assim as diversas correntes de espiritualidade, as diversas escolas: abraâmica, da Torah, deuteronomista, profética, sapiencial, sálmica, simbólica, evangélica, paulina, joanina, provindas da Bíblia; dos padres e madres do deserto, basiliana, agostiniana, beneditina, cisterciense, das Cruzadas, dominicana, franciscana, clariana, inaciana, carmelitana. Também podemos falar de espiritualidade italiana, francesa, dos países nórdicos, latino-americana, africana, asiática, ou de épocas, como a do século VIII, do século XIX, que tiveram suas características próprias... Espiritualidade é experiência e vida, experiência e empenho. A experiência é sempre algo vital, que existe na própria vida, é a própria vida. A experiência espiritual diz respeito ao Espírito: isso especifica a espiritualidade. A espiritualidade é uma forma concreta suscitada pelo Espírito, de viver o Evangelho. Da experiência espiritual profunda surge a tematização, o testemunho, a narrativa.

1.2. Narrativa

Quanto mais a espiritualidade se torna vivida, mais ela é narrativa. Narração e experiência é um dos binômios muito usados em nossos dias. Há uma forte atualidade para esses termos. Fazer a experiência é uma expressão da vida real, uma maneira de afirmar a convicção de que a experiência tem como elemento essencial de seu processo a realização. Fazer experiência é participar, a partir de dentro, da trajetória experimentada, seguir o caminho da experiência, deixar-se envolver por ela e vivenciar todas as suas conseqüências. A narrativa elucida a experiência.

A espiritualidade necessita da narrativa, mas exige que haja uma relação entre fazer experiência e narrar. E que se exercite a verificação da congruência entre as duas. A narrativa constrói uma teologia da espiritualidade, e isso somente pode fazer quem faz a experiência. Reforçando, somente quem vive uma experiência religiosa pode definir um caminho de espiritualidade e traçar projetos lineares dela.

1.3. Conhecimento a partir de dentro

Espiritualidade é um conhecer a partir de dentro. Descreve-se a experiência que se vive. Esse conhecimento interior que nasceu no íntimo da pessoa estende-se ao exterior com os matizes assumidos internamente. O termo conhecer significa entender ou compreender a partir de dentro. A espiritualidade e a experiência religiosa sempre partem de um conhecimento a partir de dentro, contudo, isso não impede que tenham como conteúdo realidades exteriores concretas.

2. O que é carisma

O termo carisma retoma uma palavra grega, usada no Novo Testamento. Significa dom generoso e tem a mesma raiz de cháris: graça. O Concílio Vaticano II colocou novamente em uso a noção de carisma e distinguiu os dons carismáticos dos hierárquicos, que estão ligados aos sacramentos e aos ministérios. Carismas são aqueles dons especiais do Espírito que nos tornam capazes de assumir uma missão na Igreja, para a construção do Reino.

O termo carisma pode ser empregado no sentido genérico para indicar todos os dons divinos, as novas formas de vida e ação que o Espírito suscita pela adesão ao Evangelho. Neste sentido, o carisma clariano é uma nova “forma de vida”, particular e especial, suscitada no seio da Igreja. Clara viveu o seu carisma irrevogável, provindo de Deus, experienciando uma libertação profunda e crescente. Num sentido mais específico, as Clarissas herdaram o carisma clariano: são chamadas a ser continuadoras do projeto evangélico iniciado por Clara e Francisco de Assis. A fidelidade de nossos fundadores à inspiração divina, à graça, ao carisma inspiracional é a força que continua nos impulsionando e guiando no caminho do seguimento de Jesus Cristo.

A comunidade de Clara é uma comunidade carismática, nos moldes da comunidade dos apóstolos e discípulos e das comunidades cristãs primitivas. O carisma de Clara, ao se tornar uma estrutura estável com o decorrer dos anos, adquiriu uma dinâmica institucional na Forma de Vida elaborada por Clara com base na experiência das regras anteriores e sustentada pela Regra de Francisco.

A vida espiritual clariana difundiu-se e foi interpretada durante os séculos segundo modelos recapitulativos, rememorativos de experiências passadas e em harmonia com a cultura dos tempos. Isso significa atualizar o carisma. Uma espiritualidade madura deve estar continuamente adaptando e atualizando o carisma, deve enriquecê-lo, alimentar suas riquezas. Clara, como mestra espiritual, é um ponto de referência que une a riqueza da experiência ao conhecimento dos valores e das opções vitais. O amor constrói, a contemplação purifica; existem comportamentos vitais que podem ser introduzidos somente em ambientes especiais marcados por vida espiritual intensa, e uma vez descobertos podem ser vividos e acolhidos. Clara é uma mulher de tamanha autoridade moral que sabe induzir comportamentos e mostrar a validade de opções históricas. Clara tem como função abrir caminhos de vida que possam ser percorridos por nós com segurança e firmeza. A instituição clariana, a Ordem das Irmãs Pobres, é um organismo que programa e facilita a referência para o modelo espiritual de Clara, e favorece-lhe o crescimento, construindo espaços de fidelidade e de intensa espiritualidade.

A santidade de Clara e de Francisco é espelho da santidade de Deus. Foram santos porque viveram a união com Deus, acolheram sua graça. Foram santos que tornaram Deus visível, tornaram seus dons frutificados, foram carismáticos, no verdadeiro sentido do termo. Clara e Francisco foram modelos de santidade porque estiveram em condições de atrair para o Evangelho e de induzir comportamentos que manifestam a validade da doutrina que ensinaram. Foram reveladores de Deus, e nos induzem a perfazer-nos com a proximidade que realizam e com a atração ao bem que suscitam.

Existem aspectos da ação salvífica de Deus que requerem entrelaçamento de pessoas, convergência de ideais, para serem acolhidos e revelados. A santidade evangélica de Clara e de Francisco e o seu peculiar carisma na Igreja são comunitários, decisão concorde de todos e de todas que acolhem como bem comum a glória de Deus. Eles entraram em relação com Deus a partir de uma tradição histórica oferecida por uma comunidade eclesial, e foram alimentados por muitas pessoas e por comunidades vivas. É isso viver um carisma.

3. A espiritualidade e o carisma clariano como acontecimento histórico

Os processos históricos e os acontecimentos sociais em que os cristãos e cristãs se encontram envolvidos e comprometidos numa determinada época ou lugar constituem um fator de espiritualidade, suscitando carismas específicos dentro do seio da Igreja. Assim ocorreu com Clara e Francisco. Eles representam um chamado específico de Deus para um carisma vivo, para uma espiritualidade peculiar. Um chamado a certas opções e a certos valores evangélicos, em especial a pobreza, a humildade, a minoridade e a fraternidade, que foram configurando a estrutura das comunidades clarianas e franciscanas, e deram origem a uma forma específica de espiritualidade.

Queremos nos aproximar do tempo de Clara, uma época de transformações, plena de luzes e sombras, em cujo panorama nascerá um outro modelo social, político e econômico; e também um tipo novo de crente, porque ocorrerá uma mudança em que o leigo será protagonista; e ainda, um novo tipo de religioso e de religiosa, marcado pela passagem fundamental do monge e da monja, para o de frei e de irmã. Estas características, que depois de oito séculos podemos esquematizar serenamente, tiveram uma gestação dolorosa e lenta, em que ocorreram tensões, rupturas, e em cujo processo Clara receberá, junto a Francisco e muitos outros, o carisma de orientar seu caminho para a grande reforma que os tempos pediam.

Nosso olhar sobre este período da espiritualidade tem o interesse histórico que busca as raízes; nossos fundadores são filhos de uma situação política, social, cultural e eclesial carregada de ambigüidades, de incertezas, de extremismos, como é a época medieval, junto a uma gama maior de possibilidades que eles puderam descobrir e abraçar, sendo fiéis à Igreja. Neste transfundo, Clara busca e oferece seu peculiar carisma e espiritualidade. Aqui está a importância de conscientizar-nos do fenômeno de um despertar humano global, para poder situar Clara e seu carisma naquilo que possui de novidade e de ruptura com todo um largo processo precedente.

A espiritualidade e o carisma clariano e franciscano, como resposta a uma realidade histórica, são um processo histórico, social e eclesial, que apresentam fatos, situações, valores que nós, como Clarissas e Franciscanos, devemos captar e interpretar em toda a sua significação. Tudo isso constitui para nós um chamado a decifrar os nossos valores, que nos são revelados pelo conhecimento e aprofundamento da história da Ordem das Irmãs Pobres, desde a sua gênese, para que possamos incorporá-los em nossa vida e em nossa vocação. Isso fará com que sejamos cristãs plenas de consciência de sua espiritualidade e de seu carisma. Conscientes do processo histórico que foi vivido durante os séculos na Ordem, para viver a fidelidade ao carisma inicial, e conscientes de ser testemunhas hoje da validade e da atualidade de nossa espiritualidade e de nosso carisma. Capazes de ativar uma formação eficiente, como resposta ao nosso contexto cultural, e de criar uma renovada espiritualidade, capazes de assumir e de expressar o carisma clariano, como uma nova síntese para o nosso contexto de vivência. Assim, afirmamos que nossa espiritualidade e nosso carisma são atuais, e podemos torná-los adequados para nossa situação histórica hoje. Trata-se de algo inerente à nossa fé cristã, que se desenvolve e se encarna em pessoas, circunstâncias e épocas específicas. Trata-se de um seguimento evangélico e de um carisma específico. Isso é o desafio com que nos defrontamos como atual geração de Clarissas. As profundas mudanças na situação social podem constituir uma das causas de crise para a nossa espiritualidade, mas podem ser também um desafio a traduzir para o hoje de nossa história toda a riqueza de nosso carisma, e torná-lo chamativo e atraente para muitas jovens de hoje.

4. As fontes da espiritualidade e do carisma clariano

A experiência de fé que Clara e Francisco viveram é a medula de nossa espiritualidade. E foi na Palavra de Deus, especialmente no Evangelho, que eles encontraram a fonte e a raiz de seu carisma peculiar. Na escuta fiel da Palavra de Deus teve início uma resposta que trouxe atrás de si oito séculos de história de um carisma vivido e encarnado.

Esse é um fato da experiência clariana e um testemunho vivo que chega até nós através de todos quantos conviveram com ela. A experiência de Clara nos mostra que aquilo que a manteve firme na fé e no seguimento foi a capacidade de ouvir o Senhor, na proclamação da Palavra de Deus, nas alocuções e pregações, na vida orante e silenciosa, na contemplação, na partilha da vivência de irmãs. Em Clara, podemos ver precisamente que a Igreja constitui o lugar habitual e necessário para a geração de sua espiritualidade e de seu carisma; a Palavra de Deus lhe veio da vida eclesial, o Evangelho lhe foi dado pela comunidade cristã, especialmente representada pelo ideal de Francisco. E assim, Clara e suas irmãs puderam reescrever uma das mais belas novas páginas de experiência de Igreja, do povo de Deus, no estilo das primitivas comunidades cristãs.

Podemos perceber, através de todos os escritos de Clara, quanto foi importante para o desenvolvimento de sua espiritualidade e do desabrochar de seu carisma o seu contato pessoal com a palavra de Deus, sobretudo com o Evangelho. São numerosas as citações bíblicas em seus escritos, em geral não literais, mas como fruto de uma rememorização, de uma ruminação afetiva. Assim como Clara, para descobrirmos o caminho de nossa espiritualidade, e o modo de colocar nossos dons a serviço da Igreja e da Ordem, precisamos de uma escuta mais pessoal da Palavra. Acima de tudo deve-se destacar que a Bíblia permanece o paradigma e a fonte de toda a nossa espiritualidade clariana, destacando-se sobretudo os Evangelhos, porque a nossa Forma de vida é “viver o Santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo”. Na leitura cristã da Bíblia, os Evangelhos devem ocupar o lugar central. Eles representam para nossa espiritualidade o sentido primordial e mais denso, já que Jesus Cristo é colocado como o espelho e modelo de conformidade. O Evangelho constitui para nós o acesso necessário à humanidade de Deus e a seu conhecimento e seguimento por amor. Uma Clarissa não pode deixar de ler diariamente o Evangelho, meditá-lo, ruminá-lo, nutrir-se dele.

Quando as irmãs se inspiram na Palavra de Deus e por ela pautam sua vida, a profundidade e solidez de nossa espiritualidade cresce, e podemos ver desabrochar os dons que Deus nos concedeu, o nosso carisma. A escuta e o contato periódico, diário, constante, na oração e na contemplação, apresentam uma fecundidade e uma capacidade capazes de gerar uma renovada vivência de nossa espiritualidade. Mais ainda, a partilha da palavra de Deus é a fonte de nossa espiritualidade e constitui um verdadeiro sacramento da presença do Espírito de Jesus entre nós; ler o Evangelho no espírito de discípulas significa encontrar Jesus. Juntamente com a eucaristia, constitui a experiência mais intensa de Jesus na vida cristã e clariana.

Podemos definir ainda como fontes da espiritualidade e do carisma clariano a vida sacramental da Igreja, especialmente a Eucaristia e a penitência; o testemunho da Igreja, a Virgem Maria, os santos e santas, a presença das irmãs e dos irmãos. Para o caminho clariano, as irmãs constituem uma fonte indispensável da espiritualidade. Todas as outras fontes ficariam deformadas se não levassem à prática do amor recíproco, que é a prova decisiva de nosso seguimento de Jesus Cristo e de que vivemos segundo o Espírito (continua).

Endereço da Autora:
Mosteiro Nazaré – Irmãs Clarissas
Av. Papa João XXIII, 1113 – Petrópolis
Lages, SC/BRASIL
88505-200

A segunda e última parte
não está disponível na Internet

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Clara e Francisco: soldados da pobreza

Um novo estudo da historiadora italiana Chiara Frugoni se dedica aos estudos dos santos de Assis.
A reportagem é de Mariapia Veladiano, publicada no jornal La Repubblica, 14-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Por amor, volta-se mais uma vez, e depois de novo, e depois novamente, a frequentar a mesma pessoa, a repassar os lugares dos quais conhecemos cores e sombras, a ouvir novamente palavras que podemos repetir de memória mais do que uma oração cara da infância, em busca daquele núcleo de luz que promete, todas as vezes, um estupor diferente.

Algo de muito semelhante ao amor parece levar Chiara Frugoni a nos presentear agora um novo livro, tecido com paixão em torno daquela história extraordinária que viu São Francisco e Santa Clara juntos em uma aventura espiritual que jamais deixa de falar à nossa vida de homens e de mulheres.

Storia di Chiara e Francesco, publicado nestes dias pela editora Einaudi, vem depois de uma série de artigos, discursos, estudos que Chiara Frugoni já dedicou tanto a São Francisco e Santa Clara, quanto ao "tempo do aproximadamente", como ela gosta de chamar a Idade Média no texto, em que um ano também pode ser o antes ou o depois, quase como uma antecipação do único tempo eterno que São Francisco sabia que era a promessa de Deus ao mundo.

E assim, com a desenvoltura que lhe vem de um conhecimento maravilhoso de documentos, fatos, lugares e pessoas, a autora segue os caminhos de Clara e Francisco ainda não santos (mas por pouco tempo; ambos serão santos logo, dois anos depois da morte). Ele, em espontânea e preciosíssima luta contra os "pensamentos fechados de lucro e ganhos" do seu ambiente familiar, dentro de um clima citadino de forte luta entre a sua classe, a dos “homines populi”, e a classe dos “boni homines”, nobres, poderosos e inacessíveis, "a serem odiados, mas também admirados".

E ela ainda segue Francisco depois da batalha de Collestrada, encerrado na atroz prisão de Perugia, cercado por feridos para os quais "a morte não consegue vir". E depois nos muitos confrontos tremendos e necessários: com o pai, com os concidadãos, consigo mesmo, em uma tempestade de impulsos e abandonos e retornos muito humanos, até à solidão, na qual ele encontra Deus e o homem juntos. Deus para o homem.

E uma nova história nasce, e nada é mais como antes, e Francisco, agora na boa companhia do seu Senhor, mostra com a sua bizarra e jamais vista comunidade de leigos e clérigos e nobres e cultos e iletrados, que o Evangelho pode ser posto em prática, de verdade.

Enquanto isso, Clara menina cresce, e as fontes dizem que muito em breve ela se interessou por aquilo que acontecia em torno de Francisco, até aos encontros com ele, à vocação, à fuga e ao nascimento da sua comunidade em São Damião. Em tudo semelhante à de Francisco: pobre, a serviço dos homens, com a extraordinária novidade das “sorores extra monasterium servientes”, irmãs ativas entre os homens e as mulheres do mundo, testemunhas do Evangelho, como os freis de Francisco, com a mesma liberdade.

Liberdade é a palavra que Chiara Frugoni nos dá como sigla dessa história. Em uma sociedade obrigada à luta pelo poder e pelo dinheiro, os irmãos de Francisco e as irmãs de Clara rejeitavam toda honra, odiavam o poder, suplicavam ao pontífice que conservasse o "privilégio da pobreza". Uma pureza implacável que lhes chegou a partir do Evangelho e que se tornou vontade muito firme de construir "um modelo de comportamento que pacificamente se contrapusesse ao que estava em voga e que pacificamente o tirasse do eixo". Pacificamente, renunciando também à violência implícita em todo julgamento, livres também das santas expectativas: "E no Senhor ama-os. E não pretenda que sejam cristãos melhores", escreveu Francisco a um ministro irmão seu perturbado por aqueles que o acusavam injustamente. Era a época das origens, aliança inimaginável entre terra e céu. Muito em breve veio o tempo das acomodações as quais a história sempre obriga.

Certamente, a leitura ao mesmo tempo rigorosa e combatente de Chiara Frugoni pode fazer nascer algumas críticas, como sempre acontece quando o amor por uma pessoa ou por uma história é compartilhada com muitos. Porque o amor muitas vezes é ciumento.

Talvez seja verdade que o desfecho da história de Clara, a clausura estrita decretada em 1263 por Urbano IV, se assemelhe muito a um fracasso humano. Mas nem sempre os resultados diferentes dos esperados são fracassos. Quem acredita pode reconhecer muito bem, na vida escondida das clarissas, a pobreza subterrânea de uma beatitude igualmente profética.

No entanto, é difícil negar que a batalha pela pobreza tenha sido um verdadeiro fracasso, dado o escândalo que ainda hoje a riqueza da Igreja representa aos olhos do mundo. Porém, aqui também a fé salva da amargura, embora na determinação da verdade a ser afirmada. Eis o que Santa Clara escreveu para Inês da Boêmia, à frente do mosteiro de Praga, a propósito da sua luta comum contra as autoridades religiosas pela defensa do privilégio de ser pobre: "Em rápida corrida, com passo ligeiro e pé firme, de modo que os teus passos não levantem poeira, avança segura, feliz e confiante no caminho de uma felicidade pensativa".

Para ler mais:
Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=49672 acesso em 22 nov. 2011.

sábado, 20 de agosto de 2011

Pedagogia de Santa Clara de Assis

 A palavra Pedagogia tem origem na Grécia antiga:
páidos (criança ) agogé (condução) = processo de aprendizagem, condução de uma criança.
Segundo Paulo Freire, a pedagogia centraliza-se na dimensão do conhecimento, sentimento de aceitação do outro, da interação, da intersubjetividade. A palavra está relacionada com educação= conduzir, guiar,orientar. Educação é, em síntese, um fazer sair, extrair, dar à luz.  
É na relação com o outro que nos humanizamos. Precisamos nos humanizar, que quer dizer: conversão, interação na questão de gênero. São Francisco e Santa Clara são referências de pessoas profundamente humanas, constroem a humanização na relação com o outro.
 A Pedagogia Clariana tem na sua base a experiência concreta vital de Clara de Assis. Uma mulher de coração apaixonado pela vida e pelo Deus da Vida. Precisamos ser apaixonados pela vida para poder encantar. A pedagogia de Clara consiste em uma maneira de ser e se relacionar, e tão importante quanto o conteúdo é como se vive.
Ninguém se torna homem/mulher a não ser pelas relações que mantém no meio ambiente onde veio à luz. O homem/mulher que me tornei por mil encontros em que meu ser homem/mulher foi-se elaborando pouco a pouco.
 “A MUDANÇA, CONVERSÃO PESSOAL, PASSA PELA MUDANÇA DE OLHAR”.
 O olhar é a janela da alma. O jeito de olhar revela o modo, o ângulo, a sensibilidade por meio do qual a alma vê o mundo.  Qual é o meu olhar? Qual é o meu modo de olhar?
Existem vários tipos de olhares:
§  indiferente- que não vê nada
§  objetivante -
§  inquisitor- perigo
§  possessivo- vê objetos 
§  acolhedor
§  comunicativo
§  amoroso
 Isso tudo é um exercício de vida, consequência do que se vive por dentro. Toda a forma de ver passa por um aprendizado. Como Clara: olhe, considere, contemple e deseje imitar/seguir a Jesus.   
CARTAS DE CLARA.
Clara escreveu quatro cartas a Inês de Praga. Isto não quer dizer que foram só estas, podem ter sido mais, mas que se perderam. Nas cartas e escritos de Clara, diferentemente de São Francisco, existe um fio condutor. Ela era uma mulher letrada. Foi ela a primeira mulher a escrever uma Regra de Vida para as Irmãs.
Quem era Inês? Filha do Rei Otocar e da Rainha Constância da Hungria. Foi prometida em casamento a diversos príncipes. Perdeu o pai quando estava prometida em casamento. Começou então a dedicar-se a obras de caridade. Conheceu Clara através dos Freis Menores. Por meio da Igreja foi comunicado que não iria se casar.   
 Nas cartas, Clara é muito pessoal e livre, com uma rica doutrina espiritual. Seu tema é sempre Jesus Cristo (pobre, humilde, esposo, como característica original de Clara). Ela não teoriza, mas fala de sua vivência.
A entrega a Ele é feita em uma virgindade cada vez maior. VIRGINDADE que quer dizer abertura, entrega total ao outro, contemplação, não nega o Amor, mas entrega-o totalmente a Deus. Contemplação e virgindade, um só e único dinamismo.
A doutrina que apresenta em suas cartas, Clara primeiramente a viveu intensamente, não com espiritualismo, mas com espiritualidade. Sua experiência de pobre, de contemplativa, de alegre esposa é vibrante. Seus escritos são concisos, claros e carinhosos.
PRIMEIRA CARTA DE CLARA A INÊS DE PRAGA
Foi escrita antes da grande festa de despedida que a corte real de Praga ofereceu a Inês no dia de Pentecostes, em 1234. Assim começa “A venerável e santa virgem, dona Inês, filha do excelentíssimo e ilustríssimo Rei da Boêmia”.
O motivo que perpassa a carta é a sagrada TROCA feita por Inês. Ela trocou a gloria terrena pela pobreza e privações. Ser esposa se Cristo ao invés de ser esposa de Frederico II.
SEGUNDA CARTA DE CLARA A INÊS DE PRAGA
Clara coloca-se do lado de Inês na luta pelo ideal da pobreza absoluta. O foi condutor da segunda carta é o CAMINHO. “Não perca de vista seu ponto de partida”. Não desviar-se do que quis desde o principio. O único necessário é a identificação com o Cristo POBRE.
Discernimento: “Mesmo que mereça sua veneração, não siga o seu conselho”.
Método de contemplação (atitude de vida que parte dos sentidos): Com o desejo de imitá-lo
OLHE, CONSIDERE, CONTEMPLE- alimentar este desejo, pois só consegue isso quem deseja viver.
 TERCEIRA CARTA DE CLARA A INÊS DE PRAGA
Carta em que Clara dirige palavras de consolo. Provável decepção de Inês à resposta negativa do Papa de viver segundo a forma de vida franciscana. O tema com o qual Clara espera consolar Inês é o da MORADA. Inês é uma morada de Deus.
Orienta sobre o método de contemplação(esforço, desejo, querer, ver o sagrado com ação): colocar-se por inteira, pela contemplação na imagem da divindade. Ela diz: “Não fiques a considerar o não que te foi imposto. Não fiques sempre a pensar que o Papa não te quis atender, mas vê o sim que Deus te fala”.
Também fala da pratica do Jejum como o lado festivo da vida. Superação da limitação humana (sair de si - entrar em si). Jejum é coisa para pessoas sadias, enfermas não devem fazer.
Prudencia: capacidade de discernimento, o que é sensato e o que é insensato em relação ao jejum.
 QUARTA CARTA DE CLARA A INÊS DE PRAGA
O tema central é o do ESPELHO (principio da pobreza). É a carta de despedida. Clara entoa desde já o louvor escatológico definitivo e supremo de Deus. Na carta, percebe-se como, em face da morte, Clara experimente e como procura transmitir a amiga. 
VIRGINDADE
  §  vida de intimidade pessoal com Cristo;
  •   Um completo mergulhar no TU de Deus;
§  um estar totalmente cheio da presença do divino OUTRO;
§  virgindade, não ausência, mas presença;
ESPELHO
§  algo que torna visível uma coisa invisível;
§  Deus só pode ser conhecido em espelho(criação, Jesus Cristo...);
§  o ser humano permanece invisível para si mesmo a não ser que se olhe no espelho;
§  Jesus espelho, visibilizou Deus; 
§  o espelho é toda a vida de Jesus, do nascimento à morte; 
“Olhe dentro desse espelho todos os dias...”
METODO DOS QUATRO PASSOS DE CONTEMPLAÇÃO
PRIMEIRO PASSO:
OLHA – deixa-te atingir pelo Cristo, realidade contemplada. Contemplação é essencialmente intuição, o dom de ver o essencial, ser atingido pelo cerne de uma coisa, de uma pessoa, ser atingido pelo cerne do mistério que em tudo se oculta.
Para olhar é preciso sair de si, focar, voltar todos os sentidos para alguém, para o objeto.
SEGUNDO PASSO:
CONSIDERA – Pergunta pelo significado do que foi intuitivamente conhecido, pelo valor objetivo e existencial do que foi contemplado (entra a razão) compreender conhecer (fazer parte).
TERCEIRO PASSO:
CONTEMPLAÇÃO – é o repousar contemplativo (ver além, o sagrado) naquele que foi reconhecido em seu valor, o olhar que assimila o que possui importância objetiva e pessoal.
QUARTO PASSO:
DESEJANDO IMITAR/SEGUIR – na própria contemplação está contido o passar para a prática. A contemplação precisa aprender a compreender-se como uma ponte para a ação concreta, como imitação/seguimento a Jesus Cristo.
Como eu saio da oração? Como fica meu rosto?
Ser pessoas afetivas, trazendo presente a dinâmica do coração, da vontade, do querer, do desejo, deixando-se afetar.  Clara foi profundamente humana, por isso, profundamente de Deus. 
 RELAÇÃO DE FRANCISCO E CLARA 
            A relação fraterna entre irmãs e irmãos parte da busca, da relação com o outro:
§  A relação fraterna parte da busca, de ir ao encontro. Preciso sair de mim, desejar me encontrar. Quando nos dispomos a sair de nós mesmos e ir ao encontro do outro, não sabemos o que vamos encontrar.
§  Quem não tem mal não tem o que esconder. Francisco e Clara sempre tinham outro companheiro junto para preservarem-se. Nos também devemos manter o devido cuidado.
§  Crescer juntos em vista de um projeto. 
§  A relação fraterna se sustenta por um projeto comum. O que eu quero no encontro com o outro? O que sustenta esta relação? Clara não estava buscando Francisco e sim o Cristo que estava nele. Francisco auxiliou Clara no seu projeto de vida. No encontro com o outro, na dificuldade, como eu lido com isso? Fujo ou aproveito a oportunidade para crescer?  A cruz é necessária para a vida nova. Em minhas relações de amizade que tenho, qual é o projeto comum que temos?Em torno de que estão nossas conversas? Em torno de quem e do que nos relacionamos? O que queremos?  
§  O/a irmã/o, à luz de Francisco e de Clara, se tornam mediações de Deus. Francisco era apoio, coluna, sustentáculo.
§  Relação fraterna necessita do cultivo do segredo, da mística, do bem-querer profundo, que respeita a sacralidade do outro e sua originalidade. Existe hoje uma crise de confiança. Como manifesto o meu amor? Como lido com as palavras de amor ditas? Um amor que tem raízes, que não é superficial. Integração do masculino e feminino.  
 AMAR PARA TORNAR-NOS HUMANAS, FRANCISCANAS, CRISTÃS.
Irmã Marcia Barcarollo

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Clara hoje : uma voz que não se cala

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
Preste atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos foi posto no presépio! Admirável  humildade, estupenda pobreza! O Rei dos anjos repousa numa manjedoura. No meio do espelho considere a humildade, ou pelo menos a bem-aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano. E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela  morrer a morte mais vergonhosa (4ª. Carta a Inês de Praga).

Cada geração é salva pelo santo que a contradiz  (Chesterton).

Dou graças ao Senhor por todas as vezes que, exatamente junto a um mosteiro, desde frade jovem pude fazer a experiência de “cura” recolocando em ordem harmoniosa os valores evangélicos de minha vocação e missão, graças à ajuda das irmãs clarissas.  Muitas vezes pedi hospitalidade em seus mosteiros para dar novo tom espiritual à minha vida. Obrigado a todas vós, irmãs clarissas, por esta função “terapêutica” tão importante para a caminhada vocacional de uma pessoa consagrada (Fr.  Giacomo Bini, OFM, Ex- Ministro Geral).

1. Estamos nos preparando para celebrar em 2012 os oitocentos anos da existência da Ordem das Clarissas. Clara entrou na história ao nascer em 1193 e continua presente no até nossos dias depois de sua morte ocorrida em 1253. Celebrar o centenário das Irmãs Pobres de São Damião é ocasião de revisão da vida das irmãs hoje e tentativa de ver como o carisma de Clara e de suas primeiras companheiras pode enriquecer a vida dos frades, dos franciscanos seculares e do mundo. Constituímos uma família, uma bem-aventurada família, uma família franciscano-clariana. Laços espirituais nos unem e, na reciprocidade de nossos contatos, tornamo-nos espiritualmente mais robustos. O que Clara tem a dizer aos nossos tempos? Como as Irmãs Pobres poderão ser um grupo significativo nesses nossos tempos? Como os franciscanos seculares poderão beber  da fonte que brotou ( e continua jorrando) desse abençoado espaço que se chama São Damião, por onde circulavam Clara de Assis e suas  irmãs? O que tem Clara a dizer aos nossos tempos?

2. O carisma franciscano se completa admiravelmente no binômio Francisco-Clara. Em Carta dirigida às Clarissas por ocasião de outro jubileu da santa, o Ministro Geral dos Menores assim se exprimia: “Irmãs, minha profunda convicção é esta: necessitamo-nos reciprocamente. Mutilaríamos o carisma se caminhássemos separadamente. Não desejamos e não podemos percorrer estradas paralelas. Caminhando unidos, respeitando nossas diferenças, jogamos tudo: a fidelidade a Francisco e a Clara; a eficácia evangélica de nossa missão na Igreja e no mundo; a credibilidade diante daqueles que, hoje como ontem, estão convencidos de que Francisco e Clara são duas almas  gêmeas inseparáveis”.  Admirável e delicadamente feminino e masculino se encontram na busca ardorosa do seguimento do Cristo todo despojado.

3. Os Ministros Gerais da Primeira Ordem e da TOR publicaram Carta por ocasião do jubileu de 2012. As clarissas são as guardiãs do carisma clariano: “Chamadas pelo Espírito a seguir o Cristo pobre, crucificado e ressuscitado, vivendo o santo  Evangelho em obediência, sem nada de próprio e em castidade, vós sois as guardiãs do carisma clariano, mulheres consagradas que interagem com o mundo, contemplando os sinais que o Espírito semeia e difunde na história. Na escuta de Deus, vós falais hoje ao coração dos homens e das mulheres do nosso tempo com a linguagem do amor, cujas palavras se fundam na raiz da existência habitada por Deus” (...). As irmãs saberão conjugar as raízes do passado com a profecia do futuro: “Aos consagrados e consagradas se pede manifestar o absoluto de Deus. Vós, de um modo particular, sois chamadas a viver uma vida fundada sobre os sinais e símbolos que não remetem ao vazio de um estéril doutrinamento, ritualismo ou ativismo, mas que saibam conjugar hoje as raízes do passado e a profecia do futuro: estruturas, sinais e símbolos que simplesmente fazem ver a Deus”. Há, pois, um apelo a que, também, as clarissas sejam fiéis criativamente. O carisma de Clara não pode ser blindado a uma época. O Espirito não se deixa amarrar. Coloca-se sempre essa questão:  Como as clarissas, nesse mundo que é o nosso, saberão unir o passado e o presente?

4. Houve naquela noite do domingo de ramos a fuga noturna de Clara. Ela ouve a voz do Amado que a chama ao deserto. Ela se dá conta que um caminho se abre diante dela. A decisão podia ser tomada, mesmo que comportasse desafios. Estava na hora de sair e procurar uma terra distante como havia feito Abraão, caminhar sem mapa na mão para uma terra que Deus haveria de mostrar. Claire-Pascale Janet, numa biografia original, coloca as seguintes palavras na boca de Clara: “Está decidido. Como esperar mais ainda aquele que se entregou totalmente?  Nesse tempo da Quaresma ouço o convite que ele me faz:  'Vem, eu vou te levar ao deserto para falar ao teu coração, e tu me responderás com todo o teu ser, com todo o teu coração e com todas as tuas forças. Sinto como que uma queimadura o amor que levou Francisco de ruptura em ruptura.  Eis o que eu procuro: a pobreza de Cristo. Um caminho novo diante de meus passos”.

5. Na história de nosso seguimento de Cristo à  maneira de Francisco também deixamos para trás tudo e lançamo-nos na aventura franciscana. Uma quase menina ousa deixar a família, vender os bens, seguir um caminho que lhe é sugerido pelo Altíssimo sem maiores indicações. Acredita, tem fé no Senhor. Vislumbra em Francisco e seus irmãos a porta por onde deve passar. Cada franciscano e cada cristão à luz dessa fuga da nobre Clara iluminará sua própria vocação.  Não se pode apenas dizer-se franciscano mas ir em frente, esperar que o Senhor nos mostre seus desígnios, estar atento à loucura e insensatez do coração e à terrível tentação do desencorajamento e do desencanto. A fuga de Clara leva-nos a rever o modo como estamos vivendo a nossa aventura espiritual. Clara saindo de casa, foi à Porciúncula, depois esteve em São Paulo das Abadias e Santo Ângelo de Panzo... e  São Damião.  E ali, no exíguos espaços de uma clausura  teve um coração de forasteira e peregrina repetindo a ladainha do “queres de mim Senhor?”

6. Hoje vivemos o tempo da pós-modernidade.  Nessa era da liberdade contra as imposições, do respeito pela pessoa, do diálogo, da tolerância  assiste-se também à degradação dos valores absolutos  surgindo a era do vazio e o crepúsculo do dever, como dizem os especialistas. A sociedade dita do vazio é fraca, fragmentada, descontroladamente pluralista, que aplaude os valores como o hedonismo, o uso imediato das coisas e das pessoas,  essa era do relativismo.  Os que contemplam Clara ficam admirados de ver o  modo como ela concebeu a vida, a leitura que faz dos acontecimentos e de amá-los em Cristo.  Clara fascina pela nitidez no seguimento de Cristo e, sobretudo, na busca desse valor absoluto que é o Senhor na incansável busca de seus desígnios.

7. Pobreza  e alegria – Quando Clara escolhe seguir radicalmente o Cristo abandona realmente a tudo: segurança da família, as riquezas e os privilégios de linhagem nobre, o casamento, a possibilidade de ajudar melhor os pobres. Liberta-se de tudo e ganha um coração alegre e livre, aberto e transparente. Nenhum tipo de posse pode cobrir de nuvens sua alegria. A pobreza  de Clara e de Francisco é seguimento radical do Cristo. O caminho de Cristo em sua humilhação é o que revela a Clara  a grandeza da altíssima pobreza. Identificar-se com  Cristo pobre dá acesso à alegria do Reino e a seus tesouros. “Esta é a sublimidade da altíssima pobreza que vos fez, minhas irmãs caríssimas, herdeiras e rainhas do reino dos céus, pobres em coisas, mas sublimadas em virtudes. Seja esta a vossa porção que vos conduz à terra dos vivos” (Regra 8). Clara não canoniza a miséria e a pobreza, mas abraça a pobreza de Cristo. Num mundo que não conhece a verdadeira alegria, mas o ruído e  agitação, num mundo marcado por um consumismo devorador, num mundo insatisfação e de vazio, mundo em que o fundo dos olhos dos homens revelam desencanto Clara brilha como mulher alegre em seu despojamento. A grande maioria dos mosteiros de clarissas tem espaços de beleza na singeleza da  pobreza.  Eis aí uma grande lição!

8. Dirigindo-se às clarissas, os Ministros Gerais escrevem: “Cada fraternidade se torna sinal alternativo nos lugares de opulência e sinal de esperança  entre aqueles que vivem na precariedade, através do testemunho e da própria entrega e da confiança no Pai revelado por Jesus Cristo. Não uma pobreza ideológica ou intelectual, mas um estilo de vida que testemunha a confiança total no Pai, que toma forma no cotidiano da existência. Não faltam de fato no mundo algumas experiências de fraternidades que escolhem testemunhar uma vida extremamente sóbria, para serem solidárias com os pobres e confiarem somente na Providência, viver cada dia da Providência, na confiança de colocar-se nas mãos de Deus” (...).  “Vós nos ajudais a degustar a alegria da liberdade porque, contemplando, vedes  a Deus em cada aspecto da vida. Demonstrais que não seguis  as modas de hoje, que não estais em concorrência com o mundanismo, onde as aparências, a exageração exposição do ego, o individualismo,  a auto-referência colocam na sombra a  obra de Deus. Vós nos contais a vossa história com Deus que se nutre do silêncio, da escuta e da profundidade espiritual”.  A pobreza de Clara e de Francisco atribuem a Deus toda força e todo louvor.  Só ele é o bom, o sumo bem... Só ele é o Senhor.

9. O amor em fraternidade  -  A fraternidade é outra das marcas do carisma clariano. A pobreza brota do Amor. Amor que vem de Deus que une as irmãs, promove a estima pelos de fora, pela criação. Amar aos homens e ao mundo porque  Deus os ama. Para Clara, o sopro do Espírito do Deus-Amor é quem reúne as irmãs em fraternidade para a partilha da vida evangélica sugerida por Francisco. Cada irmã é um presente do amor do Pai e todas constituem a fraternidade para construir a unidade no mútuo amor. O amor verdadeiro é o oposto do individualismo e o egocentrismo. É amor para dar amor. Clara sabe viver o mútuo amor feito de prestações de serviço e da reciproca obediência.  Ela e suas irmãs tinham a consciência de terem sido chamadas a construir uma Igreja viva, construída do amor fraterno, vocação de ser fraternidade, porque o projeto de Deus Pai é criar uma família de filhos e irmãos. Por isso, a fraternidade para Clara será tecida de relacionamentos de  amor que unem as irmãs de um modo familiar, fraterno, materno com uma tão grande profundidade que só pode brotar do Evangelho. “Se uma mãe ama e alimenta a sua filha segundo a carne com quanto mais solicitude não deverá amar e nutrir sua irmã espiritual” (Regra 8).

10. A Fraternidade é o âmbito privilegiado em que se dá testemunho de um Deus que é comunhão na diversidade e diversidade na comunhão. Por isso, a fraternidade será sempre  um elemento irrenunciável do projeto franciscano-clariano. A fraternidade se manifesta em gestos marcados  pelo afeto que mostram uma relação transparente, sem duplicidade, baseada na simplicidade, na familiaridade e no reconhecimento dos dons que Deus deu a cada um. Corações puros como os de Francisco e de Clara são capazes de descobrir com admiração e respeito a obra do Espírito nos outros. “Se a Fraternidade é dom que se acolhe com fé e gratidão é, ao mesmo tempo, uma tarefa e, como tal deve ser construída e guardada. Por  uma lado, edificamo-la em base a relações humanas profundas, através do cultivo das qualidades requeridas em todas as relações humanas. Por outro lado, por ser a Fraternidade um tesouro que trazemos em vasos de barro é necessária guardá-la atentamente. Nesse contexto,  não nos admiramos que Clara faça suas as exortações de Francisco. Quer que as irmãs se guardem de toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo, da detração e da murmuração, da dissenção e da divisão”  (Regra 10).  Será preciso uma colaboração entre o dom de Deus e o esforço pessoal.”.

11. O Ministro José R. Carballo observa ainda: “Para ser uma proposta de vida evangélica, a Fraternidade deve ser autêntica, concreta, íntima. Por esse motivo, ao mesmo tempo que pede às irmãs que uma manifeste à outra com confiança suas necessidades (Regra de Clara 8; cf. Regra Bulada 6), Clara as exorta a manifestar através de obras, o amor que professam: “Amando-vos umas às outras com a caridade de Cristo, demonstrai-vos por fora, por meio de boas obras, o amor que tende por dentro, para que provocadas por este exemplo, as Irmãs cresçam sempre no amor de Deus e na mútua caridade (Testamento 59-60). E se entre elas houve alguma desavença ou algum escândalo, as Irmãs não devem  deixar-se levar pela ira ou pela perturbação, mas devem manter a paz no coração  e apressar-se em perdoar para curar as feridas (cf. Regra 8; cf;. Regra Bulada 6), conscientes sempre do fato de que a unidade no amor mútuo é o vinculo da perfeição” (Regra 10) e que a fraternidade se constrói a preço da reconciliação e do perdão” (Vida Fraterna em Comunidade).  (Clara de Assis e de hoje. Um coração conquistado e seduzido pelo Senhor. No 750º  aniversário da morte de Santa Clara e da aprovação de sua Regra).

12. Vivemos numa sociedade onde impera o egoísmo, temos que reconhecer os efeitos demolidores do individualismo que nos assedia de todos os lados. O amor fraterno de Clara em fraternidade é tão atual quanto necessário. Trata-se de um espírito de família. As irmãs possuem o espírito de amoroso serviço, tentativa de converter o afã de dominação de uns sobre os outros pelo espirito de doação. “Neste mundo  dessolidarizado da pós-modernidade, em que cada um cuida de suas coisas, em que se reivindica a ambiguidade como estilo, em que o hedonismo é tido como valor, onde o homem quer o mínimo de coações e o  máximo de escolhas particulares, o mínimo de austeridade e o máximo de desejo, Clara nos oferece a mensagem do amor em fraternidade, amor solidário com todos os homens, para realizar o projeto de Deus Pai: uma família solidária que viva relacionamentos de amor, que viva o amor na fraternidade” ( El legado carismático de Clara en um mundo postmoderno, Maria del Carmen Elcid , revista  Vida Religiosa, n. 3, 1994, p. 228).

13. O valor do Absoluto - Clara é essencialmente uma grande contemplativa, toda a sua vida consistiu em amar absolutamente, em viver face a face com o Absoluto para ir conformando-se com ele cada vez mais.  Para ela, a oração vivida como um relacionamento esponsal e pessoal é como a respiração da alma, é diálogo de amor, é o querer e realizar as coisas de seu  Amado Jesus. Unida intimamente a Jesus quer apresentar ao Pai toda honra e toda a sua glória. A contemplação foi constante em sua vida. Embora ela não consistisse para ela em fenômenos extraordinários, Clara recebeu iluminações excepcionais a respeito do mistério de Deus. Compreendeu existencialmente o que quer dizer abertura à graça e docilidade ao Espírito. Para poder adorar o Pai em espírito e verdade será preciso cuidar do centro vital do espírito que conecta com o Absoluto: o coração como lugar e diálogo amoroso da frágil criatura com o Deus Altíssimo.

14. A oração é um exercício de amor.  Que as irmãs trabalhem e trabalhem diligentemente. Assim evitarão o ócio que é inimigo da alma. Mas que não percam o espírito da santa oração (cf. Regra 7). Antes de tudo a oração.  Vivendo intensamente esse relacionamento íntimo, Clara não deixou nenhum tratado sobre a oração, não sistematizou seu relacionamento pessoal com o Cristo Pobre. Através de seus escritos, no entanto, descobrimos a contemplativa, a orante por excelência que convida ao silêncio interior e exterior como espaço privilegiado para perceber e acolher o Absoluto.

15. O coração de Clara nunca se saciava. Tanto na saúde quanto na doença, entregava-se à oração. A Bula de Canonização diz que ela consagrava  à oração a maior parte do dia e da noite.  Clara se serve do vocabulário bíblico para descrever a união com Cristo, seu amor esponsal: “Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste!  Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega, até que a tua direita me abrace toda feliz, e me dês o beijo mais feliz de tua boca” (4ª. Carta a Inês).

16. O que é a contemplação?  Frei José Rodriguez Carballo assim fala sobre o assunto: “Partamos de um texto da virgem Clara. A Santa escreve para Inês com o intuito de ensinar-lhe a contemplar. Não lhe pede que fale, cante ou reflita, mas somente que ponha a sua mente, sua alma e seu coração em  Jesus Cristo: “Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da gloria. Ponha o coração na substância da figura divina e transforme-se inteira pela contemplação, na imagem da divindade” (3ª. Carta a Inês  12-13).  Nisso consiste a contemplação: pôr, colocar, ordenar a mente, a alma e o coração que estejam  constantemente “voltados para o Senhor”, como diz São Francisco. Ele, e só Ele, deve ser o centro da capacidade de compreensão (a mente), o centro da capacidade de amar ( o coração) e o centro da capacidade de viver no mundo de Deus ( a alma). Desse modo, a contemplação abarca toda a pessoa” (Carta às Clarissas do  ano de 2006).

17. Pela contemplação de Cristo, Clara se tornou imagem da divindade e com todas as veias de seu coração escrevia a Inês de Praga: “Tomara que você se inflame cada vez mais no ardor dessa caridade, ó rainha do Rei Celeste! Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e honras perpétuas proclame, suspirando com tamanho desejo do coração e tanto amor: Arrasta-me atrás de ti. Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste!  Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega, até que a tua esquerda esteja sobre a minha cabeça, sua direita me abrace toda feliz e me dês o beijo mais feliz de tua boca” (4ª. Carta a Inês, 27-32). Em seus escritos e suas cartas, Clara levanta o véu de sua contemplação marcada pelo ardor do desejo e o experimentar a doçura escondida que Deus revela aos que o amam.

18. Essa centralidade do Absoluto em Clara está em contradição com a época pós-moderna em que busca coisas e satisfações fragmentadas.  Não existe a história, mas acontecimentos isolados. Não existe o absoluto, mas o relativo. Tudo é provisório.  Tudo é parcial.  A vida de oração e, sobretudo de contemplação, é uma contribuição de Clara para os nossos tempos. Essa imersão no Amado lança luz sobre nossa oração tão separada de nossa vida e de nosso projeto de vida, oração tão mecânica e tão pobre. Somos convidados a rever nossa vida de busca do Absoluto. Clara grita aos nossos ouvidos.

Concluindo

A. Clara viveu a aventura de Deus. Entregou-se nas mãos do Senhor. Saiu de casa sem o mapa do caminho.  Entregou-se sem reservas à maneira de Abraão. Ele quer que hoje  questionemos  o “nosso ponto” de partida, a vivência de nossa vocação que haverá de fazer numa entrega irrestrita ao Senhor dentro das condições de seculares que são os terceiros franciscanos e de religiosos que são os frades.  Por sua vida, Clara grita esse testemunho.  Não somos donos de nós. Que o Senhor possa fazer uma obra de arte em cada um de nós! As coisas não estão acabadas.

B. Os franciscanos, sejam eles quais forem, são pessoas despojadas, sem trunfos, sem exigências, sem reivindicações na linha do poder, do prestígio, do ter. Clara e as irmãs de São Damião viviam em total simplicidade e modéstia, viviam de esmolas e, nos começos, as pessoas não eram generosas nas esmolas. Casa modesta, cama modesta, comida modesta,  muitas vezes vida de penúria. Clara ensina os franciscanos da Ordem 1ª a levar a sério o compromisso de pobreza evangélica. Sugere que as Fraternidades Seculares sejam constituídas de pessoas simples, sem pose, sem pompas. Gente que não dá importância às aparências, aos aplausos e todo tipo de superioridade, gente com um estilo de vida pobre. Muitas irmãs clarissas, em nossos dias, vivem realmente a pobreza e espelham a alegria de terem pouca bagagem na caminhada da vida.

C. Ser franciscano é ser cultivador da fraternidade. Desafio constante. Nunca matamos completamente o Caim que existe em nós. Vemos Clara cuidando das irmãs, cobrindo-as no tempo do inverno, acolhendo com carinho as que saíam para esmolar, sendo mãe e irmã. Tudo se passa no exíguo espaço dos lugares de São Damião. O nome verdadeiro das clarissas é o de irmãs pobres. O exemplo de Clara e as observações de sua Regra pedem que nos interessemos mais uns pelos outros, que preparemos cuidadosamente nossos encontros fraternos. Os franciscanos seculares, no momento atual, estão empenhados e rever a qualidade de sua vida fraterna e, de modo particular, a maneira como realizam os encontros fraternos. Clara grita que precisamos  viver o bem-querer concreto.

D. A grande atividade de Clara e de suas irmãs era a da oração: ofício, missa, longas horas de meditação, contemplação da Paixão de Jesus e do Crucifixo bizantino. Clara, como Francisco, pede que as irmãs, no meio de seus trabalhos, não venham a perder o espírito da santa oração. As cartas dirigidas a Inês de Praga nos falam de uma oração de união. Os franciscanos, tanto os seculares quanto os da Ordem 1ª, gostam de passar um tempo junto ao mosteiro das clarissas. Clara está gritando que toda esse nossa correria, esses discursos e essa nossa fala pouco adiantam.  Sentimos que precisamos rever a qualidade de nossa oração.  Não é possível  viver sem saudades do Senhor. Precisa haver lugar em nossas agendas a tentativa, nem sempre fácil, de buscar  o Esposo que não quer partes de nós mas a inteireza de nosso ser.

E. Os Mosteiros de clarissas serão cada vez mais próximos das pessoas, sem que percam o essencial o carisma. Suas liturgias serão eloquentes. Momentos de oração e tarde de retiro podem ser feitos em nossos Mosteiros. Franciscano seculares poderiam melhor haurir as riquezas desses Mosteiros.

F. De toda nossa reflexão ficou claro que os franciscanos e as clarissas precisarão descobrir caminhos novos a serem trilhados.  Não cansamos de repetir que se torna urgente uma fidelidade criativa. Renovar ou morrer.

G. “Hoje somos vítimas de tensões, do “stress”  e da depressão que ameaçam nossa ‘saúde’ espiritual. Talvez uma das tarefas de Santa Clara poderia ser a de ajudar-nos a reencontrar a harmonia dos valores franciscano-clarianos,  a gratuidade e a beleza de nossa vida, sem pretensões de eficiência.  É fácil sermos instrumentalizados  pelas necessidades imediatas e perdermos a visão de conjunto, a capacidade de discernir aquilo que é urgente, daquilo que é necessário;  preocupamo-nos com muitos projetos que programamos ou que nos são propostos pelo mundo consumista em que vivemos e corremos o risco de esquecer o compromisso primário de ser  “projeto de Deus”. Creio que seja urgente, hoje, renovar e continuar a colaboração entre Clara e Francisco para evitar toda forma de “insânia”, de “esquizofrenia”  que destrói a própria vida consagrada”  (Frei Giacomo Bini, OFM).

Clara não reivindicou  para ela e suas irmãs o direito de pregar ou ensinar, mas desejava ardentemente  continuar vivendo em simbiose com os irmãos menores e recusava a ideia de ver a sua comunidade transformar-se em um mosteiro de virgens reclusas e dotadas de rendas;  se parece não ter tido dificuldade em aceitar a estabilidade e a clausura, à semelhança das reclusas, que, aos mesmo tempo que se dedicavam à contemplação, guardavam contato como mundo que as rodeava, Clara sempre recusou ceder no capítulo da pobreza, porque o fato de viver numa precariedade permanente  constituía o ponto sobre o qual  a sua fundação podia, diferenciando-se do monarquismo beneditino clássico, permanecer fiel ao Espírito do Poverello e, através dele,  com as aspirações evangélicas que haviam animado os movimentos leigos do século XI e começos do século XIII.
André Vauchez
Santa Clara y  los movimientos religiosos femininos de su tiempo
Selleciones de Franciscanismo, 1977, vol 26, p. 452

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