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terça-feira, 8 de outubro de 2013

Gigante da teologia


Entrevista com Gustavo Gutiérrez

Ele é um dos pais da teologia da libertação e, por isso, esteve por muito tempo na mira do Vaticano. Agora que Gustavo Gutiérrez foi recebido pelo Papa Francisco e a sua obra foi reavaliada, ele traça um balanço sereno do passado e delineia os desafios do futuro.

Vendo-o tão pequeno e enfraquecido, caminhando aos tropeços, apoiado em uma bengala nos claustros do Seminário Arquidiocesano de Seveso, na província de Milão, é difícil pensar que o padre Gustavo Gutiérrez está na origem causa de um movimento teológico que, ao longo das últimas quatro décadas, motivou a participação de milhares de cristãos nas lutas pela justiça social, perturbou o sono dos poderosos (a ponto de merecer estudos de centros conservadores dos Estados Unidos e conferências especiais dos exércitos de todo o continente americano) e provocou polêmicas na própria instituição eclesiástica, principalmente pela sua suposta dependência do marxismo. Mas quando esse padre de 85 anos abre a boca, logo se entende que nos encontramos diante de um "gigante" do pensamento cristão.
A reportagem é de Mauro Castagnaro, publicada na revista mensal italiana Jesus, de outubro de 2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O "pai" da Teologia da Libertação veio à Itália para participar do 23º Congresso Nacional da Associação Teológica Italiana (ATI) e apresentar, com o arcebispo Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, no Festival de Literatura de Mântua, o livro escrito a quatro mãos intitulado título Dalla parte dei poveri [Do lado dos pobres].

Justamente esse diálogo com Dom Müller e o encontro posterior, no dia 12 de setembro, com o Papa Francisco em Santa Marta, foram definidos como eventos "históricos", porque nas décadas passadas, ao invés, o órgão da Cúria Romana encarregado de vigiar a ortodoxia não tinha mostrado muita compreensão com relação aos teólogos da libertação, emitindo em 1984 e em 1986 duas Instruções, em geral bastante críticas, e censurando de várias formas e medidas alguns autores, como os brasileiros Leonardo Boff e Ivone Gebara, ou o espanhol naturalizado salvadorenho Jon Sobrino.

É a partir do tema da amizade com Dom Müller que começa a longa conversa do padre Gutiérrez com a revista Jesus:

"Eu o conheci em 1988", explica ele, "quando o padre Josef Sayer, à época missionário em Lima e, depois, diretor até o ano passado da Misereor (a agência da Conferência Episcopal Alemã que lida com a cooperação para o desenvolvimento), convidou um grupo de professores alemães para um seminário ao qual me pediu para participar. O professor Müller, que ensinava teologia dogmática em Munique, no fim do encontro, me disse que a discussão lhe havia lembrado a importância da prática, razão pela qual me propôs vir periodicamente ao Peru para dar uma mão como professor. Durante 15 anos, ele sempre passou de três a quatro semanas das suas férias anuais ensinando no seminário de Cuzco, cujos alunos eram índios com uma escolarização muito baixa, e dedicando os fins de semana ao trabalho pastoral nas áreas rurais. Eu não vi muitos professores europeus passarem as suas férias assim! Naturalmente, quando ele se tornou bispo, ele só pôde voltar ao Peru apenas por períodos mais breves. Ao longo dos anos, a nossa amizade cresceu. Em suma, eu penso que ele é uma pessoa intelectualmente muito aberta que teve a simplicidade e a coragem de dizer que a perspectiva libertadora mudou o seu modo de conceber a teologia".
Eis a entrevista.

O senhor acredita que a avaliação positiva de Dom Muller se limite aos seus escritos ou também se estende à Teologia da Libertação como um todo?

Eu nunca lhe perguntei, e, com efeito, quando ele fala da teologia da libertação, ele logo me cita. Mas eu posso imaginar, sem me equivocar muito, que a sua avaliação não diga respeito apenas à minha reflexão, porque as posições de nós, teólogos da libertação, são essencialmente as mesmas, e eu nunca o ouvi criticar outro autor.

A Teologia da Libertação tentou reler a mensagem evangélica e a reflexão cristã "a partir do pobre". Nas últimas décadas, a partir do seu tronco, nasceram filões teológicos que tentam fazer o mesmo, mas "a partir da mulher", "a partir do índio", "a partir do homossexual" etc... O O que o senhor pensa?

Sempre me pareceu importante dispôr de uma noção global, que para mim era a de "insignificante", porque é possível ser insignificante por falta de dinheiro, mas também pela cor da pele ou pelo fato de falar mal a língua dominante em um país, como ocorre no Peru para a metade indígena da população. Quando eu falo dos "pobres", portanto, eu não me refiro apenas àqueles que têm uma renda baixa, mas também "a quem não conta, não tem peso social", quem é marginalizado ou esquecido.

Já no livro Teologia da Libertação, eu falava também de etnias e culturas desprezadas, além, sobretudo a partir de 1975, da mulher, tanto que o documento final da II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Puebla, no México, em 1979, retomou um texto meu que fala dela como "duplamente oprimida, enquanto pobre e enquanto mulher". Eu não aprofundei muito essa reflexão, porque sobretudo as teólogas fizeram isso, e não era necessário repetir o que elas dizem. A teologia feminista deriva da experiência da mulher, e isso me parece importante, me interessa muito. Mas não é uma teologia só para as mulheres, porque ela tem uma dimensão universal.

O Frei Betto frequentemente enfatiza que, na última década, na América Latina, subiram ao governo líderes ligados idealmente à "opção pelos pobres" e à Teologia da Libertação. Como o senhor avalia essa referência?

Eu desconfio muito dessas identificações. Certamente, o presidente do Equador, Rafael Correa, tem uma educação cristã, tendo estudado em Louvain com o padre François Houtart, conheceu o nosso mundo e fez referência a ele. Ao mesmo tempo, é um economista com as suas ideias. E o chefe de Estado de El Salvador, Mauricio Funes, mencionou muitas vezes Dom Romero, que, além disso, é um símbolo para todo o país. Os líderes políticos têm todo o direito de citar essas referências, porque isso significa que, para eles, são significativo, e isso me alegra.

A Igreja – eu falo da Igreja, porque as ideias que se atribuem à Teologia da Libertação também estão presentes também nos documentos do episcopado latino-americano – motivou, embora não sozinha, o interesse pela política pelos pobres, a justiça, os direitos humanos, e muitas pessoas se identificaram com a teologia da libertação, mas ela não é um clube ou um partido político no qual nos inscrevemos! Por isso, eu não acho que se possa dizer que um presidente da República esteja ligado a ela. Eu não tenho dúvidas – e isso me agrada – que a Igreja latino-americana nos últimos 40 anos influenciou muito a sociedade.

E, por outro lado, quanta repressão por parte dos governos foi motivada na luta contra a teologia da libertação! Portanto, ela está presente no ambiente político, para melhor ou para pior, mas há outros fatores que influem. Muitos anos atrás, um jornalista de Barcelona me pediu uma opinião sobre a revolução sandinista que tinha triunfado na Nicarágua, definindo-a de "obra de pessoas ligadas à Teologia da Libertação". Eu objetei dizendo que eu pensava que havia elementos mais importantes da teologia da libertação: se na Nicarágua houve uma revolução, isso se deve, acima de tudo, à violência e à injustiça da ditadura dos Somoza. Não devemos perder o senso de proporção! A Teologia da Libertação certamente motivou muitas pessoas, mas não se pode atribuir a ela todas as ações. Eu me alegro que ela tenha uma influência: faz-se teologia para mudar este mundo! Mas não é verdade que a América Latina mudou por seu mérito.

Há algum tempo o senhor está trabalhando sobre a questão do pluralismo religioso. Qual é a sua posição a respeito?

É um tema muito importante, sobre o qual eu estou refletindo há anos. Eu participei de vários encontros sobre o diálogo inter-religioso, mas nunca vi representantes das religiões animistas africanas, tão difundidas naquele continente, ou das indígenas da Amazônia, mas somente das "grandes religiões mundiais", ou seja, o Islã, o xintoísmo, o hinduísmo, o judaísmo, que tem relativamente poucos adeptos, mas é muito importante etc. Parece-me que isso não está certo se queremos construir uma hipótese científica sobre as religiões que seja convincente. O diálogo inter-religioso é muito interessante, mas para participar dele basta ter respeito pelos outros.

O problema real diz respeito à teologia das religiões, e se trata do estatuto de Cristo como salvador único e universal. Desagrada-me dizê-lo, mas eu penso que nenhuma teoria até agora elaborada pela comunidade teológica é satisfatória, e chama-me a atenção que Paul Knitter, que eu conheço bem e tem refletido e escrito sobre isso muito mais do que eu, no seu último livro, diz mais ou menos o mesmo, isto é, que o que produzimos até agora ainda são aproximações, e as hipóteses atuais só desfizeram um pouco a névoa.

Em particular, a tripartição "exclusivismo – inclusivismo – pluralismo", que até foi útil em um certo momento, me parece superada, até porque as posições existentes entre os teólogos não podem mais ser remetidas a essas três categorias. É preciso ter a modéstia de admitir que devemos aprofundar ainda o tema no plano teológico, o que, contudo, não é condição prévia para o diálogo com as outras religiões, indispensável para nos conhecermos. Sobre tudo isso eu também falei com o padre Jacques Dupuis, eu eu vi sofrer por causa das incompreensões por parte da Igreja. Dupuis morreu triste, depois de ter sido tratado muito mal...

Maltratado como o senhor...

Sim, eu também, em um certo momento. Mas depois aprendi que não é preciso perder o senso de humor, uma virtude que ajuda a não nos sentirmos o centro do mundo ou um exilado perene, a não nos levarmos muito a sério, e que impede que nos amarguremos. Eu gosto muito de rir e acredito que isso me ajudou nos momentos difíceis. É preciso seguir em frente, sem se sentir indispensável: até porque a reflexão teológica teria continuado mesmo sem mim. No entanto, eu nunca fui objeto de um processo, mas sim de um diálogo, mesmo que eu tenha tomado conhecimento dele quando ele já tinha iniciado!

Com que espírito o senhor viveu aqueles momentos em que percebia a desconfiança da hierarquia contra o senhor?

É desagradável ouvir que você é definido como "alguém que se infiltrou na Igreja para destruí-la". Que alguém diga que não está de acordo é normal, mas aquela acusação era maluca! A controvérsia, além disso, tinha uma forte dimensão midiática no Peru; nela se envolviam bispos e personalidades políticas. Eu dialoguei muito, não convenci ninguém das minhas posições, mas talvez eles perceberam que aquilo que acreditavam sobre mim não era verdade. Em Roma, onde são mais cultos, eles entenderam mais e me perguntaram sobre o marxismo só na primeira vez. Depois se concentraram em questões mais propriamente teológicas.

Foi um caso que durou diversos anos, até que, em 2004, o cardeal Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, escreveu um breve texto para dizer que o diálogo tinha concluído de modo satisfatório: não tinham encontrado nada de errôneo. Foi um mau momento, não só para a relação com Roma, mas também para a situação no Peru. Mas eu sou teimoso e constantemente busquei que me explicassem o mérito das críticas, porque isso também serve para os outros, em vez de me submeter sem discutir ou então romper o diálogo.

A eleição do Papa Francisco e o seu desejo de "uma Igreja pobre para os pobres" levou muitos a falar de "revanche" da Teologia da Libertação. O que o senhor pensa? E quais seriam os desafios diante do novo papa em sua opinião?

O papa ama os pobres porque leu o Evangelho e o compreendeu. Pode até ser que ele conheça a teologia da libertação e, se ela o ajudou a aproveitar essa importante perspectiva cristã, melhor! Mas o desafio dos pobres está há muito tempo presente no horizonte da Igreja, senão não se entenderia o martírio que temos experimentado na América Latina, começando por bispos como Enrique Angelelli, na Argentina, Óscar Romero, em El Salvador, e Juan Gerardi, na Guatemala. Construir essa "Igreja pobre para os pobres" é uma grande aposta.

E que consequências ela tem?

Dizer que a pobreza é um grande desafio para a Igreja implica em fazer mudanças. Por exemplo, deve-se afirmar com maior força em cada país a necessidade de que as necessidades dos pobres sejam a principal preocupação política, mesmo que sem propor programas concretos, porque isso cabe à sociedade civil e política. E o problema da pobreza não se reduz ao aspecto econômico, mas envolve, por exemplo, a diversidade cultural, como é evidente no Peru, onde a maioria da população tem raízes indígenas. As situações variam de país para país, e as propostas devem ser muito concretas. Estou convencido de que assumir a perspectiva dos últimos muda o comportamento dos cristãos. Sempre se fala da América Latina como de um "continente católico", mas essa imensa pobreza põe dúvida que ela o seja realmente, porque a nossa fé não se reduz a cumprir algumas obrigações religiosas, que têm pouco sentido se não são acompanhadas pela luta pela justiça. Todos os cristãos deveriam compartilhar o compromisso com a dignidade das pessoas, com os direitos humanos.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Francisco de Assis soube imitar o Senhor Jesus



Rev. Edson Cortasio Sardinha

            Francisco de Assis teve seu encontro com o Evangelho na prisão da Perúsia em 1202, talvez com 20 anos. Começou seu caminho de encontro com o Jesus pobre.
            Ele era filho do comerciante Pedro Bernardone e percebeu que em vida Jesus não teve nada.
            O Senhor Jesus nasceu em um estábulo, que foi emprestado. Jesus montou em um burrico, que foi emprestado. Jesus realizou o milagre da multiplicação dos peixes e pães, que foram emprestados. Jesus pregava em vários locais emprestados. Jesus usou um barco emprestado. Jesus não teve nada deste mundo. Tudo foi emprestado.
            Francisco entendeu que o Senhor Jesus, sendo o Todo-Poderoso Deus, foi um simples homem na terra: um Homem que nasceu e cresceu em uma humilde aldeia, que trabalhou como um modesto carpinteiro até os 30 anos, que somente durante os três anos seguintes pregou sua mensagem. Nunca escreveu um livro. Nunca exerceu qualquer cargo. Nunca teve um lar próprio depois de adulto. Nunca constituiu família. Nunca frequentou uma universidade. Nunca a planta dos seus pés pisaram uma grande cidade, exceto Jerusalém. Nunca fez alguma coisa que pudesse aparentar grandeza. Nada teve em comum com este mundo, exceto o simples poder de sua singular personalidade. Esta descoberta marcou a vida de Francisco de Assis.
            Francisco se apaixonou pelo Senhor Jesus e se converteu.
            Desejou viver como o Senhor Jesus: abriu mão de tudo e viveu alegremente a vida terrena evangelizando e cantando a alegria de ser pobre como o Senhor.
            Morreu no dia 04 de outubro de 1226.
            Antes de morrer pediu com muita insistência que fosse retirado da cama e colocado na grama. Desejava sentir a natureza, que Cristo criou, pela última vez.
            Morreu cantando: Seja Bem-vinda irmã morte!
            Francisco descobriu um grande Tesouro e deu toda sua vida por Ele.

            Foi realmente feliz porque conseguiu viver integralmente para o Senhor Jesus.  

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

POR QUE EXISTE O MAL NO MUNDO? É POSSÍVEL UM MUNDO SEM O MAL?


POR QUE EXISTE O MAL NO MUNDO? É POSSÍVEL UM MUNDO SEM O MAL?


O “mistério da iniquidade” ou o mal que está no mundo, ao que parece, quer torna-se uma espécie de obstáculo para um melhor entendimento da fé, do amor, da verdade, da bondade e do justo relacionamento da humanidade com Deus. Ora, mas isto se dá porque racionalmente não entendemos porque Deus, que se nos revela em suas obras, tão magnânimo e perfeito, permite que o mal, como que se sobressaia, à margem de sua vontade e perfeição. De fato, se procurarmos por nós mesmos e em nós mesmos respostas para as indagações referentes ao mal, nunca chegaremos ao entendimento desse intento sem acreditarmos que o Sumo Bem, que é Deus, vence sempre todo e qualquer mal que há. Logo, precisamos nos manter unidos ao Senhor, por meio de Seu Filho, Jesus Cristo, que é Deus-conosco, para vencermos o mal que está no mundo, e extirpá-lo totalmente pela raiz.

Certa feita, uma jovem me procurou e disse: “Frei, eu não creio em Deus, e daí?”. Ao que respondi: querida irmã, seja sempre uma pessoa pura de corpo e alma; nunca minta nem faça o mal a ninguém, perdoe a todos que lhe ofenderem; seja humilde e nunca uma pessoa arrogante; seja justa com todos e faça o bem a todos; não julgue e não condene ninguém. Depois de ouvir-me, ela disse: “Ah! Frei, mas isso é muito difícil de praticar”. Então, jovem, lhe respondi: é por isso que você não crê em Deus. Pois, crer em Deus é amá-lo acima de todas as coisas, é obedecê-lo em tudo; é tratar bem a todos, até mesmo os inimigos; é seguir os passos de Jesus Cristo todos os dias aonde Ele nos conduzir; é ser fiel ao Senhor, pondo nele toda nossa confiança; e orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo.

Caríssimos, as Sagradas Escrituras nos dão milhões de razões para permanecermos fiéis e inabaláveis na luta contra o mal. Aliás, elas nos dão todas as razões necessárias para isto. Porque, na verdade, estamos em meio a uma batalha espiritual tremenda, a mesma que Jesus travou contra os seus algozes e nos ensinou como lutar para vencê-los, sem jamais nos afastar do amor e da misericórdia do Senhor que nos mantêm seguros na vida por sua presença e por suas graças inefáveis que tanto precisamos nessa luta. Vejamos: Deus nos criou “à sua imagem e semelhança” para vivermos em comunhão com Ele, o Sumo Bem de nossa vida (cf. Gen 2,4b-17). Assim, compreendemos que Deus nos criou para o bem e somente para o bem; criou-nos por amor e somente para o amor, e nunca para o ódio ou para o mal (cf. Mt 5,44-48). E mesmo os homens pecando e se afastando dos desígnios do Senhor, Ele não nos deixou à mercê de nossos pecados, mas enviou seu Filho amado, Jesus Cristo, para nos resgatar e voltarmos ao seu projeto original, um mundo sem pecado onde a verdade, o amor, a bondade, a paz e a felicidade permanecerão para sempre; e que o mal que hora ocorre à margem de sua vontade, não exista mais nem mesmo na lembrança dos redimidos. “É como está escrito: “Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou” (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam”. (1Cor 2,9).

Por isso, nunca dê atenção ao pecado de ninguém, mas permaneça na comunhão com o Senhor pela obediência aos seus mandamentos, pela vida de oração, principalmente pela comunhão eucarística, para termos uma vida sem pecados, ou seja, repleta das virtudes eternas. Assim Ele se faz sempre presente aonde quer que estejamos e com quem quer que estejamos; pois deligar-se de Deus, pela desobediência aos seus mandamentos, é dar chance ao mal para que este nos destrua, e isso não nos convém. Com efeito, escreveu São Paulo: Acaso não sabeis que os injustos não hão de possuir o Reino de Deus? Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus. Ao menos alguns de vós têm sido isso. Mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados, em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus. Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma”. (1Cor 6,9-12).

Portanto, posso afirmar sem medo de errar, tudo o que Deus criou é bom, belo e perfeito. Não viver o que somos é se pôr à margem da vontade divina, é desligar-se do Senhor por uma vida de pecados e desiquilíbrios, pois quando pecamos somos vítimas de nossos próprios erros e desenganos, porque pecar é não amar a Deus e muito menos nossos semelhantes nem as outras suas criaturas. Enfim, agora podemos responder por que o mal existe no mundo; porque, mesmo sendo uma obra prima de Deus, Lúcifer (o anjo decaído) decidiu ser mal, isto é, desligar-se de Deus, e levar consigo milhões de seres angelicais e humanos que a ele se aliarem pela prática nefasta dos mesmos erros que cometeu, afastando-se totalmente de Deus.

Ora, mas como o mal é mal, por si mesmo se destrói. Quanto a essa terra que o encerra (cf. Apo 12,7-9), na verdade, está destinada ao fogo eterno que renovará todas as coisas. É como está escrito: Entretanto, virá o dia do Senhor como ladrão. Naquele dia os céus passarão com ruído, os elementos abrasados se dissolverão, e será consumida a terra com todas as obras que ela contém. Uma vez que todas estas coisas se hão de desagregar, considerai qual deve ser a santidade de vossa vida e de vossa piedade, enquanto esperais e apressais o dia de Deus, esse dia em que se hão de dissolver os céus inflamados e se hão de fundir os elementos abrasados! Nós, porém, segundo sua promessa, esperamos novos céus e uma nova terra, nos quais habitará a justiça. Portanto, caríssimos, esperando estas coisas, esforçai-vos em ser por ele achados sem mácula e irrepreensíveis na paz”. (2Ped 3,10-14).

Paz e Bem!


Frei Fernando Maria,OFMConv.
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Terni, onde os judeus oram a São Francisco


Códice do convento "La Romita" apresenta trechos da "Lenda umbra", que conta a história de alguns judeus que invocam a intercessão do santo para salvar uma criança cristã

Roma, (Zenit.org) | 114 visitas

A herança franciscana presente no território da Úmbria meridional vai sendo descoberta progressivamente. E ela consiste não apenas em mosteiros, conventos e obras de arte, mas também nos manuscritos, atas notariais e outras fontes importantes para a compreensão da história de São Francisco de Assis e da sua posteridade.

La Romita, Cesi
Entre esses testemunhos, foi reconhecido nos últimos anos o especial valor do códice do mosteiro de "La Romita", de Cesi, que agora é conservado na Biblioteca de Terni com a numeração 227bis. Nas folhas 231 a 241, ele contém alguns textos litúrgicos para a festa de São Francisco. Essa liturgia inclui a leitura de passagens que ilustram a vida e os milagres do santo de Assis, tomadas, neste manuscrito, da chamada “Lenda umbra”, obra escrita por volta do ano 1240, em que é narrada a história de alguns judeus que invocavam a proteção e a intercessão de São Francisco para salvar uma criança cristã.

Na cidade de Capua, um menino que brincava às margens do rio Volturno com vários companheiros caiu na água por imprudência. A correnteza o engoliu rapidamente e o enterrou na lama, morto. Aos gritos das crianças que brincavam com ele, muitos homens e mulheres apressaram-se para ver o que tinha acontecido à beira do rio, e, ao notarem que a criança tinha se afogado, clamavam chorando: "São Francisco, São Francisco, devolve esta criança ao seu pai e ao seu avô, que labutam a teu serviço!".

O pai e o avô da criança, de fato, tinham dado o melhor de si ao trabalhar com devoção em uma igreja dedicada a São Francisco. Enquanto o povo invocava repetidamente os méritos do bem-aventurado Francisco, um nadador que estava longe, ouvindo os gritos, se aproximou.

Sabendo que a criança tinha caído no rio havia já um longo tempo, depois de invocar o nome de Cristo e de confiar-se aos méritos do bem-aventurado Francisco, ele tirou a roupa e mergulhou nu no rio. Não sabia onde era o lugar exato em que o menino tinha caído e começou a inspecionar aleatoriamente as margens e o leito do rio. Por vontade divina, encontrou finalmente o lugar onde a lama tinha coberto o cadáver da criança, como se fosse uma tumba. Ao desenterrá-lo,confirmou com grande dor que ele estava morto. A multidão reunida, mesmo vendo o menino morto, não parava de clamar: "São Francisco, devolve a criança ao seu pai!". Alguns judeus que estavam ali, movidos por um senso natural de compaixão, também clamavam: "São Francisco, devolve a criança ao seu pai!".

Comovido com a devoção das pessoas, como se depreende do resultado final, o beato Francisco escutou as orações e a criança morta ressuscitou. E enquanto todos se alegravam e ao mesmo tempo permaneciam atônitos, a criança tornada à vida pediu em súplicas para ser levada até a igreja de São Francisco. Ouvindo isso, todos louvaram a Deus que, através do seu servo, tinha-se dignado operar tão grande milagre.

Este códice, facilmente acessível aos estudiosos, mas de acesso difícil para o público em geral, está exposto até 26 de outubro na mostra iconográfica e documental “Louvado sejas, meu Senhor - Seguindo os passos de Francisco de Assis”, na Biblioteca Municipal de Terni, na Itália.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

“A corte é a lepra do papado”, afirma Francisco

Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/noticias/524255-a-corte-e-a-lepra-do-papado acesso em 2013-10-01

O jornal La Repubblica, 01-10-2013, publica entrevista que o Papa Francisco concedeu ao jornalista Eugenio Scalfari. Eugenio Scalfari, que escrevera duas cartas a Bergoglio, e que foram respondidas pelo próprio papa, agora aceitou o convite do jornalista, fundador e primeiro diretor do jornal La Repubblica.
A tradução é da IHU On-Line.

Eis a entrevita.

Disse-me o papa Francisco: “O mais grave dos males que afligem o mundo nestes anos é o desemprego dos jovens e a solidão em que são deixados os idosos. Os idosos necessitam de cuidado e de companhia. Os jovens precisam de trabalho e esperança, mas não têm nenhum dos dois. Diga-me: pode-se viver jogado fora do presente? Sem memória do passado e sem desejo de projetar-se no futuro construindo um projeto, um futuro, uma família? É possível continuar assim? Isto, segundo me parece, é o problema mais urgente que a Igreja tem pela frente”.

Santidade, lhe digo, é um problema sobretudo político, diz respeito aos Estados, aos governos, aos partidos, às organizações sindicais.

Eugenio Scalfi
Sem dúvida, o senhor tem razão, mas diz respeito à Igreja, sobretudo à Igreja, porque esta situação não fere somente os corpos, mas também as almas. A Igreja deve sentir-se responsável tanto pelas almas quanto pelos corpos.

Santidade, o senhor diz que a Igreja dever ser responsável. Devo deduzir que a Igreja não está consciente deste problema e que o senhor a incita nesta direção?

Em grande medida, existe a consciência, mas não o bastante. Eu desejo que ela seja maior. Não é somente este problema que temos pela frente, mas é o mais urgente e o mais dramático.

O encontro com o Papa ocorreu na terça-feira passada, na sua residência de Santa Marta, numa pequena sala, austera, com uma mesa e cinco ou seis cadeiras, um quadro na parede. Foi precedida por um telefonema que não mais esquecerei enquanto eu estiver vivo.
Eram duas e meia da tarde. Tocou o telefone, e a voz um pouco agitada da minha secretária me disse: “O Papa está na linha e o passo imediatamente”.

Surpreso, ouço imediatamente a voz de Sua Santidade do outro lado da linha, que diz:

“Bom dia, sou Papa Francisco.”

Bom dia, Santidade – digo, e depois – estou surpreso. Não esperava que me telefonasse.

Por que surpreso? O senhor me escreveu uma carta pedindo para me conhecer pessoalmente. Eu tinha o mesmo desejo e aqui estou para agendar o encontro. Vejamos a minha agenda: quarta-feira não posso, nem segunda-feira. O senhor pode na terça?

Respondo: “Sim, está ótimo!”

O horário é um pouco incômodo. Às 15h, pode ser? Se não puder, mudamos o dia.

Santidade, o horário está ótimo.

Então, estamos de acordo: terça-feira, 24, às 15h. Em Santa Marta. O senhor deve entrar pela porta do Santo Ofício.

Não sei como concluir este telefonema e lhe digo: posso abraçá-lo pelo telefone?

Sem dúvida, lhe abraço igualmente. Depois o faremos pessoalmente. Até logo.
Agora estou eu aqui. O Papa entra e me dá a mão. Sentamos. O Papa sorri e me diz:
Alguns dos meus colaboradores que lhe conhecem me disseram que o senhor tentará me converter.
É uma anedota e lhe respondo. Também os meus amigos pensam que o senhor quer me converter. Ele sorri e responde:

O proselitismo é uma solene besteira (una solene sciocchezza), não tem sentido. É preciso que nos conheçamos, nos escutemos e cresçamos no conhecimento do mundo que nos circunda. Acontece comigo que, depois de um encontro, tenho vontade de fazer outro, porque nascem novas ideias e se descobrem novas necessidades. Isto é importante: conhecer-se, ouvir, ampliar o horizonte dos pensamentos. O mundo é feito de estradas que nos aproximam e distanciam, mas o importante é que nos levem para o Bem.

Santidade, existe uma visão única do Bem? E quem o estabelece?

Cada um de nós tem uma visão do Bem e também do Mal. Devemos incitar a proceder para aquilo que ele pensa que seja o Bem.

O senhor, Santidade, já o escrevera na carta que me endereçou. A consciência é autônoma, dissera, e cada um de nós deve obedecer à própria consciência. Penso que aquela seja uma das passagens mais corajosas ditas por um Papa.

E o repito. Cada um de nós tem uma ideia do Bem e do Mal e deve fazer a escolha de seguir o Bem e combater o Mal como o concebe. Isto bastaria para melhorar o mundo.

A Igreja o está fazendo?

Sim, as nossas missões tem este objetivo: individuar as necessidades materiais e imateriais das pessoas e buscar satisfazê-las da maneira como podemos. O senhor sabe o que é “ágape”?

Sim, sei.

É o amor pelos outros, como Nosso Senhor o pregou. Não é proselitismo, é amor. Amor pelo próximo, fermento que serve o bem comum.

Ama o próximo como a ti mesmo.

Exatamente assim.

Jesus na sua pregação disse que o ágape, o amor pelos outros, é o único modo de amar a Deus. Corrija-me caso esteja errado.

Não está errando. O Filho de Deus se encarnou para infundir nas almas dos homens o sentimento da fraternidade. Todos irmãos e todos filhos de Deus. Abba, como ele chamava o Pai. Eu lhes indico o caminho, dizia. Segui e encontrareis o Pai e sereis todos seus filhos e Ele terá a sua complacência em vocês.

O ágape, o amor de cada um de nós por todos os outros, do mais próximo aos mais longínquos é, precisamente, o único modo que Jesus indicou para encontrar o caminho da salvação e das bem-aventuranças.

Contudo, a exortação de Jesus, recordamos anteriormente, é que o amor pelo próximo é igual ao que temos a nós mesmos. Portanto, o que muitos chamam de narcisismo é reconhecido como válido, positivo, na mesma medida do outro. Discutimos longamente a este respeito.

A mim – dizia o Papa – a palavra narcisismo não agrada, indica um amor desfocado para si mesmo e isto não é bom, pois pode produzir graves problemas não somente para alma de quem é afetado mas também na relação com os outros, com a sociedade em que vive. O verdadeiro problema é que os mais atingidos por isto, que na realidade, é uma espécie de distúrbio mental, são pessoas que têm muito poder. Muitas vezes os chefes  (“i Capi”,no original) são narcísicos.

Também muitos chefes da Igreja foram narcísicos.

Sabe o que penso sobre isto? Os chefes da Igreja muitas vezes foram narcísicos e excitados pelos seus cortesãos. A corte é a lepra do papado.

A lepra do papado. O senhor falou precisamente assim. Mas que corte? O senhor alude, por acaso, à Cúria?, perguntei

Não, na Cúria há, às vezes, cortesãos. Mas a Cúria na sua complexidade é uma outra coisa. É a que nos exércitos se chama de intendência, gere os serviços que servem a Santa Sé. Mas tem um defeito: é Vaticano-cêntrica. Vê e cuida dos interesses do Vaticano, que são ainda, em grande parte, interesses temporais. Esta visão Vaticano-cêntrica descuida do mundo que nos circunda. Não compartilho com esta visão e farei tudo para mudá-la. A Igreja é e deve voltar a ser uma comunidade do povo de Deus e os presbíteros, os párocos, os bispos estão a serviço do povo de Deus. A Igreja é isto, uma palavra, não por acaso, diferente da Santa Sé que tem uma função importante mas está a serviço da Igreja. Eu não teria a fé plena em Deus e no seu Filho se não fosse formado na Igreja e tive a sorte de me encontrar, na Argentina, numa comunidade sem a qual não teria consciência de mim e da minha fé.

O senhor percebeu a sua vocação desde jovem?

Não, não muito jovem. Tive que trabalhar, ganhar algum salário. Fiz a universidade. Tive uma professora que aprendi a respeitar e se tornou minha amiga, era uma fervorosa comunista. Muitas vezes me lia e me dava para ler textos do Partido Comunista. Assim conheci também aquela concepção muito materialista. Recordo que me fez ver o comunicado dos comunistas americanos em defesa de Rosenberg que foram condenados à morte. A mulher de que estou falando foi presa, torturada e morta pelo regime ditatorial da Argentina.

O comunismo o seduziu?

O seu materialismo não me seduziu. Mas conhecê-lo por meio de uma pessoa corajosa e honesta me foi útil. Compreendi algumas coisas, um aspecto social, que depois encontrei na doutrina social da Igreja.

A teologia da libertação, que o papa Wojtyla excomungou, era bastante presente na América Latina.

Sim, muitos dos seus expoentes eram argentinos.

O senhor acha que foi certo que o Papa os combatesse?

Sim, porque davam um seguimento político à teologia. Mas muitos deles eram crentes e com um alto conceito de humanidade.

Santidade, permita-me que lhe diga algo da minha formação cultural? Fui educado por uma mãe muito católica. Aos 12 anos venci uma disputa de alunos de catequese feita entre várias paróquias de Roma e ganhei um prêmio do Vicariato. Comungava sempre nas primeiras sextas-feiras, enfim, praticava a liturgia e acreditava. Mas tudo mudou quando entrei no liceu. Li, entre outros textos de filosofia que estudávamos, o “Discurso do Método” de Descartes e fiquei impressionado pela frase, que se tornou icônica, “Penso, logo existo”. O ‘eu’ tornou-se, assim, a base da existência humana, a sede autônoma do pensamento.

Descartes, no entanto, nunca negou a fé do Deus transcendente.

É verdade, mas tinha posto o fundamento de uma visão totalmente diferente e me encaminhou depois, corroborado por muitas outras leituras, e me levou à outra margem.

O senhor, no entanto, se entendi bem, é não crente mas não um anticlerical. São duas coisas muito diferentes.

É verdade, não sou anticlerical, mas me torno quando encontro um clerical.

O Papa sorri e me diz:
Também me acontece isto. Quando encontro um clerical me torno anticlerical de vez. O clericalismo não deveria ter nada a ver com o cristianismo. São Paulo, que foi o primeiro a falar aos Gentios, aos pagãos, aos crentes em outras religiões, foi o primeiro a nos ensinar isto.

Posso lhe pedir, Santidade, quais são os santos que lhe estão mais próximos da sua alma e quais lhe ajudaram a formar a experiência religiosa?

São Paulo é aquele me colocou os eixos da nossa religião e do nosso credo. Não se pode ser cristãos conscientes sem São Paulo. Traduziu a pregação de Cristo numa estrutura doutrinária que, apesar dos aggiornamentos de uma imensa quantidade de pensadores, de teólogos, de pastores de almas, resistiu e resiste depois de dois mil anos. E depois Agostinho, Bento e Tomás e Inácio. E, naturalmente, Francisco. Devo lhe explicar porquê?

Francisco – seja-me permitido, a esta altura, chamá-lo assim, porque é ele mesmo que o sugere pelo que fala, sorri, por suas exclamações de surpresa ou de partilha, me olha como que me encorajando a lhe fazer perguntas mais escabrosas e mais complicadas para quem guia a Igreja. Assim, lhe pergunto: De Paulo explicou a importância e o seu papel, mas gostaria de saber quais foram, entre os que foram citados, sente mais próximos da sua alma?

O senhor me pede uma classificação, mas estas podem ser feitas se falamos de esporte ou de coisas análogas. Poderei lhe citar os melhores jogadores de futebol da Argentina. Mas os santos...
Mas não quero evadir a sua pergunta. O senhor não me pediu uma classificação sobre a importância cultural e religiosa mas quais santos estiveram mais próximos da minha alma. Então lhe digo: Agostinho e Francisco.

E não Inácio, ordem a qual o senhor pertence?

Inácio, por razões compreensíveis, é aquele que conheço mais do que os outros. Fundou a nossa Ordem. Recordo-lhe que desta Ordem também era Carlo Maria Martini que me é muito caro assim como ao senhor. Os jesuítas foram e ainda são o fermento – não os únicos mas, talvez, os mais eficazes – da catolicidade; cultura, ensino, testemunho missionário, fidelidade ao Pontífice. Mas Inácio fundou a Companhia, era também um reformador e um místico. Sobretudo um místico.

E o senhor acha que os místico são importantes para a Igreja?

Foram fundamentais. Uma religião sem místicos é uma filosofia.

O senhor tem uma vocação mística?

O que senhor acha?

Parece-me que não.

Provavelmente o senhor tem razão. Adoro os místicos. Também Francisco, por muitos aspectos da sua vida foi místico, mas eu não acredito que tenho esta vocação. Mas é preciso que nos entendamos sobre o significado profundo desta palavra. O místico consegue despojar-se do fazer, dos fatos, dos objetivos e até da pastoralidade missionária e se eleva até atingir a comunhão com as Bem-aventuranças. São momentos breves mas que preenchem a vida inteira.

Para o senhor isto nunca aconteceu?

Raramente. Por exemplo, quando o Conclave me elegeu Papa. Antes da aceitação pedi para me retirar por alguns instantes no quarto que fica ao lado do balcão sobre a praça. A minha cabeça estava completamente vazia e uma grande ânsia me invadira. Para fazê-la passar e me relaxar, fechei os olhos e todo e qualquer pensamento desapareceu. Também aquele de recusar o encargo como o resto do procedimento litúrgico seguinte. Fechei os olhos e não mais tive nenhuma ânsia ou emotividade. A um certo ponto, uma grande luz me invadiu. Durou um instante mas me pareceu algo longuíssimo. Depois a luz se dissipou. Levantei-me e me dirigi até a sala em que me esperavam os cardeais e a mesa sobre a qual estava o ato de aceitação. Assinei-o, o cardeal camerlengo o assinou e depois foi o momento do “Habemus Papam”.

Permanecemos alguns momentos em silêncio e depois disse: falávamos dos santos que o senhor sente mais próximos da sua alma e ficamos em Agostinho. Pode me dizer porquê o sente mais próximo de si?

Também o meu predecessor tem em Agostinho o seu ponto de referência. Esse santo passou por muitos eventos na sua vida e mudou várias vezes a sua posição doutrinária. Teve também palavras muito duras no confronto com os hebreus, que eu nunca compartilhei. Escreveu muitos livros e aquele que me parece mais revelador da sua intimidade intelectual e espiritual são as “Confissões”. Elas contêm algumas manifestações de misticismo, mas ele não é, como muitos sustentam, o continuador de Paulo. Ele vê a Igreja e a fé no mundo de uma maneira profundamente diferente de Paulo, talvez porque quatro séculos os separam.

Qual é a diferença, Santidade?

Para mim, em dois aspectos, substanciais. Agostinho se sente impotente de fronte à imensidade de Deus e às tarefas que um cristão e um bispo deveriam realizar. No entanto, ele não foi impotente, mas na sua alma se sentia sempre como estando abaixo do que deveria e quereria fazer. E depois da graça dispensada pelo Senhor como elemento fundante da fé. Da vida. Do sentido da vida. Quem não é tocado pela graça pode ser uma pessoa sem mácula e sem medo, mas não será nunca uma pessoa tocada pela graça. Esta é a intuição de Agostinho.

O senhor se sente tocado pela graça?

Isto não se pode saber. A graça faz parte da consciência, é a quantidade de luz que temos na alma, não de sabedoria nem de razão. Também o senhor, sem o saber, poderia estar tocada pela graça.

Sem fé? Não crente?

A graça diz respeito à alma.

Eu não creio em alma.

Não crê mas tem.

Santidade, o senhor dissera que não tinha nenhuma intenção em me converter e creio que não conseguiria.

Isto não se sabe, mas, contudo, não tenho nenhuma intenção em lhe converter.

E Francisco?

É grandíssimo porque é tudo. Homem que quer fazer, quer construir, funda uma Ordem e as suas regras, é itinerante e missionário, é poeta e profeta, é místico. Constatou nele mesmo o mal e o superou. Ama a natureza, os animais, a erva do campo e os pássaros que voam no céu, mas sobretudo ama as pessoas, as crianças, os velhos, as mulheres. É o exemplo mais luminoso daquele ágape de que falávamos antes.

O senhor tem razão, Santidade. A descrição é perfeita. Mas por que nenhum dos seus predecessores escolheu o nome de Francisco? E, segundo me parece, nenhum outro o escolherá depois do senhor?

Isto não sabemos. Não hipotequemos o futuro. É verdade, antes nenhum o escolheu. Aqui afrontamos o problema dos problemas. O senhor quer beber algo?

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Viver de forma franciscana

J. B. Libanio
Setembro de 1999
                  
J. B. Libanio, S.J.
                   A festa de São Francisco toca-nos fundo no coração. Ele é o santo da ecologia e dos pobres. Duas lições para os dias de hoje. Num mundo voltado para o consumismo desvairado, Francisco de Assis ensina-nos a sobriedade. Podia viver na opulência, mas optou pela simplicidade.

                   Há uma felicidade no dinheiro, na riqueza, no consumo dos bens materiais? O Antigo Testamento não apresenta o rico como um abençoado de Deus? Ele não promete bens materiais em abundância a seu povo escolhido? Então, por que colocar restrições ao desejo de posse? Será que tanta gente que batalha a vida inteira para melhorar suas condições materiais está equivocada? Não parecemos, às vezes, a mãe daquele soldado que se vangloriava de que o seu filho era o único que marchava corretamente e todo o batalhão estava com o passo errado? Qual é a relação entre riqueza e felicidade?

                   A felicidade não é uma realidade absoluta, igual e objetiva, identificada com determinada coisa. Ela depende dos momentos, não só da vida de uma pessoa como do processo cultural. Portanto, a felicidade tem forte traço psico-individual e psico-social cultural. A criança sente-se feliz com muitas coisas que não dizem nada para um adulto. As pessoas em momentos da história vivenciaram a felicidade em realidades que já não nos satisfazem hoje. Além disso, uma mesma realidade assume expressões diferentes segundo a cultura.

                   A riqueza, como expressão de dignidade, de respeito, de generosidade, enchia o coração da nobreza. Hoje a riqueza é vista mais em função de seu poder aquisitivo material ou de influência social. Já não tem a mesma aura de dignidade que em tempos aristocráticos.

                   Com a evolução cultural e afetiva das pessoas, não sem influência dos conhecimentos psicológicos, sociológicos e teológicos, a riqueza perdeu muito de seu fascínio. Cada vez mais as pessoas valorizam as relações afetivas que nenhum dinheiro compra. Mais: a excessiva riqueza pode transformar-se em fonte de terrível frustração. Os ricos são procurados, não pelo seu valor pessoal, mas pelo que eles têm. Fica-lhes o amargor de não serem amados por eles mesmos. Temem os interesseiros, os bajuladores, os amigos de ocasião. Desconfiam de quem se aproxima. Sofrem da terrível solidão de quem não alimenta amizades gratuitas.

                   À medida que as pessoas vão crescendo espiritualmente, apreciam cada vez mais as alegrias menores da vida e percebem que o ter não acrescenta nada ao ser. O sorriso cheio de carinho de uma criança vale mais que os ganhos nas bolsas de valor. A riqueza exige muito tempo, desgaste de energia, preocupações para conservá-la, aumentá-la. E para o coração sobram pouco tempo e escassa energia.

                   Por ocasião da nababesca festa de aniversário da Sasha, o psiquiatra Christian Gauderer observava que tais extravagâncias não fazem a felicidade das crianças. O excesso  de luxo e fantasia pode criar um adolescente dependente e deprimido. Diz também que atende adolescentes que tiveram na infância todos os luxos e hoje  estão deprimidos e revoltados  com os pais.

                   Se dinheiro fizesse a felicidade, os adolescentes ricos deveriam ser sadios e alegres. E ei-los presos a suas depressões. Muitos se entregam ao alcoolismo e às drogas. O ser humano é carente de afeto. Ingrediente absolutamente necessário para a felicidade que nenhuma riqueza supre.

                   Os bens materiais estão aí para traduzirem amor, mediarem relações pessoais, criarem situações afetivas e lúdicas gostosas. Toda vez que as impedem, tornam-se fonte de infelicidade, tristeza e morte. Os homens da Bíblia falavam da riqueza de maneira positiva somente porque a experimentavam como sinal da bondade de Deus e porque ela lhes permitia ser pessoas de bem. Jesus avança essa reflexão e inverte o sinal. Para ele, a felicidade reside na simplicidade, na sobriedade, na liberdade interior diante dos bens materiais. Nesse sentido, a figura de Francisco de Assis torna-se para nós uma das expressões mais acabadas do espírito das bem-aventuranças.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Trânsito de São Francisco

Frei Dorvalino Fassini, OFM

Há entre nós franciscanos um costume muito antigo: a celebração do Trânsito, isto é da morte, de São Francisco. Ela acontece na véspera de sua Festa, isto é, na noite do dia 3 de outubro. Chama-se Trânsito porque para nós a morte é nada. Não existe. O que existe é apenas uma passagem, um - trânsito - para nossa verdadeira pátria, nossa origem e fim: o mistério do Deus trino e uno, cheio de amor misericordioso. Mas, por que se faz essa celebração?
Capela n. 20: Morte de São Francisco.
Sacro Monte di Orta, Piemonte, Itália
Entre outros motivos é para ver, admirar e acolher a maneira inaudita, sumamente evangélica e feliz de Francisco enfrentar a morte. Segundo os seus biógrafos, quando percebeu que a morte estava se aproximando exclamou: “Bem-vinda, irmã Morte! Depois, pediu aos Irmãos que lhe cantassem o Cântico das Criaturas que ele mesmo havia composto dois anos antes. Mas, agora, ele acrescentou esse verso: “Louvado sejas meu Senhor pela irmã a morte corporal, da qual homem algum pode escapar!”
E, como, desde sua conversão, foi um fiel imitador de Cristo, quis também ele fazer uma última ceia com seus irmãos. Por isso, pediu que lhe trouxessem um pão. Depois de tê-lo abençoado repartiu-o entre os Irmãos como sinal do amor de Cristo para com eles e, para que assim, nesse amor também eles continuassem vivendo.

         Finalmente, também, como Cristo, depois de ter exortado os Irmãos a permanecerem fiéis na observância do Evangelho, exclamou: Filhos, estou sendo chamado por Deus. A meus Irmãos, tanto presentes como ausentes, perdôo todas as ofensas e culpas e os abençôo tanto quanto posso, exterior e interiormente. Adeus, meus filhos, vivei sempre no temor do Senhor. Eu me apresso a ir para a casa do Senhor, para o meu Deus e vosso Deus.
Foi assim que Francisco partiu desta vida passageira para a vida eterna.
A maneira de fazer a celebração desse Trânsito varia muito. Mas, de modo geral, ela tem como centro a leitura e a mediação de um trecho das Fontes Franciscanas que testemunham esse comovente momento da vida de Francisco. Em certas fraternidades, inclusive, esse relato é acompanhado de uma encenação ao vivo, tornando, assim, ainda mais expressivo e comovente o espírito alegre, esperançoso e fraterno de Francisco enfrentar a irmã morte, despedindo-se dos seus e desse mundo.
Em louvor de Cristo crucificado e de seu servo e nosso irmão Francisco.

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