Extraído de
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/504945-sao-francisco-spread acesso em 13 dez. 2011.
Francisco exigia
dos seus contemporâneos uma maior equidade e uma maior solidariedade,
dois princípios que as oscilações da bolsa e dos especuladores estão nos
fazendo esquecer. As riquezas que cotidianamente vemos se desagregar
não são as únicas: desagrega-se a sociedade.
A análise é de Chiara Frugoni, historiadora italiana, especialista em Idade Média e história da Igreja. O artigo foi publicado no caderno Alias, suplemento do jornal Il Manifesto, 11-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
São Francisco e
Enrico Scrovegni,
duas pessoas divididas no tempo: Francisco morreu em 1226, com pouco
mais de 40 anos; Enrico, em 1336, com 70 anos. Divididas sideralmente no
modo de definir suas próprias vidas, mas unidas pelo fato de terem
dedicado muito do seu tempo ao dinheiro; o primeiro, em rejeitá-lo, e
rejeitando com isso toda forma de propriedade, porque possuir um bem –
dizia Francisco – implica a necessidade da espada, da violência, para
defendê-lo; o segundo, em querer fazê-lo crescer espasmodicamente. A
Igreja deu uma resposta diferente aos seus desejos.
Foi-lhe mais fácil aceitar o ponto de vista de
Scrovegni, e o papa de então,
Bento XI,
era um grande amigo de Enrico, que pretendia seguir os passos de
Joaquim, o pai de Maria, agradável a Deus porque dividia as riquezas, um
terço para si, um terço para os pobres e um terço para o Templo.
Recíprocas conveniências naquela época, recíprocas conveniências hoje?
A
Igreja,
uma Igreja rica e profundamente envolvida nos jogos políticos deste
mundo, encontrou-se em dificuldades, ao contrário, para aceitar a
proposta de vida cristã de
Francisco.
Inocêncio III,
ao qual o futuro santo se dirigiu, foi tentado a rejeitá-la. Cedeu
quando lhe foi indicado que rejeitá-la seria equivalente a rejeitar o
Evangelho e o seu autor,
Cristo.
O olhar de
Francisco,
todavia, diante das opressões e das vexações dos poderosos, não foi um
olhar quieto, de quem considera que é dever do homem pecador suportar
aflições e desigualdades para adquirir a vida eterna. Francisco, usando
apenas as palavras do Evangelho, elaborou um modelo desestabilizador
para os destinatários aos quais foi proposto, continuando a professar
obediência à Igreja e na mais completa ortodoxia.
Os afrescos de
Giotto em
Pádua, na capela de
Enrico Scrovegni,
sempre foram considerados pelos historiadores da arte como uma obra
desejada pelo contratante para expiar os pecados de usura próprios e do
pai,
Rainaldo, enfiado por
Dante no
Inferno, entre os usurários (Inferno XVII, 64-70). Os afrescos – onde um espaço particularmente amplo é dedicado aos pais de
Maria, os ricos e piedosos
Joaquim e
Ana,
dois personagens não presentes nas Sagradas Escrituras – proclamam, ao
contrário, quão agradável a Deus é o bom uso da riqueza e do dinheiro
prudentemente empregado para o próprio bem-estar e para obras de
caridade. A capela Scrovegni, que se tornou igreja, não por acaso, se
intitula
Santa Maria da Caridade.
Enrico Scrovegni,
como demonstra o seu testamento, não se mostra, de fato, como um
pecador arrependido, ao contrário. Os afrescos ostentam o sucesso
pessoal do contratante que quer pilotar o consenso urbano – até
transformá-lo em gratidão – para o magnífico mecenas. As riquezas são um
mérito para se comprar o
Paraíso.
Pessoalmente,
Enrico Scrovegni certamente
não desdenhou o fato de emprestar sob penhor, mas foi acima de tudo um
grande financista. Uniu os patrimônios de irmãos e irmãs, e pôs de pé um
banco de família e, como habilíssimo homem de negócios, sustentou,
empobrecendo-a, a cidade de
Pádua, comprometido com um vasto programa de construção nas maiores igrejas da cidade.
Enrico socorreu
a cidade com empréstimos ingentes, mas com uma taxa de juros moderada,
empréstimos seguros pela via dos impostos que a entidade recebia e para
as suas ingentes propriedades. A cidade de
Pádua embolsava,
mas não conseguia melhorar os seus orçamentos, obrigada a se endividar
cada vez mais com Enrico Scrovegni. Um círculo vicioso, o precursor da
nossa dívida soberana, de um lado, e da falsa compensação de bons juros
que o cidadão recebe se assinar títulos de Estado, compensação que
obriga o próprio Estado a continuar endividando-se para honrá-lo.
Naquele tempo, pelo menos a Igreja podia ameaçar o Inferno para quem se
enriquecia emprestando dinheiro; e as pessoas, que realmente acreditavam
no Inferno, encontrava nessa punição ultraterrena motivo de satisfação,
mesmo que a desforra se projetasse no além. Existiam os culpados de
carne e osso.
Quem são os culpados hoje? Os banqueiros das agências de
rating,
os mutáveis humores dos mercados, o imaginário coletivo do medo?
Entidades incognoscíveis, sobre as quais é impossível expressar
condenações tangíveis.
Justamente porque
Scrovegni sabia
que não gozava daquela perfeita boa fama à qual tanto estimava (quase
certamente desejaria em um futuro imediato "entrar em campo", ter um
peso político na cidade), na capela, ele tomou algumas precauções para
que a sua pessoa não se conectasse negativamente ao dinheiro. Por
exemplo, à virtude da
Caridade,
Giotto não contrapõe, como de costume,
Avareza, mas sim
Inveja.
Na cena de
Cristo que afugenta os mercadores do templo, há toda a fúria do
Redentor que
derruba os bancos dos emprestadores, mas não se veem as moedas caídas
no chão. Judas é representado como traidor por ser presa do demônio,
seguindo Lucas 22, 1-6, mas não como avarento.
Giotto teve o cuidado de não mostrar o dinheiro que passa de mão em mão no encontro secreto da venda de Cristo.
No arco triunfal da capela, à esquerda (imagem ao lado),
Judas discute
com os sumos sacerdotes, enquanto aperta o saco cheio das moedas
invisíveis: a sua sombra é o próprio demônio que agarra por trás a presa
da qual repete o aguçado perfil. À direita (imagem abaixo), ao
contrário,
Maria abraça sua prima
Isabel: Maria aguarda o nascimento de
Cristo, e Isabel, o de
João Batista.
Anne Derbes e
Mark Sandon, em
The Usurers' Heart, de 2008, baseando-se em uma passagem do dominicano
Remigio de' Girolami, contemporâneo de
Giotto, que contrapôs o pecado contra a natureza da usura (da qual logo falarei) ao parto contranatural de
Maria – já que, depois de ter dado à luz
Cristo, Maria permaneceu virgem –, consideram que o programador dos afrescos quis contrapor
Judas e
o seu pecado a Maria. Segundo os Atos dos Apóstolos, 1, 18, Judas não
morreu enforcado, mas "arrebentado pelo meio, espalhando-se todas as
suas vísceras", porque antigamente se considerava que o ventre dos
possuídos era a sede dos demônios que, com a morte, se retiravam do
corpo.

Giotto
representou Judas no Juízo Universal enforcado, sim, mas com os
intestinos espalhados e sem a bolsa no pescoço, como, ao contrário,
outros avarentos condenados têm.
Eis, portanto, segundo os dois autores,
Judas e
o seu estéril parto de espíritos imundos, morrendo; eis, no momento da
traição, a bolsa de dinheiro que se parece com um útero (sic!), o ouro
que gera ouro; eis a grande caridade no encontro com
Isabel, o fértil ventre da Virgem que gera
Cristo. Judas representaria a "concreta admissão de culpa" de
Enrico e
Rainaldo; a divina gravidez da
Virgem, a remissão do pecado da usura.
Com efeito, na especulação filosófica da
Escolástica,
a usura era considerada um pecado contra a natureza, porque o dinheiro
paria dinheiro, enquanto, obviamente, só os organismos naturais podem
ter prole. Ainda o
Decretum de
Graciano, notabilíssima coleção de textos de direito canônico, de cerca de 1180, asseverava:
"Ex ipso auro aurum nascitur", a usura faz nascer o ouro do ouro.
Alessandro Bonini, teólogo e ministro franciscano ativo enquanto
Giotto estava
no trabalho, explicava: "Por usura, entende-se quando o ouro gera ouro.
E o ouro cresce dentro da usura assim como através da fecundação e o
parto". Vozes da
Idade Média que chegam até nós hoje com fresca e perversa atualidade.
Só a cerrada e parcial aproximação textual proposta por
Derbes e
Sandon e não a aproximação visual dos afrescos cria, no entanto, um laço entre a gravidez de
Maria e a metafórica de
Judas, que "pare" através dos intestinos vazados.
Remigio de' Girolami, depois, apresenta uma substancial diferença entre o usurário e
Judas, e em favor de Judas, porque Judas se arrependeu, e o usurário, ao contrário, não se arrepende nunca, nem enquanto se confessa.
As
reflexões medievais partiam de um conceito não mais compartilhável por
nós: já que o tempo pertence a Deus, como é possível vender o tempo
dando-lhe um preço, o tempo que não pertence ao homem? Portanto, quem
restitui um empréstimo deve devolver a mesma soma, sem acrescentar os
juros.
Considerava-se ainda que o dinheiro devia corresponder
apenas a um trabalho ou a um bem tangível, enquanto o ouro que gera ouro
é um mecanismo autorreferencial que premia quem possui o dinheiro,
porque tem o mérito ou a sorte de possuí-lo e, possuindo-o, se enriquece
passivamente às custas dos mais fracos.
São Francisco reagiu a tudo isso e, de sua parte, decidiu não levar isso em conta.
Francisco era
filho de um mercador de tecidos, riquíssimo usurário. Ao longo do
tempo, amadureceu pelo dinheiro um verdadeiro horror e decidiu que ele e
seus companheiros abririam mão dele. Manter-se-iam trabalhando, nos
campos, nas casas, como artesãos, no serviço do próximo, dos camponeses,
dos doentes e dos pobres que, nos hospitais, nos leprosários, ao longo
das estradas, esperavam a morte. Os freis aceitariam como compensação
apenas o alimento para sobreviver. Rebaixados em uma sociedade em que
era o dinheiro que regulava o acesso aos bens, os freis, banindo o seu
uso, rejeitavam conceder-lhe uma função em suas vidas.
Não
entravam no sistema dos vínculos e dos favores, das gratificações e das
doações, não contraíam nenhuma dívida de gratidão com relação à caridade
alheia. Mas, se
Francisco e os seus freis,
trabalhando, eram autônomos e bem sabiam argumentar e rebater, os pobres
estavam sozinhos, portanto incapazes de se expressar. Francisco e os
freis falaram então também por eles e, acolhendo-os na comunidade como
irmãos, anunciaram aos marginalizados que eles não estavam mais sem
direitos.
Francisco, que compartilhava as ideias
econômicas do seu tempo, considerava que a quantidade de dinheiro e de
riqueza no mundo era estável e que não poderia aumentar. No explosivo
capítulo IX da
"regola non bollata" (uma regra operante, embora
sem a aprovação oficial da bula, do selo pontifício), ele formula um
apelo não violento, mas, a seu modo, revolucionário. Ele não fala de
caridade, mas de
justiça.
Francisco explica
que não é preciso apelar ao bom coração dos cristãos para que, a seu
critério, façam a caridade, considerando-se guardiões da moral pública.
Os ricos, ao contrário, são obrigados a restituir aos pobres parte
daquilo que possuem (em certo sentido, é aquilo que, há mais de um mês,
ouvimos se agitar no debate político como "redistribuição da riqueza"!).
Depois
do pecado dos Progenitores e dos seus descendentes imediatos, rompe-se a
justa distribuição dos bens, e a avidez dos ricos retira dos pobres os
meios para sobreviver. Deus, imensamente rico, encarnando-se, fez-se
homem e pobre, recebendo de esmola aquilo que já era seu por direito
divino. Desse modo, Cristo reafirmou que os pobres devem poder
participar da "mesa do Senhor".
"E a esmola – escreve
Francisco – é a herança e a justiça que é devida aos pobres; o Senhor nosso Jesus Cristo adquiriu para nós".
Francisco,
portanto, exigia dos seus contemporâneos uma maior equidade e uma maior
solidariedade, dois princípios que as oscilações da bolsa e dos
especuladores estão nos fazendo esquecer. As riquezas que cotidianamente
vemos se desagregar não são as únicas: desagrega-se a sociedade.