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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Os ''sans-culottes'' franciscanos

A comunidade cristã das origens é sinal da possibilidade histórica, e não mera tensão escatológica, do ideal de pobreza na e para a Igreja pregado por Francisco.
A opinião é de Marco Rizzi, professor de literatura cristã antiga da Università Cattolica del Sacro Cuore, em artigo publicado no caderno La Lettura, do jornal Corriere della Sera, 05-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Há alguns dias, durante o show de Patti Smith na Villa Arconati, uma aranha se empoleirou no microfone da cantora. O assistente que havia se precipitado a removê-la da frente, com um gesto ameaçador, se sentiu intimado, porém, a não fazer nenhum mal a ela. Ao contrário da grande parte dos seus colegas do star system, o respeitoso pânico pelas criaturas, incluindo aracnídeos, não deriva em Patti Smith de alguma filosofia oriental, aprendida mais ou menos de segunda mão, mas sim de uma intensa frequentação com São Francisco e os seus textos.

Na última coletânea (Banga. Believe or explode, Columbia Records), destaca-se uma longa reading, Constantine's dream, o sonho de Constantino, inspirada no célebre afresco de Piero della Francesca na Igreja de São Francisco, em Arezzo. O sonho do imperador se torna o da cantora, que reza com Francisco, pinta com Piero, acompanha Constantino na batalha vitoriosa, antes, e Colombo, depois, na descoberta da América, para concluir na noite apocalíptica do século XXI, em que "se dissolve na luz o sonho do rei angustiado"; no pano de fundo – em italiano –, as palavras da "oração simples" apocrifamente atribuída a Francisco.

Muitos leitores poderiam ficar totalmente perplexos pela aproximação de Francisco ao imperador da reviravolta que fez do cristianismo a religião do Império Romano e, ainda mais, à conquista da América, viagem sinônima de todos os imperialismos, na ida e – sobretudo – na volta.

Mas décadas de investigação histórica demoliram a imagem um pouco tola e protoecologista do santo de Assis, substituindo-a por um retrato de uma personalidade e de uma história de força e complexidade bem diferentes: em Francisco, o problema da natureza se liga estreitamente ao da pobreza e torna-se central a distinção, que se tornaria fonte de todos os conflitos posteriores com a autoridade eclesiástica, entre uso e posse, entre uma relação com os bens da criação fundamentada no compartilhamento ou na apropriação.

No entanto, Francisco tornou-se principalmente objeto, imprevisto e um pouco paradoxal, de uma série de reflexões em âmbito filosófico e político, que fazem dele o portador de uma "revolução" oposta e alternativa a toda forma de poder e de imperialismo, que representaria a versão atual da instituição eclesiástica que extinguiu a inspiração franciscano original.

Começou com Toni Negri, que em Império (Ed. Record) não teve escrúpulos em escrever como, na época pós-moderna, nos encontramos exatamente na mesma situação de São Francisco e, assim como ele, à miséria do poder, podemos contrapôr a alegria do ser: "É uma revolução que nenhum poder poderá controlar. Nisso consiste a irreprimível clareza e a irreprimível alegria de ser comunista".

Menos ingenuamente, Massimo Cacciari (Doppio ritratto. San Francesco in Dante e Giotto, Ed. Adelphi) recorre à categoria de "profecia radical" para identificar a essência da mensagem do santo (mas a contracapa sabe que, para intrigar os leitores, é preciso falar justamente de "revolução franciscana"); uma mensagem traída pelos seus dois sumos divulgadores no plano literário (Dante) e visual (Giotto), no momento em que se esforçam para reportá-lo às condições comuns da existência humana para comunicá-lo ao auditório universal.

Do mesmo modo, os projetos religiosos, teológicos ou políticos que, nos séculos posteriores, se remeteriam a Francisco nunca o representariam plenamente, da mesma forma, aliás, que o modelo cristológico de Francisco (o Jesus do esvaziamento de si, a kenosis) resistiria, segundo Cacciari, "além de todo cristianismo".

Ainda mais radical é a abordagem de Giorgio Agamben, que, denunciando o abandono do legado mais precioso do franciscanismo, identifica uma tarefa decisiva e indeferível para o Ocidente: pensar uma vida humana "totalmente subtraída das presas do direito e um uso dos corpos e do mundo que nunca se substancie em uma apropriação". Em tudo isso, porém, a mensagem de Francisco não teria mais nada a ver com o cristianismo, muito menos com a Igreja. O velho ditado anarquista "a cada um segundo suas necessidades, de cada um segundo suas capacidades", torna-se no neofranciscanismo anômico de Agamben "pensar a vida como aquilo de que nunca se detém a propriedade, mas apenas um uso comum".

Esse, no entanto, já era o programa da primeira primeira comunidade cristã descrita no quinto capítulo dos Atos dos Apóstolos. Sem esse precedente, de natureza estritamente eclesiológica, nem mesmo a referência direta ao modelo de Cristo faria sentido para Francisco: a comunidade das origens é sinal da possibilidade histórica, e não mera tensão escatológica, do ideal de pobreza na e para a Igreja pregado por Francisco.

Na verdade, quem havia inaugurado uma saída "franciscana" para a crise do pensamento marxismo havia sido ainda a publicação, desejada por Paolo Pullega no início dos anos 1980, de uma coleção de escritos de Gyorgy Lukács anteriores à reviravolta marxista, significativamente intitulada Sulla povertà di spirito [Sobre a pobreza de espírito] (Ed. Cappelli, 1981), em que a referência era a Francisco como o primeiro que havia procurado a pobreza, ao invés de sofrê-la. Nisso, Lukács via uma analogia ao esforço de essencialização da revolução abstratista na pintura.

Dois anos antes, em setembro de 1979, Patti Smith havia concluído a primeira fase da sua carreira com um memorável concerto em Florença, no clima sombrio e sobre-excitado pelo terrorismo, pelas tensões sociais e pelas utopias revolucionárias que percorriam a Itália nos últimos instantes dos anos 1970.

Ela mesma recorda: "Antes de iniciar, eu coloquei uma fita com a voz de João Paulo I que falava às crianças, e o vaiaram. A terceira sinfonia de Beethoven, segundo movimento, e a vaiaram". Como ela costumava fazer, então, começou o concerto mandando o seu irmão tremular a bandeira norte-americana.

Foi um triunfo. Grande parte do público de então sonhava com a revolução, a verdadeira: algumas décadas depois, intelectuais pensativos redescobriram a revolução de Francisco; alguns, também, a norte-americana.

PARA LER MAIS:
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28/04/2012 - São Francisco, o incompreendido
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