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segunda-feira, 24 de maio de 2010

A Conversão de Francisco de Assis


A Conversão é uma ação do Espírito de Deus no Espírito humano. A restauração espiritual parte de Deus. Ele que opera na vida do homem e da mulher.

Mas o homem precisa desejar esta transformação.Precisa buscar. Ouvir a voz de Deus e se deixar transformar por ela.

Assim ocorreu com Francisco. Existe um texto biográfico chamado “Relato de três companheiros de São Francisco de Assis”
§§ 7-8 que revela o Início da conversão de São Francisco.

Certa noite, depois do seu regresso a Assis, os companheiros do jovem Francisco elegeram-no como chefe do grupo. Com tantas vezes tinha feito, mandou então preparar um suntuoso banquete. Depois de saciados, saíram todos e percorreram a cidade, a cantar. Os companheiros, em grupo, iam à frente de Francisco; este, empunhando o bastão de chefe, fechava o cortejo, um pouco mais atrás, sem cantar, mergulhado nos seus pensamentos. E eis que, de súbito, o Senhor lhe aparece, enchendo-lhe o coração de uma doçura tal, que ele ficou sem conseguir falar, sem se mexer [...].

Quando os companheiros se voltaram para trás e o viram assim tão longe deles, voltaram atrás e aproximaram-se, receosos; encontraram-no mudado, como se fosse outro homem. Perguntaram-lhe: «Em que é que pensavas para te esqueceres assim de nos seguir? Estarias a pensar em arranjar mulher?» «Têm toda a razão! Decidi ter esposa, uma esposa mais nobre, mais rica e mais bela do que todas as que vocês já viram». Os companheiros puseram-se a troçar dele [...].

A partir daquele momento, ele fazia os possíveis para que Jesus Cristo lhe ocupasse a alma, e bem assim aquela pérola que tanto desejava comprar depois de tudo ter vendido (Mt 13, 46).

Furtando-se frequentemente aos olhos dos que dele troçavam, ia muitas vezes – quase diariamente – orar em segredo. De alguma maneira a isso era impelido pelo gozo antecipado daquela doçura extrema que tantas vezes o visitava e que com tanta força o atraía, estando ele na praça ou noutros locais públicos, para a oração.

sábado, 22 de maio de 2010

Frei Cecilio Maria Cortinovis, um porteiro e esmoleiro a serviço dos pobres.

“ Me reconheço um servo inutil, mas estou certo que o Senhor pode fazer de mim uma estrela do céu.”[1]

Como escreveu Padre Costanzo Cargnoni, recontar a biografia desse servo de Deus não é dificil, pois ele mesmo sob obediencia escreveu alguns cadernos que são entitulados “Pensieri Confusi” Pensamentos Confusos que deixam confusos e maravilhados os leitores quanto tem diante dos olhos aquelas paginas supreendentes. Ele frequentou somente a terceira série elementar. Mas a sua sabedoria de campones é percebida na linguagem simples nos exemplos com que explica sua espirtualidade.[2]

O pequeno povoado de Nespello que pertence a Costa Serina, em Bergamo, proximo a Milão, Pedro Antonio Cortinovis, que na religião recebeu o nome de Frei Cecilio Maria, um servo de Deus.

Nasceu a 7 de novembro de 1885, filho de Lorenzo Cortinovis e Angela Gherardi foi o sétimo de nove filhos de uma família camponesa. Sendo educado com profunda influência de sua mãe, entre o trabalho duro nos campos e montanhas e um profundo espírito cristão. Com seis anos, o pequeno Antonio ia à igreja com a mãe pela manhã antes de ir para a escola. Seja a igreja que a escola eram longe de sua casa e o menino tinha que fazer uma longa viagem entre os caminhos de montanha. Desde sua infancia alimenta uma espiritualidade Eucaristica na qual crescera por toda a sua vida.

A sua mãe havia indicado o tabernaculo dizendo: “Essa é a casinha de Jesus”. O pequeno Pedro aprendeu bem a lição e na sua vida não quis fazer outra coisa senão aproximar-se cada vez mais de Jesus Eucaristico que alimentara toda a ação apostolica e seu amor pelos pobres e marcara profundamente a sua vida que segundo Ele se pudesse se chamaria Frei Cecilio de Jesus Sacramentado.

No dia 07 de abril de 1896 pela primeira vez recebeu a comunhão e para ele foi uma experiência tão intensa na sua vida. Aquele encontro determinante e decisivo. Seu grande amor a Eucaristia se intensifica tornou-se, o seu centro da sua vida espiritual, se liga definitivamente a Jesus por tanto amor recebido.

Com quatorze anos entra na Ordem Terceira Franciscana. Tinha um comportamento reto que logo se notou a sua decisão pela vida religiosa. Ele passou seus primeiros 22 anos cultivando no coração o seu chamado que ficando cada vez mais forte para se consagrar a Deus, que ninguém conseguiu convence-lo de mudar de idéia a respeito de se tornar um religioso capuchinho, recomendado pelo padre, no dia 22 de abril de 1908 ele deixou a sua casa, e sua família durante o dia e no dia seguinte e chegou Lovere.

Ali no dia 29 de julho de 1908, ele recebeu o hábito capuchinho e foi nomeado como Cecilio Maria, escolhendo ser um irmão leigo. Transcorreu o ano de prova entre penitencias e mortifições e fez a sua profissão religiosa no dia 2 de agosto de 1909.

O dia depois deixou o convento Lovere para Albino, onde foi realizar os serviços de sacristão, sala de jantar, ajudante do enfermeiro e do porteiro.

Fez uma pequena pausa de cinco meses, e depois foi transferido para Cremona com o mesmo cargo, onde permaneceu por mais três meses. Foi transferido definitivamente em 29 de abril de 1910 no convento em Milão, Monforte, onde desenvolveu varios serviços substituindo o porteiro, o sacristão, assumindo o cuidado do refeitorio, ajudante do enfermeiro e aprendendo os diversos serviços obedecendo sempre a todos em espirito de sacrificio.

Em Milão cobre o serviço de ajudante do sacristão e do porteir, enfermeiro e a hospedaria até a metade de novembtro de 1914, quando recebeu o cargo de chefe da sacristia até 1921, nesse primeiro serviço permanecia quase todo o dia na Igreja aprofundando a sua contemplação eucaristica. O seu dia iniciava as quatro da manhã quando praticava sua devoção inclusive a Via Sacra, ajudava a servir quantas missas pudesse preparando os altares com devoção e fazia outros serviços no convento até a noite. Depois do jantar voltava a Igreja para rezar e passava muitas horas na Igreja, a meia noite quando os frades vinham rezar as matinas ele estava ainda ali. Esse ritmo ele manteve quase toda a sua vida. Esse serviço lhe permitia de permanecer muito tempo na igreja para servir as missas e para manter em ordem as alfaias sagradas, tanto para o seu deleite. O tabernáculo tornou-se, como ele escreve em seu diário, o livro de sua verdade.

Em abril de 1914 foi acometido de meningite, que o levou quase a morte, no limiar da vida. Ele teve uma profunda experiência espiritual que o fez experimentar uma iluminação mistica do julgamento misericordioso de Deus, e isto será uma memória viva e repetida em seu diário. Sua recuperação se deve a intercessão do Beato Inocêncio Berzo.

Em julho de 1916 recomeça o seu trabalho de sacristão, mas com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, foi convocado para 01 de julho de 1916 e alistou-se no quinto regimento alpino em Tirano, Sondrio.Com grande desgosto tirou o habito de capuchinho e sofreu com a disciplina militar. Em longas caminhadas e exercícios de seu coração não se sustenta e é devolvido ao Milão, a sua grande alegria, pode emitir a Profissão Solene no dia 02 de fevereiro de 1918.

No dia 16 de setembro de 1921 se tornou porteiro do convento e esmoleiro para os pobres. Com a guerra cresceu mais pobres e à porta do convento era seu local de reunião. Fez-se para a portaria e, muitas vezes voluntariamente, e sempre manteve seu trabalho como assistente de sacristão contratado por um irmão, muitas vezes muito duro com ele. Aqui ele refinou sua humildade

Mais tarde ele se tornou sacristão titular desde 1921 e desempenhou o papel de porteiro que desenvolveu até 1970, praticamente uma vida.

Em 05 de julho de 1922, ao amanhecer, enquanto ele estava em sua cela, teve uma experiência mística que marcaram sua vida inteira. Em um instante fez a experiência de Deus e das verdades da fé e viu a posição de todas as almas diante de Deus que estava muito satisfeito da sua presença e do seu trabalho.

Os superiores também estavam muito satisfeitos do seu trabalho, pois através dele influenciava muitas pessoas como influenciou o industrial Marcello Candia, que deixou tudo para se deslocar ao Brasil para servir os leprosos, dizendo que ele aprendeu a servir aos pobres na escola de Frei Cecilio.

Naqueles anos, recorrendo ao sétimo centenário de São Francisco, Frei Cecilio Maria contribuíu para a construção do monumento a S. Francisco em Milão com seu esmolas de porta em porta . A estátua de bronze, criada pelo escultor florentino Domenico Trentacoste, é inspirado na face de Frei Cecilio, que por obediência, teve que servir de modelo ao artista. A obra foi inaugurada no dia 28 de outubro de 1926.

Frei Cecilio queria se tornar um missionário, talvez a serviço do Daniel de Samarate, o irmão sacerdote leproso. Mas sua vida foi uma grande missão no coração do Milão. Com a eclosão da II Guerra Mundial e os bombardeios atingiram o convento em 1942 e 1943. O incrivel é que Frei Cecilio mesmo correndo perigo continua tranquilamente o seu trabalho de ajuda aos pobres. Sua caridade era capaz de falar em favor de muitas famílias pobres, e dos conventos de clausura, além do seu trabalho, ajudou a salvar especialmente os judeus perseguidos.

Com várias estrategias defendeu o convento dos ataques dos alemães, que suspeitavam dos frades, especialmente quando no dia 13 de junho de 1944, o Padre Giannantonio Romallo, confessor de línguas estrangeiras do Duomo de Milano, foi preso e deportado para campos de concentração.

Ele era consultado pelo pelo cardeal Schuster, agora beato, que amava e admirava. Para os pobres tinham algumas concessões por parte do prefeito da cidade para dar-lhes pão, arroz e massas, e ele teve que lutar contra a Prefeitura, quando as permissões foram removidas.

Sempre quis algo melhor para esses pobres, que muitas vezes vinha na chuva gelada e no meio do sol em filas intermináveis. Na sua oração foi interceder a Jesus pelos pobres e foi ouvido. Em 1959, um benfeitor se ofereceu para construir um ambiente acolhedor, o último pedaço de terra que permaneceu no convento. Em 20 de dezembro de 1959 a casa com todas as comodidades,a cozinha, despensa, etc. e 150 assentos, que sera chamada Opera San Francesco, foi solenemente inaugurado pelo Cardeal. João Batista Montini, futuro Paulo VI .

Ali Frei Cecilio deu o melhor de si na sua abundante caridade. Ele serviu até 1979, com dias muito intensos de oração, a trabalhar de manhã cedo até a noite, terminando junto do sacrário, para interceder pelas necessidades da cidade usando assim toda a sua energia.

Desde 1979 foi objeto de frequentes doenças respiratórias e do coração se tornara frágil. Então ele se concentrou sobre o amor espiritual. Uma multidão de pessoas vieram falar-lhe da sua aflição. Ele sempre ao lado de sua Virgem Maria, palavras puras e simples espalhar a paz e a cura e dizer-lhe graças e milagres. Em 19 de outubro de 1982 foi levado a Bergamo na enfermaria dos frades . Outras vezes ele ja esteve na enfermaria mas depois se recuperava, mas essa não era como as outras vezes. Encontrou se ainda com muitas pessoas. Sempre rezando e orando silenciosamente morreu no dia 10 abril de 1984.

Depois do funeral, em Milão, foi enterrado no cemitério mais, mas desde 31 de janeiro de 1989 sepultado na Igreja, junto à sua obra. Ele deixou seu diário espiritual, escrito por ordem de seu confessor, que em parte já publicado, mostra muito bem, mesmo com uma linguagem simples a sua grande alma de apóstolo, enamorado da Eucaristia, um servo dos pobres, e testemunho do carisma franciscano.

A sua fama de santidade levou o cardeal de Milão a iniciar o seu processo de informativo no dia 27 de setembro de 1993, terminou formalmente 10 de abril de 1995. A validade do decreto foi emitido 22 março, 1996. Agora a causa prossegue.

Frei Cecilio é um tipico exemplo de um frade capuchinho viveu a sua santidade em maneira escondida, no silencio contemplativo e na profunda vida de oracao. Seu intenso amor aos pobres que vem atraves da intimidade com o Senhor. Desenvolvendo serviços ordinarios teve por muitas vezes atitudes extraordinarias, mas sempre se mantem humilde e simples, quem le o seu diario percebe são pensamentos simples, mas que fazem refletir para entender a profundidade.

Bibliografia

Cargnoni C., Santità francescana tra impegno educativo e carità sociale: la testimonianza del Beato Giuseppe tovini e del Servo di Dio Fra Cecilio Maria Cortinovis, in Santità francescana oggi- significato figure formazione, a cura di P. Martinelli, Bologna, 2010, 73-83.

Fra Cecilio, In tenera età io ti incontrai, passi scelti dagli scritti spirituali di Fra Cecilio Maria, a cura di V. De Bernardi, Milano, 1997

Fra Cecilio Maria, Nella Luce divina, Riflessione Pensiere Eucaristici Lettere, a cura di T. Schenone, Milano,1999.

Fra cecilio maria, Pensieri e Riflessioni raccolte dai Frati Minori Cappuccini di Lombardia, Milano, 2001.

Fra Cecilio Maria Cortinovis da Costaserina, Diario Lettere note spirituali1924-1982, a cura di C. Cargnoni, Roma, 2004.

Merelli F., Fra Cecilio povero tra i poveri, Milano, 1964.



[1] Fra cecilio maria, Pensieri e Riflessioni raccolte dai Frati Minori Cappuccini,p.30

[2] Cargnoni C., Santità francescana tra impegno educativo e carità sociale: la testimonianza del Beato Giuseppe tovini e del Servo di Dio Fra Cecilio Maria Cortinovis,p. 73.

Um capuchinho apaixonado pela Ordem Franciscana Secular.

"... talvez nenhum sacerdote franciscano tinha amado profundamente como ele a Ordem Terceira e nesse campo era um Mestre insuperável.."

Tantas vezes o exemplo de pessoas que viveram bem a sua vida e vocação nos faz muito bem no sentido que nos ajudam a continuar firmes e confiantes na certeza de que é bela a nossa escolha e não é vão o nosso esforço em nos manter-nos fiéis.
Nascido no dia 31 Agosto de 1897 e batizado a setembro com o nome de Estefano Quadrelli, no pequeno vilarejo de Capezzano no municipio de Pietrasanta filho de Rafael e Cesira Pasquini sendo o tredicesimo filho. A sua familia era muito religiosa e os seus pais devotissimos. Ele teve uma otima educação religiosa foi preparado para o crisma que aconteceu no dia 8 de maio de 1901 e para a primeira comunhão em junho de 1909. Os anos de 1904 a 1906 vai escola e é descrito como um garoto muito sapeca e vivaz. Ajuda os seus pais nas tarefas domesticas principalmente como pastor do rebanho de ovelhas como os outros garotos.
Sentiu a vocação religiosa que era já um desejo de seu falecido pai no dia 18 de outubro de 1909 com apenas doze anos parte para o Colégio Seráfico dos Capuchinhos de Arezzo, Provincia Toscana.
Iniciou o seu noviciado no dia 24 de julho de 1913 no eremo de Celle de Cortona e terminado o noviciado emitiu a primeira profissão no dia 25 de julho de 1914, fez um parenteses por causa do serviço militar durnate a primeira guerra mundial.
A profissão solene de 13 de setembro de 1921 a Siena e terminando os seus estudos teológicos foi ordenado em Firenze no dia 17 de março de 1923. Depois do curso de santa Eloquencia inicia o seu apostolado missionário entre as pessoas da zona rural como pregador e recebe como encargo o acompanhamento da Ordem Franciscana Secular, qual será chamado de namorado.
Frei Luis era muito apaixonado pelos ideais de São Francisco e pela Ordem Terceira. Ele era um excelente pregador e eloquente sempre encontrava um meio para falar de São Francisco. Pode-se dizer que amou tanto a Ordem Terceira a ponto de dizer que se São Francisco não tivesse tido essa inspiração ele teria. No seu trabalho pastoral seja de missionário junto as pessoas na zona rural ele foi encarregado como Assitente Espiritual da Provincia Toscana para a Ordem Terceira a qual dedicou todo o seu impenho.
Seja promovendo cursos, formação e acompanhamento espiritual. Uma vez alguém disse a Frei Luis que os seus olhos brilhavam e ele falava da Ordem Terceira com o mesmo amor com que um namorado fala da namorada, para ele na face da terra não existe outra mulher, mais bonita, mais simpática e mais inteligente. Mas é próprio assim que Frei Luis se dedica a Ordem com o mesmo amor que um namorado a namorada.
Realmente vendo a vida e a dedicação de Frei Luis de Pietrasanta o modo como concebia a sua vocação cristã, consagrada-religiosa - franciscana e sacerdotal. O modo como foi um entusiasta missionário para o povo da zonal rural. O seu enamoramento com a Ordem Terceira subindo e descendo toda a Itália para organizar a Ordem e o amor com que tinha para com os terciários e terciárias cuidando para a sua formação cristã e franciscana e o progresso espiritual. Para isso os cursos e as chamadas bibliotecas franciscanas.
O seu zelo e dedicação pela OFS o levará a ser o fundador da Companhia de Santa Isabel da Hungria, um instituto secular que nasce no seio da Ordem Terceira e para a Ordem Terceira, inspirado na pessoa de Santa Isabel da Hungria e para comemorar o seu sétimo centenário, no qual as sorelas deveriam assumir um estilo de vida no mundo, nem freiras e nem monjas, mas sorelas, através do bom exemplo e das obras de caridade e de apostolado principalmente na linha franciscana. Um obra espiritual fecunda que se estendeu até o Brasil sendo chamada por Frei Luis de a pupila dos seus olhos.
Olhando para a realização da vocação desse capuchinho toscano e o seu testemunho reforça em nós o desejo de seguir a cada dia o ideal franciscano com maior entusiasmo e de entregar-se cada cotidianamente com entusiasmo no fervoroso apostolado e no testemunho. Recordar o testemunho de Frei Luis Quadrelli da Pietrasanta o seu impenho e o seu amor pela vocação franciscana pode alimentar a nossa vocação e o desejo de lançar-se destemidamente com maior força ao encontro do nosso ideal de vida.


Frei Emerson Aparecido Rodrigues, Ofmcap.
email: freimersoncapuchinho@hotmail.com

Bibliografia.
Baldi C., Padre Luigi da Pietrasanta, Firenze, 1974.
Borrello L., Teologia e spiritualità degli istituti secolari, Milano, 2008.
Cavvaterri T., Piccola Compagnia di S. Elisabetta. Profilo Storico, Firenze, 1983.
Fregona A., L’Ordine Francescano Secolare. Storia, legislazione, spiritualità, Padova, 2007.
Costituzioni dell’istituto Secolare Piccola Compagnia di S. Elisabetta, 1984.

Maria Lorenza Longo e o nascimento das clarissas capuchinhas.

Conhecer melhor as clarissas capuchinhas justifica-se no desejo de ampliar o nosso conhecimento sobre história da familia franciscana pode nos ajudar a aprofundar nosso carisma e avaliar todas as dimensões e reforçar a nossa identidade. A fundação das clarissas capuchinhas se insere no grande movimento de reforma da Igreja, elas estão próximas do nascente grupo da reforma capuchinha participando do mesmo carisma e da mesma radicalidade em termos de pobreza e volta as origens. Desse modo conhecê-las é indiretamente conhecer-nos melhor.
A fundadora do novo grupo de clarissas a senhora Maria Lorenza Longo (1463-1542) nasceu provavelmente na Catalunha seus pais nobres e ricos, e para obedece-los com apenas quinze anos ela se casou com apenas quinze anos, com o secretário João Longo (Lyon), o chanceler do Reino da Espanha. Ela se mudou com seu marido para Nápoles.
Estava paralisada entre os anos 1510-1511, e foi em peregrinação ao santuário de Loreto, onde se sentiu milagrosamente curada, isso vez crescer nela o fervor e se decidiu ingressar na Ordem Terceira de São Francisco, tomando o nome religioso de Lorenza. Como piedosa viúva dando-se a caridade que cedo foi reconhecida pela cidade de Napolis. Ao lado do Hospital de S. Nicolas construiu o famoso hospital de incuráveis, chamado Santa maria del popolo. Com a ajuda do seu padre espiritual São Caetano Thiene, escreveu as regras, com sabedoria para o sistema hospitalar, do qual tomou a direção.
Uma sua amiga chamada Maria Acerbo fundou perto do hospital um convento das “madalenas” para prostitutas convertidas. Ela trilhou para as mulheres erradas na trilha de volta, construindo-lhes uma casa perto do hospital, também construiu um convento de piedosas mulheres, e para ambas as instituições, compos regras especiais.
Em 1529 ela acolheu os capuchinhos em Nápoles, construindo-os para o convento de S. Eframo . Juntamente com a duquesa de Termoli, Maria de Jerba, e reuniu jovens senhoras das famílias mais ilustres de Nápoles, numa congregação, sob o título "Mãe da Caridade, para ajudar os doentes pobres do seu hospital.
Com a idade de sessenta anos ele entrou para o mosteiro de Santa Maria de Jerusalém, que ela fundou, comumente chamado de "Mosteiro das Trinta e três ", que assinalou seu início como um mosteiro da Ordem Terceira Franciscana vivendo sob a Regra de Santa Clara, com clausura perpetua e sob a direção espiritual dos capuchinhos. Ela foi nomeado abadessa por Paulo III exercendo o seu cargo até quase sua morte em 1542. Em 1538 temos o Motu proprio considerato o ato oficial de nascimento das clarissas capuchinhas. As monjas passaram da Ordem Terceira Franciscana para a Ordem de Santa Clara, A fundadora adota as constituições de Santa Coleta e sob a influencia dos capuchinhos outros elementos são completados tendo como referencia as constituições dos capuchinhos em particular um acento a pobreza material, a austeridade, a humildade e a simplicidade, retiro em severa clausura, a fraternidade e a intensa vida de oração com grande a atenção a meditação prolongada.
Segundo L. Iriarte , a morte de Irmã Maria Lorenza acontece a 21 de dezembro de 1542, é morta aos 79 anos, já com fama de santidade, mas a sua causa de beatificação foi introduzida em 04 de setembro de 1892. Fundou somente um mosteiro e logo após a sua morte já se multiplicavam as fundações. As capuchinhas se espalharam rapidamente por toda a Itália: Perugia em 1553, a Gubbio em 1557, em 1576 a Roma, em Genova a 1577 em 1578 a Milão.
No ano de 1603 abriu um convento em Paris. Enquanto a Granada eram presentes em 1588. Entre essas uma série de comunidades informais, onde as irmãs eram terciárias que viviam juntas com a Regra de Santa Clara vivendo em pequenas comunidades. No século XVII ja são 24 mosteiros somente na Espanha. Em 1665 chegam a cidade do México, em 1713 a Lima, em 1727 no Chile.
Qual é a novidade das capuchinhas? Uma das especificidades das capuchinhas era a atenção a pobreza absoluta como nos tempos de Santa Clara. As capuchinhas não recebiam dote das candidatas nem mesmo o dote minimo, isso possibilitava que muitas moças de familias pobres pudessem realizar a sua vocação monastica. As monjas enfrentaram resistencia das autoridades pela sua escolha de pobreza, e muitas vezes são obrigadas a aceitar propriedades ou pessoas que se encarreguem do sustento.
Os capuchinhos sempre rejeitram a dirigir essas comunidades de monjas. Uma das dificuldades é que a legislação dos capuchinhos na época proibia de cuidar de mosteiros femininos ou masculinos, como também proibia atender confissão e receber contribuições por missas de defuntos. De certo modo essas mulheres que eram atiradas a vida religiosa pelo estilo de vida dos capuchinhos eram logo depois abandonadas pelos frades. Os mosterios de Napoles e Roma são uma exceção a Regra. Algum tempo depois como é o caso das fundações da França as monjas serão conduzidas e formadas pelos próprios capuchinhos. Se faz notar que de um jeito ou de outro atraves dos pontifices ou dos principes as capuchinhas conseguiam quase sempre garantir a direção por parte dos frades capuchinhos.
É importante fazer notar que Maria Lorenza não se sente desde o início chamada a claustral e os capuchinhos não tinham previsão de fundar um ramo feminino, ao invés a legislação proibe o cuidado de mosteiros, mas as poucos passo a passo essa história vai sendo construída. E interessante ver que o novo ramo de vida contemplativa nasce com um terciária franciscana sobre a direção dos capuchinhos. Podemos dizer que essa expressão da reforma capuchinha também na vida claustral complementa o nosso carisma dando um equilibrio na sua dimensão de feminino e masculino. A mesma radicalidade envagélica que os frades vivem pelo apostolado e missionariedade entre os mais pobres, com uma vida austera, simples e comprometida com o povo, que ao mesmo tempo não deixa de emergir numa profunda vida de contemplação e de oração intensa e condividida por essas monjas que levarão esse mesmo rigor de vida e opção evangélica na vida claustral no esforço de constituir uma reforma também na Segunda Ordem se refazendo ao estilo de vida deixado na Regra de Santa Clara que insiste com firmeza navida de penitencia e na pobreza evangélica.
A confirmação desse carisma se pode dizer que são as vocações que surgiram permitindo que a vida iniciada naquele unico mosteiro das trinta e tres se espalha-se pelo mundo as estatisticas mostram que em 2005 a Ordem das Clarissas Capuchinhas contava com 160 mosteiros e 2.209 religiosas sendo presente em grande parte do mundo.

Frei Emerson Aparecido Rodrigues, Ofmcap.
email: freiemersoncapuchinho@hotmail.com


Bibliografia

Iriarte L., Storia del Francescanesimo, Napoli, 1982,p.534-537.

________, Origini e primo sviluppo delle clarisse cappuccine (1535-1611), in “I frati cappuccini. Documenti e testimonianze del primo secolo,IV. Roma –Perugia, 1992.

________, Le cappuccine tra passato e presente,Roma, 1997.

Mastroianni F., Maria Lorenza Longo Fondatrice delle clarisse cappuccine e dell`ospedale degl-incurabili, Napoli, 2004.

Rousey M., Nella tua tenda, per sempre. Storia delle clarisse Un’avventura di ottocento anni, a cura di R. Bartolini, Assisi, 2005, p. 632-645.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Encontro de CEB's: Comunidades Ecológicas e Missionárias

26º ENCONTRO ARQUIDIOCESANO DE COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE - CEB's

TEMA: Comunidades Ecológicas e Missionárias

LEMA: "Mãe Terra Precisamos de Ti!"

Quando? entre os dias 22 e 23 de Maio de 2010
Onde? na Comunidade Santa Rita de Cássia, Bairro Florida- Paróquia Nossa Senhora da Paz, Vicariato de Guaíba.

Teologia franciscana da pobreza

A Teologia franciscana da pobreza em Boaventura de Bagnoregio e Pedro de João Olivi

Introdução

Tendo muito oportunamente refletido, sob a competente condução de Frei Celso Márcio Teixeira, sobre a proposta econômica de Francisco de Assis, vejamos agora, ainda que de forma bastante incompleta, como a questão da pobreza foi sendo abordada ao longo dos primeiros decênios da história franciscana - especialmente por dois dos seus grandes personagens: Boaventura de Bagnoregio e Pedro de João Olivi - a fim de verificarmos qual a relevância desta reflexão para o tema da relação entre economia e cristianismo que estamos tratando.

No entanto, antes de nos referirmos ao pensamento destes autores sobre a questão, precisamos contextualizá-lo historicamente.

Contextualização

Antes de tudo, devemos recordar que o modo de pensar de Francisco era muito concreto, imediato, prático. As necessidades práticas da vida da primitiva fraternidade o absorviam com tanto urgência que tanto ele, quanto seus primeiros companheiros, não viram a necessidade de aprofundar as bases teóricas da doutrina sobre ao pobreza(1).

Contudo, sabemos do rápido e impressionante processo de expansão tanto numérica quanto territorial da Ordem Franciscana, o qual implicou em novas formas de aplicação dos preceitos da Regra, especialmente no que se refere à relação dos frades com os bens e com o dinheiro. Só para citar um exemplo, Tomás de Eccleston, sem deixar de ressaltar a grande pobreza dos frades da Inglaterra que, em Cambridge, por exemplo, não possuíam nem mesmo cobertores, na sua crônica recorda que, para a reforma do convento de Londres, várias pessoas ajudaram com dinheiro - inclusive o rei inglês – o qual era administrado pelos próprios frades, uma vez que não se faz menção a nenhum “procurador” ou “amigo espiritual”(2).

Deste modo, a partir do momento em que a fraternidade se transforma cada vez mais em um Ordem composta de irmãos procedentes das diferentes classes sociais e inseridos nos mais diversos contextos culturais, foram sendo colocadas sempre novas questões a propósito da pobreza que, por sua vez, geravam tensões no interior da Ordem. Por isso, desde muito cedo os frades apelaram para as interpretações papais da Regra que professavam.

Assim, já em 1230 - portanto somente quatro anos depois da morte de Francisco - Gregório ix - que se gloriava de ter sido Cardeal protetor da Ordem e de conhecer a verdadeira intenção de Francisco ao escrever a Regra – declara, a respeito dos capítulos mais polêmicos da Regra – o quarto e o sexto – quanto segue:

  1. Sobre a proibição de receber dinheiro:

“(...) se os frades querem comprar uma coisa necessária ou pagar uma coisa já comprada, possam apresentar o encarregado daquele do qual se compra a coisa ao encarregado daqueles que querem lhes dar esmolas; este, assim apresentado pelos frades, não é encarregado deles, ainda que seja apresentado por eles, antes, é encarregado daquele por ordem de quem fez o depósito”(3).

  1. Sobre a proibição das propriedades em geral:

“Dizemos, portanto, que (os frades) não devem ter propriedade nem em comum, nem comunitariamente, mas, a Ordem tenha o uso dos utensílios, dos livros e dos outros bens móveis que lhe é lícito ter. Os frades, pois, os usem segundo quanto será estabelecido pelo ministro geral o pelos ministros provinciais, permanecendo intacta a propriedade dos lugares e das casas nas mãos daqueles aos quais se sabe que pertencem. Nem devem vender os seus bens móveis, nem trocá-los fora da Ordem, nem aliená-los de qualquer modo, ao menos que o tenha concedido a autoridade (...) da Igreja” (4) .

Percebe-se aqui, portanto, a permissão do uso dinheiro - ainda que de modo indireto - por parte dos frades e uma primeira distinção entre propriedade e uso dos bens (dominium et usus).

Porém, mesmo depois da Quo elongati, permaneceram certas dificuldades concretas não de todo resolvidas como, por exemplo, a de saber a quem se atribui a propriedade de um bem imóvel utilizado pelos frades quando são vários os doadores, ou quem é o proprietário de um imóvel deixado em herança para os frades, sendo que o doador já tenha morrido.

Assim, em 1245, Inocêncio iv, com a bula Ordinem vestrum, declara que os bens da Ordem se encontravam “in ius et proprietatem beati Petri”, ou seja, eram propriedade da Santa Sé - do Papa – que, por sua vez, autorizava os superiores da Ordem a indicar leigos que os administrassem (5).

Mas, ainda que num plano jurídico a pobreza franciscana fosse com uma tal medida assegurada, ainda persistiam dificuldades, sobretudo com relação à críticas por parte do Clero Secular à atuação dos frades, uma vez que, a estes era cada vez mais confiada a cura d’almas, com a conseqüente diminuição das entradas econômicas dos Seculares.

Além disso, decisivo para a discussão teórica sobre a pobreza foi a entrada dos Franciscanos nas Universidades, a partir da qual a disputa entre estes e os Seculares - até então restrita ao âmbito puramente pastoral - assumiu uma conotação de disputa universitária. Esta disputa se deu sobretudo na Universidade de Paris, onde as novas Ordens Mendicantes (Franciscanos e Dominicanos) foram cada vez mais conquistando para si aquelas cátedras antes ocupadas exclusivamente pelos Seculares.

Boaventura

Nesta disputa universitária, Boaventura de Bagnoregio, professor da Universidade de Paris e, mais tarde, Ministro Geral da Ordem Franciscana, exerceu um papel determinante, especialmente ao defender, na sua Apologia pauperum de 1269, a tese da absoluta pobreza de Cristo e dos apóstolos, como bem exprimem essas suas palavras:
“Cristo foi pobre no seu nascimento, pobre durante o tempo da sua vida, pobre no final desta. (...) Porque o Mestre e Senhor Jesus assumiu a pobreza não para si mas para o nosso bem, afim de que pelo Seu exemplo nos fosse mostrada a perfeição, por isso estabeleceu que os santos apóstolos, como imitadores perfeitos da Sua santidade, devessem observar esta forma de extrema pobreza"(6).
Esta foi, sem dúvida, a grande contribuição boaventuriana no que diz respeito à teologia da pobreza que, logo em seguida, foi ratificada pela mais famosa das declarações papais sobre a Regra: a Exiit qui seminat, de Nicolau iii, em 1279, que assim reza:
“Afirmamos que tal renúncia à propriedade de todo bem, seja individual, seja em comum, é por Deus meritória e santa, e foi por Cristo ensinada em palavras e confirmada pelo exemplo, o qual mostrou a via da perfeição, recebida pelos primeiros fundadores da Igreja militante, assim como eles a tinham recolhido daquela fonte, nos rios da doutrina e da vida Dele”(7).

Mas, a contribuição do Doutor Seráfico não parou por aqui.
Deve-se observar que ao longo do seu generalato, que durou bem dezesseis anos, mesmo aceitando e favorecendo o processo de transformação da Ordem, o Mestre de Paris defendeu que isso não devia significar para o frade individualmente uma atenuação do rigor efetivo da Regra. Explicam-se, assim, as suas admoestações aos frades a não armazenarem alimentos e a não recorrerem com facilidade e sem grave necessidade aos procuradores e aos amigos espirituais (8).

De fato, ainda na Apologia pauperum, se por um lado - servindo-se da distinção já presente, como vimos, na Quo elongati, entre posse e uso dos bens - ele justifica o acesso dos frades aos bens necessários à subsistência, por outro, ele se refere a um uso limitado dos mesmos quando diz:

“Com relação à posse das coisas temporais, podem-se considerar dois aspectos: posse e uso. Porque o uso é necessariamente ligado com esta vida, a pobreza evangélica consiste em renunciar à posse dos bens terrenos no que diz respeito ao domínio e à propriedade; porém, no que diz respeito ao uso, consiste não em refutar-lo completamente, mas, em limitar-lo. De fato, diz o apóstolo a Timóteo: “Quando temos do que comer e do que cobrir-nos, acontentemo-nos disso” (1Tm 6,8)(9).

Assim, em virtude da sua atividade como professor, mas, sobretudo da sua decisiva atuação como Ministro Geral da Ordem, o Doutor Seráfico laçou as bases para uma outra teoria relativa à pobreza que teve uma importância fundamental na vida dos Menores sobretudo até o início do século xiv: aquela do usus pauper, ou seja, do uso pobre dos bens.

Pedro de João Olivi

Este conceito de usus pauper foi especialmente tematizado e defendido, entre 1274 e 1283, por um outro Frade Menor, Pedro de João Olivi - nascido no sul da França e ex-aluno de Boaventura em Paris – tanto ao longo das suas questões disputadas sobre a perfeição evangélica, quanto naquele pequeno tratado que tem justamente o seguinte título: De usu paupere: sobre o uso pobre(10).

No entanto, para que se compreenda o significado desta expressão, precisamos recordar que a devoção dos fiéis colocava nas mãos dos frades uma quantidade considerável de bens e de dinheiro. Destes bens, os frades na realidade não tinham a posse que era, como dissemos, atribuída ao Papa. O próprio uso destes bens era exercido por meio de pessoas intermediárias: os chamados procuradores e amigos espirituais. Porém, aqui podiam surgir abusos. Entre estes procuradores e os frades se criava muitas vezes uma tal relação de amizade que levava os tais amigos a se renderem totalmente a qualquer pedido do convento ou de um determinado frade(11).

Assim, o uso pobre consistia fundamentalmente num modo de comportamento, num critério moral e espiritual que, ao mesmo tempo em que dava ao indivíduo a liberdade de decisão, lhe atribuía a total responsabilidade diante da sua consciência e do juízo de Deus. Consistia essencialmente em se usar dos bens de que se podia dispor de modo que o pedido a ser feito aos procuradores fosse o mais pobre possível. Assim, se desejava eliminar pela raiz a possibilidade de abusos(12).

Neste sentido, em seu tratado, Olivi observa que ainda que a propriedade dos bens que a Ordem usava pertencesse à Igreja, isso não dava aos frades o direito de viverem prodigamente, uma vez que o usus pauper os obrigava a um limite mínimo no manuseio do dinheiro e dos bens. Ele defende que o usus pauper pertence à substância e à integridade do voto de pobreza e que o mesmo está para a renúncia à posse como a forma está para a matéria. Afirma também que até mesmo os bispos franciscanos estão obrigados ao uso pobre, chegando quase a considerá-lo como essencial para o ministério episcopal(13). A propósito dos “amigos espirituais”, tolera o recurso a eles só por indulgência e com a condição de que não sejam nomeados diretamente pelos frades(14). Além disso, influenciado pelas doutrinas apocalípticas de Joaquim de Fiore, Olivi chega a declarar que a negação do usus pauper representa a preparação do caminho para a seita do Anti-Cristo, pois, segundo ele, “(...) nada prepara melhor o caminho para a sua seita do que a injúria à altíssima pobreza”(15) .

Como se pode intuir, esta doutrina oliviana vinha muito de encontro aos interesses do partido rigorista surgido por aqueles tempos no seio da Ordem chamado dos espirituais, o qual, sobretudo a partir dos primeiros anos do século xiv, crescia cada vez mais em número e em prestígio por parte de influentes defensores externos da Ordem.

Porém, deve ficar claro que Olivi, na sua firme defesa do uso pobre, diferentemente dos outros representantes do grupo dos espirituais - como Ubertino de Casale, por exemplo -não cai na armadilha do legalismo. Para ele, o usus pauper não se reduz a um conjunto de regras que determinam de ante-mão todas as ações, mas, diz respeito a um modo de viver e de ser, a uma disponibilidade que é, antes de tudo, interior e que se manifesta necessariamente em uma forma de vida pobre(16).

Breve reflexão sobre a relevância atual da questão

Mas, o que todas estas discussões teóricas sobre a pobreza têm a nos dizer sobre o tema da economia que estamos tratando?
Me parece que a grande colaboração destes autores franciscanos citados reside em chamar a nossa atenção para duas grandes questões muito pertinentes ao nosso tema: a propriedade e o uso dos bens.

Quanto à primeira questão, a dificuldade de os franciscanos se considerarem com proprietários dos bens de que faziam uso - o que levou à distinção jurídica entre propriedade e uso dos bens a fim de que, dentro das novas condições em que se encontrava a Ordem se pudesse observar o quanto possível o ideal pobreza - talvez esteja apontando para o fato de que a propriedade dos bens não se constitui em um valor absoluto, mas, que deve estar sempre referida a um valor maior, no caso: o ideal da pobreza. Hoje, talvez este valor poderia ser identificado na própria função e destinação sociais dos bens e, conseqüentemente, de toda propriedade. Não terá sido isso que João Paulo ii quis dizer quando, na Laborem Exercens, afirma que sobre toda propriedade privada pesa uma hipoteca social?(17)

Quanto à segunda questão, ainda que, dentro da mentalidade do tempo, ao uso pobre era conferido sobretudo um caráter ascético - enquanto exigência de uma maior perfeição espiritual - poderíamos talvez traduzi-lo como um uso consciente e responsável dos bens, sobretudo dos recursos naturais, tanto urgente e necessário no contexto hodierno de drásticas mudanças climáticas e de conseqüente escassez, para uma porção cada vez maior da população mundial, dos bens necessários à subsistência.

De fato, não se pode negar que, em grande parte, os problemas de ordem econômico/social são efeitos de um uso irresponsável e imoderado dos bens, a respeito do que - tanto individualmente, quanto como sociedade - todos precisamos refletir seriamente, especialmente nós, herdeiros da grande tradição franciscana.

Frei Fábio Cesar Gomes, ofm.
Instituto Teológico Franciscano – Petrópolis
20 de abril de 2010.

(1) Cfr. M.D. Lambert, Povertà francescana, Ed. Biblioteca Francescana, Milano, 1995, 123.
(2) Cfr. A.L. Pereira, Os franciscanos medievais na contracorrente da economia: os impasses da proibição do dinheiro, in Revista Franciscana, 3 (2003) 66.
(3) Gregorio ix, Quo elongati, n.5, in Fonti Francescani, n.2733, 1723.
(4) Gregorio ix, Quo elongati, n.6, in Fonti Francescani, n.2734, 1724.
(5) Cfr. Inocêncio iv, Ordinem vestrum, in Bullarium Franciscanum, vol.1, 401.
(6) Boaventura, Apologia pauperum, c.7, n.7-9, in Opere di San Bonaventura, vol.14/2,Città Nuova Editrice, Roma, 2005, 230-232.
(7) Nicolau iii, Exiit qui seminat, in Bullarium Franciscanum, vol.3, 407.
(8) Cfr. R. Manselli, I primi cento anni di storia francescana, a cura di Alfonso Marini, Edizioni San Paolo, Milano, 2004, 99.
(9) Boaventura, Apologia pauperum, c.7, n.3, 224.
(10) Cfr. P.J. Olivi, De usu paupere. The quaestio and the tractatus, a cura de D. Burrr, Perth, 1992.
(11) Cfr. R. Manselli, I primi cento anni di storia francescana, 99.
(12) Cfr. R. Manselli, I primi cento anni di storia francescana, 100.
(13) Cfr. Olivi, De usu paupere, 63.
(14) Cfr. Olivi, De usu paupere, 76.
(15) Olivi, De usu paupere, 89 e 148.
(16) Cfr. L.A. De Boni, De Abelardo a Lutero. Estudos sobre filosofia prática na Idade Média, edipucrs, Porto Alegre, 2003, 231.
(17) Cfr. João Paulo ii, Laborem Exercens, n.14, internet (20.04.2010): http://www.vatican.va/edocs/POR0068/__PF.HTM.

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/itf/artigos/2010/007.php acesso em 18 maio 2010.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A LÓGICA DO AMOR DE DEUS



















A LÓGICA DO AMOR DE DEUS

O livro de Gênesis revela que tudo o que Deus criou é bom e verdadeiro e que essa bondade e verdade não podem ser contraditas, tendo em vista as leis naturais e divinas que nos regem. Quando há contradição em relação à bondade e verdade que somos, contrariamos a essência de nosso ser e com isso causamos desequilíbrio em toda a criação a começar por nós mesmos.

Tudo em nós funciona perfeitamente desde que permaneçamos em comunhão com as leis que nos regem e que estão gravadas em nosso ser biológico e em nossas almas. De fato, somos um mistério a ser desvendado ainda, porém, somente sob a ação da Sabedoria Divina somos capazes de desvendar esse mistério natural e sobrenatural no qual estamos inseridos por graça de Deus, nosso criador e Pai de nossas almas.

Contudo, para vivermos sob a ação da Sabedoria de Deus e desvendarmos esse mistério que somos, nos foi enviado o Espírito Santo, penhor de nossas almas, com todos seus dons e virtudes a fim de que conheçamos a Deus e o amemos interiormente e transbordemos esse amor para permanecermos em seu caminho rumo ao infinito de Sua Glória, que é a divinização de nossa natureza humana, mistério esse bem acima do que podemos entender naturalmente.

É em Jesus Cristo, o Filho de Deus vivo e verdadeiro, que encontramos todas as respostas para alcançarmos a graça da vida eterna, pois, ao assumir a nossa natureza humana sem deixar a sua natureza divina, Jesus revela quem é Deus Pai e como Ele age em relação a nós e a toda criação; e ao mesmo tempo revela também como devemos agir em total submissão à Sua Vontade amorosa, pois isto diz respeito ao Plano de Deus para a nossa Salvação.

Ora, Deus é Santo e Sua Vontade é que não cometamos nenhum pecado, pois, Ele nos criou para sermos santos no amor, por isso, nos garante todas as graças e bênçãos para nossa santificação. Escrevendo sobre isso disse são Paulo: “Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto do céu nos abençoou com toda a bênção espiritual em Cristo, e nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos”. (Ef 1,3-4).

“Assim, continua são Paulo, meus caríssimos irmãos, vós que sempre fostes obedientes, trabalhai na vossa salvação com temor e tremor... Porque é Deus quem, segundo o seu beneplácito, realiza em vós o querer e o executar. Por isso, fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas, a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes, filhos de Deus íntegros no meio de uma sociedade depravada e maliciosa, onde brilhais como luzeiros no mundo, a ostentar a palavra da vida”. (Fil 2,12a.13-16a).

Logo, a lógica do amor de Deus se faz presente na criação pela expressão infinita desse amor por cada um de nós; visto que, o Senhor nos mantêm na existência mesmo se não o amamos como deveríamos amar; porém, para permanecermos Nele eternamente, precisamos dar um autentico testemunho de fé em Jesus Cristo, nosso salvador; do contrário jamais veremos a Deus ou participaremos de Sua Glória Eterna.

Destarte, afirma são Paulo: “Sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios. Os que ele distinguiu de antemão, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que este seja o primogênito entre uma multidão de irmãos. E aos que predestinou, também os chamou; e aos que chamou, também os justificou; e aos que justificou, também os glorificou”. (Rom 8,28-30).

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.

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