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quinta-feira, 13 de junho de 2013
quarta-feira, 12 de junho de 2013
terça-feira, 12 de abril de 2011
A visão ecológica de São Francisco de Assis - 2/2
“Totalmente absorto no amor de Deus, São Francisco vislumbra perfeitamente a bondade de Deus não só na sua alma, já ornada com toda a perfeição das virtudes, mas também em qualquer criatura” (Espelho da Perfeição 113,1).
Ao intuir esta grande fraternidade, Francisco grita a todo mundo a misericórdia divina e conclama todos a entoarem, juntos, o hino de louvor ao Criador.
Outro luzeiro que o Homem de Assis apresenta em sua vida é a ‘condição do amor’. O que Francisco entendia por isso? Como o entendia? A condição básica para alguém amar é a liberdade, aqui, liberdade deve ser entendida num modo lato, isto é, na liberdade de espírito, a qual era vista pelo Poverello como a ‘Pobreza’. Pobreza não reside só em não possuir coisas materiais, mas a pobreza essencialmente é um modo de ser pelo qual renuncia-se dominar as coisas, a submetê-las a serem objeto da vontade de poder humano. Consequentemente pode-se afirmar que é a Pobreza o fator responsável pelo entranhado amor de Francisco a tudo e a todos.
São Francisco, dois anos antes de sua morte, compôs um hino de Louvor a Deus, intitulado “O Cântico das Criaturas”, no qual revela a completa abertura reconciliar do pobrezinho de Assis com o céu e a terra, com a vida e a morte, com o universo e Deus. Neste cântico pode ser percebido a afável combinação do masculino com o feminino, através dos elementos da criação: sol-lua, vento-água, fogo-terra.
Francisco, um pouco antes de sua passagem para os braços do Pai, completa seu cântico louvando a Deus pela morte, que por ele é braçada como a irmã morte, portadora de uma vida mais ampla e imortal.
No hino se cruzam as duas linhas, horizontal e vertical. O movimento inicial se dirige inicialmente para Deus: “Altíssimo, onipotente e bom Senhor”. Mas Francisco logo se dá conta de que não consegue cantar Deus porque “nenhum homem é digno de sequer te mencionar”. Volta-se então a dimensão horizontal onde estão todas as criaturas, pois elas falam de Deus: “Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas”. Abre-se então à fraternidade horizontal e universal, canta as criaturas “porque de ti, Altíssimo, são sinal”. (Frei João Mannes, OFM.)
São Francisco de Assis conclamou, e ainda conclama na contemporaneidade, os seres humanos a perceberem que fazem parte de uma grande família, uma fraternidade universal, uma vez que toda a criação está inter-relacionada entre si, a qual habita a Terra e não a detém.
“O que fere a terra fere também os filhos e filhas da terra. Não foi o homem que teceu a trama da vida: ele é um fio dela. Tudo o que fizer à trama, a si mesmo fará” (Frei João Mannes, OFM.).
Portanto, é de estrema importância re-aprender a ver o mundo, e assim conviver fraternalmente a partir das razões advindas do coração. “É necessário a destruição de todos os ídolos: libertar-se da desregrada vontade de ter, de poder e de saber. Pois, os apegos impedem de ver a realidade na sua totalidade e à mercê do sopro (espírito) criativo de Deus que “enche a terra e reúne tudo.” (Sb 1,7; Is 34,16)”. (Frei João Mannes, OFM.)
Segundo uma antiga legenda, um dia disse Francisco ao Senhor, entre lágrimas.
Eu amo o sol e as estrelas,
Amo Clara e suas irmãs,
Amo os corações dos homens
E todas as coisas belas,
Senhor, perdoa-me
Porque só a ti eu deveria amar.
Sorrindo o Senhor respondeu:
Eu amo o sol e as estrelas
Amo Clara e suas irmãs,
Amo os corações dos homens
E todas as coisas belas.
Meu caro Francisco,
Não precisas chorar
Que tudo isso eu amo também.
(fonte: apostila do professor João Mannes).
Frei Osvaldo Maffei, OFM.
* Este artigo foi escrito a partir das aulas e idéias do Professor Frei João Mannes, OFM, da disciplina História do Pensamento Franciscano, do curso de Filosofia do Instituto de Filosofia São Boaventura / UNIFAE.
- Extraído de http://www.freimaffeiofm.com.br/2011/04/a-visao-ecologica-de-sao-francisco-de-assis-22/ acesso em 10 abr. 2011.
domingo, 10 de abril de 2011
A visão ecológica de São Francisco de Assis - 1/2
A primeira causa, o antropocentrismo, é algo muito presente no pensamento atual, pois o homem em tudo o que faz coloca-se no centro, como se tudo o que existe deve estar à disposição dele e só para ele, em outras palavras, a natureza deve estar a serviço do próprio homem. A segunda causa apresenta, de certa forma, uma consequência da primeira. Quando o homem coloca-se no centro de tudo aquilo que o circunda, ao estar frente à natureza, ele põe-se em espírito de dominação, ou seja, a natureza é submissa ao homem. Partindo destas duas causas é que se pode compreender que o homem perdeu toda e qualquer reverência para com a natureza, logo, entende-se o sentido da terceira causa geradora da crise ecológica, a dessacralização do mundo, uma banalização de tudo e de todas as coisas criadas, consequentemente, percebe-se que a natureza é despojada do seu caráter simbólico e sacramental.
São Francisco já em sua época (há 800 anos) inaugurava uma nova consciência e uma nova prática de relação com a natureza, uma vez que cada criatura recebe o seu ser de Deus que, movido unicamente por sua vontade, a cria e a mantém na existência pela íntima presença do seu sopro criativo. (cf. Sb 1,7; Is 34,16).
O pobre de Assis não contemplava cada criatura como sendo uma coisa ou um objeto de seu uso-fruto, mas percebia que cada criatura emergia milagrosamente do nada e das mãos do Criador.
Os medievais cristãos asseguravam que o mundo é uma produção voluntária e livre de Deus. Porque se Deus não tivesse o poder de criar, não poderia criar nada. Se tivesse o poder, mas não tivesse a sabedoria, não produziria de forma sábia. E se tivesse o poder e a sabedoria, mas não quisesse, também não teria produzido nada.
Santo Agostinho escreve em seu livro, Confissões, que todas as coisas proclamam que existem pela razão de terem sido criadas, sendo que nenhuma matéria pré-existe e nenhum princípio intermediário deve ser procurado entre Deus e a criatura.
“Existem, pois, o céu e a terra. Em alta voz dizemos que foram criados, porque estão sujeitos a mudanças e vicissitudes. [...] Proclamem todas estas coisas que não se fizeram a si próprias: existimos porque fomos criados. Portanto, não existíamos antes de existir, para que nos pudéssemos criar. [...] Como fizestes, meu Deus, o céu e a terra? Sem dúvida, não fizestes o céu e a terra, no céu e na terra, nem no ar ou nas águas porque também estes pertencem ao céu e a terra. Nem criastes o Universo no Universo, porque antes de o criardes não havia espaço onde pudesse existir. Nem tínheis à mão matéria alguma com que modelásseis o céu e a terra. Nesse caso, donde viria essa matéria que vós não criáreis e com a qual pudéssemos fabricar alguma coisa? Que criatura existe que não exija a Vossa existência?”.
Santo Agostinho assegura que a criação é um ato de amor de Deus e que só é um ato puro de amor, porque é realizado a partir do ato mais nobre da vontade livre. Portanto, a criação, em si, e por si mesma, nos conduz a compreender que é auto-comunicação gratuita de Deus.
Partindo desta concepção é que se pode compreender a visão de Francisco, o qual percebeu que Deus criou todas as coisas não como simples ‘coisas’, mas como símbolos que induzem o ser humano a amar e a louvar o Deus Criador. O pobrezinho de Assis ao intuir isso, entende que Deus está de modo inteiro, indiviso e integral em cada criatura, sem fragmentar-se. Ao que Mestre Eckhart afirma: “Deus está inteiramente em todos os lugares como a alma está inteira, indivisa e integralmente no pé, no olho e em cada membro do corpo”.
O Poverello contempla todo o universo, toda a criação. E, ao contemplar, Francisco resgata, também, a centralidade do sentimento da ternura nas relações humanas, em que todos vivem e pertencem a uma grande Fraternidade. Esta condescendência afável e terna para com toda a criatura é relatada em todas as biografias de São Francisco, entre elas a de Tomás de Celano.
“Enchia-se (Francisco) de inefável gozo todas as vezes que olhava o sol, contemplava a lua e dirigia seu olhar para as estrelas e o firmamento (…). Quem pode imaginar a alegria transbordante do seu espírito ao contemplar a beleza das flores e a variadíssima constituição de sua formosura bem como a percepção da fragrância de seus aromas (…). Quando encontrava flores, pregava-lhes como se fossem dotadas de inteligência e as convidava a louvar ao Senhor. Fazia-o com terníssima e comovedora candura; exortava à gratidão os trigos e os vinhedos, as pedras e as selvas, a planura dos campos e as correntes dos rios, a beleza das hortas, a terra, o fogo, o ar e o vento. Finalmente, dava o doce nome de irmãs e irmãos a todas as criaturas” (1Cel 81-82).
No livro Espelho da Perfeição o autor afirma: “sentia-se arrastado para as criaturas com um singular e entranhado amor” (n.113). “Francisco andava com reverência por sobre as pedras em atenção Àquele que a si mesmo se havia chamado de pedra: dava mel e vinho às abelhas no inverno para que não morressem de frio e de fome” (2Cel 165).
“A fraternidade não é só humana, é cósmica. Por isso amava os animais, os répteis, os pássaros e as outras criaturas sensíveis e insensíveis” (1Cel 77).
“Tinhas tão entranhado amor pelas criaturas que estas o compreendiam e estabeleciam com ele uma relação de simplicidade e fraternidade, uma vez que as criaturas irracionais eram capazes de reconhecer o seu carinho” (1Cel 59).
Numa visão franciscana, todas as coisas estão numa harmonia que compõem uma grandiosa sinfonia cujo maestro é próprio Deus. Francisco por intuição percebeu que todas as coisas criadas fazem parte de uma grande fraternidade, vivendo como irmãos e irmãs, gerados – criados pelo próprio Deus.
“Francisco proibia que os irmãos cortassem as árvores pela raiz na esperança de que elas brotassem de novo. Mandava aos jardineiros que deixassem um cantinho de terra, livre, sem cultivar, para que aí pudessem crescer as ervas todas, pois elas também anunciavam o fortíssimo pai de todos os seres” (2Cel 165).
…CONTINUA
Frei Osvaldo Maffei, OFM
* Este artigo foi escrito a partir das aulas e idéias do Professor Frei João Mannes, OFM, da disciplina História do Pensamento Franciscano, do curso de Filosofia do Instituto de Filosofia São Boaventura / UNIFAE.
- Extraído de http://www.freimaffeiofm.com.br/2011/04/a-visao-ecologica-de-sao-francisco-de-assis-12/ acesso em 10 abr. 2011.
- Ilustração: Kollerschlag. Pfarrkirche St.Joseph: Deckenfresco - Kirchenvater St.Augustinus von Andreas Strickner ( 1930 ). Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Kollerschlag_-_Deckenfresco_-_Kirchenvater.jpg acesso em 10 abr. 2011.
sábado, 19 de março de 2011
Natureza. ''O corpo cósmico de Cristo''. Por uma espiritualidade ecológica. Entrevista especial com Marcelo Barros
Defensor de uma espiritualidade ecológica, o monge beneditino Marcelo Barros nesta entrevista à IHU On-Line, concedida por e-mail, afirma que todas as tradições espirituais, com linguagens diferentes e acentuações próprias, ensinam uma contemplação da presença e da atuação divinas no mundo.IHU On-Line – Em sua opinião, o que é e como pode ser vivida uma espiritualidade ecológica e ecumênica?
Para abordar a relevância da relação entre espiritualidade e ecologia, Barros estará presente em dois momentos do programa Páscoa IHU 2011, que inicia no próximo dia 30 de março. O primeiro deles é a palestra Diálogo Inter-Religioso e Ecologia, das 17h30min às 19h, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros - IHU, na Unisinos. E o segundo encontro é o painel das religiões Espiritualidade e Ecologia. Uma Perspectiva Inter-Religiosa, promovido em conjunto com o Programa Gestando o Diálogo Inter-Religioso e o Ecumenismo - Gdirec, das 19h30min às 22h, no Auditório Central da Unisinos.
Segundo ele, é importante saber-nos jardineiros do universo, e não seus donos. Em termos cristãos, é preciso "olhar toda a natureza como uma espécie de 'corpo cósmico do Cristo'", ilustra. "O cuidado com a natureza é sagrado, como é a hóstia consagrada".
Além da presença de Marcelo Barros, a Páscoa IHU 2011 aprofunda a reflexão sobre o cuidado da vida na cultura contemporânea por meio da exibição dos filmes A Era da Estupidez, de Franny Armstrong (2009, 98 min.), no dia 30 de março, das 19h30min às 22h, e de Home – Nosso Planeta, Nossa Casa, de Yann Arthus-Bertrand (2009, 90 min.), no dia 26 de abril, no mesmo horário. Ambos serão exibidos na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros - IHU.
Marcelo Barros é monge beneditino, teólogo e escritor. Membro da Comissão Latino-americana da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo - ASETT, assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos populares. Tem 37 livros publicados, dentre os quais O Amor Fecunda o Universo (Ed. Agir, 2009), de coautoria de Frei Betto. Estão no prelo Dom Hélder Câmara, Profeta para os Nossos Dias (Ed. Paulus) e Espiritualidade Socialista para o Século XXI (Ed. Nhanduti).
Confira a entrevista
Marcelo Barros – A espiritualidade é o caminho de intimidade com o Espírito Divino. O evangelho fala em “se deixar conduzir pelo Espírito”. Isso é graça, é dom. Um modo de se viver isso é se exercitar no amor, na aceitação, no diálogo e no aprendizado com os diferentes – pessoas de outras Igrejas, religiões e tradições espirituais. Isso é a espiritualidade ecumênica. E viver a relação amorosa com todo ser vivo, como expressão da presença divina no universo – a espiritualidade ecológica.
IHU On-Line – Que aspectos da espiritualidade cristã, como vivenciada hoje, podem apresentar sinais “não ecológicos”? Como torná-la cada vez mais ecológica, individual e comunitariamente?
Marcelo Barros – A espiritualidade cristã surgiu do contexto cultural judaico, que teve de se libertar de antigas culturas que adoravam os astros e a natureza e legitimavam opressões, escravidão etc. Por isso, insistiu que Deus se revela na história e deu menos importância à presença divina na natureza. Uma coisa que temos de mudar é certa separação que parecia haver entre Criação e Salvação, natureza e história. Quando eu era pequeno, me ensinaram a orar fechando os olhos. Isso tem um valor – ajuda a nos concentrar –, mas, na espiritualidade ecológica, aprendi a orar abrindo os olhos para a beleza do mundo e da vida.
IHU On-Line – No debate ecológico, parece haver dois contrapontos: os que defendem que as mudanças climáticas não existem e que a natureza está ao dispor do desenvolvimento humano (antropocentrismo); e aqueles que a colocam acima das necessidades humanas (ecocentrismo). É possível encontrar um meio termo?
Marcelo Barros – Não me parece que se trata de meio termo e sim de superar essa noção de qual é o centro ou o mais importante, como se fosse concorrente – ou o ser humano ou a natureza, ou o desenvolvimento ou a preservação. Penso que o mais sagrado é a vida, e a comunidade da vida é o mais importante. De um lado, superar a noção do crescimento ou desenvolvimento como meta acima de tudo. Nem sempre crescer é o melhor. O câncer é o crescimento desorganizado das células e mata. Não é bom.
De outro lado, é certo que o ser humano tem uma missão no universo e não podemos advogar uma ecologia preservacionista que diz: "Se o homem desaparecer da terra, a natureza agradece". Essa não é a visão de uma espiritualidade nem bíblica, nem budista, nem afro ou indígena. O importante é a humanidade não querer ser dona de tudo e sim gerente ou jardineira do universo.
IHU On-Line – O que o relato bíblico da Criação pode nos inspirar acerca de uma espiritualidade ecológica?
Marcelo Barros – Na Bíblia, há vários relatos da Criação. Há alguns nos profetas (Isaías, por exemplo), outros nos livros da Sabedoria e há os dois do Gênesis. A idéia de Criação surgiu na Bíblia como argumento para dizer que Deus é libertador. Em épocas nas quais o povo estava oprimido, os profetas diziam: se ele criou com tanto amor, vai nos salvar. Creio que os relatos da Criação sublinham o amor divino que criou tudo, a missão humana de ser como Deus é para nós, e assim nós sermos para os outros, e a vivência da vocação de defender a vida e de sermos livres e felizes.
IHU On-Line – Que outras narrações religiosas nos ajudam a alimentar e fomentar a mística e a contemplação de Deus presente na natureza?
Marcelo Barros – A mística judaica – dos rabinos – fala em Deus como Mãe, e do universo como saído do útero divino (rabino Luriá, século XVI). A mística do Candomblé diz que Ododua ou Olorum criou nos tornando criadores. Os índios Maya dizem que o ser humano foi criado do milho para ser flexível e um ser alimento de vida para o outro crescer. Penso que todas as tradições espirituais, com linguagens diferentes e acentuações próprias, indicam essa contemplação da presença e da atuação divinas no mundo.
IHU On-Line – Você fala de uma "teologia ecológica da eucaristia", em que a presença de Cristo se dá pelos elementos fundamentais da natureza. Que implicações isso tem para a vivência da fé cristã?
Marcelo Barros – Ajuda a olhar toda a natureza como uma espécie de "corpo cósmico do Cristo". Assim como ele nos ensinou que quem dá um copo d’água a um pobre, é a ele que dá, e quem socorre uma pessoa necessitada, é a ele que socorre, assim também o cuidado com a natureza é sagrado, como é a hóstia consagrada.
IHU On-Line – "A criação geme em dores de parto": nos últimos dias, trágicos acontecimentos naturais, como as enchentes no Sul do Brasil e o maremoto do Japão, chocaram a opinião pública. Como analisar, teológica e ecologicamente, esses fatos?
Marcelo Barros – Em horas assim de sofrimento e nas quais temos muitos irmãos e irmãs chorando a dor de entes queridos e países como o Japão e o Haiti, precisando ser reconstruídos, não é justo tirarmos lições frias ou como quem diz: "A gente não tinha avisado?".
Nas enchentes e inundações em várias regiões brasileiras, são sempre os pobres que sofrem mais. Diante de tanta dor, vamos simplesmente nos mobilizar e ser solidários e sofrer com o outro. Todo mundo sabe que a natureza sempre teve esses fenômenos, mas nunca com tanta intensidade e tanta frequência como agora. É preciso mudar os padrões de civilização. Vários países estão se perguntando: podemos continuar a mesma política energética? Construir mais centrais nucleares apostando na segurança que uma vez ou outra falha?
Nada de leituras fundamentalistas – castigo divino ou fim do mundo – e nada de catastrofismo. Mas, sim, partir do sofrimento para nos organizar melhor e aprender a conviver melhor com a terra e com os seus ritmos próprios. Não podemos continuar a construir casas em lugares perigosos, a edificar cidades tomando o lugar do mar e assim por diante. O Apocalipse (capítulos 21 e 22) diz que, na Nova Jerusalém, natureza e técnica humana, construção urbana, têm de ser muito mais harmônicas e casadas.
Para ler mais:
- Páscoa IHU 2011: o cuidado da vida em debate
- Um Tempo para a Criação - Revista IHU On-Line nº. 346
- Ecologia na ótica do niilismo: Por uma ecologia aberta ao Transcendente
- Ecologia: um desafio para a espiritualidade contemporânea
- ‘Todos nós somos chamados a ser monges’. Entrevista especial com Marcelo Barros
- O desafio de conciliar ecologia e fé
- Um lugar teológico especial: a Terra
- “Para uma nova relação do ser humano com a natureza, não basta boa vontade ou ideologia ecológica”. Entrevista especial com Marcelo Barros
Foto: Pe. Marcelo Barros, OSB / Eugenio Hansen, OFS. -- Santa Cruz do Sul : Mosteiro da Santíssima Trindade, 20101212. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Marcelo_Barros_OSB_.jpeg acesso em 19 mar. 2011.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Obsolecencia Programada : (Comprar, Tirar Comprar)
Logo, logo
estaremos começando
mais uma Campanha da Fraternidade
este documentário,
em espanhol,
tem tudo a ver
com o tema deste ano:
domingo, 9 de janeiro de 2011
Desafios da Ecologia às religiões
Esse artigo é parte do número coletivo
de revistas latino-americanas de teologia de 2010,
animado pela Comissão Teológica Latino-americana
da ASETT/EATWOT
A ciência que mais mudou a consciência da humanidade é, na atualidade, a “nova cosmologia”, ou seja, as ciências do cosmos e da natureza. Pela primeira vez, e de modo simultâneo para toda a humanidade, temos uma visão científica do universo: sua origem, suas dimensões, sua evolução, as galáxias, as estrelas, os planetas, a vida..., que acaba sendo uma visão muito diferente daquela que tínhamos durante milênios e tivemos até a poucas décadas passadas.
Ao longo de toda a história de nossa espécie não desfrutamos desta nova visão maravilhosa. As religiões, a arte, a poesia... se encarregaram, então, de suprir, com imaginação e crenças, nossa ignorância coletiva e nossos medos. Os “mitos” que elas criaram cumpriram um papel social útil para nossa organização civilizacional, e muito importante e significativo para nosso imaginário coletivo. Mas, hoje em dia, há um problema, e ele consiste no seguinte: aqueles mitos simbólicos não podem mais continuar sendo interpretados com uma “epistemologia mítica”, ou seja, não podemos continuar acreditando que eles são ainda “descrições objetivas da realidade”... As religiões, a poesia, a arte imaginaram um mundo pequeno, plano, parado, fixo, criado diretamente assim como o vemos e regido por um Deus lá em cima, lá fora, que seria uma espécie de razão última de tudo.
Diante da nova ciência, este “imaginário religioso clássico”, que presidiu a consciência da humanidade durante milênios, salta em pedaços. Não é mais possível ser uma pessoa atualizada e continuar cultivando aquele imaginário. Este é o principal motivo pelo qual a relação entre a ecologia e as religiões é tensa.
A “nova narrativa” que a ciência nos apresenta – e que hoje, como afirmamos acima, pela primeira vez, é uma narrativa científica e simultaneamente a mesma para toda a humanidade, para todos os povos do planeta – oferece-nos uma nova visão do mundo, até agora desconhecida, e com estas características:
– um universo em total e contínuo movimento: ao contrário de como sempre tínhamos imaginado, nada está parado;
– em expansão: tudo começou com uma grande explosão, e tudo continua incontidamente se expandindo; estamos numa explosão, somos parte dessa explosão;
– em evolução e desdobramento: não se trata de um “cosmos” regido por leis eternas e imutáveis, mas de uma “cosmogênse” que se desdobra a partir de dentro;
– com o aparecimento de propriedades emergentes e de auto-organização a partir da desordem do caos: um todo que é maior do que as partes e que está em cada parte...;
– orientado para a vida, a complexidade e a consciência, que, finalmente, emerge no ser humano, que se torna consciência coletiva, que assume conscientemente o cosmos e por ele se responsabiliza;
– relacionado, em forma holística, em rede de redes..., nas quais cada partícula está relacionada com todas...
Esta nova visão do cosmos nos situa num mundo muito diferente daquele que as religiões nos ensinaram, e nos muda, radicalmente, em vários aspectos:
• Muda a imagem da natureza, que, a partir de agora:
– Não podemos mais imaginá-la como mero cenário da história humana, história essa que seria o único evento importante que acontece no planeta e no cosmos...
– Na atual cosmovisão não é possível aceitar um “segundo andar”. O que se queria indicar com aquele simbolismo só pode encontrar-se agora “neste mesmo andar”. Não há “metafísica” (ou, pelo menos, não é necessário nem obrigatório crer nela, mesmo que seja útil imaginá-la...).
– Já não é aceitável uma qualificação religiosa negativa (pecaminosa) da matéria e de tudo o que a ela se relaciona (carne, instinto, sexo, prazer...).
– Não podemos mais aceitar o pressuposto mitológico de um “pecado original” que, ancestralmente, tudo contaminou, mas sim, uma “bênção original”...
– Esta vida não pode ser somente uma ilusão passageira, uma “prova”, em função de outra vida, a verdadeira e definitiva, aquela depois da morte à que um Criador nos teria destinado... As religiões de “salvação eterna” precisam, com urgência, dar novamente a razão de si mesmas no contexto mental da atualidade.
• Muda a imagem do ser humano:
– Não viemos de cima, nem de fora, mas sim, de baixo, de dentro, da Terra, do Cosmos; somos o resultado atual, a flor da evolução cósmica...
– Não é verdade que somos superiores, diferentes e alheios ao resto da Natureza, únicos com mente e espírito procedentes diretamente de Deus...
– Não somos os “donos da criação”; somos apenas mais uma espécie, embora a única capaz de assumir responsabilidade.
– Não podemos viver separados da Natureza, como “sobre-naturais”, injustificadamente auto-exilados de nossa placenta, abdicando insensatamente de nossas raízes naturais, auto-despojados, artificialmente desnaturalizados.
– Não somos “sobre-naturais”, mas sim, muito naturais, e naturais a um tal estágio ao qual, talvez, outros seres ainda não tenham logrado chegar. Somos Natureza, Terra que sente, que pensa e ama, matéria que em nós chega à reflexão...
• Muda a imagem de Deus
– Uma visão tão precária da natureza e do cosmos como aquela que a humanidade teve só podia dar dela mesma uma imagem insuficiente de Deus.
– A atual visão da realidade não nos permite mais imaginar um Deus lá fora, lá em cima, nesse “segundo andar superior” do qual dependeria o nosso. Hoje vemos que não tem mais sentido falar nem pensar num lugar “fora” ou “acima” do cosmos.
– A ideia de um Deus separado da criação ou trans-cendente é um de nossos principais problemas (Thomas Berry).
– Um deus antropomórfico não faz sentido: “pessoa” que pensa, decide, ama e se expressa como nós... Deus, theos ou Zeus do Olimpo.
– E pensar que é “Senhor”, Dono, Juiz que distribui prêmios e castigos é, hoje, claramente, um antropomorfismo agrário.
– Se existir “a divindade” (dimensão real da realidade), só poderá ser encontrada na única realidade cósmica...
Retornemos ao cosmos e à natureza
Santo Tomás disse que “um erro a respeito da Natureza leva a um erro a respeito de Deus”... Os erros que sofremos a respeito da natureza e, sobretudo, a ignorância a seu respeito foram máximos, pelo que é de se supor que a imagem de Deus e do religioso que dessa referência decorreu implique em grandes deficiências que, hoje, estaríamos em condições de reparar.
Parece evidente que as religiões viveram de costas para a natureza, sobretudo por que concentraram toda a sua atenção numa pequena “história sagrada”, iniciada somente há 3.000 anos, e esta foi a única “revelação” que levaram em conta.
A explosão científica dos últimos tempos é, sem dúvida, uma nova “experiência de revelação” em que o divino da realidade se nos manifesta de uma nova forma. Na atualidade, não há nada que esteja inspirando uma tomada de consciência espiritual no mundo como a “nova narrativa” de nossa história cósmica. As religiões precisam sentir o kairós ecológico desta hora e voltar-se para o cosmos e a natureza, para neles reconhecer nossa “história sagrada” e superar o atual divórcio entre ciência e espiritualidade, entre religião e realidade. Aceitar o desafio da ecologia não é somente incluir o “cuidado da natureza” entre os imperativos morais; é mais: implica uma “reconversão ecológica” da religião.
Desafios
Portanto, não é só a imagem física do mundo que mudou. Todo ele mudou: sua origem, suas dimensões, sua arquitetura, sua complexidade, seu sentido... Diante desta mudança, as religiões, que elaboraram todo seu patrimônio simbólico (categorias, teologias, liturgia, dogmas, ritos, mitos...) no contexto daquele velho imaginário, parecem agora profundamente antiquadas, pertencentes a um mundo obsoleto, distante, que já não existe e nem é compreensível. A linguagem religiosa tradicional perde sentido e significado e até se torna ininteligível para os jovens. As religiões, que durante milênios prestaram à humanidade o serviço de expressar a dimensão mais profunda da existência, dão mostra de que já não servem mais...
Nesta situação, as religiões se sentem a si mesmas desatualizadas e incompreendidas, sem perceber com clareza qual seja a causa. Com frequência reagem defendendo-se, repetindo e reafirmando intempestivamente sua tradição sagrada, suas “verdades reveladas”, as “verdades eternas”..., quando deveriam reinterpretá-las e adequá-las à nova linguagem e aos novos paradigmas a que nos referimos acima, abandonando aqueles erros de perspectiva que todos sofremos pela ignorância da humanidade à qual, historicamente, nos vimos submetidos...
Em geral, os anos 60 do século passado foram um momento de esperança e otimismo no cristianismo, quando parecia que se estava abrindo a possibilidade de uma profunda renovação interna e a possibilidade de uma reconciliação com o mundo e com os valores da modernidade (razão, ciência, mundo, democracia, valor da pessoa, liberdade religiosa e demais liberdades, perspectiva dos pobres etc.).
Mas esta primavera logo foi truncada, diante da possível comoção que tal renovação poderia produzir. O medo venceu. Os freios e os retrocessos a que se optou desde então, distanciaram mais e mais a sociedade em relação ao cristianismo institucional. São dezenas de milhões de pessoas que, nas últimas décadas, na Europa, abandonaram a religião, alegando não poder aceitar uma cosmovisão que lhes parece superada, buscando então sua realização espiritual por novos caminhos. Só uma profunda reflexão – no campo da ecologia e no de vários outros “novos paradigmas” – e uma consequente e corajosa renovação teológica reabrirá a esperança.
José María VIGIL
Comissão Teológica Latino-americana da ASETT
Panamá – REPÚBLICA DO PANAMÁ
Extraído de:
RELaT - Revista Eléctronica Latinoamericana de Teologia. N. 411p.
Disponível em http://servicioskoinonia.org/relat/411p.htm acesso em 9 jan. 2011.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Blog da DHJUPIC da JuFra do Brasil
sábado, 13 de novembro de 2010
O desafio de conciliar ecologia e fé
Nós podemos mudar. Mais que o tema do Seminário sobre questões climáticas e a vida no planeta que ocorreu nesta sexta-feira, em Porto Alegre, a frase retrata a esperança dos que querem ser multiplicadores do amor e do respeito ao planeta. Pessoas de todo o Estado aprenderam que não basta olhar o Governo tratar das questões ambientais, mas é preciso trazê-las para dentro das igrejas, da espiritualidade, da vida da sociedade. O seminário marcou o fim da Semana da Solidariedade e o início das comemorações do Ano Jubilar da Cáritas RS, que completará 50 anos em 2011.
O salão de eventos da Igreja Nossa Senhora do Rosário da Pompéia, localizado em uma movimentada rua da capital gaúcha, ficou tomado de estandes com amostras de trabalhos realizados pelas Cáritas espalhadas pelo Estado. Nas paredes, vários cartazes da Semana da Solidariedade que traz a imagem dos olhos de uma criança e a pergunta: “Qual o nosso olhar?”.
“Eu vii a opressão do meu povo no Egito, ouvi os gritos de aflição diante dos opressores e tomei conhecimento dos seus sofrimentos”.
Esse foi o trecho bíblico escolhido para guiar as reflexões ao longo do Seminário, que também contou com momentos de música e descontração. Após a oração inicial, foi apresentado um apanhado histórico sobre a Cáritas no Estado. Figuras importantes nessa caminhada, como Dom Helder Câmara e Dom Ivo Lorscheiter, não foram esquecidos. Durante a tarde, foram realizadas quatro oficinas que tiveram como tema o desenvolvimento sustentável.
Entretanto, a principal atividade do dia foi a palestra do monge beneditino Marcelo Barros. Teólogo e biblista, Barros trabalha a junção entre ecologia e espiritualidade. A religiosa Lourdes Dill saiu com outras cinco companheiras às 3h30min para chegar a Porto Alegre a tempo de escutar o monge. “Ele é um profeta”, resumiu. Há mais de 25 anos, Lourdes atua na Cáritas, promovendo ações de inclusão social e economia solidária, principalmente junto aos catadores de lixo da região Central do RS. Para ela, a Cáritas é uma peça fundamental na caminhada da Igreja no Rio Grande do Sul.
Caty Griebeler, 70 anos, é moradora de Porto Alegre e trabalha na Pastoral da Educação. Durante o seminário desta sexta-feira, ela procurava mais subsídios para falar sobre ecologia com educadores e estudantes. “É um tema sempre presente na sala de aula. A próxima Campanha da Fraternidade será um desafio para nós”, afirmou. A CF 2011 tem como tema Fraternidade e a vida do planeta.
Há 18 anos, Cláudio Roberto Schaab participa da Cáritas da Diocese de Novo Hamburgo e ajudou a levar o trabalho a 37 paróquias. Ao longo desses anos, Cláudio viu nascerem oito empreendimentos solidários, que hoje geram emprego e renda. Ele acompanhou também a inclusão das questões ambientais na pauta da Cáritas. O voluntário não escondia a tristeza ao falar sobre a nova mortandade de peixes no Rio do Sinos, preocupação presente na Cáritas da região de Novo Hamburgo. “Viemos aqui buscar novas forças”, afirmou, antes de acompanhar a palestra de Marcelo Barros.
Odete Silveira saiu de Passo Fundo para comparecer ao evento na capital. Ela e algumas companheiras não abriram mão de rezar pelos próximos 50 anos da Cáritas. “Queremos continuar com esse espírito alegre, de caminhada e partilha.” A Cáritas tinha apenas oito anos de existência no Rio Grande do Sul quando Ivo Guizardi começou a participar. Há 42 anos, ele atua como voluntário. “Estou aqui para celebrar este grande feito da Igreja e do homem.”
Integrantes da Cáritas de Bagé acabaram se perdendo e rodaram por mais de uma hora em Porto Alegre até encontrar o local do seminário. “Estamos firmando um compromisso com as questões climáticas. Precisamos cuidar da terra, das pessoas, da vida”, disse Nilzamar de Macedo.
O sistema atual de desenvolvimento é insustentável
Marcelo Barros tem um tom de voz suave, uma tranquilidade característica do povo do norte do país. Entretanto, quando começa a falar sobre o descaso que o povo tem com o meio ambiente, muda de feição e as palavras ganham contundência. Muitos dos que ali estavam o chamavam de “companheiro de muitas lutas”. “Pelos pobres, pelos desfavorecidos, pela terra, pela vida”, afirmou a assessora da Cáritas Brasileira – Regional do Rio Grande do Sul, Loiva de Oliveira, ao apresentá-lo.
Era madrugada quando o avião do religioso pousou em solo gaúcho. Após descansar durante algumas poucas horas, ele se dirigiu ao salão de eventos da Igreja Nossa Senhora do Rosário da Pompéia. Ao meio-dia, embarcaria para São Paulo, sendo que, na próxima semana, passará também por Brasília e Argentina, onde tem vários compromissos, para só depois retornar ao Recife.
Segundo Barros, medidas técnicas e políticas precisam ser tomadas em relação ao meio ambiente. Entretanto, o mais importante é que a sociedade modifique sua forma de lidar com a natureza. “Caso contrário, todas as ações serão paliativas.” O monge deixou a plateia impressionada quando afirmou que a Terra já perdeu a capacidade que tinha de se regenerar. “A lógica do capitalismo assassina o povo e o meio ambiente.”
Religiões como o budismo e o hinduísmo, de acordo com Barros, sempre defenderam a vida. Porém, a Igreja Católica tem uma dívida grande com o meio ambiente. “A ecologia não pode ser tratada como apêndice. Tem de ser algo fundamental, central da fé”, disse. “Qual carta papal fala sobre ecologia? Há apenas um parágrafo ou outro, sempre de um jeito marginal. Acaba a Campanha da Fraternidade e o meio ambiente é esquecido” completou.
Para o monge, a situação é mais preocupante do que se imagina. “Precisamos mudar. O sistema atual de desenvolvimento é insustentável. A terra sobrevive sem o homem. O homem não sobrevive sem a terra.”
Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=38306 acesso em 13 nov. 2010.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã Água
Durante os anos 2005 e 2007, o franciscano Dom Luis Cappio protestou, no Brasil, com uma greve da fome, contra o grande projeto do desvio fluvial do Rio São Francisco, projeto muito questionado por ambientalistas e peritos. O lucro dos dois canais, planejados com
Mal o projeto saiu de foco, sucede-lhe outra obra faraônica: a barragem de Belo Monte, no Pará. A barragem planejada teria um comprimento de 500 quilômetros através de terrenos reservados aos índios. Milhares de pessoas perderiam as suas terras, e ainda mais animais morreriam. Mesmo assim, o governo brasileiro leva adiante a construção de tão repudiada barragem. O bispo do Xingu (PA), oriundo da Áustria e presidente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Dom Erwin Kräutler, é um dos mais fortes críticos do projeto. Além da Igreja e de instituições nacionais, também há movimentos internacionais que estão contra a construção de Belo Monte. “A Amazônia constitui uma grande responsabilidade para o Brasil, mas também tem as suas repercussões além das fronteiras brasileiras. Por isso, as manifestações de solidariedade da comunidade internacional são importantes”, disse Dom Erwin.
Os índios preparam-se para a guerra contra o projeto. Assim parece tornar-se verdade o que os peritos já previam há bastante tempo: que a causa das futuras guerras já não será o petróleo, mas sim, a água. Pelo menos, a nível local. A água é um dos mais importantes elementos da vida no seu todo. E a água é, ao mesmo tempo, uma base não menos importante para as grandes empresas. As mesmas tencionam assegurar o patrimônio da natureza através da privatização das reservas da água, tirando assim o lucro – através de água para mineração em regiões com grandes reservas do lençol freático, através da exploração indiscriminada dos rios deste mundo; através da exploração dos sistemas de água estaduais e municipais. A água é, assim, parte dos custos de vida, que os ricos podem pagar, mas que conduzem os pobres cada vez mais à miséria.
A situação é a seguinte: As reservas de água doce do mundo já não são suficientes. Já agora há aproximadamente quatro mil milhões de pessoas que têm dificuldades em abastecer-se com água potável. Isto tem a ver com uma distribuição injusta. Enquanto que, no Norte rico, há água em abundância e é desperdiçada, os anos de seca aumentam em muitas regiões do mundo. Dois terços da superfície de terra da África são regiões secas e ecologicamente em risco ou desertos. Aumenta cada vez mais a área dos solos em risco, devido ao aproveitamento abusivo do solo, à adubação química, ao desmatamento e irrigação defici-ente. Assim, torna-se cada vez mais difícil o abastecimento com alimentos básicos. O pro-blema do abastecimento e da distribui-ção de água em regiões com falta de água, como p.ex. no Oriente Médio, transformou-se, já num problema politicamente explosivo. Os estados podem, roubar a água uns dos outros, pondo em sério risco a paz já tão frágil. O problema do abastecimento de água potável tornar-se-á um dos maiores desafios do século 21.
Haverá solução? Só se mudarmos radicalmente de opinião. A água é uma dádiva de Deus e não deve ser privatizada para fins de lucro. Isto deveria ser determinado para todo o mundo. A Criação é tão generosamente organizada – que se só compartilhássemos em vez de poluir, todos poderiam ter fartura. “Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã Água, que é mui útil e humilde e preciosa e casta.”(Cântico do Irmão Sol) Todo o Cântico do Irmão Sol está cheio da compreensão grata de que tudo isso não é natural. S. Francisco, já no leito da morte, conservou o olhar admirado da criança. Sua vida continua falando ao mundo que a Criação de Deus for um banquete de vida em abundância se a conservarmos e cuidarmos, em lugar de a explorar e destruir. Talvez sejam necessários períodos de seca e de desertificação para percebermos isso. Talvez sejam necessárias a sede e a fome para apreciarmos de novo o elemento vital que é a água. A utilização cuidadosa da mesma já não é suficiente. Para que a água continue sendo acessível e suficiente para todos, devemos interferir decidida e audaciosamente nos processos políticos e econômicos,como o fazem Dom Luis Cappio e Dom Erwin Kräutler, pondo em risco as suas próprias vidas.
Andréas Müller OFMExtraído de Boletim CCMFC. Jun. 2010. Disponível em http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2010/2010_06_News.shtml acesso em 17 jun.2010.
Ilustração: A w:drop of water on a leaf / tanakawho. 2006. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Water_drop_on_a_leaf.jpg acesso em 17 jun. 2010.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Encontro de CEB's: Comunidades Ecológicas e Missionárias
LEMA: "Mãe Terra Precisamos de Ti!"
Quando? entre os dias 22 e 23 de Maio de 2010
Onde? na Comunidade Santa Rita de Cássia, Bairro Florida- Paróquia Nossa Senhora da Paz, Vicariato de Guaíba.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Ecologia nos Documentos da Igreja Católica
Frei Ludovico GarmusIntrodução
Abordar os aspectos do Documento de Aparecida (DAp), relacionados com a ecologia, no espaço de uma comunicação[1], só é possível de uma maneira geral. As considerações que encontraremos no Documento de Aparecida serão mais compreensíveis supondo uma caminhada da Igreja Católica como um todo – e mesmo de outras Igrejas – nos últimos quarenta anos. Poderíamos colocar o DAp no contexto mais amplo das discussões ecológicas da sociedade planetária ou global, isto é, dos Organismos Internacionais (ONU) e Conferências de caráter ambiental. Poderíamos trazer e comentar textos elaborados pelas Conferências Episcopais de vários países, regiões ou continentes[2]. Poderíamos abordar pronunciamentos sobre a crise ambiental de outras Igrejas cristãs, a nível internacional e nacional. Poderíamos citar documentos e pronunciamentos relacionados com as preocupações ambientais de dezenas de dioceses e regionais do Brasil. Tudo isso haveria de enriquecer nosso texto, mas extrapolaria as possibilidades e os objetivos ora traçados. Para nossas finalidades, achamos por bem ater-nos aos pronunciamentos dos Papas e do Vaticano e a outros documentos pontifícios, aos pronunciamentos e documentos mais importantes do Episcopado Brasileiro e aos documentos oficiais do Episcopado Latino-americano.
Magistério Eclesiástico e pronunciamentos do Papa
1.1. Concílio Vaticano II: Gaudium et Spes, n. 37; 64, 69, 70
A problemática da ecologia não era ainda uma preocupação dos padres conciliares. Também não era de se esperar que o fosse, pois o assunto ainda não estava na pauta das discussões da sociedade. Mesmo assim, na Gaudium et Spes (GS) alguns acenos indiretos aparecem. Fala-se de mudanças profundas e rápidas que se estendem progressivamente ao universo inteiro, provocadas pela inteligência e atividade humanas (n. 4). Lembra-se que o ser humano foi criado à imagem de Deus (n. 12 e n. 34), “constituído senhor de todas as coisas terrenas, para que as dominasse e usasse, glorificando a Deus” (cf. Gn 1,26; Sb 2,23; Eclo 17,3-10), e que Deus fez boas todas as coisas (Gn 1,31). A atividade humana, porém, foi corrompida pelo pecado (n. 37). Mas, “remido por Cristo e tornado criatura nova no Espírito Santo, o homem pode e deve amar as próprias coisas criadas por Deus. Pois ele as recebe de Deus e as olha e respeita como que saindo de suas mãos. Agradece ao Benfeitor os objetos criados e os usa para o seu bem, na nobreza e liberdade de espírito. É assim introduzido na verdadeira posse do mundo, como se nada tivesse, mas possuísse tudo. ‘Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus’” (1Cor 3,22-23). Mas a esperança de um “novo céu e uma nova terra” (2Pd 3,13; Ap 21,1-5; Rm 8,19-23), “longe de atenuar, antes deve impulsionar a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra” (GS 39).
Um dos princípios lembrados pelo Concílio Vaticano II é o do destino universal dos bens, princípio este que sempre de novo voltará em documentos sucessivos da Igreja: “Deus destinou a terra, com tudo que ela contém, para o uso de todos os homens e povos, de tal modo que os bens criados devem bastar a todos, com equidade, sob as regras da justiça, inseparável da caridade” (GS 69). Por isso, os mais ricos têm a obrigação de socorrer os pobres não somente com o que lhes é supérfluo. As decisões sobre a vida econômica devem atender às necessidades individuais e coletivas da geração presente. Por outro lado, é preciso “prever o futuro, estabelecendo justo equilíbrio entre as necessidades atuais de consumo, individual e coletivo, e as exigências de inversão de bens para as gerações futuras” (GS 70). Assim, aqui já está delineado o tema, que será mais tarde discutido, do “desenvolvimento sustentável”.
1.2. Paulo VI e suas preocupações ecológicas
Já em 1967, Paulo VI, na Populorum progressio[3], falando do progresso dos povos, coloca um dos princípios que ainda hoje podem nortear as atitudes humanas diante do meio ambiente. Diz ele: “Herdeiros das gerações passadas e beneficiários do trabalho dos nossos contemporâneos, temos obrigações para com todos, e não podemos desinteressar-nos dos que virão depois de nós” (n. 17).
A partir da década de 1970, a Igreja tem acompanhado a questão ecológica com assiduidade. Destacamos alguns trechos da mensagem do papa Paulo VI às Nações Unidas, que reforçam as preocupações da comunidade mundial reunida para esta conferência[4]: “Hoje, de fato, há maior consciência de que o homem e o ambiente em que ele vive são mais do que nunca inseparáveis”. Insiste o Papa na necessidade de respeitar os limites da regeneração da natureza: O homem deve “respeitar as leis que regulam o impulso vital e a capacidade de regeneração da natureza; ambos, portanto, são solidários e compartilham um futuro temporal comum”. Dependendo do modo como agirmos com a natureza, serão “os fatores de interdependência, para o melhor ou para o pior, para a esperança de salvação ou para o risco do desastre”. O homem já se tornou uma ameaça para si mesmo, com suas armas atômicas, químicas e bacteriológicas. E o Papa se pergunta: “Mas como se hão de ignorar os desequilíbrios provocados na biosfera, devidos à exploração desordenada das reservas físicas do planeta, até com o propósito de produzir os bens úteis, como, por exemplo, o desperdício dos recursos naturais não renováveis, a poluição do solo, da água, do ar e do espaço, com os consequentes atentados contra a vida vegetal e animal?” A técnica pode ser usada para minorar os males já causados ao ambiente. “Mas todas as medidas técnicas serão ineficazes – frisa o Papa – se não forem acompanhadas por uma tomada de consciência da necessidade de uma transformação radical de mentalidades”. Paulo VI aponta a figura de São Francisco de Assis como modelo para nossa relação com a natureza: “Como poderíamos deixar de evocar aqui o exemplo imorredouro de São Francisco de Assis e deixar de mencionar as grandes Ordens contemplativas cristãs, que oferecem o testemunho de uma harmonia interior, obtida no âmbito de uma comunhão confiante nos ritmos e nas leis da natureza?” Por fim, partindo da frase de Paulo a Timóteo: “Toda criatura de Deus é boa” (cf. 1Tm 4,4, que repete Gn 1), o Papa diz: “Governar a natureza significa, para a raça humana, não destruí-la, mas aperfeiçoá-la; não transformar o mundo num caos inabitável, mas numa bonita casa, ordenada no respeito por todas as coisas”. O ambiente natural não deve ser objeto de apropriação pessoal exclusiva, mas é um bem comum, um patrimônio da humanidade.
Paulo VI, no seu discurso por ocasião do XXV aniversário da FAO (Organização Mundial para a Agricultura e Alimentação, 22/11/1970), elogia os grandes esforços desenvolvidos para um melhor aproveitamento das terras, águas, florestas e oceanos, que resultaram em maior produtividade das culturas, no melhoramento da fertilidade do solo, com o uso racional da irrigação. Adverte, porém: “O ritmo acelerado, a realização concreta destas possibilidades técnicas não se verifica sem causar nocivas repercussões no equilíbrio do nosso ambiente natural, e a deterioração progressiva daquilo que convencionalmente se chama ‘meio ambiente’, sob o efeito dos contragolpes da civilização industrial, corre o risco de acabar numa verdadeira catástrofe ecológica”. E cita alguns danos já causados: a qualidade do ar e da água potável, a contaminação de praias e oceanos e a ameaça de equilíbrio de várias espécies. Enfim, o homem causa desequilíbrio à natureza, posta à sua disposição pelo desígnio amoroso de Deus (Sl 65,10-14). O homem ao longo de milênios “aprendeu a submeter a natureza, a dominar a terra (Gn 1,28)... Agora, soou a hora de ele dominar o seu próprio domínio”[5].
Em 1971, na Carta Apostólica Octogésima adveniens[6], volta a advertir para as consequências dramáticas provocadas pela atividade humana: “De um momento para o outro, o homem toma consciência dela: por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação. Não só o ambiente material já se torna uma ameaça permanente – poluições e resíduos, novas doenças, poder destruidor absoluto – é o mesmo quadro humano que o homem não consegue dominar, criando assim, para o dia de amanhã um ambiente global, que poderá tornar-se insuportável. Problema social de envergadura, este, que diz respeito à inteira família humana... O cristão deve voltar-se para estas percepções novas, para assumir a responsabilidade, juntamente com os outros homens, por um destino, na realidade, já comum”.
Na Bula Apostolorum Limina (1974) sobre o Ano Santo[7], entre os problemas que perturbam a humanidade e deveriam ser iluminados pelas celebrações do Ano Santo, Paulo VI cita “desde os econômicos e sociais aos da ecologia, passando pelos das fontes de energia, da libertação dos oprimidos e da elevação de todos a uma maior dignidade de vida”.
Em nome do Papa Paulo VI, o delegado do Vaticano à Conferência mundial da população, convocada pela ONU (01/09/1974), lembra que, segundo dados técnicos, existem possibilidades de criar recursos alimentares e recursos energéticos para uma população muito maior, mas os países ricos, que consomem 80% da energia disponível precisam mudar seu estilo de vida consumista, deletério para a natureza e o ambiente[8].
1.3. A ecologia nos pronunciamentos do Papa João Paulo II
Cinco meses após a eleição, o Papa João Paulo II publica a Carta Encíclica Redemptor hominis (04/03/1979), na qual já aparece sua preocupação ecológica: “As políticas que regem a economia mundial submetem o homem a tensões por ele mesmo criadas, dilapidando num ritmo acelerado os recursos materiais e energéticos, comprometendo o ambiente geofísico. Tais estruturas ampliam incessantemente as zonas de miséria, e com isso, a angústia, a frustração e a amargura”[9]. A exploração da terra e do planeta para fins industriais e militares e a técnica não controlada, “trazem muitas vezes consigo a ameaça para o ambiente natural do homem, alienam-no nas suas relações com a natureza e o separam da mesma natureza”. Tal atitude é contrária à vontade do Criador que colocou o homem como ‘senhor’ e ‘guarda’, e não como ‘desfrutador’ e ‘destruidor’ (Redemptor hominis, n. 15).
Na Carta Apostólica Appropinquat iam synodus, preparando o VI Sínodo dos bispos, o Papa aponta, entre outros, alguns temas relacionados com o meio ambiente: “No plano material a questão ambiental levada avante, merece um novo estudo e impulso. O complexo problema energético pode muito bem ser visto neste contexto, de modo que os recursos energéticos mais eficazes e apropriados sejam disponibilizados sem um inútil desperdício no uso dos materiais”[10].
Na Carta Encíclica Sollicitudo Rei Socialis (30/12/1987) João Paulo II aborda em diferentes momentos a questão ecológica[11]: “Entre os sinais positivos do presente é preciso registrar, ainda, uma maior consciência dos limites dos recursos disponíveis, a necessidade de respeitar a integridade e os ritmos da natureza e de tê-los em conta na programação do desenvolvimento, em vez de sacrificá-los a certas concessões demagógicas. É, afinal, aquilo que se chama hoje com o termo preocupação ecológica”. Mais adiante (n. 29) insiste no limite do domínio humano sobre a criação: “O domínio conferido ao homem pelo Criador não é um poder absoluto, nem se pode falar de liberdade de ‘usar e abusar’, ou de dispor das coisas com bem lhe agrada. A limitação imposta pelo mesmo Criador, desde o princípio, é expressa simbolicamente com a proibição de ‘comer o fruto da árvore’ (cf. Gn 2,16-17)”... “Uma justa concepção do desenvolvimento não pode prescindir do respeito pelos seres que formam a natureza visível... Não se pode fazer, impunemente, uso das diversas categorias de seres, vivos ou inanimados – animais, plantas, elementos naturais – a bel prazer, segundo as próprias necessidades econômicas” (n. 34). O desenvolvimento deve ser condicionado às possibilidades de renovação dos recursos naturais. Deve basear-se “na constatação mais urgente das limitações dos recursos naturais, alguns dos quais não renováveis. Usá-los como se fossem inesgotáveis, com domínio absoluto, põe seriamente em perigo sua disponibilidade não só para a geração presente, mas, sobretudo, para as futuras gerações” (n. 34).
Na homilia pronunciada em Punta de Arenas[12], João Paulo II relaciona a paz entre os homens com a paz com a natureza: “Quero, enfim, referir-me à outra preocupação, em certo modo relacionada com a paz: a paz do homem com a natureza. Como sabeis, em não poucas regiões do mundo encontramo-nos ante perigos e ameaças à ecologia, que não só causam gravíssimos danos ao esplendor da natureza, mas também afetam gravemente o mesmo homem, ao tentar contra o seu equilíbrio vital e o seu futuro. Meu predecessor o Papa Paulo VI faz presente já esta preocupação ao dizer: ‘de um momento para o outro, o homem toma consciência dela: por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, começa o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação’ (Octogesima Adveniens, 21). A Igreja não é contra o progresso científico e técnico: ‘a técnica é indubitavelmente uma aliada do homem. Ela facilita-lhe o trabalho, aperfeiçoa-o e o multiplica’ (Labore Exercens, 5). Mas o progresso técnico não deve assumir o caráter de domínio sobre o homem e de destruição da natureza. A técnica, no sentido querido por Deus, deve servir o homem, e o homem deve entrar em contato com a natureza como guarda inteligente e nobre, e não como explorador sem escrúpulo (cf. Redemptor Hominis, 15)”... “Hoje, queridos filhos, nos umbrais do V Centenário da evangelização da América, a Igreja pede-vos um particular empenho na obra de reconciliação e pacificação: com Deus, com o irmão, com a natureza inteira”.
Já em 1983, no Documento preparatório para a VI Assembléia Geral do Sínodo dos Bispos, o Papa relacionava a reconciliação entre os homens com a reconciliação com a natureza: “Em geral, não há reconciliação entre os homens sem uma reconciliação com toda a natureza. É certamente um sinal da vontade inicial do Criador: ‘À tua imagem formaste o homem, a suas mãos operosas confiaste o universo, para que na obediência a ti, seu Criador, exercesse o domínio sobre toda a criação’(IV Oração Eucarística). O exemplo de S. Francisco de Assis é válido ainda hoje”[13].
Na Exortação pós-sinodal Christi fideles laici (30/12/1988) o Papa lembra que os dons da natureza, recebidos pelo ser humano de Deus, devem ser cuidados, usados com respeito e amor e passados em melhores condições para as gerações futuras: “Certamente o homem recebeu do próprio Deus a tarefa de ‘dominar’ as coisas criadas e de ‘cultivar o jardim’ do mundo; mas esta é uma tarefa que o homem deve cumprir num respeito absoluto da imagem divina recebida e, portanto, com inteligência e amor. Deve sentir-se responsável pelos dons que Deus lhe concedeu e continuamente lhe concede. O homem tem em mãos um dom que deve passar – e, se possível, melhorado – às gerações futuras, também elas destinatárias dos dons do Criador”[14].
Em 1990, na sua mensagem para a 23ª jornada mundial pela paz[15] (1990) o Papa novamente relaciona a paz com Deus Criador e a paz com a criação: “Nota-se, hoje, a crescente consciência que a paz mundial está ameaçada, além da corrida armamentista, dos conflitos regionais e das injustiças ainda existentes nos povos e entre nações, também pela falta do devido respeito pela natureza, pela desordenada exploração dos recursos e a progressiva deterioração da qualidade de vida. Diante da generalizada degradação do ambiente, a humanidade se dá conta que não pode continuar a usar os bens da terra como no passado... Está se formando uma consciência ecológica, que deve ser incentivada, a fim de que se desenvolva e amadureça para encontrar expressões adequadas em programas e iniciativas concretas” (n. 1). Como fundamentação bíblica, o papa lembra que, depois de ter criado o homem e a mulher o texto diz: “E Deus viu tudo quanto havia feito, e eis que era muito bom” (Gn 1,31). Confiou ao homem e à mulher todo o resto da criação e “descansou de toda obra” (2,3). ‘O chamado de Adão e Eva a participar na concretização do plano de Deus sobre a criação estimulava as qualidades e os dons que distinguem a pessoa humana de todas as criaturas e, ao mesmo tempo, estabelecia uma relação ordenada entre o homem e toda a criação. Feitos à imagem e semelhança de Deus, Adão e Eva deveriam ter exercido seu domínio sobre a terra (cf. Gn 1,28) com sabedoria e amor. Mas eles, com seu pecado, destruíram a harmonia existente, pondo-se deliberadamente contra o desígnio do Criador. Isso trouxe não só a alienação do próprio homem, à morte e ao fratricídio, mas também a uma rebelião da terra em relação a ele (cf. Gn 3,17-19; 4,12). Toda a criação foi sujeita à caducidade e, desde então, de modo misterioso, espera ser libertada para entrar na liberdade gloriosa, junto com todos os filhos de Deus” (cf. Rm 8,20-21). Em seguida, o Papa fala da reconciliação feita pela ressurreição de Cristo (Cl 1,19-20), da renovação da criação antes submetida à escravidão (Ap 21,5; Rm 8,21), dos “novos céus e da nova terra” (2Pd 3,13) e da recapitulação de tudo em Cristo (Ef 1,9-10). Estas passagens bíblicas iluminam a relação entre o agir humano e a integridade da criação. Se o homem não está em paz com o Criador, toda a criação sofre (Os 4,3). Menciona também outras questões: a crise ecológica como problema moral, a busca de uma solução, a urgência de uma nova solidariedade e a responsabilidade de todos na questão ecológica. Por fim conclui: “São Francisco de Assis, que em 1979 proclamei patrono celeste dos ecólogos, oferece aos cristãos o exemplo do autêntico respeito pela integridade da criação. Amigo dos pobres, amado pelas criaturas de Deus, ele convidou a todos – animais, plantas, forças da natureza, inclusive o irmão sol e a irmã lua – a honrar e louvar o Senhor. Do Pobrezinho de Assis vem o testemunho que, estando em paz com Deus, podemos melhor dedicar-nos a construir a paz com toda a criação, que é inseparável da paz entre os povos” (n. 16).
Na Carta Encíclica Centesimus Annus (01/05/1991)[16], João Paulo II, depois de alertar para o fenômeno do consumismo, prejudicial à saúde física e espiritual, fala da degradação do ambiente natural: “O homem descobre a sua capacidade de transformar e, de certo modo, criar o mundo com o próprio trabalho, esquece que este se desenrola sempre sobre a base da doação originária das coisas por parte de Deus. Pensa que pode dispor arbitrariamente da terra, submetendo-a sem reservas à sua vontade, como se ela não possuísse uma forma própria e um destino anterior que Deus lhe deu, e que o homem pode, sim, desenvolver, mas não deve trair. O homem, em vez de realizar o seu papel de colaborador de Deus na obra da criação, substitui-se a Deus, e deste modo acaba provocando a revolta da natureza mais tiranizada que governada por ele”. O homem precisa também aprender a zelar pelo ambiente humano, isto é, pela ‘ecologia humana’ e ‘ecologia social’ do trabalho – diz o Papa. Sendo a família a primeira e fundamental estrutura a favor da ‘ecologia humana’, denuncia “campanhas sistemáticas contra a natalidade, baseadas numa concepção destorcida do problema demográfico e na falta de respeito às decisões dos pais.
Na Semana de estudos da Pontifícia Academia de Ciências (1992), dedicada ao estudo entre o acentuado crescimento demográfico, seu impacto no meio ambiente e a disponibilidade dos recursos naturais[17], João Paulo II lembra: “A Igreja, como ‘perita em humanidade’, promove o princípio da maternidade e da paternidade responsáveis, e considera seu dever principal chamar urgentemente a atenção para a moralidade dos métodos aplicados. O respeito pela pessoa e pelos direitos inalienáveis da pessoa deve existir sempre. O incremento ou a forçada diminuição da população são em parte causados pela carência de instituições sociais; os danos provocados no meio ambiente e a aumentada escassez de recursos naturais derivam, com frequência, dos erros humanos” (n. 4-5). A preservação da natureza não se consegue simplesmente diminuindo a população e, sim, corrigindo os erros. É preciso agir no âmbito da educação e coibir a destruição do meio ambiente, causada pela indústria e pelos produtos industriais (n. 8). Se não mudarmos nosso estilo de vida consumista será difícil melhorar o meio ambiente: “O dinamismo do crescimento demográfico (n. 9), a complexidade da descoberta e da distribuição dos recursos, bem como as suas recíprocas conexões e consequências para o meio ambiente, constituem um desafio prolongado e exigente. Só mediante um novo e rigoroso estilo de vida, que vem do respeito pela dignidade da pessoa, é que a humanidade será capaz de enfrentar este desafio de maneira adequada” (cf. Dignitatis humanae, 3).
Numa carta ao Secretário Geral da Conferência Internacional sobre população e desenvolvimento (1994), o Papa retorna à questão demográfica, relacionando-a com o meio ambiente[18]: “O desenvolvimento – diz ele – apresenta inevitavelmente a questão das implicações ambientais do crescimento demográfico. A questão ecológica, no seu próprio fundamento, é também moral. Enquanto o crescimento demográfico é, com frequência, considerado responsável por problemas ambientais, estamos conscientes de que a questão é bem mais complexa. Os padrões de consumo e desperdício, de modo particular nos países desenvolvidos, a destruição dos recursos naturais, a ausência de restrições ou de salvaguardas nalguns processos industriais ou de produção em geral, tudo isto põe em perigo o meio ambiente natural” (n. 9). É o modelo econômico baseado na produção e no consumo, que determina a qualidade do ambiente. Políticas errôneas é que causam a degradação do ambiente. Por isso, as nações desenvolvidas devem rever seus padrões de consumo em respeito aos contemporâneos e às gerações futuras. Em seu desenvolvimento elas devem buscar tecnologias menos poluidoras.
Conexa com a questão demográfica e a degradação do ambiente está o problema endêmico da fome no mundo. Esta questão é abordada duas vezes pelo Pontifício Conselho Cor Unum. Em 1988 o documento cita alguns fatores ecológicos causadores da fome[19]: a destruição dos recursos naturais e das florestas, catástrofes naturais, o abuso de fertilizantes químicos e pesticidas, o lixo radioativo, etc.
Em 1996 aborda o problema da fome dentro da cadeia de iteração de ecossistemas, que interagem positiva e negativamente uns sobre os outros[20]: “Na própria cadeia da produção alimentar, todos os homens percebem-se como elementos ativos e passivos de um ecossistema. Um novo campo de responsabilidade se abre às consciências. Não se pode querer simultaneamente nutrir um número maior de pessoas e enfraquecer a agricultura. Todavia, a agricultura torna-se tanto mais poluidora (com recurso máximo a insumos, pesticidas e maquinários), quanto mais difusa se torna a industrialização... Ao lado de outros elementos necessários à vida, ar e água, terrenos e florestas são ameaçados de poluição pelo consumo excessivo, pela desertificação provocada pelo homem e pelo desmatamento. Em cinquenta anos, metade das florestas tropicais foram arrasadas, muitas vezes para conseguir terras, o por políticas cegas de exploração acelerada, voltadas ao re-equilíbrio do ônus da dívida. Nas regiões mais pobres, a desertificação é provocada por práticas de sobrevivência que aumentam a pobreza; pastoreio excessivo, corte de árvores e arbustos para cozer alimentos ou para calefação” (n. 30). No mesmo contexto o Papa aborda a necessidade de uma administração ecologicamente sadia do planeta. Esta administração deverá integrar nos custos econômicos o impacto ambiental, compreendendo melhor os nexos entre ecologia e atividade econômica, para que o desenvolvimento seja duradouro e equitativo, evitando novas distorções além das atuais (n. 31)
Na Evangelium Vitae (23/03/1995) João Paulo II faz um apelo: “O homem é convidado a uma verdadeira conversão a fim de reconhecer a beleza da criação e preservar ‘o bem comum’ de toda a humanidade. Ele é convidado a libertar-se da escravidão do consumo e da corrida para ter ‘sempre mais’. Deve reencontrar o sentido da gratuidade e mudar o próprio modo de ver, a fim de aprender a considerar a criação como dom de Deus, como único criador”.
Na Exortação Apostólica pós-sinodal (2003) o Papa insiste no respeito pelo ambiente e a salvaguarda da criação[21] e, num tom dramático, reinterpreta o famoso texto de Rm 8,22: “O ‘gemido das criaturas’, a que alude o Apóstolo (cf. Rm 8,22), hoje parece verificar-se numa perspectiva invertida, porque se trata não já duma tensão escatológica na expectativa da revelação dos filhos de Deus (cf. Rm 8,19), mas dum espasmo de morte que tende a agarrar o próprio homem para destruí-lo”. E conclama os bispos a assumirem na pregação a tarefa de uma conversão ecológica: “Há necessidade, pois, de uma conversão ecológica, para a qual os Bispos hão de dar a sua contribuição ensinando a correta relação do homem com a natureza. À luz da doutrina sobre Deus-Pai, criador do céu e da terra, vê-se que se trata duma relação ‘ministerial’: o homem está efetivamente colocado no centro da criação, como ministro do Criador (n. 70).
O Papa Bento XVI em vários pronunciamentos já manifestou a preocupação da Igreja Católica com a ecologia. Destacamos a Encílica Caritas in Veritate (07/07/2009)[22]. Nesta encíclica, ao tratar do desenvolvimento dos povos, seus direitos e deveres, o Papa lembra que este tema está hoje intimamente ligado à relação do homem com o ambiente natural (n. 48). Não podemos ver a natureza simplesmente como fruto de uma evolução determinista. Para o crente a evolução é um resultado maravilhoso da intervenção criativa de Deus. “A natureza é expressão de um desígnio de amor e de verdade. Ela nos precede e nos é dada como ambiente de vida. Fala-nos do Criador (cf. Rm 1,20) e de seu amor pela humanidade. É destinada a ser ‘recapitulada’ em Cristo no fim dos tempos (cf. Ef 1,9-10; Cl 1,19-20)... Está à nossa disposição... como um dom do Criador, que lhe designou os ordenamentos intrínsecos, para que o homem deles tire as orientações do dever de ‘guardá-la e cultivá-la’ (Gn 2,13)”. Com sua cultura e tecnologia o homem não pode violentar a natureza, mas deve respeitá-la como obra admirável do Criador, obra que tem dentro de si uma ‘gramática’ interna, que indica sua finalidade e os critérios de um uso sábio. O desenvolvimento humano não pode ignorar sua responsabilidade com a própria geração e as gerações sucessivas.
Na encíclica o Papa lembra também que os países ricos são responsáveis pelos países pobres na questão energética, na busca de energias renováveis e no desenvolvimento de novas formas de energia (n. 49). “Ao homem é lícito exercer um governo responsável sobre a natureza para guardá-la, colocá-la em seu proveito e cultivá-la também com novas formas e com tecnologias avançadas de modo que ela possa dignamente acolher e nutrir a população que a habita”. Mas nessa ação não se pode esquecer o “objetivo de reforçar a aliança entre o ser humano e o ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, do qual viemos e para o qual caminhamos” (n. 50). Dado que “o modo como o homem trata o ambiente influi sobre o modo como trata a si mesmo, e vice-versa” é preciso fazer uma revisão séria do estilo de vida moderno, inclinado ao hedonismo e consumismo e indiferente aos danos que disso provém. Um novo estilo de vida pede que as escolhas de consumo, poupança e investimentos se orientem pela busca do que é verdadeiro, belo e bom, em comunhão com os outras seres humanos (n. 51). “A Igreja tem uma responsabilidade pela criação”. Deve defender não só a terra, a água e o ar como dons da criação que a todos pertencem. “Deve proteger, sobretudo, o homem contra a destruição de si mesmo”, porque “quando a ‘ecologia humana’ é respeitada dentro da sociedade, também a ecologia ambiental é favorecida” (n. 51).
Outros pronunciamentos do Vaticano
Durante a 21ª Congregação geral do Sínodo dos bispos (1971), o Presidente deu a palavra a Bárbara Ward, membro da Comissão “Justiça e Paz” e assistente do Secretário para o tema da justiça no mundo, que fez a seguinte intervenção: “O problema da utilização dos recursos naturais é parte de outro problema mais amplo. Muito consumo significa muito desperdício. Com demasiada frequência, os restos das economias de alto nível de consumo contaminam não só as águas e o ar dos mesmos países ricos, mas se espalham pelos oceanos e, segundo parece, já estão causando um aumento de temperatura de todo o planeta. Se são estas as consequências do alto nível de vida de somente uma quarta parte da humanidade, o que poderia chegar a acontecer a nosso velho planeta se as outras três partes alcançarem os mesmos níveis econômicos? Não podemos isolar nossas atividades econômicas dos ares, oceanos e águas de que depende, em última instância, toda a vida do planeta. Chegamos a um ponto em que o risco de uma contaminação excessiva da biosfera se converte em realidade”[23]. O alerta é levantado no contexto da distribuição das riquezas.
O Pontifício Conselho das Comunicações Sociais, no documento A importância da publicidade, fala sobre a “Ética na publicidade” (22/02/1997), que repercute no problema ecológico: “A publicidade que promove um estilo de vida desregrado, a custo do desperdício dos recursos e do saque do ambiente, causa graves danos à ecologia”. Cita João Paulo II, Centesimus annus, n. 37: “O homem, tomado pelo desejo de possuir e de gozar, mais do que de ser e de crescer, consome de modo excessivo e desordenado os recursos da terra e a sua própria vida. Ele pensa poder dispor arbitrariamente da terra, submetendo-a sem reservas à própria vontade, como se ela não tivesse uma forma própria e uma destinação anterior que lhe foi dada por Deus, que o homem pode, sim, desenvolver, mas não deve trair”... “Os publicitários, bem como os profissionais empenhados em outras formas de comunicação social, têm o dever primário de exprimir e promover uma visão autêntica do desenvolvimento humano nas suas dimensões materiais, culturais e espirituais. A comunicação que responde a este princípio se revela, entre outras coisas, como verdadeira expressão de solidariedade”.
O Pontifício Conselho da Justiça e da Paz, ao se pronunciar sobre a reforma agrária (23/11/1997), aponta a má distribuição das terras como uma das causas da degradação ambiental: “As desigualdades na distribuição da propriedade da terra incluem, por fim, um processo de degradação ambiental dificilmente reversível, para o qual concorrem a degradação do solo, a redução de sua fertilidade, a grande exposição ao perigo de aluviões, ao rebaixamento do nível freático, o assoreamento de rios e lagos, e outros problemas ecológicos. Frequentemente incentivado, com incentivos fiscais e crediários, o desmatamento de grandes áreas para dar lugar a formas de criação extensiva e à atividade minerária ou à industrialização de matéria lenhosa, mas sem prever planos de recomposição ambiental ou, quando existem, não são executados. Também a pobreza se alia à degradação ambiental, num círculo vicioso, quando os pequenos agricultores, expropriados pelas grandes propriedades e os pobres sem terra são obrigados, na busca de novas terras a ocupar aquelas já degradadas, como as terras de encostas, destruindo o patrimônio florestal para exercer a agricultura”. Neste contexto lembra a mensagem bíblica sobre o cuidado da terra, tarefa que o ser humano recebeu do Criador segundo Gn 1,26-28: “A primeira tarefa que Deus lhe dá – evidentemente, uma tarefa fundamental – diz respeito à atitude que devem assumir de fronte à terra e a todas as criaturas. ‘Subjugar’ e ‘dominar’ são dois verbos que podem ser facilmente mal interpretados e até parecer uma justificação daquele domínio despótico e desenfreado que não se preocupa com a terra nem de seus irmãos, mas apenas da própria vantagem. Na realidade ‘subjugar’ e ‘dominar’ são verbos que, na linguagem bíblica, servem para descrever o domínio do rei sábio, que cuida do bem-estar de todos os seus súditos... O homem é posto no jardim para cultivá-lo e guardá-lo (cf. Gn 2,15), para poder assim nutrir-se dos seus frutos”[24].
O Cardeal Rodriguez Maradiaga, presidente da Caritas Internacional, no discurso aos embaixadores europeus (06/05/2009), ao falar do tema “A economia global no caminho de Damasco”, faz um apelo por mudanças profundas neste campo. Pede uma colaboração mais eficiente no desenvolvimento dos países mais pobres. Lembra que os países mais pobres são os mais atingidos pelos efeitos da mudança climática em andamento: “Não temos mais tempo a perder. Deve-se encontrar um acordo radical e factível na conferência da ONU, em dezembro, em Copenhagen, baseada na justiça climática e no princípio ‘quem polui paga’. Exortamo-vos a produzir um acordo global sobre o clima, um acordo que seja forte, vinculante e justo, de modo a assegurar a sobrevivência e o bem-estar de todos os filhos de Deus. Segundo um princípio de equidade e responsabilidade, aqueles que criaram o problema também devem pagar pela solução...”[25].
Pronunciamentos e documentos da Igreja no Brasil
No Brasil, o tema da ecologia tem sido tratado, de modo especial, em algumas Campanhas daFraternidade (CF), que abaixo vamos expor brevemente.
Campanha da Fraternidade de 1979
O tema da CF de 1979 era “Por um mundo mais humano” e o lema “Preserve o que é de todos”. Como textos para a reflexão bíblica são citados, entre outros Gn 1–2 (relato da criação), Gn 3,17-18 (a natureza e o pecado do homem), Sl 8 (o homem administrador da criação), Sl 23,1-2 (Deus, o Senhor da natureza), Sl 103 (poema da criação), Eclo 39,12-35 (hino ao Criador), Eclo 42,22–43,26 (as obras do criador), Is 24,5-6 (pecado do homem e maldição da terra), Is 58,18 (beleza e equilíbrio da criação), Is 65,17-25 (nova criação), Dn 3,51-90 (cântico dos 3 jovens), Rm 8,19-23 (o desejo da natureza), 2Pd 3,7-13 (novos céus e nova terra), Ap 21–22 (o novo céu a nova terra).
Na secção ver, justifica-se a escolha do tema para a CF, pois “a ecologia é um tema profundamente fraterno” e “a natureza criada por Deus é destinada a todos os homens. Destruí-la e prejudicá-la é, portanto, um ato nocivo ao próximo”. O texto lembra que nos últimos séculos o homem passou de dominado pelas forças da natureza a dominador. Mas este domínio, pela industrialização e tecnologias transformou-se em risco de destruição da natureza: destruição de florestas, provocando aluviões, enchentes e secas, ameaçando a própria espécie humana. A preocupação da Igreja acompanha a dos cientistas, que enumeram cinco fontes causadoras da degradação ambiental: o crescimento da população, a utilização de recursos naturais, a produção de alimentos, a produção industrial e a poluição. A poluição da miséria está relacionada à fome, à carência de saneamento básico, à falta de moradia, às favelas. A poluição da riqueza está ligada ao mundo industrializado, à devastação das florestas, ao uso do petróleo como combustível e para a locomoção, à especulação imobiliária, à espoliação dos recursos da natureza e à exploração injusta dos pobres. Outros fatos alarmantes: escassez de água potável, desmatamento, extinção de animais, a crescente urbanização, o dióxido de carbono produzido pelos combustíveis fósseis, os detritos e o lixo nuclear.
Na secção julgar, como de praxe à luz da Bíblia, são lembradas as “verdades bíblicas e teológicas”, como a vocação da natureza ao equilíbrio (cf. Gn 3,27; Rm 8,21; Ap 21,22; Ef 1,20; Cl 4,20), a destinação universal da natureza[26] e a responsabilidade do homem como administrador da natureza. Os textos bíblicos citados são: Gn 1,26-31; 2,15.19; Sl 8,5-8; Mt 21,33-44; Lc 16,1-9; Mt 25,14-30. Lembram-se também as palavras de Paulo VI na sua mensagem ao 5º Dia Mundial do Ambiente (05/06/1977), na qual o Papa proclama os homens como ‘guardas da criação de Deus’, mas sem ‘um domínio despótico sobre o ambiente humano’, de modo que o crescimento material seja acompanhado da prudente moderação no uso dos alimentos terrestres e de uma verdadeira pobreza de espírito. Governar a natureza não significa destruí-la, mas aperfeiçoá-la, para que o mundo não se torne um caos inabitável, mas uma bonita casa, na qual todas as coisas sejam respeitadas.
Na secção agir o texto lembra: a superação do egoísmo, do consumismo e da ganância de possuir, o respeito à natureza, a exemplo de São Francisco de Assis, padroeiro da Ecologia. Propõe também que noções de ecologia sejam introduzidas nas escolas, na catequese, nos meios de comunicação, nas comunidades eclesiais, na pregação e nas celebrações. Outros conselhos: plantar flores, cuidar da atmosfera, evitar derrubada desnecessária de árvores, fazer o reflorestamento, evitar a caça aos animais, cuidar da água e do lixo[27]
3.2. Campanha da Fraternidade 1984
O tema da Campanha era “Deus, fonte de vida” e o lema, “Para que todos tenham vida”. Nos n. 25-26 aborda brevemente a problemática ecológica, alertando que o futuro da vida na Terra corre perigo. Indícios deste perigo são a destruição das florestas, o envenenamento da terra dos alimentos e das águas pelo uso de inseticidas, a Amazônia ameaçada, etc. Reforça o que já foi tratado na CF de 1979. Na reflexão bíblica explicita o tema “Deus, fonte de vida”: Deus como princípio absoluto da vida (Ap 1,17-18; Gn 2,7; 1,27-31; Gn 3,16-19); Deus quer a vida e não a morte (Ez 18,32; Sb 1,12; Dt 30,19-20); Deus é o defensor da vida (Ex 3,7-8).
3.3. Campanha da Fraternidade 2004
O tema era “Fraternidade e água” e o lema, “Água, fonte de vida”. Foi talvez uma das Campanhas da Fraternidade que teve maior impacto na população, sobretudo católica. Apesar da abundância de água doce no Brasil, estamos sentindo a sua importância para a nossa vida e a vida dos seres vivos como um todo. É evidente a degradação das águas no Brasil, em razão da poluição por dejetos urbanos, inseticidas, pesticidas, lixo industrial. A água está se tornando objeto de desperdício e de ganância.
O objetivo geral da CF-2004 é assim especificado: “Conscientizar a sociedade de que a água é fonte de vida, uma necessidade de todos os seres vivos e um direito da pessoa humana, e mobilizá-la para que esse direito à água com qualidade, seja efetivado para as gerações presentes e futuras”. Vale a pena também citar alguns dos objetivos específicos visados: desenvolver uma mística ecológica e resgatar o valor da água nos seus fundamentos mais profundos; apoiar e valorizar as iniciativas já existentes no tocante ao cuidado da água; provocar e alimentar a solidariedade entre os que têm e os que não têm água e defender a participação popular na elaboração de uma política hídrica, para que a água seja, de fato, de domínio público. Estes objetivos específicos, se concretizados, significarão um grande benefício e avanço no cuidado deste dom de vida que é a água.
Na secção ver é analisada a crise da água, com bastante amplidão e informações técnicas. Na secção julgar procura-se recuperar as tradições religiosas locais, as perspectivas bíblicas (ilustradas com inúmeros textos) e teológicas, aprofundando as exigências éticas. Na secção agir indicam-se dezenas de possibilidades de ação, do ponto de vista religioso, celebrativo, educacional e social, ações que podem levar a uma conscientização sobre o valor da água e a necessidade do cuidado em preservarmos este bem comum.
3.4. Campanha da Fraternidade 2007
O tema proposto foi Fraternidade e Amazônia e o lema “Vida e missão neste chão”[28]. Esta Campanha visa preservar a riquíssima “sociobiodiversidade” contra todas as formas de devastação, movidas pela avidez do lucro. De fato, é consenso generalizado que “a Amazônia constitui-se num fator de equilíbrio essencial para todo o planeta e que a vida da região tem a ver com a qualidade de vida global da Terra”. O objetivo geral da CF-2007 é assim delineado: “Conhecer a realidade em que vivem os povos da Amazônia, sua cultura, seus valores e as agressões que sofrem por causa do atual modelo econômico e cultural, e lançar um chamado à conversão, à solidariedade, a um novo estivo de vida e a um projeto de desenvolvimento à luz dos valores humanos e evangélicos, seguindo a prática de Jesus no cuidado com a vida humana, especialmente a dos mais pobres, e com toda a natureza”. Para se alcançar este objetivo geral são propostas sete ações práticas (objetivos específicos) capazes de preservar a biodiversidade deste patrimônio da humanidade, que é a Amazônia, defendendo e defendendo a riqueza cultural e o bem-estar das populações que ali vivem.
Medellín, Puebla e Santo Domingo
Medellín (1968)
Medellín significou para a América Latina (AL) a recepção do Concílio Vaticano II, como o diz o tema da Conferência “A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio”[29]. Ao tratar da promoção humana e da justiça (n. 1.3), o Documento dá a seguinte fundamentação doutrinária: “O mesmo Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança, criou a terra e tudo o que nela existe, para uso de todos os homens e de todos os povos, de modo que os bens criados possam bastar a todos de maneira mais justa (GS 69), e dá poder ao homem para que solidariamente transforme e aperfeiçoe o mundo” (Gn 1,29). Como se vê, falta ainda a percepção de que Deus deixou os bens da Terra para todos os seres vivos e não apenas para todos os seres humanos.
Puebla (1979)
Puebla pode ser considerada a recepção das linhas básicas da evangelização na AL delineadas em Medellín. De fato, já não se faz a ligação com o Vaticano II, mas com o nosso contexto, como se vê no título “A Evangelização no presente e no futuro da América Latina”. O documento dos Bispos latino-americanos aborda várias vezes a questão da ecologia:
- n. 139: “Se não mudarem as tendências atuais continuará a deteriorar-se a relação do homem com a natureza pela exploração irracional de seus recursos e a contaminação do ambiente, com o aumento de graves prejuízos para o homem e para o equilíbrio ecológico”.
- n. 327: Pede que “o domínio, o uso e a transformação dos bens da terra, da cultura, da ciência e da técnica” se realizem “em um justo e fraterno domínio do homem sobre o mundo, tendo-se em conta o respeito da ecologia”.
- n. 386: Pede o cultivo da relação com a natureza (cf. GS, 53).
- n. 496: Denuncia os efeitos desastrosos da industrialização, da urbanização e o consumismo alarmantes: “Importa tomar consciência dos efeitos devastadores da industrialização descontrolada e da urbanização que vai tomando proporções alarmantes. O esgotamento dos recursos naturais e a contaminação do ambiente constituirão problema dramático. Afirmamos uma vez mais a necessidade de uma profunda revisão da tendência consumista das nações mais desenvolvidas; cumpre levar em consideração as necessidades elementares dos povos pobres que formam a maior parte do mundo”.
- n. 1236: Entre os objetivos, opções e estratégias Puebla aponta o seguinte princípio orientador: “Preservar os recursos naturais criados por Deus para todos os homens, a fim de transmiti-los como herança às gerações vindouras”.
Santo Domingo – 1992
O tema da Conferência foi a “Nova evangelização, promoção humana e cultura cristã”[30]. Este documento não seguiu o método tradicional ver, julgar e agir[31]. Mesmo assim, entre os desafios que a Igreja na América Latina e Caribe deve enfrentar citam-se:
a defesa da vida diante da presença destruidora de uma cultura de morte;
a ecologia: a natureza como dom de Deus que temos que cuidar e desenvolver com critérios éticos, com proposta de desenvolvimento sustentável;
a terra, considerada como dom de Deus e lugar sagrado, sobretudo para os indígenas, que deve ser distribuída com justiça, favorecendo os excluídos.
O n. 169 sublinha o motivo da sacralidade da natureza: “A criação é obra da Palavra do Senhor e da presença do Espírito, que desde o início, pairava sobre tudo o que foi criado (Gn 1-2). Essa foi a primeira aliança de Deus conosco (grifo nosso). Quando o ser humano, chamado a entrar nesta aliança de amor, se nega, o pecado do homem afeta sua relação com Deus e com toda a criação”.
Como desafios, Santo Domingo cita a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, celebrada no Rio de Janeiro, que pôs em relevo mundial a gravidade da crise ecológica. Cita o problema das grandes cidades, a perda das terras por parte de populações indígenas, o desmatamento e as queimadas, sobretudo, na Amazônia. Para enfrentar estes problemas propõe-se o desenvolvimento sustentado, para atender as necessidades presentes sem comprometê-las no futuro. A quem atenderá este desenvolvimento? Não pode ser feito em detrimento das maiorias empobrecidas do mundo. É necessário adotar critérios éticos, uma ética ecológica que abandone o utilitarismo e individualismo, que frise o destino universal dos bens da criação, a promoção da justiça e da solidariedade.
Aponta também algumas linhas pastorais para os cristãos:
Começando com as crianças e os jovens, promover uma “reeducação de todos diante do valor da vida e da interdependência dos diversos ecossistemas”.
Cultivar uma espiritualidade que recupere o sentido da presença de Deus na criação, explicitando a nova relação estabelecida pelo mistério da encarnação, pela qual Cristo assumiu tudo o que foi criado.
Valorizar a nova plataforma de diálogo que a crise ecológica criou (grifo nosso), e questionar a riqueza e o desperdício.
Aprender com os pobres a viver com sobriedade e com a sabedoria dos indígenas para preservar a natureza como ambiente de vida para todos.
Aprofundar a mensagem do santo Padre por ocasião da jornada mundial da paz, aprendendo o que seja “ecologia humana”. São Francisco, no seu amor aos pobres e à natureza, pode inspirar o caminho de reconciliação com a criação e com todos os homens, caminho de justiça e de paz.
O Documento aborda no n. 171 o tema da terra como dom de Deus: “‘Do Senhor é a terra e o que nela existe, o mundo e seus habitantes’(Sl 24,1) é afirmação de fé que percorre toda a Bíblia e confirma a crença de nossos povos de que a terra é o primeiro sinal da Aliança de Deus com o homem. De fato, a revelação bíblica nos ensina que, quando Deus criou o homem, o colocou no jardim do Éden para que o cultivasse e o cuidasse (Gn 2,15) e dele fizesse uso (Gn 2,16), indicando-lhe ‘alguns limites’ (Gn 2,17) que recordariam sempre ao homem que ‘Deus é o Senhor e criador, e dele é a terra e tudo que nela existe’ e que ele a pode usar não como dono absoluto, mas como administrador”. Neste sentido o texto lembra o respeito que as culturas indígenas têm pela terra.
Ao tratar do diálogo com as religiões não-cristãs (n. 138), como linha pastoral, propõe: “Promover ações em favor da paz, da promoção e defesa da dignidade humana, bem como a cooperação em defesa da criação e do equilíbrio ecológico, como forma de encontro com outras religiões”.
V CELAM – Aparecida
A questão ecológica é tratada em diferentes momentos e sob diversos ângulos no Documento de Aparecida[32].
Ao tratar da situação econômica, propõe um desenvolvimento global e solidário que não se sobreponha às outras dimensões humanas, mas que esteja a serviço da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus (Discurso inaugural de Bento XVI) nem se coloque acima da preservação da natureza: “Com muita frequência se subordina a preservação da natureza ao desenvolvimento econômico, com danos à biodiversidade, com o esgotamento das reservas de água e de outros recursos naturais, com a contaminação do ar e a mudança climática. As possibilidades e eventuais problemas da produção de agro-combustíveis devem ser estudadas, de tal maneira que prevaleça o valor da pessoa humana e de suas necessidades de sobrevivência. A América Latina possui os aquíferos mais abundantes do planeta, junto com grandes extensões de território selvagem, que são pulmões da humanidade. Assim se dão gratuitamente ao mundo serviços ambientais que não são reconhecidos economicamente (grifo nosso). O estilo de vida dos países desenvolvidos seria o principal causador do aquecimento global” (n. 66).
No dicionário dos bispos em Aparecida entrou também a expressão “desenvolvimento sustentável”. Assim, ao tratar do destino universal dos bens e da ecologia, pede-se o respeito para com a ‘nossa irmã e mãe terra’ (Francisco de Assis, Cântico das Criaturas 9), que “é nossa casa comum e o lugar da aliança de Deus com os seres humanos e com toda a criação[33]. Desatender as mútuas relações e o equilíbrio que o próprio Deus estabeleceu entre as realidades criadas, é uma ofensa ao Criador, um atentado contra a biodiversidade e, definitivamente, contra a vida” (n. 125). O desenvolvimento deve visar o bem da pessoa humana: “A melhor maneira de respeitar a natureza é promover uma ecologia humana aberta à transcendência que, respeitando a pessoa e a família, os ambientes e as cidades, segue a indicação paulina de recapitular as coisas em Cristo e de louvar com Ele ao Pai (cf. 1Cor 3,21-23)”.
Deus entregou o mundo para todos, para as gerações presentes e futuras. Por isso o Documento frisa o destino universal dos bens. Como os recursos naturais são limitados devemos ser solidários com as gerações presentes e futuras, respeitando sempre o desenvolvimento sustentável (n. 126).
A ecologia e a proteção da natureza são vistas como um dos novos areópagos da evangelização (n. 491). “Devemos promover a geração de uma ‘cultura da paz’, que seja fruto de um desenvolvimento sustentável, equitativo e respeitoso da criação” (n. 542).
Na sua pastoral social, a Igreja deve “elaborar ações concretas que tenham incidência nos Estados para a aprovação de políticas sociais e econômicas que atendam às várias necessidades da população e que conduzam para um desenvolvimento sustentável” (n. 403). “São muito importantes os espaços de participação da sociedade civil para a vigência da democracia, uma verdadeira economia solidária e um desenvolvimento integral, solidário e sustentável” (n. 406a). No afã de um desenvolvimento necessário para os povos da AL é preciso evitar a devastação das florestas e a contaminação da água (n. 473).
A ecologia é também abordada quando o documento fala da biodiversidade, uma das riquezas da América Latina, especialmente a Amazônia e a Antártida (n. 83-97). Ela está associada à riqueza das culturas, com seus conhecimentos de medicina natural, muitas vezes ilicitamente apropriados e patenteados por indústrias farmacêuticas e de biogenética (n. 83). Decide-se sobre a riqueza da biodiversidade e da natureza sem consulta às nações tradicionais; a terra é maltratada, a água é considerada uma mercadoria a ser disputada pelas grandes potências. Neste contexto lembra-se o discurso de Bento XVI aos jovens no Pacaembu, no qual denuncia a devastação ambiental da Amazônia, o desrespeito à dignidade de seus povos e convoca os jovens a um maior compromisso (n. 84-85). A agressão ao meio-ambiente pode se tornar um pretexto de internacionalização da Amazônia, com inconfessáveis interesses de grupos internacionais (n. 86). O aquecimento global já se faz sentir pelo retrocesso de geleiras, pelo degelo do Ártico.
Os bispos estão preocupados não apenas em preservar o ambiente, mas convocam todos “a dar graças pelo dom da criação, reflexo da sabedoria e beleza do Logos criador”, lembrando que o Deus da vida confiou ao ser humano sua obra criadora para que ‘a cultivasse e a guardasse’ (Gn 2,15). Jesus nos ensina a observar como o Pai alimenta e embeleza as criaturas e nos convida a reconhecer a mensagem escondida nas coisas (cf. Lc 12,24-27; Jo 4,35). Devemos aprender das populações indígenas o seu respeito pela natureza e pelo amor à mãe terra, tão dilapidada pelo atual modelo econômico (n. 470-473).
Diante da situação desastrosa do meio ambiente, no n. 474, os bispos fazem algumas propostas e orientações:
“Evangelizar nossos povos para que descubram o dom da criação, sabendo contemplá-la e cuidar dela, como a casa de todos os seres vivos e matriz da vida no planeta, a fim de exercitarem responsavelmente o senhorio humano sobre a terra e sobre os recursos, para que possam render todos os seus frutos com destinação universal, educando para um estilo de vida de sobriedade e austeridade solidárias”.
“Aprofundar a presença pastoral nas populações mais frágeis e ameaçadas pelo desenvolvimento predatório, e apoiá-las em seus esforços, para conseguir equitativa distribuição da terra, da água e dos espaços urbanos”.
“Procurar um modelo de desenvolvimento alternativo, integral e solidário, baseado em uma ética que inclua a responsabilidade por uma autêntica ecologia natural e humana, que se fundamenta no evangelho da justiça, da solidariedade e do destino universal dos bens”.
“Empenhar nossos esforços na promulgação de políticas públicas e participações cidadãs, que garantam a proteção, conservação e restauração da natureza”.
“Determinar medidas de monitoramento e controle social sobre a aplicação dos padrões ambientais internacionais nos países”.
Por fim, para conscientizar sobre a importância da Amazônia, os bispos propõem uma “pastoral de conjunto com prioridades diferenciadas, para criar um modelo de desenvolvimento que privilegie os pobres e sirva para o bem comum” (n. 475).
Conclusão
Deste exame superficial que fizemos, perpassando os principais documentos ou pronunciamentos da Igreja referentes à questão ecológica, podemos tirar algumas conclusões:
1. A Igreja caminha junto com a sociedade, acompanhando a problemática da ecologia;
2. Há belos ensinamentos no magistério de Paulo VI e de João Paulo II, e, ultimamente, também de Bento XVI, sobre a questão ecológica;
3. uso de textos bíblicos relacionados com a ecologia (criação) é bastante abundante nos documentos da Igreja, mas falha no Documento de Aparecida. Esta deficiência no uso de textos bíblicos talvez se explique pelo próprio tema escolhido (Discípulos e missionários), centrado mais em Cristo, na redenção e missão. O Pai Criador ficou meio esquecido. Com isso, o tratado da Criação ficou em segundo lugar e o cuidado da criação não foi bem colocado dentro da missão evangelizadora. Assim se explicam as poucas citações bíblicas relacionadas com a criação, consequentemente, com a ecologia.
4. Merece destaque, porém, no DA a importância que se dá ao aspecto celebrativo da criação, vista como um dom de Deus, precioso e sagrado.
5. Reforçando o aspecto celebrativo da criação, a meu ver, deveríamos incluir mais o tema da criação e da ecologia em nossas pregações. Por que não valorizar, por exemplo, a unção pós-batismal – embora facultativa – com o óleo da Crisma? Como cristãos, somos ‘sacerdotes, profetas e reis da criação’.
6. Nas Campanhas da Fraternidade, muito importante do ponto de vista da ecologia é a CF de 1979. A de 1984, um pouco menos. A de 2004 foi boa pelo impacto pastoral prático causado.
7. Quanto ao aspecto da ecologia, destacam-se mais os Documentos de Puebla e de Santo Domingo. O Documento de Aparecida, embora valorize o aspecto celebrativo da criação, poderia ser mais incisivo em alguns posicionamentos, dada a gravidade da situação ambiental em que vivemos.
8. Chama a atenção a reinterpretação dada pela Exortação Apostólica pós-sinodal (2003) sobre Rm 8,22: O gemido das criaturas hoje parece verificar-se numa “perspectiva invertida, porque se trata não já duma tensão escatológica na expectativa da revelação dos filhos de Deus (cf. Rm 8,19), mas dum espasmo de morte que tende a agarrar o próprio homem para destruí-lo”.
9. Desafios:
a. Como foram implementadas as belas propostas práticas de Puebla e de Santo Domingo? O que faremos com as propostas de Aparecida?
b. Tarefa urgente: cuidar do planeta terra para que as gerações futuras o tenham em condições melhores do que as atuais.
c. Desenvolvimento sustentável
d. Ser solidário e parcimonioso no uso dos bens. Ser mais “franciscano”...
e. A conversão ecológica: respeitar a natureza como dom de Deus, cuidar, economizar, poupar, reciclar.
Apêndice:
Como subsídios para conhecer a trabalho de orientação que outras conferências episcopais estão dando a seus fiéis sobre a questão ambiental, citamos alguns pronunciamentos de algumas conferências episcopais:
- Declaração final do Congresso sobre Ciência e Fé da Federação das Conferências Episcopais da Ásia, “O amor pela criação”, Il Regno-Documenti, n. 15, 1993, p. 484-486.
- Documento da comissão social do Episcopado francês, “O respeito pela criação”, Il Regno-Documenti, n. 7, 2000, p. 239-244.
- Conferência do Mons. Josef Homeyer, presidente da Comissão episcopal da Comunidade européia, sobre “As Igrejas na política ambiental”, Il Regno-Documenti, n. 15, 2000, p. 513-519.
- Documento, envolvendo a questão da água, dos bispos dos USA e Canadá da bacia do rio Columbia, sobre o “Respeito pela criação e o bem comum”, Il Regno-Documenti, n. 15, 2001, p. 498-507.
- Documento da Assembléia Geral dos Bispos dos USA sobre as mudanças climáticas globais, “Global Climate Change: A Plea for Dialogue, Prudence, and the Common Good” (2001), catholicclimatecovenant.org/resources/global-cimate-change.
-Declaração dos Bispos da Austrália sobre a justiça social (2002), envolvendo a preocupação ambiental, “Uma nova terra: o desafio ambiental”, Il Regno-Documenti, n. 1, 2003, p. 35-41.
- Documento preparado pelo grupo de trabalho da Conferência Episcopal Alemã sobre “A mudança climática”, Il Regno-Documenti, n. 9, 2007, p. 293-312.
[1] A versão original deste texto, que agora sofreu pequenas atualizações, foi apresentada na 8ª Semana Teológico-Pastoral, promovida pela PUC-Rio, pelo Instituto de Filosofia e Teologia Paulo VI (IFITEPS – Nova Iguaçu) e pelo Instituto Teológico Franciscano (ITF – Petrópolis), de 24 a 26 de outubro de 2007, na sede da PUC-Rio.
[2] Veja alguns documentos importantes de outras Conferências Episcopais citados no apêndice final.
[3] PAULO VI. O desenvolvimento dos povos. Carta Encíclica Populorum progressio. Documentos Pontifícios, n. 165. Petrópolis: Ed. Vozes, 15ª edição, 1991, n. 17, p. 11.
[4] Mensagem enviada pelo Papa Paulo VI ao Secretário Geral da Conferência Internacional das Nações Unidas sobre o Ambiente, realizada em Estocolmo, em 1972 (cf. SEDOC, agosto de 1972, col. 159-162).
[5] Cf. SEDOC, fevereiro de 1971, col. 930.
[6] Cf. SEDOC, junho de 1971, col. 1444-1465.
[7] Cf. SEDOC, outubro de 1974, col. 328-329.
[8] Cf. SEDOC, Janeiro de 1975, col. 766.
[9] Enchiridion Vaticanum. Documenti ufficiali della Santa Sede, vol. 6. Bologna: CED, 1980, p. 1223.
[10] Enchiridion Vaticanum, vol. 7, 1981, n. 552, p. 523-524.
[11] Solicitude Social. Carta Encíclica de João Paulo II Sollicitudo rei socialis. São Paulo: Ed. Paulinas,1988, n. 26, p. 45. Coleção Voz do Papa, n. 117.
[12] Artífices da paz que é fruto de justiça (04/04/1987), SEDOC, v. 20, julho de 1987, p. 30-31.
[13] Instrumentum laboris. “La riconciliazione e la penitenza nella missione della Chiesa” (25/01/1983). Cf. Enchiridion Vaticanum, v. 8, p. 454-465.
[14] Enchiridion Vaticanum, vol. 11, 1988-1989, n. 42-43, p. 1165-1166.
[15] Pace con Dio creatore, pace con tutto il creato. Messaggio del papa per la giornata della pace. Il Regno – Documenti, XXXV, n. 1, 1990, p. 1-4.
[16] SEDOC, v. 24, 1991, n. 36-38, p. 34-36.
[17] SEDOC, v. 24, 1991-1992, p. 642-646.
[18] Cf. SEDOC, v. 27, 1994-995, p. 9-15.
[19] Pontifício Conselho Cor Unum: Reflexões sobre o problema da fome, em “A fome no mundo: novo desafio e novos compromissos para a Igreja” (22/11/1988). Enchiridion Vaticanum, v. 11 – Documenti ufficiali della Santa Sede 1988-1989. Bologna: EDB, 1991, p. 974.
[20] Pontifício Conselho Cor Unum sobre a fome: SEDOC, v. 29, 1966-1997, p. 398-455.
[21] Cf. SEDOC, v. 36, 2003-2004, p. 479-480.
[22] Bento XVI. Carta Encíclica Caritas in Veritate, sobre o desenvolvimento humano integral na Caridade e na Verdade. São Paulo: Paulinas, 2009; cf. Il Regno-doc., n. 15, 2009, 457-490.
[23] Responsabilidade cristã para justiça no mundo. Cf. SEDOC, março de 1972, col. 1076.
[24] Enchiridion Vaticanum, vol. 16 – Documenti ufficiali della Santa Sede, 1977. Bologna: EDB, 1999, p. 1189-1190, n. 21-22.
[25] Cf. Il Regno-Documenti, n. 11, 2009, p. 381-383.
[26] Cf. Mensagem de Paulo VI à Conferência sobre o Ambiente (01/06/1972), na qual o Papa insiste sobre o destino universal dos bens da natureza.
[27] Veja o Texto Base da CF-1979 Por um mundo mais humano, p. 6-18.
[28] Veja CNBB. Campanha da Fraternidade de 2007: Fraternidade e Amazônia. Texto-Base. São Paulo: Ed. Salesiana, 2007.
[29] Documentos do CELAM. Rio, Medellín, Puebla e Santo Domingo. Documentos da Igreja, vol. 8. São Paulo: Paulus, 2004, p. 73-224.
[30] Santo Domingo – 1992. Nova Evangelização, promoção humana e cultura cristã. “Jesus Cristo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8). Documentos do CELAM. Rio, Medellín, Puebla e Santo Domingo. Documento da Igreja, vol. 8. São Paulo: Paulus, 2004, p. 585-782.
[31] SERRANO, Ramon Cazallas. A conferência de Santo Domingo, 1992, em pelos caminhos da América. Os desafios da Missão à luz das Conferências do CELAM. São Paulo: Missões, 2007, 26-33.
[32] Documento de Aparecida. Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. São Paulo: Edições CNBB, Paulus, Paulinas, 2007.
[33] Faltou citar Gn 8,21-22 e 9,12-17!
Frei Ludovico Garmus
Instituto Teológico Franciscano
Petrópolis, RJ
Extraído de http://servicioskoinonia.org/relat/402.htm acesso em 9 maio 2010.