Por Moacir Beggo
Site Franciscanos - Qual a sua expectativa para este Capítulo Geral no Brasil? Já participou de algum outro capítulo Geral?
Denize Marum - A expectativa é
muito grande, pois é a primeira vez que um Capítulo Geral é realizado
na América do Sul. É uma oportunidade dos irmãos e irmãs, provenientes
de várias partes do mundo, conhecer a realidade da OFS do Brasil. Será
uma grande troca de experiências. Nunca participei de um Capítulo
Geral. E, neste, faço parte da Comissão organizadora, mas não sou
capitular.
Site Franciscanos - Qual a importância dele ser realizado no nosso país?
Denize - A grande importância está
no envolvimento das Fraternidades locais, de certa forma na
participação dos irmãos ajudando na organização. Desde o momento em que
a presidência do CIOFS anunciou que o Capítulo seria realizado no
Brasil, há um ano, procuramos por todo esse tempo motivar as
Fraternidades para esse evento tão importante, e elas corresponderam ao
nosso pedido. Esse envolvimento serviu para uma integração maior entre
a Fraternidade nacional e internacional. Sendo a sua estrutura muito
grande, foi preciso envolver muitas pessoas, até não-franciscanos, e que
gostaria de agradecer muito, sem citar nomes, para não correr o risco
de deixar de mencionar alguém. Não só os franciscanos seculares foram
envolvidos, como também outros ramos da Família Franciscana: a Primeira
e Segunda Ordem e a TOR. Os bispos franciscanos foram convidados para a
celebração em Aparecida. Os quatro Ministros Provinciais de São Paulo
contribuíram com as despesas do Capítulo e estarão celebrando a missa
do dia 28 de outubro. A eles, a nossa gratidão e reconhecimento.
A Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo cedeu
os ônibus para levarmos os capitulares a Aparecida. E o ponto alto de
tudo isso será no dia 23 de outubro, em Aparecida, quando os irmãos e
irmãs, vindos de várias regiões do Brasil, terão um encontro com a
Ministra Geral, Encarnazion Del Pozo, e os capitulares e, logo após, a
participação na celebração eucarística. Como muitas pessoas
não-franciscanas foram envolvidas, isso tornou a OFS mais conhecida.
Site Franciscanos - Como a sra. entende o tema "Evangelizados para evangelizar"?
Denize - Primeira necessidade é
conhecer a Jesus Cristo e fazer dele o centro de nossa vida, a exemplo
de São Francisco, para então, a partir daí, torná-lo conhecido através
do anúncio e, principalmente, do nosso testemunho de vida. É o que diz a
nossa Regra em seu artigo 4. Penso que o tema foi muito oportuno para
nossa realidade de Brasil, porque a evangelização é o ponto marcante no
Documento de Aparecida.
Site Franciscanos - Nesta sociedade, cada
vez mais consumista, tem lugar para o Evangelho e para o projeto de
Francisco de Assis?
Denize - Sim, porque o Evangelho é
sempre atual. Em cada época, ele se apresenta sempre novo. Francisco de
Assis, em seu tempo, optou em vivê-lo radicalmente, entrando num
processo de conversão, transformando totalmente sua vida, mostrando que
isso é possível. E nós, franciscanos e franciscanas, oitocentos anos
depois, continuamos fazendo dele nossa fonte de inspiração, procurando
fazer a diferença.
Site Franciscanos - Quais as necessidades evangelizadoras no nosso país?
Denize - Vejo como necessidade
urgente a evangelização na família e juventude. Na família muito se tem a
dizer, mas ficaria na questão de resgatar os valores cristãos para que
ela volte a ser a célula primeira da sociedade: onde pais e filhos se
amem e se respeitem. E a juventude vivendo num lar cristão, devolverá
bons frutos para a sociedade. Atualmente vemos um quadro alarmante na
juventude, cada vez mais se distanciando da vida em Deus,
substituindo-O pela ganância, pelo consumismo, pelas drogas,
materialismo, discriminação, gerando com isso muita violência. A
evangelização se faz urgente nestes dois campos.
Site Franciscanos - Para onde caminha a OFS, no Brasil e no mundo?
Denize - A renovação da nossa
Regra, aprovada em 24 de junho de 1978 pelo Papa Paulo VI, mostrou o
verdadeiro caminho que a OFS deve seguir. A conscientização de viver o
Evangelho, à maneira de Francisco, mas no estado secular, foi uma luz
para os franciscanos e franciscanas. Antes disso, víamos uma OFS mais
devocional, hoje ela se faz presente em muitos campos da sociedade.
Hoje, o leigo franciscano está mais consciente de sua missão no mundo,
abrangendo a família, o trabalho, o lazer, a comunidade... Nesses
campos, ele vai fazendo a diferença como: - ser um médico franciscano; -
um político franciscano; - um educador franciscano; - um comerciante
franciscano; - um catequista franciscano...
Site Franciscanos - Por que falta uma aproximação maior com a Jufra?
Denize - Sinceramente não sei o que
acontece. Também sempre me faço essa pergunta e ainda não encontrei a
resposta. Mesmo carisma, mesmo ideal, mesmos propósitos... A única
diferença que vejo é a questão da idade, mas não creio que seja isso,
pois no projeto de Francisco isso não poderia ser. Não diria que falta
uma maior aproximação. Atualmente, a relação melhorou muito, graças ao
esforço e luta das lideranças do passado e presente. Muita coisa foi
feita para que as mútuas relações acontecessem. Portanto, vejo isso
como um desafio que temos que vencer como tantos outros. O Regional de
São Paulo tem procurado fazer de tudo para que o relacionamento
OFS/JUFRA seja cada vez melhor.
Site Franciscanos - Quantas fraternidades fazem parte do seu Regional?
Denize - Fazem parte do Regional Sudeste III – SP, 85 Fraternidades erigidas canonicamente e uma em formação.
Site Franciscanos - Qual é o papel da Ministra Regional?
Denize - O papel de todo Ministro
(a), seja ela Local, Regional, Nacional e Geral, é estar a serviço. No
caso do Ministro (a) Regional é servir as Fraternidades locais.
Acrescidas a isso tem a parte da estrutura e dos vários serviços, que o
Ministro precisa estar atento e cuidar bem para que tudo funcione de
acordo. A integração com a Fraternidade Nacional e também com a Família
Franciscana é muito importante. Mas o Ministro (a) não trabalha
sozinho, ele conta com o auxílio dos demais irmãos que fazem parte do
Conselho, inclusive os assistentes espirituais. Os trabalhos são
realizados em conjunto.
Site Franciscanos – Como e quando resolveu ser franciscana secular?
Denize - Como toda vocação é um
chamado, um convite, no meu caso não poderia ser diferente. Isso começou
há algum tempo, por volta de 1975, quando ao final da missa das 19h30
do sábado, fui convidada por uma irmã da Fraternidade Bom Jesus dos
Aflitos/Sorocaba (a Ana Maldonado – já falecida) a participar de uma
reunião numa sala da Comunidade. Na verdade, ela havia convidado a
minha mãe e minha tia, mas como estava junto, também fui convidada.
Nesse dia os irmãos estavam reunidos para comemorar o aniversário dela e
do Frei Fortunato (também já falecido). Era o dia 5 de julho de 1975.
Estava um pouco tímida, retraída, sem graça, por não conhecer ninguém,
mas a acolhida foi tão calorosa que isso logo passou. Notei que havia
muita alegria, muito entusiasmo naquele grupo, algo diferente que me
chamou atenção. Mas não sabia o que era. Terminou a festinha e fiquei
sem entender nada. Ao me despedir fui convidada para retornar no sábado
seguinte. Como minha mãe e minha tia retornaram, resolvi ir também.
Percebi que a reunião começava com a missa preparada pela Fraternidade.
Nesse dia, os irmãos estavam reunidos para a formação permanente, dada
pelo assistente, Frei Luiz Squizato, OFM. Recebi o convite para
participar de um Encontro Distrital na cidade de Itaporanga (SP). Como
demonstrei não entender o que seria esse Encontro Distrital, uma irmã me
explicou que se tratava de um encontro entre os franciscanos das
fraternidades mais próximas. Quando ela me falou que teríamos que sair
às 4 horas, porque levava 4 horas para chegar, estranhei um pouco
porque era longe. Mas foram tão insistentes que topei. Foram até me
buscar em casa para não ir sozinha até a igreja, pois era de madrugada.
Achei isso o máximo! E depois desse encontro vieram outros e mais
outros... Lembro que, no final do ano, a Ministra me perguntou se
gostaria de começar o tempo de iniciação (naquela época era o
postulantado), eu respondi que iria pensar. Mas foi apenas uma desculpa
para não dizer não. Aí, então, ela me deu um livro da vida de São
Francisco, de Maria Sticco para que eu o conhecesse e pudesse me
decidir. Como haviam chegado as férias (nessa época estava lecionando em
São Paulo), aproveitei para ler. O episódio que mais me impressionou
foi aquele em que Frei Masseo pergunta a Francisco: “Por que a ti? Por
que a ti? Por que a ti Francisco? Por que todo mundo anda atrás de ti?
Não és homem belo de corpo, não és de grande ciência, não és nobre:
donde vem, pois, que todo mundo anda atrás de ti”? Ouvindo isso São
Francisco disse?
“Queres saber por que a mim? Queres saber por que a
mim? Queres saber por que todo mundo anda atrás de mim? Porque o
Senhor não encontrou uma pessoa mais vil nem mais insuficiente nem
maior pecador sobre a terra; e por isso me escolheu para confundir a
nobreza, e a grandeza e a força e a beleza e a sabedoria do mundo: para
que se reconheça que toda a virtude, e todo bem é dele e não da
criatura, e para que ninguém se possa vangloriar na presença dele...”
A resposta de Francisco me marcou muito. Lembro que
fiquei muitos dias refletindo e, depois disso, resolvi conhecer o
carisma franciscano participando primeiramente das reuniões mensais.
Depois, fiz o Postulantado até 1977. Em 1978, passei para o Noviciado
(hoje tempo de formação). Em 1979, fiz a profissão temporária e, em
1981, a profissão definitiva.
Site Franciscanos - Para encerrar, o que diria para os leigos que podem ser franciscanos seculares?
Denize - Diria que vale a pena ser
franciscano (a). Francisco foi muito inspirado por Deus quando pensou
em criar a Terceira Ordem para que os leigos pudessem também viver o
seu projeto de vida. Se não fosse tanta ousadia e, apesar de ser uma
vocação, diria que todo católico batizado deveria ser um (a) franciscano
(a). A espiritualidade franciscana é completa em todos os sentidos e
nos dá a oportunidade de crescer como pessoa humana e cristã.