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segunda-feira, 25 de abril de 2011
Blog Textos de Eduardo Hoornaert
sábado, 18 de dezembro de 2010
O mundo mudou, e a Igreja é obrigada a usar uma nova linguagem
Os Papas, assim como os compositores musicais, tendem a compor alguns temas maiores e menores ao longo do seu conjunto de obras. Se você quiser saber quais composições eles consideram como pontos de viragem, portanto, olhe para aqueles em que eles saem de sua própria pele – rompendo os instintos de uma vida inteira para realizar algo novo.
A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 14-12-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Por exemplo, quando Bento XVI esteve ao lado de um mufti muçulmano para um momento de oração silenciosa, na Mesquita Azul de Istambul, em 2006 – apesar de suas longas reservas teológicas acerca da oração inter-religiosa. Isso ofereceu um sinal claro do seu compromisso com a reconciliação católico-Islâmica, que foi especialmente crucial após seu discurso de Regensburg apenas dois meses antes.
Na mesma lógica, a decisão de Bento XVI no início deste ano de criar um Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização também deveria ser classificada como uma jogada feita cuidadosamente, porque este não é um Papa encantado pela burocracia.
Como cardeal, Joseph Ratzinger disse que a Conferência dos Bispos da Alemanha não conseguiram resistir ao nazismo mais corajosamente, porque ela era "muito burocrática", e essa resistência a instituições que se autopreservam tem sido um refrão constante em seu pensamento. Em seu livro "New Song for the Lord", de 1988, Ratzinger escreveu: "Nas últimas duas décadas, uma quantidade excessiva de institucionalização surgiu na Igreja, o que é alarmante. Reformas futuras devem, portanto, visar não à criação de ainda mais instituições, mas sim a sua redução".
Mais incisivamente ainda, Ratzinger fez um discurso em 1990 à reunião anual do Comunhão e Libertação, em Rimini, na Itália, no qual ele disse: "Depois do Concílio, criamos muitas novas estruturas, e ainda as estamos criando. Eu sugeri um exame de consciência que também poderia ser proveitosamente estendida à Cúria Romana, no sentido de avaliar se todos os dicastérios que existem hoje são realmente necessários". [Dicastério é o termo técnico para os diversos escritórios e departamentos do Vaticano.]
Assim, é surpreendente que esse Papa, dentre todas as pessoas, deva ser aquele que vai expandir ainda mais as estruturas do Vaticano – acrescentando um 12º conselho pontifício para se unir a nove congregações, três tribunais e uma série de outros escritórios.
O Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização pretende reavivar as energias missionárias da Igreja, sobretudo na ultrassecular Europa. Talvez, se Henrique IV podia dizer que Paris valia uma missa, o cálculo de Bento XVI é de que a Europa vale um dicastério.
(A propósito, Bento XVI pode estar disposto a suspender seus receios sobre apparatchiks eclesiásticos por causa do que está em jogo, mas isso não significa que todos os demais concordem com isso. Neste momento, não há nenhum padre norte-americano trabalhando no novo conselho, porque os bispos norte-americanos que foram solicitados a liberar um padre disseram que não.)
O homem indicado por Bento para liderar o novo conselho é o arcebispo Salvatore (Rino) Fisichella, um prelado italiano de 59 anos e ex-reitor da Universidade Lateranense, cujo último trabalho foi como um controverso presidente da Academia para a Vida do Vaticano.
Quando a nomeação foi anunciada pela primeira vez durante o verão [europeu], alguns observadores romanos tomaram isso como uma forma para "salvar a pele" de Fisichella, retirando-o de uma situação insustentável na Academia, da qual ele era presidente apenas desde junho de 2008. Há um ano e meio, Fisichella tomou distância de um bispo brasileiro que havia anunciado a excomunhão da mãe e dos médicos de uma vítima de estupro de nove anos de idade, que foi submetida a um aborto. A impressão de alguns ativistas pró-vida foi de que Fisichella empurrou o bispo para debaixo do trem, a fim de marcar alguns pontos de relações públicas, e diversos membros da sua própria Academia fizeram campanha abertamente pela sua saída.
No entanto, dada a antipatia de Bento XVI pela burocracia, parece improvável que ele crie um novo departamento inteiro apenas para poupar os sentimentos de Fisichella. (Em Roma, há formas menos onerosas para "promuovere per rimuovere", ou seja, "promover para remover".) Além disso, Bento e Fisichella tem uma história de amizade, o que a torna uma das indicações da "zona de conforto" papal. Os dois estavam entre os principais contribuidores para a encíclica "Fides et Ratio" de João Paulo II, de 1998, tanto que a piada em Roma foi de que ela deveria ter sido chamada "Fisichella et Ratzinger".
Fisichella enfrenta agora o desafio de fazer com que a aposta do Papa valha a pena, provando que a criação de um novo departamento vaticano, na verdade, pode ter alguma influência sobre o destino evangélico da Igreja no século XXI. Ele se sentou com o NCR em seu novo escritório vaticano no dia 11 de dezembro para discutir como estão as coisas no novo conselho e para onde estão indo.
Eis a entrevista.
Como estão as coisas no seu novo escritório?
Estou cada vez mais consciente das grandes expectativas entre muitos bispos e muitos fiéis. Eu também estou entusiasmado, porque este é um trabalho que corresponde com os meus 20 anos de experiência como professor. Na Universidade Lateranense, ensinei teologia fundamental e, em termos de apologética, concentrei-me em apresentar o cristianismo hoje, usando uma nova linguagem.
São apenas dois meses, porque foi no dia 12 de outubro em que apresentamos o documento de criação do dicastério na Sala de Imprensa do Vaticano. Em apenas dois meses, eu tenho que dizer que fomos capazes de realizar várias coisas importantes. Para começar, trouxemos quatro autoridades para as várias línguas – francês, espanhol, polonês e alemão.
O senhor está esquecendo o inglês.
Certo, estamos esquecendo o inglês e também o italiano. Eu acho que vamos encontrá-los em breve.
Eu tenho que dizer que, em termos de inglês, estou um pouco decepcionado, porque os vários pedidos que eu fiz aos bispos dos Estados Unidos, até agora, encontraram portas fechadas. Eu perguntei por padres que eu conheço há algum tempo. Claro, são padres talentosos, com responsabilidades importantes, e seus bispos não querem deixá-los ir embora. Certamente posso entender que um bispo pense duas vezes antes de liberar um grande padre que faz muitas coisas boas na diocese. Por outro lado, também penso que um padre talentosos também pode fazer muita coisa boa no serviço a toda a Igreja.
Felizmente, eu tenho um grande número de amigos entre os bispos norte-americanos e estou convencido de que podemos encontrar alguém. É importante para mim ter um padre norte-americano no escritório. É fundamental, pois precisamos de alguém que conheça a situação nos Estados Unidos também.
Quando terminar, de que tamanho será a sua equipe?
Vamos ser um grupo pequeno, porque, considerando todos as autoridades, o pessoal administrativo e os superiores – presidente, secretário e subsecretário –, estamos falando de 15 pessoas talvez. É o número que, por enquanto, corresponde ao trabalho que temos para fazer. Eu não acho que a equipe deveria ser maior, porque o risco seria de ter mais pessoas do que precisamos. Você não pode simplesmente preencher um novo escritório sem saber qual será o seu trabalho futuro. Você tem que fazer isso passo a passo.
Fale sobre o trabalho futuro.
Para cerca de 25 anos, o Papa João Paulo II falou sobre a "nova evangelização". Isso estimulou um movimento real na Igreja, de ação e de pensamento. Existem muitos grupos hoje em dia que nasceram com o objetivo da nova evangelização. Nosso primeiro objetivo, portanto, é o de conhecer o que está acontecendo e talvez coordenar isso um pouco. Temos que nos informar sobre o que já está presente em várias Igrejas.
Para dar apenas um exemplo, o cardeal de Washington, Donald Wuerl, em setembro, dedicou uma carta pastoral inteira para a nova evangelização. Bispos, movimentos e assim por diante já têm esse compromisso.
O que eu gostaria de tentar ajudar a Igreja a compreender é que, em uma situação cultural como a nossa, que é extremamente fragmentada, não é possível avançar o tema de uma "nova evangelização" de uma forma fragmentada. Temos que fomentar a unidade na complementaridade, oferecendo um testemunho unificado, preservando a singularidade de cada grupo, de cada associação, de cada ordem religiosa. A "nova evangelização" não pode ser a mesma em todos os cantos do mundo, porque as condições culturais na Europa não são as mesmas na América Latina, não são as mesmas nos Estados Unidos ou no Canadá e não são as mesmas na Austrália ou em grandes cidades da Índia ou da Coreia. Temos que tentar ter uma visão unitária, mas com respeito pelas diferentes situações, tradições e culturas em que estamos inseridos.
Além de desenvolver um sentido mais profundo do que já está acontecendo, quais projetos o senhor está levando em consideração?
Um primeiro passo é que, depois do Natal, vamos ter uma conferência com vários especialistas para esclarecer o conceito da "nova evangelização". O que eu quero enfatizar é que se remova a ambiguidade, o risco de tratar a ideia da "nova evangelização" como uma fórmula abstrata. Temos que ser capazes de encher a expressão "nova evangelização" com conteúdo. Teremos dois dias de estudo dedicados ao tema da "nova evangelização", em algum momento de março. Ainda estamos considerando as datas exatas. Ainda estamos montando o programa, mas serão apenas especialistas, a fim de torná-lo um pouco como um seminário acadêmico. Vamos ter alguns bispos, alguns leigos especialistas, para que possamos avaliar os horizontes históricos, teológicos e pastorais do que está por trás da expressão "nova evangelização".
O senhor conhece os Estados Unidos razoavelmente bem, tendo lecionado lá em várias ocasiões. O senhor acredita que há uma contribuição específica que os Estados Unidos podem trazer para a nova evangelização?
Absolutamente, sim. Eu sempre vi a Igreja nos Estados Unidos como extremamente dinâmica. Todas as vezes que eu vou para os Estados Unidos e que eu falo com muitos amigos que tenho lá, fico ciente de como ela é dinâmica.
Quando se trata de evangelização, eu acho que existem dois polos: "ad intra" e "ad extra", ou seja, a vida interna da Igreja e sua maior contribuição social.
Fiquei muito satisfeito a este respeito com a carta pastoral do cardeal Wuerl sobre a nova evangelização, porque, além do seu uso dessa expressão, houve uma atenção muito forte à vida interna da Igreja, uma espécie de atenção "ad extra", focada na promoção da maturidade da vida cristã e, assim, tentando superar a crise que tem sido vivida nos Estados Unidos.
Tenho certeza que você já sabe disso, mas para nós foi um sinal muito positivo ver que o North American College deste ano tem 230 seminaristas. É um número maior do que tem sido visto há muito tempo. Isso significa que, inevitavelmente, há uma vida muito ativa e dinâmica dentro da comunidade católica dos Estados Unidos, porque as vocações nascem quando há atividade pastoral dinâmica dentro da comunidade.
Também existe a dimensão "ad extra", ou seja, a presença de uma comunidade católica que atua dentro da sociedade mais ampla. Isso inclui, naturalmente, o fornecimento de orientação sobre questões morais, comumente uma orientação que não é especificamente católica, mas que também é compartilhada por outras Igrejas cristãs e outras religiões. Mas também existe a presença católica nos EUA na formação universitária, por exemplo, e nos cuidados de saúde, em obras de caridade e assistência social. É uma presença que faz o anúncio da Igreja visível. Isso é importante, porque o anúncio cristão tem que se tornar visível por meio do testemunho.
Eu diria que há também uma presença significativa da Igreja nos debates sobre as grandes questões que determinam a vida da sociedade. Os bispos dos EUA desempenharam um papel ativo, por exemplo, quando a sociedade norte-americana se fez várias perguntas de extrema importância – a pesquisa com células-tronco embrionárias, por exemplo, os direitos de consciência e a defesa da vida humana desde a concepção até a morte natural.
Também acho que os católicos norte-americanos levam mais a sério o seu pertencimento à Igreja Católica, ou pelo menos pensam mais seriamente sobre isso, porque são confrontados regularmente com pessoas que pertencem a outras Igrejas e a outras fés. Além de ser norte-americano, a Igreja a qual você pertence se torna um importante sinal de identidade.
Esse dinamismo norte-americano pode ser exportado para outras partes do mundo, ou ele está ligado às peculiaridades da nossa história?
Há certos costumes e formas da vida católica americana que não podem ser simplesmente replicados em outros lugares. Deixe-me dar um pequeno exemplo, neste caso da vida sacerdotal. Na Itália, por exemplo, nós temos inúmeras pequenas cidades que são, basicamente, completamente católicas. Inevitavelmente, a relação com o sacerdote não é só das 8h ao meio-dia e das 14h às 18h. É muito mais natural. Nos Estados Unidos, o trabalho pastoral é frequentemente muito mais estruturado e organizado.
Quanto à presença da Igreja na sociedade, no entanto, e ao dinamismo da formação, certamente há algo a aprender com os Estados Unidos.
Que outros projetos vocês tem previstos?
O projeto mais importante é trabalhar com a Secretaria do Sínodo dos Bispos, porque em 2010 haverá um Sínodo dedicado à "Nova Evangelização" e à transmissão da fé. Seria um pouco arrogante se o nosso novo escritório antecipasse o que será uma contribuição que virá de todos os bispos e da Exortação Apostólica do Papa.
Sobre essas questões, é preciso sabedoria e também humildade. A sabedoria nos ensina a viver este momento de preparação sem sermos tentados a produzir iniciativas apenas para provar que existimos. A humildade nos ensina a descobrir o que já está sendo feito e depois a ouvir os bispos no Sínodo – afinal, são os bispos que têm a responsabilidade principal.
Eu sei que há um risco de criar a impressão de que não estamos publicando nenhum documento, mas, sinceramente, eu acho que isso é uma coisa positiva. Basicamente, este é um momento para lançar as bases. Quando você faz isso bem, você sabe que a construção será mais estável. Até 2012, portanto, estaremos nos focando na capacidade de entender e de escutar. Vamos propor algumas coisas, claro, em colaboração com outros escritórios, mas a prioridade será a de colaborar com a Secretaria Geral do Sínodo para preparar bem esse evento.
Deixe-me perguntar-lhe algo mais filosófico. Olhando ao redor, muitos católicos progressistas hoje argumentam que os nossos problemas com a evangelização têm a ver, em parte, com uma falha na implementação plena das reformas do Concílio Vaticano II. Os católicos tradicionais, por outro lado, costumam dizer que as pessoas não se sentem atraídas pela Igreja porque ela se desviou do seu caminho devido às reformas que foram longe demais. O que o senhor acha?
Eu não acho que a Igreja deve ter medo de fazer um exame de consciência no que diz respeito a ambas as críticas que você mencionou, porque ambas podem ter algum mérito. Obviamente, o próprio fato de chamar o que estamos fazendo de "nova evangelização" significa que a que veio antes estava se esquecendo de alguma coisa.
Eu diria que, tanto para os progressistas quanto para os conservadores, o discurso do Papa João XXIII no início do Concílio, que foi recuperado por Paulo VI no seu encerramento, continua sendo fundamental. João XXIII disse que aquilo em que sempre acreditamos não será alterado, mas a situação que o mundo enfrenta mudou, e a Igreja é obrigada a usar uma nova linguagem. Quando eu digo "linguagem", não me refiro apenas a palavras, mas a todos os instrumentos por meio dos quais nós nos comunicamos.
Deixe-me dar um exemplo que eu recentemente estive estudando. Em 1990, João Paulo II escreveu a encíclica "Redemptoris Missio". Dez anos se passaram, e a Congregação para a Doutrina da Fé foi obrigada a publicar a "Dominus Iesus". Se você comparar os dois documentos, você verá que todos os problemas tratados na "Dominus Iesus" já estavam presentes na "Redemptoris Missio". Em outras palavras, o ensino da encíclica não foi plenamente acolhido na vida da Igreja.
Muitas vezes nos encontramos nessa situação e temos que nos perguntar: por que o ensinamento não foi recebido? Talvez seja porque a linguagem não foi entendida, ou o tratamento do tema estava ou à frente ou atrás dos tempos. Problemas de recepção são reais, eles acontecem na Igreja assim como na sociedade, e sempre foi assim. Agostinho tinha esses problemas, assim como Ambrósio.
Alguém poderia pensar que é um paradoxo que Bento XVI pareça ser tão comprometido com a evangelização, e no entanto ele está liderando um Vaticano que tem problemas crônicos de comunicação. Como o senhor concilia essas duas coisas?
Se você ler o recente livro "Luz do Mundo", você verá que o próprio Papa diz: sim, temos que admitir que houve um problema de comunicação. Creio que, entre outras coisas, isso reflete a necessidade de uma melhor coordenação entre nós, entre os dicastérios. Talvez, precisemos de oportunidades periódicas para vermo-nos, para nos comunicarmos sobre as nossas várias iniciativas.
Isso é comparável ao que acontece nos governos seculares, com um conselho de ministros que se reúne com grande frequência. As decisões do governo são feitas de uma forma participativa, porque eles trabalham como um grupo. Claro, isso não quer dizer que tudo sempre funciona da maneira que deveria, porque sempre há peculiaridades pessoais que podem vir à luz, mas certamente há uma necessidade de uma melhor colaboração e comunicação entre os vários dicastérios.
O senhor acredita que isso vai acontecer?
Bem, tomemos o caso da fundação deste escritório. O anúncio foi feito no dia 12 de outubro, e no dia 12 de novembro houve um encontro interdicasterial em que eu apresentei o novo dicastério para todos, e todos tiveram a oportunidade de falar sobre isso.
Esses encontros não acontecem com muita frequência.
O que eu espero, e o que eu penso, é que, em comparação aos conselhos de ministros, encontros interdicasteriais mais frequentes no Vaticano promoveriam uma maior coordenação e colaboração.
A acusação ainda poderia ser feita: se o papa leva tão a sério a evangelização, por que ele permitiu que todos essas crises de comunicação acontecessem?
Eu concordo que temos que levar em conta as regras e os instrumentos de comunicação modernos, e nós podemos fazer um trabalho melhor. Em muitos aspectos, isso é óbvio. O tipo de reforma que é necessária será avaliado e decidido por aqueles que detêm a responsabilidade. Meu papel é tentar fazer com que o Conselho para a Nova Evangelização contribua com a comunicação da forma que nos pertença. Se eu tentar assumir questões maiores que não me pertencem, isso não seria útil.
O Papa pode ter uma forte mensagem para o mundo contemporâneo, mas o que todo mundo tipicamente vê são os desastres – o caso Williamson, a crise dos abusos sexuais, a recente confusão sobre as palavras do Papa sobre o preservativo, e assim por diante. Uma melhor estratégia de comunicação é, na verdade, uma pré-condição necessária para a evangelização?
Sim, mas eu também não quero confundir as duas coisas. A evangelização não é determinada pelo caso Williamson, ou pela crise dos abusos sexuais, ou pela controvérsia dos preservativos. Eles podem ser um desafio para a evangelização, porque geralmente envolvem o fato de pegar um pedaço da imagem e tratá-lo como um todo, o que realmente se assemelha a um tipo de fundamentalismo. É preciso perguntar se esse tipo de manipulação se deve a uma falha de coordenação no Vaticano, ou se há realmente uma intenção [na mídia] de dar uma impressão distorcida da vida da Igreja.
Não poderiam ser as duas coisas?
Provavelmente a falha da primeira acaba favorecendo a segunda.
O senhor apresentou recentemente o livro-entrevista do Papa para a imprensa. Além da polêmica sobre os preservativos, o senhor vê o livro como um modelo para a nova evangelização?
Eu disse naquele momento que, para mim, o livro é como se o Papa abrisse as portas de seu apartamento, pedindo a você que se sente para ter uma conversa. Essa é a sensação que eu tive. Como eu tive que apresentar o livro, eu o li no idioma original, e enquanto eu lia eu pensava que podia sentir o tom pessoal do Papa.
Quando terminamos a coletiva de imprensa, fomos ver o Papa para apresentar os volumes. Como eu era o único bispo lá, fui a primeira pessoa a saudar o Papa, e eu disse: "Santo Padre, obrigado, porque este é verdadeiramente um instrumento para a nova evangelização". Eu estou convencido disso. Há uma tal riqueza de espiritualidade nele... Ele fala sobre o valor da sexualidade, do amor, da alegria, da esperança. Há tantos elementos que refletem os desejos das pessoas hoje, e ele fala sobre eles de uma forma simples. Ele não é apenas facilmente compreensível, mas também é cheio de consolação e também é talvez um estímulo para nos tornarmos interessado pelo cristianismo, para além dos escândalos e das manchas que às vezes o marcam.
É muito ruim, porque, se você ler apenas os jornais, a única coisa que você fica sabendo sobre o livro são algumas frases sobre preservativos. Por outro lado, talvez toda a atenção vai levar algumas pessoas a ir descobrir o que o Papa realmente disse!
Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=39373 acesso em 18 dez. 2010.
Foto: Arcivescovo Rino Fisichella a Lodi. 2006. Extraído de http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Rino.fisichella-a-lodi.JPG acesso em 18 dez. 2010.
Para ler mais:
- Obstáculos para a evangelização
- Fisichella, o ''superbispo'' para o Ocidente
- ''A Igreja precisa voltar ao essencial, ou será um grupo como tantos outros''
- A longa marcha da ''nova evangelização'' nas Igrejas da Europa
- Papa cria ‘ministério’ para a Nova Evangelização
- ''Bento XVI se esquece do aspecto positivo da secularização'', afirma sociólogo francês
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Desafios e sinais de esperança para o catolicismo do século XXI
A partir da viagem do Papa Bento XVI, entre os dias 16 e 19 de setembro, ao Reino Unido, do novo escândalo do Banco do Vaticano e da forte declaração da Comissão de Doutrina da Conferência dos Bispos dos EUA acusando dois teólogos da Creighton University, universidade jesuíta norte-americana, de distorcer a tradição moral católica em questões como a homossexualidade, a contracepção e a reprodução artificial, John L. Allen Jr. apresenta aqui três observações gerais sobre esses acontecimentos.
Duas delas falam sobre os desafios endêmicos que se colocam diante do catolicismo no alvorecer do século XXI, e uma terceira aponta para alguns sinais encorajadores.
A análise foi publicada no sítio National Catholic Reporter, 24-09-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Tensões Igreja-Estado
A investigação do Banco do Vaticano provavelmente deveria ser vista em conjunto com as blitz policiais nas propriedades da Igreja na Bélgica no início deste ano, como parte de uma investigação sobre alegações de abuso sexual, ou com as revisões dos subsídios à Igreja na Espanha e a "lei da igualdade" de 2007 no Reino Unido, que negou às agências de adoção da Igreja que recebem financiamento público o direito de se recusar a entregar crianças a casais do mesmo sexo.
Ao longo disso tudo, a tendência no Ocidente nos dias de hoje é eviscerar qualquer coisa que pareça ser um privilégio ou um "tratamento especial" para as instituições religiosas, especialmente a Igreja Católica. Os dias em que as autoridades civis trataram a Igreja com luvas de pelica basicamente acabaram, até mesmo na ultracatólica Itália.
Cada vez mais, procuradores, polícia e ativistas da sociedade civil olham para a Igreja católica aproximadamente da mesma forma com que olham para o grande negócio, para o lobby e a política, até mesmo para o esporte profissional – como zonas potenciais de corrupção que precisam ser responsabilizadas e que de forma alguma devem estar "acima da lei".
Em última análise, isso pode fazer muito bem à Igreja, induzindo-a à visão de João Paulo II articulada em 1984 – que a Igreja deveria ser uma "casa de vidro", em que todos do lado de fora podem olhar e ver o que está acontecendo. Em curto prazo, no entanto, é provável que isso signifique que os pontos de ebulição entre Igreja e Estado vão crescer tanto em frequência quanto em intensidade.
Um alerta: se uma vez a configuração padrão com relação à Igreja foi de deferência e cuidado, daqui em diante a tendência, muitas vezes, provavelmente, será a de atirar primeiro e perguntar depois.
Divisões internas
A repressão aos teólogos da Creighton University é um lembrete das persistentes divisões dentro da Igreja, que tendem a se tornar especialmente visíveis e especialmente virulentas em torno de questões da moral sexual. Os bispos estão, naturalmente, em seu direito de dizer que as posições assumidas por Lawler e Salzmann não refletem o magistério católico oficial, mas isso não significa que elas não sejam compartilhadas por uma ampla faixa da população católica.
Esse ponto foi destacado mais recentemente durante a viagem do Papa Bento XVI ao Reino Unido, quando uma pesquisa realizada pelo jornal Sunday Independent revelou que uma sólida maioria dos ingleses católicos discorda da linha oficial em todos os tipos de questões, incluindo o aborto no caso de estupro e o controle artificial de natalidade.
A manchete inflamada foi: "O senhor está errado, dizem os católicos ao Papa".
Diante dessas divisões, um grupo poderia defender revisão global do ensino da Igreja para acomodar as sensibilidades pós-modernas; outro grupo poderia defender a expulsão de qualquer pessoa que não esteja preparada para assinar embaixo; e outro grupo poderia ainda defender que se ignore o problema completamente. (Respectivamente, esses grupos seriam alguns liberais, alguns conservadores e alguns bispos).
Sinceramente, nenhuma das opções acima parece ser uma solução especialmente satisfatória.
O que é necessário é a reconstrução de um "commons católico", um espaço em que os membros das várias tribos que pontilham a paisagem eclesiástica possam se reunir e construir amizades, de modo que uma profunda "espiritualidade de comunhão" possa ocorrer. Do outro lado desse esforço, novas formas de expressar as verdades eternas podem surgir, o que pode atenuar, embora talvez nunca eliminar completamente, as linhas de falha na Igreja.
Quem puder imaginar o projeto para um novo "commons católico" pode ter nas mãos a chave para a vitalidade da Igreja no século XXI.
Raios de esperança
O sucesso da viagem de Bento XVI ao Reino Unido aponta para dois raios de esperança.
Primeiro, até mesmo naquelas que parecem ser sociedades completamente secularizadas, o instinto religioso raramente se extinguiu. As multidões ao redor de Bento superaram as expectativas, impulsionadas pela substancial participação católica. O que foi mais fascinante, no entanto, foi o apelo da viagem a outros cristãos, membros de outras religiões e pessoas seculares comuns, que de alguma forma ainda sentem o estímulo da fé.
Além dos ativistas, que têm uma reclamação específica com o Papa, a maioria das pessoas pareciam curiosas sobre o que Bento XVI dizia e fazia, e também estavam genuinamente impressionadas com a sinceridade e a boa vontade das multidões de peregrinos ao longo desses quatro dias.
Bento XVI não encheu magicamente as Igrejas ou conquistou ondas de convertidos, mas o interesse amplamente favorável pela religião que a sua presença estimulou ofereceu um lembrete de que muitas pessoas, mesmo no coração do mundo secular, ainda querem acreditar – mesmo que, como o sociólogo Grace Davies indicou, eles achem muito mais difícil pertencer.
Em segundo lugar, a viagem foi um lembrete de que, quando exercido com sabedoria, o papado ainda é um púlpito intimidador original, o único maior ativo que o catolicismo tem para moldar o debate público. É difícil imaginar qualquer outra figura no planeta que poderia ir à Grã-Bretanha e liderar um exame nacional de consciência de quatro dias sobre o papel da religião na vida pública como Bento XVI fez.
Em parte, a razão de Bento XVI ter sido capaz de estimular isso foi porque ele não deu nenhuma razão para quem estava preparado para repudiá-lo. Ele não entrou na cidade cuspindo fogo contra as leis de igualdade, o aborto, o casamento gay ou qualquer uma das outras frentes das guerras culturais. Pelo contrário, ele se dirigiu aos fundamentos da questão – o direito de cidadania das pessoas de fé em uma cultura secular que preza pela tolerância e as contribuições positivas que os fiéis podem fazer acerca das preocupações humanitárias e sociais comuns.
Posto dessa forma, era praticamente impossível retratar o Papa como um extremista, e isso fez com que a afirmação de Dawkins de que Bento XVI é um "inimigo da humanidade" parecesse um tanto ridícula. Com efeito, a viagem de Bento XVI ao Reino Unido ofereceu um modelo de como os líderes religiosos podem se engajar com sucesso em diálogos seculares, por meio do modelo da "ortodoxia afirmativa" – sem compromissos com a doutrina da Igreja, mas colocada em termos dos "sins" que a Igreja diz, em vez do seu catálogo bem conhecido de "nãos".
Essa foi 17ª viagem de Bento XVI ao exterior, e muitas delas deixaram para trás o mesmo tipo de breve luminescência, até serem rapidamente inundadas por alguma nova crise ou colapso de relações públicas em Roma. Só podemos esperar que, neste caso, o passado não seja o prólogo.
Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=36733 acesso em 28 set. 2010.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Ecologia nos Documentos da Igreja Católica
Frei Ludovico GarmusIntrodução
Abordar os aspectos do Documento de Aparecida (DAp), relacionados com a ecologia, no espaço de uma comunicação[1], só é possível de uma maneira geral. As considerações que encontraremos no Documento de Aparecida serão mais compreensíveis supondo uma caminhada da Igreja Católica como um todo – e mesmo de outras Igrejas – nos últimos quarenta anos. Poderíamos colocar o DAp no contexto mais amplo das discussões ecológicas da sociedade planetária ou global, isto é, dos Organismos Internacionais (ONU) e Conferências de caráter ambiental. Poderíamos trazer e comentar textos elaborados pelas Conferências Episcopais de vários países, regiões ou continentes[2]. Poderíamos abordar pronunciamentos sobre a crise ambiental de outras Igrejas cristãs, a nível internacional e nacional. Poderíamos citar documentos e pronunciamentos relacionados com as preocupações ambientais de dezenas de dioceses e regionais do Brasil. Tudo isso haveria de enriquecer nosso texto, mas extrapolaria as possibilidades e os objetivos ora traçados. Para nossas finalidades, achamos por bem ater-nos aos pronunciamentos dos Papas e do Vaticano e a outros documentos pontifícios, aos pronunciamentos e documentos mais importantes do Episcopado Brasileiro e aos documentos oficiais do Episcopado Latino-americano.
Magistério Eclesiástico e pronunciamentos do Papa
1.1. Concílio Vaticano II: Gaudium et Spes, n. 37; 64, 69, 70
A problemática da ecologia não era ainda uma preocupação dos padres conciliares. Também não era de se esperar que o fosse, pois o assunto ainda não estava na pauta das discussões da sociedade. Mesmo assim, na Gaudium et Spes (GS) alguns acenos indiretos aparecem. Fala-se de mudanças profundas e rápidas que se estendem progressivamente ao universo inteiro, provocadas pela inteligência e atividade humanas (n. 4). Lembra-se que o ser humano foi criado à imagem de Deus (n. 12 e n. 34), “constituído senhor de todas as coisas terrenas, para que as dominasse e usasse, glorificando a Deus” (cf. Gn 1,26; Sb 2,23; Eclo 17,3-10), e que Deus fez boas todas as coisas (Gn 1,31). A atividade humana, porém, foi corrompida pelo pecado (n. 37). Mas, “remido por Cristo e tornado criatura nova no Espírito Santo, o homem pode e deve amar as próprias coisas criadas por Deus. Pois ele as recebe de Deus e as olha e respeita como que saindo de suas mãos. Agradece ao Benfeitor os objetos criados e os usa para o seu bem, na nobreza e liberdade de espírito. É assim introduzido na verdadeira posse do mundo, como se nada tivesse, mas possuísse tudo. ‘Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus’” (1Cor 3,22-23). Mas a esperança de um “novo céu e uma nova terra” (2Pd 3,13; Ap 21,1-5; Rm 8,19-23), “longe de atenuar, antes deve impulsionar a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra” (GS 39).
Um dos princípios lembrados pelo Concílio Vaticano II é o do destino universal dos bens, princípio este que sempre de novo voltará em documentos sucessivos da Igreja: “Deus destinou a terra, com tudo que ela contém, para o uso de todos os homens e povos, de tal modo que os bens criados devem bastar a todos, com equidade, sob as regras da justiça, inseparável da caridade” (GS 69). Por isso, os mais ricos têm a obrigação de socorrer os pobres não somente com o que lhes é supérfluo. As decisões sobre a vida econômica devem atender às necessidades individuais e coletivas da geração presente. Por outro lado, é preciso “prever o futuro, estabelecendo justo equilíbrio entre as necessidades atuais de consumo, individual e coletivo, e as exigências de inversão de bens para as gerações futuras” (GS 70). Assim, aqui já está delineado o tema, que será mais tarde discutido, do “desenvolvimento sustentável”.
1.2. Paulo VI e suas preocupações ecológicas
Já em 1967, Paulo VI, na Populorum progressio[3], falando do progresso dos povos, coloca um dos princípios que ainda hoje podem nortear as atitudes humanas diante do meio ambiente. Diz ele: “Herdeiros das gerações passadas e beneficiários do trabalho dos nossos contemporâneos, temos obrigações para com todos, e não podemos desinteressar-nos dos que virão depois de nós” (n. 17).
A partir da década de 1970, a Igreja tem acompanhado a questão ecológica com assiduidade. Destacamos alguns trechos da mensagem do papa Paulo VI às Nações Unidas, que reforçam as preocupações da comunidade mundial reunida para esta conferência[4]: “Hoje, de fato, há maior consciência de que o homem e o ambiente em que ele vive são mais do que nunca inseparáveis”. Insiste o Papa na necessidade de respeitar os limites da regeneração da natureza: O homem deve “respeitar as leis que regulam o impulso vital e a capacidade de regeneração da natureza; ambos, portanto, são solidários e compartilham um futuro temporal comum”. Dependendo do modo como agirmos com a natureza, serão “os fatores de interdependência, para o melhor ou para o pior, para a esperança de salvação ou para o risco do desastre”. O homem já se tornou uma ameaça para si mesmo, com suas armas atômicas, químicas e bacteriológicas. E o Papa se pergunta: “Mas como se hão de ignorar os desequilíbrios provocados na biosfera, devidos à exploração desordenada das reservas físicas do planeta, até com o propósito de produzir os bens úteis, como, por exemplo, o desperdício dos recursos naturais não renováveis, a poluição do solo, da água, do ar e do espaço, com os consequentes atentados contra a vida vegetal e animal?” A técnica pode ser usada para minorar os males já causados ao ambiente. “Mas todas as medidas técnicas serão ineficazes – frisa o Papa – se não forem acompanhadas por uma tomada de consciência da necessidade de uma transformação radical de mentalidades”. Paulo VI aponta a figura de São Francisco de Assis como modelo para nossa relação com a natureza: “Como poderíamos deixar de evocar aqui o exemplo imorredouro de São Francisco de Assis e deixar de mencionar as grandes Ordens contemplativas cristãs, que oferecem o testemunho de uma harmonia interior, obtida no âmbito de uma comunhão confiante nos ritmos e nas leis da natureza?” Por fim, partindo da frase de Paulo a Timóteo: “Toda criatura de Deus é boa” (cf. 1Tm 4,4, que repete Gn 1), o Papa diz: “Governar a natureza significa, para a raça humana, não destruí-la, mas aperfeiçoá-la; não transformar o mundo num caos inabitável, mas numa bonita casa, ordenada no respeito por todas as coisas”. O ambiente natural não deve ser objeto de apropriação pessoal exclusiva, mas é um bem comum, um patrimônio da humanidade.
Paulo VI, no seu discurso por ocasião do XXV aniversário da FAO (Organização Mundial para a Agricultura e Alimentação, 22/11/1970), elogia os grandes esforços desenvolvidos para um melhor aproveitamento das terras, águas, florestas e oceanos, que resultaram em maior produtividade das culturas, no melhoramento da fertilidade do solo, com o uso racional da irrigação. Adverte, porém: “O ritmo acelerado, a realização concreta destas possibilidades técnicas não se verifica sem causar nocivas repercussões no equilíbrio do nosso ambiente natural, e a deterioração progressiva daquilo que convencionalmente se chama ‘meio ambiente’, sob o efeito dos contragolpes da civilização industrial, corre o risco de acabar numa verdadeira catástrofe ecológica”. E cita alguns danos já causados: a qualidade do ar e da água potável, a contaminação de praias e oceanos e a ameaça de equilíbrio de várias espécies. Enfim, o homem causa desequilíbrio à natureza, posta à sua disposição pelo desígnio amoroso de Deus (Sl 65,10-14). O homem ao longo de milênios “aprendeu a submeter a natureza, a dominar a terra (Gn 1,28)... Agora, soou a hora de ele dominar o seu próprio domínio”[5].
Em 1971, na Carta Apostólica Octogésima adveniens[6], volta a advertir para as consequências dramáticas provocadas pela atividade humana: “De um momento para o outro, o homem toma consciência dela: por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação. Não só o ambiente material já se torna uma ameaça permanente – poluições e resíduos, novas doenças, poder destruidor absoluto – é o mesmo quadro humano que o homem não consegue dominar, criando assim, para o dia de amanhã um ambiente global, que poderá tornar-se insuportável. Problema social de envergadura, este, que diz respeito à inteira família humana... O cristão deve voltar-se para estas percepções novas, para assumir a responsabilidade, juntamente com os outros homens, por um destino, na realidade, já comum”.
Na Bula Apostolorum Limina (1974) sobre o Ano Santo[7], entre os problemas que perturbam a humanidade e deveriam ser iluminados pelas celebrações do Ano Santo, Paulo VI cita “desde os econômicos e sociais aos da ecologia, passando pelos das fontes de energia, da libertação dos oprimidos e da elevação de todos a uma maior dignidade de vida”.
Em nome do Papa Paulo VI, o delegado do Vaticano à Conferência mundial da população, convocada pela ONU (01/09/1974), lembra que, segundo dados técnicos, existem possibilidades de criar recursos alimentares e recursos energéticos para uma população muito maior, mas os países ricos, que consomem 80% da energia disponível precisam mudar seu estilo de vida consumista, deletério para a natureza e o ambiente[8].
1.3. A ecologia nos pronunciamentos do Papa João Paulo II
Cinco meses após a eleição, o Papa João Paulo II publica a Carta Encíclica Redemptor hominis (04/03/1979), na qual já aparece sua preocupação ecológica: “As políticas que regem a economia mundial submetem o homem a tensões por ele mesmo criadas, dilapidando num ritmo acelerado os recursos materiais e energéticos, comprometendo o ambiente geofísico. Tais estruturas ampliam incessantemente as zonas de miséria, e com isso, a angústia, a frustração e a amargura”[9]. A exploração da terra e do planeta para fins industriais e militares e a técnica não controlada, “trazem muitas vezes consigo a ameaça para o ambiente natural do homem, alienam-no nas suas relações com a natureza e o separam da mesma natureza”. Tal atitude é contrária à vontade do Criador que colocou o homem como ‘senhor’ e ‘guarda’, e não como ‘desfrutador’ e ‘destruidor’ (Redemptor hominis, n. 15).
Na Carta Apostólica Appropinquat iam synodus, preparando o VI Sínodo dos bispos, o Papa aponta, entre outros, alguns temas relacionados com o meio ambiente: “No plano material a questão ambiental levada avante, merece um novo estudo e impulso. O complexo problema energético pode muito bem ser visto neste contexto, de modo que os recursos energéticos mais eficazes e apropriados sejam disponibilizados sem um inútil desperdício no uso dos materiais”[10].
Na Carta Encíclica Sollicitudo Rei Socialis (30/12/1987) João Paulo II aborda em diferentes momentos a questão ecológica[11]: “Entre os sinais positivos do presente é preciso registrar, ainda, uma maior consciência dos limites dos recursos disponíveis, a necessidade de respeitar a integridade e os ritmos da natureza e de tê-los em conta na programação do desenvolvimento, em vez de sacrificá-los a certas concessões demagógicas. É, afinal, aquilo que se chama hoje com o termo preocupação ecológica”. Mais adiante (n. 29) insiste no limite do domínio humano sobre a criação: “O domínio conferido ao homem pelo Criador não é um poder absoluto, nem se pode falar de liberdade de ‘usar e abusar’, ou de dispor das coisas com bem lhe agrada. A limitação imposta pelo mesmo Criador, desde o princípio, é expressa simbolicamente com a proibição de ‘comer o fruto da árvore’ (cf. Gn 2,16-17)”... “Uma justa concepção do desenvolvimento não pode prescindir do respeito pelos seres que formam a natureza visível... Não se pode fazer, impunemente, uso das diversas categorias de seres, vivos ou inanimados – animais, plantas, elementos naturais – a bel prazer, segundo as próprias necessidades econômicas” (n. 34). O desenvolvimento deve ser condicionado às possibilidades de renovação dos recursos naturais. Deve basear-se “na constatação mais urgente das limitações dos recursos naturais, alguns dos quais não renováveis. Usá-los como se fossem inesgotáveis, com domínio absoluto, põe seriamente em perigo sua disponibilidade não só para a geração presente, mas, sobretudo, para as futuras gerações” (n. 34).
Na homilia pronunciada em Punta de Arenas[12], João Paulo II relaciona a paz entre os homens com a paz com a natureza: “Quero, enfim, referir-me à outra preocupação, em certo modo relacionada com a paz: a paz do homem com a natureza. Como sabeis, em não poucas regiões do mundo encontramo-nos ante perigos e ameaças à ecologia, que não só causam gravíssimos danos ao esplendor da natureza, mas também afetam gravemente o mesmo homem, ao tentar contra o seu equilíbrio vital e o seu futuro. Meu predecessor o Papa Paulo VI faz presente já esta preocupação ao dizer: ‘de um momento para o outro, o homem toma consciência dela: por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, começa o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação’ (Octogesima Adveniens, 21). A Igreja não é contra o progresso científico e técnico: ‘a técnica é indubitavelmente uma aliada do homem. Ela facilita-lhe o trabalho, aperfeiçoa-o e o multiplica’ (Labore Exercens, 5). Mas o progresso técnico não deve assumir o caráter de domínio sobre o homem e de destruição da natureza. A técnica, no sentido querido por Deus, deve servir o homem, e o homem deve entrar em contato com a natureza como guarda inteligente e nobre, e não como explorador sem escrúpulo (cf. Redemptor Hominis, 15)”... “Hoje, queridos filhos, nos umbrais do V Centenário da evangelização da América, a Igreja pede-vos um particular empenho na obra de reconciliação e pacificação: com Deus, com o irmão, com a natureza inteira”.
Já em 1983, no Documento preparatório para a VI Assembléia Geral do Sínodo dos Bispos, o Papa relacionava a reconciliação entre os homens com a reconciliação com a natureza: “Em geral, não há reconciliação entre os homens sem uma reconciliação com toda a natureza. É certamente um sinal da vontade inicial do Criador: ‘À tua imagem formaste o homem, a suas mãos operosas confiaste o universo, para que na obediência a ti, seu Criador, exercesse o domínio sobre toda a criação’(IV Oração Eucarística). O exemplo de S. Francisco de Assis é válido ainda hoje”[13].
Na Exortação pós-sinodal Christi fideles laici (30/12/1988) o Papa lembra que os dons da natureza, recebidos pelo ser humano de Deus, devem ser cuidados, usados com respeito e amor e passados em melhores condições para as gerações futuras: “Certamente o homem recebeu do próprio Deus a tarefa de ‘dominar’ as coisas criadas e de ‘cultivar o jardim’ do mundo; mas esta é uma tarefa que o homem deve cumprir num respeito absoluto da imagem divina recebida e, portanto, com inteligência e amor. Deve sentir-se responsável pelos dons que Deus lhe concedeu e continuamente lhe concede. O homem tem em mãos um dom que deve passar – e, se possível, melhorado – às gerações futuras, também elas destinatárias dos dons do Criador”[14].
Em 1990, na sua mensagem para a 23ª jornada mundial pela paz[15] (1990) o Papa novamente relaciona a paz com Deus Criador e a paz com a criação: “Nota-se, hoje, a crescente consciência que a paz mundial está ameaçada, além da corrida armamentista, dos conflitos regionais e das injustiças ainda existentes nos povos e entre nações, também pela falta do devido respeito pela natureza, pela desordenada exploração dos recursos e a progressiva deterioração da qualidade de vida. Diante da generalizada degradação do ambiente, a humanidade se dá conta que não pode continuar a usar os bens da terra como no passado... Está se formando uma consciência ecológica, que deve ser incentivada, a fim de que se desenvolva e amadureça para encontrar expressões adequadas em programas e iniciativas concretas” (n. 1). Como fundamentação bíblica, o papa lembra que, depois de ter criado o homem e a mulher o texto diz: “E Deus viu tudo quanto havia feito, e eis que era muito bom” (Gn 1,31). Confiou ao homem e à mulher todo o resto da criação e “descansou de toda obra” (2,3). ‘O chamado de Adão e Eva a participar na concretização do plano de Deus sobre a criação estimulava as qualidades e os dons que distinguem a pessoa humana de todas as criaturas e, ao mesmo tempo, estabelecia uma relação ordenada entre o homem e toda a criação. Feitos à imagem e semelhança de Deus, Adão e Eva deveriam ter exercido seu domínio sobre a terra (cf. Gn 1,28) com sabedoria e amor. Mas eles, com seu pecado, destruíram a harmonia existente, pondo-se deliberadamente contra o desígnio do Criador. Isso trouxe não só a alienação do próprio homem, à morte e ao fratricídio, mas também a uma rebelião da terra em relação a ele (cf. Gn 3,17-19; 4,12). Toda a criação foi sujeita à caducidade e, desde então, de modo misterioso, espera ser libertada para entrar na liberdade gloriosa, junto com todos os filhos de Deus” (cf. Rm 8,20-21). Em seguida, o Papa fala da reconciliação feita pela ressurreição de Cristo (Cl 1,19-20), da renovação da criação antes submetida à escravidão (Ap 21,5; Rm 8,21), dos “novos céus e da nova terra” (2Pd 3,13) e da recapitulação de tudo em Cristo (Ef 1,9-10). Estas passagens bíblicas iluminam a relação entre o agir humano e a integridade da criação. Se o homem não está em paz com o Criador, toda a criação sofre (Os 4,3). Menciona também outras questões: a crise ecológica como problema moral, a busca de uma solução, a urgência de uma nova solidariedade e a responsabilidade de todos na questão ecológica. Por fim conclui: “São Francisco de Assis, que em 1979 proclamei patrono celeste dos ecólogos, oferece aos cristãos o exemplo do autêntico respeito pela integridade da criação. Amigo dos pobres, amado pelas criaturas de Deus, ele convidou a todos – animais, plantas, forças da natureza, inclusive o irmão sol e a irmã lua – a honrar e louvar o Senhor. Do Pobrezinho de Assis vem o testemunho que, estando em paz com Deus, podemos melhor dedicar-nos a construir a paz com toda a criação, que é inseparável da paz entre os povos” (n. 16).
Na Carta Encíclica Centesimus Annus (01/05/1991)[16], João Paulo II, depois de alertar para o fenômeno do consumismo, prejudicial à saúde física e espiritual, fala da degradação do ambiente natural: “O homem descobre a sua capacidade de transformar e, de certo modo, criar o mundo com o próprio trabalho, esquece que este se desenrola sempre sobre a base da doação originária das coisas por parte de Deus. Pensa que pode dispor arbitrariamente da terra, submetendo-a sem reservas à sua vontade, como se ela não possuísse uma forma própria e um destino anterior que Deus lhe deu, e que o homem pode, sim, desenvolver, mas não deve trair. O homem, em vez de realizar o seu papel de colaborador de Deus na obra da criação, substitui-se a Deus, e deste modo acaba provocando a revolta da natureza mais tiranizada que governada por ele”. O homem precisa também aprender a zelar pelo ambiente humano, isto é, pela ‘ecologia humana’ e ‘ecologia social’ do trabalho – diz o Papa. Sendo a família a primeira e fundamental estrutura a favor da ‘ecologia humana’, denuncia “campanhas sistemáticas contra a natalidade, baseadas numa concepção destorcida do problema demográfico e na falta de respeito às decisões dos pais.
Na Semana de estudos da Pontifícia Academia de Ciências (1992), dedicada ao estudo entre o acentuado crescimento demográfico, seu impacto no meio ambiente e a disponibilidade dos recursos naturais[17], João Paulo II lembra: “A Igreja, como ‘perita em humanidade’, promove o princípio da maternidade e da paternidade responsáveis, e considera seu dever principal chamar urgentemente a atenção para a moralidade dos métodos aplicados. O respeito pela pessoa e pelos direitos inalienáveis da pessoa deve existir sempre. O incremento ou a forçada diminuição da população são em parte causados pela carência de instituições sociais; os danos provocados no meio ambiente e a aumentada escassez de recursos naturais derivam, com frequência, dos erros humanos” (n. 4-5). A preservação da natureza não se consegue simplesmente diminuindo a população e, sim, corrigindo os erros. É preciso agir no âmbito da educação e coibir a destruição do meio ambiente, causada pela indústria e pelos produtos industriais (n. 8). Se não mudarmos nosso estilo de vida consumista será difícil melhorar o meio ambiente: “O dinamismo do crescimento demográfico (n. 9), a complexidade da descoberta e da distribuição dos recursos, bem como as suas recíprocas conexões e consequências para o meio ambiente, constituem um desafio prolongado e exigente. Só mediante um novo e rigoroso estilo de vida, que vem do respeito pela dignidade da pessoa, é que a humanidade será capaz de enfrentar este desafio de maneira adequada” (cf. Dignitatis humanae, 3).
Numa carta ao Secretário Geral da Conferência Internacional sobre população e desenvolvimento (1994), o Papa retorna à questão demográfica, relacionando-a com o meio ambiente[18]: “O desenvolvimento – diz ele – apresenta inevitavelmente a questão das implicações ambientais do crescimento demográfico. A questão ecológica, no seu próprio fundamento, é também moral. Enquanto o crescimento demográfico é, com frequência, considerado responsável por problemas ambientais, estamos conscientes de que a questão é bem mais complexa. Os padrões de consumo e desperdício, de modo particular nos países desenvolvidos, a destruição dos recursos naturais, a ausência de restrições ou de salvaguardas nalguns processos industriais ou de produção em geral, tudo isto põe em perigo o meio ambiente natural” (n. 9). É o modelo econômico baseado na produção e no consumo, que determina a qualidade do ambiente. Políticas errôneas é que causam a degradação do ambiente. Por isso, as nações desenvolvidas devem rever seus padrões de consumo em respeito aos contemporâneos e às gerações futuras. Em seu desenvolvimento elas devem buscar tecnologias menos poluidoras.
Conexa com a questão demográfica e a degradação do ambiente está o problema endêmico da fome no mundo. Esta questão é abordada duas vezes pelo Pontifício Conselho Cor Unum. Em 1988 o documento cita alguns fatores ecológicos causadores da fome[19]: a destruição dos recursos naturais e das florestas, catástrofes naturais, o abuso de fertilizantes químicos e pesticidas, o lixo radioativo, etc.
Em 1996 aborda o problema da fome dentro da cadeia de iteração de ecossistemas, que interagem positiva e negativamente uns sobre os outros[20]: “Na própria cadeia da produção alimentar, todos os homens percebem-se como elementos ativos e passivos de um ecossistema. Um novo campo de responsabilidade se abre às consciências. Não se pode querer simultaneamente nutrir um número maior de pessoas e enfraquecer a agricultura. Todavia, a agricultura torna-se tanto mais poluidora (com recurso máximo a insumos, pesticidas e maquinários), quanto mais difusa se torna a industrialização... Ao lado de outros elementos necessários à vida, ar e água, terrenos e florestas são ameaçados de poluição pelo consumo excessivo, pela desertificação provocada pelo homem e pelo desmatamento. Em cinquenta anos, metade das florestas tropicais foram arrasadas, muitas vezes para conseguir terras, o por políticas cegas de exploração acelerada, voltadas ao re-equilíbrio do ônus da dívida. Nas regiões mais pobres, a desertificação é provocada por práticas de sobrevivência que aumentam a pobreza; pastoreio excessivo, corte de árvores e arbustos para cozer alimentos ou para calefação” (n. 30). No mesmo contexto o Papa aborda a necessidade de uma administração ecologicamente sadia do planeta. Esta administração deverá integrar nos custos econômicos o impacto ambiental, compreendendo melhor os nexos entre ecologia e atividade econômica, para que o desenvolvimento seja duradouro e equitativo, evitando novas distorções além das atuais (n. 31)
Na Evangelium Vitae (23/03/1995) João Paulo II faz um apelo: “O homem é convidado a uma verdadeira conversão a fim de reconhecer a beleza da criação e preservar ‘o bem comum’ de toda a humanidade. Ele é convidado a libertar-se da escravidão do consumo e da corrida para ter ‘sempre mais’. Deve reencontrar o sentido da gratuidade e mudar o próprio modo de ver, a fim de aprender a considerar a criação como dom de Deus, como único criador”.
Na Exortação Apostólica pós-sinodal (2003) o Papa insiste no respeito pelo ambiente e a salvaguarda da criação[21] e, num tom dramático, reinterpreta o famoso texto de Rm 8,22: “O ‘gemido das criaturas’, a que alude o Apóstolo (cf. Rm 8,22), hoje parece verificar-se numa perspectiva invertida, porque se trata não já duma tensão escatológica na expectativa da revelação dos filhos de Deus (cf. Rm 8,19), mas dum espasmo de morte que tende a agarrar o próprio homem para destruí-lo”. E conclama os bispos a assumirem na pregação a tarefa de uma conversão ecológica: “Há necessidade, pois, de uma conversão ecológica, para a qual os Bispos hão de dar a sua contribuição ensinando a correta relação do homem com a natureza. À luz da doutrina sobre Deus-Pai, criador do céu e da terra, vê-se que se trata duma relação ‘ministerial’: o homem está efetivamente colocado no centro da criação, como ministro do Criador (n. 70).
O Papa Bento XVI em vários pronunciamentos já manifestou a preocupação da Igreja Católica com a ecologia. Destacamos a Encílica Caritas in Veritate (07/07/2009)[22]. Nesta encíclica, ao tratar do desenvolvimento dos povos, seus direitos e deveres, o Papa lembra que este tema está hoje intimamente ligado à relação do homem com o ambiente natural (n. 48). Não podemos ver a natureza simplesmente como fruto de uma evolução determinista. Para o crente a evolução é um resultado maravilhoso da intervenção criativa de Deus. “A natureza é expressão de um desígnio de amor e de verdade. Ela nos precede e nos é dada como ambiente de vida. Fala-nos do Criador (cf. Rm 1,20) e de seu amor pela humanidade. É destinada a ser ‘recapitulada’ em Cristo no fim dos tempos (cf. Ef 1,9-10; Cl 1,19-20)... Está à nossa disposição... como um dom do Criador, que lhe designou os ordenamentos intrínsecos, para que o homem deles tire as orientações do dever de ‘guardá-la e cultivá-la’ (Gn 2,13)”. Com sua cultura e tecnologia o homem não pode violentar a natureza, mas deve respeitá-la como obra admirável do Criador, obra que tem dentro de si uma ‘gramática’ interna, que indica sua finalidade e os critérios de um uso sábio. O desenvolvimento humano não pode ignorar sua responsabilidade com a própria geração e as gerações sucessivas.
Na encíclica o Papa lembra também que os países ricos são responsáveis pelos países pobres na questão energética, na busca de energias renováveis e no desenvolvimento de novas formas de energia (n. 49). “Ao homem é lícito exercer um governo responsável sobre a natureza para guardá-la, colocá-la em seu proveito e cultivá-la também com novas formas e com tecnologias avançadas de modo que ela possa dignamente acolher e nutrir a população que a habita”. Mas nessa ação não se pode esquecer o “objetivo de reforçar a aliança entre o ser humano e o ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, do qual viemos e para o qual caminhamos” (n. 50). Dado que “o modo como o homem trata o ambiente influi sobre o modo como trata a si mesmo, e vice-versa” é preciso fazer uma revisão séria do estilo de vida moderno, inclinado ao hedonismo e consumismo e indiferente aos danos que disso provém. Um novo estilo de vida pede que as escolhas de consumo, poupança e investimentos se orientem pela busca do que é verdadeiro, belo e bom, em comunhão com os outras seres humanos (n. 51). “A Igreja tem uma responsabilidade pela criação”. Deve defender não só a terra, a água e o ar como dons da criação que a todos pertencem. “Deve proteger, sobretudo, o homem contra a destruição de si mesmo”, porque “quando a ‘ecologia humana’ é respeitada dentro da sociedade, também a ecologia ambiental é favorecida” (n. 51).
Outros pronunciamentos do Vaticano
Durante a 21ª Congregação geral do Sínodo dos bispos (1971), o Presidente deu a palavra a Bárbara Ward, membro da Comissão “Justiça e Paz” e assistente do Secretário para o tema da justiça no mundo, que fez a seguinte intervenção: “O problema da utilização dos recursos naturais é parte de outro problema mais amplo. Muito consumo significa muito desperdício. Com demasiada frequência, os restos das economias de alto nível de consumo contaminam não só as águas e o ar dos mesmos países ricos, mas se espalham pelos oceanos e, segundo parece, já estão causando um aumento de temperatura de todo o planeta. Se são estas as consequências do alto nível de vida de somente uma quarta parte da humanidade, o que poderia chegar a acontecer a nosso velho planeta se as outras três partes alcançarem os mesmos níveis econômicos? Não podemos isolar nossas atividades econômicas dos ares, oceanos e águas de que depende, em última instância, toda a vida do planeta. Chegamos a um ponto em que o risco de uma contaminação excessiva da biosfera se converte em realidade”[23]. O alerta é levantado no contexto da distribuição das riquezas.
O Pontifício Conselho das Comunicações Sociais, no documento A importância da publicidade, fala sobre a “Ética na publicidade” (22/02/1997), que repercute no problema ecológico: “A publicidade que promove um estilo de vida desregrado, a custo do desperdício dos recursos e do saque do ambiente, causa graves danos à ecologia”. Cita João Paulo II, Centesimus annus, n. 37: “O homem, tomado pelo desejo de possuir e de gozar, mais do que de ser e de crescer, consome de modo excessivo e desordenado os recursos da terra e a sua própria vida. Ele pensa poder dispor arbitrariamente da terra, submetendo-a sem reservas à própria vontade, como se ela não tivesse uma forma própria e uma destinação anterior que lhe foi dada por Deus, que o homem pode, sim, desenvolver, mas não deve trair”... “Os publicitários, bem como os profissionais empenhados em outras formas de comunicação social, têm o dever primário de exprimir e promover uma visão autêntica do desenvolvimento humano nas suas dimensões materiais, culturais e espirituais. A comunicação que responde a este princípio se revela, entre outras coisas, como verdadeira expressão de solidariedade”.
O Pontifício Conselho da Justiça e da Paz, ao se pronunciar sobre a reforma agrária (23/11/1997), aponta a má distribuição das terras como uma das causas da degradação ambiental: “As desigualdades na distribuição da propriedade da terra incluem, por fim, um processo de degradação ambiental dificilmente reversível, para o qual concorrem a degradação do solo, a redução de sua fertilidade, a grande exposição ao perigo de aluviões, ao rebaixamento do nível freático, o assoreamento de rios e lagos, e outros problemas ecológicos. Frequentemente incentivado, com incentivos fiscais e crediários, o desmatamento de grandes áreas para dar lugar a formas de criação extensiva e à atividade minerária ou à industrialização de matéria lenhosa, mas sem prever planos de recomposição ambiental ou, quando existem, não são executados. Também a pobreza se alia à degradação ambiental, num círculo vicioso, quando os pequenos agricultores, expropriados pelas grandes propriedades e os pobres sem terra são obrigados, na busca de novas terras a ocupar aquelas já degradadas, como as terras de encostas, destruindo o patrimônio florestal para exercer a agricultura”. Neste contexto lembra a mensagem bíblica sobre o cuidado da terra, tarefa que o ser humano recebeu do Criador segundo Gn 1,26-28: “A primeira tarefa que Deus lhe dá – evidentemente, uma tarefa fundamental – diz respeito à atitude que devem assumir de fronte à terra e a todas as criaturas. ‘Subjugar’ e ‘dominar’ são dois verbos que podem ser facilmente mal interpretados e até parecer uma justificação daquele domínio despótico e desenfreado que não se preocupa com a terra nem de seus irmãos, mas apenas da própria vantagem. Na realidade ‘subjugar’ e ‘dominar’ são verbos que, na linguagem bíblica, servem para descrever o domínio do rei sábio, que cuida do bem-estar de todos os seus súditos... O homem é posto no jardim para cultivá-lo e guardá-lo (cf. Gn 2,15), para poder assim nutrir-se dos seus frutos”[24].
O Cardeal Rodriguez Maradiaga, presidente da Caritas Internacional, no discurso aos embaixadores europeus (06/05/2009), ao falar do tema “A economia global no caminho de Damasco”, faz um apelo por mudanças profundas neste campo. Pede uma colaboração mais eficiente no desenvolvimento dos países mais pobres. Lembra que os países mais pobres são os mais atingidos pelos efeitos da mudança climática em andamento: “Não temos mais tempo a perder. Deve-se encontrar um acordo radical e factível na conferência da ONU, em dezembro, em Copenhagen, baseada na justiça climática e no princípio ‘quem polui paga’. Exortamo-vos a produzir um acordo global sobre o clima, um acordo que seja forte, vinculante e justo, de modo a assegurar a sobrevivência e o bem-estar de todos os filhos de Deus. Segundo um princípio de equidade e responsabilidade, aqueles que criaram o problema também devem pagar pela solução...”[25].
Pronunciamentos e documentos da Igreja no Brasil
No Brasil, o tema da ecologia tem sido tratado, de modo especial, em algumas Campanhas daFraternidade (CF), que abaixo vamos expor brevemente.
Campanha da Fraternidade de 1979
O tema da CF de 1979 era “Por um mundo mais humano” e o lema “Preserve o que é de todos”. Como textos para a reflexão bíblica são citados, entre outros Gn 1–2 (relato da criação), Gn 3,17-18 (a natureza e o pecado do homem), Sl 8 (o homem administrador da criação), Sl 23,1-2 (Deus, o Senhor da natureza), Sl 103 (poema da criação), Eclo 39,12-35 (hino ao Criador), Eclo 42,22–43,26 (as obras do criador), Is 24,5-6 (pecado do homem e maldição da terra), Is 58,18 (beleza e equilíbrio da criação), Is 65,17-25 (nova criação), Dn 3,51-90 (cântico dos 3 jovens), Rm 8,19-23 (o desejo da natureza), 2Pd 3,7-13 (novos céus e nova terra), Ap 21–22 (o novo céu a nova terra).
Na secção ver, justifica-se a escolha do tema para a CF, pois “a ecologia é um tema profundamente fraterno” e “a natureza criada por Deus é destinada a todos os homens. Destruí-la e prejudicá-la é, portanto, um ato nocivo ao próximo”. O texto lembra que nos últimos séculos o homem passou de dominado pelas forças da natureza a dominador. Mas este domínio, pela industrialização e tecnologias transformou-se em risco de destruição da natureza: destruição de florestas, provocando aluviões, enchentes e secas, ameaçando a própria espécie humana. A preocupação da Igreja acompanha a dos cientistas, que enumeram cinco fontes causadoras da degradação ambiental: o crescimento da população, a utilização de recursos naturais, a produção de alimentos, a produção industrial e a poluição. A poluição da miséria está relacionada à fome, à carência de saneamento básico, à falta de moradia, às favelas. A poluição da riqueza está ligada ao mundo industrializado, à devastação das florestas, ao uso do petróleo como combustível e para a locomoção, à especulação imobiliária, à espoliação dos recursos da natureza e à exploração injusta dos pobres. Outros fatos alarmantes: escassez de água potável, desmatamento, extinção de animais, a crescente urbanização, o dióxido de carbono produzido pelos combustíveis fósseis, os detritos e o lixo nuclear.
Na secção julgar, como de praxe à luz da Bíblia, são lembradas as “verdades bíblicas e teológicas”, como a vocação da natureza ao equilíbrio (cf. Gn 3,27; Rm 8,21; Ap 21,22; Ef 1,20; Cl 4,20), a destinação universal da natureza[26] e a responsabilidade do homem como administrador da natureza. Os textos bíblicos citados são: Gn 1,26-31; 2,15.19; Sl 8,5-8; Mt 21,33-44; Lc 16,1-9; Mt 25,14-30. Lembram-se também as palavras de Paulo VI na sua mensagem ao 5º Dia Mundial do Ambiente (05/06/1977), na qual o Papa proclama os homens como ‘guardas da criação de Deus’, mas sem ‘um domínio despótico sobre o ambiente humano’, de modo que o crescimento material seja acompanhado da prudente moderação no uso dos alimentos terrestres e de uma verdadeira pobreza de espírito. Governar a natureza não significa destruí-la, mas aperfeiçoá-la, para que o mundo não se torne um caos inabitável, mas uma bonita casa, na qual todas as coisas sejam respeitadas.
Na secção agir o texto lembra: a superação do egoísmo, do consumismo e da ganância de possuir, o respeito à natureza, a exemplo de São Francisco de Assis, padroeiro da Ecologia. Propõe também que noções de ecologia sejam introduzidas nas escolas, na catequese, nos meios de comunicação, nas comunidades eclesiais, na pregação e nas celebrações. Outros conselhos: plantar flores, cuidar da atmosfera, evitar derrubada desnecessária de árvores, fazer o reflorestamento, evitar a caça aos animais, cuidar da água e do lixo[27]
3.2. Campanha da Fraternidade 1984
O tema da Campanha era “Deus, fonte de vida” e o lema, “Para que todos tenham vida”. Nos n. 25-26 aborda brevemente a problemática ecológica, alertando que o futuro da vida na Terra corre perigo. Indícios deste perigo são a destruição das florestas, o envenenamento da terra dos alimentos e das águas pelo uso de inseticidas, a Amazônia ameaçada, etc. Reforça o que já foi tratado na CF de 1979. Na reflexão bíblica explicita o tema “Deus, fonte de vida”: Deus como princípio absoluto da vida (Ap 1,17-18; Gn 2,7; 1,27-31; Gn 3,16-19); Deus quer a vida e não a morte (Ez 18,32; Sb 1,12; Dt 30,19-20); Deus é o defensor da vida (Ex 3,7-8).
3.3. Campanha da Fraternidade 2004
O tema era “Fraternidade e água” e o lema, “Água, fonte de vida”. Foi talvez uma das Campanhas da Fraternidade que teve maior impacto na população, sobretudo católica. Apesar da abundância de água doce no Brasil, estamos sentindo a sua importância para a nossa vida e a vida dos seres vivos como um todo. É evidente a degradação das águas no Brasil, em razão da poluição por dejetos urbanos, inseticidas, pesticidas, lixo industrial. A água está se tornando objeto de desperdício e de ganância.
O objetivo geral da CF-2004 é assim especificado: “Conscientizar a sociedade de que a água é fonte de vida, uma necessidade de todos os seres vivos e um direito da pessoa humana, e mobilizá-la para que esse direito à água com qualidade, seja efetivado para as gerações presentes e futuras”. Vale a pena também citar alguns dos objetivos específicos visados: desenvolver uma mística ecológica e resgatar o valor da água nos seus fundamentos mais profundos; apoiar e valorizar as iniciativas já existentes no tocante ao cuidado da água; provocar e alimentar a solidariedade entre os que têm e os que não têm água e defender a participação popular na elaboração de uma política hídrica, para que a água seja, de fato, de domínio público. Estes objetivos específicos, se concretizados, significarão um grande benefício e avanço no cuidado deste dom de vida que é a água.
Na secção ver é analisada a crise da água, com bastante amplidão e informações técnicas. Na secção julgar procura-se recuperar as tradições religiosas locais, as perspectivas bíblicas (ilustradas com inúmeros textos) e teológicas, aprofundando as exigências éticas. Na secção agir indicam-se dezenas de possibilidades de ação, do ponto de vista religioso, celebrativo, educacional e social, ações que podem levar a uma conscientização sobre o valor da água e a necessidade do cuidado em preservarmos este bem comum.
3.4. Campanha da Fraternidade 2007
O tema proposto foi Fraternidade e Amazônia e o lema “Vida e missão neste chão”[28]. Esta Campanha visa preservar a riquíssima “sociobiodiversidade” contra todas as formas de devastação, movidas pela avidez do lucro. De fato, é consenso generalizado que “a Amazônia constitui-se num fator de equilíbrio essencial para todo o planeta e que a vida da região tem a ver com a qualidade de vida global da Terra”. O objetivo geral da CF-2007 é assim delineado: “Conhecer a realidade em que vivem os povos da Amazônia, sua cultura, seus valores e as agressões que sofrem por causa do atual modelo econômico e cultural, e lançar um chamado à conversão, à solidariedade, a um novo estivo de vida e a um projeto de desenvolvimento à luz dos valores humanos e evangélicos, seguindo a prática de Jesus no cuidado com a vida humana, especialmente a dos mais pobres, e com toda a natureza”. Para se alcançar este objetivo geral são propostas sete ações práticas (objetivos específicos) capazes de preservar a biodiversidade deste patrimônio da humanidade, que é a Amazônia, defendendo e defendendo a riqueza cultural e o bem-estar das populações que ali vivem.
Medellín, Puebla e Santo Domingo
Medellín (1968)
Medellín significou para a América Latina (AL) a recepção do Concílio Vaticano II, como o diz o tema da Conferência “A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio”[29]. Ao tratar da promoção humana e da justiça (n. 1.3), o Documento dá a seguinte fundamentação doutrinária: “O mesmo Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança, criou a terra e tudo o que nela existe, para uso de todos os homens e de todos os povos, de modo que os bens criados possam bastar a todos de maneira mais justa (GS 69), e dá poder ao homem para que solidariamente transforme e aperfeiçoe o mundo” (Gn 1,29). Como se vê, falta ainda a percepção de que Deus deixou os bens da Terra para todos os seres vivos e não apenas para todos os seres humanos.
Puebla (1979)
Puebla pode ser considerada a recepção das linhas básicas da evangelização na AL delineadas em Medellín. De fato, já não se faz a ligação com o Vaticano II, mas com o nosso contexto, como se vê no título “A Evangelização no presente e no futuro da América Latina”. O documento dos Bispos latino-americanos aborda várias vezes a questão da ecologia:
- n. 139: “Se não mudarem as tendências atuais continuará a deteriorar-se a relação do homem com a natureza pela exploração irracional de seus recursos e a contaminação do ambiente, com o aumento de graves prejuízos para o homem e para o equilíbrio ecológico”.
- n. 327: Pede que “o domínio, o uso e a transformação dos bens da terra, da cultura, da ciência e da técnica” se realizem “em um justo e fraterno domínio do homem sobre o mundo, tendo-se em conta o respeito da ecologia”.
- n. 386: Pede o cultivo da relação com a natureza (cf. GS, 53).
- n. 496: Denuncia os efeitos desastrosos da industrialização, da urbanização e o consumismo alarmantes: “Importa tomar consciência dos efeitos devastadores da industrialização descontrolada e da urbanização que vai tomando proporções alarmantes. O esgotamento dos recursos naturais e a contaminação do ambiente constituirão problema dramático. Afirmamos uma vez mais a necessidade de uma profunda revisão da tendência consumista das nações mais desenvolvidas; cumpre levar em consideração as necessidades elementares dos povos pobres que formam a maior parte do mundo”.
- n. 1236: Entre os objetivos, opções e estratégias Puebla aponta o seguinte princípio orientador: “Preservar os recursos naturais criados por Deus para todos os homens, a fim de transmiti-los como herança às gerações vindouras”.
Santo Domingo – 1992
O tema da Conferência foi a “Nova evangelização, promoção humana e cultura cristã”[30]. Este documento não seguiu o método tradicional ver, julgar e agir[31]. Mesmo assim, entre os desafios que a Igreja na América Latina e Caribe deve enfrentar citam-se:
a defesa da vida diante da presença destruidora de uma cultura de morte;
a ecologia: a natureza como dom de Deus que temos que cuidar e desenvolver com critérios éticos, com proposta de desenvolvimento sustentável;
a terra, considerada como dom de Deus e lugar sagrado, sobretudo para os indígenas, que deve ser distribuída com justiça, favorecendo os excluídos.
O n. 169 sublinha o motivo da sacralidade da natureza: “A criação é obra da Palavra do Senhor e da presença do Espírito, que desde o início, pairava sobre tudo o que foi criado (Gn 1-2). Essa foi a primeira aliança de Deus conosco (grifo nosso). Quando o ser humano, chamado a entrar nesta aliança de amor, se nega, o pecado do homem afeta sua relação com Deus e com toda a criação”.
Como desafios, Santo Domingo cita a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, celebrada no Rio de Janeiro, que pôs em relevo mundial a gravidade da crise ecológica. Cita o problema das grandes cidades, a perda das terras por parte de populações indígenas, o desmatamento e as queimadas, sobretudo, na Amazônia. Para enfrentar estes problemas propõe-se o desenvolvimento sustentado, para atender as necessidades presentes sem comprometê-las no futuro. A quem atenderá este desenvolvimento? Não pode ser feito em detrimento das maiorias empobrecidas do mundo. É necessário adotar critérios éticos, uma ética ecológica que abandone o utilitarismo e individualismo, que frise o destino universal dos bens da criação, a promoção da justiça e da solidariedade.
Aponta também algumas linhas pastorais para os cristãos:
Começando com as crianças e os jovens, promover uma “reeducação de todos diante do valor da vida e da interdependência dos diversos ecossistemas”.
Cultivar uma espiritualidade que recupere o sentido da presença de Deus na criação, explicitando a nova relação estabelecida pelo mistério da encarnação, pela qual Cristo assumiu tudo o que foi criado.
Valorizar a nova plataforma de diálogo que a crise ecológica criou (grifo nosso), e questionar a riqueza e o desperdício.
Aprender com os pobres a viver com sobriedade e com a sabedoria dos indígenas para preservar a natureza como ambiente de vida para todos.
Aprofundar a mensagem do santo Padre por ocasião da jornada mundial da paz, aprendendo o que seja “ecologia humana”. São Francisco, no seu amor aos pobres e à natureza, pode inspirar o caminho de reconciliação com a criação e com todos os homens, caminho de justiça e de paz.
O Documento aborda no n. 171 o tema da terra como dom de Deus: “‘Do Senhor é a terra e o que nela existe, o mundo e seus habitantes’(Sl 24,1) é afirmação de fé que percorre toda a Bíblia e confirma a crença de nossos povos de que a terra é o primeiro sinal da Aliança de Deus com o homem. De fato, a revelação bíblica nos ensina que, quando Deus criou o homem, o colocou no jardim do Éden para que o cultivasse e o cuidasse (Gn 2,15) e dele fizesse uso (Gn 2,16), indicando-lhe ‘alguns limites’ (Gn 2,17) que recordariam sempre ao homem que ‘Deus é o Senhor e criador, e dele é a terra e tudo que nela existe’ e que ele a pode usar não como dono absoluto, mas como administrador”. Neste sentido o texto lembra o respeito que as culturas indígenas têm pela terra.
Ao tratar do diálogo com as religiões não-cristãs (n. 138), como linha pastoral, propõe: “Promover ações em favor da paz, da promoção e defesa da dignidade humana, bem como a cooperação em defesa da criação e do equilíbrio ecológico, como forma de encontro com outras religiões”.
V CELAM – Aparecida
A questão ecológica é tratada em diferentes momentos e sob diversos ângulos no Documento de Aparecida[32].
Ao tratar da situação econômica, propõe um desenvolvimento global e solidário que não se sobreponha às outras dimensões humanas, mas que esteja a serviço da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus (Discurso inaugural de Bento XVI) nem se coloque acima da preservação da natureza: “Com muita frequência se subordina a preservação da natureza ao desenvolvimento econômico, com danos à biodiversidade, com o esgotamento das reservas de água e de outros recursos naturais, com a contaminação do ar e a mudança climática. As possibilidades e eventuais problemas da produção de agro-combustíveis devem ser estudadas, de tal maneira que prevaleça o valor da pessoa humana e de suas necessidades de sobrevivência. A América Latina possui os aquíferos mais abundantes do planeta, junto com grandes extensões de território selvagem, que são pulmões da humanidade. Assim se dão gratuitamente ao mundo serviços ambientais que não são reconhecidos economicamente (grifo nosso). O estilo de vida dos países desenvolvidos seria o principal causador do aquecimento global” (n. 66).
No dicionário dos bispos em Aparecida entrou também a expressão “desenvolvimento sustentável”. Assim, ao tratar do destino universal dos bens e da ecologia, pede-se o respeito para com a ‘nossa irmã e mãe terra’ (Francisco de Assis, Cântico das Criaturas 9), que “é nossa casa comum e o lugar da aliança de Deus com os seres humanos e com toda a criação[33]. Desatender as mútuas relações e o equilíbrio que o próprio Deus estabeleceu entre as realidades criadas, é uma ofensa ao Criador, um atentado contra a biodiversidade e, definitivamente, contra a vida” (n. 125). O desenvolvimento deve visar o bem da pessoa humana: “A melhor maneira de respeitar a natureza é promover uma ecologia humana aberta à transcendência que, respeitando a pessoa e a família, os ambientes e as cidades, segue a indicação paulina de recapitular as coisas em Cristo e de louvar com Ele ao Pai (cf. 1Cor 3,21-23)”.
Deus entregou o mundo para todos, para as gerações presentes e futuras. Por isso o Documento frisa o destino universal dos bens. Como os recursos naturais são limitados devemos ser solidários com as gerações presentes e futuras, respeitando sempre o desenvolvimento sustentável (n. 126).
A ecologia e a proteção da natureza são vistas como um dos novos areópagos da evangelização (n. 491). “Devemos promover a geração de uma ‘cultura da paz’, que seja fruto de um desenvolvimento sustentável, equitativo e respeitoso da criação” (n. 542).
Na sua pastoral social, a Igreja deve “elaborar ações concretas que tenham incidência nos Estados para a aprovação de políticas sociais e econômicas que atendam às várias necessidades da população e que conduzam para um desenvolvimento sustentável” (n. 403). “São muito importantes os espaços de participação da sociedade civil para a vigência da democracia, uma verdadeira economia solidária e um desenvolvimento integral, solidário e sustentável” (n. 406a). No afã de um desenvolvimento necessário para os povos da AL é preciso evitar a devastação das florestas e a contaminação da água (n. 473).
A ecologia é também abordada quando o documento fala da biodiversidade, uma das riquezas da América Latina, especialmente a Amazônia e a Antártida (n. 83-97). Ela está associada à riqueza das culturas, com seus conhecimentos de medicina natural, muitas vezes ilicitamente apropriados e patenteados por indústrias farmacêuticas e de biogenética (n. 83). Decide-se sobre a riqueza da biodiversidade e da natureza sem consulta às nações tradicionais; a terra é maltratada, a água é considerada uma mercadoria a ser disputada pelas grandes potências. Neste contexto lembra-se o discurso de Bento XVI aos jovens no Pacaembu, no qual denuncia a devastação ambiental da Amazônia, o desrespeito à dignidade de seus povos e convoca os jovens a um maior compromisso (n. 84-85). A agressão ao meio-ambiente pode se tornar um pretexto de internacionalização da Amazônia, com inconfessáveis interesses de grupos internacionais (n. 86). O aquecimento global já se faz sentir pelo retrocesso de geleiras, pelo degelo do Ártico.
Os bispos estão preocupados não apenas em preservar o ambiente, mas convocam todos “a dar graças pelo dom da criação, reflexo da sabedoria e beleza do Logos criador”, lembrando que o Deus da vida confiou ao ser humano sua obra criadora para que ‘a cultivasse e a guardasse’ (Gn 2,15). Jesus nos ensina a observar como o Pai alimenta e embeleza as criaturas e nos convida a reconhecer a mensagem escondida nas coisas (cf. Lc 12,24-27; Jo 4,35). Devemos aprender das populações indígenas o seu respeito pela natureza e pelo amor à mãe terra, tão dilapidada pelo atual modelo econômico (n. 470-473).
Diante da situação desastrosa do meio ambiente, no n. 474, os bispos fazem algumas propostas e orientações:
“Evangelizar nossos povos para que descubram o dom da criação, sabendo contemplá-la e cuidar dela, como a casa de todos os seres vivos e matriz da vida no planeta, a fim de exercitarem responsavelmente o senhorio humano sobre a terra e sobre os recursos, para que possam render todos os seus frutos com destinação universal, educando para um estilo de vida de sobriedade e austeridade solidárias”.
“Aprofundar a presença pastoral nas populações mais frágeis e ameaçadas pelo desenvolvimento predatório, e apoiá-las em seus esforços, para conseguir equitativa distribuição da terra, da água e dos espaços urbanos”.
“Procurar um modelo de desenvolvimento alternativo, integral e solidário, baseado em uma ética que inclua a responsabilidade por uma autêntica ecologia natural e humana, que se fundamenta no evangelho da justiça, da solidariedade e do destino universal dos bens”.
“Empenhar nossos esforços na promulgação de políticas públicas e participações cidadãs, que garantam a proteção, conservação e restauração da natureza”.
“Determinar medidas de monitoramento e controle social sobre a aplicação dos padrões ambientais internacionais nos países”.
Por fim, para conscientizar sobre a importância da Amazônia, os bispos propõem uma “pastoral de conjunto com prioridades diferenciadas, para criar um modelo de desenvolvimento que privilegie os pobres e sirva para o bem comum” (n. 475).
Conclusão
Deste exame superficial que fizemos, perpassando os principais documentos ou pronunciamentos da Igreja referentes à questão ecológica, podemos tirar algumas conclusões:
1. A Igreja caminha junto com a sociedade, acompanhando a problemática da ecologia;
2. Há belos ensinamentos no magistério de Paulo VI e de João Paulo II, e, ultimamente, também de Bento XVI, sobre a questão ecológica;
3. uso de textos bíblicos relacionados com a ecologia (criação) é bastante abundante nos documentos da Igreja, mas falha no Documento de Aparecida. Esta deficiência no uso de textos bíblicos talvez se explique pelo próprio tema escolhido (Discípulos e missionários), centrado mais em Cristo, na redenção e missão. O Pai Criador ficou meio esquecido. Com isso, o tratado da Criação ficou em segundo lugar e o cuidado da criação não foi bem colocado dentro da missão evangelizadora. Assim se explicam as poucas citações bíblicas relacionadas com a criação, consequentemente, com a ecologia.
4. Merece destaque, porém, no DA a importância que se dá ao aspecto celebrativo da criação, vista como um dom de Deus, precioso e sagrado.
5. Reforçando o aspecto celebrativo da criação, a meu ver, deveríamos incluir mais o tema da criação e da ecologia em nossas pregações. Por que não valorizar, por exemplo, a unção pós-batismal – embora facultativa – com o óleo da Crisma? Como cristãos, somos ‘sacerdotes, profetas e reis da criação’.
6. Nas Campanhas da Fraternidade, muito importante do ponto de vista da ecologia é a CF de 1979. A de 1984, um pouco menos. A de 2004 foi boa pelo impacto pastoral prático causado.
7. Quanto ao aspecto da ecologia, destacam-se mais os Documentos de Puebla e de Santo Domingo. O Documento de Aparecida, embora valorize o aspecto celebrativo da criação, poderia ser mais incisivo em alguns posicionamentos, dada a gravidade da situação ambiental em que vivemos.
8. Chama a atenção a reinterpretação dada pela Exortação Apostólica pós-sinodal (2003) sobre Rm 8,22: O gemido das criaturas hoje parece verificar-se numa “perspectiva invertida, porque se trata não já duma tensão escatológica na expectativa da revelação dos filhos de Deus (cf. Rm 8,19), mas dum espasmo de morte que tende a agarrar o próprio homem para destruí-lo”.
9. Desafios:
a. Como foram implementadas as belas propostas práticas de Puebla e de Santo Domingo? O que faremos com as propostas de Aparecida?
b. Tarefa urgente: cuidar do planeta terra para que as gerações futuras o tenham em condições melhores do que as atuais.
c. Desenvolvimento sustentável
d. Ser solidário e parcimonioso no uso dos bens. Ser mais “franciscano”...
e. A conversão ecológica: respeitar a natureza como dom de Deus, cuidar, economizar, poupar, reciclar.
Apêndice:
Como subsídios para conhecer a trabalho de orientação que outras conferências episcopais estão dando a seus fiéis sobre a questão ambiental, citamos alguns pronunciamentos de algumas conferências episcopais:
- Declaração final do Congresso sobre Ciência e Fé da Federação das Conferências Episcopais da Ásia, “O amor pela criação”, Il Regno-Documenti, n. 15, 1993, p. 484-486.
- Documento da comissão social do Episcopado francês, “O respeito pela criação”, Il Regno-Documenti, n. 7, 2000, p. 239-244.
- Conferência do Mons. Josef Homeyer, presidente da Comissão episcopal da Comunidade européia, sobre “As Igrejas na política ambiental”, Il Regno-Documenti, n. 15, 2000, p. 513-519.
- Documento, envolvendo a questão da água, dos bispos dos USA e Canadá da bacia do rio Columbia, sobre o “Respeito pela criação e o bem comum”, Il Regno-Documenti, n. 15, 2001, p. 498-507.
- Documento da Assembléia Geral dos Bispos dos USA sobre as mudanças climáticas globais, “Global Climate Change: A Plea for Dialogue, Prudence, and the Common Good” (2001), catholicclimatecovenant.org/resources/global-cimate-change.
-Declaração dos Bispos da Austrália sobre a justiça social (2002), envolvendo a preocupação ambiental, “Uma nova terra: o desafio ambiental”, Il Regno-Documenti, n. 1, 2003, p. 35-41.
- Documento preparado pelo grupo de trabalho da Conferência Episcopal Alemã sobre “A mudança climática”, Il Regno-Documenti, n. 9, 2007, p. 293-312.
[1] A versão original deste texto, que agora sofreu pequenas atualizações, foi apresentada na 8ª Semana Teológico-Pastoral, promovida pela PUC-Rio, pelo Instituto de Filosofia e Teologia Paulo VI (IFITEPS – Nova Iguaçu) e pelo Instituto Teológico Franciscano (ITF – Petrópolis), de 24 a 26 de outubro de 2007, na sede da PUC-Rio.
[2] Veja alguns documentos importantes de outras Conferências Episcopais citados no apêndice final.
[3] PAULO VI. O desenvolvimento dos povos. Carta Encíclica Populorum progressio. Documentos Pontifícios, n. 165. Petrópolis: Ed. Vozes, 15ª edição, 1991, n. 17, p. 11.
[4] Mensagem enviada pelo Papa Paulo VI ao Secretário Geral da Conferência Internacional das Nações Unidas sobre o Ambiente, realizada em Estocolmo, em 1972 (cf. SEDOC, agosto de 1972, col. 159-162).
[5] Cf. SEDOC, fevereiro de 1971, col. 930.
[6] Cf. SEDOC, junho de 1971, col. 1444-1465.
[7] Cf. SEDOC, outubro de 1974, col. 328-329.
[8] Cf. SEDOC, Janeiro de 1975, col. 766.
[9] Enchiridion Vaticanum. Documenti ufficiali della Santa Sede, vol. 6. Bologna: CED, 1980, p. 1223.
[10] Enchiridion Vaticanum, vol. 7, 1981, n. 552, p. 523-524.
[11] Solicitude Social. Carta Encíclica de João Paulo II Sollicitudo rei socialis. São Paulo: Ed. Paulinas,1988, n. 26, p. 45. Coleção Voz do Papa, n. 117.
[12] Artífices da paz que é fruto de justiça (04/04/1987), SEDOC, v. 20, julho de 1987, p. 30-31.
[13] Instrumentum laboris. “La riconciliazione e la penitenza nella missione della Chiesa” (25/01/1983). Cf. Enchiridion Vaticanum, v. 8, p. 454-465.
[14] Enchiridion Vaticanum, vol. 11, 1988-1989, n. 42-43, p. 1165-1166.
[15] Pace con Dio creatore, pace con tutto il creato. Messaggio del papa per la giornata della pace. Il Regno – Documenti, XXXV, n. 1, 1990, p. 1-4.
[16] SEDOC, v. 24, 1991, n. 36-38, p. 34-36.
[17] SEDOC, v. 24, 1991-1992, p. 642-646.
[18] Cf. SEDOC, v. 27, 1994-995, p. 9-15.
[19] Pontifício Conselho Cor Unum: Reflexões sobre o problema da fome, em “A fome no mundo: novo desafio e novos compromissos para a Igreja” (22/11/1988). Enchiridion Vaticanum, v. 11 – Documenti ufficiali della Santa Sede 1988-1989. Bologna: EDB, 1991, p. 974.
[20] Pontifício Conselho Cor Unum sobre a fome: SEDOC, v. 29, 1966-1997, p. 398-455.
[21] Cf. SEDOC, v. 36, 2003-2004, p. 479-480.
[22] Bento XVI. Carta Encíclica Caritas in Veritate, sobre o desenvolvimento humano integral na Caridade e na Verdade. São Paulo: Paulinas, 2009; cf. Il Regno-doc., n. 15, 2009, 457-490.
[23] Responsabilidade cristã para justiça no mundo. Cf. SEDOC, março de 1972, col. 1076.
[24] Enchiridion Vaticanum, vol. 16 – Documenti ufficiali della Santa Sede, 1977. Bologna: EDB, 1999, p. 1189-1190, n. 21-22.
[25] Cf. Il Regno-Documenti, n. 11, 2009, p. 381-383.
[26] Cf. Mensagem de Paulo VI à Conferência sobre o Ambiente (01/06/1972), na qual o Papa insiste sobre o destino universal dos bens da natureza.
[27] Veja o Texto Base da CF-1979 Por um mundo mais humano, p. 6-18.
[28] Veja CNBB. Campanha da Fraternidade de 2007: Fraternidade e Amazônia. Texto-Base. São Paulo: Ed. Salesiana, 2007.
[29] Documentos do CELAM. Rio, Medellín, Puebla e Santo Domingo. Documentos da Igreja, vol. 8. São Paulo: Paulus, 2004, p. 73-224.
[30] Santo Domingo – 1992. Nova Evangelização, promoção humana e cultura cristã. “Jesus Cristo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8). Documentos do CELAM. Rio, Medellín, Puebla e Santo Domingo. Documento da Igreja, vol. 8. São Paulo: Paulus, 2004, p. 585-782.
[31] SERRANO, Ramon Cazallas. A conferência de Santo Domingo, 1992, em pelos caminhos da América. Os desafios da Missão à luz das Conferências do CELAM. São Paulo: Missões, 2007, 26-33.
[32] Documento de Aparecida. Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. São Paulo: Edições CNBB, Paulus, Paulinas, 2007.
[33] Faltou citar Gn 8,21-22 e 9,12-17!
Frei Ludovico Garmus
Instituto Teológico Franciscano
Petrópolis, RJ
Extraído de http://servicioskoinonia.org/relat/402.htm acesso em 9 maio 2010.
