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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Pirataria de software: uma estratégia de marketing das grandes multinacionais

Entrevista especial com Vicente Aguiar

“Precisamos usar os princípios de liberdade de expressão e de colaboração que a internet permite, potencializar esse processo democrático, e não o contrário, proibindo e impedindo como, às vezes, está acontecendo em nome da preservação de um direito autoral, que muito mais castra o poder criativo da sociedade do que o potencializa”, defende o mestre em Administração.

Atualmente tramita no Senado dos Estados Unidos um projeto de lei que responsabiliza sites pelo conteúdo postado por usuários. Se algum conteúdo for considerado ilegal, a punição poderá recair sobre os donos do site que hospeda o conteúdo. As penas incluem desde seu bloqueio até a prisão dos responsáveis por até cinco anos. A questão tem gerado polêmicos debates em torno das regras no mundo virtual, do conceito de censura e liberdade de compartilhamento e até do tema da pirataria na rede. Para refletir sobre esses assuntos, a IHU On-Line entrevistou por telefone o mestre em Administração Vicente Aguiar. Segundo diz, o necessário a se fazer é, antes de fazer uma legislação penal, criar um arcabouço de direitos civis para os usuários da internet. Segundo Vicente, a SOPA e todas as leis que estão sendo debatidas nos Estados Unidos em relação ao conteúdo na internet acabam mostrando uma fragilidade: o quanto nós, brasileiros, somos dependentes tecnologicamente das soluções que são oferecidas nos Estados Unidos. “Hoje, do ponto de vista da produção tecnológica, existe um nível de desigualdade muito grande, porque a maioria da infraestrutura que garante o funcionamento da internet é dos Estados Unidos. Então, hoje, tudo o que impacta nos Estados Unidos em termos de internet acaba também impactando para o mundo de uma forma muito intensa. Para se discutir e para se viabilizar uma governança mais ou menos equânime, dentro de uma geopolítica internacional, é necessário que também os países em desenvolvimento, como Brasil, China, Índia e todos os outros, também entrem nesse processo de emancipação tecnológica, ou seja, precisam ser produtores de serviços e de infraestrutura para a internet”, defende. Para Vicente, “precisamos usar os princípios de liberdade de expressão e de colaboração que a internet permite, potencializar esse processo democrático, e não o contrário, proibindo e impedindo como, às vezes, está acontecendo em nome da preservação de um direito autoral, que muito mais castra o poder criativo da sociedade do que o potencializa”.

Vicente Aguiar (foto) é mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia. É gestor da Cooperativa de Tecnologias Livres Colivre, onde atua nas áreas de comunicação, planejamento estratégico, elaboração e gestão de projetos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como você avalia a lei antipirataria em discussão no Senado norte-americano conhecida como SOPA, sigla para Stop Online Piracy Act? Ela é positiva ou negativa?

Vicente Aguiar – Uma lei como essa é, a princípio, muito ruim, principalmente em relação à produção de conteúdo na internet, porque, de certa forma, ela vai impedir a liberdade que os usuários têm de pegar uma determinada notícia e modificá-la, fazendo uma segunda versão. Vai impedir também que se pegue um vídeo no YouTube e o remodele. Tudo o que chamamos de “cultura do remix” será ameaçado. De certa forma, isso acaba impactando no processo de colaboração e inovação que ocorre em virtude da internet. É claro que, por outro lado, há uma necessidade de regulamentação. Entretanto, o debate que se coloca para os Estados Unidos é o mesmo que fazemos para o Brasil. Este tipo de lei, que chamamos de “lei punitiva”, acaba acontecendo sem um debate sobre a questão de direitos e deveres na internet. O que precisa ser feito previamente, antes de fazer uma legislação penal, é criar um arcabouço de direitos civis para os usuários da rede.

IHU On-Line – As normas propostas abrem caminho para a censura?

Vicente Aguiar – Com certeza. Basta que alguém denuncie a partir de infinitos interesses. Por exemplo, se o site de vocês publica uma informação que veio de um livro, mas vocês não podem usar tal informação, porque estarão infringindo o copyright, já será alvo de uma possível denúncia. Ou se decidem extrair uma citação, uma imagem, ou um conteúdo pego com referência, mas que foi mal citado, o autor pode discordar ideológica ou politicamente da sua abordagem na reportagem e tirar o conteúdo do ar. E você, ou o site que você representa como provedor de conteúdo, terá que ser obrigado a retirar o conteúdo por causa da denúncia e não em função da comprovação. Esse é o problema. Como tirar um conteúdo do ar se não existe prova de que aquilo, de fato, foi uma violação a determinado copyright?

IHU On-Line – As normas propostas na lei podem alterar em que sentido o modo como a internet funciona?

Vicente Aguiar – Na verdade, elas podem impactar de diversas formas a nossa relação com a internet. Tudo depende dos serviços que estão hospedados ou armazenados em servidores que ficam nos Estados Unidos. Essa é a primeira pergunta que todos fazem: “Mas se é um projeto de lei nos Estados Unidos, o que isso impacta para nós, aqui no Brasil?”. Impacta porque, infelizmente, a maioria dos serviços que nós, brasileiros, utilizamos de internet, ou estão hospedados nos Estados Unidos, ou pertencem às empresas brasileiras a exemplo de sites de revistas e de jornais nacionais – que se hospedam lá. Por isso que é importante discutir esta lei. Na prática, isso significa dizer que qualquer vídeo, foto, imagem que eu poste ou no Orkut, ou Facebook, etc., e por acaso alguma pessoa denuncie como uma cópia ilegal ou como um ato de pirataria, este site automaticamente sai do ar. O princípio que rege as normas dessa lei é o de que “denunciou, sai do ar”; depois se vai atrás para comprovar se aquilo tem ou não fundamento. A questão é que volta o debate sobre a pirataria. O que é pirataria em um ambiente digital? Quais são os limites dela? O problema é que, antes de se fazer o debate sobre o que é pirataria e sobre direitos e deveres na internet, o governo dos Estados Unidos está tomando um rumo pressionado pelas empresas das indústrias de copyright, para atacar qualquer tipo de denúncia. Então, para muitas pessoas ligadas ao movimento da cultura livre, do software livre, essas são práticas semelhantes às que o Irã e a China fazem em relação aos usuários da internet. Ou seja, sem nenhum tipo de fundamento, apenas porque o governo achou que houve uma denúncia, tira-se o site do ar e impede-se que os usuários publiquem ou acessem determinados conteúdos.

IHU On-Line – Qual sua opinião sobre as ações conjuntas de paradas de sites, como protesto à lei? Quais as consequências do mundo da web em "greve"?

Vicente Aguiar – Na verdade elas são necessárias, assim como qualquer greve. Quando se chega a um processo em que os conflitos e os interesses de determinada classe nesse caso a classe que defende um padrão antigo de produção de conteúdo estão sendo mais fortemente representados, há a necessidade de protestos e de manifestação. É muito sadio e válido o que a Wikipedia e o que o Google fizeram. Por outro lado, é importante ressaltar que, fazendo o papel de advogado do diabo, a SOPA e todas as leis que estão sendo debatidas nos Estados Unidos em relação ao conteúdo na internet também acabam mostrando uma outra fragilidade: o quanto nós, brasileiros, somos dependentes tecnologicamente das soluções que são oferecidas nos Estados Unidos. Infelizmente, nós ainda não nos preocupamos em desenvolver nossa própria estrutura tecnológica, com algumas exceções, é claro. Ou seja, onde estão as redes sociais e os buscadores desenvolvidos por empresas brasileiras, pelo governo, estados e municípios brasileiros? Se não houvesse a dependência tecnológica como a que temos hoje dos Estados Unidos, a SOPA poderia acontecer lá que pouco interferiria aqui. A não ser, é claro, no sentido de servir como referência para que deputados do Brasil cheguem e digam: “Olha, está vendo o que aconteceu nos Estados Unidos? Vamos fazer igual no Brasil”.

IHU On-Line – Quais os principais desafios que envolvem a governança da internet?

Vicente Aguiar – A governança da internet perpassa tanto por uma questão de infraestrutura tecnológica como, também, de um arcabouço jurídico. Hoje, no Brasil, existe o Comitê Gestor da internet e, inclusive, do ponto de vista da governança, é uma referência para o mundo, no sentido de ser um comitê composto por sociedade civil, representantes do governo e representantes de empresas que definem os parâmetros técnicos e, às vezes também, normativos das relações da internet no país. Porém, ele tem uma certa restrição de atuação. Esse exemplo do CGI deveria acontecer em todos os países e deveria também haver uma organização multilateral para gerenciar o papel normativo que a internet tem na vida das pessoas, no mundo. Além dessa questão normativa, ressalto também a questão tecnológica. Para ter um nível de relação, vamos assim dizer, mais ou menos democrática, é necessário que a base material e tecnológica da internet, desenvolvida por empresas, por governos e pela sociedade civil, em todos os países, seja comum. E, hoje, do ponto de vista da produção tecnológica, existe um nível de desigualdade muito grande, porque a maioria da infraestrutura que garante o funcionamento da internet é dos Estados Unidos. Então, hoje, tudo o que impacta nos Estados Unidos em termos de internet acaba impactando para o mundo de uma forma muito intensa. Para se discutir e para se viabilizar uma governança mais ou menos equânime, dentro de uma geopolítica internacional, é necessário que também os países em desenvolvimento, como Brasil, China, Índia e todos os outros, entrem nesse processo de emancipação tecnológica, ou seja, precisam ser produtores de serviços e de infraestrutura para a internet.

IHU On-Line – Como controlar o conteúdo na internet e manter o direito à liberdade de expressão, sem censura?

Vicente Aguiar – A fórmula disso é a democracia. Agora, como isso pode acontecer na prática, como a internet está revolucionando todos os tipos de comunicação e interação social no mundo, é necessário também que nos permitamos que a própria internet diga como isso pode acontecer. Por exemplo, avalio como muito positiva a construção de um marco civil da internet, feito pelo Ministério da Justiça, onde um projeto de lei pode contar com a participação de várias pessoas online, construindo e debatendo sobre o texto. Agora, por outro lado, essa ação esbarrou no processo de aprovação e na voz da burocracia legislativa brasileira, porque até agora não foi aprovada. Mas a forma de se encontrar uma solução para isso é a democracia, não tem jeito. É diálogo, e a internet possibilita meios ainda mais revolucionários e inovadores para tal. Precisamos usar os princípios de liberdade de expressão e de colaboração que a internet permite, potencializar esse processo democrático, e não o contrário, proibindo e impedindo como, às vezes, está acontecendo em nome da preservação de um direito autoral, que muito mais castra o poder criativo da sociedade do que o potencializa.

IHU On-Line – Como deveria ser a intervenção do poder público – seja o governo e/ou a Justiça nos crimes cibernéticos?

Vicente Aguiar – O fato de não haver ainda uma legislação que fale dos direitos e deveres, ou seja, um marco civil para a internet e seus usuários, para os provedores de conteúdo e de serviços, fica difícil conseguir uma ação equilibrada do poder público, que hoje não sabe reagir nem lidar com a internet. O poder público tem dificuldade de entender a internet, salvo algumas exceções. Em algumas instâncias, o ministério público está contratando hackers, pessoas que entendem a fundo de tecnologia, para tentar, de alguma forma, ajudar na fiscalização e no desenvolvimento de políticas públicas. Mas é necessário, em primeiro lugar, que o governo entenda, uma vez que é institucionalizado e só pode agir dentro das leis. Como as leis não existem, cada instância governamental toma atitudes próprias a partir de interpretações particulares. Então, acaba sendo uma coisa completamente difusa e caótica. E aí sobra para a internet, porque às vezes os abusos que podem acontecer em relação aos direitos autorais acontecem em virtude desse não entendimento.

IHU On-Line – A partir da ética da internet, quais os mais recentes desafios quando o assunto é a pirataria?

Vicente Aguiar – O debate sobre a pirataria é muito complexo. Por exemplo, se você hoje pega um software que não é livre e copia, para muitos autores e sociólogos você nem deve ser chamado de pirata, mas de corsário. A pirataria de software é uma estratégia de marketing das grandes multinacionais. Ou seja, você nunca vai ver o Bill Gates fazer uma campanha internacional contra a pirataria de software. Porque ela acaba funcionando como aquela estratégia de traficante, de que é algo gratuito. O usuário que pirateia em casa e não paga a licença vai pagar por ela em um determinado momento, pois vai criar uma relação de dependência com aquela ferramenta. Quando for para a empresa dele, terá que pagar a licença, porque tem advogados da Microsoft cobrando. Por outro lado, a pirataria de música, de filmes e de livros acaba possibilitando a democratização do acesso a bens culturais. Quantos artistas que jamais teriam acessos a suas músicas e filmes se não fosse pela internet? Então, isso prejudica esse artista? Percebe-se que, na prática, não, porque normalmente para um artista de música o que garante a remuneração é o show e não o CD, do qual ele recebe só de 1 a 5% de cada venda. Então, na verdade, a internet age como um agente intermediário e isso acontece também na produção de bens culturais. Então, a discussão ética sobre a pirataria tem que ser feita dentro de um contexto de complexidade, ou seja, você não pode dizer que é contra a pirataria de tudo, pois tem que saber de que tipo de pirataria está falando.

IHU On-Line – Quais os principais temas que pautaram os debates da Campus Party, que aconteceu de 6 a 12 de fevereiro em São Paulo?

Vicente Aguiar – A Campus Party é um evento bacana, pois consegue reunir pessoas que são apaixonadas por tecnologia e empresas que desenvolvem coisas inovadoras. Além disso, ela envolve a comunidade de hackers, de desenvolvedores. Enfim, é uma grande festa. Para mim, o que “bombou” na Campus Party nesse ano é a trilha de software livre. A programação estava muito boa e eu destaco aí, principalmente, a questão de produção de vídeo, de música e de conteúdos dentro de plataformas que são livres.

A Espiritualidade e o Carisma de Clara de Assis (I)


Autora: Irmã Sandra Maria, Clarissa
 
Introdução

Desejamos elucidar os temas espiritualidade e carisma, primeiro em termos de experiência cristã, em seguida, dentro do sentido e da diretiva que Clara de Assis com originalidade aponta, para que possamos aprofundar o caminho de experiência espiritual clariano. Falar de espiritualidade e de carisma é falar de experiência. A experiência não é uma realidade assim tão clara. É sempre difícil partir da experiência e clarificá-la, porque é um dos conceitos mais enigmáticos e difíceis da filosofia. Mas podemos nos aproximar de forma simples do mundo da experiência espiritual cristã, franciscana e clariana, colocando em evidência seus matizes próprios. Nossa espiritualidade está ligada ao modo de viver os dons que Deus nos deu, e precisamos ter clareza sobre as suas linhas fundamentais.

1. O que é espiritualidade

Espiritualidade é a realidade vivida, elaborada (transformada em teoria), uma modalidade própria de viver e encarar os princípios teologais, a nossa fé, a esperança e a caridade, o seguimento evangélico. Para viver uma espiritualidade autêntica precisamos de docilidade à ação do Espírito e aos seus desenvolvimentos e moções, numa vida conforme nosso Senhor Jesus Cristo: isso implica um caráter existencial, concreto, afetivo e dinâmico. É necessário nos comportarmos de modo a progredir na espiritualidade. Uma vida segundo o Espírito é progressão aberta a ulteriores realizações, segundo a graça do batismo atuando em nós. Espiritualidade é uma sabedoria de vida, uma vivência que implica ascese, mística, orientação, oração, relacionamento com Deus, consigo mesma, com as pessoas e com as criaturas, e desenvolvimento dos dons do Espírito e dos carismas recebidos. Portanto espiritualidade e carisma se interpenetram: o carisma está implicado na vivência da espiritualidade.

1.1. Experiência

O fenômeno que chamamos experiência possui uma grande complexidade. O que parece muito simples e fácil é efeito de mecanismos complicados, que a psicologia humana e religiosa ainda desconhece. A experiência é um processo. E o conhecimento dos processos humanos e religiosos vai lentamente sendo desvendado, sem jamais se esgotar. Nossas ações e reações podem ser identificadas somente em parte. Existe uma fome de experiência religiosa e de espiritualidade. Karl Rhaner chegou a afirmar que “o cristão do futuro ou será um místico, ou seja, alguém que experienciou alguma coisa, ou não será cristão”. Isto quer dizer que a experiência profunda das coisas de Deus determina o grau da espiritualidade e da mística.

As experiências significativas sempre fizeram parte da vida do povo de Deus e da Igreja. Nasceram assim as diversas correntes de espiritualidade, as diversas escolas: abraâmica, da Torah, deuteronomista, profética, sapiencial, sálmica, simbólica, evangélica, paulina, joanina, provindas da Bíblia; dos padres e madres do deserto, basiliana, agostiniana, beneditina, cisterciense, das Cruzadas, dominicana, franciscana, clariana, inaciana, carmelitana. Também podemos falar de espiritualidade italiana, francesa, dos países nórdicos, latino-americana, africana, asiática, ou de épocas, como a do século VIII, do século XIX, que tiveram suas características próprias... Espiritualidade é experiência e vida, experiência e empenho. A experiência é sempre algo vital, que existe na própria vida, é a própria vida. A experiência espiritual diz respeito ao Espírito: isso especifica a espiritualidade. A espiritualidade é uma forma concreta suscitada pelo Espírito, de viver o Evangelho. Da experiência espiritual profunda surge a tematização, o testemunho, a narrativa.

1.2. Narrativa

Quanto mais a espiritualidade se torna vivida, mais ela é narrativa. Narração e experiência é um dos binômios muito usados em nossos dias. Há uma forte atualidade para esses termos. Fazer a experiência é uma expressão da vida real, uma maneira de afirmar a convicção de que a experiência tem como elemento essencial de seu processo a realização. Fazer experiência é participar, a partir de dentro, da trajetória experimentada, seguir o caminho da experiência, deixar-se envolver por ela e vivenciar todas as suas conseqüências. A narrativa elucida a experiência.

A espiritualidade necessita da narrativa, mas exige que haja uma relação entre fazer experiência e narrar. E que se exercite a verificação da congruência entre as duas. A narrativa constrói uma teologia da espiritualidade, e isso somente pode fazer quem faz a experiência. Reforçando, somente quem vive uma experiência religiosa pode definir um caminho de espiritualidade e traçar projetos lineares dela.

1.3. Conhecimento a partir de dentro

Espiritualidade é um conhecer a partir de dentro. Descreve-se a experiência que se vive. Esse conhecimento interior que nasceu no íntimo da pessoa estende-se ao exterior com os matizes assumidos internamente. O termo conhecer significa entender ou compreender a partir de dentro. A espiritualidade e a experiência religiosa sempre partem de um conhecimento a partir de dentro, contudo, isso não impede que tenham como conteúdo realidades exteriores concretas.

2. O que é carisma

O termo carisma retoma uma palavra grega, usada no Novo Testamento. Significa dom generoso e tem a mesma raiz de cháris: graça. O Concílio Vaticano II colocou novamente em uso a noção de carisma e distinguiu os dons carismáticos dos hierárquicos, que estão ligados aos sacramentos e aos ministérios. Carismas são aqueles dons especiais do Espírito que nos tornam capazes de assumir uma missão na Igreja, para a construção do Reino.

O termo carisma pode ser empregado no sentido genérico para indicar todos os dons divinos, as novas formas de vida e ação que o Espírito suscita pela adesão ao Evangelho. Neste sentido, o carisma clariano é uma nova “forma de vida”, particular e especial, suscitada no seio da Igreja. Clara viveu o seu carisma irrevogável, provindo de Deus, experienciando uma libertação profunda e crescente. Num sentido mais específico, as Clarissas herdaram o carisma clariano: são chamadas a ser continuadoras do projeto evangélico iniciado por Clara e Francisco de Assis. A fidelidade de nossos fundadores à inspiração divina, à graça, ao carisma inspiracional é a força que continua nos impulsionando e guiando no caminho do seguimento de Jesus Cristo.

A comunidade de Clara é uma comunidade carismática, nos moldes da comunidade dos apóstolos e discípulos e das comunidades cristãs primitivas. O carisma de Clara, ao se tornar uma estrutura estável com o decorrer dos anos, adquiriu uma dinâmica institucional na Forma de Vida elaborada por Clara com base na experiência das regras anteriores e sustentada pela Regra de Francisco.

A vida espiritual clariana difundiu-se e foi interpretada durante os séculos segundo modelos recapitulativos, rememorativos de experiências passadas e em harmonia com a cultura dos tempos. Isso significa atualizar o carisma. Uma espiritualidade madura deve estar continuamente adaptando e atualizando o carisma, deve enriquecê-lo, alimentar suas riquezas. Clara, como mestra espiritual, é um ponto de referência que une a riqueza da experiência ao conhecimento dos valores e das opções vitais. O amor constrói, a contemplação purifica; existem comportamentos vitais que podem ser introduzidos somente em ambientes especiais marcados por vida espiritual intensa, e uma vez descobertos podem ser vividos e acolhidos. Clara é uma mulher de tamanha autoridade moral que sabe induzir comportamentos e mostrar a validade de opções históricas. Clara tem como função abrir caminhos de vida que possam ser percorridos por nós com segurança e firmeza. A instituição clariana, a Ordem das Irmãs Pobres, é um organismo que programa e facilita a referência para o modelo espiritual de Clara, e favorece-lhe o crescimento, construindo espaços de fidelidade e de intensa espiritualidade.

A santidade de Clara e de Francisco é espelho da santidade de Deus. Foram santos porque viveram a união com Deus, acolheram sua graça. Foram santos que tornaram Deus visível, tornaram seus dons frutificados, foram carismáticos, no verdadeiro sentido do termo. Clara e Francisco foram modelos de santidade porque estiveram em condições de atrair para o Evangelho e de induzir comportamentos que manifestam a validade da doutrina que ensinaram. Foram reveladores de Deus, e nos induzem a perfazer-nos com a proximidade que realizam e com a atração ao bem que suscitam.

Existem aspectos da ação salvífica de Deus que requerem entrelaçamento de pessoas, convergência de ideais, para serem acolhidos e revelados. A santidade evangélica de Clara e de Francisco e o seu peculiar carisma na Igreja são comunitários, decisão concorde de todos e de todas que acolhem como bem comum a glória de Deus. Eles entraram em relação com Deus a partir de uma tradição histórica oferecida por uma comunidade eclesial, e foram alimentados por muitas pessoas e por comunidades vivas. É isso viver um carisma.

3. A espiritualidade e o carisma clariano como acontecimento histórico

Os processos históricos e os acontecimentos sociais em que os cristãos e cristãs se encontram envolvidos e comprometidos numa determinada época ou lugar constituem um fator de espiritualidade, suscitando carismas específicos dentro do seio da Igreja. Assim ocorreu com Clara e Francisco. Eles representam um chamado específico de Deus para um carisma vivo, para uma espiritualidade peculiar. Um chamado a certas opções e a certos valores evangélicos, em especial a pobreza, a humildade, a minoridade e a fraternidade, que foram configurando a estrutura das comunidades clarianas e franciscanas, e deram origem a uma forma específica de espiritualidade.

Queremos nos aproximar do tempo de Clara, uma época de transformações, plena de luzes e sombras, em cujo panorama nascerá um outro modelo social, político e econômico; e também um tipo novo de crente, porque ocorrerá uma mudança em que o leigo será protagonista; e ainda, um novo tipo de religioso e de religiosa, marcado pela passagem fundamental do monge e da monja, para o de frei e de irmã. Estas características, que depois de oito séculos podemos esquematizar serenamente, tiveram uma gestação dolorosa e lenta, em que ocorreram tensões, rupturas, e em cujo processo Clara receberá, junto a Francisco e muitos outros, o carisma de orientar seu caminho para a grande reforma que os tempos pediam.

Nosso olhar sobre este período da espiritualidade tem o interesse histórico que busca as raízes; nossos fundadores são filhos de uma situação política, social, cultural e eclesial carregada de ambigüidades, de incertezas, de extremismos, como é a época medieval, junto a uma gama maior de possibilidades que eles puderam descobrir e abraçar, sendo fiéis à Igreja. Neste transfundo, Clara busca e oferece seu peculiar carisma e espiritualidade. Aqui está a importância de conscientizar-nos do fenômeno de um despertar humano global, para poder situar Clara e seu carisma naquilo que possui de novidade e de ruptura com todo um largo processo precedente.

A espiritualidade e o carisma clariano e franciscano, como resposta a uma realidade histórica, são um processo histórico, social e eclesial, que apresentam fatos, situações, valores que nós, como Clarissas e Franciscanos, devemos captar e interpretar em toda a sua significação. Tudo isso constitui para nós um chamado a decifrar os nossos valores, que nos são revelados pelo conhecimento e aprofundamento da história da Ordem das Irmãs Pobres, desde a sua gênese, para que possamos incorporá-los em nossa vida e em nossa vocação. Isso fará com que sejamos cristãs plenas de consciência de sua espiritualidade e de seu carisma. Conscientes do processo histórico que foi vivido durante os séculos na Ordem, para viver a fidelidade ao carisma inicial, e conscientes de ser testemunhas hoje da validade e da atualidade de nossa espiritualidade e de nosso carisma. Capazes de ativar uma formação eficiente, como resposta ao nosso contexto cultural, e de criar uma renovada espiritualidade, capazes de assumir e de expressar o carisma clariano, como uma nova síntese para o nosso contexto de vivência. Assim, afirmamos que nossa espiritualidade e nosso carisma são atuais, e podemos torná-los adequados para nossa situação histórica hoje. Trata-se de algo inerente à nossa fé cristã, que se desenvolve e se encarna em pessoas, circunstâncias e épocas específicas. Trata-se de um seguimento evangélico e de um carisma específico. Isso é o desafio com que nos defrontamos como atual geração de Clarissas. As profundas mudanças na situação social podem constituir uma das causas de crise para a nossa espiritualidade, mas podem ser também um desafio a traduzir para o hoje de nossa história toda a riqueza de nosso carisma, e torná-lo chamativo e atraente para muitas jovens de hoje.

4. As fontes da espiritualidade e do carisma clariano

A experiência de fé que Clara e Francisco viveram é a medula de nossa espiritualidade. E foi na Palavra de Deus, especialmente no Evangelho, que eles encontraram a fonte e a raiz de seu carisma peculiar. Na escuta fiel da Palavra de Deus teve início uma resposta que trouxe atrás de si oito séculos de história de um carisma vivido e encarnado.

Esse é um fato da experiência clariana e um testemunho vivo que chega até nós através de todos quantos conviveram com ela. A experiência de Clara nos mostra que aquilo que a manteve firme na fé e no seguimento foi a capacidade de ouvir o Senhor, na proclamação da Palavra de Deus, nas alocuções e pregações, na vida orante e silenciosa, na contemplação, na partilha da vivência de irmãs. Em Clara, podemos ver precisamente que a Igreja constitui o lugar habitual e necessário para a geração de sua espiritualidade e de seu carisma; a Palavra de Deus lhe veio da vida eclesial, o Evangelho lhe foi dado pela comunidade cristã, especialmente representada pelo ideal de Francisco. E assim, Clara e suas irmãs puderam reescrever uma das mais belas novas páginas de experiência de Igreja, do povo de Deus, no estilo das primitivas comunidades cristãs.

Podemos perceber, através de todos os escritos de Clara, quanto foi importante para o desenvolvimento de sua espiritualidade e do desabrochar de seu carisma o seu contato pessoal com a palavra de Deus, sobretudo com o Evangelho. São numerosas as citações bíblicas em seus escritos, em geral não literais, mas como fruto de uma rememorização, de uma ruminação afetiva. Assim como Clara, para descobrirmos o caminho de nossa espiritualidade, e o modo de colocar nossos dons a serviço da Igreja e da Ordem, precisamos de uma escuta mais pessoal da Palavra. Acima de tudo deve-se destacar que a Bíblia permanece o paradigma e a fonte de toda a nossa espiritualidade clariana, destacando-se sobretudo os Evangelhos, porque a nossa Forma de vida é “viver o Santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo”. Na leitura cristã da Bíblia, os Evangelhos devem ocupar o lugar central. Eles representam para nossa espiritualidade o sentido primordial e mais denso, já que Jesus Cristo é colocado como o espelho e modelo de conformidade. O Evangelho constitui para nós o acesso necessário à humanidade de Deus e a seu conhecimento e seguimento por amor. Uma Clarissa não pode deixar de ler diariamente o Evangelho, meditá-lo, ruminá-lo, nutrir-se dele.

Quando as irmãs se inspiram na Palavra de Deus e por ela pautam sua vida, a profundidade e solidez de nossa espiritualidade cresce, e podemos ver desabrochar os dons que Deus nos concedeu, o nosso carisma. A escuta e o contato periódico, diário, constante, na oração e na contemplação, apresentam uma fecundidade e uma capacidade capazes de gerar uma renovada vivência de nossa espiritualidade. Mais ainda, a partilha da palavra de Deus é a fonte de nossa espiritualidade e constitui um verdadeiro sacramento da presença do Espírito de Jesus entre nós; ler o Evangelho no espírito de discípulas significa encontrar Jesus. Juntamente com a eucaristia, constitui a experiência mais intensa de Jesus na vida cristã e clariana.

Podemos definir ainda como fontes da espiritualidade e do carisma clariano a vida sacramental da Igreja, especialmente a Eucaristia e a penitência; o testemunho da Igreja, a Virgem Maria, os santos e santas, a presença das irmãs e dos irmãos. Para o caminho clariano, as irmãs constituem uma fonte indispensável da espiritualidade. Todas as outras fontes ficariam deformadas se não levassem à prática do amor recíproco, que é a prova decisiva de nosso seguimento de Jesus Cristo e de que vivemos segundo o Espírito (continua).

Endereço da Autora:
Mosteiro Nazaré – Irmãs Clarissas
Av. Papa João XXIII, 1113 – Petrópolis
Lages, SC/BRASIL
88505-200

A segunda e última parte
não está disponível na Internet

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A fé nos ajuda a entender a Internet

Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/noticias/506572-os-tuites-do-jesuita-spadaro-a-fe-nos-ajuda-a-entender-a-internet acesso em 15 fev. 2012.

Os tuítes do jesuíta Spadaro: ''A fé nos ajuda a entender a Internet''

"A comunicação ajuda a Igreja a entender a si mesma. E a Igreja ajuda a ter um olhar espiritual sobre a Rede". Seria equivocado pensar no universo da fé católica com a imagem estereotipada de um mundo granítico que cheira a incenso e a palavras arcanas pronunciadas em uma língua morta. A Igreja, na realidade, está se reformando a partir de dentro. Um dos expoentes dessa mudança é um jesuíta de 45 anos, recém-nomeado diretor da prestigiosa revista La Civiltà Cattolica, fanático por ciberteologia (à qual dedicou um blog) e flexível experimentador de sistemas de computador diversos.

A reportagem é de Marco Ansaldo, publicada no jornal La Repubblica, 06-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas Antonio Spadaro, de Messina, também é um homem capaz de unir a técnica ao intelecto. A tal ponto que, recentemente, o papa o nomeou consultor de dois Conselhos Pontifícios: Cultura e Comunicações Sociais. Ele já havia fundado o BombaCarta, um dos primeiros laboratórios de escrita criativa na Rede, e leciona no Centro Interdisciplinar de Comunicação Social da Gregoriana. Seu último livro se intitula Web 2.0 (Ed. Paoline).

Encontramo-lo em Villa Malta, em Roma, sede da Civiltà Cattolica, no seu escritório, onde tudo é branco: as paredes, as prateleiras inteiras dedicadas a Kerouac, Tondelli e Flannery O'Connor, a grande mesa de trabalho sobre a qual domina um iMac.

"Uma das perguntas que eu me faço – diz logo – é não apenas como a Internet pode ajudar a Igreja, mas também como a fé pode ajudar a compreender melhor o significado profundo da Rede, o seu papel na história da humanidade".

Eis a entrevista.

Padre Spadaro, o que os observadores notam, quase com surpresa, é como a Igreja está investindo na web. Como aconteceu essa reviravolta?


Não houve uma reviravolta, mas sim um caminho ininterrupto. O fato é que a Rede parece uma coisa recente e moderna. Não, a Internet é uma realidade antiga para as perguntas que ela exprime em forma tecnológica, que são, além disso, aquelas que cada um de nós faz a si mesmo: quem sou eu, o que é o mundo, quem são os outros, a questão sobre Deus... A Igreja sempre olhou para as necessidades do homem, e, por trás da tecnologia, ainda está o homem. E ela sempre percebeu essa linha, antecipando as ideias das redes sociais.

Como?

Tomo por exemplo o que Bento XVI disse recentemente: "A comunicação não é propaganda, mas sim lugar de relação". E a própria Igreja se fundamenta em duas mensagens: sobre a comunicação da mensagem e sobre a relação de comunhão. A Rede e a Igreja são duas realidades sempre destinadas a se encontrar. Cada vez mais, a Rede está se tornando um lugar de vida comum, e a Igreja está dentro: com inteligência e, ao mesmo tempo, sem se alienar nesse ambiente, iluminando também os riscos.

E você, tão aberto às fronteiras da tecnologia mais moderna, dirige há poucos meses a La Civiltà Cattolica, a mais antiga revista italiana, ativa há mais de 160 anos. Não há uma contradição?


Não. Na realidade, a nossa revista nasceu justamente de uma intuição inovadora: ela foi imaginada como uma publicação escrita apenas por jesuítas, mas não é uma revista acadêmica: é escrita em italiano e não latim, como eram as revistas eclesiásticas da época. Então, ela fez a opção por uma forma de comunicação não engessada e militante.

O fato é que há um ciberteólogo dirigindo uma revista publicada com o "imprimatur" da Secretaria de Estado vaticana.

A minha pergunta é o que significa fazer cultura e comunicação hoje, no tempo da Rede. É o próprio conceito de revista que está mudando. É claro que a La Civiltà Cattolica é e continuará sendo de papel. Mas é preciso compreender que a revista é, acima de tudo, a sua mensagem, não o seu suporte, seja de papel ou digital. Portanto, sim, eu imagino uma revista impressa, mas também uma versão para iPad, por exemplo. Já está ativo há muitos anos um site, mas agora também uma conta no Twitter e uma página no Facebook: todos canais de difusão e de compartilhamento de uma mensagem. Sobre esses instrumentos também se fundamenta hoje a credibilidade do jornalismo.

O senhor é ativo nos blogs?

Sim, tenho alguns. Atualmente, mantenho atualizado especialmente o Cyberteologia.it. Ali, faço convergir as ideias, muitas vezes ainda cruas, que vêm da minha colaboração como consultor do Conselho Pontifício para a Cultura e do das Comunicações. Eu também cuido de um verdadeiro jornal conectado com o blog.

Um jornal?


Sim, no sentido de que ativei um instrumento que permite publicar conteúdos e sugestões dos estudiosos que se interessam em como a fé também vive no ambiente digital e com os quais estou em relação via Twitter. No fim, diariamente, é paginado um jornal online. É um modo prático para se manter atualizado.

No seu livro Web 2.0, você se pergunta se "há Deus na blogosfera?". Há ou não?


Sou jesuíta, e a espiritualidade da minha ordem me faz dizer que Deus está ativo no mundo. Ou melhor, "trabalha", como diz o nosso fundador, Santo Inácio de Loyola. Nós, jesuítas, buscamos a Deus em todas as coisas, desenvolvendo o faro da sua presença até mesmo onde ele não parece estar presente. Trata-se de ver os rastros que ele deixa.

Nesse contexto, a Igreja está no mesmo passo que os tempos?

Vejo na Igreja um caldeirão de elaboração cultural e um nível de maturidade cada vez mais crescente. Há, no entanto, uma necessidade de ficar vigilantes. O cardeal Ravasi tem razão: "Pode-se falar de tudo".

Confesse: você estuda como um "pequeno Ravasi".

Você esquece que nós, jesuítas, fazemos um voto de não buscar nenhuma prelazia ou dignidade eclesiástica.

Refiro-me como teólogo aberto ao mundo da comunicação.


Certamente. A identidade da revista que eu dirijo se baseia nos assuntos mais diversos e, além de história, da política e da economia, sempre há uma grande atenção à arte, à música, à literatura, ao cinema, ao esporte, às linguagens dos homens, incluindo a digital. Eu cresci nessa escola. Portanto, sou naturalmente muito interessado naquilo que se move na contemporaneidade e que contamina os interesses. No fundo, o homem é uno e não pode viver em recintos separados e fechados. E essa é uma chave para entender o homem, o mundo e a realidade.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

SERÁ QUE ESTAMOS VIVENDO REALMENTE O FIM DOS TEMPOS?
















SERÁ QUE ESTAMOS VIVENDO REALMENTE O FIM DOS TEMPOS?

Quem nos garante que o fim do mundo acontecerá ainda neste ano de 2012 como versam alguns “profetas” em suas “profecias” tidas como verdadeiras?
Vejamos, pois, a Sagrada Escritura para termos um discernimento claro a esse respeito:

O Senhor, teu Deus, te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: é a ele que devereis ouvir. Se disseres a ti mesmo: como posso eu distinguir a palavra que não vem do Senhor? Quando o profeta tiver falado em nome do Senhor, se o que ele disse não se realizar, é que essa palavra não veio do Senhor. O profeta falou presunçosamente. Não o temas”. (Deut. 18,15.21-22).

Então, depois deste esclarecimento, podemos dizer que existe sim um meio para entendermos os acontecimentos do nosso tempo, temos que ouvir atentamente Jesus, o Filho de Deus, Ele, o verdadeiro Messias é o ápice de toda a revelação, pois, conforme está escrito: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”. E ainda: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo”. (Mar 13,31; Mt 28,20b). De fato, é o Senhor mesmo quem conduz a Sua Igreja, por meio do Santo Padre, dos Bispos e Sacerdotes que lhes são fiéis, pois Ele está constantemente conosco na Eucaristia e nos alimenta, disso “somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que lhe obedecem”. (Ato 5,32). Também não podemos esquecer que a Mãe de Jesus, Maria santíssima, nos acompanha nessa trajetória da Igreja rumo ao Reino dos Céus.

PREDIÇÃO DA RUÍNA DE JERUSALÉM

Então, vejamos o que diz o Senhor a esse respeito: “Ao sair do templo, os discípulos aproximaram-se de Jesus e fizeram-no apreciar as construções. Jesus, porém, respondeu-lhes: Vedes todos estes edifícios? Em verdade vos declaro: não ficará aqui pedra sobre pedra; tudo será destruído”. Essa profecia de Jesus já se cumpriu: “A cidade de Jerusalém foi destruída pelos romanos em 70 d.C. O cerco e a queda de Jerusalém são descritos com pormenores gráficos pelo  historiador judeu do primeiro século, Flávio Josefo, no livro Guerras dos Judeus, que foi publicado cerca do ano 75 d.C”. (http://goo.gl/JBs5s).

“Indo ele assentar-se no monte das Oliveiras, achegaram-se os discípulos e, estando a sós com ele, perguntaram-lhe: Quando acontecerá isto? E qual será o sinal de tua volta e do fim do mundo?         Respondeu-lhes Jesus: Cuidai que ninguém vos seduza. Muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu o Cristo. E seduzirão a muitos. Levantar-se-ão muitos falsos profetas e seduzirão a muitos”. Esta profecia está se cumprindo na íntegra, visto que a cada dia surgem milhares de “igrejas” pregando um Cristo que não é o Filho de Deus e com elas aparecem também líderes que se autoproclamam pastores, bispos e cristos, fazendo milagres que se possível enganariam até os eleitos de Deus. Segue alguns desses falsos cristos:


LEVANTAR-SE-Á NAÇÃO CONTRA NAÇÃO

Ouvireis falar de guerras e de rumores de guerra. Atenção: que isso não vos perturbe, porque é preciso que isso aconteça. Mas ainda não será o fim. Levantar-se-á nação contra nação, reino contra reino, e haverá fome, peste e grandes desgraças em diversos lugares. Tudo isto será apenas o início das dores”.

“A história da humanidade sempre foi marcada por guerras sangrentas. Desde a antiguidade, passando pela idade média, e chegando a nossa idade contemporânea, muitos perderam a vida guerreando ou sendo apenas vítimas de guerra. Nunca o ser humano guerreou tanto como nos séculos XX e XXI. Somente no século XX, cerca de 191 milhões de pessoas morreram em combates ao redor do mundo. Apenas para ilustrar a evidência desse sinal, eis algumas das guerras ocorridas nos últimos 100 anos:

Guerra russo-japonesa (1904-1905)
Terceira Guerra centro-americana (1906)
Quarta Guerra centro-americana (1907)
Guerra Itália-Turquia (1911-1912)
Guerra da independência do Tibete (1911-1912)
Guerra do Paraguai (1911-1912)
Primeira Guerra Mundial (1914-1918)
Guerra Turquia-França (1919-1921)
Guerra Turquia-Grécia (1919-1922)
Guerra Japão-China (1931-1933)
Guerra do Chaco (1932-1935)
Segunda Guerra Mundial (1939-1945)
Guerra do Sinai entre Israel-Egito (1956)
Guerra Hungria-União Soviética (1956)
Guerra Índia-China (1962)
Guerra da Cashemira entre Índia e Paquistão (1965)
Guerra Israel-Egito (1969-1970)
Guerra do Vietnã (1965-1975)
Guerra Honduras-El Salvador (1969)
Guerra das Malvinas (1982)
Guerra do Golfo (1990-1991)
Bósnia e Herzegovina (1992-1995)
Guerra Eritréia-Etiópia (1998-2000)
Guerra do Iraque (2003)

A lista realmente é grande e impressiona. Jesus nos disse que esse sinal aconteceria antes de seu retorno, mas ainda não seria o evento definitivo para sua segunda vinda”. ( http://goo.gl/DErz ).

A PERSEGUIÇÃO AOS CRISTÃOS

“Então sereis entregues aos tormentos, matar-vos-ão e sereis por minha causa objeto de ódio para todas as nações. Muitos sucumbirão, trair-se-ão mutuamente e mutuamente se odiarão. E, ante o progresso crescente da iniquidade, a caridade de muitos esfriará. Entretanto, aquele que perseverar até o fim será salvo. Este Evangelho do Reino será pregado pelo mundo inteiro para servir de testemunho a todas as nações, e então chegará o fim”. Esta profecia também tem se cumprido, pois desde o tempo dos apóstolos até os dias de hoje a Igreja não para de evangelizar o mundo com a assistência do Espírito Santo, pregando o Evangelho à todas as nações da terra.

Quanto à perseguição anunciada por Jesus está acontecendo no mundo inteiro, principalmente pelos governos ateus, pelos mulçumanos radicais, pelas seitas protestantes, pela maçonaria e a impressa sensacionalista demoníaca que não para os ataques à Igreja; se valendo especificamente de falsas acusações, seja do passado ou mesmo do presente; como é o caso dos Padres pedófilos; ora, sabemos que não existem padres pedófilos, existem sim, pedófilos que entraram nos seminários e se revestiram das vestes sacerdotais para cometerem tais crimes hediondos, porém, estes não são sacerdotes; mais sim criminosos que têm que pagar por seus crimes e serem extirpados dessa função sagrada, porque não são dignos dela. Eis o que diz o Senhor a estes: “Mas, se alguém fizer cair em pecado um destes pequenos que creem em mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a mó de um moinho e o lançassem no fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas ai do homem que os causa!” (Mt 18,6-7).

PROFANÇÃO DOS LUGARES SANTOS E A FUGA DOS CRISTÃOS
“Quando virdes estabelecida no lugar santo a abominação da desolação que foi predita pelo profeta Daniel (9,27) - o leitor entenda bem - então os habitantes da Judéia fujam para as montanhas. Aquele que está no terraço da casa não desça para tomar o que está em sua casa. E aquele que está no campo não volte para buscar suas vestimentas. Ai das mulheres que estiverem grávidas ou amamentarem naqueles dias!     “

“Rogai para que vossa fuga não seja no inverno, nem em dia de sábado; porque então a tribulação será tão grande como nunca foi vista, desde o começo do mundo até o presente, nem jamais será. Se aqueles dias não fossem abreviados, criatura alguma escaparia; mas por causa dos escolhidos, aqueles dias serão abreviados”.

CUIDADO COM OS FALSOS CRISTOS

“Então se alguém vos disser: Eis, aqui está o Cristo! Ou: Ei-lo acolá!, não creiais. Porque se levantarão falsos cristos e falsos profetas, que farão milagres a ponto de seduzir, se isto fosse possível, até mesmo os escolhidos. Eis que estais prevenidos. Se, pois, vos disserem: Vinde, ele está no deserto, não saiais. Ou: Lá está ele em casa, não o creiais. Porque, como o relâmpago parte do oriente e ilumina até o ocidente, assim será a volta do Filho do Homem”.

E O QUE ACONTECERÁ ANTES DA SEGUNDA VINDA DO SENHOR?

“Logo após estes dias de tribulação, o sol escurecerá, a lua não terá claridade, cairão do céu as estrelas e as potências dos céus serão abaladas. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem. Todas as tribos da terra baterão no peito e verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu cercado de glória e de majestade. Ele enviará seus anjos com estridentes trombetas, e juntarão seus escolhidos dos quatro ventos, duma extremidade do céu à outra”.

A PARUSIA

“Compreendei isto pela comparação da figueira: quando seus ramos estão tenros e crescem as folhas, pressentis que o verão está próximo. Do mesmo modo, quando virdes tudo isto, sabei que o Filho do Homem está próximo, à porta. Em verdade vos declaro: não passará esta geração antes que tudo isto aconteça. O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”.

“Quanto àquele dia e àquela hora, ninguém o sabe, nem mesmo os anjos do céu, mas somente o Pai”.

“Assim como foi nos tempos de Noé, assim acontecerá na vinda do Filho do Homem. Nos dias que precederam o dilúvio, comiam, bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. E os homens de nada sabiam, até o momento em que veio o dilúvio e os levou a todos. Assim será também na volta do Filho do Homem”.

“Dois homens estarão no campo: um será tomado, o outro será deixado.        Duas mulheres estarão moendo no mesmo moinho: uma será tomada a outra será deixada. Vigiai, pois, porque não sabeis a hora em que virá o Senhor. Sabei que se o pai de família soubesse em que hora da noite viria o ladrão, vigiaria e não deixaria arrombar a sua casa”.

“Por isso, estai também vós preparados porque o Filho do Homem virá numa hora em que menos pensardes”.

“Quem é, pois, o servo fiel e prudente que o Senhor constituiu sobre os de sua família, para dar-lhes o alimento no momento oportuno? Bem-aventurado aquele servo a quem seu senhor, na sua volta, encontrar procedendo assim! Em verdade vos digo: ele o estabelecerá sobre todos os seus bens. Mas, se é um mau servo que imagina consigo: - Meu senhor tarda a vir, e se põe a bater em seus companheiros e a comer e a beber com os ébrios, o senhor desse servo virá no dia em que ele não o espera e na hora em que ele não sabe, e o despedirá e o mandará ao destino dos hipócritas; ali haverá choro e ranger de dentes”. (Mateus 24).

“Por isso, estai também vós preparados porque o Filho do Homem virá numa hora em que menos pensardes”.

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.


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Os sapos / Manuel Bandeira

Pobreza da e na Igreja: o Concílio hoje

Às vezes, entre o noticiário cotidiano e um livro de história, criam-se conexões altamente significativas. Isso aconteceu comigo recentemente. Justamente enquanto, do Vaticano, vazavam notícias acerca do caso Viganò, com todos os anexos e conexos, eu li Dossetti e Lercaro. La Chiesa povera e dei poveri nella prospettiva del Concilio Vaticano II (Ed. Paoline, 376 páginas), em que o teólogo Corrado Lorefice relembra a história da relação entre o futuro monge e o então arcebispo de Bolonha, em particular com relação à influência que Dossetti exerceu sobre o discurso proferido Lercaro (ambos na foto) em dezembro de 1962, durante a 35ª Congregação Conciliar, sobre a pobreza da e na Igreja.

A reportagem é de Aldo Maria Valli, publicada no sítio Vino Nuovo, 09-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Assim, me vi diante de uma alta lição de vida cristã e eclesial à luz do Evangelho e da realidade chocante de uma instituição eclesiástica em luta contra as seduções de Mamon [dinheiro].

Aos padres conciliares, o cardeal Lercaro, inspirado por Dossetti, disse que a pobreza, para o povo de Deus, não pode ser uma simples opção entre outras, ditada pela sensibilidade ou pela boa vontade. Tanto para os indivíduos quanto para a instituição Igreja, à luz do Evangelho, só há simplesmente o caminho da pobreza. Deus se fez homem, e homem pobre, para a nossa salvação. Pobreza e mensagem evangélica nunca podem se separar.

Depois você lê que, na Cidade do Vaticano ocorrem guerras internas por interesses econômicos incríveis, que o próprio Dom Viganò tem uma disputa legal em andamento com um irmão sacerdote por uma soma de 30 milhões de euros, que um frade dominicano confiou imprevidentemente à sociedade do fraudador Gianfranco Lande, mais conhecido como o Madoff dos Parioli, 1,7 milhão de euros, pagos como adiantamento para apoiar as causas de beatificação, e você se pergunta se, por acaso, o teólogo Giuseppe Ruggieri não tem razão, quando, no prefácio do belo livro do colega Lorefice, ele escreve que "a pobreza da Igreja como via do seu caminho na história é simplesmente rejeitada, não nos seus princípios, mas na vida concreta".

Ruggieri é duro: "Dizer que a Igreja deve renunciar aos privilégios historicamente adquiridos quando eles se mostrarem como obstáculo ao anúncio do Evangelho é um discurso que, no melhor dos casos, provoca um sorriso irônico ao ouvinte de boas maneiras Muito clara, de fato, é a inconsistência dessas palavras na práxis dominante".

A lição de Dossetti e de Lercaro já não passou? Esse ensinamento jamais foi acolhido? Essas perguntas mereceriam respostas adequadas. Sim, no sentido da pobreza, houve escolhas importantes e também gestos simbólicos. Mas, em profundidade, a escolha da pobreza já não se tornou, de virtude ética, em insuprimível elemento distintivo da vida evangélica? E o que significa hoje acolher o ensinamento da Lumen Gentium, lá onde, inspirada justamente pela intervenção de Lercaro, diz que, "assim como Cristo realizou a obra da redenção na pobreza e na perseguição, assim a Igreja é chamada a seguir pelo mesmo caminho para comunicar aos homens os frutos da salvação"?

Nos documentos pós-conciliares, observa Lorefice, seja por parte do magistério papal, seja nas intervenções dos bispos italianos, o tema da pobreza da Igreja e do estilo pobre no exercício da sua missão está quase totalmente ausente. Fala-se muito de pobres e de pobreza, mas pouco ou nada acerca da pobreza da Igreja e dos meios necessários para desenvolver a missão evangelizadora. Fala-se muitas vezes de "Igreja dos pobres", mas nunca ou quase nunca de "Igreja pobre".

As coisas, sabemos, ocorreram de forma diferente na América do Sul, onde, seja na conferência dos bispos de Medellín (1968), seja na de Puebla (1979), a pobreza tornou-se o eixo da doutrina social e, ao lado da opção preferencial pelos pobres, colocou-se o tema da necessária pobreza da Igreja, mas os teólogos da libertação que foram intérpretes dessa linha (os Gutiérrez, os Boff, os Sobrino) acabaram todos na mira da Congregação para a Doutrina da Fé.

O Congresso Continental de Teologia programado aos cuidados da Fundação Ameríndia (7 a 11 de outubro de 2012, na Unisinos, em São Leopoldo, Brasil) para celebrar o 50º aniversário da convocação do Concílio Vaticano II e os 40 anos da publicação do livro de Gustavo Gutiérrez, Teologia da Libertação, será uma preciosa ocasião de debate e de verificação. Desde que, deste lado do oceano ou do outro, se queira ouvir.

Nota da IHU On-Line:

Para mais informações, visite aqui o sítio do Congresso Continental de Teologia.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A PALAVRA DE DEUS, FONTE INESGOTÁVEL DE VIDA














A PALAVRA DE DEUS, FONTE INESGOTÁVEL DE VIDA

Que inteligência poderá penetrar uma só de vossas palavras, Senhor? Como sedentos a beber de uma fonte, ali deixamos sempre mais do que aproveitamos. A palavra de Deus, diante das diversas percepções dos discípulos, oferece múltiplas facetas. O Senhor coloriu com muitos tons sua palavra. Assim, quem quiser conhecê-la, pode nela contemplar aquilo que lhe agrada. Nela escondeu inúmeros tesouros, para que neles se enriqueçam todos os que a eles se aplicarem.

A palavra de Deus é a árvore da vida a oferecer-te por todos os lados o fruto abençoado, à semelhança do rochedo fendido no deserto que, por todo lado, jorrou a bebida espiritual. Comiam, diz o Apóstolo, do alimento espiritual e bebiam da bebida espiritual.

Se, portanto, alguém alcançar uma parcela desse tesouro, não pense que este seja o único conteúdo desta palavra, mas considere que encontrou apenas uma porção do muito nela contido. Se só esta parcela esteve a seu alcance, não diga que essa palavra seja pobre e estéril, nem a despreze. Pelo contrário, visto que não pode abraçá-la totalmente, dê graças por sua riqueza. Alegra-te por seres vencido, não te entristeças por te ultrapassar.

O sedento enche-se de gozo ao beber e não se aborrece por não poder esgotar a fonte. Vença a fonte a tua sede, mas não vença a tua sede a fonte. Pois, se tua sede se sacia sem que a fonte se esgote, quando estiveres novamente sedento, dela poderás beber. Se, porém, saciada tua sede também se secasse a fonte, tua vitória redundaria em mal.

Dá graças, então, pelo que recebeste. Pelo que ainda restou e transbordou não te entristeças. Aquilo que recebeste e a que chegaste é a tua parte. O que sobrou é tua herança. Se, por tua fraqueza, em uma hora não consegues entender, em outras horas, se perseverares, poderás recebê-lo. Não te esforces, com maligna intenção, por beber de um só trago aquilo que não pode ser tomado de uma vez. Não desistas, por indolência, de tomá-lo aos poucos.

Paz e Bem!

Fonte: Do Comentário sobre o Diatéssaron, de Santo Efrém, diácono - (1,18-19:SCh 121,52-53) (Séc.IV)


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