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sexta-feira, 2 de agosto de 2013
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Blog Leitura Orante
Blog ligado às Irmãs Paulinas,
diáriamente apresenta um roteiro de Leitura Orante:
É possível receber o roteiro por email.
terça-feira, 28 de maio de 2013
Blog Itinerário Franciscano do Monte Alverne
Blog sobre a Espiritualidade Franciscana,
aos cuidados da Província Franciscana de N. Sra.da Assunção, Brasil:
http://montealverne.com
sábado, 23 de junho de 2012
Site do Centro Franciscano de Espiritualidade (Piracicaba)
Site do
Centro Franciscano de Espiritualidade
Piracicaba, Estado de São Paulo:
Centro Franciscano de Espiritualidade
Piracicaba, Estado de São Paulo:
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Franciscanos Espiritualidade: O Cristo de São Francisco
Reflexão com Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMcap
Material Cedido pelo Centro Franciscano de Espiritualidade - Piracicaba -SP
Compartilhe este vídeo! Obrigado, Paz e Bem!
Site: http://www.franciscanos.org.br/pvf
tvFranciscanos: http://www.youtube.com/tvFranciscanos
Material Cedido pelo Centro Franciscano de Espiritualidade - Piracicaba -SP
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Site: http://www.franciscanos.org.br/pvf
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quinta-feira, 1 de março de 2012
O desejo do martírio em Santa Clara de Assis
- Extraído de http://www.clarissas.com.br/NOVO/index2.php?pag=mostra&&id=251 acesso em 1º mar. 2012.
- Ilustração: The Christian Martyrs' Last Prayer / Jean-Léon Gérôme. 1883. Disponível em http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c4/The_Christian_Martyrs_Last_Prayer.jpg acesso em 1º mar. 2012.
Supremo amor por Cristo e em Cristo
No processo
de canonização de Santa Clara também é mencionado seu desejo de
martírio: “Irmã Cecília, Filha de Messer Gualtieri Cacciaguerra de
Spello, uma irmã do Mosteiro de São Damião, fazendo juramento disse: que
tinha ouvido de dona Clara, de santa memória, antiga abadessa do
predito mosteiro, que devia ter uns quarenta e três anos que ela estava
no governo das Irmãs; A testemunha entrou na Ordem uns três anos depois
que a senhora tinha entrado na Religião pela pregação de São Francisco. A
testemunha entrou pelas exortações de dona Clara e de Frei Filipe, de
boa memória. Desde esse tempo, quarenta anos, esteve sob o santo governo
de dona Clara, mas não se achava competente para falar como se deve
sobre sua vida, louvável e maravilhosa, e sobre seu comportamento.
Também disse que dona Clara tinha tanto fervor de espírito, que gostaria
de enfrentar o martírio por amor do Senhor. Demonstrou isso quando
ouviu contar que alguns frades tinham sido martirizados em Marrocos e
disse que queria ir para lá. A testemunha até chorou. Mas foi antes que
ela ficasse doente. Interrogada sobre quem tinha assistido a isso,
respondeu que as Irmãs então presentes já tinham morrido”.
Outra
testemunha afirma «Irmã Balbina de Messer Martinho da Cocorano, monja do
Mosteiro de São Damião, declarou sob juramento: que estivera no
mosteiro por mais de trinta e seis anos, quando era abadessa dona Clara,
de santa memória, cuja vida e comportamento foram adornados pelo Senhor
com muitos dons e virtudes, que de modo algum daria para contar. E a
senhora foi virgem desde o seu nascimento. Era a mais humilde entre
todas as Irmãs e tinha tanto fervor de espírito que, por amor de Deus,
teria suportado de boa vontade o martírio pela defesa da fé e de sua
Ordem. Antes de ficar doente, queria ir para Marrocos, onde se dizia que
os frades tinham sofrido o martírio.
Interrogada
sobre como sabia dessas coisas, respondeu que esteve com ela durante
todo esse tempo, vendo e ouvindo o amor que a senhora tinha pela fé e
pela Ordem”.
Ficamos profundamente emocionados por este testemunho sobre Clara, que nos narra com expressões muito vivas, o seu desejo de ir para onde os frades protomártires franciscanos haviam dado suas vidas, ao morrer por Cristo. Este testemunho nos revela o fato que Clara, permanecendo inflamada no seu íntimo, pela notícia do martírio dos frades, gera em seu corpo e em sua mente o desejo de se unir a eles. Clara é atraída pelo testemunho dos protomártires francisacanos até ao ponto de sentir dentro de si o ardente desejo de ir até à terra onde eles derramaram o seu sangue, para que assim, também ela possa dar a vida para testemunhar e defender a fé.
Este desejo
de Clara, testemunhado no processo, é reflexo do desejo de Francisco,
segundo as palavras de São Boaventura: aqui também se fala de um desejo
vivo, um fervor de caridade poderosíssimo e do mesmo desejo de martírio
de São Francisco, como se afirma no capítulo IX da Vida do Bem-aventurado Francisco (Legenda Maior):
«No fervoroso incêndio de sua caridade, emulava o triunfo dos santos
mártires, nos quais não se extinguiu a chama do amor nem fraquejou a
fortaleza. Por isso ele também desejava, inflamado naquela caridade
perfeita, que joga fora o temor, oferecer-se como uma hóstia viva ao
Senhor pela chama do martírio, para corresponder assim ao amor de
Cristo, morto por nós na cruz, e para provocar os outros para o amor
divino. Então, no sexto ano de sua conversão, ardendo de desejo do
martírio, resolveu embarcar para a Síria para pregar a fé cristã e a
penitência aos sarracenos e aos outros infiéis».
Sugiro, neste momento, comparar o que consideramos até agora, com o texto da Regra não Bulada, capítulo
XVI. São Francisco de Assis descreve como deve ser a atitude dos frades
que forem à terra daqueles que não têm a fé cristã: “os frades que vão,
podem com-portar-se espiritualmente entre eles de dois modos. Um modo é
que não façam nem litígios nem contendas, mas estejam submetidos a toda criatura humana por Deus e
confessem que são cristãos. Outro modo é que, quando virem que agrada
ao Senhor, anunciem a palavra de Deus, para que creiam em Deus
onipotente, Pai e Filho e Espírito Santo, criador de tudo, no Filho
redentor e salvador, e que sejam batizados e se tornem cristãos, porque
quem não renascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no reino
de Deus”.
Partindo deste texto, podemos observar que nas duas modalidades indicadas por Francisco não há uma visão “anônima” do testemunho; também o exemplo de vida - sem o anúncio explícito da Palavra - é sempre acompanhada pela confissão da fé. Posteriormente, por inspiração do Senhor, pode-se chegar ao anúncio explícito da Palavra, a fim de suscitar a fé na Santíssima Trindade.
Considerando o caráter confessante do testemunho desejado por Francisco para os seus frades, pode-se compreender porque os mais recentes estudos sobre o desejo do martírio, presente no início da família franciscana, faz desaparecer a clássica contradição sentida entre o capítulo XVI e as histórias hagiográficas sobre este ponto: de fato, o horizonte interpretativo não é aquele de um heroísmo provocado nos confrontos com uma fé diferente, mas uma expressão do amor por Cristo, a paixão de comunicar o encontro com Ele e de ser introduzido na fileira de sua imitação.
Neste sentido, as hagiografias franciscanas, particularmente dos protomártires, evidenciam que, nestes e em outros mártires franciscanos, representa-se o que aconteceu nos mártires dos primeiros séculos, ou seja, repete-se o que aconteceu nos mártires dos primeiros séculos, ou seja, a disposição de dar a vida pelo Evangelho até à morte.
Na realidade, aqui não é resultado do antagonismo religioso, que poderia parecer, hoje, uma atitude inconveniente no âmbito de uma relação pacífica com outras religiões, mas do desejo, da paixão arrebatadora pela pessoa de Cristo; é o desejo de assemelhar-se a Ele e de poder, em qualquer situação, dar testemunho d’Ele, que deu a vida por nós; desejo de martírio é, portanto, desejo por Cristo, desejo de corresponder de um modo total, ao dom que Cristo fez por nós.
Von Balthasar diz em seu famoso Cordula: “enquanto vou colocando totalmente em risco a minha vida, atesto haver compreendido a verdade cristã, como a revelação mais elevada possível do amor eterno”. O desejo do martírio - provocado ou buscado diretamente - surge como expressão radical de amor por Cristo e neste mesmo amor de Cristo por cada homem, por quem Ele deu a vida.
O mártir cristão - seguindo os passos do próprio Cristo - expõe-se a si mesmo, por amor de Cristo e da liberdade dos irmãos; doa-se por aquilo que lhe é mais caro ao coração: o dom eucarístico, que Cristo fez de si, com o sacrifício de si mesmo, por amor da própria vida.
A palavra “martírio” indica exatamente “ser testemunhas”. Queria, nesta circunstância, lembrar duas expressões muito fortes, de Bento XVI, na exortação apostólica Sacramentum Caritatis, em relação ao testemunho e ao martírio.
Primeiramente um texto que explica a natureza do testemunho, - testemunho é uma palavra que por sua natureza preserva a auteridade: “Tornamo-nos testemunhas quando, através de nossas ações, palavras e modo de ser, um Outro se faz presente e se comunica. Pode-se dizer que o testemunho é o meio pelo qual a verdade do amor de Deus atinge o homem na história, convidando-o a acolher livremente esta novidade radical. No testemunho, Deus se expõe, podemos dizer, ao risco da liberdade do homem”.
No mesmo
documento se fala do testemunho e do martírio com relação à Eucaristia,
mostrando que os primeiros mártires cristãos entendiam o sacrifício de
suas vidas, como o ápice da experiência espiritual, como logiké latreia,
culto espiritual, ou como deveríamos dizer: culto conveniente ao humano
(R. Penna): “o próprio Jesus é a testemunha fiel e verdadeira (cfr Ap
1,5; 3,14); e veio para dar testemunho da verdade (cfr Jo 18,37)... o
testemunho do dom de si ao martírio, sempre foi considerado na história
da Igreja o ápice do novo culto espiritual: “Oferecei os vossos corpos”
(Rm 12,1). Consideremos, por exemplo, a história do martírio de São
Policarpo de Esmirna, discípulo de São João: todo o drama é descrito
como liturgia, como se o próprio mártir se tornasse Eucaristia. Pensemos
também na consciência eucarística que Inácio de Antioquia exprime em
vista de seu martírio: ele se considera “trigo de Deus” e deseja
tornar-se, pelo martírio, “pão puro de Cristo”. O cristão que oferta a
sua vida no martírio, entra em plena comunhão com a Páscoa de Jesus
Cristo e assim, torna-se, com Ele, Eucaristia. Ainda hoje não faltam à
Igreja, mártires, em quem se manifesta de modo supremo o amor de Deus.
Temos aqui
uma significativa confirmação do caráter eucarístico do martírio
cristão, presente no cristianismo desde suas origens.
Aprendemos que o verdadeiro sentido da existência é dar a vida pelos irmãos, porque, como diz Jesus, não há maior amor do que dar a vida pelos amigos. Todos somos chamados a descobrir o valor determinante do testemunho da nossa fé que pode chegar até ao martírio; um testemunho que na relação com o outro, seja quem for, expõe-se a si mesmo, oferecendo-lhe aquilo que tem de mais precioso, Jesus Cristo e a verdade de seu amor; deste modo, o testemunha se oferece ao risco da liberdade do outro.
Como afirmou recentemente, o neo arcebispo de Milão, Cardeal Angelo Scola: “O martírio, graça que Deus concede aos desarmados e ao qual ninguém pode pretender, é um gesto insuperável de unidade e de misericórdia. O martírio é a derrota de qualquer eclipse de Deus, é a sua volta em plenitude, através da oferta da vida por parte dos Seus filhos. Uma entrega de si, que vence os males, mesmo aqueles “injustificáveis”, porque reconstrói a unidade, mesmo com aquele que mata. Como Jesus tomou sobre Si os nossos males, perdoando-nos com antecedência, assim, o mártir, abraça com antecipação, o seu carrasco, em nome do dom de amor do próprio Deus, reconhecido por todos, como absoluto transcendente (verdade)”.
Por este motivo não podemos deixar de ser gratos a Clara e a Francisco, por seu desejo de martírio, como expressão de supremo amor por Cristo e em Cristo, a cada homem, aos protomártires franciscanos, a todos os confessores e mártires, a Christian de Chergé, a Shahbaz Bhatti e a Padovese: eles nos mostraram o Deus que nunca nos abandona; o rosto terno e forte do Deus da verdade, do amor e da paz.
Prof. Paolo Martinelli, OFMCap
Preside Istituto Francescano di SpiritualitàPontificia Università Antonianum – Roma
Relatório realizado por ocasião da apresentação do livro de Giovanna Casagrande, Intorno a Chiara. Il tempo della svolta. Le compagne, i monasteri, la devozione. (Viator, 13), Edições Porciúncula, Assis, 2011 - promovido pelo Protomosteiro S. Clara - Instituto Teológico de Assis - Escola Superior de estudos Franciscanos e Medievais da Pontifícia Universidade Antonianum (Assis, Basílica de Santa Clara - sexta-feira, 15 de abril, 2011).Pubblicato in: L'Osservatore Romano , giovedì 11 agosto 2011, p. Publicado em: L'Osservatore Romano, quinta-feira, agosto 11, 2011, p. 4. 4.Il martire cristiano – e prima di lui Cristo stesso – non dà la morte a nessuno con la sua morte ma espone se stesso per amore di Cristo e della libertà dell'altro a causa di ciò che gli sta più a cuore: il dono eucaristico che Cristo ha fatto di sé con il sacrificio per amore della propria vita.
Tradução: Irmã Luzinete Ana Maria, OSCMosteiro Santa ClaraAnápolis - GO
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
A Espiritualidade e o Carisma de Clara de Assis (I)
- Extraído de Grande Sinal. Petrópolis. N. 03-6, nov./dez. 2003. Disponível em http://www.itf.org.br/revistas/grandesinal/03_6_2.php acesso em 16 fev. 2012.
Autora: Irmã Sandra Maria, Clarissa
Introdução
Desejamos elucidar os temas espiritualidade e carisma, primeiro em termos de experiência cristã, em seguida, dentro do sentido e da diretiva que Clara de Assis com originalidade aponta, para que possamos aprofundar o caminho de experiência espiritual clariano. Falar de espiritualidade e de carisma é falar de experiência. A experiência não é uma realidade assim tão clara. É sempre difícil partir da experiência e clarificá-la, porque é um dos conceitos mais enigmáticos e difíceis da filosofia. Mas podemos nos aproximar de forma simples do mundo da experiência espiritual cristã, franciscana e clariana, colocando em evidência seus matizes próprios. Nossa espiritualidade está ligada ao modo de viver os dons que Deus nos deu, e precisamos ter clareza sobre as suas linhas fundamentais.
1. O que é espiritualidade
Espiritualidade é a realidade vivida, elaborada
(transformada em teoria), uma modalidade própria de viver e encarar os
princípios teologais, a nossa fé, a esperança e a caridade, o
seguimento evangélico. Para viver uma espiritualidade autêntica
precisamos de docilidade à ação do Espírito e aos seus
desenvolvimentos e moções, numa vida conforme nosso Senhor Jesus
Cristo: isso implica um caráter existencial, concreto, afetivo e
dinâmico. É necessário nos comportarmos de modo a progredir na
espiritualidade. Uma vida segundo o Espírito é progressão aberta a
ulteriores realizações, segundo a graça do batismo atuando em nós.
Espiritualidade é uma sabedoria de vida, uma vivência que implica
ascese, mística, orientação, oração, relacionamento com Deus, consigo
mesma, com as pessoas e com as criaturas, e desenvolvimento dos dons
do Espírito e dos carismas recebidos. Portanto espiritualidade e
carisma se interpenetram: o carisma está implicado na vivência da
espiritualidade. 1.1. Experiência
O fenômeno que chamamos experiência possui uma grande complexidade. O que parece muito simples e fácil é efeito de mecanismos complicados, que a psicologia humana e religiosa ainda desconhece. A experiência é um processo. E o conhecimento dos processos humanos e religiosos vai lentamente sendo desvendado, sem jamais se esgotar. Nossas ações e reações podem ser identificadas somente em parte. Existe uma fome de experiência religiosa e de espiritualidade. Karl Rhaner chegou a afirmar que “o cristão do futuro ou será um místico, ou seja, alguém que experienciou alguma coisa, ou não será cristão”. Isto quer dizer que a experiência profunda das coisas de Deus determina o grau da espiritualidade e da mística.
As experiências significativas sempre fizeram parte da vida do povo de Deus e da Igreja. Nasceram assim as diversas correntes de espiritualidade, as diversas escolas: abraâmica, da Torah, deuteronomista, profética, sapiencial, sálmica, simbólica, evangélica, paulina, joanina, provindas da Bíblia; dos padres e madres do deserto, basiliana, agostiniana, beneditina, cisterciense, das Cruzadas, dominicana, franciscana, clariana, inaciana, carmelitana. Também podemos falar de espiritualidade italiana, francesa, dos países nórdicos, latino-americana, africana, asiática, ou de épocas, como a do século VIII, do século XIX, que tiveram suas características próprias... Espiritualidade é experiência e vida, experiência e empenho. A experiência é sempre algo vital, que existe na própria vida, é a própria vida. A experiência espiritual diz respeito ao Espírito: isso especifica a espiritualidade. A espiritualidade é uma forma concreta suscitada pelo Espírito, de viver o Evangelho. Da experiência espiritual profunda surge a tematização, o testemunho, a narrativa.
1.2. Narrativa
Quanto mais a espiritualidade se torna vivida, mais ela é narrativa. Narração e experiência é um dos binômios muito usados em nossos dias. Há uma forte atualidade para esses termos. Fazer a experiência é uma expressão da vida real, uma maneira de afirmar a convicção de que a experiência tem como elemento essencial de seu processo a realização. Fazer experiência é participar, a partir de dentro, da trajetória experimentada, seguir o caminho da experiência, deixar-se envolver por ela e vivenciar todas as suas conseqüências. A narrativa elucida a experiência.
A espiritualidade necessita da narrativa, mas exige que haja uma relação entre fazer experiência e narrar. E que se exercite a verificação da congruência entre as duas. A narrativa constrói uma teologia da espiritualidade, e isso somente pode fazer quem faz a experiência. Reforçando, somente quem vive uma experiência religiosa pode definir um caminho de espiritualidade e traçar projetos lineares dela.
1.3. Conhecimento a partir de dentro
Espiritualidade é um conhecer a partir de dentro. Descreve-se a experiência que se vive. Esse conhecimento interior que nasceu no íntimo da pessoa estende-se ao exterior com os matizes assumidos internamente. O termo conhecer significa entender ou compreender a partir de dentro. A espiritualidade e a experiência religiosa sempre partem de um conhecimento a partir de dentro, contudo, isso não impede que tenham como conteúdo realidades exteriores concretas.
2. O que é carisma
O termo carisma retoma uma palavra grega, usada no Novo Testamento. Significa dom generoso e tem a mesma raiz de cháris: graça. O Concílio Vaticano II colocou novamente em uso a noção de carisma e distinguiu os dons carismáticos dos hierárquicos, que estão ligados aos sacramentos e aos ministérios. Carismas são aqueles dons especiais do Espírito que nos tornam capazes de assumir uma missão na Igreja, para a construção do Reino.
O termo carisma pode ser empregado no sentido genérico para indicar todos os dons divinos, as novas formas de vida e ação que o Espírito suscita pela adesão ao Evangelho. Neste sentido, o carisma clariano é uma nova “forma de vida”, particular e especial, suscitada no seio da Igreja. Clara viveu o seu carisma irrevogável, provindo de Deus, experienciando uma libertação profunda e crescente. Num sentido mais específico, as Clarissas herdaram o carisma clariano: são chamadas a ser continuadoras do projeto evangélico iniciado por Clara e Francisco de Assis. A fidelidade de nossos fundadores à inspiração divina, à graça, ao carisma inspiracional é a força que continua nos impulsionando e guiando no caminho do seguimento de Jesus Cristo.
A comunidade de Clara é uma comunidade carismática, nos moldes da comunidade dos apóstolos e discípulos e das comunidades cristãs primitivas. O carisma de Clara, ao se tornar uma estrutura estável com o decorrer dos anos, adquiriu uma dinâmica institucional na Forma de Vida elaborada por Clara com base na experiência das regras anteriores e sustentada pela Regra de Francisco.
A vida espiritual clariana difundiu-se e foi interpretada durante os séculos segundo modelos recapitulativos, rememorativos de experiências passadas e em harmonia com a cultura dos tempos. Isso significa atualizar o carisma. Uma espiritualidade madura deve estar continuamente adaptando e atualizando o carisma, deve enriquecê-lo, alimentar suas riquezas. Clara, como mestra espiritual, é um ponto de referência que une a riqueza da experiência ao conhecimento dos valores e das opções vitais. O amor constrói, a contemplação purifica; existem comportamentos vitais que podem ser introduzidos somente em ambientes especiais marcados por vida espiritual intensa, e uma vez descobertos podem ser vividos e acolhidos. Clara é uma mulher de tamanha autoridade moral que sabe induzir comportamentos e mostrar a validade de opções históricas. Clara tem como função abrir caminhos de vida que possam ser percorridos por nós com segurança e firmeza. A instituição clariana, a Ordem das Irmãs Pobres, é um organismo que programa e facilita a referência para o modelo espiritual de Clara, e favorece-lhe o crescimento, construindo espaços de fidelidade e de intensa espiritualidade.
A santidade de Clara e de Francisco é espelho da santidade de Deus. Foram santos porque viveram a união com Deus, acolheram sua graça. Foram santos que tornaram Deus visível, tornaram seus dons frutificados, foram carismáticos, no verdadeiro sentido do termo. Clara e Francisco foram modelos de santidade porque estiveram em condições de atrair para o Evangelho e de induzir comportamentos que manifestam a validade da doutrina que ensinaram. Foram reveladores de Deus, e nos induzem a perfazer-nos com a proximidade que realizam e com a atração ao bem que suscitam.
Existem aspectos da ação salvífica de Deus que requerem entrelaçamento de pessoas, convergência de ideais, para serem acolhidos e revelados. A santidade evangélica de Clara e de Francisco e o seu peculiar carisma na Igreja são comunitários, decisão concorde de todos e de todas que acolhem como bem comum a glória de Deus. Eles entraram em relação com Deus a partir de uma tradição histórica oferecida por uma comunidade eclesial, e foram alimentados por muitas pessoas e por comunidades vivas. É isso viver um carisma.
3. A espiritualidade e o carisma clariano como acontecimento histórico
Os processos históricos e os acontecimentos sociais em que os cristãos e cristãs se encontram envolvidos e comprometidos numa determinada época ou lugar constituem um fator de espiritualidade, suscitando carismas específicos dentro do seio da Igreja. Assim ocorreu com Clara e Francisco. Eles representam um chamado específico de Deus para um carisma vivo, para uma espiritualidade peculiar. Um chamado a certas opções e a certos valores evangélicos, em especial a pobreza, a humildade, a minoridade e a fraternidade, que foram configurando a estrutura das comunidades clarianas e franciscanas, e deram origem a uma forma específica de espiritualidade.
Queremos nos aproximar do tempo de Clara, uma época de transformações, plena de luzes e sombras, em cujo panorama nascerá um outro modelo social, político e econômico; e também um tipo novo de crente, porque ocorrerá uma mudança em que o leigo será protagonista; e ainda, um novo tipo de religioso e de religiosa, marcado pela passagem fundamental do monge e da monja, para o de frei e de irmã. Estas características, que depois de oito séculos podemos esquematizar serenamente, tiveram uma gestação dolorosa e lenta, em que ocorreram tensões, rupturas, e em cujo processo Clara receberá, junto a Francisco e muitos outros, o carisma de orientar seu caminho para a grande reforma que os tempos pediam.
Nosso olhar sobre este período da espiritualidade tem o interesse histórico que busca as raízes; nossos fundadores são filhos de uma situação política, social, cultural e eclesial carregada de ambigüidades, de incertezas, de extremismos, como é a época medieval, junto a uma gama maior de possibilidades que eles puderam descobrir e abraçar, sendo fiéis à Igreja. Neste transfundo, Clara busca e oferece seu peculiar carisma e espiritualidade. Aqui está a importância de conscientizar-nos do fenômeno de um despertar humano global, para poder situar Clara e seu carisma naquilo que possui de novidade e de ruptura com todo um largo processo precedente.
A espiritualidade e o carisma clariano e franciscano, como resposta a uma realidade histórica, são um processo histórico, social e eclesial, que apresentam fatos, situações, valores que nós, como Clarissas e Franciscanos, devemos captar e interpretar em toda a sua significação. Tudo isso constitui para nós um chamado a decifrar os nossos valores, que nos são revelados pelo conhecimento e aprofundamento da história da Ordem das Irmãs Pobres, desde a sua gênese, para que possamos incorporá-los em nossa vida e em nossa vocação. Isso fará com que sejamos cristãs plenas de consciência de sua espiritualidade e de seu carisma. Conscientes do processo histórico que foi vivido durante os séculos na Ordem, para viver a fidelidade ao carisma inicial, e conscientes de ser testemunhas hoje da validade e da atualidade de nossa espiritualidade e de nosso carisma. Capazes de ativar uma formação eficiente, como resposta ao nosso contexto cultural, e de criar uma renovada espiritualidade, capazes de assumir e de expressar o carisma clariano, como uma nova síntese para o nosso contexto de vivência. Assim, afirmamos que nossa espiritualidade e nosso carisma são atuais, e podemos torná-los adequados para nossa situação histórica hoje. Trata-se de algo inerente à nossa fé cristã, que se desenvolve e se encarna em pessoas, circunstâncias e épocas específicas. Trata-se de um seguimento evangélico e de um carisma específico. Isso é o desafio com que nos defrontamos como atual geração de Clarissas. As profundas mudanças na situação social podem constituir uma das causas de crise para a nossa espiritualidade, mas podem ser também um desafio a traduzir para o hoje de nossa história toda a riqueza de nosso carisma, e torná-lo chamativo e atraente para muitas jovens de hoje.
4. As fontes da espiritualidade e do carisma clariano
A experiência de fé que Clara e Francisco viveram é a medula de nossa espiritualidade. E foi na Palavra de Deus, especialmente no Evangelho, que eles encontraram a fonte e a raiz de seu carisma peculiar. Na escuta fiel da Palavra de Deus teve início uma resposta que trouxe atrás de si oito séculos de história de um carisma vivido e encarnado.
Esse é um fato da experiência clariana e um testemunho vivo que chega até nós através de todos quantos conviveram com ela. A experiência de Clara nos mostra que aquilo que a manteve firme na fé e no seguimento foi a capacidade de ouvir o Senhor, na proclamação da Palavra de Deus, nas alocuções e pregações, na vida orante e silenciosa, na contemplação, na partilha da vivência de irmãs. Em Clara, podemos ver precisamente que a Igreja constitui o lugar habitual e necessário para a geração de sua espiritualidade e de seu carisma; a Palavra de Deus lhe veio da vida eclesial, o Evangelho lhe foi dado pela comunidade cristã, especialmente representada pelo ideal de Francisco. E assim, Clara e suas irmãs puderam reescrever uma das mais belas novas páginas de experiência de Igreja, do povo de Deus, no estilo das primitivas comunidades cristãs.
Podemos perceber, através de todos os escritos de Clara, quanto foi importante para o desenvolvimento de sua espiritualidade e do desabrochar de seu carisma o seu contato pessoal com a palavra de Deus, sobretudo com o Evangelho. São numerosas as citações bíblicas em seus escritos, em geral não literais, mas como fruto de uma rememorização, de uma ruminação afetiva. Assim como Clara, para descobrirmos o caminho de nossa espiritualidade, e o modo de colocar nossos dons a serviço da Igreja e da Ordem, precisamos de uma escuta mais pessoal da Palavra. Acima de tudo deve-se destacar que a Bíblia permanece o paradigma e a fonte de toda a nossa espiritualidade clariana, destacando-se sobretudo os Evangelhos, porque a nossa Forma de vida é “viver o Santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo”. Na leitura cristã da Bíblia, os Evangelhos devem ocupar o lugar central. Eles representam para nossa espiritualidade o sentido primordial e mais denso, já que Jesus Cristo é colocado como o espelho e modelo de conformidade. O Evangelho constitui para nós o acesso necessário à humanidade de Deus e a seu conhecimento e seguimento por amor. Uma Clarissa não pode deixar de ler diariamente o Evangelho, meditá-lo, ruminá-lo, nutrir-se dele.
Quando as irmãs se inspiram na Palavra de Deus e por ela pautam sua vida, a profundidade e solidez de nossa espiritualidade cresce, e podemos ver desabrochar os dons que Deus nos concedeu, o nosso carisma. A escuta e o contato periódico, diário, constante, na oração e na contemplação, apresentam uma fecundidade e uma capacidade capazes de gerar uma renovada vivência de nossa espiritualidade. Mais ainda, a partilha da palavra de Deus é a fonte de nossa espiritualidade e constitui um verdadeiro sacramento da presença do Espírito de Jesus entre nós; ler o Evangelho no espírito de discípulas significa encontrar Jesus. Juntamente com a eucaristia, constitui a experiência mais intensa de Jesus na vida cristã e clariana.
Podemos definir ainda como fontes da espiritualidade e do carisma clariano a vida sacramental da Igreja, especialmente a Eucaristia e a penitência; o testemunho da Igreja, a Virgem Maria, os santos e santas, a presença das irmãs e dos irmãos. Para o caminho clariano, as irmãs constituem uma fonte indispensável da espiritualidade. Todas as outras fontes ficariam deformadas se não levassem à prática do amor recíproco, que é a prova decisiva de nosso seguimento de Jesus Cristo e de que vivemos segundo o Espírito (continua).
Endereço da Autora:
Mosteiro Nazaré – Irmãs Clarissas
Av. Papa João XXIII, 1113 – Petrópolis
Lages, SC/BRASIL
88505-200
A segunda e última parte
não está disponível na Internet
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
800 anos da Vocação Clariana : [O Crucifixo de S. Damião]
Este filme celebra os 800 anos da Ordem de Santa Clara. Foca o Crucifixo de S. Damião como origem do carisma francisclariano. Inicia com a conversão de Francisco e apresenta, a seguir, a consagração de Clara nas suas mãos, perpetuada nas Clarissas de hoje e sempre.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
A ética é mais determinante que as crenças
“Lendo com atenção o relato do Juízo Final (Mt 25, 31-46), descobre-se que o que importa, o que interessa, o que Deus levará em conta, no juízo último e definitivo da humanidade, não será a fé, nem a religiosidade, nem a piedade, mas apenas uma coisa: o comportamento que cada um teve para com os seus semelhantes, especialmente com os que mais desfavorecidos”.
A reflexão é do teólogo espanhol José María Castillo, em seu blog Teología sin Censura, 01-12-2011. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
De acordo com os Evangelhos, Jesus deu a entender, com frequência, que é isto que lhe importava. Neste sentido, é eloquente o relato da cura do criado de um centurião romano (Mt 8, 5-13; Lc 7, 2-10; Jo 4, 43-54). Aquele militar, como todos os militares do Império, tinha que fazer um juramento de fidelidade ao Imperador, que era considerado como Deus (“ipse deus”). Portanto, aquele centurião não tinha as mesmas crenças que os israelitas. Não tinha as verdadeiras crenças, mas tinha uma conduta exemplar, ao se preocupar tanto por remediar o sofrimento de um criado. E por isso, Jesus disse: “Eu lhes garanto que em nenhum israelita encontrei tamanha fé” (Mt 8, 10; Lc 7, 9). Que fé tinha aquele militar pagão? Nós diríamos: “uma fé equivocada”. E, no entanto, na opinião de Jesus, por mais equivocado que se esteja na fé, se é boa pessoa de verdade, isso é mais determinante, diante de Deus, do que todas as crenças, por mais ortodoxas que sejam. E, caso contrário, como se explica que na parábola do bom samaritano (Lc 10, 30-37), precisamente o modelo que Jesus coloca é o do herege samaritano, em contraste com o sacerdote e o levita, que eram os modelos da ortodoxia observante?
Não estou me exasperando. As “crenças religiosas” dividem as pessoas e opõem os crentes. Por causa das crenças se perseguiu, se torturou, se fez guerras, se matou os infiéis e agora se ofende e se insulta aqueles que não concordam com as crenças que eu tenho. Ou seja, por causa das crenças se despedaça a ética e se despreza os pecadores. E, em definitiva, as crenças são, com frequência, o argumento que justifica e legitima a violência. Pelo contrário, a retidão ética e a bondade com misericórdia, é isso que une, que rompe os fanatismos e acaba com os integrismos fundamentalistas, que tanto mal nos fazem e tanto sofrimento geram.
Termino com uma pergunta importante neste momento: é possível garantir que os povos mais crentes e observantes são exatamente os povos em que há menos corrupção, mais honradez no trabalho, mais honestidade na hora de fazer a declaração do imposto de renda, mais generosidade nos patrões e mais laboriosidade nos trabalhadores? Que cada qual veja, em sua consciência, que resposta damos a esta pergunta inquietante e incômoda.
- Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/noticias/504534-a-etica-e-mais-determinante-que-as-crencas acesso em 06 dez. 2011.
- Ilustração: Darstellung an einer Hauswand des Dialoghotels Neuendettelsau /foto de Alexander Rahm. 2008. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Diakoniegemaelde_Neuendettelsau.jpg acesso em 06 dez. 2011.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Virtudes franciscanas
Para o franciscanismo
o humano é a sinfonia de Deus
Chegamos num ponto de nosso percurso onde vamos tratar das Virtudes tipicamente Franciscanas. Já refletimos, preparando esta parte, sobre a Virtus in medio. Esta expressão vem de um ditado latino, muito em evidência no período medieval, que significa: a virtude está no meio. Meio
aqui entendido como ponto de equilíbrio, a força que vem daharmonia.
Um processo que inspirava os penitentes de então: a contínua eliminação
de excessos, para chegar à medida exata do coração, e com serenidade,
superar as vicissitudes e perturbações. Como diz Hermógenes Harada: “Há
a versão “soft” e a versão “hard” dessa harmonia preestabelecida. A
“soft” diz que a pessoa virtuosa é sem tribulações e contrariedades.
Sem cortes abruptos e sem por limites bruscos na sua personalidade. É
como as águas mansas de um lago sem ondas. Está no gozo da harmonia
perfeita, natural. Nela, dificuldades e desgastes, suores e sofrimentos
do árduo mourejar estão superados e não podem existir. É a serenidade
das águas mansas. A versão “hard” diz: o virtuoso é um lutador. Deve
ser firme, impávido, estóico, imutável e disciplinado. Domina soberano
todas as suas paixões. É senhor de si e das situações. É a fortaleza
das rochas no meio das águas impetuosas”.
O caminho das Virtudes tipicamente franciscanas passa pela
busca incansável dos dons e frutos do Espírito, pelos Conselhos
Evangélicos, que são tantos, mas intensamente convergentes nos três
conselhos que se tornam Votos: Obediência, Pobreza (sine proprium) e
Pureza de Coração; e tem muita inspiração nos votos cavaleirescos. Se a
força do Movimento que nasce naquele momento e move Assis,
transforma-se em Ordem e abala o mundo, foi um caminho de virtuosidade, e
que bebeu em seu tempo os anseios por uma qualidade humana; hoje
também estamos numa época, em que na moral, na ética, na teologia, na
espiritualidade, na filosofia de identidade, volta-se a falar de
virtudes. Antigos tratados são retomados à luz dos desafios de novos
tempos.
Na passagem entre a era industrial e a época pós-moderna, a
pessoa virtuosa era considerada aquela que tinha ares e práticas
consideradas piedosas e beatas. Hoje se destina e molda pessoas de
beatitude, isto é, pessoas realizadas, felizes, vigorosas, éticas,
modelos vivos, engajadas em causas nobres da contemporaneidade. Hoje
pessoas virtuosas são aquelas que estão no empenho e desempenho de
superar-se. Diz Mestre Eckhardt (1260-1327): “O humano não deve achar
sua obra boa, por melhor que ele a tenha executado, a tal ponto de se
sentir nela à vontade e assegurado de si. Pois, se tal acontecer, a sua
capacidade de captar, a sua razão se tornará preguiçosa e adormecerá.
Antes, deve continuamente se levantar e erguer-se, com ambas as forças
de seu ser, isto é, com razão e vontade, e neste alçar-se, agarrar o
melhor de si, a sua identidade, no mais alto grau. E, com cuidado e
ponderação, precaver-se, por dentro e por fora, contra toda e qualquer
falha nessa ação. Se assim o fizer, ele jamais perderá o ser em nenhuma
coisa; antes, crescerá sem cessar em alto grau” (ECKHARDT, Meister, O Livro da Divina Consolação e Outros Textos Seletos, Petrópolis: Vozes, 1991, p 110).
Voltemos ao tema das Virtudes tipicamente Franciscanas. O
mundo de seguidores da vida franciscana tem como modelo São Francisco de
Assis, um homem virtuoso. Ele mesmo personalizava as virtudes, por
isso as chamamos tipicamente franciscanas. Diz o grande historiador
Jacques Le Goff: “(Francisco) revela a profunda marca de um amor cortês
que confere admirável expressão aos sentimentos do santo por sua dama,
a Senhora Pobreza, e ao seu “amor intenso e genuíno pelo próximo”, sem
falar da “cortesia fraterna” em relação a toda criação, inclusive
“nossa irmã Morte corporal”, dádiva graciosa de um senhor em quem se
encarna um ideal feudal interiorizado em termos de família, pai, mãe,
irmão, irmã.”( in: Frugoni, Chiara, Vida de um Homem: Francisco de Assis, São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 12.) .
Por que virtudes tipicamente franciscanas? Por ser o modo, o
ponto de vista, ou melhor, o ponto de partida, da aventura do Espírito
para elucidar o sentido da vida. É o dever ser, a força ética, o jeito
próprio de morar e reconstruir a moradia. O “ethos” franciscano tem um
jeito típico de educar, disciplinar, cultivar uma identidade sonhada. É
o “eu devo”, “eu posso”, “eu quero” percorrer um caminho virtuoso. “De
boa vontade o farei, Senhor! ( LTC, 13) É formar-se, de olho nas
Fontes Franciscanas e Clarianas, perceber a força que deu qualidade a
um grupo humano nobre, fraterno, humano e divino ao mesmo tempo. Elas
brotaram da verdade de quem olhou as manifestações do Espírito, abraçou
como comprometimento a Boa Nova, as virtudes do Evangelho, Jesus
Cristo, Francisco de Assis, Clara de Assis e a essência do humano que
daí se revela. Melhorar o humano é entrar numa escola de virtudes e dar
um acabamento melhor ao humano, experimentando o que a experiência
franciscana traçou e viveu como projeto de vida. Nem sempre sozinho
conquisto uma identidade; mas é a tarefa de refazer a boa caminhada de
muitos.
Vamos elencar Algumas Virtudes Tipicamente Franciscanas:
MINORIDADE: É a renúncia do status de
quem tem, pode e sabe. É não apropriar-se do próprio poder, mas
conviver com a força de tudo e de todos. É a renúncia da superioridade.
Se o mar, vindo da potência de sua interioridade, não tivesse a
coragem de morrer mansamente na praia, não haveria o espetáculo das
ondas, não haveria a magia da praia. Muitos ligam a minoridade à
pobreza, ao desapego, a desinstalação. Isto é, apenas uma natural
consequência, uma irradiação do ser menor. A minoridade é um modo de
ser, uma forma de vida. É a conformidade com a grandeza e onipotência
de um Deus que se revelou na simplicidade de um Menino.
Um Deus, que no seu amor tão grande Encarnou-se em Jesus
Cristo e experimentou estábulo, manjedoura, fuga para o Egito, ceia,
lava-pés, colocou o coração divino nas mãos, nos pés, nas palavras e se
misturou na paisagem do humano. A minoridade remete à vassalidade, ao
serviço, ao ser servo. Na Carta aos Fiéis, 47, diz São Francisco:
“Nunca devemos desejar estar acima dos outros, mas antes devemos ser
servos e submissos a toda humana criatura por causa de Deus”. É não
usar o cargo como cargo de mando, mas de serviço prestado por amor. Ser
menor é amar com um amor que não faz acepção de pessoas. Ama a todos
incondicionalmente, ricos e pobres, bons e maus, fracos e fortes,
amigos e inimigos, simpáticos e antipáticos. Ser menor é não querer
estar acima dos outros ou acima de tudo, mas testemunhar uma presença
silenciosa e amorosa.
A minoridade é a humanidade da Divindade. É ver a gritante
simplicidade como Deus ama e, sob o filtro do Evangelho, amar assim do
jeito do Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo. A minoridade é a
consciência e a afirmação do ser criatura. Ser pequeno diante da
grandeza de o todo ser criado, ser irmão e irmã de toda família
criatural, estar num perene estado de gratidão e graça. É como o
primeiro e remelento olhar de criança se abrindo ao mundo num encontro
de brilhos. A minoridade é fé; não no sentido de conjunto de doutrinas
para se crer, mas como admiração, enamoramento, abandono ao colo da
vida. Ver todas as coisas com olhar de poeta e sentir-se um nada diante
da grandeza de tudo.
BELO, BOM, BONDADE: O grande mestre de Paris, o franciscano Alexandre de Halles, sintetiza esta força virtuosa criando a reflexão sobre o Belo e o Bom,
a estética franciscana. O que é o belo e o bom? Ele mesmo, entra no
hábito franciscano, vai para dentro da academia com os pés descalços e o
máximo despojamento, na fluência da transparência do simples e
natural. Ele diz que o belo e o bom revelam grande expressividade da
mística da Encarnação: o Deus Humilde aparece na beleza da Criança, na
tessitura da bondade. É a redescoberta do que a vida tem de melhor:
convocação divina e convocação do amor! O Belo é o transparente e o
transcendente, o Uno e o Vero. O Belo é sempre percepção, chamado,
apelo, um grito para perceber o real, o palpável, o sensível. Não
podemos estar no grito de abandono de todas as coisas, é preciso
vê-las, percebê-las, senti-las. A forma do Belo, (ver a Beleza de tudo o
que é), torna-se amada e imitada, cria o discipulado e arrasta. Não
basta só um entusiasmo inicial, é preciso um dinamismo constante, um
impulso de vida exercitado na convivência com o valor de todas as
coisas. Quanto mais você entra neste dinamismo mais se torna vivaz
(percebe a vida que está dentro) e mais a vida floresce; então se
descobre a arte da vida. O que é a Arte, ou melhor, a virtuosidade da
Arte? É ser um artista da vida. O artista é aquele que vive imerso nas
estruturas da vida e nelas coloca a sua profundidade, a sua
interioridade, a sua sensibilidade. Neste sentido, é preciso, ser, ter,
fazer e conhecer a arte para se ter um projeto de vida.
O franciscanismo é um modo místico, espiritual,
existencial, cultural e sensível de estar na vida. Não é só aplicação
técnica de uma filosofia de vida ou postura de vida, mas é saber que a
vida é Arte Divina e Arte Humana, é Lógica de Amor, isto é, um grande
encontro entre a inspiração, o sopro, o hálito que dá vida a tudo com o
Humano, com o Divino e a Fraternidade. A partir daí o belo não basta, é
preciso ser bom.
O que faz a pessoa bonita é a Bondade. A bondade é uma
virtude; e a virtuosidade, como um conjunto de virtudes, é a beleza
maior e a mola propulsora de todos os gestos de amor e cuidado. O que
faz o mundo bonito é a bondade esparramada de todas as coisas: “Louvado
sejas, meu Senhor, pela
Irmã Água que é mui útil, humilde, preciosa e
casta”.
A fecundidade da vida vem deste movimento. A terra boa é o
coração belo e bom. Esta é a síntese da perfeição. O belo é a expressão
natural e perfeita do bem. O bom é a plenitude da caridade. Francisco
viveu esta experiência. O mestre da Paris escreve e impulsiona esta
reflexão. Alexandre de Halles descobre a filosofia franciscana da
Beleza como difusão do Bem: esta é a verdadeira estética do Simples.
O invisível e o visível, a essência, a medula, a
profundidade tomam forma, quantidade, cor e qualidade. Sai de si e
atinge o humano. Como um ato amoroso da vida toma forma num corpo.
Torna-se figura, imagem. Como? Com o vigor da simplicidade, da
transparência. Para isso é preciso saber sentir, escutar e ver.
Sensibilidade à flor da pele, a Palavra nos ouvidos e a Imagem nos
olhos. Perceber e amar. Escutar e crer. Ver e professar. Disto surge
uma bela e boa espiritualidade. Para o franciscanismo ver, falar e
escrever e igual a pintar. As virtudes do belo e do bom nos fazem
artistas que esculpem e pintam o mais belo quadro da Paisagem do Humano
e da Paisagem do Divino. Somente assim a palavra ressoa e refulge,
encarna-se, plastifica-se. Somente assim podemos compreender Francisco,
o canto das criaturas. Francisco não quer possuir as criaturas, mas
cantar o valor e a beleza que elas possuem. É a arte de conhecer e
reconhecer os dons e as virtudes da existência. Reconhecer é fazer então
uma nova criação. Recriar com o Criador. É perceber que o Belo é
alegria e o Bom uma sabedoria criadora; enfim, é ver todo o criado
impregnado de Beleza. Para o franciscanismo o humano é a sinfonia de
Deus e por isso deve conquistar a harmonia espelhando-se na harmonia do
natural.
Quando alguém é unificado por uma intensa experiência
afetiva e espiritual torna-se uma fonte. O movimento franciscano, que
brota da estética do belo e do bom, tem sua base em alguém: a
experiência concreta e vital de Francisco de Assis, um homem de coração
enamorado pela vida e pelo Deus da vida! O seu forte amor progressivo e
cheio de energia faz com que ele e seus seguidores e seguidoras
tornassem criadores e criativos. Daí surge uma arte de viver. A fonte
da Arte Franciscana é a paixão. O apaixonado é sensível, antenado, real
e contemplativo. Escolhe o natural e transforma o natural numa
linguagem. O natural sempre nos atinge e nos refaz. Existe a Beleza do
Simples? O que é a Beleza do Simples? É descobrir e fazer aparecer o
modesto em sua força. Uma fragilidade que é potência. A grandiosidade
da vida, do mundo e das pessoas só é dada para quem tem os olhos
voltados para esta Beleza.
Queria abrir, neste ponto da reflexão, um fato que a meu
ver é um fenômeno que vem do Belo e do Bom. São Francisco é o santo
mais representado na iconografia. Podemos ir muitas feiras de
artesanato, em lojas de artigos para presentes, em loja de antiguidades
e outros objetos de decoração, em lojas de artigos religiosos, em
bancas de artistas autônomos e anônimos, em galerias de artes e em
muitas exposições de pintura e escultura; sempre estará ali uma imagem,
um quadro, um banner, um pôster, um arranjo com São Francisco. Muitos
artistas, religiosos ou não, o moldam e pintam. Por quê? Será porque há
estudiosos do fenômeno religioso que o apontam como o maior herói
religioso depois de Jesus Cristo? Ou porque ele é um arquétipo humano, o
melhor de nós, uma expressão cristalina das virtudes que sonhamos. O
humano divino que gostaríamos de ser. Ele, no seu modo de ser natural,
foi pródigo, nobre, jovial, cordial, magnânimo, penitente, generoso,
amigo, cavaleiro, terno e fraterno. Criou uma revolução de amor e, por
isso mesmo, tornou-se um reformulador social e eclesial. Permanece para
sempre nas representações da humanidade porque tinha
consciência historial, vive intensamente a sua época e mostra algo de
novo para o seu tempo. Um homem cheio de encontro, de amor, de brilho,
sem cair no pieguismo. Para o povo e para os artistas ele é a
visualização das virtudes que gostaríamos de ter e que podemos ter. Ele
é a teologia da imagem. O que é a teologia da imagem?
É perceber que a transparência é carisma maior. Ser uma
pessoa verdadeiramente espiritual é a maior evangelização, a maior
missão, a maior pastoral que existe. Ele é o que é! Onde passa, toca,
fala e acolhe, ali nasce alguma coisa. Ele é o santo do Amor, da paz,
da convivência. Ama intensamente e deixa que o Amor viva intensamente
nele. O Amor se fez forma nele e o estigmatizou. Ele incorporou todos
os dons que um humano pode receber do Divino.
As imagens, quadros e esculturas sobre Francisco querem
dizer o que? Elas são uma constante recordação de que precisamos a cada
dia encher a nossa vida do Belo e do Bom. Ele é uma coisa boa de
ver-se! Olhar o santo e encher-se de graça. Não é a adoração de um
ídolo, mas é abraçar um modelo referencial de grandeza. São Francisco
desejou ardentemente fazer o bem. Quem faz ardentemente o bem em vida
continua fazendo o bem após a morte. Quem ama intensamente sempre se
eterniza em todas as representações. Quem não vive para si mesmo
ultrapassa a barreira do tempo e se atualiza numa obra perene.
Ele teve a firme e forte vontade de realizar tudo o que
queria, por isso permanece. Ao vê-lo nós refazemos a nossa vontade, às
vezes tão fragmentada. Olhamos para ele para cuidar do Espírito. Hoje, o
mundo das agências de top models olha para a representação humana para cuidar de que?
Francisco transmite uma energia divina vivendo no humano.
Ele é a expressão simples e reveladora da pureza de coração, da
mansidão, da fortaleza, do amor fecundo. Ele é uma sensibilidade
suspensa no ar, numa vitalidade que transparece. Num coração aberto
para o Absoluto, o Pai sempre deposita sua beleza. Os artistas captam
isso com mais facilidade e mostram que o espírito sempre trabalha na
imagem. Não seria este o segredo de tantas representações? Quem vê um
belo panorama se enamora, se encanta.Se nos colocarmos diante do vazio,
como apaixonarmos?
- Frei Vitório Mazzuco cursou Teologia e Filosofia, em Petrópolis, e fez pós-graduação em Teologia Espiritual, na Pontificia Università Antonianum, em Roma, obtendo o mestrado. Sua tesina, publicada em forma de livro, leva por título: “Francisco de Assis e o modelo de amor cortes-cavaleiresco: elementos cavaleirescos na personalidade e espiritualidade de Francisco de Assis” (Vozes 1994). Atualmente, ele é reitor do Santuário de Santo Antônio, no Largo da Carioca, na cidade do Rio de Janeiro, professor de Franciscanismo, em Piracicaba, no Rio de Janeiro e em Petrópolis. Também é pesquisador do IFAN (Instituto Franciscano de Antropologia), entidade ligada à Universidade São Francisco de Assis, em Bragança Paulista, e dedicada às áreas de Franciscanismo, Teologia e Ciências da Religião, Estudos Humanísticos, Estudos da Cultura Moderna e Pastoral.
- Extraído de http://www.franciscanos.org.br/itf/cursos/extensao/curso1_2011/7.php acesso em 10 nov. 2011.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
O Código da Cavalaria Medieval
"O cavaleiro é o representante
de uma liberdade absoluta
que se entrega a uma causa."
Façamos uma reflexão sobre um dos pontos deste nosso per+curso de Espiritualidade que aborda o Código da Cavalaria Medieval como uma Fonte inspiracional das Virtudes sob a ótica franciscana. Francisco e Clara de Assis viveram na época medieval, tempo este que nos revela uma nítida cultura de amor. Hoje nós, pós-modernos, temos um velado preconceito sobre a Idade Média, que vaza para nós no redutivo conceito do obscurantismo, da idade das trevas, da inquisição ou do conservadorismo; mas vamos deixar qualquer leitura ideologicamente assim definida, e façamos uma pergunta: tem a nossa atualidade histórica, hoje, uma cultura de Amor? Pois a Idade Média tinha e de um modo muito nítido. É neste período que nasce, cresce e é abraçado como um projeto de vida o Ideal do Amor Cortês Cavaleiresco. O que é, e o que inspira o Amor Cortês Cavaleiresco? No meio de uma civilização rude, que conhece as batalhas, ambição, o fastígio da glória e das conquistas, o choque entre permanecer no ciclo fechado de feudalismo dominando ou abrir-se para uma nova civilização baseada nas comunas (a organização da civitas, o nascimento das cidades), entre as tensões do poder dos imperadores (que querem unir reinos) e do papado ( não podemos esquecer que neste período a eclesiologia tem força de estado e pensa como os impérios); em meio a toda esta ebulição vai surgindo uma nova linguagem, um novo costume, um sentimento novo, um novo código de comportamento.
O que a sociedade pós-moderna de hoje tem a ver com a medievalidade ainda tão atraente? Porque ela continua a revelar uma originalidade, uma civilização que traz evidente modelo de vivência que pode iluminar e elevar o nível da civilização atual tão carente de modelos de grandeza. A Idade Média, esta época da história tão rica de expressões vitais, nos legou um modelo humano em suas dimensões mais variadas: o monge, o camponês, o intelectual, o artesão, o clero, o mercador, a mulher, a família, o santo, o guerreiro, o nobre, o leproso, o excluído. Mas, sobretudo, o mundo medieval nos passou três tipos que marcaram por demais a sociedade cristã: oratores, bellatores, laboratores. Os que oram, os que combatem, os que trabalham. Estes elementos construíram a paisagem social não só deste período, mas encontraram correspondência nos tempos que se sucederam. De todos, escolhemos um modelo deste complexo humano medieval que remetia a um princípio, a uma busca, a um projeto de vida. Escolhemos uma grande figura que é um símbolo de toda uma civilização: o Cavaleiro Medieval e seu Código da Cavalaria.
O cavaleiro não é somente um célebre arquétipo de um imaginário sempre fascinante, mas foi o meio com o qual o ocidente cristão encarnou, organizou, e defendeu o próprio ideal de humanidade e de sociedade. Um símbolo vindo de longe, porém com uma orientação profunda, que ergueu uma ética e uma espiritualidade diferente daquela dos círculos eclesiásticos; pode-se dizer que criou uma moral leiga. O cavaleiro surge também como uma figura de edificação moral do combatente autônomo e do exército que servia os senhores feudais, uma afirmação concreta da cristandade entre os leigos, uma divulgação apaixonada do humano e do sagrado. Aí é que reside o seu ponto de atração ainda hoje vital; e o chamado que continua a fazer e exercitar constitui o lado mais profundo do interesse de hoje sobre a função da civilização medieval, num tempo atual onde vivemos uma profunda e geral crise de valores e falência do caráter.
O mundo medieval tem como grande característica no campo das ideias gerais: as concepções religiosas que a tudo invadem e explicam; e, no mundo dos ideais do seleto grupo da nobreza, a inspiração cavaleiresca, para reduzir tudo a um belo quadro, onde brilhava a honra e a virtude; um elegante jogo de formas nobres para criar ao menos a ilusão de uma certa ordem. Mas o que é mesmo este ideal cavaleiresco? Enquanto ideal de uma vida bela e justa, a concepção cavaleiresca tem uma característica singular: é um ideal estético na sua essência, composto de uma fantasia muito variada, plena de emoção heroica. Quer ser um ideal ético, quer valorizar um ideal de vida, colocando-se em relação com a piedade religiosa e com as virtudes vividas na nobreza, especificamente na corte. É a misteriosa mistura de consciência moral e ambição que sobrevive na pessoa humana quando já perdeu tudo: fé, amor, esperança. É aquele sentido de honra que sobrou na pessoa, e que, bem trabalhado, torna-se fonte de novas forças. Uma positiva ambição pessoal que é desejo de glória; uma vontade apaixonada de ser lembrado pela posteridade. Uma inspiração que não anda separada do culto do herói, porque a vida cavaleiresca é uma constante imitação, uma luta constante.
Piedade, coragem, austeridade, sobriedade e fidelidade era a imagem de um cavaleiro ideal. Isto não se adquiria sem certa exigência, sem certo ascetismo. Este mundo de sentimentos ascéticos é a base sob a qual cresceu o ideal até chegar a ideia de perfeição (per+facere ): uma intensa aspiração a uma vida bela, uma energia animadora. O cavaleiro é o representante de uma liberdade absoluta que se entrega a uma causa. Tem a coragem de arriscar a sua vida por algo muito grande na medida em que a causa exige. (Esta reflexão é a síntese de um texto maior e mais aprofundado; cf. MAZZUCO, Vitório. Francisco de Assis e o Modelo de Amor Cortês Cavaleiresco. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1994.)
- Frei Vitório Mazzuco cursou Teologia e Filosofia, em Petrópolis, e fez pós-graduação em Teologia Espiritual, na Pontificia Università Antonianum, em Roma, obtendo o mestrado. Sua tesina, publicada em forma de livro, leva por título: “Francisco de Assis e o modelo de amor cortes-cavaleiresco: elementos cavaleirescos na personalidade e espiritualidade de Francisco de Assis” (Vozes 1994). Atualmente, ele é reitor do Santuário de Santo Antônio, no Largo da Carioca, na cidade do Rio de Janeiro, professor de Franciscanismo, em Piracicaba, no Rio de Janeiro e em Petrópolis. Também é pesquisador do IFAN (Instituto Franciscano de Antropologia), entidade ligada à Universidade São Francisco de Assis, em Bragança Paulista, e dedicada às áreas de Franciscanismo, Teologia e Ciências da Religião, Estudos Humanísticos, Estudos da Cultura Moderna e Pastoral.
- Extraído de http://www.franciscanos.org.br/itf/cursos/extensao/curso1_2011/index_5.php acesso em 08 nov. 2011.
- Ilustração: : Détail d'un vitrail de la Cathédrale Notre-Dame de Chartres. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vitrail_Chartres_210209_04.jpg acesso em 08 nov. 2011.
Frutos do Espírito Santo
Falemos dos Frutos do Espírito Santo. Os Frutos são a visibilidade da semente. As virtudes nos levam primeiro a amadurecer e florescer por dentro, esta fecundidade salta para fora e tem seus frutos. É a colheita de um paciente cultivo; o que cada um tem feito e semeado com tudo o que a vida tem feito e ofertado na caminhada. Frutos são a transformação do natural; frutos são o cultivo do melhor. É melhor passar fome do que comer qualquer coisa. Vida verdadeira, profissão verdadeira, religião verdadeira é quando se faz uma viagem de cultivo e transformação. Temos que trabalhar com a semente interna que somos; assim ela pode crescer a tais alturas que o mundo do vazio e do sem sentido deixa de existir.
Na tradição cristã a inspiração dos Frutos do Espírito Santo vem da Carta de São Paulo aos Gálatas, capítulo 5, versículos 13 a 26. Anselm Grun diz: “ O apóstolo Paulo nos mostra a fonte do Espírito Santo que fertiliza a nossa vida a partir dos frutos do espírito divino que ele apresenta na carta aos Gálatas. Paulo compreende o Espírito Santo como uma fonte da qual nascem vários frutos. Trata-se, em última instância, de virtudes que ele assume segundo a ética da filosofia grega(...).Podemos compreender estas virtudes como fontes das quais podemos nos abastecer porque nos ajudam a enfrentar a nossa vida. Quando tomamos consciência de tais valores, estes conferem valor a nossa vida. Em latim se fala das virtutes , ou seja, forças ou fontes de força das quais nos abastecemos para vivermos bem. Essas virtudes nos conectam com o potencial da nossa alma, potencial este que está à nossa disposição para realizarmos a nossa vida . O objetivo de Paulo é que nossa vida tenha êxito.E ao mesmo tempo considera importante o Espírito Santo causar efeitos visíveis em nós. Podemos conhecê-los através de seus frutos. Mas o fruto do Espírito Santo é amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, mansidão, domínio de si ( Gl 5,22-23) Paulo fala do fruto do Espírito no singular, pois pensa em uma única fonte. O Espírito Santo é a fonte, através da qual o fruto do espírito se torna visível no ser humano” ( Grun Anselm, Fontes da Força Interior, Vozes, Petrópolis, 2008, pg 90-105).
Na carta aos Gálatas, em tom exortativo e doutrinal, Paulo empenha-se em apresentar o verdadeiro rosto da liberdade cristã e sua retidão: ela vem das qualidades libertadoras de Cristo: libertar-se do egoísmo, do carnal, da idolatria, das forças negativas. Os frutos do Espírito Santo nos levam a aderir às forças fundamentais da vida, a abrir-se à Deus e à humanidade, orientando a existência segundo os critérios do amor ( Gl 5, 13-15). A carta aos Gálatas especifica e concretiza a condição fundamental para que isto se realize: caminhar segundo o Espírito (v.16), deixar-se guiar pelo Espírito (v.18), possibilitar uma intervenção do Espírito, que com seus frutos nos dá os princípios ativos e determinantes da liberdade cristã.
Pela inspiração da Carta aos Gálatas, a tradição cristã fala dos Doze Frutos do Espírito Santo. Quais seriam e o que são estes Doze Frutos do Espírito Santo? Vamos elencar e tecer um breve comentário:
CARIDADE: É o Amor transformado em prática, em obras, é o Ágape. Caridade é o conceito cristão paulino para a prática do Amor. É o Amor feito gestos concretos de atuação. É o primeiro e grande fruto do Espírito Santo, porque é de fato a fonte e a quintessência de todos os dons e de todas as virtudes. A caridade contem a alma da vida cristã. Como diz o apóstolo Thiago: a fé sem obras é morta. Segundo o Gálatas 5, 14, a Caridade vivida realiza toda a lei e toda a vontade de Deus a nosso respeito. Este é o dom por excelência que o Espírito dá ao credente ( Rm 5,5). É o Amor com que Deus ama e o qual é cheio do Espírito Santo, com a sua presença ativa em nós. Faz jorrar em nós o amor como resposta ao amor com que Deus nos ama. A caridade nos faz respirar, inspirar e expirar Deus! ( Rm 8,15 e Gl 4,6). A caridade nos remete para fora, nos leva ao encontro do humano ( 1Cor 12,31 e 13,13).
PRAZEROSIDADE ( ALEGRIA, JOVIALIDADE) : é fazer valer o desejo, a orientação mais íntima do coração, da vontade bem trabalhada, o prazer de querer, a paixão da vontade. É escutar mais os desejos; se escuto mais os desejos, atravesso os medos e atinjo uma identidade pessoal mais tranqüila. É desatar os nós para que as energias da vida possam circular. É focar o coração nas práticas, deixar que tudo atravesse o coração; o que passa pelo coração se transforma em Amor. A prazerosidade, a alegria e jovialidade são produzidas e tem a participação do Espírito ( Rm 14,17; 1Ts 1,6). Não é simplesmente uma reação psicológica à consistente e inata disposição de uma alma feliz, mas é a expressão conquistada com a plenitude do Espírito, como diz H. Schlier: “ é a explosão da esperança e o eco vital da situação escatológica do cristão”.
PAZ: É a busca da inteireza. Vem das tradições pré cristãs e está contidas nas saudações namaskar, namastê, shalom, pax. A inteireza do ser é trabalhar em si e passar para fora o melhor do divino e o melhor do humano que habita a casa da interioridade. Para o cristianismo é a saudação do Ressuscitado: a paz esteja convosco!. Dizer a paz esteja convosco é a mesma coisa que dizer: “Sê inteiro!”, “Sê inteira!”; é deixar-se moldar pelo sagrado e transformar-se em protagonista desta força divina que age dentro. A prece atribuída a Francisco de Assis, tem em seu refrão o pedido: “Senhor, fazei-me um instrumento de tua paz!”. A paz está intimamente ligada a alegria, a serenidade, a leveza como um dom do Espírito ( Rm 14,17 ; 15,13). No sentido Bíblico e mesmo em seu sentido mais primordial a paz não é dizer e viver a ausência de inimizade, conflito e guerra, mas é a invocação da integridade, da plenitude da vida em contraposição a uma situação em que a existência e as convivências estão ameaçadas, ou reduzidas a mecanismos de morte. A paz, como dom e fruto do Espírito diz da situação de cuidado amoroso e salvífico para aquele que crê e que é colocado sob tranqüilidade que vem das forças interiores ( Rm 8,6; Fil 4, 7 ).
PACIÊNCIA: É encontrar o ritmo próprio do respeito. É estar no domínio próprio da própria ansiedade. É descobrir uma sabedoria implícita na hora, no instante e curtir bem o momento sem precipitações, sem ansiedade. Ser tolerante e ter a capacidade de suportar conflitos sem sair dos lugares dos desafios. Não é submissão, mas a coragem de dialogar com situações adversas. A palavra paciência vem do latim: patio, pati. Patior = padeço; passus sum = padeci . É padecer, deixar acontecer. Não é sofrimento, mas é atuar com o vigor de estar ali, com um ânimo, com uma força que até então desconhecemos.
BENIGNIDADE: Vem do latim medieval, bene + igneo = estar bem no fogo. Estar bem no fogo da experiência. Incendiar, acender, iluminar. É a chave de ignição que produz a faísca fazendo funcionar o motor. É a força do entusiasmo. Ser benigno é ter a conduta de quem carrega dentro de si uma grande força, uma grande convicção; tem a conduta do Espírito. Floresce a partir da sua interioridade e se entrega com generosidade ( Rm 15,14).
BONDADE: A grandiosidade da vida, a grandiosidade do mundo e das pessoas só é dada para quem tem os olhos voltados para a Beleza e a Bondade de tudo. É o brilho das pessoas e das coisas. O transparente e o transcendente. O que faz a pessoa bonita é a bondade. A virtuosidade é a beleza maior e a mola propulsora de todos os gestos de amor. O que faz o mundo bonito é a bondade e a generosidade esparramada de todas as coisas. A beleza e a bondade dizem respeito ao verdadeiro. A beleza pertence a verdade, a autenticidade. A bondade é como um quadro de mãe amamentando o filho. Quem age a partir do princípio do bel e do bom é eticamente bom. A bondade nos leva à um relacionamento muito positivo com o próximo e com a vida. A bondade gera as virtudes da cortesia, fineza e cordialidade.
LONGANIMIDADE ( A GRANDEZA DE ALMA ): É a mesma coisa que magnanimidade. É a virtude daquele que tem uma grande alma. Abertura e força para vencer os limites. É benevolência. Aceita situações mais pesadas e difíceis sem se desconcertar. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena” ( Fernando Pessoa ). A alma é a força que comanda as emoções do corpo. De seu forte amor subjetivo passa à objetividade de acolher a todos com a força de sua capacidade de amar. Tem uma disposição psicológica e espiritual natural, flui, esparrama uma índole boa e acolhedora.
(1Cor 13,4; Col 3,12 ).
BRANDURA: Diz o biógrafo São Boaventura, na sua Legenda Maior sobre a Vida de São Francisco de Assis: “ Mansidão, gentileza, paciência, afabilidade mais que humana, liberalidade que ultrapassa seus recursos, eram sinais de sua natureza privilegiada que enunciavam já uma efusão mais abundante da graça divina nele” ( LM 1,1). Brandura é maleabilidade, suavidade, mansidão, doçura, flexibilidade, maciez, afabilidade. A vida se aninha mais no brando, no flexível. Brandura é evitar a rigidez. No relaxamento, na serenidade, no distensionamento, na soltura é que habita o sadio. O muito rígido, o indevassável tem a patologia, a tensão e a contensão; tem uma vida cheia de nãos. Quando você se levanta pela manhã na virtude da brandura, acorda para a vida com muito mais disposição, todas as coisas estão mais ensolaradas, mais claras, estão mais leves. É preciso estar dentro deste sentimento de leveza; a leveza é o tom do ser.
FÉ: É o princípio esperança, o devir, o já é do ainda não; a dinâmica de acreditar no Divino, na vida e nas pessoas. Fé é ter uma saudade infinita de Deus, uma aproximação rara com o divino. Como diz Erik Erisson, a fé é “ a confiança originária”. Fé é crer e deixar ser. Para Anselmo de Cantuária “ a fé capacita a razão a chegar a um conhecimento mais profundo” ( fides quaerens intellectum ). É abandono e confiança. Diz Anselm Grun: “ Fé é crer em alguém em vez de um simples acreditar em alguma coisa. Ter fé significa que eu confio em bDeus. Quem confia em Deus tem um chão seguro sob seus pés” ( Grun Anselm,” Virtudes que nos unem a Deus”, Vozes, Petrópolis, 2007, pg 9).
MODÉSTIA: É a ausência de qualquer tipo de vaidade, de narcisismo, de exaltação da pessoalidade e culto à personalidade. É desambição, despretensão... enfim uma simplicidade pura. É uma presença de doçura não forçada em contraposição à presunção. É um estado de abandono à única força: a força do Espírito. A raiz do modesto está em Deus.
CONTINÊNCIA: É ser uma pessoa contida, isto é, aquela que vive a justa medida de todas as coisas. Nem mais nem menos, mas o pronto, o bem acabado. É a virtude que traz a virtude da Temperança, que é a grande virtude que auxilia na arte de controlar e moderar apetites e paixões desenfreadas. É a sobriedade. Domínio de si, ou auto domínio como a virtude que vence as contrariedades. É a vitória sobre os vícios , alguns enumerados em Gl 5, 20-21.
PUREZA DE CORAÇÃO ( CASTIDADE): O modo de pensar franciscano chama a Castidade de Pureza de Coração. Puritas é a Fonte, a transparência cristalina do ser. É o que jorra naturalmente do coração; o que está no esplendor do natural, a essência da naturalidade ( virgindade). São as fontes da energia do amor, do afeto, da corporeidade ( corpo, mente, alma e coração ). Castidade é não jogar estas energias fora, mas espalhar em tudo o que se faz.
Assim podemos terminar aqui a reflexão sobre os Doze Frutos do Espírito Santo. São forças para os nossos passos na marcha impregnada de Espírito, que dá consistência e brilho ao nosso comportamento. Viver em harmonia com o Espírito é opor-se às tensões que a vida oferece. Os Dozes Frutos do Espírito Santo não são um elenco automático de virtude que recebemos por imposição. Mas fruto é a aceitação da seiva da vida. É meta, é ponto de partida, é abrir-se à força do Espírito para uma maturação ( fruto) . Paulo ( Gl 5, 16-25) nos convoca para um estado de maturidade, uma vida dinâmica de busca de valores e virtudes para uma evolução rumo a eternidade.
- Extraído de http://www.franciscanos.org.br/itf/cursos/extensao/curso1_2011/index_4.php acesso em 08 nov. 2011.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Os Dons do Espírito
"O dom da vida e os dons do Espírito
são os arranjos mais belos da nossa casa."
Frei Vitório Mazzuco, OFM*
Temos sempre saudades daquele momento bom que criou em nós a permanência na casa. A casa foi e é o fundamento da nossa cultura, da nossa fé, da nossa educação, das nossas vivências e convivências, lugar de onde partimos para a vida e para onde sempre retornamos. O que aprendemos ali colocou em ação a beleza da vida. Casa é dom. A palavra dom pode ser associada a domus. Os dons são valores naturais da nossa casa; nascemos e fomos naturalmente formados nestes valores. Dominus é o Senhor da casa. Donna, Domina, a Senhora da casa.... Duomo de Milão....a imponente e gótica casa de Deus.
Toda atividade que fazemos é a nossa concreta resposta ao Dom da Vida. O mundo da vida provoca e cria em nós os conceitos. Por isso, chegou o momento de refletirmos sobre o Dom da Vida, os Dons e Frutos do Espírito. O que significa esta reflexão? Ela nos recorda que é preciso a valorização da experiência das profundezas e da plenitude da existência. A nossa existência é fatual, isto é, uma real soma de acontecimentos, mas não se esgota nos fatos. Ela é necessariamente a experiência de alguém buscando os sentidos de existir. O dom da vida e os dons do Espírito são os arranjos mais belos da nossa casa. Vale lembrar aqui um texto budista que diz:
“Não crie sofrimento.
Pratique virtude!
Seja senhor de sua mente e de seu lugar.
Eis o ensinamento:
Que todos de sua casa
Possam se beneficiar!”
Dons e Frutos do Espírito precisam ser buscados e cultivados. Há sempre uma verdade ainda não realizada, uma virtude ainda não vivida em nós. Dons e Frutos propõem um elenco de virtudes que são como uma escada que precisamos para entrar e sair da casa. A nossa casa nos coloca no mundo, mas com qualidade. Quem pode formular os mais belos juízos, ter as mais pelas aproximações e os mais maduros relacionamentos? Quem esteve na escuta cuidadosa das virtudes, no observar a vida das pessoas virtuosas e na prática pessoal da virtuosidade. A nossa casa ( o Dom ) permite as virtudes. A nossa casa faz a festa do humano e nos leva para a festa da convivência humana com qualidade. Dons e Frutos nos preparam para sermos apóstolos do humano. O que caracteriza o estar em casa, o que dá sentido a cada momento da casa, é a virtude. Se não cultivar a virtude a casa não fica arrumada, a vivência se atrofia.
Temos sempre a tendência de rotular as pessoas como boas ou más. Isto não é correto. Pelo fato de pertencer a espécie humana e estar sob o domínio do Dominus ( o Senhor da Casa) ela é sempre um valor. Em vez de julgarmos se alguém é bom ou mau devemos cultivar um contato verdadeiro e ajudar a pessoa a buscar o Dominus ( o Senhor da Casa e seus Dons ), ajudar a pessoa a ter um Mestre. Ajudar alguém a cultivar a realização, a felicidade. Tirá-la do medo e do investimento no pouco e no limitado. O que muitos chamam de felicidade é apenas 5% do que é realmente a felicidade. Temos que perguntar: Você tem plena certeza de que o sentimento que coloca você perto de alguém é o caminho virtuoso de Amor, ou é o medo de ficar só? Você tem certeza de que a felicidade é só qualquer relação, ou apenas sexo, ou apenas bem estar? Não podemos duvidar que as pessoas queiram amar, busquem o amor e saibam amar; porém muitos amam com medo. Medo da solidão. Medo de não dar uma satisfação para a sociedade ou para grupos humanos, inclusive grupos religiosos; um medo que cria uma dependência: tenho que estar ali e justificar como e com quem estou. Medo de parceiros, amigos, familiares. Um medo que não cria naturalidade, mas transforma a pessoa numa sanguessuga, uma esponja de carências.
Dons e Frutos são elementos necessários para construir e reconstruir a casa forte e ideal. Quem disse que não existe pessoa ideal ? Pessoa ideal tem um ideal de busca virtuosa. Está sempre buscando o aperfeiçoamento espiritual, emocional, físico. Busca e cultiva um desenvolvimento. Em quantas pessoas, homens e mulheres, não encontramos a confiança, força, liderança, proteção, sustento, objetividade, flexibilidade, sensibilidade, carinho, sinceridade, sabedoria, suavidade, afetividade, sexualidade...Pessoas que tem objetivos claros. Quanto mais alto o objetivo mais alto chega ao patamar de sua vida vivida com inspiração. Quantas pessoas que encontramos que tem o prazer em viver, tem prazer em cada inspiração, sorriso leve e fácil, e que não despreza nada e ninguém.
Falemos dos Dons do Espírito um tema não muito trabalhado. Hoje quando se fala de Espírito Santo se restringe à força dos movimentos. Invoca-se o Espírito Santo, mas se reflete pouco sobre os Sete Dons, que já estiveram mais presentes na piedade e devoção. A reflexão teológica do ocidente concentra-se mais em Jesus Cristo; é na reflexão teológica do oriente que o Espírito Santo está mais presente. Quando se fala da Santíssima Trindade e do envolvimento amoroso das Três Pessoas Divinas o Espírito Santo é o mais desconhecido. Será que não sabemos bem o que fazer com esta força?
No oriente o Espírito Santo é sempre buscado e percebido como uma força interior, uma interioridade pessoal que se manifesta no comum; tem a sua invocação priorizada na liturgia e faz do cristianismo um cristianismo de contemplação. No ocidente o Espírito Santo é invocado para fazer funcionar atividades, reuniões, decisões, assembléias, sínodos, hierarquia; e torna-se a prece necessárias para um cristianismo de ação. O Espírito Santo não é uma oposição ao corpo e a matéria, mas sim um deixar-se animar pelo Espírito que movimenta a realidade em seu todo. Ele é a luz e o ar que a casa respira, está no espaço infinito que preenche o finito das paredes da casa; é a casa e seu interior.
Quando olhamos a Bíblia vemos que o Antigo Testamento coloca o Espírito como o absoluto, o sopro, o vento, a brisa, um sentido cósmico ( cfr. Am 4,13; Sl 51,13; Is 63,10; Sab 1,5; 9,17) É o espírito de Deus, o Elohim. No AT o Espírito do Senhor aparece como YHWH. No NT é sempre um valor teológico e tem uma aproximação cristológica: Espírito do Filho (Gl 4,6) , Espírito de Cristo ( Fl 1,19; At 16,7; 1Pd 1,11). Mas tanto no AT como no NT é o Espírito que traz a sabedoria (Dt 34,9), a verdade (Jo 14,17), a vida (Rm 8,2), a adoção (Rm 8,15). Tem suas ações e seus efeitos. No At sopra, cai sobre, toma conta, espalha, empurra, conduz preenche, desce, vem, entra, fala, guia, vivifica, testemunha ( cfr Nm 24,2; Ez 11,5; 1Sm 16,14; Is 32,15; Gd 13,25; Ez 8,3; Dt 34,99; Mt 3,16; Jo 15,26; At 2,4; Ap 11,11, Mt 10,20; Gal 4,6 ; Jo 6,63; At 5,32). A Bíblia coloca o Espírito Santo em movimento, numa atmosfera de espaço vital entre o humano e o mistério, impalpável e invisível, que põe sempre o humano numa dependência de seu sopro.
Quais são os Sete Dons do Espírito Santo? Eles aparecem nesta forma virtuosa:
Sabedoria, Inteligência, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade, Temor de Deus (ou Reverência). Vamos elencar os Sete Dons para que nos dê um caminho de virtuosidade:
SABEDORIA: Não vem de saber, mas de sabor.O sábio é aquele que sente o gosto de todas as coisas, que saboreia as experiências. Vai com sede e fome na busca intensa do quer ser e conhecer. É a arte de saborear a experiência da vida. O sábio oferece um conhecimento mais saboroso da verdade, pois a apresenta com mais afinidade, com mais tempero. A via é o paladar, no plano sutil. É ver, sentir, criar gosto com sob os olhos do Bem Amado. Como diz Mestre Eckart: “ Deus degusta-se nos meus sentidos”.
O conhecimento passa pelos sentidos e forma o Mestre.
INTELIGÊNCIA: O caminho é o intelecto, o plano mental e intelectual. Intelectual vem do latim: “intelligere”, que quer dizer: estar na força da inteligência. Inter+legere: ler entre as coisas, ler na evidência exterior de tudo o seu interior. Legere significa colher, ajuntar, acolher. É o conhecer, o estudar, o pesquisar. É o aprendizado e ensinamento. O discipulado. A conquista do saber que vem do pensamento lógico e racional. Usar a mente para o conhecimento e o esclarecimento. Instaurar uma consciência que leve a escolher o melhor e mergulhe numa profunda compreensão da existência. O conhecimento passa pela grande bagagem de informação e assimilação e forma o Professor.
CONSELHO: É a palavra precisa na hora oportuna. O direcionamento espiritual, moral, ético e virtuoso. Mostra o caminho. É a troca de experiências como testemunho de vida e apoio. Faz parte da prudência e ajuda a tomar decisões oportunas sem insegurança. Sugere o que fazer nas dificuldades da vida, ensina o como falar, a quem falar e quando falar.
FORTALEZA: É não alinhar-se ao lado da fraqueza. É o ideal da força presente nas virtudes. É a força do ânimo diante das adversidades da vida. A vida não é uma luta só contra as contrariedades externas, mas é a luta diária para vencer-se. É não fugir das dificuldades. O forte abraça a grandeza da vida. Para o filósofo Platão as virtudes baseiam nestas que considera as virtudes cardeais: fortaleza, temperança, prudência e justiça. Para o mundo Bíblico é a força de Deus com quem o humano pode sempre contar ( Dt 4,32-39). A força salvífica que Israel experimenta provém da força de um Deus que ama seu povo. Para os povos bíblicos a fortaleza vem da fé e da esperança. No NT a fortaleza é ser como Jesus Cristo, ”sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15,5).Firmeza, estabilidade e fortaleza devem caracterizar um caminho de fé e de amor ((Jo 15, 4-9). São Tomás de Aquino fala da fortaleza como o “bonum arduum” que remete à contínua superação das contrariedades; é a obrigação de ser forte. É a superação da vulnerabilidade. O anjo não precisa ser forte, pois não é vulnerável, porém o humano tem que ser porque possui limitações. A fortaleza é superar a fragilidade. Para Paul Tillich a fortaleza é a superação das angústias existenciais na vida moral. O humano deve superar seus grandes medos: angústia diante da morte ( a ameaça de perder o ser ); a angústia da culpabilidade ( a psicose de que tudo é pecado ); e não senso, a falta de noção ( o desafio ao ser espiritual ). A tarefa da fortaleza é sustentar o ser humano na defesa da sua dignidade, em tudo o que pode ameaçá-lo. É o passo necessário para a via da per+feição; o ser humano como um contínuo fazer-se ( ens contingens), é o caminho da realização. Fortaleza é combater o mal com a mesma força de realizar o bem. Fortaleza é resistência: dizer não ao medo, não retroceder, agarrar-se ao Sumo Bem. Fortaleza é empenho em empregar todas as suas energias na construção do humano e de um mundo melhor.
CIÊNCIA: é o conhecer ( con+naitre = nascer junto com a experiência ); é o estar ciente do ser e dos seres. É buscar compreender. Sondar o universo e seus fenômenos ( con-siderar). Entrar na realidade de tudo sob a luz de Deus. A verdadeira ciência vê cada criatura como reflexo da sabedoria e bondade do Criador. É dar o devido valor à todas as coisas, às pessoas, aos fatos e as realidades da vida e do mundo.
PIEDADE: Não queremos ligar esta virtude a questão devocional. O devoto que reza com piedade, mas sim a piedade como o modo de ser sensível na arte de relacionar-se. Apiedar-se. Procurar um relacionamento reto e justo que tenha soluções para as dores do outro. Não ter dó, mas orientar o outro para a sua força. É o interesse fraterno que visa o melhor. A piedade nos capacita a enxergar e não camuflar a essência das pessoas.
TEMOR DE DEUS ( REVERÊNCIA ): Esta virtude é totalmente diferente do medo, do pavor, da paúra, ou como quisermos chamar; também não é “respeito humano”, ou bajulação subserviente e nem uma mera admiração ou respeito de fã. A Sagrada Escritura chama de Temor de Deus o que é a base da sabedoria: uma profunda reverência. Na concepção franciscana reverência é a abertura límpida, disposição para perceber a grandeza de Deus e do Mestre. É uma humilde resposta cheia de gratidão, docilidade, cordialidade, benquerança, doação livre, amor e respeito pela imensidão, grandeza, nobreza, humildade e bondade do Criador e todas as suas obras ( cfr. Dn 3,57-88.56 ). É um louvor que se abre com admiração, simpatia e respeito à suave força originária. É reconhecer a nossa pequenez diante da Grandeza do Criador. É evitar a presunção e o orgulho reconhecendo a grandeza e a bondade de Deus. Esta virtude torna a alma delicada, fiel, respeitosa ( Eclo13). É admiração, maravilhamento, encantamento, caminho de reconhecimento e conquista da verdade do ser e de todos os seres.
- Extraído de http://www.franciscanos.org.br/itf/cursos/extensao/curso1_2011/index_3.php acesso em 07 nov. 2011.
- Ilustração: Crisma [pintura no teto] : detalhe / Foto de Eugenio Hansen, OFS. Porto Alegre, Brasil : Igreja Sagrada Família, 2011 (foto).
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