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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Refletindo sobre a pobreza

por Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
Vivemos no mundo do dinheiro, da força, do poder, do euro, do dólar, dos bancos nacionais, dos bancos internacionais, do aumento ou da diminuição do PIB, das subidas e descidas das Bolsas de Valores, do lucro. Vamos refletir sobre a pobreza desse certo Francisco de Assis. Temos diante dos olhos um texto feito pelo frade franciscano francês Pierre Brunette.  Servimo-nos dele  para fazer uma pequena meditação sobre a pobreza em Francisco sem pretensão de exaurir o tema. 
Francisco nunca  fala ou se refere a uma pobreza em si. Ele a personifica. Antes designá-la de irmã ou de senhora, encontra-a  na pessoa de Cristo e de sua mãe.  Jesus é o pobre que ele anuncia, o perfeito itinerante, “nascido para nós em caminho”;  na espiritualidade de Francisco, Jesus  pede esmola como um indigente e um andarilho, sofrendo as provações da vida como a fome, a sede, as humilhações, a fraqueza e  a perseguição. Francisco vê Jesus  rezar na cruz na condição de um mendigo, de alguém que foi abandonado, mas que confia.

Casamento de São Francisco com a Pobreza / Giotto
Francisco apreciava uma expressão:  “Seguir as pegadas  de Nosso Senhor Jesus Cristo”.  Frei Leão recebeu este aviso carinhoso no bilhete que Francisco  lhe deu.  A atitude de pobreza está vinculada com a da humildade.  Pobreza  e humildade são as primeiras virtudes cantadas em seu Louvores às Virtudes.  Pierre Brunette diz literalmente: “São os traços de Cristo que Francisco discerne no rosto de todo pobre que é encontrado. Assim, a pobreza é lugar de encontro, ao mesmo tempo que opção social”

Ser pobre para  Francisco é:  um modo de se comportar fraternalmente, de se vestir de trajes rudes, de se alimentar frugalmente, de trabalhar com as próprias mãos, de prestar serviço nas terras de outros, de recusar dinheiro e privilégios, de recorrer à mendicância em caso de necessidade, de nada reivindicar.

A pobreza é uma herança: “Esta é aquela sublimidade da altíssima pobreza  que vos constituiu, meus irmãos caríssimos, herdeiros e reis do reino dos céus, vos fez pobres de coisas, vos elevou em virtudes. Seja esta a vossa porção que vos conduz à terra dos vivos. Aderindo totalmente a ela, irmãos diletíssimos, nenhuma outra coisa jamais queirais de baixo do céu em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo”  (Regra Bulada 6).

Para Francisco, a primeira coisa pedida aos irmãos que chegam é que vendam seus bens,  deem seus bens aos pobres para poderem viver evangelicamente.  A pobreza exterior é decorrência de uma atitude interior. O espírito de pobreza é espírito de desapropriação do ser e dos bens, sobretudo da vontade própria. A ideia de restituir a Deus o que é de Deus  nos escritos de Francisco é ressaltada em nossos dias. “E restituamos todos os bens ao Senhor Deus altíssimo e sumo e  reconheçamos que todos os bens são dele e por tudo demos graças a ele, de quem procedem todos os bens. E o mesmo altíssimo e sumo, único Deus verdadeiro, os tenha, e lhe sejam restituídos, e ele receba todas as honras e reverências, todos os louvores e bênçãos, todas as graças e glória, ele de quem é  todo o bem, o único que é bom” (Regra não bulada  17, 17-18)

A pobreza franciscana é um lugar social de solidariedade.  Francisco pedirá a seus irmãos não somente que visitem os pobres, mas vivam entre eles, servi-los como pobres servem a pobres,  submissos a todos. Os frade deveriam se assemelhar a eles por seu modo de vida e por sua mentalidade de desapropriação. Francisco não separa a pobreza material da pobreza em espírito tanto para os frades quanto para os leigos casados que queriam viver à maneira do Poverello.

  • Obs.: Inspirado em  Pierre Brunette,  François d’Assise et ses conversions, Ed. Franciscaines de Paris, p. 139ss.
  • Extraído de http://www.franciscanos.org.br/?p=26656 acesso em08 nov. 2012.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Espiritualidade e o Carisma de Clara de Assis (I)


Autora: Irmã Sandra Maria, Clarissa
 
Introdução

Desejamos elucidar os temas espiritualidade e carisma, primeiro em termos de experiência cristã, em seguida, dentro do sentido e da diretiva que Clara de Assis com originalidade aponta, para que possamos aprofundar o caminho de experiência espiritual clariano. Falar de espiritualidade e de carisma é falar de experiência. A experiência não é uma realidade assim tão clara. É sempre difícil partir da experiência e clarificá-la, porque é um dos conceitos mais enigmáticos e difíceis da filosofia. Mas podemos nos aproximar de forma simples do mundo da experiência espiritual cristã, franciscana e clariana, colocando em evidência seus matizes próprios. Nossa espiritualidade está ligada ao modo de viver os dons que Deus nos deu, e precisamos ter clareza sobre as suas linhas fundamentais.

1. O que é espiritualidade

Espiritualidade é a realidade vivida, elaborada (transformada em teoria), uma modalidade própria de viver e encarar os princípios teologais, a nossa fé, a esperança e a caridade, o seguimento evangélico. Para viver uma espiritualidade autêntica precisamos de docilidade à ação do Espírito e aos seus desenvolvimentos e moções, numa vida conforme nosso Senhor Jesus Cristo: isso implica um caráter existencial, concreto, afetivo e dinâmico. É necessário nos comportarmos de modo a progredir na espiritualidade. Uma vida segundo o Espírito é progressão aberta a ulteriores realizações, segundo a graça do batismo atuando em nós. Espiritualidade é uma sabedoria de vida, uma vivência que implica ascese, mística, orientação, oração, relacionamento com Deus, consigo mesma, com as pessoas e com as criaturas, e desenvolvimento dos dons do Espírito e dos carismas recebidos. Portanto espiritualidade e carisma se interpenetram: o carisma está implicado na vivência da espiritualidade.

1.1. Experiência

O fenômeno que chamamos experiência possui uma grande complexidade. O que parece muito simples e fácil é efeito de mecanismos complicados, que a psicologia humana e religiosa ainda desconhece. A experiência é um processo. E o conhecimento dos processos humanos e religiosos vai lentamente sendo desvendado, sem jamais se esgotar. Nossas ações e reações podem ser identificadas somente em parte. Existe uma fome de experiência religiosa e de espiritualidade. Karl Rhaner chegou a afirmar que “o cristão do futuro ou será um místico, ou seja, alguém que experienciou alguma coisa, ou não será cristão”. Isto quer dizer que a experiência profunda das coisas de Deus determina o grau da espiritualidade e da mística.

As experiências significativas sempre fizeram parte da vida do povo de Deus e da Igreja. Nasceram assim as diversas correntes de espiritualidade, as diversas escolas: abraâmica, da Torah, deuteronomista, profética, sapiencial, sálmica, simbólica, evangélica, paulina, joanina, provindas da Bíblia; dos padres e madres do deserto, basiliana, agostiniana, beneditina, cisterciense, das Cruzadas, dominicana, franciscana, clariana, inaciana, carmelitana. Também podemos falar de espiritualidade italiana, francesa, dos países nórdicos, latino-americana, africana, asiática, ou de épocas, como a do século VIII, do século XIX, que tiveram suas características próprias... Espiritualidade é experiência e vida, experiência e empenho. A experiência é sempre algo vital, que existe na própria vida, é a própria vida. A experiência espiritual diz respeito ao Espírito: isso especifica a espiritualidade. A espiritualidade é uma forma concreta suscitada pelo Espírito, de viver o Evangelho. Da experiência espiritual profunda surge a tematização, o testemunho, a narrativa.

1.2. Narrativa

Quanto mais a espiritualidade se torna vivida, mais ela é narrativa. Narração e experiência é um dos binômios muito usados em nossos dias. Há uma forte atualidade para esses termos. Fazer a experiência é uma expressão da vida real, uma maneira de afirmar a convicção de que a experiência tem como elemento essencial de seu processo a realização. Fazer experiência é participar, a partir de dentro, da trajetória experimentada, seguir o caminho da experiência, deixar-se envolver por ela e vivenciar todas as suas conseqüências. A narrativa elucida a experiência.

A espiritualidade necessita da narrativa, mas exige que haja uma relação entre fazer experiência e narrar. E que se exercite a verificação da congruência entre as duas. A narrativa constrói uma teologia da espiritualidade, e isso somente pode fazer quem faz a experiência. Reforçando, somente quem vive uma experiência religiosa pode definir um caminho de espiritualidade e traçar projetos lineares dela.

1.3. Conhecimento a partir de dentro

Espiritualidade é um conhecer a partir de dentro. Descreve-se a experiência que se vive. Esse conhecimento interior que nasceu no íntimo da pessoa estende-se ao exterior com os matizes assumidos internamente. O termo conhecer significa entender ou compreender a partir de dentro. A espiritualidade e a experiência religiosa sempre partem de um conhecimento a partir de dentro, contudo, isso não impede que tenham como conteúdo realidades exteriores concretas.

2. O que é carisma

O termo carisma retoma uma palavra grega, usada no Novo Testamento. Significa dom generoso e tem a mesma raiz de cháris: graça. O Concílio Vaticano II colocou novamente em uso a noção de carisma e distinguiu os dons carismáticos dos hierárquicos, que estão ligados aos sacramentos e aos ministérios. Carismas são aqueles dons especiais do Espírito que nos tornam capazes de assumir uma missão na Igreja, para a construção do Reino.

O termo carisma pode ser empregado no sentido genérico para indicar todos os dons divinos, as novas formas de vida e ação que o Espírito suscita pela adesão ao Evangelho. Neste sentido, o carisma clariano é uma nova “forma de vida”, particular e especial, suscitada no seio da Igreja. Clara viveu o seu carisma irrevogável, provindo de Deus, experienciando uma libertação profunda e crescente. Num sentido mais específico, as Clarissas herdaram o carisma clariano: são chamadas a ser continuadoras do projeto evangélico iniciado por Clara e Francisco de Assis. A fidelidade de nossos fundadores à inspiração divina, à graça, ao carisma inspiracional é a força que continua nos impulsionando e guiando no caminho do seguimento de Jesus Cristo.

A comunidade de Clara é uma comunidade carismática, nos moldes da comunidade dos apóstolos e discípulos e das comunidades cristãs primitivas. O carisma de Clara, ao se tornar uma estrutura estável com o decorrer dos anos, adquiriu uma dinâmica institucional na Forma de Vida elaborada por Clara com base na experiência das regras anteriores e sustentada pela Regra de Francisco.

A vida espiritual clariana difundiu-se e foi interpretada durante os séculos segundo modelos recapitulativos, rememorativos de experiências passadas e em harmonia com a cultura dos tempos. Isso significa atualizar o carisma. Uma espiritualidade madura deve estar continuamente adaptando e atualizando o carisma, deve enriquecê-lo, alimentar suas riquezas. Clara, como mestra espiritual, é um ponto de referência que une a riqueza da experiência ao conhecimento dos valores e das opções vitais. O amor constrói, a contemplação purifica; existem comportamentos vitais que podem ser introduzidos somente em ambientes especiais marcados por vida espiritual intensa, e uma vez descobertos podem ser vividos e acolhidos. Clara é uma mulher de tamanha autoridade moral que sabe induzir comportamentos e mostrar a validade de opções históricas. Clara tem como função abrir caminhos de vida que possam ser percorridos por nós com segurança e firmeza. A instituição clariana, a Ordem das Irmãs Pobres, é um organismo que programa e facilita a referência para o modelo espiritual de Clara, e favorece-lhe o crescimento, construindo espaços de fidelidade e de intensa espiritualidade.

A santidade de Clara e de Francisco é espelho da santidade de Deus. Foram santos porque viveram a união com Deus, acolheram sua graça. Foram santos que tornaram Deus visível, tornaram seus dons frutificados, foram carismáticos, no verdadeiro sentido do termo. Clara e Francisco foram modelos de santidade porque estiveram em condições de atrair para o Evangelho e de induzir comportamentos que manifestam a validade da doutrina que ensinaram. Foram reveladores de Deus, e nos induzem a perfazer-nos com a proximidade que realizam e com a atração ao bem que suscitam.

Existem aspectos da ação salvífica de Deus que requerem entrelaçamento de pessoas, convergência de ideais, para serem acolhidos e revelados. A santidade evangélica de Clara e de Francisco e o seu peculiar carisma na Igreja são comunitários, decisão concorde de todos e de todas que acolhem como bem comum a glória de Deus. Eles entraram em relação com Deus a partir de uma tradição histórica oferecida por uma comunidade eclesial, e foram alimentados por muitas pessoas e por comunidades vivas. É isso viver um carisma.

3. A espiritualidade e o carisma clariano como acontecimento histórico

Os processos históricos e os acontecimentos sociais em que os cristãos e cristãs se encontram envolvidos e comprometidos numa determinada época ou lugar constituem um fator de espiritualidade, suscitando carismas específicos dentro do seio da Igreja. Assim ocorreu com Clara e Francisco. Eles representam um chamado específico de Deus para um carisma vivo, para uma espiritualidade peculiar. Um chamado a certas opções e a certos valores evangélicos, em especial a pobreza, a humildade, a minoridade e a fraternidade, que foram configurando a estrutura das comunidades clarianas e franciscanas, e deram origem a uma forma específica de espiritualidade.

Queremos nos aproximar do tempo de Clara, uma época de transformações, plena de luzes e sombras, em cujo panorama nascerá um outro modelo social, político e econômico; e também um tipo novo de crente, porque ocorrerá uma mudança em que o leigo será protagonista; e ainda, um novo tipo de religioso e de religiosa, marcado pela passagem fundamental do monge e da monja, para o de frei e de irmã. Estas características, que depois de oito séculos podemos esquematizar serenamente, tiveram uma gestação dolorosa e lenta, em que ocorreram tensões, rupturas, e em cujo processo Clara receberá, junto a Francisco e muitos outros, o carisma de orientar seu caminho para a grande reforma que os tempos pediam.

Nosso olhar sobre este período da espiritualidade tem o interesse histórico que busca as raízes; nossos fundadores são filhos de uma situação política, social, cultural e eclesial carregada de ambigüidades, de incertezas, de extremismos, como é a época medieval, junto a uma gama maior de possibilidades que eles puderam descobrir e abraçar, sendo fiéis à Igreja. Neste transfundo, Clara busca e oferece seu peculiar carisma e espiritualidade. Aqui está a importância de conscientizar-nos do fenômeno de um despertar humano global, para poder situar Clara e seu carisma naquilo que possui de novidade e de ruptura com todo um largo processo precedente.

A espiritualidade e o carisma clariano e franciscano, como resposta a uma realidade histórica, são um processo histórico, social e eclesial, que apresentam fatos, situações, valores que nós, como Clarissas e Franciscanos, devemos captar e interpretar em toda a sua significação. Tudo isso constitui para nós um chamado a decifrar os nossos valores, que nos são revelados pelo conhecimento e aprofundamento da história da Ordem das Irmãs Pobres, desde a sua gênese, para que possamos incorporá-los em nossa vida e em nossa vocação. Isso fará com que sejamos cristãs plenas de consciência de sua espiritualidade e de seu carisma. Conscientes do processo histórico que foi vivido durante os séculos na Ordem, para viver a fidelidade ao carisma inicial, e conscientes de ser testemunhas hoje da validade e da atualidade de nossa espiritualidade e de nosso carisma. Capazes de ativar uma formação eficiente, como resposta ao nosso contexto cultural, e de criar uma renovada espiritualidade, capazes de assumir e de expressar o carisma clariano, como uma nova síntese para o nosso contexto de vivência. Assim, afirmamos que nossa espiritualidade e nosso carisma são atuais, e podemos torná-los adequados para nossa situação histórica hoje. Trata-se de algo inerente à nossa fé cristã, que se desenvolve e se encarna em pessoas, circunstâncias e épocas específicas. Trata-se de um seguimento evangélico e de um carisma específico. Isso é o desafio com que nos defrontamos como atual geração de Clarissas. As profundas mudanças na situação social podem constituir uma das causas de crise para a nossa espiritualidade, mas podem ser também um desafio a traduzir para o hoje de nossa história toda a riqueza de nosso carisma, e torná-lo chamativo e atraente para muitas jovens de hoje.

4. As fontes da espiritualidade e do carisma clariano

A experiência de fé que Clara e Francisco viveram é a medula de nossa espiritualidade. E foi na Palavra de Deus, especialmente no Evangelho, que eles encontraram a fonte e a raiz de seu carisma peculiar. Na escuta fiel da Palavra de Deus teve início uma resposta que trouxe atrás de si oito séculos de história de um carisma vivido e encarnado.

Esse é um fato da experiência clariana e um testemunho vivo que chega até nós através de todos quantos conviveram com ela. A experiência de Clara nos mostra que aquilo que a manteve firme na fé e no seguimento foi a capacidade de ouvir o Senhor, na proclamação da Palavra de Deus, nas alocuções e pregações, na vida orante e silenciosa, na contemplação, na partilha da vivência de irmãs. Em Clara, podemos ver precisamente que a Igreja constitui o lugar habitual e necessário para a geração de sua espiritualidade e de seu carisma; a Palavra de Deus lhe veio da vida eclesial, o Evangelho lhe foi dado pela comunidade cristã, especialmente representada pelo ideal de Francisco. E assim, Clara e suas irmãs puderam reescrever uma das mais belas novas páginas de experiência de Igreja, do povo de Deus, no estilo das primitivas comunidades cristãs.

Podemos perceber, através de todos os escritos de Clara, quanto foi importante para o desenvolvimento de sua espiritualidade e do desabrochar de seu carisma o seu contato pessoal com a palavra de Deus, sobretudo com o Evangelho. São numerosas as citações bíblicas em seus escritos, em geral não literais, mas como fruto de uma rememorização, de uma ruminação afetiva. Assim como Clara, para descobrirmos o caminho de nossa espiritualidade, e o modo de colocar nossos dons a serviço da Igreja e da Ordem, precisamos de uma escuta mais pessoal da Palavra. Acima de tudo deve-se destacar que a Bíblia permanece o paradigma e a fonte de toda a nossa espiritualidade clariana, destacando-se sobretudo os Evangelhos, porque a nossa Forma de vida é “viver o Santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo”. Na leitura cristã da Bíblia, os Evangelhos devem ocupar o lugar central. Eles representam para nossa espiritualidade o sentido primordial e mais denso, já que Jesus Cristo é colocado como o espelho e modelo de conformidade. O Evangelho constitui para nós o acesso necessário à humanidade de Deus e a seu conhecimento e seguimento por amor. Uma Clarissa não pode deixar de ler diariamente o Evangelho, meditá-lo, ruminá-lo, nutrir-se dele.

Quando as irmãs se inspiram na Palavra de Deus e por ela pautam sua vida, a profundidade e solidez de nossa espiritualidade cresce, e podemos ver desabrochar os dons que Deus nos concedeu, o nosso carisma. A escuta e o contato periódico, diário, constante, na oração e na contemplação, apresentam uma fecundidade e uma capacidade capazes de gerar uma renovada vivência de nossa espiritualidade. Mais ainda, a partilha da palavra de Deus é a fonte de nossa espiritualidade e constitui um verdadeiro sacramento da presença do Espírito de Jesus entre nós; ler o Evangelho no espírito de discípulas significa encontrar Jesus. Juntamente com a eucaristia, constitui a experiência mais intensa de Jesus na vida cristã e clariana.

Podemos definir ainda como fontes da espiritualidade e do carisma clariano a vida sacramental da Igreja, especialmente a Eucaristia e a penitência; o testemunho da Igreja, a Virgem Maria, os santos e santas, a presença das irmãs e dos irmãos. Para o caminho clariano, as irmãs constituem uma fonte indispensável da espiritualidade. Todas as outras fontes ficariam deformadas se não levassem à prática do amor recíproco, que é a prova decisiva de nosso seguimento de Jesus Cristo e de que vivemos segundo o Espírito (continua).

Endereço da Autora:
Mosteiro Nazaré – Irmãs Clarissas
Av. Papa João XXIII, 1113 – Petrópolis
Lages, SC/BRASIL
88505-200

A segunda e última parte
não está disponível na Internet

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Francisco e a opção de servir os últimos

Artigo de Luigi Padovese, bispo capuchinho assassinado

"Quem, como Francisco, tirou as consequências do significado da encarnação de Cristo, ou seja, do seu fazer-se servo, sabe que o critério de valor das pessoas independe da sua pertença social e provém da incomensurável importância de cada um diante de Deus."
Publicamos aqui o artigo do ex-vigário apostólico da Turquia, Luigi Padovese, assassinado a facadas na quinta-feira passada, 03 de junho [2010], no jardim de sua residência em Iskenderun, uma localidade da província sulina de Hatay. Ele também era presidente da Conferência dos Bispos da Turquia e presidente do Instituto de Espiritualidade Pontifício Ateneu Antonianum.
Luigi Padovese era frei capuchinho.
O artigo foi publicado no jornal L`Unità, 19-12-2002. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.

Paulo de Tarso resume a vida terrena de Jesus, desde o nascimento até a morte na cruz, em duas expressões humanamente paradoxais: "esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo" (Filipenses 2,7) e "tornou-se pobre por vossa causa, para com a sua pobreza vos enriquecer" (2 Coríntios 8,9).
Não entremos no mérito dos pressupostos teológicos a partir dos quais ele se move, mas certamente ele entendeu a experiência humana de Jesus nos termos de uma solidariedade manifestada na livre partilha com quem é servo e está em situação de pobreza.

Essa partilha aflora também nos Evangelhos. A um leitor atento dos textos sagrados como Francisco de Assis, esse aspecto pareceu ser de tal forma predominante que inspirou um novo gênero de vida, manifestado pela sua escolha e a dos seus companheiros de se chamarem "irmãos menores e servos". Essa qualificação, antes de se tornar uma sigla de identidade, foi uma experiência amadurecida em contato com os leprosos e com os mendigos. Junto deles, o santo de Assis entendeu o sentido exato de tornar-se servo e pobre por parte de Cristo. Da "em-patia" que entende, nasceu assim a "sim-patia" que une.

O que tornou Francisco e os seus companheiros "irmãos menores" de todos os homens não foi, por isso, a partilha de um mesmo credo ou a pertença a um grupo particular, mas sim a universalidade do sofrimento que compreende a todos e que se torna universalidade de compaixão. Na escolha de se colocar abaixo dos outros, Francisco, além disso, colocou em questão os equilíbrios da sociedade nas suas dimensões de grupo interno e de grupo externo, de cima e de baixo.

Essa atitude é refletida no ato do despojamento diante do bispo, que marca a passagem de uma relação parental com relação a uma universal, expressada com a substituição do "pai meu, Pedro de Bernardone" pelo "Pai nosso que estais no céu". São assim anuladas as distinções produzidas pela classe, pelo censo. Quem é sem pai e desvinculado do particularismo clânico torna-se livre com relação à pressão da sociedade que estabelece distinções como nós/eles, dentro/fora, superior/inferior, nobres/plebeus.

Ao próprio universo familiar, incapaz de realizar uma efetiva solidariedade, Francisco substituiu uma fraternidade eletiva universal que o liga a todo homem, ou melhor, a toda criatura, vista como irmã e irmão. Essas considerações nos permitem entender porque, na escolha de "minoridade" como renúncia ao status social anterior, ele combinou logicamente a vida em fraternidade. Os dois termos são inseparáveis e se remetem reciprocamente, já que o amor reconhece o valor que está no outro e se traduz em termos de serviço.

Certamente, na experiência do santo de Assis, há elementos que não podem ser propostos por causa do contexto histórico-cultural que mudou, porém, não há dúvida de que a sua intuição mantém sinais de verdade válidos também para hoje. Para exemplificar o seu conceito de "minoridade", como o delineamos, ele propõe novamente o compromisso de sensibilização e de proteção para com os grupos hoje socialmente frágeis. O difundido bem-estar produzido na chamada "sociedade de consumo" ajudou a esvaziar aquela que, no passado, foi a luta de classes, originada a partir da ideia de que a riqueza capitalista era dinheiro sujo de sangue e fruto do abuso de poder.

Hoje, aqueles que vivem em uma situação de pequena ou média burguesia não alimentam mais o ressentimento para com os ricos. Ao invés, alimentam contra aqueles que estão pior: os pobres, as minorias raciais, os imigrantes. Justamente porque estes não recorrem aos bens sobre os quais as "pessoas de bem" constroem sua própria vida, de de-privados como são, tendem a ser considerados depravados. É a brutalização da pobreza que às vezes se torna realmente brutal, mas por uma prévia falta de justiça.

A minoridade solidária com os pequenos, com os pobres e os excluídos de Francisco se coloca contra esse cruel princípio de seleção ou contra a lei do mais forte que nega aos outros o direito à sobrevivência. Ela é compaixão, ou seja, atenção ao sofrimento dos outros, que leva à partilha e que exige justiça e implicitamente denuncia a injustiça. Ser "menores" indica, por isso, a vontade de reagir à indiferença e à dessolidarização das nossas sociedades que ignoram os pobres, os intocáveis de hoje, ou que os marginaliza em "guetos de desespero" (L.M. Friedman), porque não são visíveis, exatamente como ocorria com os leprosos confinados do lado de fora das cidades de Assis.

A sua invisibilidade, de fato, não faz com que cresçam problemas de consciência, não gera perturbação, e nem aquela empatia que está na base da solidariedade. Os próprios meios de comunicação nos mantêm assepticamente protegidos das tragédias do nosso tempo, como, por exemplo, a das 40.000 crianças que diariamente morrem de fome ou por causas relacionadas à desnutrição. Os números não nos impressionam tanto quanto a miséria experimentada pessoalmente.

Se a sociedade ocidental não conhece o sistema de castas, conhece no entanto um sistema de enquadramento e de avaliação das pessoas, e hoje é o mercado que estabelece a diferenciação pessoal: há aqueles que produzem e consomem, depois os consumidores imperfeitos, e por fim a grande massa de pobres, inúteis como produtores, vãos como consumidores e, portanto, totalmente supérfluos, senão até mesmo nocivos, como parasitas que vivem nas costas daqueles que se inseriram no ciclo produtivo e pagam as taxas!

Em si mesma, a pobreza econômica não é uma tragédia, se as pessoas pertencem a uma sociedade com um forte senso de solidariedade. De fato, porém, o capitalismo industrial levou à desintegração social. Não se pode acreditar, por isso, que a reconstrução irá se produzir com uma distribuição mais justa da riqueza e por meio do crescimento econômico que, como vemos, não produz, mas sufoca os empregos por meio de projetos de racionalização dirigidas a reduzir a mão-de-obra com a consequência de aumentar o número dos desempregados, isto é, dos novos pobres. Mais desesperados do que os outros, porque anteriormente participavam do bem-estar do qual agora são inesperadamente excluídos.

A resolução dos problemas sociais não está ligada, enfim, apenas à distribuição justa das riquezas, mas também ao crescimento da solidariedade, que se obtém adquirindo uma noção comunitária e não individualista da dignidade da pessoa humana. Quem, como Francisco, tirou as consequências do significado da encarnação de Cristo, ou seja, do seu fazer-se servo, sabe que o critério de valor das pessoas independe da sua pertença social e provém da incomensurável importância de cada um diante de Deus.

Disso, surge o empenho de solidariedade e de atenção pelos mais fracos, mas também a obrigação de desmascarar as efêmeras seguranças da sociedade consumista. Quem pode esclarecer, de fato, que o progresso não está no desenvolvimento tecnológico ou no crescimento e na difusão dos bens de consumo senão aquele que escolheu ser solidário com os últimos e se mantém no limite do sistema, para não perder a força de uma crítica construtiva que serve a todos, especialmente aos que são vítimas inconscientes desse sistema?
Em uma sociedade que gera sonhos mas não os satisfaz, ou que cria frustração social e raiva porque venera o sucesso pessoal e tem o culto da celebridade, à qual depois permite que poucos tenham acesso, quem é capaz de demitizar esses pseudo-valores senão quem escolheu estar fora da disputa?

Apenas quem fez essa escolha pode neutralizar a vacuidade da cultura contemporânea ajudando aqueles milhões de "sem-teto" (em sentido metafórico), quase privados de raízes, ou seja, de referências na vida para encontrar uma casa, isto é, um sentido. Tempos trás, a teologia da libertação insistia nos pobres da América Latina. Hoje, há formas mais sutis, mais escondidas e mais generalizadas de opressão que requerem uma reflexão mais atenta.

Se, para muitos, a oferta comercial de ter bens de consumo é apresentada como uma maior oferta de liberdade, expressada pela satisfação imediata de necessidades, a tarefa de quem quer servir os outros está em ajudá-los a se libertar desse costume da gratificação instantânea. Se podemos falar da atualidade da proposta de Francisco, acredito que se deva procurá-la no seu ser, ao mesmo tempo sinal e denúncia de uma mentalidade que produz e se alimenta de ilusões, mas que, no fim, deixa um sabor amargo na boca.

A tradição vetero-testamentária e depois cristã ensina que a redenção vem dos pobres. São eles que nos despertam da ilusão de um mundo unido e mais justo. O caminho traçado pelo santo de Assis em querer ser "menor e servo" parte daqui: da consideração por quem nasceu sem teto, ele escolheu anunciar a sua mensagem de libertação aos pobres, libertando até Deus das malhas dos interesses humanos, e morreu em um madeiro como um escravo malfeitor qualquer.
Para ler mais:

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Espírito de Assis

Para o dia 27 de outubro, o Papa Bento XVI convidou os líderes de todas as grandes Religiões do mundo, para um encontro em Assis. Este encontro será uma memória do primeiro encontro paradigmático do Papa João Paulo II, de 25 anos atrás. No ano 1986, ele iniciou o diálogo e a colaboração entre as religiões: “e um compromisso novo, porque na verdade nos não nos aproximamos destes objetivos elevados da época, até hoje. Nós vivemos neste tempo tensões dramáticas e conflitos, que têm causas bem diversas: a economia financeira que saiu de controle, o abismo crescente entre pobreza e riqueza, a ameaça de colapso de clima, porque nossas economias e nosso comportamento de consumidor estão longe de um relacionamento de sustentabilidade com os recursos limitados de nossa Mãe Terra. E o fatal é: em quase nenhum lugar do mundo se trata de problemas locais controláveis e sim de questões globais, que levam consigo a todos. Ainda mais a pergunta ansiosa, o que será da “Primavera Árabe”. Então é lógico, que as religiões devem ser alertadas sobre a situação ameaçadora do nosso mundo. Eles são, em sua autodefinição, responsáveis pela vida, uma vida significativa em harmonia e justiça, para uma coexistência pacífica de diferentes raças, culturas e religiões, para a proteção da criação, que nos é confiada para ser valorizada e cultivada. Ninguém de nós tem mais o direito de perseguir apenas próprios interesses e objetivos em meio e estes desafios globais.
Assis, como o ponto de encontro das religiões, é, portanto, modelo e compromisso. Francisco de Assis encarna o "espírito de Assis", no qual é possível que tal encontro tenha sucesso. Sua vida inspirou os cristãos e não cristãos, crentes e não crentes, ricos e pobres. Porque a dominação lhe era algo estranho, porque para ele, não existia o em cima e o embaixo, nada de senhores e escravos, porque somos todos irmãos e irmãs, filhos e filhas do único Pai nos céus; porque ele nada queria possuir para si só, mas tudo é dom e riqueza da criação, e pertence a todos, e porque ele mostrou em seu encontro com o sultão de Damieta em 1219, como um diálogo respeitoso e aberto entre as religiões, com pode ser feito com sucesso.

Francisco, no entanto, também precisou aprender isto. Viveu na época de cruzadas sangrentas, convocadas pelo Papa Inocêncio III e foram organizadas com grande zelo. "Deus está do lado do exército cristão contra os inimigos da Cruz". Esta era a justificativa teológica que mobilizou os homens, mas não conseguiu convencer Francisco. Ele tinha certeza de que a violência e a "missão com a espada" eram incompatíveis com o espírito do Evangelho. Ele se pôs a próprio caminho em 1219, para os cruzados no Egito; não para lutar contra os muçulmanos, mas "viver entre eles no espírito de Jesus" (ER 16). Ele queria fazer a paz. Aqui fica claro como ele entende a sua missão e como ele conseguiu inculcar isto nos seus irmãos. Onde quer que estejam, eles deverão levar a paz, não devem orgulhar-se de si mesmos e de nada se devem apropriar; eles devem pregar a palavra de Deus "mais pelo exemplo do que pelas palavras" e evitar qualquer disputa e controvérsia. Isso só é possível se eles renunciarem ao estilo de senhores, mas "viverem sujeitos à vontade de Deus" (ver RnB 14 e 16). A diferença em relação à ideologia das cruzadas não poderia ser mais significativa.

A partir desta experiência, então Francisco desenvolveu um conceito de missão, que vai muito além da tradição teológica de seu tempo. Onde quer que estejam os irmãos, sempre devem abster-se de estruturas baseadas no poder, autoridade e exploração. Pelo contrário, devem "estar sujeitos", não iniciar uma disputa teológica; mostrar que eles são cristãos e pregar a palavra de Deus, somente quando eles têm um sinal de Deus, que o momento certo chegou. Porque Deus, que cuida sempre e em toda parte da salvação da humanidade já está lá, bem antes da vinda dos missionários. Francisco tem a experiência própria, e descobriu a presença viva de Deus entre os muçulmanos.
Quem incorpora isto, irá encontrar-se com outras religiões sempre num espírito de valorização e respeito mútuo. Evitará todas as atitudes de superioridade. Terá um diálogo humilde e honesto para tentar descobrir o que podemos aprender uns com os outros para enfrentar os principais desafios do nosso tempo em conjunto. Estas são as características do "espírito de Assis", que deverão determinar a reunião de líderes religiosos em Assis. Então - como podemos esperar - será o 27 outubro um bom dia para a paz.

Andreas Müller OFM

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

São Francisco "spread"

Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/noticias/504945-sao-francisco-spread acesso em 13 dez. 2011.
Francisco exigia dos seus contemporâneos uma maior equidade e uma maior solidariedade, dois princípios que as oscilações da bolsa e dos especuladores estão nos fazendo esquecer. As riquezas que cotidianamente vemos se desagregar não são as únicas: desagrega-se a sociedade.

A análise é de Chiara Frugoni, historiadora italiana, especialista em Idade Média e história da Igreja. O artigo foi publicado no caderno Alias, suplemento do jornal Il Manifesto, 11-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.
São Francisco e Enrico Scrovegni, duas pessoas divididas no tempo: Francisco morreu em 1226, com pouco mais de 40 anos; Enrico, em 1336, com 70 anos. Divididas sideralmente no modo de definir suas próprias vidas, mas unidas pelo fato de terem dedicado muito do seu tempo ao dinheiro; o primeiro, em rejeitá-lo, e rejeitando com isso toda forma de propriedade, porque possuir um bem – dizia Francisco – implica a necessidade da espada, da violência, para defendê-lo; o segundo, em querer fazê-lo crescer espasmodicamente. A Igreja deu uma resposta diferente aos seus desejos.

Foi-lhe mais fácil aceitar o ponto de vista de Scrovegni, e o papa de então, Bento XI, era um grande amigo de Enrico, que pretendia seguir os passos de Joaquim, o pai de Maria, agradável a Deus porque dividia as riquezas, um terço para si, um terço para os pobres e um terço para o Templo. Recíprocas conveniências naquela época, recíprocas conveniências hoje?

A Igreja, uma Igreja rica e profundamente envolvida nos jogos políticos deste mundo, encontrou-se em dificuldades, ao contrário, para aceitar a proposta de vida cristã de Francisco. Inocêncio III, ao qual o futuro santo se dirigiu, foi tentado a rejeitá-la. Cedeu quando lhe foi indicado que rejeitá-la seria equivalente a rejeitar o Evangelho e o seu autor, Cristo.

O olhar de Francisco, todavia, diante das opressões e das vexações dos poderosos, não foi um olhar quieto, de quem considera que é dever do homem pecador suportar aflições e desigualdades para adquirir a vida eterna. Francisco, usando apenas as palavras do Evangelho, elaborou um modelo desestabilizador para os destinatários aos quais foi proposto, continuando a professar obediência à Igreja e na mais completa ortodoxia.

Os afrescos de Giotto em Pádua, na capela de Enrico Scrovegni, sempre foram considerados pelos historiadores da arte como uma obra desejada pelo contratante para expiar os pecados de usura próprios e do pai, Rainaldo, enfiado por Dante no Inferno, entre os usurários (Inferno XVII, 64-70). Os afrescos – onde um espaço particularmente amplo é dedicado aos pais de Maria, os ricos e piedosos Joaquim e Ana, dois personagens não presentes nas Sagradas Escrituras – proclamam, ao contrário, quão agradável a Deus é o bom uso da riqueza e do dinheiro prudentemente empregado para o próprio bem-estar e para obras de caridade. A capela Scrovegni, que se tornou igreja, não por acaso, se intitula Santa Maria da Caridade.

Enrico Scrovegni, como demonstra o seu testamento, não se mostra, de fato, como um pecador arrependido, ao contrário. Os afrescos ostentam o sucesso pessoal do contratante que quer pilotar o consenso urbano – até transformá-lo em gratidão – para o magnífico mecenas. As riquezas são um mérito para se comprar o Paraíso.

Pessoalmente, Enrico Scrovegni certamente não desdenhou o fato de emprestar sob penhor, mas foi acima de tudo um grande financista. Uniu os patrimônios de irmãos e irmãs, e pôs de pé um banco de família e, como habilíssimo homem de negócios, sustentou, empobrecendo-a, a cidade de Pádua, comprometido com um vasto programa de construção nas maiores igrejas da cidade.

Enrico socorreu a cidade com empréstimos ingentes, mas com uma taxa de juros moderada, empréstimos seguros pela via dos impostos que a entidade recebia e para as suas ingentes propriedades. A cidade de Pádua embolsava, mas não conseguia melhorar os seus orçamentos, obrigada a se endividar cada vez mais com Enrico Scrovegni. Um círculo vicioso, o precursor da nossa dívida soberana, de um lado, e da falsa compensação de bons juros que o cidadão recebe se assinar títulos de Estado, compensação que obriga o próprio Estado a continuar endividando-se para honrá-lo. Naquele tempo, pelo menos a Igreja podia ameaçar o Inferno para quem se enriquecia emprestando dinheiro; e as pessoas, que realmente acreditavam no Inferno, encontrava nessa punição ultraterrena motivo de satisfação, mesmo que a desforra se projetasse no além. Existiam os culpados de carne e osso.

Quem são os culpados hoje? Os banqueiros das agências de rating, os mutáveis humores dos mercados, o imaginário coletivo do medo? Entidades incognoscíveis, sobre as quais é impossível expressar condenações tangíveis.

Justamente porque Scrovegni sabia que não gozava daquela perfeita boa fama à qual tanto estimava (quase certamente desejaria em um futuro imediato "entrar em campo", ter um peso político na cidade), na capela, ele tomou algumas precauções para que a sua pessoa não se conectasse negativamente ao dinheiro. Por exemplo, à virtude da Caridade, Giotto não contrapõe, como de costume, Avareza, mas sim Inveja.

Na cena de Cristo que afugenta os mercadores do templo, há toda a fúria do Redentor que derruba os bancos dos emprestadores, mas não se veem as moedas caídas no chão. Judas é representado como traidor por ser presa do demônio, seguindo Lucas 22, 1-6, mas não como avarento. Giotto teve o cuidado de não mostrar o dinheiro que passa de mão em mão no encontro secreto da venda de Cristo.

No arco triunfal da capela, à esquerda (imagem ao lado), Judas discute com os sumos sacerdotes, enquanto aperta o saco cheio das moedas invisíveis: a sua sombra é o próprio demônio que agarra por trás a presa da qual repete o aguçado perfil. À direita (imagem abaixo), ao contrário, Maria abraça sua prima Isabel: Maria aguarda o nascimento de Cristo, e Isabel, o de João Batista.

Anne Derbes e Mark Sandon, em The Usurers' Heart, de 2008, baseando-se em uma passagem do dominicano Remigio de' Girolami, contemporâneo de Giotto, que contrapôs o pecado contra a natureza da usura (da qual logo falarei) ao parto contranatural de Maria – já que, depois de ter dado à luz Cristo, Maria permaneceu virgem –, consideram que o programador dos afrescos quis contrapor Judas e o seu pecado a Maria. Segundo os Atos dos Apóstolos, 1, 18, Judas não morreu enforcado, mas "arrebentado pelo meio, espalhando-se todas as suas vísceras", porque antigamente se considerava que o ventre dos possuídos era a sede dos demônios que, com a morte, se retiravam do corpo. Giotto representou Judas no Juízo Universal enforcado, sim, mas com os intestinos espalhados e sem a bolsa no pescoço, como, ao contrário, outros avarentos condenados têm.

Eis, portanto, segundo os dois autores, Judas e o seu estéril parto de espíritos imundos, morrendo; eis, no momento da traição, a bolsa de dinheiro que se parece com um útero (sic!), o ouro que gera ouro; eis a grande caridade no encontro com Isabel, o fértil ventre da Virgem que gera Cristo. Judas representaria a "concreta admissão de culpa" de Enrico e Rainaldo; a divina gravidez da Virgem, a remissão do pecado da usura.

Com efeito, na especulação filosófica da Escolástica, a usura era considerada um pecado contra a natureza, porque o dinheiro paria dinheiro, enquanto, obviamente, só os organismos naturais podem ter prole. Ainda o Decretum de Graciano, notabilíssima coleção de textos de direito canônico, de cerca de 1180, asseverava: "Ex ipso auro aurum nascitur", a usura faz nascer o ouro do ouro. Alessandro Bonini, teólogo e ministro franciscano ativo enquanto Giotto estava no trabalho, explicava: "Por usura, entende-se quando o ouro gera ouro. E o ouro cresce dentro da usura assim como através da fecundação e o parto". Vozes da Idade Média que chegam até nós hoje com fresca e perversa atualidade.

Só a cerrada e parcial aproximação textual proposta por Derbes e Sandon e não a aproximação visual dos afrescos cria, no entanto, um laço entre a gravidez de Maria e a metafórica de Judas, que "pare" através dos intestinos vazados.

Remigio de' Girolami, depois, apresenta uma substancial diferença entre o usurário e Judas, e em favor de Judas, porque Judas se arrependeu, e o usurário, ao contrário, não se arrepende nunca, nem enquanto se confessa.

As reflexões medievais partiam de um conceito não mais compartilhável por nós: já que o tempo pertence a Deus, como é possível vender o tempo dando-lhe um preço, o tempo que não pertence ao homem? Portanto, quem restitui um empréstimo deve devolver a mesma soma, sem acrescentar os juros.

Considerava-se ainda que o dinheiro devia corresponder apenas a um trabalho ou a um bem tangível, enquanto o ouro que gera ouro é um mecanismo autorreferencial que premia quem possui o dinheiro, porque tem o mérito ou a sorte de possuí-lo e, possuindo-o, se enriquece passivamente às custas dos mais fracos.

São Francisco reagiu a tudo isso e, de sua parte, decidiu não levar isso em conta.

Francisco era filho de um mercador de tecidos, riquíssimo usurário. Ao longo do tempo, amadureceu pelo dinheiro um verdadeiro horror e decidiu que ele e seus companheiros abririam mão dele. Manter-se-iam trabalhando, nos campos, nas casas, como artesãos, no serviço do próximo, dos camponeses, dos doentes e dos pobres que, nos hospitais, nos leprosários, ao longo das estradas, esperavam a morte. Os freis aceitariam como compensação apenas o alimento para sobreviver. Rebaixados em uma sociedade em que era o dinheiro que regulava o acesso aos bens, os freis, banindo o seu uso, rejeitavam conceder-lhe uma função em suas vidas.

Não entravam no sistema dos vínculos e dos favores, das gratificações e das doações, não contraíam nenhuma dívida de gratidão com relação à caridade alheia. Mas, se Francisco e os seus freis, trabalhando, eram autônomos e bem sabiam argumentar e rebater, os pobres estavam sozinhos, portanto incapazes de se expressar. Francisco e os freis falaram então também por eles e, acolhendo-os na comunidade como irmãos, anunciaram aos marginalizados que eles não estavam mais sem direitos.

Francisco, que compartilhava as ideias econômicas do seu tempo, considerava que a quantidade de dinheiro e de riqueza no mundo era estável e que não poderia aumentar. No explosivo capítulo IX da "regola non bollata" (uma regra operante, embora sem a aprovação oficial da bula, do selo pontifício), ele formula um apelo não violento, mas, a seu modo, revolucionário. Ele não fala de caridade, mas de justiça. Francisco explica que não é preciso apelar ao bom coração dos cristãos para que, a seu critério, façam a caridade, considerando-se guardiões da moral pública. Os ricos, ao contrário, são obrigados a restituir aos pobres parte daquilo que possuem (em certo sentido, é aquilo que, há mais de um mês, ouvimos se agitar no debate político como "redistribuição da riqueza"!).

Depois do pecado dos Progenitores e dos seus descendentes imediatos, rompe-se a justa distribuição dos bens, e a avidez dos ricos retira dos pobres os meios para sobreviver. Deus, imensamente rico, encarnando-se, fez-se homem e pobre, recebendo de esmola aquilo que já era seu por direito divino. Desse modo, Cristo reafirmou que os pobres devem poder participar da "mesa do Senhor".

"E a esmola – escreve Francisco – é a herança e a justiça que é devida aos pobres; o Senhor nosso Jesus Cristo adquiriu para nós".

Francisco, portanto, exigia dos seus contemporâneos uma maior equidade e uma maior solidariedade, dois princípios que as oscilações da bolsa e dos especuladores estão nos fazendo esquecer. As riquezas que cotidianamente vemos se desagregar não são as únicas: desagrega-se a sociedade.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Uma mudança de paradigmas (quase) esquecido

O Concílio Vaticano II redescobriu, em “Lumen Gentium”, o povo de Deus como elemento característico da Igreja. Esta mudança paradigmática é um processo único para a época. A relação hierárquica dos cristãos passou por uma reviravolta. O papa, os bispos e os sacerdotes têm somente um papel de servidores, e os leigos têm a sua missão, a sua diginidade não devido à ordem dada pela hierarquia, mas sim por Cristo mesmo. Este fato também modifica a nossa imagem de Deus. Não veneramos um Deus dos cristãos, mas sim um Deus de todos os seres humanos, um Deus que quer livrar o Seu povo da escravidão, da opressão e da marginalização para o levar à “terra prometida” na qual todos possam viver em justiça e paz. Esta é a promessa de salvação feita por Deus.

Numa Igreja assim compreendida, a política e o humanismo (isto é, justiça, paz preservação da criação, direitos humanos, humanismo etc) são temas centrais. São as questões básicas da Igreja e os fundamentos inalienáveis quando se fala do Deus da Bíblia. Pois é Ele que chama o Seu povo para a conversão e é Ele que o liberta. O povo de Deus, portanto, consiste em pessoas que estão dispostas e que têm a coragem de testemunhar este sonho de Deus no mundo: o sonho de que Deus é Deus e nenhum ídolo, de que é um ser social que quer a vida de todos; que Ele é, entre eles, a justiça, que “enche de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias”, que “derruba os poderosos do trono e eleva os humildes” (Cântico de Maria - Lc 1, 46-55).

Esta é precisamente a nossa missão. Para sabermos o que isso significa concreta-mente, aqui e agora, precisamos – como diz Agostinho – ler dois livros: o livro da vida (sinais dos tempos) e a Bíblia. O Cardeal Aloisio Lohrscheider do Brasil, venerado na América Latina como “Doutor da Igreja” do nosso tempo, disse uma vez: “se hoje quisermos saber o que Deus quer de nós, então temos que ir à escola junto dos pobres, isto é, conhecer as necessidades concretas da esmagodora maioria das pessoas e ler a Bíblia a partir de sua ótica. Portanto, precisamos ter um olhar mais desperto para os problemas do nosso tempo. Daí se pode depreender o que hoje em dia devia fazer parte do campo central de ação dos cristãos“.

Em Março de 2010 o Conselho Católico Alemão de Missões (Deutscher Katholischer Missionsrat DKMR) publicou o “Apelo para uma Igreja Profética” pedindo amplo apoio ao mesmo. No DKMR está reunida a competência eclesiástica universal da igreja alemã: as grandes obras de auxílio, as ordens religiosas de missão e as secções da igreja universal das dioceses alemãs. De que se trata neste apelo? Quer dizer que a Igreja negligencia vergonhosamente a sua missão se não intervier nos problemas prementes e aflituosos do nosso tempo e se não se posicionar na primeira fila. A Igreja não pode tratar em primeiro lugar do bem estar dos cristãos construindo um muro contra o assim chamado “mundo mau”. Jesus amava os pobres; não foi o samaritano benevo-lente, não foi o pontífice, mas comeu com os publicanos e prostitutas e não quis ser instrumentalizado pelos ricos e poderosos.

Uma pessoa que compreendeu e vivenciou isto, é Francisco de Assis. Quando, num dia chegou com os seus primeiros sete irmãos a Poggio Bustone, situado no Vale de Rieti e viu a vasta planície, teve clareza: somos enviados ao imenso mundo. Por isso, chamou todos e falou-lhes do Reino de Deus e da vocação que todos deveriam cumprir. Depois dividiu-os em quatro grupos de dois irmãos e disse: “Ide, caríssimos, dois a dois para as diferentes regiões do mundo e anunciai aos homens o Evangelho da paz! (1Cel 29s). Assim, Francisco confia na sua ideia missionária – como na história da sua vocação – em sua convicção interior. A missão dos irmãos é anunciar a boa-nova da paz, quer dizer, a ideia do Reino de Deus. Somos enviados para todas as partes, todos os pontos cardeais. Não pensa de maneira nenhuma que, para isso, precisa duma ordem do Papa ou dos bispos: “Deus mesmo é que me conduziu”. Ele só manda confirmar esta convicção interior, mas não se prende aos costumes eclesiásticos da sua época. Se considerarmos isto, sabemos o que é a nossa tarefa – hoje em dia.

Andreas Müller OFM

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Modo franciscano de solução de conflitos

É permitido simplesmente matar Osama bin Laden para quebrar a corrente de violência e crimes desumanos? É permitido anular os direitos fundamentais do ser humano e o estado de direito se não é possível apanhá-lo de outra maneira? Este tema é debatido em todas as regiões de maneira viva e controversa após o assassinato de bin Laden por uma unidade de elite dos Estados Unidos. Não é possível dar respostas simples a esta pergunta. Também para cristãos não é possível dar esta resposta, como podemos depreender da carta da Província Franciscana de Nova Yorque, que será publicada a seguir.

Um rápido olhar para Francisco poderia ajudar-nos realmente. Ele está convencido de que temos de aguentar simplesmente a violência e a crueldade desenfreadas. Numa carta dirigida a um ministro que incapaz de dissolver os conflitos no seu convento, escreve o seguinte: “Não deves desejar que sejam melhores cristãos.” Isto quer dizer, que não se deve evitar o mal, é preciso agüenta-lo. Vai ainda mais longe: temos de nos submeter ao mal, só assim pode verificar-se toda a força do amor e da obediência.

Esta capacidade de suportar conflito e sofrimento só é possível no entanto, quando estiver a par com outra atitude fundamental que foi muito importante para Francisco: a capacidade de compassio, de poder sentir compaixão; uma capacidade com a qual se pode sentir na própria carne o sofrimento do outro. Francisco é, pois, não só o “mendigo” alegre ou o “frei sempre alegre”, mas sim é alguém que “sofre” e que “chora”. A sua compaixão dirige-se a todos os seres vivos, ao irmão na sua comunidade, ao leproso e ao mendigo, ao verme na rua e ao cordeiro no campo. Por trás disto está um sentimento profundo. O mal (violência, injustiça) com o qual somos confrontados está também dentro de nós. E o bem que desejamos está também existente no outro, talvez oculto, mas não completamente desaparecido. A nossa compassio tem de se dirigir, pois, em dois sentidos. É válida tanto para as vítimas como para os autores dos crimes, quer dizer, também para aqueles que, na sua paixão ou cegueira desenfreada, provocam este sofrimento noutras pessoas. Não é possível dividir o mundo simplesmente em bom e mau, em vítimas e autores de crimes. Nós temos as duas facetas dentro de nós mesmos. E, conforme as circunstâncias, uma ou a outra pode prevalecer e dominar.

A capacidade de compassio não é um privilégio de pessoas religiosas, pode resultar também de raízes humanistas. Para Mahatma Gandhi, por exemplo, está ligada essencialmente à convicção de que Deus está em todo o ser, quer dizer, que só é necessário que avivemos esta divindade em nós, como a visão dum mundo mais justo se torna, para Che Guevara, a fonte de energia para o compromisso apaixonado pelos pobres. Francisco deve a sua capacidade de compassio ao encontro íntimo com o Cristo em sofrimento. Isto fez com que nele crescesse o reconhecimento de que, sem afeição e amor e sem a disposição de compaixão, nunca pode ser despertado o bem noutra pessoa.

Como Francisco vivenciou isto realmente tornou-se o gerador da paz conhecido e reconhecido em toda a parte. Ele é, portanto, não só uma pessoa pacífica que se submete e não reage. Pelo contrário, é uma pessoa que vê a sua missão de gerar a paz. É capaz disto porque, no encontro com Deus, encontrou a paz e tem a força interior de suportar também conflitos e trazer à discussão tudo pacificamente, mas de maneira decidida. Isto demonstra, por outro lado, que a não-violência não é uma atitude de fraqueza, mas sim uma atitude interior profunda que também se deve exprimir no pensamento e na linguagem.

Com esta atitude, Francisco torna-se o grande gerador da paz, por isso, rejeita todo o uso de armas; o desejo de paz determina cada encontro e cada pregação. Esta atitude também é sua alternativa à Cruzada. Sua atitude não violenta e geradora da paz é condensada na famosa lenda do lobo de Gubbio que só se transformou numa fera porque estava esfomeado. Encontra-se com o lobo sem medo e sem armas e o persuade a prescindir dos seus saques, ao mesmo tempo, que persuade os cidadãos de Gubbio de que só poderão viver em paz, se derem também ao lobo o que ele precisar para viver.

No que diz respeito a bin Laden, isto significa que nós precisamos nos perguntar porque se tornou ele um terrorista impiedoso? Sem estruturas mais justas e mais humanas não seremos capazes de erradicar o mal do terrorismo. Estamos, pois, no princípio, mesmo depois da morte de Osama bin Laden.

Andreas Müller OFM

domingo, 12 de junho de 2011

O projeto franciscano de vida / Frei Aldir Crocoli, OFMcap

Um grupo de Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria Auxiliadora estiveram reunidas, nos dias 4 e 5 de junho, em Passo Fundo, para estudar o Carisma Franciscano.

O encontro foi assessorado pelo Frei Aldir Crócoli, Capuchinho, diretor da ESTEF – Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana, de Porto Alegre. Foi tabalhado no encntro um texto base elaborado por Frei Aldir. O texto é intitulado:
O projeto franciscano de vida
Quem desejar ler o texto, basta navegar em:
http://www.franciscanasmma.com.br/uploads/files/projetodeVida%20MovimentoFranciscano_freiAldir.pdf

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Viver franciscanamente – hoje

O ano de 2011 vai ser um ano importante para a família mundial do CCFMC, relembrando os princípios deste projeto franciscano único. Em 1981, reuniu-se, pela primeira vez, o novo “Conselho Internacional de Missões dos Franciscanos”, em Roma. O tema da reunião foi a “dimensão missionária do nosso carisma.” Participaram na reunião os promotores da evangelização missionária de todas as regiões do mundo. Houve unanimidade em que este aspecto quase não tem importância na formação dos jovens irmãos. Consequentemente, foram procurados meios para reverter esta situação. Finalmente, o comitê executivo eleito pela assembleia foi incumbido de elaborar um “Curso Básico sobre o Carisma Missionário Franciscano”.

Em 1982, o primeiro congresso interfranciscano de Mattli, destinado a irmãs e irmãos oriundos dos continentes do Sul, deu mais um impulso decisivo. Aí demonstrou-se, pois, que o problema é de todos que pertencem à Família Franciscana. Os aproximadamente 60 delegados, de todas as regiões do Sul, num documento que atraiu muita atenção, formularam alguns princípios, sobre como deve ser relido e reinterpretado o carisma franciscano hoje, visando os “sinais do tempo”. Aí ficou claro que a iniciativa da OFM (1981) deveria ser enfrentada e realizada como projeto interfranciscano.

A rápida realização e divulgação do curso demonstram que a nossa opinião estava correta. As fases individuais são bastante conhecidas. Por isso, são suficientes algumas indicações. De 1983 a 1986 durou o processo da compilação e redação dos temas num diálogo internacional, intercultural e interfranciscano permanente.

Um papel decisivo coube ao Centro Franciscano de Animação Missionária Bonn, que foi incumbido de organizar e coordenar a realização do projeto. Para garantir o caráter interfranciscano e intercultural do curso, foi criada uma equipe intercultural com participantes de todos os continentes, que, num mutirão de 8 semanas, examinou e completou criticamente todas as contribuições recebidas. A equipe de redação de língua alemã ficou incumbida de compilar tudo numa forma homogênea e bem legível.

De 1986 a 1994 houve uma rápida divulgação universal do curso por todos os continentes com traduções para 17 línguas. Especialmente na África, na Ásia e na América Latina, o curso torna-se num instrumento importante para aprofundar e renovar o carisma missionário franciscano. Os organismos executivos e promotores mais assíduos são as muitas congregações das irmãs da IFC/TOR e a Ordem Terceira Secular (OFS). Mas, também notaram-se algumas deficiências. O domínio da Primeira Ordem foi ainda palpável; Santa Clara e, portanto, a dimensão feminina do carisma e a independência da OFS quase não foram observadas.

O congresso internacional de 15 dias, conhecido como “Assis 94”, que entra na história como a maior assembleia da Família Franciscana até àquela data, corrigiu estas deficiências e determinou os princípios para uma redação completamente nova do curso, e isso, num diálogo intenso nunca antes visto. As 25 lições que resultaram daí são o fruto dum trabalho penoso de redação que durou cinco anos e formam o atual instrumento para este programa de estudo mundial.

Estamos convencidos de que o CCFMC é um projeto inspirado pelo espírito pois é o instrumento interfranciscano mais utilizado para vivenciar o Evangelho, aprofundar e renovar o carisma missionário da família franciscana e muito mais. De que se trata realmente é pouco nítido devido à extensão do título de CCFMC. Uma colaboradora honorária engajada formulou isso, duma forma muito concisa: “Viver franciscanamente – hoje”, é verdadeiramente isso de que se trata.

Naturalmente, resta para todos os nossos esforços o que Francisco disse, no fim da sua vida: “Irmãos (e irmãs) comecemos e sejamos mais perfeitos, pois, até agora, bastante pouco progredimos!”

Andreas Müller OFM

Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2011/2011_01_News.shtml acesso em 10 fev. 2011.
Foto: Altar na Casa de Retiros dos Franciscanos em Tarata, Bolívia / fotografia de Jim McIntosh. Tarata, 2010. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Franciscans_in_art_.jpg acesso em 10 fev. 2011.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A Opção Franciscana pelos Pobres

A pobreza vem crescendo em todo o mundo, não só nas regiões tradicionalmente pobres dos continentes do Sul, mas também nos países industrializados e ricos do Norte. Isto acontece embora se tenha acumulado aí uma riqueza nunca antes vista. Aparentemente se perdeu a medida exata e o sentido de uma justa distribuição.


Com Francisco, aprendemos que a situação pode ser diferente. Iniciou o seu caminho com uma pobreza radical, numa época em que a burguesia entrou no grande projeto capitalista devido à economia monetária emergente; um projeto que, olhado a partir das vítimas, trouxe tanta injustiça ao mundo. Francisco pôde andar pelo caminho da pobreza, porque “o Senhor lhe deu irmãos”. Com opção pelos pobres questiona a burguesia egoista, e mostra uma alternativa. Francisco, intuitivamente, sente que a sociedade emergente se baseia no princípio de apropriação, por um lado, mas pelo outro, de desapropriação. A consequência do bem-estar acumulado é sempre a pobreza de outros. Francisco, no entanto, identifica-se totalmente com os materialmente pobres e com o Cristo pobre. Ele acredita que a ânsia de possuir cada vez mais, impede o encontro com as pessoas e com Deus, pois os interesses trazem divisão entre as pessoas. As posses chegam a substituir as relações porque, segundo se diz, trazem mais segurança do que os seres humanos. O projeto franciscano, no entanto, quer que as pessoas se encontrem no mesmo nivel, tratando-se mutuamente como irmãos e irmãs.

Com esta visão de fraternidade, Francisco levou uma ideia bem revolucionária à visão de ordem social reinantes na Igreja e na sociedade da sua época. Não há senhores nem servos e não há diferença de classes. É a trilogia dos direitos e das obrigações do ser humano: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. É precisamente esta fraternidade na qual Francisco pensava e, por isso, pertence, sem dúvida, aos autores intelectuais desta visão de uma humanidade de raiz cristã. Consequentemente, Francisco repudiou toda espécie de hierarquia nas relações entre ele e sua comunidade. “Nenhum irmão deve ocupar uma posição de poder ou um cargo, muito menos, entre os irmãos” – diz a Regra Não-bulada (RnB 5,9).

Esta é, precisamente, a visão de uma relação livre de dominação, mas de igualdade de direitos. Ele diz também como se consegue isto: os irmãos devem “servir e obedecer uns aos outros, de livre vontade, pelo amor do Espírito”. Isto quer dizer: escutar as necessdades dos outros, a vida da comunidade, estar atentos ao chamado de Deus, aqui e agora! Também aqui, se trata do caminho de Jesus que Francisco segue decididamente: acabar com os jogos de poder entre os adultos, acabar com as lutas pelo poder para obter os melhores lugares e posições, acabar com o temor ficar atrás.

Naturalmente, são necessárias regras e acordos dentro de uma comunidade, mas estes devem ser o mais simples possíveis. Portanto, devem ser evitados comportamentos dominantes, possessividadades, prepotências – esta é a visão de Francisco de Assis, a visão de uma humanidade fraternal. Mais ainda: para ele é importante uma democracia cosmo-ecológica com todos os seres criados. As relações com a natureza não devem ser relações de posse, mas sim de convivência e fraternidade. Tudo isto é derivado da pobreza vivida como forma de vida; a mesma possibilita o respeito e a veneração de todos os seres e elementos da Criação. Por isso, a pobreza desemboca numa liberdade imensa e numa alegria altruista em relação a todas as coisas.

Se esta concepção de uma vida fraternal, nesta terra, é tão fascinante, porque nós a consideramos pouco realista, embora a desejemos de todo o coração? O “louco de Deus” de Assis sentiu claramente que, a avidez por posses destroi a solidariedade, pondo em perigo a fraternidade entre os seres criados. Por este motivo, renunciou a toda propriedade, querendo que tudo fosse dividido e distribuido fraternalmente; foi também este o motivo de sua crítica ao poder e de sua reserva com relação às autoridades, no estado e na Igreja. Neste nosso tempo de uma distribuição não equitativa e de tão grande frieza social, esta visão franciscana em relação a Deus e às pessoas, é mais atual que nunca.

Andreas Müller OFM

Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2010/2010_10_News.shtml acesso em 13 nov. 2010.

Foto: Homeless sleeping / Henrique Pinto. 2007. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:HomelessSleeping.jpg acesso em 13 nov. 2010.

sábado, 7 de agosto de 2010

Pobreza e dinheiro no franciscanismo das origens

Publicamos aqui alguns trechos da conferência proferida pelo historiador italiano Roberto Lambertini no centro de espiritualidade franciscana Oasi Gesù Bambino di Greccio, na Itália, por ocasião do encontro "Os franciscanos e o uso do dinheiro", organizado pelo Centro Cultural Aracoeli.

Lambertini é doutor em história pela Universidade de Bolonha e atual professor de história medieval na Università degli Studi di Macerata, na Itália. O artigo foi publicado no jornal L'Osservatore Romano, 28-07-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Voltando o olhar aos testemunhos que se referem à relação entre pobreza e dinheiro nos primeiros anos de vida da fraternitas francescana, salta aos olhos que a atenção à questão da relação entre a escolha do frade menor e o dinheiro é notável e significativa.

Relendo o texto crítico da regra mais antiga que chegou até nós, recentemente reproposto com grande cuidado por Carlo Paolazzi, esse aspecto não pode não impressionar. Antes ainda de se chegar ao capítulo expressamente dedicado à possibilidade de receber dinheiro por parte dos freis, no capítulo II se proíbe que se aceite dinheiro diretamente ou por meio de intermediários por ocasião da entrada de qualquer um na "vida", enquanto se admite a possibilidade de receber qualquer outra coisa, em caso de necessidade, como acontece com os mais pobres.

No capítulo VII, se autoriza o recebimento de omnia necessaria como recompensa pelo trabalho prestado, mas não "pecúnia". O capítulo seguinte entra nos particulares, ordenando que não se leve consigo pecúnia ou dinheiro, que não sejam aceitos e que não se faça aceitar por nenhuma razão, senão pela necessidade manifesta dos freis doentes.

O preceito é justificado com a afirmação de que não se deve considerar que o dinheiro seja mais útil do que as pedras, enquanto a opinião contrária é resultado da sugestão do maligno. A insistência sobre esse ponto é significativa: a regra chega a afirmar que o dinheiro encontrado por acaso deve ser desprezado como o pó. O frei que contravenha a essa norma deve ser considerado falso, ladrão, bandido e é implicitamente comparado a Judas.

Mesmo pedindo esmola, os freis não devem aceitá-la sob a forma de dinheiro. Nem devem exigir ou fazer com que se peça dinheiro para as instituições assistenciais (hospitais, leprosários) junto aos quais prestam serviço. São, sim, autorizados a pedir esmola para os leprosos, mas sob a condição de que se "guardem muito do dinheiro".

Embora sejam mais sintéticas, as formulações da regra sucessiva, aprovada pelo Papa Honório III em 1223, excluem não só o dinheiro como forma de compensação pelo trabalho prestado, mas proíbem até de modo absoluto o uso do dinheiro, deixando que os ministros e administradores se ocupem – por meio de amigos espirituais externos à ordem – dos co-irmãos doentes.

Nota-se que aqueles que têm funções diretivas na ordem são carregados com maiores responsabilidades com relação à questão do uso da moeda, mas é confirmada, de qualquer forma, a clara exclusão do dinheiro dos bens admitidos para o sustento de quem escolhe a pobreza dos menores.

Como Giacomo Todeschini já bem evidenciou no seu livro "Ricchezza francescana", essa "recusa do dinheiro" é reconfirmada e até amplificada nas primeiras vidas de Francisco, reconhecido santo em 1228, a apenas dois anos da sua morte. Nas vidas de Francisco, as moedas são insistentemente colocadas ao lado não só do pó e das pedras, como na "Regula non bullata", mas também do esterco (particularmente o de burro), das moscas (pela sua inutilidade) e até das serpentes venenosas e do diabo, pelo caráter insidioso dos perigos que escondem.

Essa desconfiança franciscana com relação ao dinheiro tem tons e traços verdadeiramente peculiares, particularmente se for confrontada com o que encontramos nas fontes contemporâneas relativas a outra grande ordem mendicante, os freis dominicanos. Mesmo assumindo plenamente o conselho evangélico, segundo o qual os pregadores não devem levar dinheiro consigo durante as suas missões, os freis de Domingos não mostram uma semelhante sensibilidade negativa com relação ao dinheiro. O próprio Domingos de Caleruega, descrito como modelo de austeridade e de pobreza, maneja o dinheiro, e as constituições da ordem, surgidas ainda nos anos 30, recomendam que priores e provinciais administrem o dinheiro de comum acordo com os co-irmãos.

Não sem uma ponta de polêmica, o grande erudito e historiador dominicano Simon Tugwell observou que Domingos nunca sentiu "embaraço" com relação ao dinheiro, deixando entender que outros, especificamente Francisco e os seus seguidores, teriam sentido justamente uma "dificuldade de relação" com ele.

Com efeito, o impedimento normativo erigido por Francisco e pelos seus co-irmãos contra o uso do dinheiro foi muitas vezes relacionado com categorias psicológicas. Falou-se de "obsessão" e também de uma espécie de fetichismo – ao contrário, entende-se – com relação à fisicidade das moedas. O mercador "arrependido", "convertido", como Francisco – depois da escolha da pobreza radical – teria como que percebido que, do instrumento príncipe da atividade que havia abandonado, provinha uma espécie de fluido maléfico, ao ponto que até o contato físico com a moeda podia ser perigoso.

Intervindo recentemente em um encontro em Assis, "A economia dos conventos dos Frades Menores e dos Pregadores até a metade do século XIII", Horst Enzensberger falou de uma resistência "anarcoide" ao dinheiro, que se caracteriza pela inadequação aos seus tempos e pela enorme ingenuidade. Os termos adotados pelo professor alemão são duros, mas não poucos se perguntam se Enzensberger não tem razão ao considerar a proibição do uso do dinheiro como uma espécie de fixação neurótica de Francisco, destinado, pela sua própria natureza, a ser desatendida na práxis concreta da ordem dos menores.

Na verdade, os estudiosos mais atentos souberam dar respostas mais convincentes e interessantes. David Flood, destacando o aspecto social, sugeriu que os primeiros franciscanos viram no dinheiro o sinal e ao mesmo tempo o instrumento do poder aos quais os menores querem renunciar, para compartilhar o estado daqueles que são marginalizados da economia.

Em 2009, essa ideia foi retomada também por Michael Cusato, por ocasião de um encontro de estudo dos franciscanos norte-americanos, de recentíssima publicação, com o título "Poverty and Prosperity": para Cusato, a recusa de manejar moedas é o gesto simbólico de renúncia aos privilégios sociais injustos que Francisco havia desfrutado antes da sua conversão.

David Flood destacou também que, excluindo o dinheiro dos bens que podem ser obtidos como esmola, os franciscanos queriam fugir do risco de converter aquilo que era oferecido para as suas necessidades em aquisição de bens não necessários. Por sua vez, Giovanni Miccoli interpretou essa "drástica exclusão" do dinheiro como consciência do risco de acumulação por parte dos freis, um risco que se tornou particularmente forte a partir do momento da expansão da economia monetária.

Uma chave interpretativa posterior foi oferecida por Giacomo Todeschini, que com felicidade intitulou um dos capítulos do seu livro de "La scoperta dell'altrove" [A descoberta do outro lugar], decifrando a proibição do dinheiro por parte dos franciscanos como uma medida fundamental para poder atingir uma esfera de valor dos "bens do mundo" diferente, outra em relação àquela da economia monetária, em resumo uma dimensão existencial em que o dinheiro não mede as coisas.

Essa escolha permite que os franciscanos não só declarem, mas façam a experiência do fato de que as riquezas deste mundo têm um outro valor, misterioso, "não redutível a um valor de troca facilmente monetizável". Portanto, para Todeschini, a prática da pobreza não é só um exercício ascético, mas também um modo alternativo de "ir além" dos bens deste mundo.

Desse ponto de vista, a renúncia ao dinheiro, em vez de ser um elemento "rigorístico" posterior que torna – perdoem o jogo de palavras – "mais pobre" a tradicional pobreza monástica, torna-se um modo para se chegar a "encostar com a mão" aquela dimensão da vida humana para a qual os bens (hoje diríamos os recursos) têm um valor que não é redutível ao seu valor de troca.

O valor de troca, aquele pelo qual tudo é equiparável por meio do dinheiro, não tem a última palavra: o pão com o qual se saciam os pobres não pode ser posto na mesma escala dos arreios de luxo de um cavalo, ou – para fazer um paralelo atual – uma garrafa d'água não pode ser considerada só a centésima milésima parte de uma caminhonete de qualidade média.

Enfim, a radical renúncia franciscana ao dinheiro não é uma fuga romântica da realidade, mas sim o modo para alcançar uma realidade mais profunda, mais verdadeira, a única dentre outras que permite que se julgue de modo competente o modo de usar os bens deste mundo. Justamente por essa razão, Giacomo Todeschini escreveu mais de uma vez que os franciscanos que, com a sua escolha de pobreza revelam "um outro lugar" com relação à economia monetária, tornam-se conselheiros confiáveis para quem, como os leigos cristãos, continuam vivendo, ao contrário, no mercado.

Escolher a pobreza como liberdade do dinheiro, além de um gesto penitencial, torna-se um modo para adquirir um ponto de vista mais claro com relação àquilo que verdadeiramente tem valor entre os bens dos homens.

Para ler mais:

Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=35048 acesso em 7 ago. 2010.
Ilustração: Legend of St Francis : renunciation of Wordly Goods / Giotto di Bondone. Assis : Basílica de São Francisco de Assis, séc. XIV. Disponível em
http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Giotto_-_Legend_of_St_Francis_-_-05-_-_Renunciation_of_Wordly_Goods.jpg
acesso em 7 ago. 2010.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

De pé descalço nas pegadas de Jesus

Francisco de Assis experimenta e segue Cristo
Fr. Niklaus Kuster OFMCap
1. Juventude não religiosa no centro de Assis e um Deus distante

Porque vive uma pessoa jovem, socializada pela Igreja, no ano de 1200, “como se Cristo não existisse”? E isto no centro duma cidade que dispõe de mais de uma dúzia de igrejas e centros monásticos, ao mesmo tempo, que só tem 2000 habitantes? A resposta pode ser insinuada pelo portal da Catedral de São Rufino, que foi construído naquela época: representa uma imagem de Deus, normal em 1200: o Deus do mundo românico, no trono, assistido pelo sol e pela lua, altamente sublime. O que tem esse Cristo poderoso do mundo a ver com a vida cotidiana das pessoas, com as preocupações burguesas, negócios planejados, festas e sonhos com carreiras?

“O mais humano de todos os santos” escreve Raoul Manselli sobre a primeira metade da vida que tinha “vivido sem Cristo”. O autor traduz assim, para a linguagem moderna, o que Francisco de Assis expressa no seu testamento desta maneira: “cum essem in peccatis” (“como eu estivesse em pecados”). O jovem negociante, sem dúvida, pratica a religião como toda a camada burguesa: vai à missa aos domingos, participa das procissões nos dias festivos e peregrina com sua família, de vez em quando, para Roma. No entanto, olhando para trás, a fé parece não ter influência em sua vida. Agir e decidir. Naquela época é o clero que se ocupava da religião. O clero que está presente em grande proporção na cidade, não acompanha a rápida mudança do tempo. O culto celebrado não significa, de maneira nenhuma, espiritualidade vivida.

Deus mesmo se mostra altamente paciente com o jovem negociante que, durante muitos anos, desfruta do lado dourado da vida. O “Altíssimo” pode esperar até as pessoas o procurarem por iniciativa própria – e Ele espera o que o procura nos lugares mais estranhos. Contudo, este tema vai ser abordado mais tarde.

2. Guerra – Calabouço – Doença
Tocar Aquele que é “luminoso acima de todas as coisas”

Só quando o jovem ambicioso, mimado pela vida, tropeça nos planos audazes da sua ambição, então desperta a sua alma. Aos 20 anos experimenta, na batalha no Tibre, um colapso terrível, é prisioneiro de guerra, passa um ano nos calabouços escuros de Perusa, é liberto pelo pagamento de uma fiança, depois adoece gravemente. Quando, um ano mais tarde, se restabelece, a sua vida comovida começa a procurar mais profundidade.

“Business as usual” na grande empresa do seu pai, passeios a cavalo aos mercados, no arredores e festas noturnas nos dois anos seguintes, fazem crer que tudo se tem normalizado. Sem que os seus amigos e a sua família o notem, o jovem comerciante desliza para uma dupla procura. Francisco começa, primeiramente, a descobrir o silêncio. Nos arrabaldes da cidade encontra umas cavernas. Nelas pode dar espaço às suas experiências e às perguntas da sua alma. Nas horas de silêncio, possivelmente, também começa a aprender aquela oração que, dois anos mais tarde, se manifesta em São Damião. “Altíssimo Deus luminoso, ilumina a escuridão do meu coração! Dá-me fé que leve para diante, uma esperança que leve através de tudo, e um amor, que não exclua ninguém...” (OrCr).

A Igreja como instituição e comunidade de fé fica afastada desta procura: Francisco procura sozinho, embora não faltem igrejas, clérigos e centros espirituais em Assis. Não são os espaços sagrados, nem a Bíblia, nem os sacerdotes que vão buscar o jovem na sua procura de sentido. Cavernas escuras atraem a ele – lugares que, aparentemente, correspondem ao seu mundo interior. “Ilumina a escuridão do meu coração”. O silêncio – ainda ameaçador, nas longas noites da prisão e da doença, agora se torna aliado para o jovem habitante urbano.

3. “O Altíssimo conduziu-me entre os mais humildes”
Experiências-chave de uma longa procura

Ao mesmo tempo que descobriu o silêncio nas cavernas e nos bosques fora da cidade, o jovem comerciante reparou, também nas penumbras de sua Assis cheia de sol. Até agora, o centro da pequena cidade cheio de vida era o seu mundo: as casas senhoriais das mais importantes corporações, as lojas magníficas no centro, a “piazza” por si. Ainda hoje quase nenhum turista se perde nas ruelas sujas da cidade baixa – “vicoli” estreitas e tortas, pátios interiores sombrios, as casas das famílias dos operários.

Francisco, que no seu interior pede nova alegria e novo sentido na vida, descobre os operários, os desempregados, os/as mendigos/as e os pobres de Assis. E é atraído cada vez mais para baixo, para o meio dos marginais, na sombra da cidade. As vias para cima, para o silêncio, fazem com que o jovem Bernardone encontre a paz interior, e as vias para baixo, para junto dos pobres para os quais põe a própria mesa, o levam por dois anos de perturbação crescente. Ambos os movimentos de procura preparam duas experiências-chave decisivas.

Os passos de Francisco tornam-se mais radicais: durante uma viagem a Roma. O jovem distancia-se da dureza de coração da sua corporação, atirando o dinheiro da viagem furiosamente sobre o túmulo de São Pedro e trocando secretamente suas vestes com um mendigo, para mendigar ele mesmo diante de São Pedro. Na planície, abaixo de Assis, encontra um leproso a quem a princípio, despreza e, depois abraça descobrindo que “o amargo se tornou doce”. Inesperadamente, o comerciante experimenta nova alegria na vida muito “em baixo”, para onde se sente “conduzido pelo Altíssimo”. Poucas semanas depois do encontro com o leproso, Francisco reza perto do asilo dos leprosos, o qual tem visitado desde então, na igreja rural meio destruída - São Damião. Diz palavras que têm acompanhado sua procura desde há meses. Concretizam pela primeira vez uma influência do anúncio da Igreja deixando, ao mesmo tempo, faltar qualquer indicação para uma imagem concreta de Deus: Quem procura encontra Deus, conforme a compreensão românica, como Senhor do universo. Espera DELE fé – esperança – caridade.

Altíssimo, glorioso Deus,
Ilumina as trevas do meu coração
Dá-me uma fé verdadeira,
uma esperança firme e um amor perfeito.
Dá-me sensibilidade e conhecimento, ó Senhor,
a fim de que eu cumpra o vosso santo e veraz mandamento. (OC)


A respeito da Igreja, como instituição e congregação de fiéis, pode-se constatar com assombro: Francisco continua a tatear sozinho, sem acompanhamento espiritual e também sem conselheiro. O orante procura, durante anos seguidos a Deus, procura fontes de luz e sentido novo de vida. Fá-lo, aparentemente, sem a intervenção de um sacerdote.

Refeições com mendigos e horas de silêncio preparam paulatinamente o primeiro impulso. Pode ser datado na primavera de 1206 e verifica-se em dois passos e em poucas semanas. A experiência com leprosos às portas da cidade tornou o comerciante, que ainda se apresenta montado num cavalo, sensível para o Rei do Universo, que andava descalço no chão. Francisco descreve a experiência decisiva no seu testamento com as seguintes linhas tão breves quanto concisas: Vivi vinte anos como se Cristo não tivesse existido. Naquele tempo parecia-me repugnante e amargo ver os leprosos. Porém, Deus conduziu-me para o meio deles, e no encontro com eles, o meu amor despertou. Então, aquilo que me parecia amargo, transformou-se em doçura para a alma e o corpo. Passado pouco tempo deixei o mundo. (Test 1-3)

Na sua procura por um sentido na vida, o comerciante tinha rezado até à data, a um Deus nas alturas. Encontros com as pessoas mais humildes de Assis fazem com que ele descubra que o Altíssimo atua de maneira surpreendente: muito em baixo. “Deus mesmo levou-me para o meio dos leprosos” (Test). O abraço de um leproso abre o coração da pessoa que procura para o encontro místico em São Damião. Deus aparece-lhe aí – como amigo dos mais humildes – inesperadamente ao mesmo nível. Giotto pintou magistralmente este encontro surpreendente ao mesmo nível: o ricamente vestido vê-se perante o Cristo nu; o bem situado (com 8 casas em Assis) perante Deus que está suspenso , sob à chuva – sente-se sufocado e ajoelha-se.

No conflito seguinte, com o próprio pai, a cruz de São Damião ensina Francisco a considerar o conflito mais grave de Jesus com os homens. Ameaçado pelo pai, Francisco vive durante semanas perto de São Damião, onde, provavelmente, o pároco aí residente, trata dele e, possivelmente o acompanha por primeiro. Francisco encontra na cruz a mão do Pai nos Céus, que leva o Seu Filho – o “Filho do Homem” - à Sua Luz através de recusa, ódio e sofrimento. Francisco vai considerar o Pai de Jesus como o seu próprio pai, algumas semanas mais tarde: o único Pai neste mundo e depois ele. “A partir de agora, já não digo “pai Pietro”, mas sim “Pai Nosso que estais nos Céus” (Leg3C 20). (...)

Experiências limites decisivas feitas no inverno de 1205/06, trilham, dentro de poucos e agitados meses, um caminho cheio de descobrimentos. O “Altíssimo” leva aos mais humildes, responde no Filho descalço na terra e pode ser conhecido como Pai por cada ser humano. O descobrimento do homem Jesus na terra faz com que o Pantocrátor românico se torne num “Deus ao nosso nível” – um Deus que se apresenta ao jovem comerciante fora da cidade e das suas igrejas, à margem da sociedade, entre os mais pobres, em cavernas sossegadas e na ruína de uma igreja.

A experiência de um Pai de todos os homens e do Único Filho que se faz irmão dos mais humildes, leva Francisco a uma imagem do mundo fraternal e radical. Mostra-se mais revolucionário do que a República de Assis e oposto ao pensamento eclesiástico hierárquico. (...)

Como Francisco experimentou aos 16 anos, e na revolução urbana em que a ordem comunal rompe com os modelos patriarcais na sociedade, e desenvolve idéias democráticas, a sua imagem do homem e do mundo radicaliza-se em 1206, a partir de uma vivência comovente de fé. Deus mesmo escolhe a carreira descendente, o Altíssimo iguala-se aos mais pequenos. (...)

O revolucionário desta espiritualidade em relação à sociedade e à Igreja mostra-se nas suas conseqüências, em comparação com o modelo patriarcal de Bento, que orienta a Igreja hierárquica até hoje. Talvez, Francisco chegue a conhecer o famoso prólogo à Regra de Bento já na primavera de 1206, imediatamente depois de ter sido deserdado, estando ao serviço do beneditinos de Vallingegno, o mais tardar, no entanto, sendo frade migrante, que desfruta bastantes vezes da hospitalidade dos frades. Esboça, nos seus últimos anos, numa carta dirigida aos próprios irmãos, um modelo notável de contraste:

Regra de S. Bento:
Escuta, meu filho, as doutrinas do mestre e incline o ouvido do teu coração. Aceita de boa vontade a admoestação do Pai misericordioso e cumpre com ela autuando...

Francisco à sua Ordem:
Ouvi, Filhos de Deus e meus irmãos, e escutai as minhas palavras com os vossos ouvidos. Inclinai o ouvido do vosso coração e cumpri a voz do Filho de Deus. Preservai os Seus mandamentos em todo o vosso coração e cumpri os Seus conselhos com espírito pleno.

Enquanto para Bento de Núrsia, o convento é uma escola de amor e de perfeição “sob prior e regra”, o Francisco caminhante há de procurar a comunhão da fé no seguimento do Filho de Deus fraternal.

4. Vita evangélica et apostolica
A vida dos amigos que rodeavam Jesus

Francisco transporta como leigo a missão de Jesus transmitida aos apóstolos e a sua vida de caminhantes com o Mestre para a sua época e o seu mundo úmbrio. Inspirado pelo discurso sobre a missão dos discípulos (Mt 10) arranca de mãos vazias, procura levar paz às casas e às ruas, fazer bem aos leprosos, fazer sentir o amor de Deus no dia-a-dia dos homens e viver o Evangelho. Embora experimente rejeição e desprezo, os primeiros companheiros não tardam a segui-lo.

Francisco reage assombrado e embaraçado a este fato. “Quando o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrou o que deveria fazer. O Altíssimo mesmo confirmou que deveríamos viver segundo o molde do Evangelho”. (Test) A cena é conhecida: Em vez de converter-se ele mesmo em mestre dos seus companheiros pergunta com eles o único Senhor de todos. O abrir três vezes a Bíblia na pequena igreja de Plathea revela poucos conhecimentos da Bíblia: mas, como pode Francisco ler na Bíblia sendo ele paupérrimo e não possuindo livros? O que poderia parecer como fundamentalista manifesta-se, mais tarde, como uma tradução, que é tanto enraizada numa fé profunda como também prudente e realista dum encontro de Cristo na Bíblia para a própria Igreja. Um ano mais tarde, o papa mais poderoso da Idade Média – um teólogo brilhante – há de confirmar uma simples regra para a vida consistente meramente de citados tirados dos Evangelhos permitindo aos irmãos leigos a pregação simples “em toda a orbe terrestre”.

A primeira regra começa com a frase característica e programática: “A vida dos irmãos é esta: seguir a doutrina e o exemplo do nosso Senhor Jesus Cristo” (Reg NB 1). Antes de descobrir as pegadas de Jesus, Francisco descobriu a Cruz. A meditação sobre a Paixão que é contada na cruz de São Damião, desde o cantar do galo, passando pela manhã da Páscoa até à Ascensão, demonstra ao comerciante buscante a Encarnação de Deus: como Mestre pobre e simples na terra, com companheiros e companheiras e num amor extensivo mesmo aos inimigos. Após dois anos de vida como eremita, Francisco descobriu, na vida ambulante dos apóstolos que rodeavam Jesus, o seu próprio caminho. Com os companheiros que o seguem aceita a vida galiléa dos amigos que rodeavam Jesus. Como Jesus andava pelas aldeias e cidades para se retirar de noite também para lugares sossegados e montes, o movimento dos primeiros franciscanos “cidade e silêncio”, liga tempos ao serviço dos homens com tempos em “lugares solitários”.

5. Nas Pegadas do Filho do Homem
Liberdade Evangélica

A história seguinte, que nos é contada por Jordão de Jano, na sua crônica, demonstra claramente, como Francisco e a primeira fraternidade transpõem o Evangelho para sua própria realidade.

Os cronistas dos cruzados escrevem o ano do Senhor 1219. Estamos em fins do outono e, na Palestina, as colheitas estão recolhidas. Francisco anda pela Terra Santa com a autorização do Sultão que ficou seu amigo em Setembro. O “poverello” tinha andado muito comovido pelos caminhos que viram “as pegadas do Senhor”. Certo meio-dia – assim conta Jordão de Jano – Francisco estava à mesa alhures na Judéia ou na Galiléia. Como aconteceu mais vezes, alguém o convidou a ele e aos seus companheiros Pietro di Cattaneo, Elias e Cesar de Spira. Talvez os anfitriões, desta vez, tivessem sido cruzados, um família modesta, talvez muçulmanos ou malteses para uma pousada de peregrinos. Estando reunidos, aparece de repente um irmão, suado, comovido com o desejo inquieto de encontrar Francisco. Saiu depressa da Itália, para lhe comunicar o que tinha acontecido aí, em Setembro. Gregório de Nápoles e Matteo de Narni, nomeados pelo poverello como os seus substitutos, tinham reunido os irmãos mais versados para um capítulo. Este decretou, entre outras coisas, severas prescrições em relação à comida. Não era permitido aos irmãos que obedecessem simplesmente às regras de jejum que são válidas para todos os leigos: durante todo o ano não deviam comer carne nas quintas e sextas-feiras! Os irmãos não deviam ficar por trás das ordens que se tinham tornado velhas e cômodas! O que é a norma para os monges, deve ser o mínimo para os frades menores. Assim, o capítulo decidiu regras de jejum e abstinência que prescreviam exatamente quando era proibido comer carne ou lacticínios. Francisco ficou assustado com o relatório do mensageiro. É verdade que ame a pobreza, que seja mais radical do que todos os outros, mas, para ele, não é uma ação ascética, nenhum trabalho, cuja renúncia possa ser medida em gramas ou em ganhos. E a sua reação é, portanto, tão elucidativa como libertadora: pergunta, com serenidade, aos seus companheiros, que estão sentados diante da carne nos pratos, não sabendo se podem continuar a comer, o que o Senhor tinha recomendado aos discípulos quando os tinha mandado por este país. Lucas nos conta (10,5-8): “Comam e bebam do que tiverem!“ Como os pobres que recebem com gratidão o que lhes é dado, que não estão habituados a escolher... e, oxalá, possam desfrutar do que a bondade das pessoas lhes der.

A reação do irmão que continua comendo – não fazendo caso das regras de jejum – é orientador e indica a decisão fundamental da sua espiritualidade: é necessário seguir o Evangelho, e não quaisquer normas, e medir-se só na prática de Jesus, e não nas indicações de frades, por mais santos que sejam: O Mestre é o único Senhor – Ele, que não era asceta, que amava a vida, mostrando-se tão amigo dos homens que multiplicou o vinho e que, inclusive, seus adversários chamaram de comilão e beberrão, depois de um banquete (Mt 11,19).

A pobreza evangélica não tem nada a ver com renúncias mensuráveis, com sucessos autoimpostos. É muito mais radical e, simultaneamente, mais libertadora. O conselho de Jesus ao jovem rico indica o primeiro passo fundamental. O Mestre encoraja o jovem que está disposto a fazer tudo, com as seguintes palavras: “Deixa tudo!” Tudo o que tens, dá aos pobres e segue-me com as mãos livres! “Francisco experimentou que a promessa se torna realidade para todos que seguem este conselho: “Quem arrisca tudo pelo Reino de Deus, quem, por isso, renuncia inclusive à casa, família, profissão e carreira, quem seguir Cristo com as mãos e os pés livres, com corpo e alma e com um coração livre, deixa muitas coisas, é verdade, mas recebe a seguir cem vezes mais!” (...) A confissão de uma pobreza que arrisca muito mais do que a pobreza dos monges que, no recolhimento de uma abadia levam uma vida regular e segura: a pobreza dos apóstolos faz com que o poverello percorra a Itália dum modo inseguro e com as mãos vazias, não sabendo de manhã onde poderá receber um pedaço de pão ao meio-dia e onde poderá repousar à noite. Numa pobreza que confia totalmente na bondade das pessoas e na misericórdia divina, é levado como irmão até França e Espanha, até o Egito e o acampamento do Sultão – com a confiança de mãos vazias e seguidor da missão pascal dada aos Apóstolos “anunciar o Evangelho a todos as criaturas” e “até aos confins do mundo“. Mesmo os supostos inimigos tornam-se amigos, como demonstra o próprio Sultão Malik al Kamil“.

Também esta história exemplifica como Francisco e sua primeira fraternidade transpõem o Evangelho para a sua própria realidade. Possívelmente, aconteceu um pouco mais tarde. Francisco voltou da Palestina à Itália:

O Poverello está outra vez na Cidade Santa, e o Cardeal Hugolino convida-o para comer. O bispo e “Senhor de Ostia” aproveita a oportunidade de apresentar o frade, que se tinha tornado famoso, aos seus familiares, nobres da família dos condes de Segni e a outros prelados. Há um banquete rico ao qual participam os senhores na hora do almoço. Para Francisco, está previsto o lugar de honra – bem visível para todos – ao lado do anfitrião. No entanto, no meio dos senhores nobres e excelências, o irmão menor parece não se sentir muito bem – ou é desta vez o banquete rico? De qualquer modo, pede licença por pouco tempo, desce para a ruela e senta-se no meio dos mendigos que pedem os restos da comida à porta do Senhor Cardeal. Quando Francesco tem suficientes migalhas de pão e restos de legumes no seu recipiente de madeira, volta para a companhia de Hugolino, distribui a cada hóspede algo das suas dádivas e senta-se outra vez... Após a refeição, Hugolino leva o poverello à parte, abraça-o perguntando-lhe um pouco embaraçado porque o tinha comprometido sobremaneira com esta atitude: “Não Vos honrei?” – ao que Francisco responde: – “Honrando um Senhor maior? Deus mesmo ama a pobreza, e eu quero seguir o meu Senhor que abdicou da sua riqueza, tornando-se pobre por nossa causa”.

A pobreza que Francisco chegou a amar seguindo os passos de Jesus tem uma força de união. A riqueza de Hugolino, no entanto, divide. O poverello supera o abismo existente entre o rico banquete do Cardeal com os seus amigos escolhidos, e os mendigos famintos à sua porta. O “Senhor de Ostia”, ex ofício “sucessor dos apóstolos” não conheceu esta pobreza que dá tudo o que tem, cujo amor une e liberta os homens, que dá vida e, repartindo também dá ao doador – cem vezes mais. A atitude exemplar do poverello na casa de Hugolino, é o paralelo de uma parábola de Jesus, da qual o prelado muito bem se recorda. Também na Roma medieval há Lázaros pobres e ricos comilões: bendito quem supera o abismo enquanto houver tempo.

6. “Agradar Cristo e seguir as suas pegadas”
Sucessão na fantasia do amor

Francisco estima, medita sobre e interioriza o Evangelho de tal maneira que lhe mostra, em todas as situações da vida, as “pegadas” de Jesus e faz ouvir a voz “do Filho de Deus” (CtOrd). A Palavra de Deus não só quer ser conhecida e estudada, mas sim quer fazer nascer Cristo de novo em nós através da nossa vida (Carta aos Fiéis). Num caso extremo deve-se, até mesmo, dar o único livro de Evangelhos se não for possível ajudar uma pessoa sofrente de outra maneira. No inverno de 1220/21, Francisco pede ao responsável da “Comunidade Exemplar” que se ofereça o único Livro de Evangelhos de Porciúncula a uma mãe empobrecida de dois irmãos para que ela o possa vender vencendo assim a sua miséria. Pois, Cristo gosta mais que os irmãos convertam a sua Palavra em ações concretas do que apenas rezem e meditem: “Tive fome e vós destes-me de comer.”

A prontidão de seguir com ações concretas o conselho de Jesus dirigido ao homem rico torna-se o critério para novas vocações no caminho da “fraternitas” franciscana. Escreve em 1223 na sua regra definitiva o que resulta da experiência própria radical e libertadora:

Se alguém movido pelo espírito de Deus quiser adotar esta vida e vem até aos nossos irmãos deve ser acolhido por eles com carinho. Se estiver decidido a escolher esta forma de vida... então os responsáveis devem dizer-lhe a Palavra do Evangelho para que ele vá a vender tudo o que possua cuidando de distribuir o provento entre os pobres. (RegB 2)

Não deve haver outra norma do que o Evangelho. A fantasia do amor demonstra a cada irmão como agradar melhor a Cristo. Uma sucessão autêntica desenvolve-se no signo duma amizade pessoal para com Cristo.

Fr. Leão já se encontra a caminho com o “poverello” há dez anos e é o seu mais íntimo. Embora já não seja principiante anseia instruções mais precisas para a sucessão. Em linhas escritas desajeitadamente, Francisco responde ao “seu irmão” e é ao mesmo tempo sensível como uma mãe. Mas, a sua liberdade evangélica, que escolheram juntos, não precisa de normas. Francisco evita entrar no papel dum líder ou dum mestre:

Fr. Leão, do teu irmão Francisco Paz e todo o Bem. Assim te digo, meu filho, como uma mãe, por todas as palavras que tocamos durante o caminho, resumo abreviando nesta palavra e aconselho-te tal – e tu, (depois,) não precisas de vir até mim, para ser aconselhado. Pois aconselho-te o seguinte: de que modo te pareça melhor agradar ao Senhor nosso Deus e seguir as Suas pegadas e a Sua pobreza, fá-lo com a benção do Senhor Nosso Deus e fraternalmente unido a mim. E se for necessário para a tua alma para obter uma consolação ou se quiseres por ti voltar para mim – vem!” (Leão)

A cartinha que Leone mantém durante mais de 50 anos no seu hábito, refleta a liberdade original franciscana da vida. Auto-responsabilidade une-se à solidariedade. Nenhum irmão e nenhuma prescrição, nenhuma pessoa e nenhum cargo devem colocar-se entre Cristo e aqueles ou aquelas que O sigam por amor. Nem leis ou instruções dum outro, mas sim a própria fantasia sabe melhor de que modo o discípulo agrada ao seu Mestre e o amigo agrada ao seu amigo. O “poverello” desperta no companheiro a coragem para se deixar dirigir na sucessão de novo pela fantasia do próprio amor.

7. “forma vivendi”
Núcleo da forma franciscana de viver

O texto mais antigo de Francisco que nos foi transmitido é a chave mais bonita da sua espiritualidade que se abre em relações ricas e intensas, através do seguimento de Jesus Cristo. Nos primeiros tempos da sua comunidade, Clara pede ao irmão que escreva a sua forma de viver em poucas linhas. O Poverello sintetiza numa única frase o que admira em São Damião, por volta de 1212. Mais tarde, há de aplicar esta ótica da vida cristã em toda a sua liberdade e em toda a sua riqueza a cada forma cristã de viver, apresentando-a na carta dirigida aos fiéis.

Movido pelo amor, Francisco escreveu a forma de viver da seguinte maneira:

“Visto que, por divina inspiração vos fizestes filhas e servas do altíssimo e sumo Rei, o Pai celeste, e desposastes o Espírito Santo, escolhendo viver segundo a perfeição do santo Evangelho, quero e prometo, por mim e por meus irmãos, ter sempre por vós diligente cuidado e especial solicitude, como tenho por eles” (RSC, VI,3-4)

A estrutura interna desta forma de vida torna-se mais nítida quando a única frase um pouco complicada será dividida nos seus sujeitos atuantes e, depois, num esboço:

Em escritos posteriores, esta primeira espiritualidade – vivida pelas irmãs de Clara e descrita por Francisco – apresenta-se como caminho para todos os fiéis de qualquer forma de viver. Na carta dirigida a todos os fiéis, a relação com Cristo abre-se numa tríplice forma de intimidade:

„E à medida que todos aqueles e aquelas fizerem tais coisas e perseverarem até o fim, pousará sobre eles o espírito do Senhor... e serão filhos e filhas do Pai celestial cujas obras realizam. E são esposos, irmãos e mães do nosso Senhor Jesus Cristo. Somos esposos, quando a alma fiel se une pelo Espírito Santo a Jesus Cristo. Somos seus irmãos, quando fazemos a vontade do Pai que está nos céus; somos mães, quando O trazemos em nosso coração e nosso corpo através do amor e da consciência pura e sincera; damo-lo à luz por santa ooperação que deve brilhar como exemplo aos outros (2Fi 48-53)“.

8. Encarnação
Admiração da “proximidade de Deus na terra”

As pegadas de Jesus levam o irmão peregrino também a Belém, o mais tardar em 1220, e isso, com corpo e alma. O seu compromisso contra a cruzada fracassa, no campo da aliança cristã, mas, do outro lado do Nilo, ganha um amigo, o Sultão al-Malek al-Kamil. Este consente que o Poverello continue livremente o caminho rumo à Palestina. De volta à Europa e, no Natal, o irmão procura meios de levar, também os camponeses da Itália, aos campos dos pastores de Belém: espiritual e palpavelmente. A festa natalícia de Greccio havia de entrar para a história. Francisco encenou o nascimento de Jesus, de tal forma realista, fundando assim a tradição do presépio, por ocasião da festa. O irmão passou a época fria do Advento de 1223, com poucos companheiros, na eremitagem de Greccio: era constituída de grutas sobre o vale de Rieti com a vista panorâmica para a planície suave até aos montes Sabinos ao norte de Roma.

Tempos de silêncio, após semanas de caminho, permitem refletir sobre as experiências e vivências feitas. Simultaneamente, abrem espaço para beber de fontes profundas e para estar só com Deus. Francisco quer, da mesma forma que seu Mestre, ir até Deus quando vem do meio dos homens, e vir de Deus quando for a estes (cf Mc 1,21-39). O biógrafo inicia a narrativa da festa natalina digna de menção, com a indicação de que o santo teria, “refletindo constantemente sobre as palavras do Senhor, não perdendo de vista nunca as Suas obras. Sobretudo, porém, sua humildade na encarnação e o seu amor na morte deixaram profundas marcas na sua memória.” A admiração sobre o caminho de Deus na terra inspira o poverello, duas semanas antes do Natal, a preparar uma festa especial juntamente com um fidalgo amigo, da região. A mesma devia, de maneira palpável, chamar a atenção, dos irmãos e do povo, para o amor e a humildade de Deus. Efetivamente, as pessoas munidas de archotes encontram na noite santa, na gruta dos irmãos, um menino recém-nascido em cueiros, deitado em palhas entre um boi e um burro. Na celebração da Eucaristia, sobre o presépio vivo, Francisco lê o Evangelho, ao qual a gruta, as palhas, os animais, o pequeno menino e a multidão fornecem um colorido nunca experimentado. Naquele tempo, como termina a descrição da comovente celebração, “nasceu o menino Jesus, de novo, nos corações de muita gente.” (1Cel 84-87).

Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/bibliothek/charisma/Kuster_Text.shtml?navid=103 acesso em 20 fev. 2010.

Ilustrações:
Cinema Strenge w czasie festiwalu Castle Party 2008 / Lilly M. 2008. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cinema_Strenge_Castle_Party_2008_08.jpg acesso em 21 fev. 2010.

Detainees at Camp X-Ray / Shane T. McCoy, U.S. Navy. 2002. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Camp_x-ray_detainees.jpg acesso em 21 fev. 2010.

The Lord's Prayer / James Tissot. Brooklyn :Brooklyn Museum, 1886-1896. (The Life of Christ). Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:TissotLordsPrayer.JPG acesso em 21 fev. 2010.

Thousands of footprints in the surge ash deposit of the Avellino eruption (1660 BC ca.-(+/-43 yrs, carbon-dated)) testify to an en masse exodus from the devastated zone / Giuseppe Mastrolorenzo, Pierpaolo Petrone, Lucia Pappalardo, and Michael F. Sheridan. 2006. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:SheridanVesuviusFootprints.jpg acesso em 21 fev. 2010.

Anbetung vor dem Thron Gottes. ca. 1000. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:BambergApocalypseFolio010vWorshipBeforeThroneOfGod.JPG acesso em 21 fev. 2010.

Vitrail l'Annonciation / par l'abbé Suger. Saint-Denis : Basilique de Saint Denis, Séc. XII. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vitraux_Saint-Denis_190110_19.jpg acesso em 21 fev. 2010.

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