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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Refletindo sobre a pobreza

por Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
Vivemos no mundo do dinheiro, da força, do poder, do euro, do dólar, dos bancos nacionais, dos bancos internacionais, do aumento ou da diminuição do PIB, das subidas e descidas das Bolsas de Valores, do lucro. Vamos refletir sobre a pobreza desse certo Francisco de Assis. Temos diante dos olhos um texto feito pelo frade franciscano francês Pierre Brunette.  Servimo-nos dele  para fazer uma pequena meditação sobre a pobreza em Francisco sem pretensão de exaurir o tema. 
Francisco nunca  fala ou se refere a uma pobreza em si. Ele a personifica. Antes designá-la de irmã ou de senhora, encontra-a  na pessoa de Cristo e de sua mãe.  Jesus é o pobre que ele anuncia, o perfeito itinerante, “nascido para nós em caminho”;  na espiritualidade de Francisco, Jesus  pede esmola como um indigente e um andarilho, sofrendo as provações da vida como a fome, a sede, as humilhações, a fraqueza e  a perseguição. Francisco vê Jesus  rezar na cruz na condição de um mendigo, de alguém que foi abandonado, mas que confia.

Casamento de São Francisco com a Pobreza / Giotto
Francisco apreciava uma expressão:  “Seguir as pegadas  de Nosso Senhor Jesus Cristo”.  Frei Leão recebeu este aviso carinhoso no bilhete que Francisco  lhe deu.  A atitude de pobreza está vinculada com a da humildade.  Pobreza  e humildade são as primeiras virtudes cantadas em seu Louvores às Virtudes.  Pierre Brunette diz literalmente: “São os traços de Cristo que Francisco discerne no rosto de todo pobre que é encontrado. Assim, a pobreza é lugar de encontro, ao mesmo tempo que opção social”

Ser pobre para  Francisco é:  um modo de se comportar fraternalmente, de se vestir de trajes rudes, de se alimentar frugalmente, de trabalhar com as próprias mãos, de prestar serviço nas terras de outros, de recusar dinheiro e privilégios, de recorrer à mendicância em caso de necessidade, de nada reivindicar.

A pobreza é uma herança: “Esta é aquela sublimidade da altíssima pobreza  que vos constituiu, meus irmãos caríssimos, herdeiros e reis do reino dos céus, vos fez pobres de coisas, vos elevou em virtudes. Seja esta a vossa porção que vos conduz à terra dos vivos. Aderindo totalmente a ela, irmãos diletíssimos, nenhuma outra coisa jamais queirais de baixo do céu em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo”  (Regra Bulada 6).

Para Francisco, a primeira coisa pedida aos irmãos que chegam é que vendam seus bens,  deem seus bens aos pobres para poderem viver evangelicamente.  A pobreza exterior é decorrência de uma atitude interior. O espírito de pobreza é espírito de desapropriação do ser e dos bens, sobretudo da vontade própria. A ideia de restituir a Deus o que é de Deus  nos escritos de Francisco é ressaltada em nossos dias. “E restituamos todos os bens ao Senhor Deus altíssimo e sumo e  reconheçamos que todos os bens são dele e por tudo demos graças a ele, de quem procedem todos os bens. E o mesmo altíssimo e sumo, único Deus verdadeiro, os tenha, e lhe sejam restituídos, e ele receba todas as honras e reverências, todos os louvores e bênçãos, todas as graças e glória, ele de quem é  todo o bem, o único que é bom” (Regra não bulada  17, 17-18)

A pobreza franciscana é um lugar social de solidariedade.  Francisco pedirá a seus irmãos não somente que visitem os pobres, mas vivam entre eles, servi-los como pobres servem a pobres,  submissos a todos. Os frade deveriam se assemelhar a eles por seu modo de vida e por sua mentalidade de desapropriação. Francisco não separa a pobreza material da pobreza em espírito tanto para os frades quanto para os leigos casados que queriam viver à maneira do Poverello.

  • Obs.: Inspirado em  Pierre Brunette,  François d’Assise et ses conversions, Ed. Franciscaines de Paris, p. 139ss.
  • Extraído de http://www.franciscanos.org.br/?p=26656 acesso em08 nov. 2012.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

As reformas no interior da Ordem de Santa Clara Séculos XV e XVI

Introdução

O século XIV assinala para as Clarissas, assim como para os franciscanos, um período de queda no fervor e na observância inicial. Crescendo o número de Irmãs, cresceram também as posses e vendas acumuladas pelas doações de generosos benfeitores e pelos dotes. Passaram a existir condescendências fáceis para o luxo, recorrendo-se mesmo às dispensas pontifícias da vivência da pobreza.
 
Facilmente eram admitidas nos mosteiros damas nobres, que por motivos interesseiros, não eram modelos de virtudes, mas até mesmo pedra de escândalo para as Irmãs simples. Essas damas da nobreza procuravam conseguir rodear-se de pompas e de criadagem dentro dos claustros, obtendo privilégios papais, contrariando assim expressamente o que dispunha Santa Clara na sua Regra. Com o cisma do Ocidente, em que três papas dirigiam a Igreja ao mesmo tempo, e a confusão reinara, a situação piorou seriamente. A Clausura, que por bula de Bonifácio VIII, em 1298, (“Periculoso”) havia se convertido em lei universal para todos os mosteiros femininos, mas que por motivos diversos deixava-se de observar com freqüência, deu ocasião a numerosas intervenções dos visitadores e alguma vez da própria Santa Sé.

Visão da Beata Clara de Rimini 
Os Estatutos de Benedito XII, em 1336, trataram de por fim aos abusos, com uma reorganização da vida religiosa, segundo formas mais acentuadamente monacais. Porém, a decadência era visível e aumentava. Naquilo que toca a Ordem de Santa Clara, com a independência dos mosteiros entre si, não se pode falar de uma decadência simultânea nem universal. Não faltaram exemplos de santidade, ainda que raros no século XIV: a Bem-aventurada Matia de Matélica (1253-1319)). a Bem-aventurada Clara de Rímini (+1326) e a Bem-aventurada Petronila de Troyes (+1355) comprovam isto. Além disso, a aspiração de Santa Clara de ver suas filhas sendo orientadas e ajudadas pelos frades Menores ia aos poucos se realizando. Os Provinciais foram aos poucos assumindo o cuidado das Clarissas em diversas regiões. Além do recurso ordinário às visitas canônicas houve, sobretudo a partir da segunda metade do século XIV visitadores apostólicos extraordinários, alguns encarregados de reformar mosteiros em algumas regiões. Esse foi o caso dos mosteiros de Clarissas no reino de Castela, por exemplo, entre os anos de 1373-1376. Quatro franciscanos foram encarregados de visitá-los e reformá-los.

Também a excessiva duração dos cargos tornou-se prejudicial nesta época de decadência do espírito primitivo da Ordem. Clara não limita o tempo de governo da abadessa, mas dispôs que quando j  não fosse idônea para o serviço e atividade das Irmãs, estas a depusessem e elegessem outra. Esse recurso jurídico não era de fácil aplicação. Em 1405, o Papa Inocêncio VII declarou que as abadessa não fossem vitalícias, mas eleitas a cada dez anos. Mais tarde o tempo foi reduzido a três anos. Entretanto, continuaram a existir mosteiros onde a abadessa continuava a ser vitalícia.

As reformas e os remédios não poderiam vir de fora. A verdadeira reforma vem sempre de dentro, do contato com o verdadeiro espírito que move a vivência evangélica. Senão, quando muito podem sustentar a observância exata das prescrições e evitar abusos, mas são vazios de idealismo.

A Ordem de Santa Clara, que desde o princípio representou um novo princípio de vida evangélica, sofreu com as estruturas impostas de fora. Mas os ideais da Regra própria de Santa Clara serviram  sempre como fermento renovador. Numerosas clarissas fizeram a experiência de amar e de atualizar em sua época o seu ideal. Essas reformas nasceram de dentro. Outras surgiram a partir de fora, da parte da Igreja ou dos Frades, mas foram acolhidas como bênção e realização de esperanças.

Estudaremos as grandes reformas da Ordem surgidas nos séculos XV e XVI. Ao renovar-se o ideal, abriu-se o caminho para a restauração da regularidade, da vida comum, da clausura, da oração, da sororidade e da dimensão penitencial, com um novo espírito, radicado em Clara - a fundadora - mas que recebeu característica peculiares, segundo a época e os lugares, das diversas reformadoras ou reformadores.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Francisco, um destino

Filme italiano narra trajetória de São Francisco de Assis e questiona a relação entre a genialidade e inspiração pessoal do homem e as consequências disso na comunidade para a qual ele se dirigia

Marcello Scarrone
25/10/2012

    Francesco – A Historia de São Francisco de Assis
    Dir. Liliana Cavani, Itália, 1989

    Que os nossos leitores que reclamam pelo fato desta seção não dar muito espaço a comentários sobre filmes brasileiros nos perdoem. Não trataremos de uma produção nacional outra vez. Mas aceitem nossos benevolentes leitores o conselho de dedicar seu tempo e sua atenção a um filmede ser europeu,a Idade Media. iferente sobre um periodo  que, apesar de ser europeu, oferece um olhar diferente sobre um período singular da assim chamada Idade Média, com sua cultura de inspiração cristã e com a visão de mundo que ela proporcionava.
    Afinal, a história nacional começa a ser contada a partir da chegada de navegadores portugueses que deste imaginário, desta cultura, partilhavam muitos elementos: mesmo sendo homens que viviam o inicio da modernidade, estavam intimamente moldados por aquela visão e ela acaba sendo influenciada desde suas origens por esse clima de religiosidade. Mais um elemento reforça os motivos do espaço dedicado a esta produção: a oportunidade de oferecer uma abordagem diferente e, de certa forma complementar, a leituras cinematográficas do período medieval que andam mais populares entre nós, como O Nome da Rosa, filmagem (1986, Jean-Jacques Annaud) do livro homônimo de Umberto Eco, ou O Incrível Exercito de Brancaleone (1966, Mario Monicelli), comédia sobre desajeitadas aventuras de um grupo de cavaleiros na Baixa Idade Media, ou ainda as várias produções hollywoodianas retratando William Wallace, Robin Hood ou Joana D’Arc.
    O filme de que vamos falar aqui é Francesco – A Historia de São Francisco de Assis, produção da diretora italiana Liliana Cavani, de 1989. Não se trata exatamente de uma cinebiografia do fundador da ordem franciscana, e sim de uma leitura original e historicamente bem documentada da vida daquele que, por muitos aspectos, é a personalidade mais interessante do cristianismo medieval. Uma leitura realizada por uma diretora laica e alheia a simpatias para o catolicismo: exatamente por isso, sua visão dos fatos se destaca pelo rigor na reconstituição de personagens e ambientes, evitando com habilidade a queda no sentimentalismo. O Francisco da Cavani é o homem real, desfrutador dos prazeres da existência no inicio de sua vida e teimoso seguidor das pegadas de Cristo até o extremo da solidão e do abandono quase desesperado no resto de sua caminhada. Nada a ver, para nos entendermos, com o Francisco, poeta da natureza e louco romântico, retratado por Zeffirelli em Irmão Sol, Irmã Lua (1972).

    Preocupação com a reconstrução histórica
    Narrado com a técnica do flash-back, com a vida de Francisco evocada pelas lembranças de alguns dos seus primeiros companheiros, reunidos, após sua morte, junto com Clara (a primeira mulher a se empenhar no caminho proposto pelo santo), o filme mostra os pontos mais significativos de sua existência sem uma preocupação excessiva com a cronologia e sim com a reconstituição histórica. É o mundo medieval de uma pequena cidade italiana, Assis, no começo do século XIII, que é retratado, com seus conflitos e suas crenças. Um mundo no qual a sensibilidade religiosa cristã perpassa todos os setores da sociedade, em parte moldando uma mentalidade, em parte se digladiando com costumes e práticas não cristãs. Um mundo no qual a proposta de radicalismo evangélico de Francisco encontra adesões e recusas fortes. Um mundo talvez bastante longínquo de nossos parâmetros de juízo, de nossos metros de valores, mas um mundo que é preciso conhecer e penetrar para poder avaliar sem anacronismos ou estereótipos.
    Destaque no filme para três pontos emblemáticos. O primeiro é a chegada em Roma, junto à corte pontifícia, do primeiro grupo franciscano, em busca de aprovação para a sua proposta de vida e sua regra. A simplicidade e austeridade de Francisco e seus companheiros e sua vontade de viver o Evangelho ao pé da letra contrastam com as limitações e os compromissos dos quais a autoridade do catolicismo se declara refém. No diálogo entre o Papa, os cardeais e os franciscanos está uma chave para a compreensão da sociedade medieval, da influência nela do cristianismo e da Igreja, e ao mesmo tempo de quanto há, nesta influência, de temporal, de histórico, de herdado de uma mentalidade imperial romana. A inveja do pontífice e de alguns cardeais pela liberdade com que Francisco pode viver o seguimento de Jesus mostra os dois lados da mesma moeda.
    Um segundo momento significativo é o registro das dimensões que o movimento franciscano toma desde seus primeiros anos, com entusiasmos e inevitáveis diferenciações e problemas: jovens da Europa toda confluem em Assis em ocasião de uma reunião da incipiente ordem, preocupando o fundador que, como os históricos lembram, tudo queria menos ‘fundar uma ordem’. Os contrastes entre as várias tendências do franciscanismo já se manifestam. Terceiro ponto a destacar é a parábola final da vida do santo, com a solidão procurada numa tentativa de entender melhor a voz de Deus e sua vontade, diante de tantas dificuldades e incompreensões. Um Francisco quase desesperado, angustiado, peregrino por bosques e pedras inacessíveis: uma imagem bastante distante das tradicionalmente transmitidas pela iconografia ou pela memória popular, mas uma imagem historicamente real. Até o misterioso momento da resposta divina, que encerra o filme.
    “Traçar a curva de um destino que foi simples, mas trágico; situar com precisão os poucos pontos realmente importantes por onde passou essa curva; mostrar de que maneira, sob a pressão de que circunstâncias, seu impulso inicial teve de esmorecer, e seu traçado original, inflectir-se; colocar assim, acerca de um homem de singular vitalidade, esse problema das relações entre o individuo e a coletividade, entre a iniciativa pessoal e a necessidade social, que é, talvez. o problema essencial da historia: tal foi nosso intuito.” Não seja visto como pretensão atribuir ao menos parte destas intenções - formuladas pelo historiador francês Lucien Febvre na abertura de seu livro de 1927, “Martinho Lutero, um destino” – à diretora Liliana Cavani. A dela não foi obra de historiadora, e sim de artista, e a arte tem outras leis que não as da historia. Mas sua tentativa parece mesmo a de traçar a curva do destino de Francisco, e de se interrogar sobre a relação entre a genialidade e inspiração pessoal do homem e o eco disso na comunidade à qual ele se dirigia.
    Uma palavra sobre os atores: além de vários coadjuvantes, se destacam Helena Bonham Carter como Clara e, sobretudo, Mickey Rourke como o próprio Francisco, num desempenho muito interessante, capaz de liberar capacidades interpretativas surpreendentes. Afinal, uma obra válida, até como documento de um tempo e de uma sociedade, que por isso nos induz a perdoar uma duração talvez excessiva.


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

AS INVOCAÇÕES DA LADAINHA DE NOSSA SENHORA (XX)



AS INVOCAÇÕES DA LADAINHA DE NOSSA SENHORA (XX)

Casa de ouro

A casa é o lugar do aconchego onde nasce e se estabelece a família, lugar comum dos que se amam. Lugar de acolhida harmoniosa, onde a felicidade tem sua origem e crescimento a partir da unidade dos laços familiares. Deus, pois, começou a sua obra por meio de uma família, com intenção familiar definitiva; e pôs tudo que criou sob a responsabilidade dessa primeira família, que ele mesmo abençoou para que se multiplicasse ininterruptamente e vivesse sempre em sua presença até onde seu desígnio de amor o determinasse.

Por sua vez, para os Antigos Hebreus, o ouro era o metal mais precioso e puro; e essa preciosidade e pureza eles associavam à sua fé em Deus, e por ela reconheciam Javé como o único Deus e Senhor de sua vida e de todas as coisas. A Ele prestavam culto de louvor e adoração, pondo Nele toda sua confiança e esperança na certeza de que Deus jamais lhes abandonaria, porque é fiel com aqueles que a Ele se entregam e confiam esperando em seu amor. Por isso, procuravam ser fiéis em tudo, pois com Ele tinham feito aliança por meio de Moisés e Aarão no deserto a caminho da terra prometida.

De fato, Maria Santíssima representa a fé mais pura; ela é como o ouro que nunca se estraga e que se mantém puro sempre, sobre todos os outros metais existentes, isto é, sobre todos nós. Ela é a Casa de Ouro que acolhe Deus com toda a sua grandeza; nela, o próprio Deus se torna um de nós e dar início a grande redenção prometida a Abraão e seus descendentes, e a toda humanidade gerada no batismo pelo Espírito Santo enviado por Jesus Cristo, Seu Filho, nascido de Virgem Mãe.

Arca da aliança

Segundo o livro do Êxodo (cf. Ex 25,10-22), a Arca da Aliança, foi confeccionada sob a orientação de Moisés, que por instruções divinas indicou seu tamanho e forma. Nela foram guardadas as duas tábuas da lei, contendo os dez mandamentos que o Senhor tinha dado a Moisés na montanha; a vara de Aarão com a qual fez prodígios e portentos diante do Faraó e seus sequazes; e um vaso contendo o maná, que foi o alimento que Javé fez cair com o sereno sobre as areias do deserto para a multidão faminta durante os quarenta anos do êxodo até a terra prometida. Estas três coisas representavam a aliança de Deus com o povo de Israel. Para o povo Judeu a Arca da Aliança não era uma simples representação, mas a própria presença de Deus no meio deles.

A Arca era parte integrante do Tabernáculo do Altíssimo. Ela repousava sobre o altar, era de madeira, coberta de ouro, com uma coroa de ouro ao lado. Somente os sacerdotes levitas poderiam transportar e tocar nela; e apenas o sumo-sacerdote, uma vez por ano, no dia da expiação, quando a Luz de Shekiná (da presença de Deus) se manifestava, entrava no santíssimo do templo.

Com efeito, Maria Santíssima é a Arca da Nova Aliança de Deus com a humanidade, o Sacrário vivo de Deus; e Jesus, Sumo Sacerdote da Nova Aliança, é o Verbo Encarnado, ou seja, a Palavra de Deus ela mesma, que se fez Carne no seio virginal de Maria e habitou no meio de nós, povo novo de Deus a caminho da terra prometida, o Reino dos Céus. Por ele, o Pai realizou prodígios e portentos mostrando a revelação de sua glória no meio dos homens, presentes nas curas e milagres realizados por Jesus; por fim, Ele se nos deu como alimento de salvação eterna na Eucaristia, “Pão vivo que desceu dos céus”. Portanto, a mãe de Deus e nossa mãe, Arca da Nova Aliança, portadora de todos estes sinais, se faz presente sempre em nossa vida com seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém!

Porta do Céu

Escutando a canção “Porta do Céu” do Pe Fábio de Melo, ouso reproduzir aqui sua poesia, mostrando ao mundo a beleza de ter Maria Santíssima como mãe e senhora nossa.

Se a dor te toma por demais
Se o mundo não te crê jamais
Sabe, pois, que há alguém por ti
Orando, intercedendo, há sim!
Puro esplendor e amor de mãe
Sacrário vivo de Deus Pai
Em ti Maria eu encontrei
A vida que pra mim eu quis

Imaginei como seria o paraíso de Jesus
Com paz e harmonia em nossos corações
Pra sempre então seria eterno em louvor
Aquele que um dia veio e nos salvou

Ó Mãe santíssima, me leva a Deus.
E para sempre exultarei com cantos
Tenros de louvor, buscando a salvação.
E nessa hora em que eu te rogo aqui
Dentro em meu peito está vontade
De te conhecer, Maria tu que és porta do céu.

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.



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FREI FERNANDO, VIDA, FÉ E POESIA by Frei Fernando,OFMConv. is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Compartilhamento pela mesma Licença 2.5 Brasil License.

Quando o tempo era feito de milagres

Quando o tempo era feito de milagres

Em seu novo livro, Le Goff nota que os santos adquiriram na Idade Média uma importância maior do que no passado, porque, na concepção otimista de Jacopo de Varazze, eles são chamados a levar ao céu a maior parte dos seres humanos e todas as almas do purgatório.


A análise é de Chiara Frugoni, historiadora italiana, especialista em Idade Média e história da Igreja e ex-professora das universidade de Pisa e de Roma Tor Vergata. O artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera, 25-10-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.



O título na capa da edição italiana, Il tempo sacro dell'uomo [O tempo sagrado do homem], é tentador e enigmático. Só dentro se descobre que o sujeito é a Legenda Aurea do dominicano Jacopo de Varazze, entendendo-se, em latim, como é óbvio, por Lenda: coisas que devem ser lidas.


Esse livro de ouro, podemos dizer (que o autor compôs a partir de 1260, mas no qual continuou trabalhando até 1297, ano da morte), foi, na Idade Média, o mais lido depois da Bíblia e logo traduzido para as línguas vulgares, incluindo o italiano. O sucesso se deveu à habilidade narrativa do autor, à capacidade de manter quem o lê com a respiração suspensa, à presença generalizada e fabulosa do maravilhoso no relato da vida dos santos.


Um livro que os leigos liam mais do que com gosto (exorto a retomar nas mãos a Legenda), mas que, segundo Le Goff, dissimulava a seriedade de um empenho muito corajoso por parte de Jacopo de Varazze, fornecer uma reflexão abrangente sobre o valor e o significado do tempo, combinando três dimensões: "temporal, ou seja, o tempo cíclico da liturgia cristã; santoral, o tempo linear marcado pela sucessão das vidas dos santos; escatológica, ou seja, o caminho da humanidade cristã no tempo até o juízo final".


O livro sustenta com muita determinação essa tese, muitas vezes em desacordo com aquelas expressas por outros estudiosos eminentes com quem Le Goff polemiza de modo pacato, mas firme, prosseguindo com a sua límpida prosa convincente. O título francês – À la recherche du temps sacré – sublinhava, mais do que o italiano, o sistema ideológico que, segundo Le Goff, estrutura a Legenda Aurea, sistema que o grande medievalista se propõe iluminar e demonstrar.


Encerrada a leitura, veio-me à mente o que diziam as companheiras de Clara. A santa muitas vezes fazia vir ao mosteiro pregadores cultos, explicando, depois, às coirmãs o conteúdo e o significado do que foi ouvido: "Clara gostava de ouvir um sermão douto, pensando que dentro da casca das palavras se esconde a amêndoa, que Clara sabia penetrar com agudeza, assimilando todo o seu sabor e o seu gosto".


Jacques Le Goff, em um livro onde não faltam citações de trechos muito agradáveis da Legenda Aurea, nos oferece a sua "amêndoa", expondo as linhas de uma pesquisa aprofundada.


Louvor ao autor e ao editor que fazem voltar as notas de rodapé: um retorno que deve ser destacado, que permite que o leitor formule imediatamente um julgamento sem se distrair, forçado, caso contrário, a interromper, a ir buscar as referências no fim do volume, ou, pior ainda, solicitado a ficar com preguiça e a se contentar sem verificá-las. Imaginando que o livro logo será reimpresso, seria muito útil adicionar um índice dos nomes e dos lugares: impossível lembrar tudo, na multidão de santos e autores chamados ao palco (o índice, além de ser de grande ajuda para o leitor, permitirá eliminar algumas deformidades de citação, por exemplo o papa que consagrou o Pantheon, e outros pequenos erros).


Jacques Le Goff, além disso, destaca justamente a precisão da colocação histórica dos personagens por parte de Jacopo de Varazze, com desvios mínimos com relação à realidade, porque – observa Le Goff com perspicácia – Jacopo quer convencer o leitor de que tudo o que ele aprende é verdade: são verdadeiras as histórias dos santos, são verdadeiros os milagres e são verdadeiras as coisas maravilhosas que acontecem; respectivamente, prodígios realizados por Deus mediante os santos, fenômenos surpreendentes, mas naturais. Le Goff chega a declarar que o título francês, "Em busca do tempo sagrado", poderia ser substituído por: "Em busca do tempo verdadeiro".


Quando Jacopo escrevia a sua Legenda Aurea, o Purgatório já havia se afirmado (aqui a referência obrigatória é ao célebre livro do próprio Le Goff), e tal crença aumentava a responsabilidade dos vivos com relação aos mortos. Deus, então, permite que os santos desçam do Paraíso à terra para indicar aos fiéis os comportamentos virtuosos que abreviam as penas dos seus entes queridos. Além disso, as orações dos santos são muito eficazes e ouvidas por Deus.


Eis, portanto, que os santos adquiriram, nota ainda Le Goff, uma importância maior do que no passado, porque, na concepção otimista de Jacopo de Varazze, eles são chamados a levar ao céu a maior parte dos seres humanos e todas as almas do purgatório.


Conclui Le Goff: "O nossa dominicano quer mostrar como só o cristianismo soube estruturar e sacralizar o tempo da vida humana e acompanhar a humanidade rumo à salvação".
  • Jacques Le Goff. Il tempo sacro dell'uomo. La "Legenda aurea" di Iacopo da Varazze. Tradução italiana de Paolo Galloni. Ed. Laterza.

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