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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O SIM DE MARIA SANTÍSSIMA





O SIM DE MARIA SANTÍSSIMA

Todos nós podemos dizer sim a Deus, porém, de que forma e com que objetivo? E, em que resulta este nosso sim? Como podemos saber isto? Todo sim dado a Deus tem uma história de vida por trás dele, isto significa que os acontecimentos de nossa existência não são por acaso. De fato, por termos origem divina, tudo em nosso ser e existir transpõe os limites de nossa natureza, por isso, o nosso viver depende das escolhas e decisões que tomamos, baseados nos dons que de Deus recebemos. Todavia, não podemos nunca excluir Deus dessas escolhas e decisões, pois se o fizermos fatalmente nos destinamos à ruína eterna, visto que sem Deus nada subexiste  por muito tempo, porque somente em Deus permanecemos eternamente. 

Bem nos ensinou São Paulo a esse respeito, quando disse: "O Deus, que fez o mundo e tudo o que nele há, é o Senhor do céu e da terra, e não habita em templos feitos por mãos humanas. Nem é servido por mãos de homens, como se necessitasse de alguma coisa, porque é ele quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas. Ele fez nascer de um só homem todo o gênero humano, para que habitasse sobre toda a face da terra. Fixou aos povos os tempos e os limites da sua habitação. Tudo isso para que procurem a Deus e se esforcem por encontrá-lo como que às apalpadelas, pois na verdade ele não está longe de cada um de nós. Porque é nele que temos a vida, o movimento e o ser..." (At 17,24-28a). 

De fato, segundo as Sagradas Escrituras, como vimos, a história humana começou com Adão e Eva, e depois do pecado destes, prosseguiu com seus descendentes até Deus Pai escolher um povo, na pessoa de Abraão, para amá-lo e servi-lo, e fazer nascer dele um salvador para toda a humanidade e toda criação; cumprindo assim, a promessa de salvação que havia feito aos nossos primeiros  pais, Adão e Eva, depois que pecaram (cf. 3,15). Desse modo, "quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher e nasceu submetido a uma lei, a fim de remir os que estavam sob a lei, para que recebêssemos a sua adoção" (Gal 4,4-5). Ora, se Deus quis assim se fazer cumprir a sua vontade na Obra da Criação, é porque não quis fazer nada sem a nossa cooperação.

Agora, meditemos sobre o Sim de Maria, pois ele é o que há de mais original, em termos de cooperação com Deus, na história da salvação. O Sim da Virgem Mãe significa que nela se cumpriu todas as promessas que Deus havia feito aos Antigos Patriarcas, dos quais ela descende. Pois, com os Patriarcas Deus fez alianças, lhes deu uma Lei Sagrada, uma terra prometida e todos os favores para permanecerem fiéis e em comunhão com Ele. Mas, como não observaram suas leis e mandamentos, o Senhor enviou seus profetas que lhes anunciou com mais ênfase ainda a vinda do salvador prometido. Com efeito, o Profeta Isaías, assim profetizou: "Ouvi, casa de Davi: Não vos basta fatigar a paciência dos homens? Pretendeis cansar também o meu Deus? Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Deus Conosco". (Is 7,13-14). 

Com efeito, em cumprimento a essa profecia de Isaías, Deus enviou o Anjo Gabriel para anunciar à virgem Maria o nascimento de Seu Filho, Jesus Cristo (cf. Lc 1,26-38); este fato nos mostra claramente que os céus e a terra estão unidos, pois Deus veio habitar no meio de nós. Desse modo, podemos afirmar com toda convicção, que todos os acontecimentos que se deram depois da Encarnação do Verbo, tem seu fundamento na Vontade de Deus por meio do Sim de Maria:"Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra". Assim, a partir desse Fiat (faça-se) da Santíssima Virgem, o Espírito Santo gerou Jesus em seu ventre, e o Deus Conosco  (Emanuel), tornou-se carne de sua carne e sangue de seu sangue (cf. Lc 1,26-38). Também a partir desse sim de Maria, Jesus foi apresentado ao Pai, por Simeão, no templo de Jerusalém; João Batista o apontou como o "Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (cf. Jo 1,29). Enfim, e por sua intercessão materna Jesus fez o primeiro milagre, antecipando sua hora de manifesta-se como o Messias enviado por Deus (cf. Jo 2,1012).

E confirmando ainda mais o seu Sim, em seu mais sublime ato de amor ao Pai, Maria ofereceu seu amado Filho, Jesus Cristo, no altar da Santa Cruz como nosso Redentor, assumindo com Ele o múnus sacrifical, e recebendo Dele a missão de Mãe da humanidade, como a Nova Eva (cf. Jo 19, 23-27). E vivendo mais intensamente o seu Sim, Maria Santíssima com os Apóstolos no Cenáculo, assistiu o nascimento da Igreja com a vinda do Espírito Santo na Teofania de Pentecostes (cf. At 1,12-14; 2,1-13); acompanhou a evangelização dos Apóstolos, o nascimento dos primeiros escritos destes; o crescimento do rebanho do Senhor; até que foi elevada ao céu em corpo e alma, conforme a vontade de Deus (cf. At 2,31).

O que dizer ainda mais do Sim de Maria? Todos os milagres de Cristo e dos Apóstolos; a revelação do Reino de Deus e de sua Justiça anunciada por Jesus; a pregação da Palavra em todo mundo conhecido; o perdão dos pecados estendido à todos os pagãos; a instituição dos Santos Sacramentos, em especial, a Eucaristia, o sacerdócio e a Santa Missa, enfim, todos os homens e mulheres que se santificaram ao longo da história da Igreja, tiveram sua gênese no Sim de Maria, ela que se fez "a serva do Senhor". Tudo o que vimos no seu Filho, tudo o que Ele fez e faz hoje e sempre, nasceram do Sim da Teotokos (Mãe de Deus).

Portanto, o Sim de Maria é o Sim fundacional da Nova Criação, da Nova Humanidade. Maria é para nós o milagre vivo de Deus; ela é a porta do céu, por onde Deus entrou no seio da humanidade e permanece conosco até o fim dos tempos. E mais ainda, em Maria e em seu Filho Jesus Cristo, Deus Pai nos deu não somente o Modelo Perfeito que sempre quis para a humanidade, mas também o Dom do Espírito Santo no novo nascimento na ordem da graça pelo batismo, para que assim fôssemos adotados como seus filhos e filhas amados. 

Destarte, meditemos mais um pouco sobre o Sim de Maria, Mãe de Jesus e nossa mãe, com suas próprias palavras: 

"E Maria disse: Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo. Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem. Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre". (Lc 1,46-55).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.



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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

AS INVOCAÇÕES DA LADAINHA DE NOSSA SENHORA (XXIII)


 


AS INVOCAÇÕES DA LADAINHA DE NOSSA SENHORA (XXIII)

Rainha dos Anjos

A oração, como dádiva do Espírito Santo em nossa alma, sempre foi e sempre será o dom que mais nos aproxima de Deus, especialmente quando nos dedicamos a ela ou pedimos a intercessão da Virgem Mãe, e dos santos e santas. Por esse dom, gozamos da intimidade divina e de todas as graças que Deus dispõe à nosso favor. Ora, nenhuma criatura é mais íntima de Deus que a Santíssima Virgem Maria, pois, Deus mesmo gerou em seu ventre Seu Filho amado, aquele que é o Senhor e Rei do céu e da terra, e fez de sua Mãe rainha dos anjos, dos homens e de todos os santos e santas de Deus.

Existe uma oração belíssima dirigida a Nossa Senhora, Rainha dos Anjos, pedindo sua intercessão, na luta contra o pecado e contra as hostes do maligno  os anjos decaídos; a fim de nos mantermos de pé diante do Altíssimo, para caminharmos sempre pelo caminho da salvação com o auxílio dos santos anjos, guiados pela Virgem Mãe. Essa oração foi confeccionada pelo Padre Luis Eduardo Cestac, fundador da Congregação das Servas de Maria (Anglet); e depois, "foi aprovada por vários Bispos e Arcebispos. Em 8 de junho de 1908, o Papa São Pio X concedeu 300 dias de indulgência a todas as pessoas que a recitarem".(*)

Eis a oração: "Augusta Rainha do Céu e altíssima soberana dos Anjos, vós que desde os primórdios recebestes de Deus o poder e a missão de esmagar a cabeça de Satanás, humildemente vos rogamos, enviai vossas santas legiões de Anjos, a fim de que à Vossa Ordem e pelo vosso poder persigam os espíritos infernais e em toda a parte os combatam, confundindo-os em sua arrogância e arrojando-os para o abismo".(*)

Rainha dos Patriarcas

Com o pecado de Adão e Eva, Deus foi, como que posto de lado, por causa do pecado, pois em Deus não há pecado. Deus, porém, em seu infinito amor jamais abandonou o homem nesse seu infortúnio, pelo contrário, teve compaixão e prometeu um salvador (cf. Gen 3,16) que viria a este mundo para libertar a humanidade e toda criação. Ao longo da história humana Deus renovou constantemente sua promessa, fazendo alianças com os homens, até que se cumprisse plenamente o que houvera prometido; assim foi com Noé, Abração, Isaac, Jacó, Moisés e todos justos que vieram depois deles. 

Com a encarnação do Verbo, no seio virginal de Maria, Deus cumpriu a sua promessa e se estabeleceu definitivamente no meio de nós. De fato, Jesus mesmo nos ensinou:"Mas, quanto a vós, bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem! Ditosos os vossos ouvidos, porque ouvem! Eu vos declaro, em verdade: muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não ouviram". (Mt 13,16-17). Desse modo, compreendemos que em Maria, Deus cumpriu o que houvera prometido aos Antigos Patriarcas, enviando o Messias nascido de seu ventre. Assim, Jesus é a plenitude do cumprimento dessa promessa; e por ele, Maria tornou-se Mãe e Rainha de todo o povo de Deus, desde os santos Patriarcas do Antigo Testamento, até nós que formamos a Igreja da Nova e Eterna Aliança, firmada em Seu Sangue Redentor.

Rainha dos Profetas

Por que Maria é invocada como mãe dos profetas? Porque "a grande missão de todos os profetas foi anunciar ao mundo a vinda do Salvador, e Maria sempre esteve no coração desta grande profecia". No início do Evangelho de São Mateus, Deus confirmou essa verdade revelando-a a São José: “José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo.  Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados. Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor falou pelo profeta:  Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho, que se chamará Emanuel (Is 7, 14), que significa: Deus conosco”  (Mt 1,20-23).

De fato, à todos os profetas Deus sempre se deu a conhecer como "Deus conosco", isto é, o sempre presente, porém, na Encarnação do Seu Verbo, Deus foi além, tornou-se "carne de nossa carne e sangue de nosso sangue", obviamente no seio da santíssima Virgem Maria. Assim, os profetas tiveram um papel fundamental na revelação desse Grande Mistério e do seu anúncio, e Maria como Mãe do Salvador, tornou-se Rainha de todos esses profetas que hoje se encontram no paraíso, participando do Reino de Deus. Por fim, como Rainha dos Profetas, ela mesma assumiu esse dom da profecia quando profetizou as maravilhas de Deus, no seu belíssimo Cântico do Magnificat (cf. Lc 1,46-55).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

(*)(http://saopio.wordpress.com/2008/01/25/oracao-a-rainha-dos-anjos/)



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7 VECES CRUCIFICADO. Videoclip. Tema de JAVIER MAROTO

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

São Francisco de Assis (filme, 1961, completo)

Francis of Assisi / Direção Michael Curtiz. -- EE.UU.A., 1961.
Filme completo, com legendas em porguguês (é preciso ativar as legendas).

Curiosidade: Santa Clara é interpretada por Dolores Hart que dois anos depois abandonou a carreira de atriz e tornou-se monja beneditina em Connecticut, sendo a única freira membro da Academia de Cinema de Holliwood tem direito à voto para o Oscar e todos os anos vê os fimes indicados.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Blog da JuFra Canindé

Blog da Juventude Franciscana de Canindá, Ceará:

A FÉ SEM OBRAS É MORTA (Tiag 2,26).





A FÉ SEM OBRAS É MORTA (Tiag 2,26).

A fé verdadeira crê e espera mesmo quando não entende...
Porque vê além das aparências...
Pois percebe o novo que vem de Deus sempre, 
e permanece em sua presença constantemente...
Contemplando o seu desígnio redentor...

Assim, crer é um profundo ato de obediência e amor...
Que reverentes prestamos ao nosso Criador e Pai de nossas almas...
Não podemos dizer que não o conhecemos...
E que não temos nada com Ele...
Porque sem Ele nada somos e nada podemos...
Pois, todo poder sobre o céu e sobre a terra, 
pertence unicamente ao Senhor...
E ai de quem dele queira se apossar...
Porque, por mais que alguém se esforce... 
Um dia chegará seu fim e nada lhe restará, 
a não ser a prática do bem que de Deus recebeu para à Ele ser fiel...
Caso contrário, será julgado pelos os atos nefastos que praticou...

Na alma humana não há espaço para a graça e o pecado...
Assim como não há união entre a luz e as trevas...
Também não há comunhão entre o bem e o mal...
Porque o bem vem somente de Deus; 
e o mal somente do mal...
Portanto, não existe o mal em Deus...
E como não existe em Deus, 
todo o mal que há será precipitado na geena eterna...

Quanto ao mal que é praticado no tempo, 
se perpétua definitivamente após o julgamento...
Porque na eternidade, após a sentença final, 
não há mudança de condição...
Quem plantou o trigo da bondade divina, 
colherá da bondade divina a felicidade eterna...
Quem plantou o joio da discórdia e divisão, 
colherá seu quinhão de perversão infinitamente...

Portanto, não queira ir para o abismo infernal desde já, 
pela prática da maldade que há neste mundo...
Que o teu sim, seja sim, e o teu não, seja não...
O que passa disso vem do Maligno. (cf. Mt 5,36)...

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.


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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O fim de um pontificado de transição: de onde saiu e para onde nos leva?

"Como uma espécie de herança destes breves 7 anos de pontificado, Bento XVI deixa por implementar o projeto de Nova Evangelização. A questão é saber se Nova Evangelização é um novo termo mais palatável para o mesmo projeto de Cristandade ou se é realmente algo “novo”, no sentido de uma Igreja à serviço do mundo na linha da Gaudim et  Spes", escreve Sérgio Ricardo Coutinho.

Sérgio Ricardo Coutinho é mestre (UnB) e doutorando (UFG) em História Social; professor de “História da Igreja” no Instituto São Boaventura e de “Formação Política e Econômica do Brasil” e de “Teoria Política” no Centro Universitário IESB, em Brasília; membro da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR) e presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina (CEHILA-Brasil).
Eis o artigo.
Sergio Ricardo Coutinho
A renúncia do papa Bento XVI acontece em meio às comemorações dos 50 anos do Concílio Vaticano II. Há cinquenta anos atrás também estava um “papa de transição” e que percebeu qual deveria ser a relação da Igreja com a sociedade, com o mundo, com a história.

Desde as primeiras intervenções, João XXIII reafirmava a sua intenção de que o Concílio estivesse em continuidade com o ensinamento da Igreja e que o apresentasse ao todos os homens, levando em conta, porém, os desvios, as exigências e as oportunidades do nosso tempo. Portanto, como disse Giuseppe Alberigo (1a), “não uma continuidade abstrata e atemporal, mas historicizada; com referência não só aos erros, mas também às novas instancias e possibilidades (...) uma continuidade que não fosse surda às mudanças da história, nem dominada pela categoria do erro”.

Assim, João XXIII acentuou, então, as modificações dinâmicas iniciadas na sociedade mundial e na atitude positiva da fé cristã e da Igreja diante disso. Por isso, ele rejeitava com grande veemência a posição de quem via “nos tempos modernos tão-só prevaricação e ruína”, e daí, um regresso em relação ao passado. Pelo contrário, declarou solenemente que tinha de discordar “desses profetas da desgraça”.

Quarenta anos depois do encerramento do Concílio, um de seus peritos chegava ao pontificado sob o nome de Bento XVI. A escolha do nome já carrega em si um projeto: a recristianização do Ocidente. Um “novo” Bento de Núrcia.

Diferentemente de João XXIII, seu pontificado de “transição” se manteve sim em continuidade com o ensinamento da Igreja, mas cometeu o mesmo equívoco de seu antecessor: uma continuidade surda aos “sinais dos tempos”.

Seu desafio maior continuou sendo o mesmo de João Paulo II: como restaurar autoridade moral e política da Igreja diante de um mundo cada vez mais globalizado e secularizado? A resposta continuou a mesma: não há verdadeira civilização nem autêntica convivência humana fora de uma sociedade onde a Igreja dite as regras e os valores do viver social. Ou seja, não pode haver uma sociedade globalizadamente cristã fora dos princípios da Cristandade.

A questão é que a secularização também penetrou fundo no interior da Igreja. Daí que seu pontificado foi quase que totalmente preocupado com as questões internas em vista das externas: a pedofilia no clero, o “vatileaks” e a luta por poder na Cúria Romana, os cismas explícitos (lefebvrianos) e implícitos (as “desobediências”), e o projeto de Nova Evangelização.

Um dos maiores desafios foi o de retomar a credibilidade interna e externa agindo de forma firme e enérgica diante dos milhares de casos de abusos sexuais por parte de padres e religiosos, tanto na Europa como nos Estados Unidos. Isto custou muito sofrimento não só às vítimas, mas também ao próprio papa (1).

Estes fatos o convencem de uma coisa: só se poderá restaurar a “civilização cristã” com um clero fortalecido na moral e na obediência. De certa forma, isto explica a busca de diálogo e de retornar à comunhão com a Fraternidade São Pio X fundada pelo bispo tradicionalista Monsenhor Marcel Lefebvre. Ali encontraria um clero com identidade católica acima de qualquer suspeita. Primeiro, dois gestos de amizade e simpatia: o levantamento da excomunhão de quatro bispos da Fraternidade e a publicação do Motu Proprio que autorizava e restaurava a missa em latim. O resultado: os lefebvrianos continuam mais cismáticos do que nunca e não aceitam de forma alguma os termos de retorno à luz da aceitação do Concílio Vaticano II. Uma derrota de sua diplomacia que ele não contava (2).

Outro passo nesta mesma direção: restaurar os Legionários de Cristo. Bento XVI, corajosamente, levou à cabo uma investigação, há muito interrompida, acerca do comportamento moral do fundador dos Legionários, o padre Marcial Maciel. Depois de sua morte, veio à tona ainda outros fatos mais impressionantes que deixaram o papa perplexo. Resultado: a nomeação de um interventor pontifício e a reforma das regras dos Legionários. Com o desejo de não perder as grandes bases econômicas deste Instituto, Bento XVI também queria dar continuidade a “fornada” de novos padres com forte identidade católica. Neste ponto, nos parece que sua ação teve sucesso (3).

Por outro lado, teve que ver fortes manifestações de “desobediência” por parte de padres e teólogos “esclarecidos” (4). Tanto na sua terra natal como nas vizinhas Áustria e Suíça os padres fizeram um “Apelo à Desobediência”. O programa era bem conhecido: celibato dos padres, ordenação de mulheres, valorização do laicato, formação de pequenas comunidades, inclusão de casais de segunda união e de homoafetivos entre outros. O movimento alcançou um número impressionante de assinaturas. Bento XVI encarregou seu cardeal, agora papável, Christian Schönborn para acompanhar o caso de mais perto e “apelando para a obediência” (5).

A maior desobediência talvez tenha vindo de dentro da própria Cúria Romana. Com o enfraquecimento e diminuição da importância política dos Legionários, outros dois grupos neointegristas avançam decididamente em busca do papado: o Opus Dei e o Comunhão e Libertação. O chamado “vatileaks” nada mais foi que a busca por informações privilegiadas em vista do xeque mate no jogo do próximo conclave, que já estava plenamente aberto na cara de Bento XVI (6).

O discurso do papa aos recém purpurados em fevereiro de 2012, dava bem o tom de seu sentimento de decepção: quis propor aos novos cardeais uma imagem da Igreja incomparável com as lutas de poder, os negócios, a busca da glória e do carreirismo. (7). Bento XVI não teve força política, ou pelo menos não quis exercê-lo, para uma reforma profunda na Cúria. O jeito que encontrou foi tentar torná-la mais universal e menos europeia. O breve consistório de novembro do ano passado incluiu nomes vindos de regiões onde o catolicismo é minoritário e perseguido, mas muito florescente. (8). Ao nosso ver, o “golpe” de Bento XVI contra Cúria teve dois atos: o primeiro foi este, o segundo foi a sua surpreendente renúncia.

Finalmente, como uma espécie de herança destes breves 7 anos de pontificado, Bento XVI deixa por implementar o projeto de Nova Evangelização. A questão é saber se Nova Evangelização é um novo termo mais palatável para o mesmo projeto de Cristandade ou se é realmente algo “novo”, no sentido de uma Igreja à serviço do mundo na linha da Gaudim et  Spes.

Em artigo nosso anterior, sobre as Proposições do Sínodo sobre a Nova Evangelização, encontramos ali alguma coisa sobre este projeto, ou melhor, sobre as relações entre Igreja e sociedade, entre Igreja e mundo, entre Igreja e história. Como a imensa maioria dos bispos e cardeais foram feitos, nestes últimos 35 anos, por João Paulo II e Bento XVI, precisaremos ficar atentos quando da alocução Urbi et Orbi do novo papa eleito, em fins de março próximo, pois ali estará explicitado seu “programa de governo” e pode muito bem ser este:

“Somos cristãos vivendo em um mundo secularizado. Considerando que o mundo é e continua sendo a criação de Deus, a secularização se insere na esfera da cultura humana. Como cristãos, não podemos ficar indiferentes ao processo de secularização. Estamos, de fato, em uma situação semelhante à dos primeiros cristãos e, como tal, devemos ver isso tanto como desafio e possibilidade. Vivemos neste mundo, mas não somos deste mundo (cf. Jo 15, 19;17, 11-16). O mundo é criação de Deus e manifesta seu amor. Em e através de Jesus Cristo, recebemos a salvação de Deus e somos capazes de discernir o progresso de sua criação. Jesus abre as portas para nós de novo, de modo que, sem medo, possamos abraçar amorosamente as feridas da Igreja e do mundo (cf. Bento XVI) (Prop. 8). (...) A mensagem de verdade e de beleza [do Evangelho] pode ajudar as pessoas a fugir da solidão e da falta de sentido onde muitas vezes estão relegadas nas condições da sociedade pós-moderna. Portanto, os crentes devem se esforçar para mostrar ao mundo o esplendor de uma humanidade baseada no mistério de Cristo. (Prop. 13) (...) Em um mundo que está cindido por guerras e violência, um mundo ferido por um individualismo muito difundido, que separa os seres humanos entre si, e coloca um contra o outro, a Igreja deve desempenhar o seu ministério de reconciliação de maneira calma e firme. (...) a Igreja tem que fazer um esforço para derrubar os muros que separam os seres humanos. (...) ela tem que pregar a novidade do Evangelho salvífico de Nosso Senhor, que veio para nos libertar de nossos pecados e para nos convidar a construir a paz, harmonia e justiça entre os povos”. (Prop. 14)

Notas do Autor:
1.- Pedofilia: como Bento XVI se diferenciou de João Paulo II
1a.- ALBERIGO, Giuseppe. A Igreja na História. SP: Paulinas, 1999, p. 293

2.- Lefebvrianos: a derrota de Ratzinger
3.- A difícil refundação dos Legionários de Cristo: entre os escândalos e os costumes
4.- "Igreja 2011: uma virada necessária" – Manifesto dos teólogos alemães, suíços e austríacos
5.- Papa teme um cisma progressista na Igreja
6.- O Vatileaks e as ''guerras vaticanas''
7.- Papa convida a Igreja a um banho de humildade
8.- Consistório: o ''golpe'' de Bento XVI

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