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segunda-feira, 24 de março de 2008

A Páscoa nos faz pensar

Desde criança, quando reflito as questões da minha fé, venho me perguntando por que mesmo mataram Jesus? Porque o mataram se Ele é o Cristo, filho de Deus, o Messias que veio nos trazer a salvação? Mas andando nas procissões com o povo que vive, reza e canta sua fé, guardei em perpétua memória o refrão de um hino da semana santa, que diz assim: "Eles queriam um grande rei que fosse forte dominador e por isso não creram Nele e mataram o Salvador". A maioria do povo de Israel, no tempo de Jesus, talvez induzida por suas autoridades, queria mesmo um grande rei com pleno poder para derrubar do trono seus inimigos e governar soberanamente.

Dominados pelo poder dos romanos, os judeus da época, sonhavam com um rei dominador que também pudesse dominar o resto do mundo. Não pensaram que, aderindo ao projeto de Jesus de Nazaré, eles poderiam se libertar do jugo imperialista romano e construir um caminho de justiça e liberdade para todos os povos e nações. Não acolheram o Salvador da humanidade porque simplesmente queriam um rei que os governasse. Judas Iscariotes, o traidor que se sentiu traído, estava crente que Jesus de Nazaré iria fazer aquilo que ele, Judas, tanto queria, que era tomar o poder dos romanos. Judas seguiu a Jesus pensando que Ele iria fazer a sua vontade, realizar o seu projeto, mas foi bem diferente. E quando Judas não via mais em Jesus uma alternativa para seu plano, ele tratou de entregá-lo às autoridades para que o condenasse a morte. Aprisionado em seu projeto pessoal e incapaz de perceber a dinâmica do Reino de Deus, Judas Iscariotes e muitos outros do seu povo perderam a oportunidade de servir a Deus.

Mesmo no horizonte da ressurreição, a morte é sempre uma dor. E por isso, não creio que Deus Pai quisesse a morte de seu Filho, Jesus de Nazaré, mesmo certo de que Ele iria ressuscitar. Mas, o que causou a morte de Cristo foi a incapacidade do mundo de então compreender e acolher a graça de Deus. E o Cristo filho de Deus morreu na cruz porque foi além dos interesses humanos. Ele se manteve fiel ao projeto de libertação dos pobres e de todos os povos, de toda a humanidade. Jesus contrariou interesses de poder, e nisso Ele foi até as últimas conseqüências, ao ponto de ser condenado a morte de cruz. Analisando os fatos relatados nos Evangelhos, percebemos que Jesus desafiou todos os lados de interesse, mostrando que a lógica do Reino de Deus é diferente de muitas lógicas do mundo. Deus quer a paz, a justiça, o perdão, o amor e a fraternidade. De tudo o que Jesus propõe, nos parece que a novidade rejeitada por uma parte do seu povo naquela época e por muita gente de hoje, é o amor aos inimigos.

Jesus contrariou as autoridades numa dimensão religiosa, mas isso também tinha um desdobramento político, ético e social. Ele não queria uma religião de aparências e de exclusão, mas de simplicidade e compromisso com a vida, com a justiça e a verdade e que levasse a uma convivência de paz, de acolhimento e respeito às diferenças. Cristo anunciou o Reino de Deus. Talvez se tivesse anunciado um reino qualquer, inventado por ele mesmo, que fosse diferente do plano de Deus, poderia ter sido aceito pela maioria dos seus conterrâneos. Jesus poderia se tornar o imperador de Israel, mas os pobres de seu povo e de todo o mundo continuariam sem esperança, a humanidade continuaria sem conhecer a salvação, sem ver o testemunho da bondade e do pleno e sublime amor de Deus. Jesus rejeitou o poder e contrariou interesses de poder para manifestar um outro poder, o que serve e liberta o ser humano.

Frei Pilato Pereira

domingo, 23 de março de 2008

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Natal


"Deus tornando-se criança pequenina,
dependeu de peitos humanos."

Francisco de Assis, 1181-1226
(2Cel 199,1)

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

A compaixão e a felicidade humana

Deu na Adital:
Jung Mo Sung *
Adital -
Na nossa vida sempre encontramos ou cruzamos com pessoas que estão sofrendo por algum motivo. Nestes momentos todos nós somos, de um modo ou outro, tocados pelo sofrimento alheio. Isto se chama compaixão.
[...]
Eu não quero discutir aqui se a expressão "energias negativas" é a melhor para expressar o ambiente como aquele, mas o que eu posso dizer com certeza é que esta pessoa foi tocada pelo sofrimento daquelas pessoas pobres, algumas com crianças pequenas. O fato de ela sentir esta "energia negativa" até mesmo quando estava no conforto e segurança da sua casa (que devia ser muito boa) mostra que ela costumava ser tocada com certa profundidade e não sabia bem como lidar com isto. Mesmo as pessoas mais insensíveis são tocadas pelos sofrimentos de outras pessoas. Uma comprovação disso é que elas reagem de alguma forma a este tipo de contato, mesmo que seja apenas para virar a cabeça. Este virar a cabeça para não ver o rosto de uma pessoa que sofre mostra que foi tocada. Ninguém é completamente insensível ao sofrimento de outras pessoas.
[...]
A diferença entre as pessoas se dá na reação a esta experiência de compaixão. A dor e o sofrimento da outra pessoa me lembra os meus medos, inseguranças e sofrimentos que eu não quero me lembrar. Com isso, eu posso me fechar para a dor do outro para reprimir a minha dor e esquecer dos meus medos e inseguranças; ou então me permitir sentir a compaixão e assim tomar contato com as minhas dores, os meus sofrimentos e medos. É preciso muita força espiritual e também coragem para enfrentar as minhas dores mais fundas. Permanecer na compaixão não revela fraqueza ou de "pieguice" de uma pessoa, pelo contrário, é sinal da sua força emocional e espiritual.
[...]
É por isso que pessoas como Dalai Lama dizem que a felicidade depende da compaixão, e que para desenvolver o sentimento de compaixão precisamos cultivar qualidades como "amor, paciência, tolerância, capacidade de perdoar, humildade e outras" e também "o hábito de uma disciplina interior".
[...]
Compaixão e amor encarnado em ações concretas - que buscam superar situações de opressão, dominação, marginalização, exploração ou exclusão que geram sofrimentos de tanta gente - são elementos fundamentais tanto para uma vida pessoal quanto para uma sociedade mais humana. Não se pode ser feliz sendo insensível a tanto sofrimento e dor.
[...]
Compaixão, responsabilidade e solidariedade são valores fundamentais para salvarmos o mundo e as nossas vidas do cinismo, da indiferença e da desumanização.
[...]
Elie Wiesel nos oferece uma pérola do pensamento talmúdico sobre isto: "A caridade salva da morte. [...] O que é a caridade? Os vivos devem se preocupar com a tristeza ou doença do próximo. Quem não se preocupa não é realmente sensível; quem não é sensível não está realmente vivo. E este é o significado do apelo do shammash: a caridade nos livra de morrer em vida".

[Autor de, entre outros, "Um caminho espiritual para felicidade"].

* Professor de pós-grad. em Ciências da Religião da Univ. Metodista de S. Paulo e autor de Sementes de esperança: a fé em um mundo em crise
Leia na íntegra em
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=30816

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Resgatar a Ecologia de São Francisco

Neste tempo de crise ecológica e de muitas preocupações e dúvidas sobre o futuro da vida no Planeta Terra, precisamos, com urgência, resgatar a Ecologia de Francisco de Assis. Não é por nada que São Francisco é o Padroeiro da Ecologia. Antes que a palavra ecologia fosse dita, Francisco já era um verdadeiro ecologista no seu modo de viver e se relacionar com a natureza. Ele era ecologista nas coisas simples como, por exemplo, recolher do caminho os vermezinhos para que não fossem pisados e alimentar as abelhas com mel e vinho para que elas pudessem sobreviver ao inverno. São atitudes simples, que até podem ser vistas com ironia por alguns, mas só é capaz de cuidar da vida e ajudar a proteger o planeta quem tem a sensibilidade de cuidar das menores e mais “insignificantes” criaturas. O apóstolo da Ecologia, Francisco de Assis, “chamava com o nome de irmão todos os animais”. E o seu carinho pelas criaturas era sempre retribuído. As criaturas eram amáveis com ele, como diz na Biografia Segunda de Celano, onde também encontramos sete capítulos que mostram a relação fraterna de Francisco com a natureza.

Entre tantos elementos nos escritos franciscanos sobre ecologia, o que mais nos chama a atenção é o famoso “Cântico do Irmão Sol”, também conhecido como “Louvores das Criaturas”. A primeira impressão que temos é que Francisco louva o Criador com as criaturas, como se ele convidasse as criaturas, suas irmãs todas, a louvar com ele ao Deus Criador. Parece que ele está em plena comunhão com a natureza e com todas as formas de vida. Mas há uma diferença entre nós cantarmos este Cântico hoje e o que o mesmo significou para Francisco naquele momento de sua vida.

Podemos cantar o Cântico do Irmão Sol olhando o sol, a lua e as estrelas que brilham no céu, sentindo o soprar do vento, o perfume das flores e respirando o ar. Podemos cantar sentindo e olhando a beleza, a profundidade e a pureza da água, o vigor do fogo e a vitalidade da mãe e irmã Terra, que nos sustenta com seus frutos, flores e ervas. Francisco, porém, já não via mais nada, naquele momento estava cego, doente, quase morrendo, suportando uma terrível dor. Mas tudo o que cantou em seu Cântico já estava em seu coração. A imagem da integridade das criaturas expressa no Cântico do Irmão Sol já estava no mais profundo de sua alma. Não era apenas o que ele via, mas o que ele aprendeu a viver ao longo da vida e agora vivia em plenitude.

Ao cantar louvores ao Deus Criador, nessa forma, com seu Cântico, de mãos dadas com todas as criaturas, em plena sintonia com a vida, Francisco era um ser reintegrado ao cosmo. E isso expressa sua prática ecológica, uma caminhada progressiva na relação amorosa com as criaturas de Deus. Este Cântico é a expressão de um caminho espiritual-ecológico desde a sua conversão, que culmina numa atmosfera de fraternidade cósmica. O Cântico do Irmão Sol é a alma de São Francisco, que percorreu um caminho de conversão no relacionamento, não somente físico e biológico, mas também espiritual com as criaturas.
Tomar o Cântico do Irmão Sol pode ser uma forma de apreciar sua poesia, mas é também contemplar a alma de Francisco. Este Cântico é sua alma viva em plena sintonia com todas as formas de vida. Ele já não vê apenas um sentido utilitário, mas vê nas criaturas o valor em si de cada uma. Sua visão evoluiu e ele se sente irmão de todas as criaturas. A mãe Terra é para Francisco a irmã Terra, ou seja, ele se sente responsável em cuidar do planeta que sustenta a vida. E isto deve ser aplicado na nossa ecologia. Precisamos resgatar a Ecologia de Francisco e mudarmos o nosso modo de nos relacionarmos com a vida. É preciso saber cuidar da vida nas pequenas coisas, dialogar e aprender com a natureza, respeitando sua alteridade. Temos um caminho espiritual-ecológico a percorrer, um caminho de constante conversão e de reconciliação com a natureza, com todas as formas de vida.

Frei Pilato Pereira
Capuchinho, de Bagé-RS

pilato@capuchinhosrs.org.br
www.capuchinhosrs.org.br/pilato

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

A perfeita alegria

Deu na Adital:
Maria Clara Lucchetti Bingemer
*

A alegria anda desaparecida dos lábios e corações humanos. É tão triste e desolador o panorama mundial; tão insana a luta diária pela sobrevivência e o ganho suado do pão de cada dia. É tão decepcionante todo o esforço contínuo e diuturno por relações humanas que se revelarão na próxima esquina traidoras, desonestas, infrutíferas. É tanto e tudo e mais, que a alegria pura, que jorra com frescor e transparência parece distante, longínqua e mesmo inalcançável.
[ . . . ]
Um dia Francisco deu a um leproso uma esmola e um beijo. Essa doação dos bens e dos afetos introduziu-o como noviço na escola da perfeita alegria que, no entanto, o levaria por caminho bem diferente daquilo que a lógica humana entende.
[ . . . ]
Por outro lado, seu desejo crescia em ardor e intensidade pela pobreza que o despojava paulatina e radicalmente de toda posse e todo bem. Sedutora como uma bela mulher, a Dama Pobreza conduzia suavemente Francisco em seu caminho descendente de despojamento até chegar ao fundo mais profundo da condição humana, onde o esperava o rosto de seu Senhor feito pobre com os pobres em sua Encarnação e Cruz.
[ . . . ]
E foi aí neste "não ter" nem "ser" nada neste mundo que Francisco encontrou a alegria. Seria doente? Masoquista? Louco? Parece que não, pois até hoje não apareceu sobre a terra homem mais alegre do que Francisco de Assis. Todas essas rupturas, Francisco as fez para abraçar um grande amor. Seu grande amor era Jesus, por quem o Pobrezinho de Assis se apaixonou de tal maneira que terminou por assemelhar-se a ele inclusive nas chagas da Paixão.
[ . . . ]
Que Francisco de Assis, homem do milênio, nos ensine a construir um mundo feito desta alegria livre e apaixonada, fruto de despojamento, sobriedade, simplicidade e capacidade sem fim de maravilhar-se.

* teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio
Leia na íntegra em http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=29946

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Francisco: o peregrino da paz

Para o frei Aldir Crocoli, a fraternidade e a solidariedade são palavras que pertencem à coluna vertebral de todo o projeto de vida de São Francisco de Assis. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele afirma que “o ser humano do século XXI precisa aprender isso de Francisco e de Jesus Cristo: renunciar a ser centro (egocentrismo) e constituir o outro como centro (Reinocentrismo). Este modo de ser transforma as relações humanas”.

Aldir Crocoli possui graduação em Filosofia, pela Universidade Católica de Pelotas, e em Teologia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), mestrado em Teologia, pela Pontificium Atheneum Antonianum, e doutorado em Teologia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É professor na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana (ESTEF), atuando principalmente nos seguintes temas: paz, cidadão, direitos humanos, democracia, pessoa humana, leprosos, realização humana, excluído, kénosis, História das Fontes Franciscanas, releitura das fontes, história do movimento franciscano, espiritualidade franciscana. É autor de, entre outros, Francisco de Assis e o Diálogo Inter-Religioso (Petrópolis-RJ: Família Franciscana do Brasil, 2006).

On-Line - Como definir a visão cristológica de São Francisco de Assis? Que Cristo aparecia na sua maneira de pregar o Evangelho?
Aldir Crocoli -
No século XIII, dominava a cristologia triunfalista. Falava-se muito do Cristo glorioso, identificado como Rei poderoso. Nas catedrais e grandes basílicas, se encontrava costumeiramente, encimando as cúpulas, a pintura do Pantocrator , representado pelo Cristo sentado no trono real, com o báculo do poder, às vezes com o globo terrestre na mão ou com o livro da sabedoria. Ainda hoje se vêem muitas dessas imagens.
Francisco de Assis, mesmo sem ser seu iniciador, se posiciona em outra vertente: a de um Cristo mais humano. O movimento já vinha fazendo caminho há um século. São Bernardo de Claraval falava muito dos sofrimentos (físicos) de Jesus Cristo. Desenvolviam-se devoções dedicadas aos sofrimentos de Jesus Cristo: à via-sacra, às cinco chagas, ou simplesmente se meditava nos seus sofrimentos psicológicos (fadigas, desprezos etc.). Cresciam ainda devoções ligadas à Virgem Maria: as sete dores, o presépio etc.

Francisco de Assis não percorreu esse caminho dos sofrimentos biopsicológicos de Jesus Cristo. Porém, tem uma visão profundamente humana de Jesus Cristo. Qualifica-o, sem abandonar sua grandeza, de “pobre e humilde”. Tem claro que “Jesus escolheu, juntamente com sua mãe e seus discípulos, a vida de pobre”. Chega a dizer que “se fez peregrino e viandante, vivendo de esmolas”. Caracteriza-o pelo movimento da transcendência, isto é, pela descida para os lugares sociais mais ínfimos. Seu modo de ser tem face humilde e despercebida como quando está presente e escondido na eucaristia que a gente nem vê e nem percebe. Seu primeiro biógrafo conta que em Jesus Cristo “Deus quis depender de peitos humanos” como para dizer que sua vida estava submetida ao poder de uma simples criatura humana.

Sua devoção ao presépio conecta-se a um Jesus Cristo simples, humano, pobre e humilde. Ao coordenar a realização do famoso presépio de Greccio , em 1224, Francisco “queria ver como o pobre menino ficava deitado sobre as palhas entre o boi e o burro”, aquecido pelos animais, pois lhe faltara o calor da acolhida humana.

Passar desta imagem de Jesus Cristo pobre e humilde para sua identificação com o pobre do dia a dia é um caminho breve. Francisco se condoia ao ver qualquer pobre sendo maltratado. Dizia: “Quem ofende um pobre, ofende a Cristo de quem é a imagem”. Seu amor e atenção para os pobres e leprosos decorria deste fato: eram a representação viva daquele que se fez pobre para nos enriquecer pela sua pobreza, endossando a afirmação do apóstolo Paulo. Para ele, então, o projeto de vida de um/a discípulo/a de Jesus Cristo consiste em ser solidário colocando-se ao serviço dos últimos como o Mestre que no momento mais decisivo da vida, levantou da mesa, vestiu-se com um avental e, com bacia e toalha, passou a lavar os pés dos seus discípulos.

IHU On-Line - Qual é a importância da fraternidade e da solidariedade para o santo de Assis?
Aldir Crocoli -
Estas duas palavras pertencem à coluna vertebral de todo o seu projeto de vida. Solidarizando-se com os mais necessitados e excluídos (os pobres, os leprosos, os excomungados da sociedade por crimes civis), foi compreendendo que todos somos irmãos e irmãs. Aliás, o que mais resgata a dignidade de um excluído do sistema é sentir outros condividindo sua situação, não na condição de poderosos e sim na mesma condição de fragilidade para, desde aí, encontrar conjuntamente alternativas de solução.

IHU On-Line - Que tipo de solidariedade é mais urgente em nossa sociedade hoje, com base nos ensinamentos franciscanos? O que o ser humano do século XXI mais precisa aprender de Francisco e Clara de Assis?
Aldir Crocoli -
Antes de dizer que tipo de solidariedade a sociedade de hoje precisa aprender para encarnar o espírito franciscano, é preciso reconhecer que é necessário aprender a ser solidário. O sistema socioeconômico hodierno está calcado sobre a competitividade e a concorrência. Estas estimulam a sobrepor-se aos outros. A pessoa se sente realizada ao estar mais à frente ou acima das demais. A conseqüência disso é que a pessoa é levada a servir-se dos outros, a valorizá-los na medida em que lhe são úteis.

Já a dinâmica da solidariedade impele a “estar-com-os-outros”, estar ao lado deles. Aqui a pessoa é feliz ao sentir-se unida, sintonizada, participante da “tavola rotonda” como se dizia na Idade Média. Não nutre desejo de estar acima ou ser mais importante. Antes vive preocupada e se autovigiando para garantir permanência nesta posição de igualdade, cuidando para que todos permaneçam incluídos. Esta maneira de ser se contrapõe à proposta pela sociedade de hoje, mas é a base para a solidariedade. A fraternidade emerge daí. A caridade, como é pensada comumente permite que simplesmente se dêem coisas, ao passo que a solidariedade cria laços de compromisso com o outro, que passa a ser irmão. O ser humano do século XXI precisa aprender isso de Francisco (e de Jesus Cristo): renunciar a ser centro (egocentrismo) e constituir o outro como centro (Reinocentrismo). Este modo de ser transforma as relações humanas.

IHU On-Line - Considerando a crise ambiental e climática, como a forma de são Francisco olhar para os animais e a natureza pode nos ajudar a repensar o tratamento que damos ao Planeta?
Aldir Crocoli -
No tempo de Francisco, não havia esta perspectiva de apocalipse planetário hoje vivido. Mas impressiona a muitos, de todas as culturas, raças, religiões e épocas, a maneira de Francisco se relacionar com a natureza. Ele tira a minhoca do caminho para não ser pisada. Pede para os lenhadores cortar a árvore após o primeiro galho, a fim de que possa rebrotar. Quer que se deixe um canteiro na horta para as ervas daninhas poderem viver livremente. Compra uma ovelha levada ao abate e a devolve ao proprietário para que cuide e mantenha viva. Liberta uma lebre presa em alçapão. Louva pelo sol e com o sol ao seu Criador. Louva pelos pássaros com quem conversa amigavelmente. Dialoga com o urso e o transforma em animal de estimação. Pisa com cuidado nas pedras, porque são criaturas do mesmo Deus e Pai. Não pisa na água com a qual acabou de se lavar, em agradecimento pelo importante serviço que lhe prestou etc. Por trás desta postura se percebe um grande respeito por tudo.

O filme Francesco, de Liliana Cavani , atéia e comunista, ilustra esta perspectiva com uma bela cena: Francisco e seus irmãos ganharam um cordeirinho para fazer sua refeição. Como ninguém tinha coragem de sacrificá-lo, preferiram ver o animalzinho sair livremente e passar fome que praticar aquela violência contra o indefeso animal.

Não se trata de poesia nem de irrealismo. É resultado de um processo de comunhão com o outro que alcança até as criaturas chamadas, estranhamente, de “irracionais”. O modo de ser de Francisco e primeiros companheiros foi possível por haverem abdicado de toda a forma de posse, de querer tirar proveito das criaturas. Preferiram sentir-se irmanados, admirar a grandeza e beleza do ser divino que refletem. Nesse contexto de relações, o mundo se transforma em sinal da presença divina. Nascem o respeito e a reverência. Se a humanidade tivesse esse tipo de relacionamento com o universo, indiretamente se acabaria com o problema do superaquecimento do planeta, com a destruição da camada de ozônio, com a poluição do ar, das águas e outros problemas ecológicos.
Numa passagem dos escritos de Francisco, encontra-se a afirmação de que deveríamos “estar sujeitos a todas as criaturas irracionais”. Entenda-se: não para deixá-las nos prejudicar. Submeter-se a elas no sentido de ajudá-las a serem aquilo que realmente são, aprimorando suas qualidades enquanto criaturas. Nesta perspectiva, a engenharia genética tomaria direção bem diversa, pois o que ela faz hoje é em vista do maior lucro. Vê-se que nossa racionalidade é instrumental; a de Francisco era fraternal.

IHU On-Line - Qual é a importância de São Francisco como homem da Igreja e missionário de sua instituição religiosa?
Aldir Crocoli -
Aqui poderiam ser considerados dois aspectos para contextualizar melhor a resposta. Em primeiro lugar, a respeito de Francisco como homem da Igreja. Entenda-se bem que Francisco é, sem dúvida alguma, uma pessoa com um profundo senso eclesial. Porém, foi alguém que não quis se identificar com a hierarquia da Igreja. Quis permanecer no seio da Igreja sem pertencer à sua estrutura de poder. Raoul Manselli , um leigo, professor de história medieval e muito amigo dos frades, afirmava que Francisco sempre se sentiu leigo, mesmo depois de ser ordenado diácono e de ter a regra aprovada. Queria igualmente que seus irmãos não pertencessem à Hierarquia, mas que permanecessem na condição de “irmãos menores”.

O outro ponto a ponderar é sua missionariedade que está submetida à opção pela “vida de penitência”. Quer dizer, ser missionário requer, para ele, a condição de busca da conversão, da mudança de vida. Missionar, mais que anunciar doutrinas teológicas e religiosas, é testemunhar o amor de Deus. Parece que o Documento de Aparecida , de maio deste corrente ano de 2007, confirma a mesma perspectiva ao eliminar o “e” que havia entre as duas palavras do tema da Assembléia, propondo simplesmente “discípulos missionários”, por serem o discipulado e a missionariedade duas faces da mesma realidade.

Nesta perspectiva, Francisco é alguém de vanguarda da Igreja, discípula e enviada por Deus para estimular o engajamento na construção do Reino. Pela primeira vez na história de uma instituição religiosa-eclesial, prescreveu que os frades que desejassem ir entre os sarracenos e outros infiéis primeiramente deveriam se portar como irmãos, sem discutir doutrinas teológicas, convivendo pacificamente com eles. Somente ao perceber a existência de condições favoráveis à sua recepção, poderiam anunciar as verdades da fé cristã. Em certo sentido, esse “poverello” de Assis, sem grande cultura de erudição é um eloqüente testemunho de uma postura dialogal, característica da pessoa em processo de conversão.

IHU On-Line - O senhor pode falar sobre a importância do Tau como símbolo do jeito franciscano de ser? Qual a mística que envolve o Tau?
Aldir Crocoli -
Francisco na primeira viagem a Roma foi se hospedar numa casa de um grupo de religiosos dedicados aos leprosos. Nesta casa, o símbolo do Tau estava desenhado nas portas, nas panelas, nos pratos e talheres, no hábito, em todo o lugar enfim. A cruzada das crianças (ou dos pobres), de 1212, adotara Tau como distintivo do seu exército para combater os “homens infiéis a Deus”, como se dizia então. Também aí estava desenhado em todas as armas. Alguns anos mais tarde, em 1215, durante o Concílio de Latrão , assistido por Francisco, o papa Inocêncio III , baseando-se no profeta Ezequiel 9 , convocou a todos para aceitarem o Tau como sinal daqueles que estão em processo de conversão e se engajam na cruzada contra os muçulmanos. Francisco se encanta com esta mística de estar sempre em processo de conversão a Jesus Cristo. Passa a usá-lo em substituição ao seu nome. Assim acontece no bilhete a Frei Leão que contém, no verso, a bênção. Francisco nele, ao invés de assinar o nome, desenha o Tau. Também em Fonte Colombo, perto de Rieti, local em que sofreu a cauterização dos olhos, no espaço da capelinha em que costumava rezar, para designar seu lugar, desenhou o Tau sob a janela. Este servia de memória de seu projeto de vida: ser alguém em constante processo de conversão. Esta é a mística despertada pelo Tau.

Hoje, muitos franciscanos gostam de usar o Tau para se identificar com essa mística de Francisco que, na verdade, deveria ser de todo o seguidor de Jesus Cristo.

IHU On-Line - Qual é a principal mensagem de Francisco deixada no seu Testamento?
Aldir Crocoli -
É sempre arriscado querer dizer a principal mensagem de um texto, sobretudo quando é extenso como o Testamento de Francisco. Em todo o caso, na minha opinião, poderia ser assim formulada: o decisivo é seguir o caminho da transdescendência (ser capaz de descer aos lugares inferiores na constituição social) e ali permanecer. No dizer do próprio Francisco: ser Irmão Menor. Não por um malsão autodesprezo e sim porque tem clareza de que os valores mais fundamentalmente humanos são os menos considerados pela sociedade.
O Testamento evidencia essa mensagem na primeira parte que narra o caminho percorrido por Francisco e os primeiros frades para o meio dos últimos da sociedade, por causa de Jesus Cristo. Na segunda parte, onde olha para o futuro, alerta com severidade para o risco de comportamentos de “maior”. Ali quer confirmar os irmãos na humildade e na solidariedade aos últimos.

IHU On-Line - O que tinha de especial na espiritualidade vivida por Santa Clara?
Aldir Crocoli -
Numa palavra, uma grande paixão por Jesus Cristo, a quem ela comparava a um espelho: “Olhe dentro desse espelho todos os dias... Observe no início desse espelho (nascimento): veja a pobreza e a humildade... Olhe no meio do espelho: contemple aí suas lutas, esforços e ofensas recebidas. Considere o fim do espelho: o amor que o levou a morrer a morte mais ignominiosa”. Creio que quando alguém vive, de fato, um encantamento por Jesus Cristo e por sua causa (realidades inseparáveis) se torna pessoa irradiadora de alegria, de vigor apostólico, de espontaneidade e criatividade, de coragem profética. Clara refletia essa luminosidade.

IHU On-Line - Como está a família franciscana no Brasil e no mundo? Quais são os valores que a regem e os principais desafios a serem vencidos?
Aldir Crocoli -
A árvore da família franciscana apresenta muito vigor. É composta por mais de 450 ramos (diferentes congregações religiosas) e seu número de leigos está próximo a um milhão. Porém, assim como as demais congregações e ordens religiosas, sente a necessidade de retomar o sonho original. Vive-se a necessidade e a urgência de “voltar às fontes” como dizia o Concílio Vaticano II . “Reviver o sonho de Francisco e Clara de Assis no chão da América Latina e Caribe” é o lema da celebração do VIII Centenário do nascimento do Carisma Franciscano (1208–2008) que a grande família franciscana mundial está comemorando. Os desafios apontam para duas direções diferentes e complementares: a) redescobrir ou redefinir a utopia que animou o período áureo inicial; e b) encarnar essa mística aqui e agora.


Da primeira biografia de Francisco de Assis escrita por Tomás de Celano :


“Aos frades que cortavam lenha (Francisco) proibia arrancar a árvore inteira, para que tivesse esperança de brotar outra vez. Mandou que o hortelão deixasse sem cavar o terreno ao redor da horta, para que a seu tempo o verde das ervas e a beleza das flores pudessem apregoar o formoso Pai de todas as coisas. Mandou reservar um canteiro na horta para as ervas aromáticas e para as flores, para lembrarem a suavidade eterna aos que as olhassem.
Recolhia no caminho os vermezinhos, para que não fossem pisados, e mandava dar mel e o melhor vinho às abelhas, para não morrerem de fome no frio do inverno. Chamava de irmãos todos os animais, embora tivesse preferência pelos mais mansos”.


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