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domingo, 10 de abril de 2011

A visão ecológica de São Francisco de Assis - 1/2

O mundo contemporâneo se encontra em meio à crise ecológica. Entre os diversos fatores (causas) que contribuem para essa situação destacamos três: o antropocentrismo, a dominação da natureza pelo ser humano e a dessacralização do mundo, isto é, a banalização do mundo criado.

A primeira causa, o antropocentrismo, é algo muito presente no pensamento atual, pois o homem em tudo o que faz coloca-se no centro, como se tudo o que existe deve estar à disposição dele e só para ele, em outras palavras, a natureza deve estar a serviço do próprio homem. A segunda causa apresenta, de certa forma, uma consequência da primeira. Quando o homem coloca-se no centro de tudo aquilo que o circunda, ao estar frente à natureza, ele põe-se em espírito de dominação, ou seja, a natureza é submissa ao homem. Partindo destas duas causas é que se pode compreender que o homem perdeu toda e qualquer reverência para com a natureza, logo, entende-se o sentido da terceira causa geradora da crise ecológica, a dessacralização do mundo, uma banalização de tudo e de todas as coisas criadas, consequentemente, percebe-se que a natureza é despojada do seu caráter simbólico e sacramental.

São Francisco já em sua época (há 800 anos) inaugurava uma nova consciência e uma nova prática de relação com a natureza, uma vez que cada criatura recebe o seu ser de Deus que, movido unicamente por sua vontade, a cria e a mantém na existência pela íntima presença do seu sopro criativo. (cf. Sb 1,7; Is 34,16).

O pobre de Assis não contemplava cada criatura como sendo uma coisa ou um objeto de seu uso-fruto, mas percebia que cada criatura emergia milagrosamente do nada e das mãos do Criador.
Os medievais cristãos asseguravam que o mundo é uma produção voluntária e livre de Deus. Porque se Deus não tivesse o poder de criar, não poderia criar nada. Se tivesse o poder, mas não tivesse a sabedoria, não produziria de forma sábia. E se tivesse o poder e a sabedoria, mas não quisesse, também não teria produzido nada.

Santo Agostinho escreve em seu livro, Confissões, que todas as coisas proclamam que existem pela razão de terem sido criadas, sendo que nenhuma matéria pré-existe e nenhum princípio intermediário deve ser procurado entre Deus e a criatura.

“Existem, pois, o céu e a terra. Em alta voz dizemos que foram criados, porque estão sujeitos a mudanças e vicissitudes. [...] Proclamem todas estas coisas que não se fizeram a si próprias: existimos porque fomos criados. Portanto, não existíamos antes de existir, para que nos pudéssemos criar. [...] Como fizestes, meu Deus, o céu e a terra? Sem dúvida, não fizestes o céu e a terra, no céu e na terra, nem no ar ou nas águas porque também estes pertencem ao céu e a terra. Nem criastes o Universo no Universo, porque antes de o criardes não havia espaço onde pudesse existir. Nem tínheis à mão matéria alguma com que modelásseis o céu e a terra. Nesse caso, donde viria essa matéria que vós não criáreis e com a qual pudéssemos fabricar alguma coisa? Que criatura existe que não exija a Vossa existência?”.

Santo Agostinho assegura que a criação é um ato de amor de Deus e que só é um ato puro de amor, porque é realizado a partir do ato mais nobre da vontade livre. Portanto, a criação, em si, e por si mesma, nos conduz a compreender que é auto-comunicação gratuita de Deus.

Partindo desta concepção é que se pode compreender a visão de Francisco, o qual percebeu que Deus criou todas as coisas não como simples ‘coisas’, mas como símbolos que induzem o ser humano a amar e a louvar o Deus Criador. O pobrezinho de Assis ao intuir isso, entende que Deus está de modo inteiro, indiviso e integral em cada criatura, sem fragmentar-se. Ao que Mestre Eckhart afirma: “Deus está inteiramente em todos os lugares como a alma está inteira, indivisa e integralmente no pé, no olho e em cada membro do corpo”.

O Poverello contempla todo o universo, toda a criação. E, ao contemplar, Francisco resgata, também, a centralidade do sentimento da ternura nas relações humanas, em que todos vivem e pertencem a uma grande Fraternidade. Esta condescendência afável e terna para com toda a criatura é relatada em todas as biografias de São Francisco, entre elas a de Tomás de Celano.

“Enchia-se (Francisco) de inefável gozo todas as vezes que olhava o sol, contemplava a lua e dirigia seu olhar para as estrelas e o firmamento (…). Quem pode imaginar a alegria transbordante do seu espírito ao contemplar a beleza das flores e a variadíssima constituição de sua formosura bem como a percepção da fragrância de seus aromas (…). Quando encontrava flores, pregava-lhes como se fossem dotadas de inteligência e as convidava a louvar ao Senhor. Fazia-o com terníssima e comovedora candura; exortava à gratidão os trigos e os vinhedos, as pedras e as selvas, a planura dos campos e as correntes dos rios, a beleza das hortas, a terra, o fogo, o ar e o vento. Finalmente, dava o doce nome de irmãs e irmãos a todas as criaturas” (1Cel 81-82).

No livro Espelho da Perfeição o autor afirma: “sentia-se arrastado para as criaturas com um singular e entranhado amor” (n.113). “Francisco andava com reverência por sobre as pedras em atenção Àquele que a si mesmo se havia chamado de pedra: dava mel e vinho às abelhas no inverno para que não morressem de frio e de fome” (2Cel 165).

“A fraternidade não é só humana, é cósmica. Por isso amava os animais, os répteis, os pássaros e as outras criaturas sensíveis e insensíveis” (1Cel 77).
“Tinhas tão entranhado amor pelas criaturas que estas o compreendiam e estabeleciam com ele uma relação de simplicidade e fraternidade, uma vez que as criaturas irracionais eram capazes de reconhecer o seu carinho” (1Cel 59).

Numa visão franciscana, todas as coisas estão numa harmonia que compõem uma grandiosa sinfonia cujo maestro é próprio Deus. Francisco por intuição percebeu que todas as coisas criadas fazem parte de uma grande fraternidade, vivendo como irmãos e irmãs, gerados – criados pelo próprio Deus.

“Francisco proibia que os irmãos cortassem as árvores pela raiz na esperança de que elas brotassem de novo. Mandava aos jardineiros que deixassem um cantinho de terra, livre, sem cultivar, para que aí pudessem crescer as ervas todas, pois elas também anunciavam o fortíssimo pai de todos os seres” (2Cel 165).

…CONTINUA

Frei Osvaldo Maffei, OFM


* Este artigo foi escrito a partir das aulas e idéias do Professor Frei João Mannes, OFM, da disciplina História do Pensamento Franciscano, do curso de Filosofia do Instituto de Filosofia São Boaventura / UNIFAE.

Clara cavalheiresca

Por Frei Vitório Mazzuco Filho

Certamente, essas duas palavras do título sintetizam bem a mãe do movimento de Assis. Quando falamos em Clara, relacionamos a palavra com frágil, alva, feminina; quando falamos em cavalheiro, logo pensamos no homem, projetado, viril, poderoso.

Santa Clara integrou as qualidades masculinas sem perder de vista o seu feminino resplandecente. Ela representa a força da quietude da mulher que, de dentro do seu lar, gera o cavaleiro, antes de tudo, aquele ser que vai à luta, à caça, para prover e conquistar.

É do interior que ela prepara a saída de todos aqueles que deixam a sua casa para enfrentar o mundo. A mulher é responsável pela bem-aventurança daqueles que nos rodeiam. Por isso existe o dito popular: atrás de um grande homem, há sempre um feminino de ternura e vigor.

Assim é que no eremitério de Clara não há reclusão do mundo, porque ela sabia trazer o mundo inteiro para dentro de seu eremitério, explorando cada detalhe da natureza, seus ciclos e viços, motivando as virtudes daqueles que participavam de seu cotidiano.

Antes de qualquer coisa, ela era inteira, inteligente; porém, sua inteligência passava pelo coração. Vivia e experimentava a dimensão da mente e do coração, era uma mulher transparente, porque as pessoas equilibradas são muito claras e são claras porque vão na essência de tudo, e não se apegam no pequeno eu do outro, nem no seu próprio.

Por isso tudo, podemos nomear a mulher como embaixatriz de sua família, ainda que permaneça no interior de sua casa. Muito além das fronteiras dela, nós podemos observar, pelos frutos, a qualidade de mulher que se encontra lá dentro.

Clara confia, e confiar é "fiar-com". Ela está presente em tudo o que faz, e somente estando presente é possível fiar com alguém, só presente você constrói e transforma. Alguém é capaz de respirar no passado? Respirar no futuro? - O sopro é o instante. E o instante é sempre inteiro. Porém ficar inteira, desperta, é um longo aprendizado.

Quase nunca estamos presentes nas coisas que vamos fazendo em nosso cotidiano, nem mesmo quando comemos. Estamos mastigando ainda um alimento e já vamos preparando no prato a próxima garfada. É preciso abrir a escuta para o presente, a atenção, o estar ereto. Pode ser complexo, mas não é nada difícil.

Era justamente com sua presença que Clara animava com gentileza - isto é muito feminino. Animava o Cristo Bonito (masculino e feminino do Cristo) e sua grande contribuição foi trazer ao Deus masculino da época, suas qualidades femininas.

E é bom lembrar aqui que nós nascemos com o feminino e o masculino em nossa natureza humana, mas eles só podem ser potencializados no encontro, nas pessoas que passam pela nossa vida. É assim que o masculino nos faz mais femininos, integrando o Espelho e o Vigor: "Feliz é você que olha dentro desse espelho todos os dias, rainha, livre na sua vida, e espelha nele, sem cessar, o seu rosto, para enfeitar-se toda, interior e exteriormente, vestida e cingida de variedade, ou seja, ornada de flores e perfume, mas resplandecente em suas roupas de virtudes, esposa caríssima do Sumo Rei. Pois nesse espelho é preciso olhar-se inteira. Preste atenção, considere a humildade e a inefável caridade, O próprio espelho adverte, só nele, inteira, você vai poder contemplar com a graça de Deus!"

Assim Clara vê no espelho o Cristo Total (pai e mãe) e se vê nesse mesmo espelho. Precisamos, também nós, olharmos no nosso espelho interior, assumir o que somos, não podemos fugir do nosso Eu Sou, porque infalivelmente, vamos sempre terminar em frente ao espelho.

Clara sabia quem ela era, qual era o seu desejo, e ela só pôde ser livre porque sabia quem era. Ela tinha o espelho interiorizado nela, não era peça de adorno do seu toucador. Porém, para descobrir-se é preciso questionar-se, pois mesmo Deus não é uma resposta pronta para a nossa pergunta. Deus é uma pergunta constante para as nossas respostas. Por isso Ele é infinito.

Quando oramos demais, talvez não deixemos espaço para essas perguntas, espaço para o vazio que é fecundo, para o vazio onde Deus faz-se obra em nós. E isso Clara entendeu bem. Ela abriu espaço para Deus em sua vida, tirou as quinquilharias, envolveu-se com a história de seu povo e envolver-se é estar dentro das situações, dos sentimentos que envolvem essas situações, é fiar com as pessoas que experimentam conosco essas situações. É não estarmos alienados, confinados em nossas crenças, transbordados de palavras repetitivas que nem entendemos direito!

Por isso é preciso dar um passo a mais... buscar nossos piores defeitos e usar essa força para que nos conduza aos nossos mais nobres dons, sem preconceitos como "o homem não chora". Por que não chora? Se a lágrima lava, limpa, alivia, porque é transparente, é clara, espelho da nossa emoção. Se a lágrima está ali, por que represá-la? Reprimi-la? É preciso fazer do preconceito uma pergunta: Por que homem não chora? Se aquele que chora é maior que o homem!

Para finalizar, vamos falar da anima e do ânimus de Jung. O lado psicológico, na maioria das vezes, é entendido como o lado da análise, mas a análise pode ser um método de redução, que tenta explicar o todo por uma parte. A análise trata muito do negativo, da sombra em nós, mas nem sempre nos orienta claramente a transformar nossa sombra em luz.

Por outro lado, a religião fala muito do divino, olha muito para o divino, lá no alto de sua luz, mas nem sempre nos orienta a assumir nossa sombra para poder integrá-la e superá-la de vez. No entanto, desde Clara e Francisco, seres ecológicos, femininos e masculinos, nós sentimos que há uma criança sendo parida - é a convocação para a plenitude - a criança plena, embora ainda criança, mas plena.

Clara e Francisco nos chamam a que sejamos terapeutas, porque essa é a tarefa de cada um de nós, facilitar o parto dessa criança plena. Inspirados pelo ideal de que 1+1 nunca seja 2, porém 3. Eu - Você e o Amor. Francisco - Clara e Você... no Espelho! Paz e Bem!

P.S.l - Houve uma dinâmica em que as pessoas se olharam em um espelho que levava Francisco de um lado e Clara de outro, deixando o meio livre para que o espelho refletisse a imagem de quem se olhava.

P.S.2
- Síntese de uma reflexão elaborada por leigos no 27° Encontro de Espiritualidade Franciscana, realizado de 19 a 22 de junho de 2003, no Seminário de Agudos, com grupo que há 13 anos caminha com Frei Vitorio Mazzuco, buscando iluminação das práticas através da mística de Clara e Francisco. Esta síntese foi elaborada por Maria Letícia Martins.


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Privilegium Paupertatis

Por Frei Vitório Mazzuco Filho

Vamos retomar as palavras da Legenda de Santa Clara, n° 13:
"Com a pobreza de espírito, que é a verdadeira humildade, harmonizava a pobreza de todas as coisas. Logo no começo de sua conversão, desfez-se da herança paterna que recebera e, sem guardar nada para si, deu tudo aos pobres. Depois, deixando o mundo lá fora, com a alma enriquecida interiormente, correu livre, sem bolsa, atrás de Cristo. Fez um pacto tão forte com a santa pobreza, tanto amor lhe consagrou, que nada queria possuir nem permitiu que suas filhas possuíssem, senão o Cristo Senhor. Achava que a preciosíssima pérola do desejo do céu, que comprara depois de vender tudo, não podia ser partilhada com o cuidado devorador dos bens temporais.

Em alocuções frequentes, inculcava nas Irmãs que a comunidade seria agradável a Deus na medida em que fosse opulenta de pobreza e que, munida com a torre da mais alta pobreza, seria estável para sempre. No pequeno ninho da pobreza, animava-as a conformar-se com o Cristo pobre, deitado pela mãe pobrezinha em mísero presépio. Pois afivelava o peito com essa singular lembrança, jóia de ouro, para que o pó terreno não passasse para o interior
".

E no n°14 da mesma Legenda temos o pedido do "Privilégio da Pobreza" para salvar o verdadeiro fundamento da ordem:

"Querendo destacar sua ordem com o título da pobreza, solicitou de Inocêncio III, de feliz memória, o privilégio da pobreza. Esse varão magnífico, congratulando-se por tão grande fervor da virgem, disse que o pedido era raro, pois jamais tal privilégio tinha sido pedido à Sé Apostólica. E para corresponder ao insólito pedido com insólito favor, o Pontífice redigiu de próprio punho com muito gosto, o primeiro rascunho do pretendido privilégio.

O senhor papa Gregório, de feliz memória, digno de veneração pelos méritos pessoais e mais ainda pelo cargo, amava com especial afeto paterno a nossa santa. Quando tentou convencê-la a aceitar algumas propriedades que oferecia com liberalidade pelas circunstâncias e perigos dos tempos, ela resistiu com ânimo fortíssimo e não concordou, absolutamente. Respondeu o Papa: "Se temes pelo voto, nós te desligamos do voto", mas ela disse: "Pai santo, por preço algum quero ser dispensada de seguir Cristo para sempre".

Recebia muito alegremente as esmolas em fragmentos e os pedacinhos de pão levados pelos esmoleres. Parecia ficar triste ao ver pães inteiros e pulava de alegria diante dos restos.

Para que falar tanto? Ela se esforçava por conformar-se na mais perfeita pobreza com o pobre Crucificado, para que nada de perecível afastasse a amante do amado ou a impedisse de correr com o Senhor. Conto dois casos admiráveis que a namorada da pobreza mereceu realizar
".

E vamos deixar registrado aqui o texto de 1228, do Papa Gregório IX que copia o "Privilegium" dado por Inocêncio III em 1216: "Gregório, bispo, servo dos servos de Deus, às diletas filhas em Cristo, Clara e demais servas de Cristo, reunidas na igreja de São Damião, diocese de Assis, saudação e bênção apostólica.

Como todos sabem, desejando dedicar-vos unicamente a Deus, renunciastes a todo desejo das coisas temporais, por isso, tendo vendido tudo e dado aos pobres, propondes não ter propriedade alguma, aderindo em tudo aos passos daquele que por nós se fez pobre e é o Caminho, a Verdade e a Vida, e nem a falta das coisas vos afasta desse propósito, pois a esquerda do Esposo celeste está sob a vossa cabeça para sustentar o que é fraco em vosso corpo, que submetestes à lei do espírito com ordenada caridade. Naturalmente, aquele que alimenta os passarinhos do céu e veste os lírios do campo não vos faltará para o alimento e a roupa, até que Ele mesmo, passando, vos sirva na eternidade, quando sua destra vos abraçará mais felizmente na plenitude da visão.

Assim, confirmamos como pedistes, com o favor apostólico, o vosso propósito da mais alta pobreza, concedendo-vos em força deste documento que não possais ser por ninguém obrigadas a receber propriedades. Por isso, a absolutamente ninguém seja permitido infringir esta página de nossa concessão ou agir contra ela com temerária ousadia. Se alguém presumir fazê-lo, saiba que incorrerá na indignação de Deus Onipotente e dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo. Dado em Perusa, aos 17 de setembro, no segundo ano do nosso pontificado
".

Clara de Assis abraçou a Pobreza como um programa de vida. Podemos dizer que ela e Francisco são os únicos verdadeiramente pobres do nosso movimento; nós somos apenas caricatura, pois não conseguimos mais manter a coerência de uma escolha. Para nós, a pobreza é apenas um belo discurso, pois corremos atrás de outros privilégios, porém,Clara sentiu e viveu a experiência do nada, completamente despojada, vazia de tudo, sem dramaticidade, e com muita força entregou-se à ação divina. Fez do seu Mosteiro o lugar da simplicidade para estar sempre nascendo a cada instante. É na simplicidade e na harmonia que se consegue realizar grandes coisas.

No tempo de Clara, a própria eclesiologia e a sociedade achava que um grupo desprotegido de mulheres não sobreviveria sem os cuidados protetores da nobreza, da hierarquia e dos benfeitores. Mosteiro bom é aquele que armazena doações. Clara ensinou a todos que temos que aprender a dar mais do que dotes e bens materiais, temos que aprender a dar o coração. Ela e suas Irmãs tornaram-se pobres e fortes porque não tinham medo de amar.

O "sine-proprium" é o Amor que nos visita, e nesta visita ele vai nos dizer como nos colocamos na posse do uso e dos bens. Só quem ama é pobre. É preciso aprender com Clara a fazer do coração um "sine-proprium" para encontrar a felicidade. A felicidade não é conquistar, mas repartir.

Aquelas Damas Pobres de São Damião renunciaram os coloridos e pomposos trajes da nobreza e vestiram o hábito penitente. As vestes muitas vezes cobrem o corpo, mas não dão a beleza do corpo, mas somente a beleza exuberante das vestes; assim como as muitas palavras que dizemos de Deus não nos dizem Deus, mas apenas do rumor das palavras. Clara e suas Irmãs revestiram-se do Espírito e criaram uma espiritualidade sensível porque tinha as marcas da renúncia. Toda escolha radical implica renúncia. Quando o franciscanismo percebe-se na pobreza do Amor, busca então o concreto do Amor na riqueza de Clara!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Naquele Domingo de Ramos

Chegou  a noite. Noite velha, todos dormem no palácio. Clara esperou aquela hora segura, com receio de que lhes estorvassem os propósitos. Dirigiu-se a uma porta escusa, a “porta dos mortos” que só se abria quando alguém morria em casa, para por ela sair o enterro; arredou as pesadas batentes e a pedra que as escorava, e com Pacífica de Guelfúccio meteu ao escuro da noite em direção à  Porciúncula   (Fernando Felix Lopes,   O Poverello  São Francisco de Assis,  Braga, p. 226).
1. Assim Fernando Felix Lopes descreve a “fuga” noturna de Clara com o jeito português com que esse autor escreve. Essa seria uma primeiríssima etapa de suas andanças, da peregrina Chiara dos Favarone e Offreduccio.  A aventura, sim literalmente a aventura começa no Domingo de Ramos  de 1212.  Uma mulher muito jovem, filha da aristocracia, chamada Clara e um rapaz cheio de zelo e de fogo, Francesco, esse Francesco que vive para sempre porque para sempre está grudado ao Evangelho  foram os protagonistas desta aventura.  Uma menina, filha de mãe piedosa e firme, mulher das peregrinações, mulher forte.  Ortolana teve papel importante na decisão de Clara.  Sua filha, menina iluminada, era feita para coisas diferentes.  Ortolona não era ingênua. Sabia muito bem disto.  As coisas pareciam maduras. Estava na hora da saída... de sair para caminhar como Abraão  que devia deixar tudo... e caminhar sem mapa na mão para uma terra que Deus haveria de lhe mostrar.

2. Clara  “estava firmemente decidida a imitar o exemplo de Francisco e de seus frades, ainda que a sua resolução lhe exigisse os mais árduos sacrifícios. Na quaresma de 1212 a esposa escuta a voz do amado que a chama ao deserto.  Claire-Pascale Janet (Sainte Clare d’Assise, Fayard 1989)  escreve uma  biografia da santa como se Clara estivesse escrevendo seu diário.  Era  18 de março de  1212 (segundo a autora): “Está decidido. Como fazer  esperar mais ainda aquele que se me entregou totalmente?  Nessa caminhada da Quaresma ouço a sugestão que me faz: “Vem, eu vou te levar ao deserto para falar ao teu coração, e tu me responderás com todo o teu ser, com todo o teu coração e com todas as tuas forças.  Sinto como que uma queimadura o amor que levou Francisco de ruptura em ruptura. Eis o que procuro:   a pobreza de Cristo. Um caminho novo se abre diante de meus passos” (p. 52).

3. Um caminho novo... da Porciúncula para  São Paulo das Abadesas, para Santo Angelo de Panzo, para São Damião... Mas esses deslocamentos exteriores não são os mais  significativos... Na exiguidade dos espaços de São Damião foi preciso caminhar interiormente para enxergar a terra das promessas.... acompanhar com o coração os frades pelo mundo, refletir e pesar esse desejo de ir  pelo mundo afora.... viver a tristeza da perda de Francisco...ter  vontade de morrer nas missões....Nunca parar, sempre estar em estado de êxodo...como as irmãs clarissas de hoje,  na fidelidade ao passado, saberão mostrar ao mundo inteiro a força daquela  noite de Ramos de 1212.  Sempre caminhando na direção de um mundo novo, nada de mesmice, de fixismo, de imobilismo.

4. “Impossível advertir minha família. Quando Rufino, meu primo, se juntou ao grupo de Francisco  já foi um drama.  A única maneira é fazer com os meus sejam colocados diante do fato consumado. Não sou insensível ao sofrimento deles, mas a realização da vontade de Deus se paga com este preço.  O bispo Guido já está a par e Francisco me mandou sua bênção. Tudo se fará nos umbrais da Grande Semana, quando Cristo tornou se rosto duro como uma pedra para subir a Jerusalém e entrar livremente em sua Paixão”  ( Claire-Pascale, op.cit., p. 52).

5. O que aconteceu durante aquele dia?  Joaquim Capela, OFM , no seu Santa Clara de Assis (Braga, 1949) assim descreve a cena: “Chegado que foi esse dia, Clara adornando-se dos seus mais preciosos vestidos por ordem de Francisco, dirigiu-se à Catedral de São Rufino na companhia da família para assistir a cerimônia da bênção e da distribuição dos ramos. O templo estava repleto de fiéis, e no meio do burburinho próprio da ocasião, ela, conservando-se recolhida e concentrada em um canto, parecia alheada a tudo o que se passava em torno. No momento da distribuição dos ramos todos se levantaram para receber o seu, menos Clara que continuava em profunda meditação, como se não prestasse a mínima atenção ao ato que estava realizando, e não se moveu de seu lugar.  Com grande admiração dos assistentes, o bispo desceu os degraus do altar e foi colocar na mão da donzela uma linda palma. Esta ação do prelado deixa perceber que ele estaria ao corrente do que ia se passar.  Quis dar à filha de Ortolona aquela distinção para a animar no seu generoso propósito” (p.52).

6. Aquele dia parecia interminável para Clara. Era preciso esperar a noite, a grande noite chegar. “Noite velha...”, no dizer de Fernando Felix Lopes.  “Altas horas da noite, quando no palácio de Favarone já todos estavam recolhidos, Clara saiu ocultamente com sua amiga Guelfuccio em direção a Santa Maria dos Anjos.  Com receio de ser pressentida não quis sair pela porta principal. Havia uma outra porta traseira, tapada com pedras e toras de madeira, e foi por ela que a jovem escapuliu, depois de conseguir abri-la à custa de muito esforço” (Capela, 52-53).   O autor, em nota de rodapé,  faz  duas observações. Do processo da canonização de Clara depreende-se que foi Bona de Guelfuccio que a acompanhou na fuga, mas provavelmente  Filipa de Guelfuccio, também muito amiga e confidente de Clara e que poucos anos depois se lhe juntou em São Damião. A segunda observação é a respeito da porta dos mortos.  Na Úmbria era costume obstruir a porta por onde havia saído o cadáver de alguma pessoa da família de mau agouro voltar alguém a servir-se daquela porta.

7. Clara e sua amiga descem as ruas silenciosas na direção da Porciúncula. Lá naquela capela os frades esperavam por Clara que iria ser vestida, faria sua profissão e tudo em pouco tempo nos umbrais da Semana Santa.  Marco Bartoli é de parecer que  Tomás de Celano, em sua Legenda de Santa Clara  quer realçar uma celebração litúrgica no momento em que Clara chega a São Damião.  Clara escolhe o mundo dos pobres, quer estar entre os mais abandonados como Cristo, seu amado e amado de Francisco.  Padre Fernando Felix Lopes assim descreve a cena da chegada: “Àquela hora os frades recolhidos em oração diante do retábulo da Virgem pedem para Clara a proteção de Deus: e, depois, saem com tochas nas mãos ao encontro da jovem donzela. Alumiada no candor de seus vestidos de gala, as sombras boleando-se nas copas do arvoredo de à beira do caminho, treme-lhe o coração naquele momento tão grande. E a nobre virgem entra n a pobreza da Porciúncula, a fazer-se pobre. Rompe, comovido e devoto, o canto dos hinos e salmodia: também os frades sentem a grandeza nova de hora tão solene. Clara despoja-se dos seus vestidos ricos, e Francisco veste-lhe a túnica de burel áspero; igual a que vestiam os frades, ata-lhe à cintura uma corda, e com o rito costumado da consagração das virgens, corta-lhe as tranças fartas e cobre-lhe a cabeça com o véu branco e preto, de pano grosseiro” (Fernando  Félix Lopes, p.227).

8.
Marco Bartoli vendo no relato da Legenda de Tomás de Celano  uma grande liturgia  faz observações quem merecem nossa atenção.  Não posso me privar ao dever e prazer de transcrever as linhas de Bartoli, pedindo desculpas pela longa citação ( Clara de Assis, FFB/Vozes):  “Todo o relato de Celano  parece realçar a estrutura litúrgica. Clara, por determinação de Francisco, deveria se vestir “bela e elegantemente” , celebrar com toda a cidade a entrada de Jesus em Jerusalém, mas depois, à noite, abandonaria  aquela alegria pelo despojamento de suas vestes, passando a seguir o Senhor que tinha visto a alegria da entrada gloriosa em Jerusalém na dor da via crucis (...).  Quem preparou esta  “fuga litúrgica”  foi sem dúvida o próprio Francisco.  Foi ele que com suas mãos cortou os cabelos de Clara e, com isto, consagrou-a ao Senhor. Não resta dúvida que se tratava  de um gesto litúrgico. Poderia pairar uma certa dúvida pelo fato de que a legenda não use a palavra tonsura, termo técnico com o qual se indicava o corte de cabelo na cerimônia de consagração das virgens.  O termo, no entanto, é até usado na bula de canonização  Clara claris praeclara: Et ipso beato Francisco sacra ibi recepta tonsura ... ( e depois de ter recebido a tonsura do mesmo bem-aventurado Francisco).   Talvez  Tomás de Celano  não tenha querido dar realce à tonsura realizada por Francisco naquela noite de Domingo de Ramos, por estar plenamente consciente da excepcionalidade  de semelhante gesto. Clara não era uma jovem que estava sendo encaminhada por seus pais à vida  monástica.. Era uma moça que tinha  fugido de casa, indo ao encontro do desprezo e da desaprovação de todos indo ao encontro do desprezo e da desaprovação de todos. Francisco não era bispo -  a quem normalmente era reservada a consagração das virgens – e nem mesmo sacerdote. E, apesar disso, se arrogou o direito, como um  simples leigo de consagrar  Clara ao Senhor. É evidente o alcance extraordinário do gesto de Clara e da escolha que com ela fez Francisco, com respeito aos costumes da época. Pra realçar tudo isso, Francisco quis dar a esta fuga um valor litúrgico. Pode-se até dizer que até “inventou” uma nova liturgia para acolher dignamente Clara em nome do Senhor  Uma tal liturgia que abarcava o arco de todo  um dia e era a expressão da criatividade religiosa o santo inventor da liturgia do presépio em Greccio(p.60).

9. E assim terminavam as horas daquele extraordinário domingo de ramos em que Clara renunciava a tudo, mudava de categoria social, vestia-se dos trajes da pobreza e professava o seguimento do Cristo pobre e apaixonante.  Que caminhos lhe seriam abertos?  Que surpresas em cada curva da estrada?  Isso não lhe competia dizer.  Ela sabia em quem havia confiado. Que caminhos novos ou velhos trilharão as clarissas?  O que a Igreja precisa delas neste mundo de indiferença, pluralismo confuso, individualismo?  Tinha chegado e já ia passando a noite em que Clara se tinha embrenhado no escuro rumo à Porciúncula.  E disto comemoramos 800 anos...


terça-feira, 5 de abril de 2011

Os pobres e a libertação

Artigo inédito de José Comblin

"Os pobres são a verdadeira Igreja, o verdadeiro povo de Deus ainda que a sua presença no sistema religioso possa ser muito fraca. Encontram-se nos grandes santuários de romarias populares. Não se encontram nas igrejas paroquiais e muitas vezes nem sequer nas capelas. Mas Jesus sabe reconhecê-los e os integra no seu corpo como o verdadeiro povo de Deus. Jesus luta pela sua libertação no meio deles". A afirmação é do Pe. José Comblin em artigo inédito para o livro Fome de Justiça, perspecivas de superação da pobreza que será lançado na Suiça no dia 20 de maio próximo. O artigo nos foi enviado por Marianne Spiller, suiça, há muitos anos radicada no Brasil e coordenadora da Associação Brasileira de Amparo à Infância – Abai, com sede em Mandirituba-PR.

Marianne conheceu José Comblin, quando foi se solidarizar com D. Luiz Cappio, bispo de Barra - BA, em greve de fome contra a transposição do Rio São Francisco.

Eis o artigo.

A história da humanidade é a história de um conflito permanente, uma verdadeira guerra entre alguns que conseguem acumular mais poder  dominando os demais e as vítimas dominadas. Os vencedores obrigam os vencidos a trabalhar a serviço deles quando precisam deles ou os abandonam sem recursos quando não precisam mais deles. Os vencedores apropriam-se todos os recursos que estão na terra ou nos mares. Os outros  vivem daquilo que os poderosos querem deixar-lhes Esta foi a visão marxista da história. Mas não era original porque já é a visão  da Bíblia.A Bíblia fala dos pobres e dos ricos. Os pobres são os vencidos da guerra e os ricos são os vencedores. A história da América é uma figura exemplar dessa condição da humanidade.

Vida e morte

A síntese da história encontra-se no capítulo 8 do evangelho segundo João. Jesus denuncia que  os seus interlocutores que são as elites de Israel querem matá-lo porque são filhos do diabo que quer matar. Fazem a vontade do seu pai. De fato eles o mataram. Na cruz Jesus está aí como representante de toda essa parte da humanidade que é oprimida porque vencida. Jesus quer a vida. Ele vai ressuscitar e, depois de ressuscitado, leva os vencidos para a vida. Pois Jesus também foi vencido e a sua derrota envolve todas as derrotas dos vencidos. Mas a sua ressurreição envolve a ressurreição de todos os que foram mortos como ele. Viveram na terra, mas foi uma vida aparente, porque foi uma sobrevida, uma tentativa permanente para não morrer. Milhões  foram mortos cruelmente pelas armas ou pela arrogância dos vencedores. Eis a história da América que ainda continua.

A mensagem de vida

A mensagem de Jesus é o anuncio da vitoria dos vencidos, a vitória da vida que vence a morte. Nos evangelhos Jesus usa a expressão de “reino de Deus”. O reino de Deus é, de acordo com o linguajar dos profetas, um reino de justiça e de paz. É o contrário  dos reinos que houve e que há e haverá na história humana. No tempo de Jesus o reino era o Império romano, um Império tremendamente cruel que concentrava todas as riquezas do Império na fortuna de alguns milhares de bilionários. Estes residiam em Roma e na região, e oprimiam 50 milhões  de vencidos por um sistema de impostos que os deixava sem força.

Jesus anuncia a ruína desse Império e de todos os Impérios. Cada um tem o seu tempo, mas eles acabam derrotados. Virá o reino de Deus. Este não virá pela conquista com as armas, ou o dinheiro. Virá pelos pobres porque a força de Deus estará com eles. Jesus não explica como será. Mas a história dos seus discípulos vai mostrar pouco a pouco como entra esse reino de Deus neste mundo. Em lugar do poder reinará a comunidade. Todos agirão  juntos e introduzirão o reino de Deus neste mundo. Que essa história será trágica, lenta, que exigirá tantos sacrifícios, vinte séculos o ensinam. Mas este reino de Deus já tem as suas manifestações  nesta terra. Sucede cada vez que os pobres conseguem direitos pela força da sua união que desafia os dominadores.

O evangelho entrou no Império romano. Ali as traduções grega e latina da palavra aramaica que significa reino, são palavras tão odiadas que os apóstolos nem sequer se atrevem a usá-la o a aplicá-la a Deus. É impossível que Deus reine porque reinar é dominar, destruir, escravizar. Paulo como João falam da vida que veio vencer a morte. Jesus veio trazer a vida. Deus é vida. Jesus trouxe a vida. O Espírito nos dá a vida prometida por Jesus.

A vida virá pelos que não têm poder, nada podem impor, não têm armas, não têm força política. Vão conseguir vencer o poder das armas, do dinheiro, da política. Quem tem poder, somente pensa em defender ou aumentar esse poder. Quem tem dinheiro, somente pensa em conservar ou aumentar o seu dinheiro. Quem tem armas, somente pensa em fazer mais armas. Não se preocupam pelo que acontece com os vencidos. No entanto, temem os pobres, enxergam-nos como entes perigosos. Inventam forças de controle para impedir que os pobres deixem de se submeter. Apesar disso Jesus promete a vida aos pobres.

A liberdade prometida aos pobres

Os pobres de quem Jesus falava eram os camponeses sem terra que deviam trabalhar a serviço de grandes proprietários nas terras deles . Eram pescadores que muitas vezes deviam trabalhar em barcos de outros que eram os donos desses barcos. Deviam pagar-lhes uma taxa insuportável. Todos deviam pagar os impostos de Roma e os impostos do templo. A sua vida era uma vida dedicada a outros que dominavam os meios de produção. Não havia alternativa.

Para  eles o reino de Deus era libertar-se daqueles que lhes roubavam o trabalho e a vida. Era poder fazer a sua vida, eles próprios. Era poder trabalhar para si mesmos e para os seus filhos. Alguns entenderam que Jesus lhes daria essa libertação por um grande ato de violência destruindo toda a classe dos dominadores. Esperaram que Jesus fizesse o que muitos em Israel achavam que seria a obra do Messias. Não aconteceu assim. Houve discípulos desanimados com a morte de Jesus porque não tinha sido o Messias esperado por eles.

O caminho de Jesus

O próprio Jesus entendia que a sua missão  terrestre era o início e o sinal do libertação dos pobres e de todos os oprimidos, de todas as vítimas do reino da violência. Erra preciso entender isso, entender o sentido dessa vida de Jesus. Entender isso demorou. Muitos se deixaram iludir porque achavam que a libertação  se faria na segunda vinda de Jesus, essa vinda que ele mesmo tinha prometido. Muitos esperavam que essa segunda vinda ocorresse em breve. O próprio S. Paulo pensava que muitos dos seus contemporâneos e talvez ele próprio não conheceriam a morte, porque Jesus viria antes. Mas ele não veio como se esperava. Então foi preciso procurar entender de outra maneira o que ele realmente tinha dito, o que realmente tinha ensinado e que não tinham percebido.

Jesus tinha prometido que voltaria depois da sua ressurreição  e depois da sua ascensão. Voltaria para viver com os seus discípulos, para acompanhá-los. Mas era preciso descobrir de que maneira ele estava presente, e o que pretendia fazer. Até hoje muitos cristãos  ainda não sabem isso. Ainda não entenderam. Acham que devemos entender a história no sentido de que Jesus prometeu essa libertação dos pobres para depois do fim deste mundo e do juízo final. Os pobres teriam primeiro que salvar a sua alma para poder entrar no reino de justiça e de paz. Mas com essas condições os pobres não teriam nenhum privilégio porque salvar a alma era uma operação  factível por todos graças aos meios que a religião  colocava a sua disposição. A libertação não  se realizaria neste mundo, mas no outro. Muitos pensaram assim e ainda hoje muitos pensam assim e se dizem cristãos .

A maneira de Jesus

Jesus chama e reúne discípulos e os prepara para refazer no mundo inteiro aquilo que ele  mesmo faz. Desperta para a espera do reino de Deus e pede uma conversão, uma mudança. Qual é essa conversão ? Mudar de vida, dedicar-se a anunciar o reino de Deus a todos. Fundar uma vida social de irmãos na qual ninguém domina nem explora outros. Nessa vida ninguém quer  ser o primeiro, mas todos querem ser servidores dos outros. Os discípulos vão começar essa vida entre eles e convidar os outros a fazer a mesma coisa. É algo muito simples e muito difícil de ser aceito. Como acreditar que esse método possa ser eficaz ? No entanto, a história mostra que tem eficácia, sempre parcial, precária, provisória, que é preciso sempre recomeçar, mas que alguma coisa acontece. Jesus não prometeu a realização  completa da libertação, mas ensina a buscá-la neste terra, neste vida, acreditando nela. Isso é ter fé. Ter fé é acreditar que fomos chamados para construir o reino de Deus no mundo tal como é, sem violência, sem dominação e que  o método de Jesus vale.

Somente os pobres podem acreditar, porque é impossível um rico acreditar nisso. Os ricos acreditam no poder e acham que o caminho é querer sempre mais poder. Dessa maneira aumentam  sem cessar a dominação e a opressão . Para eles esse evangelho de Jesus é pura loucura como já dizia Paulo. Mas para os que confiam em Jesus , é a verdadeira sabedoria.

Como se percorre o caminho de Jesus

Jesus não liberta sem a colaboração dos próprios pobres. A libertação não é um dom que desce do céu e se recebe já acabado. A experiência ensinou-nos que de fato nenhum dom desce acabado do céu. Jesus realiza a libertação pela vida e pela atividade dos próprios pobres. Jesus está neles animando-os para construir esse reino de liberdade.

Os pobres animados por Jesus não  usam, nem procuram as armas dos dominadores, nem as armas, nem o poder político, nem o dinheiro  Não usam os meios pelos quais os donos da terra dominam os pobres e fazem deles os seus escravos. Se buscassem esses mesmos meios, cairiam nos mesmos defeitos. Construiriam outra forma de  sociedade de dominação  mas não trariam a liberdade porque esses meios não  criam a liberdade

A formação  da comunidade

Os pobres formam comunidades de vida. São diversas as formas que essas podem assumir. Pois dependem das condições  históricas. No inicio são  comunidades minúsculas como aqueles que aparecem no Novo Testamento. Mas elas podem crescer e vão crescendo na história. Não são  essencialmente comunidades de culto ou de religião, embora culto e religião  possam ser formas de educação  ou de preparação para  a vida comunitária. Nem sempre culto e religião fazem isso, nem de longe. Muitas vezes culto e religião têm o seu fim em si mesmos, pois respondem a necessidades psicológicas e sociais das pessoas. As comunidades que Jesus cria, são comunidades de vida total, de trabalho, de educação, de habitação, de relacionamento sempre na vida concreta de todos os dias e nunca fora num mundo puramente simbólico.

Podem ser comunidades rurais em que todos tem o seu pedaço de chão e trabalham em conjunto, produzem em conjunto, comercializam em conjunto e crescem em conjunto. Podem ser indústrias dirigidas pelos próprios trabalhadores em forma de cooperativa ou outra. Aliás, pode haver cooperativas em muitas atividades humanas.

Porque essa formação de comunidade é tão lenta? Com certeza porque o sistema estabelecido se defende e usa todos os meios para destruir tudo o que é comunitário. Mas também precisamos reconhecer que muitas vezes os próprios pobres não têm a fé suficiente, não têm a coragem, a audácia, a confiança nos outros que são necessárias para buscar formas de vida comunitária. Nada se faz sem uma fé radical.

As comunidades na história

Historicamente houve e há semelhantes comunidades, de dimensão mais ou menos importante. Há regimes de comunidade parcial: por exemplo quando todo um povo assume a solidariedade nos casos de doença, desemprego, velhice. Há comunidade quando o povo inteiro assume a educação de todos e a mesma educação  para todos. É o que recebeu na época contemporânea o nome de Estado de bem-estar social, ou de democracia social. São expressões comunitárias importantes. Ainda são muito incompletas porque a maior parte dos meios de produção  pertencem a minorias privilegiadas, e é o que permite uma grande desigualdade. Na América latina, no Brasil de modo particular, a desigualdade social é imensa e as classes  sociais praticamente não comunicam, vivem em mundo fisicamente separados. Não se encontram na vida a não ser de modo puramente formal e funcional nas fábricas ou nas unidades de produção, de maneira totalmente desigual. Com essa situação os encontros são manifestações da desigualdade.

Porque os pobres suportam ainda tanta dominação ? Porque se sentem tão fracos frente aos seus dominadores que perdem coragem. Por medo, por falta de audácia, por falta de confiança em si próprios. Falta uma evangelização  forte capaz de suscitar a verdadeira fé. Há toda uma cultura dominante que lhes ensina que são incapazes, impotentes, condenados a sua condição de dominados, porque não há outra sociedade possível. Quem recebe essa mensagem durante a vida toda, perde coragem; Não  confiam uns nos outros e por isso são lentos para unir-se e buscar juntos essa nova convivência humana que pode substituir as estruturas de dominação  existentes.

O anúncio da libertação

Jesus anunciou a libertação . Iniciou o movimento comunitário reunindo os seus discípulos que se acharam juntos no dia de Pentecostes para receber o Espírito Santo enviado por ele. Lançou o movimento. A missão dos apóstolos, dos missionários é anunciar de modo ativo, como Jesus,  mostrando o modo de proceder para construir o reino de Deus. A Igreja constitui esse povo de missionários. A Igreja existe para iniciar esse movimento de comunidade humana em todos os níveis. Para dizer melhor, a Igreja existe nesse movimento. Fora desse movimento ela não existe como Igreja de Jesus Cristo, mas somente de nome.

Historicamente a Igreja falhou e continua falhando. Os cristãos pertencem a este mundo e trazem todo um passado pagão . Custa acreditar no evangelho, mas muitos nem sequer o receberam, ainda que fossem batizados e recebessem os sacramentos. No início, Jesus não tinha criado uma religião, não tinha organizado nenhum culto, nem definido uma doutrina, nem um regime de governo, já que queria que todos fossem iguais. Mas muito cedo os discípulos que traziam em si toda a religião da sua vida anterior, sentiram uma necessidade de  fazer uma religião a partir do culto a Jesus ressuscitado. Não tinham conhecido a vida real de Jesus e aplicaram a Jesus o que tinham aprendido seja no judaísmo seja nas religiões ditas pagãs.

A religião e os pobres

Criou-se uma religião muito desenvolvida e cada vez mais formalizada. A religião  vive num mundo simbólico, consiste em formas e não em realidades materiais. Acontece que a Igreja chega a se fechar no seu mundo simbólico para viver nesse mundo simbólico que para ela é  salvação. O Deus da religião pede a paz e a tranqüilidade, mas se esquece de que os missionários são perseguidos. Se a Igreja vive em paz, é sinal de que não  anuncia, não tem por objetivo o reino de Deus mas apenas a segurança dos seus fiéis. No concreto das paróquias e das comunidades religiosas as atividades dominantes de longe são atividades simbólicas, de culto, de profissões  de fé, de construção  de um aparelho material para realizar melhor as suas atividades simbólicas. Essas atividades têm por finalidade a salvação  das almas mas não se preocupam pelo que sucede neste mundo.

Uma Igreja dedicada ao culto e ao mundo simbólico não dá atenção particular aos pobres a não ser para lhes dar esmolas, mas não  faz nem idéia sequer da sua libertação . Ela não tem interesse em ser a Igreja dos pobres porque os pobres não trazem muito poder. Ela procura ter boas relações  com o poder político, o poder econômico e o poder cultural. Ainda hoje traz as marcas do 15 séculos de cristandade quando a religião  dos povos era a religião dos reis. Todos deviam praticar a religião  do rei. E a Igreja dependia do rei. Essa colaboração entre o poder religioso e os poderes civis ainda está na mentalidade e nos projetos conscientes ou inconscientes de muitos cristãos  sobretudo do clero. O discurso é evangélico, mas a prática é o serviço a esse edifício religioso que construiu a Igreja como instituição .

As minorias abraamicas de dom Helder

Minorias salvam a honra da Igreja. Houve homens e mulheres heróicos que conseguiram despertar os cristãos  e levá-los a promover reformas sociais. Nem sempre pertenceram à Igreja de modo explícito. A Instituição  Igreja não lutou pela emancipação  dos escravos porque estava atada pelos laços com o Império e não queria emancipar-se. Não sentia que a união  estreita entre o Império ou, antes dele, com o reino de Portugal era o maior obstáculo para a vida cristã. Essa estrutura de cristandade favorecia a religião , mas desviava da missão  da Igreja que era anunciar o reino de Deus e lutar pela libertação  dos oprimidos e entre eles estavam os índios e os escravos africanos.

Há minorias que lutam pela reforma agrária e o próprio episcopado toma posição  com muita força nas suas declarações . Mas as elites sociais e as classes médias que se dizem católicas e as vezes praticam e recebem os  sacramentos regularmente, não querem saber de reforma agrária. Há cristãos  que lutam também pela libertação  das favelas e de todas as habitações insalubres, mas a massa dos católicos não se move e continua elegendo governantes que não ser dedicam a essas tarefas primordiais.

Podemos perguntar-nos se nas paróquias há realmente muito interesse em entrar nessas  lutas. Não se nota muito. Então  a nível teórico a Igreja quer reforma agrária, reforma urbana, salário justo, mas na prática nas paróquias e nas instituições  da Igreja, esses  assuntos não têm importância. Na prática a Igreja se confunde com as atividades religiosas e não está a serviço da humanidade, não  busca a sua libertação. Como fazer para conseguir a libertação  da instituição tão apegada à estrutura social estabelecida e às classes sociais dominantes ? Eis o drama.

Quem é pobre?

Os ricos sempre procuraram desviar o sentido do evangelho. Inventaram o conceito de pobreza espiritual. Pobres seriam os que não estão  apegados à riqueza, os que não se sentem ricos, os que têm sentimentos de compaixão pelos pobres. Interpretam o versículo de Mateus sobre os pobres em espírito como se o espírito fosse o imaterial,o mental, o psicológico. Mas o espírito é vento, força, tempestade como no dia de Pentecostes. Os pobres no espírito são os que são animados pelo Espírito. Não  são os pobres sentimentalmente.

Os verdadeiros pobres sabem que são pobres. Não se perguntam quem é pobre. Sabem que são pobres. Os ricos buscam subterfúgios para definir em forma complicada a pobreza de tal maneira que não se sintam denunciados como os ricos do evangelho. Se alguém duvida se é pobre ou rico, com certeza é rico porque um pobre não duvida, mas sabe muito bem o que é pobreza. Os pobres são a verdadeira Igreja, o verdadeiro povo de Deus ainda que a sua presença no sistema religioso possa ser muito fraca. Encontram-se nos grandes santuários de romarias populares. Não se encontram nas igrejas paroquiais e muitas vezes nem sequer nas capelas. Mas Jesus sabe reconhecê-los e os integra no seu corpo como o verdadeiro povo de Deus. Jesus luta pela sua libertação no meio deles.

Para ler mais:


  • Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=42086 acesso em 05 abr. 2011.






  • Foto: José Comblin / por LuisCarlos Díaz. Belém, PA, Brasil : 29 jan. 2009. Disponível em http://www.flickr.com/photos/periodismodepaz/3238486090/ acesso em 05 abr. 2011.
  • A HORA É AGORA

















    A HORA É AGORA

    Quero viver os dias que me restam Senhor...
    Para fazer somente a tua vontade...
    É essa a verdade que livremente escolhi para minha vida...
    E que nada nem ninguém me impeça disso...
    Porque este mundo está um lixo...
    devido à desobediência que é tanta...

    Onde vamos parar Senhor com tantos desequilíbrios?
    E tudo isso, porque os homens não estão te dando ouvidos...
    Não estão te seguindo...
    Por causa de suas escolhas erradas...
    Malfadadas, repletas de perversas intensões...
    Ao que parece a olhos nus,
    perderam o bom senso de vez...
    e mergulharam na insensatez...
    que ora os consome...

    Senhor,
    infelizmente não há mais paz em nossa sociedade...
    Porque a paz é fruto do teu amor...
    quando devidamente correspondido...
    Mas, pelo o que se tem visto tudo está perdido...
    devido às práticas nefastas que se têm cometido...

    Meu Senhor e meu Deus...
    De onde vem tanta maldade?
    Será que vem da impunidade temporal?

    Pensando bem,
    será que há impunidade temporal?
    Na injusta justiça dos homens, sim...
    Mas para aquele que faz o que é mal, não...
    Porque quem faz o que é mal...
    experimenta interiormente o mal feito...
    como uma terrível e insuportável dor no peito...
    que não o larga mais...

    Por isso, te pedimos Senhor,
    tem piedade de nós...
    Vem depressa em nosso auxílio,
    socorre-nos sem demora...
    Pois, creio ser esta a última hora...
    Onde tudo será passado a limpo...
    Assim os homens aprenderão a verdadeira justiça...
    e não mais cometerão o que é mal aos teus olhos...

    De fato, estamos nas dores de parto...
    Nossa humanidade conhecerá a verdade tal qual ela é...
    E ninguém poderá dizer: eu não sabia...
    Porque todos nós sabemos o que é certo e o que é errado...
    Ai de nós se optarmos por uma vida de pecados...
    Nenhum sequer se salvará...
    Porque já não haverá mais sacrifício de expiação...
    fora do teu sacrifício de cruz...

    Por isso, a hora é agora...
    O Filho do Homem está às portas...
    Vinde todos acheguemo-nos ao Senhor...
    Que em seu infinito amor...
    nos dá esse tempo de conversão...
    para que acolhamos o seu perdão...
    e vivamos na sua presença...
    todos os dias que nos resta ainda...

    Paz e Bem!

    Frei Fernando,OFMConv.


    segunda-feira, 4 de abril de 2011

    Conhecendo Clara de Assis

    Por Frei Vitório Mazzuco Filho
    Podemos dizer que sem Clara a experiência de Francisco é incompleta; ela é um testemunho excepcional da herança do ideal evangélico que nasce em Assis e incendeia o mundo há 800 anos. Ela é a versão feminina do ideal franciscano.

    Clara e Francisco são arquétipos humanos e protótipos da encarnação do evangelho; uma rigorosa mudança pessoal, uma cordial vivência fraterna, uma conversão de ternura e cuidado, um verdadeiro encontro entre espírito e afeto.

    Em Clara, Francisco encontra o seu coração de mãe; em Francisco, Clara encontra o seu coração de irmã.

    O conhecimento do espírito e dos projetos do Movimento de Assis permaneceria incompleto sem Clara, ela que seguiu de perto a nova vida e as práticas do início da nossa forma de viver. "Clara assimilou profundamente o espírito de Francisco, conservando em si o estado mais puro deste espírito. O seu testemunho é digno da mais alta consideração" (K. Esser).

    Até os inícios do século XX pode-se dizer que a vida de Clara era conhecida somente através de biografias cheias de devoção, baseadas sobre a sua Legenda, ora atribuída a São Boaventura ora a Tomás de Celano. Mas vamos elencar alguns momentos que alavancaram o conhecimento da nossa Mãe fundadora.

     • No ano de 1912 comemorou-se os 700 anos da Vocação de Clara e a Fundação das Clarissas. Aí surgiram os estudos sobre as pesquisas de Lemp (1892) e de Lemmens (1902). Com Oliger (1912) e Lazzeri (1912-1920) crescem as novas investigações sobre Clara. Foi muito importante neste período a descoberta e a publicação do "Processo de Canonização", mérito de Lazzeri. Nos dez anos seguintes vieram os estudos críticos junto com as Fontes Clarianas, como os de Martin de Barcelona (1921) e de Fassbinder (1936).

    • No ano de 1953 temos os 700 anos da morte de Clara; aí foram abundantes as publicações de todos os gêneros. Destacaram-se Hardick, Grou, Franceschini e Arnaldo Fortini. As publicações vieram com a grande ajuda do Protomonastero de Assis e com a publicação de "Santa Chiara: Studi e Cronaca". A partir de então pudemos conhecer as "Cartas para Inês de Praga" que ajudaram muito no perfil da espiritualidade e personalidade da fundadora.

    • A partir de 1965 o Concílio Vaticano II determina o retorno às origens e com isso influencia o desejo de aprofundar os escritos pessoais de Clara para colher aí seus ideais em toda a sua autenticidade, como base de renovação do rosto feminino do franciscanismo e a descoberta de uma verdadeira, original e própria espiritualidade.

    • No ano de 1994 celebramos o 8º Centenário do nascimento de nossa mãe, irmã e mestra. Novas publicações marcaram a família franciscana e clareana. Aqui no Brasil destacamos a publicação das "Fontes Clarianas", com tradução e comentários de Frei José Carlos Pedroso e "Clara de Assis, A primeira mulher franciscana", de Anton Rotzetter, Vozes-FFB. Frei Clarêncio Neotti coordenou a comissão central do 8º Centenário que nos legou os excelentes fascículos: "Recomeçar com Clara e Francisco", "Caminhar com Clara e Francisco", "Para celebrar Santa Clara", "Para Rezar com Clara e Francisco".

    • E finalmente estamos celebrando os 750 anos da morte de Santa Clara. Ano Clariano! Não podemos deixar de ler a excelente Carta do Ministro Geral Frei Giacomo Bini, OFM, "Clara de Assis: um hino de louvor" , na qual ele lembra que "também uma carta pode tornar-se lugar de comunhão, de diálogo fraterno, para descobrir aquele algo novo a respeito do Senhor que Clara pedia a Junípero e que nossos tempos e nossas gerações ainda esperam de nós com urgência".

    Graças a estes momentos celebrativos, muitos valores da grande fundadora chegam até nós. A presença e a mensagem de Clara são parte integrante e imprescindível da espiritu-alidade franciscana. Não se pode falar de Francisco sem Clara de Assis.



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