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domingo, 6 de setembro de 2009

Lula: O Brasil e o Pré-sal

Novas comunidades católicas: “tradução” mais visível da influência das mudanças sociais sobre a religião

Entrevista especial com Luiz Benedetti

O atual cenário religioso brasileiro não inspira nenhuma renovação, na visão do padre e filósofo Luiz Roberto Benedetti. Mas, esclarece ele, “talvez ajude a Igreja a tomar consciência de que sua palavra perde a aura de sacralidade e de autoridade impositiva de que gozava, uma vez que – e aqui lembro a Evangelii Nuntiandi de Paulo VI – este mundo aceita as testemunhas mais do que os mestres. Estes são vistos como necessários, pois ‘delimitam’ um campo de verdade e moralidade (psicologicamente saudável), mas isso não significa que as pessoas se guiem por eles”. Benedetti concedeu a entrevista a seguir, por e-mail, para a IHU On-Line, onde afirma que “o catolicismo, no Brasil, sofre as consequências da mudança social acelerada. Mudança caracterizada, no caso religioso, pelo pluralismo religioso”. E assim descreve o panorama atual do catolicismo: “a incapacidade de compreender as mudanças sociais cada vez mais rápidas e profundas leva a Igreja a propor-se como única tábua de salvação. Só ela tem o remédio para todos os males. Os fora dela estão inseguros, perdidos, desenraizados. Esta visão impede de ver os problemas reais experimentados pela grande massa. Por outro lado, pode-se visar no pontificado de Bento XVI uma espécie de catolicismo de minoria; simplificando: poucos, mas bons. Não significa buscar um catolicismo de elite, mas sim cristãos conscientes da própria fé, capazes de lutar por seus direitos de participação na vida da Igreja, co-responsáveis, presentes nos embates sociais e políticos. Não acredito na volta de um catolicismo fundado em manifestações massivas, que se esgotam em si mesmas. São psicologicamente reconfortantes, mas não representam um caminho para uma presença expressiva da Igreja no mundo”.

Benedetti possui graduação em Filosofia pelo Instituto Camiliano Pio XII, graduação em Filosofia pela Universidade de São Paulo, graduação em Teologia pela Conferência Nacional dos Religiosos, mestrado em Sociologia pela Universidade de São Paulo e doutorado em Ciências Humanas pela mesma instituição. Atualmente, é professor na Faculdade de Teologia e Ciências Religiosas da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. É autor de, entre outros, Os santos nômades e o Deus Estabelecido (São Paulo: Paulinas, 1983) e Templo, praça, coração - A articulação do campo religioso católico (São Paulo: Humanitas / USP / FAPESP, 2000).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como entender a renovação e a ebulição atual do catolicismo? Quais as causas que originaram o panorama católico atual?

Luiz Roberto Benedetti - A Igreja Católica vive, sim, um momento de ebulição. Nos anos 1980, o teólogo José Comblin dizia, contrariando o então Cardeal Ratzinger, que falava de frutos amargos do Concílio, que se não tivesse acontecido o Vaticano II a Igreja talvez já tivesse desaparecido. Não foi uma frase de efeito. Na realidade, o que acontece é que tudo o que houve durante e depois do Concílio preparou a Igreja, até certo ponto, para enfrentar as mudanças que se aceleravam cada vez mais. Independentemente de se aceitar ou não a pós-modernidade como etapa ou crítica da modernidade, o fato é que esta atinge todas as esferas da vida social. Literalmente põe em questão a forma de estar no mundo por parte das igrejas, não apenas a católica. Todas. Mesmo as oriundas historicamente da Reforma – que pode ser vista como a primeira “etapa” da Revolução Burguesa – não escapam ao desafio de recolocar-se no mundo atual. Sem o Concílio não estaríamos minimamente preparados para enfrentar os desafios éticos que as mudanças sociais colocam ao pensamento e ação dos cristãos. O clima de liberdade nos tempos de João XXIII e Paulo VI “prepararam”, até certo ponto, a Igreja Católica para enfrentar os desafios da realidade atual. Há muito de ingenuidade e, sobretudo, de má fé atribuir a eles os problemas vividos pela Igreja. Agora, não sei se é possível falar de renovação. O papado altamente centralizador de João Paulo II combinou um forte apelo emocional-midiático com rigidez e controle exacerbado sobre a liberdade que o teólogo precisa para “pensar” a fé à luz da mudança histórica, restabeleceu a ligação direta bispos-burocracia romana (deixando em segundo plano, quando não ignorando, as conferências episcopais); na nomeação destes pensou mais na docilidade que na lucidez, inteligência e sabedoria (capacidade de discernimento). A impressão que se tem é que Bento XVI tem consciência da situação que herdou e busca remédios. Mas, mesmo em seus momentos mais felizes, carrega o fardo de inquisidor.

IHU On-Line - Em que sentido as religiões emergentes servem de inspiração para o catolicismo na atual disputa por espaço e prestígio social no cenário religioso brasileiro?

Luiz Roberto Benedetti - Não sei se há religiões emergentes, no sentido clássico atribuído à palavra religião como sistema articulado de ideias, ritos e normas morais, capaz de dar um sentido ao mundo como realidade construída. Há mais um estado de espírito, de cor religiosa, difuso, altamente subjetivo. A subjetividade, exacerbada pelo fluxo de imagens e informações, combina elementos de tradições opostas e o faz seguindo modas, ou seja, o mix religioso psicológico tem duração efêmera. Poucos falam hoje da Nova Era, por exemplo. Mais ainda, se olharmos o “prestígio” da auto-ajuda, salpicada de conselhos edificantes tirados das religiões e totalmente fora de contexto, os romances de cunho religioso vendendo aos montes (A Cabana, por exemplo), fica evidente que podemos falar mais de religiosidade fluida, dispersa, do que de religiões. E mais: quando a religião se torna questão de defesa do consumidor (vai parar no PROCON), levada para os bancos dos réus, tudo isso é sintoma de uma mudança radical. Claro que a situação sumariamente esboçada não inspira nenhuma renovação. Mas talvez ajude a Igreja a tomar consciência de que sua palavra perde a aura de sacralidade e de autoridade impositiva de que gozava, uma vez que – e aqui lembro a Evangelii Nuntiandi de Paulo VI – este mundo aceita as testemunhas mais do que os mestres. Estes são vistos como necessários, pois “delimitam” um campo de verdade e moralidade (psicologicamente saudável), mas isso não significa que as pessoas se guiem por eles.

IHU On-Line - Como o senhor caracteriza, de modo geral, o catolicismo no Brasil? Em que consiste o dilema entre “apelo à massa” e comportamento reservado; ou “cristianismo de massa” e de minoria?

Luiz Roberto Benedetti - Há que olhar, primeiramente, os números do Censo. Numericamente há uma queda expressiva e crescente. Fato normal, uma vez que qualquer situação de pluralismo e diversidade religiosas, como a que vivemos, sempre provoca evasão da religião dominante ou hegemônica. O catolicismo, no Brasil, sofre as consequências da mudança social acelerada. Mudança caracterizada, no caso religioso, pelo pluralismo religioso. O aumento crescente de grupos religiosos que oferecem toda sorte de soluções para problemas da desigualdade social violenta pode levar a Igreja a cair na mesma tentação. Mais a tentação de embarcar no catolicismo midiático, um meio de atuar que atinge os que já são fiéis, altamente oneroso do ponto de vista financeiro. Ao invés de concentrar esforços numa emissora de qualidade, que tenha credibilidade, investem-se recursos em canais que acabam disputando, entre si, na transmissão de uma mensagem que, no limite, pouco contribui para dar solidez ao testemunho da fé no mundo urbano. A tentação de cair numa religiosidade intimista, de cunho emocional, somada à rigidez moral e ao devocionismo. A geração do Vaticano II sai de cena. Enfrentamos o problema de nomeações episcopais e a falta de abertura a novas formas de exercício dos ministérios ordenados. A incapacidade de compreender as mudanças sociais cada vez mais rápidas e profundas leva a Igreja a propor-se como única tábua de salvação. Só ela tem o remédio para todos os males. Os fora dela estão inseguros, perdidos, desenraizados. Esta visão impede de ver os problemas reais experimentados pela grande massa. Por outro lado, pode-se visar no pontificado de Bento XVI uma espécie de catolicismo de minoria; simplificando: poucos, mas bons. Não significa buscar um catolicismo de elite, mas sim cristãos conscientes da própria fé, capazes de lutar por seus direitos de participação na vida da Igreja, co-responsáveis, presentes nos embates sociais e políticos. Não acredito na volta de um catolicismo fundado em manifestações massivas, que se esgotam em si mesmas. São psicologicamente reconfortantes, mas não representam um caminho para uma presença expressiva da Igreja no mundo.

IHU On-Line - Qual a importância das comunidades católicas para manter viva a chama do catolicismo e para fortalecer a capacidade profética da Igreja?

Luiz Roberto Benedetti - As comunidades de vida não são um fenômeno novo na História. As ordens e congregações religiosas, surgindo quase sempre às margens da instituição, representaram papel semelhante. Guiadas pelo carisma do fundador, passaram do entusiasmo inicial, renovador, assumindo tarefas sociais relevantes do momento, a uma acomodação e burocratização institucional que domesticou a energia fundante e a pôs a serviço da instituição. A visão de Weber cabe aqui: a domesticação do carisma. De movimento a instituição. O movimento carismático já está incorporado à vida da instituição. Burocratizado e tem sua “continuidade” nas comunidades de vida. Se elas podem fortalecer a missão profética da Igreja? Bem, não dá para responder em cima dos fatos, no calor da hora. É cedo. Se tem um papel “profético” é o de abrir a instituição para levar mais a sério a subjetividade e a liberdade de escolha do homem moderno. Ele não tolera ser um a mais. Gosta do anonimato, mas anonimato “escolhido”. As relações significativas ele as escolhe. Serem proféticas as comunidades no sentido de renovar a vida da Igreja, a sua forma de presença na sociedade, não vejo que possam a vir desempenhar esse papel. Mesmo porque há várias formas de comunidade: as que valorizam a emoção, aquelas que somam devocionismo, emoção, rigidez moral e atendimento aos sofredores (o caso exemplar é o da Toca de Assis). Na sua diversidade têm um ponto em comum: uma leitura fundamentalista da Palavra de Deus e do magistério, sobretudo nas normas morais referentes à sexualidade. Talvez possam ser “proféticas” no sentido de não aderir ao relativismo reinante.

IHU On-Line - Os novos grupos e comunidades católicas buscam uma renovação dentro da Igreja ou continuam reiterando as mesmas verdades proferidas ao longo de vinte séculos? Manter-se “copiando” o passado pode ser um atrativo inclusive para os jovens?

Luiz Roberto Benedetti - Sim, buscam a renovação, mas à sua maneira. Representam a cultura moderna na valorização da performance, da emoção; outras questionam, mas caem no descrédito: por exemplo, ser franciscano não significa vestir-se como São Francisco, andar descalço ou cortar o cabelo como na Idade Média. Será que isso renova a Igreja, atrai os jovens? Ou não serão outras razões mais ligadas à situação cultural e socioeconômica que explicam a atração que exercem?

IHU On-Line - O que o senhor entende pelo “diálogo de surdos” entre a Igreja e seus membros? As novas comunidades católicas podem contribuir para a melhora deste diálogo?

Luiz Roberto Benedetti - Há uma distância crescente entre as aspirações e os problemas vividos pelos homens e mulheres contemporâneos e a postura da Igreja. Ao propor-se como tábua de salvação para todos os males e considerar erro e desvio tudo o que não se coloca na sua perspectiva impede um diálogo, adulto, livre e responsável com o mundo. Mesmo dentro da Igreja, as aspirações dos fiéis não são levadas em conta. Não se trata de mudar sua verdade, mas de criar sensibilidade às dores e alegrias humanas que não se resolvem com condenações aos que tentam interpretá-las à luz do Evangelho (refiro-me especificamente aos teólogos). Mais: a distância entre o pensamento científico e o teológico. O biólogo, o físico, o matemático explicam o universo. O teólogo pode dialogar com eles ficando restrito ao que a instituição diz e o “obriga” a crer. E os problemas sociais: a encíclica de Bento XVI foi relativamente bem recebida. Mas fica a interrogação: porque foi esquecida a “Pacem in Terris” de João XXIII, num dos seus pontos altos: as relações internacionais? Não vejo como as novas comunidades possam abrir os ouvidos de uns e outros nesse diálogo. Mesmo porque professam uma fé cega à palavra do magistério, que, aliás, constitui sua segurança num mundo marcado pelo relativismo, como já disse.

IHU On-Line - Quais as influências do Concílio Vaticano II para o fortalecimento das novas comunidades católicas?

Luiz Roberto Benedetti - As novas comunidades não constituem meu campo de pesquisa. Procuro acompanhar a literatura sobre o assunto. Digo isso porque vejo nelas a “tradução” mais visível da influência das mudanças sociais sobre a religião. Sua uniformidade – adesão incondicional à letra da Bíblia e do magistério eclesiástico – e a diversidade interna são aspectos de uma realidade social que afeta diretamente vida religiosa. De um lado, o pluralismo ético e religioso e o individualismo levam pessoas a buscarem grupos que lhe dêem segurança. A comunidade representa segurança e a leitura da vida da fé em termos de verdade pronta garante identidade. Não há contradição entre o vale-tudo religioso e o fundamentalismo. O segundo aparece como forma de reação pessoal e institucional a uma situação que um sociólogo do porte de Berger define como caos (Durkheim diria anomia). Não vejo como o Vaticano II possa ter influenciado as novas comunidades. Elas brotam de movimentos religiosos, do tipo renovação carismática, e sua raiz está sempre na mudança social.

IHU On-Line - Em que medida as novas comunidades católicas contribuem para que a Igreja possa se pensar na própria história?

Luiz Roberto Benedetti - A meu ver sua adesão incondicional a uma instituição – no caso a Igreja – permite entender as contradições e impasses que ela enfrenta. Permite compreender os limites das imposições eclesiásticas de caráter burocrático. Pode levar à descoberta de que no mundo de hoje “se flutua”, se navega e a Igreja descobre que não tem mais o controle sobre seu próprio discurso. Ele é apropriado por todas as instâncias sociais, de modo especial a mídia, que o interpreta num paradigma antropo-político. Dizer, por exemplo, que não se deve ordenar mulheres é norma da Igreja e aceita quem quer (liberdade de escolha). Isso pode dizer a instituição eclesiástica. Mas a “verdade” do mundo está em outro lugar. Objetivamente essa norma não é vista como desígnio de Deus para sua comunidade. É, sim, fruto de uma discriminação da mulher, herança da tradição patriarcal-machista. Mais ainda, vista como atitude preconceituosa fere os direitos humanos básicos. Bem, então se alega liberdade religiosa. O lugar social da Igreja e da religião mudou.
Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=25455 acesso em 06 set. 2009.

O Cardeal Martini e os desafios iminentes da Igreja

Há questões candentes que afetam a Igreja e que, nas palavras do cardeal Carlo Maria Martini, não podem esperar mais e devem ser abordadas imediatamente. A atitude da Igreja para com os divorciados, a nomeação e a escolha dos bispos, o celibato da vida consagrada e dos sacerdotes, o papel dos leigos na Igreja, a relação entre a hierarquia eclesial e a política e os governos, são algumas dessas questões, e delas se fala no livro Estamos todos en la misma barca (Editorial San Pablo), que reúne as conversas entre o cardeal Martini e o Pe. Luigi Maria Verzé durante os primeiros meses de 2009 em uma tentativa de dialogar sobre os mares pelos quais navega a barca da Igreja.

A reportagem é de Jaime Vázquez Allegue e está publicada na revista espanhola Vida Nueva, 28-08-2009. A tradução é do Cepat.

Como se costuma dizer, Carlo Maria Martini não necessita de apresentação. Todos – crentes e nem tanto – sabem que durante muitos anos foi, além de príncipe da Igreja, um candidato à cátedra de Pedro. Com toda a segurança, a Igreja do século XXI teria sido diferente com ele no leme. Mas o Espírito soprou em outra direção e hoje Martini experimenta o sofrimento da cruz na dor da doença, mas com o ânimo e a ilusão de servir à igreja com o entusiasmo de um jovem que toma o Evangelho como norma de vida.

O padre Luigi Maria Verzé é um sacerdote bem conhecido por sua opção comprometida pelos doentes. Foi o fundador do Hospital de São Rafael de Milão e promotor da Universidade de mesmo nome. Verzé interpela a Igreja com questões candentes e de primeira ordem a partir da experiência da rua e do serviço aos mais necessitados, com a parábola do bom samaritano – texto de cabeceira – que o ajuda a interpretar a mensagem de Jesus a partir de uma nova perspectiva.

Em Estamos todos en la misma barca, encontramos as experiências dialogadas de dois homens da Igreja, o cardeal Martini, de 82 anos, e o padre Verzé, de 89. Os dois dialogam como os anciãos da tradição bíblica, com a experiência do passado, o conhecimento do presente e o olhar voltado para o futuro com o pleno conhecimento de que só desta forma a visão objetiva da realidade costuma acertar em seus prognósticos.

“Você não sofre porque a Igreja fica à margem, enquanto a humanidade avança sem Cristo?”, pergunta Verzé a Martini em um determinado momento das conversas. O cardeal se dirige ao sacerdote com estas palavras: “Homens como Paulo VI tinham uma profunda e dolorosa consciência desta separação. Fez-se muito no Concílio Vaticano II para superar essa fratura. Mas este convencimento ainda não chegou a todos os aspectos e níveis da vida da Igreja”. O debate está posto.

Revisão das normas canônicas

A situação dos divorciados que se casaram novamente é, talvez, a mais desenvolvida no diálogo entre o sacerdote e o cardeal. Um tema que adquire crescente atualidade e uma situação que cada vez afeta a mais pessoas de fé e comprometidas com o anúncio do Evangelho. O aumento de separações civis e a situação de recusa da instituição religiosa em relação aos divorciados que contraem novas núpcias fazem com que muitos crentes abandonem os seus costumes religiosos e se afastem da Igreja. Mesmo que divirjam em algumas questões, tanto para Martini como para Verzé a desproporção entre divórcios civis e nulidades matrimoniais obriga a fazer uma revisão das normas canônicas e eclesiais.

As questões debatidas entre os dois tertulianos são analisadas seguindo o estilo direto, sem circunlóquios, sem evasivas, sem respostas vagas nem frase com duplo sentido. Os temas são abordados com a mesma clareza com que são apresentados. A novidade – e esse é um dos méritos do livro – reside na qualidade das respostas. Tanto o jesuíta Martini como o padre Verzé sabem do que falam com conhecimento de causa, o que, longe de se converter em mero espetáculo de opiniões contrastadas, faz do debate um colóquio interessante do qual se pode divergir, concordar, rechaçar ou aprovar de forma absoluta. É que os temas abordados são analisados com fundamentos sólidos e com argumentos de peso. Pode-se estar de acordo ou não, mas o que ninguém poderá questionar é que faltem razões para o diálogo.

Extraído de http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=25474 acesso em 06 set. 2009.

sábado, 5 de setembro de 2009

Frei Antônio de Lisboa, o Santo Franciscano

Frei Adilson Corrêa da Silva, ofm
Santo Antônio de Lisboa, de Pádua, do mundo.... O simples fato de ouvir este nome nos remete a uma figura ímpar do catolicismo. Sua presença é marcante na Igreja, sendo reconhecido e admirado por todos os grupos de fiéis. Sua popularidade, muito fecunda, fez dele um grande ‘Taumaturgo’, sendo, entre os teólogos, reconhecido como doutor no domínio da ciência divina. De origem medieval, vem nestes últimos oito séculos arrastando multidões ao seguimento de Jesus Cristo.

Antônio viveu trinta e seis anos, teve uma breve existência. Nasceu em Lisboa por volta do ano de 1195, sendo batizado com o nome de Fernando de Bulhões. Seus pais, Dom Martim de Bulhões e Dona Teresa Taveira, ambos de origem nobre e, portanto, pessoas de posses. Nascido e criado em ‘berço de ouro ’ adquiriu uma sólida formação acadêmica.

Com apenas 15 anos de idade entrou no Mosteiro de São Vicente de Fora dos Cônegos de Santo Agostinho, em sua terra natal. Seu ingresso na Vida Religiosa foi uma tentativa de corresponder ao chamado de Deus. Mas ali não viveu muito tempo. Depois de dois anos solicitou ao seu superior sua transferência para o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra; pois em São Vicente, não encontrou a paz desejada.

Naquele tempo, o Mosteiro vivia em terríveis conflitos políticos e eclesiásticos. Além do mais, era sempre visitado por parentes e amigos, o que lhe tomava um precioso tempo. Depois da aprovação necessária, o Cônego Fernando foi residir em Coimbra, onde encontrou, por algum tempo, a tranqüilidade necessária e desejada para bem se preparar para o sacerdócio, que se concretizou por volta do ano de 1219. Este ambiente, em Coimbra, muito favoreceu a sua formação intelectual pelo fato de ali haver muitas obras literárias e bons mestres formados nas principais faculdades.
Neste momento da história, a Vida Religiosa estava se reestruturando e a formação clerical ainda se encontrava precariamente organizada. Basicamente, a expressão da Vida Consagrada feminina e masculina situava-se nos Mosteiros, onde a organização interna era uma repetição do modelo social: pobres e ricos, servos e senhores, alto clero e baixo clero, letrados e iletrados. Estamos, portanto, em plena Idade Média, período marcante da história: guerras, conquistas, cruzadas, surgimento das faculdades, da moeda da burguesia, primazia da igreja, teocentrismo, declínio do feudalismo, divisão de classes.

Em tal contexto, aparece numa pequena cidade, chamada Assis, situada na região da Úmbria, Itália, o grupo dos Irmãos Menores. A inspiração primeira deste grupo vem de Francisco de Bernadoni (1182-1226), um jovem de origem burguesa, que, deixando toda a herança paterna, se consagrando, foi morar fora dos muros de Assis, constituindo uma das primeiras expressões das Ordens Mendicantes da história, ou seja, uma ‘nova maneira’ de viver a Vida Religiosa, plenamente inserida na realidade do mundo, em pequenas comunidades, nos lugares onde ninguém quer estar, nem mesmo a Igreja. Sua base está numa vida de oração, no serviço, na itinerância e na fraternidade.

Com Francisco de Assis, surge o Movimento de Assis, que é constituído pela Ordem dos Frades Menores, das Damas Pobres (Clarissas) e pelo grupo dos Irmãos e Irmãs da Penitência, hoje conhecidos como Ordem Franciscana Secular. A Regra comum daqueles que queriam fazer parte deste novo movimento é a radicalidade Evangélica. Em pouco tempo, esta nova Ordem cresceu numerosamente e se espalhou por toda Europa. Muitos se sentiam atraídos por esta maneira ‘simples’ de viver o Evangelho. E a condição primeira para fazer parte deste Movimento era doar todos os bens aos pobres, ou seja, era tornar-se pobre, para, como tal, seguir o Cristo pobre, humilde e crucificado. Assim, esta Ordem foi atraindo homens e mulheres de todas as classes sociais, de diversas culturas e nacionalidades.

Certa vez, um grupo de Frades Menores partiu em missão para o oriente, para terras d’além-mar; partiu com o ideal de anunciar a paz em tempos de guerra. Hospedou-se no mosteiro de Santa Cruz, antes de prosseguir. Os frades nem podiam imaginar que logo estariam retornando com a palma do martírio, uma vez que seus corpos foram transladados do oriente para serem sepultados.

Diante de tamanha entrega, o Cônego Fernando sentiu-se profundamente tocado e questionado sobre sua vocação. Após um período de discernimento, ele refez sua opção decidindo entrar para o grupo dos Frades Menores, com firme desejo de ir para a Missão, como aqueles que, sem medo, ofereceram suas vidas para a construção de um Novo Reino. Fernando foi acolhido entre os Frades recebendo o hábito marrom e nome de Frei Antônio. No entanto, o sonho de ser missionário não se concretizou, pois Deus havia reservado a ele uma grande missão na própria Europa. Agora como pertencente ao grupo de Francisco, Antônio assumiu com todo empenho a forma de vida deste grupo. Por alguns anos viveu de maneira quase anônima, realizando trabalhos domésticos e pouco expressivos, a despeito de seu preparo e de sua formação. Até que, depois de realizar uma pregação diante do bispo, numa solene celebração Eucarística, se revelou um exímio pregador. Em face disso, Frei Antônio iniciou uma caminhada de inúmeras pregações.

Enquanto Frade Menor, Frei Antônio encontrou-se raras vezes com São Francisco. Segundo os historiadores apenas uma ou duas vezes. No entanto, comungavam profundamente da mesma vocação. Por exemplo, em suas pregações ambos respeitavam a doutrinação, enfatizavam as orações dirigidas a Cristo com louvores, súplicas e ação de graças. O que é peculiar em Antônio, neste aspecto, é a profundidade teológica, sua fundamentação, pois, em toda sua caminhada como frade franciscano, elaborou toda uma obra em torno da pregação, utilizando-se dos tempos litúrgicos da Igreja para elaborá-la. Sendo Antônio um homem urbano sempre pregou na perspectiva de enfatizar a prática dos mandamentos: a caridade, a virtude, a mansidão e a moderação em oposição à avareza, aos vícios, à ira e à gula. Ao contrário de Francisco, Antônio não fazia muita alusão à pobreza.

Se o Movimento de Assis se caracterizava pela penitência, pela conversão, a proposta antoniana de conversão se fundava mais na prática da observância dos mandamentos e na catequese da Igreja, bem como na prática das virtudes. Sua pregação foi fruto de uma vida pautada pela conversão diária, ou seja, a conversão como mudança de direção. Antônio interpelava, com sua vida e pregação, a todos a mudarem de vida e caminharem no caminho do Senhor que somente fez o bem. Portanto, a pedagogia deste grande Santo se reflete na maneira fundamentada e cortês com que dirige sua pregação, isto como um reflexo de sua profunda intimidade com Deus e com os irmãos. Com coragem, nunca se silenciou diante das injustiças, pois praticar a injustiça significa ir contra o projeto de Deus, que nos foi apresentado por Jesus Cristo. Eis o grande desafio percebido por Antônio, assimilar os valores apresentados pelo Evangelho no cotidiano da vida.

Hoje, também nós devemos nos sentir impelidos pelo Evangelho como Santo Antônio e com veemência procurar a transformação pessoal, pois tendo uma vida mais próxima de Deus e de seus mandamentos estaremos mais próximos uns dos outros. Esta proximidade do outro nos torna capazes de lutar por um mundo mais justo, mais humano e profundamente comprometido com a paz.
Frei Adilson Corrêa da Silva é Licenciado em Filosofia.
Extraído de http://www.franciscanossantacruz.org.br/informaximo/artigos/artigo.asp?id=7 acesso em 01 set. 2009.
Ilustração: Santo António pregando aos peixes / foto de Acscosta. 2007. Extraído de http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Santo_Antonio_01b.jpg acesso em 01 set. 2009.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Francisco e Clara

As celebrações dos 800 anos da existência do movimento franciscano e da Regra original da ordem dos franciscanos estão entrando na reta final. Há aproximadamente 5 anos, a família do CCFMC recorda este fato com o lema - “Carisma 2008/09” - que resume ambos os acontecimentos: “Início do movimento franciscano em Fevereiro de 1208” e “confirmação da Regra original em 1209”. E já começam os preparativos para as celebrações dos 800 anos da fundação da ordem das Clarissas em 1212. Este fato já fez parte das deliberações realizadas há 5 anos, sobre a maneira como poderíamos redescobrir o carisma fundante da Família Franciscana.

O fato é que não podemos separar as figuras fundadoras do carisma franciscano. Clara de Assis encarna a dimensão feminina desta nova fundação. A sua influência sobre Francisco é evidente. Seu cuidado maternal pelos irmãos, Sua capacidade de compaixão, sua ternura e intuição, sua relação fraternal e unidade com todos os seres vivos são marcas desta “expressão feminina” do seu caráter.

Por outro lado, também percebemos em Clara, a síntese de características opostas: vigor e ternura, obediência e criatividade, firmeza e condescendência, afeto e oposição, alegria e penitência. Quer dizer, características que são frutos de uma amizade profunda e íntima com Francisco e que demonstram quão único e total é o carisma franciscano. Ambos perseguiram o mesmo objetivo - o Reino de Deus; ambos tiveram o desejo de viver o Evangelho de forma radical anunciando-O ao mundo como força vivificante; sua fidelidade e proximidade com os pobres, no seguimento do pobre Jesus de Nazaré, foi incondicional. Esta é nossa herança, mas também nosso grande desafio para o futuro.

Francisco e Clara são, realmente, como as duas faces da mesma medalha. Completamente equilibrados oferecem-nos a visão da maneira masculina e feminina de viver o Evangelho, com características diferentes, mas com o mesmo amor e paixão, com a mesma intensidade e radicalidade.

É nisso que consiste o equilíbrio de sua amizade. Nunca quiseram nada um do outro, ao contrário, viveram um para o outro. A sua relação foi marcada e orientada “pelo espírito do Pai Divino que inspirou a ambos, embora de maneira diferente”, como se expressa na lenda de Santa Clara.

Francisco amou Clara e ela retribuiu este amor. Amaram-se ternamente, sempre pensando no bem um do outro. Mas este amor mútuo foi superado pelo amor que os dois tiveram a Deus, a Jesus Cristo e ao Seu Reino. Este é o segredo do amor puro e equilibrado entre Francisco e Clara. Ambos confiaram neste amor porque puderam confiar totalmente no seu amor primordial a Jesus. Clara mesma disse que era “a plantinha de Francisco” e sentiu-se assim. Dos escritos de Clara pode-se deduzir nitidamente esta relação “infantil” com Francisco. Chama-lhe quase exclusivamente “nosso pai Francisco”.

Esta é a dinâmica viva das nossas raízes espirituais. Não são somente Francisco e Clara, mas sim Francisco e Clara juntos que fundaram o nosso movimento. Esta é nossa identidade como franciscanos/as, que só na união fraternal de homens e mulheres podemos viver totalmente. Esta é a característica especial do nosso carisma. Chamamos isto, hoje em dia, o Movimento Franciscanismo que continua a atrair homens e mulheres para o seguimento de Jesus. Esta é a nossa oportunidade. Mas só quando nos entendermos como irmãs e irmãos a caminho, irmãos e irmãs que compartilham suas necessidades e se ajudam mutuamente, viveremos este carisma de maneira plena e convincente.

Andréas Müller OFM
Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2009/2009_08_News.shtml acesso em 02 set. 2009.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Francisco de Assis [DVDRip] [1961]


Sinopse: Nascido em berço de ouro, cercado de privilégios, paixões e luxo, Francisco de Assis veio a ser um dos mais amados e reverenciados santos da história. Bradford Dillman interpreta de modo marcante o ambicioso aventureiro que ouve a voz de Deus e responde abandonando sua vida de conforto. Ao trocar a espada pela cruz, ele se eleva à glória… mas acaba tendo o trabalho de sua vida ameaçado por uma hierarquia corrupta e ciumenta dentro da própria Igreja. Sob a batuta de Michael Curtiz, famoso diretor de Casablanca, esta história épica de coragem e sacrifício é uma inspiração para toda a família.
Servidor: Megaupload
Duração: 105 minutos
Formato: avi/Xvid
Tamanho: 700mb
Idioma: Português/Inglês [Dual Audio]
Legenda: sem leg.
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ORAÇÃO DO SILÊNCIO

ORAÇÃO DO SILÊNCIO

Senhor cala em mim
todas as vozes do mundo...
Porque tudo me fala...
Mesmo aquilo que não vejo
e até desconheço...

Cala em mim, Senhor,
as vozes do orgulho e da soberba,
pecados horrendos que deformam as almas...
Cala em mim as vozes da imaginação fútil
e dos pensamentos vãos...

Cala, Senhor,
as vozes da ilusão e da solidão...
As vozes da impureza e das incertezas
e as outras vozes que não fazem sentido...
Porque só servem às acusações e castigo
para a culpabilidade que é tanta...

Por isso, peço-te, ó Senhor,
do mais profundo silêncio de minha alma...
Fale-me a voz do teu perdão...
que me traz absolvição
e a graça que me refaz...

Fale-me a voz de tua paz...
que pacifica todo o meu ser,
fazendo-me viver
sem confusão alguma...

Por fim, fale em mim, Senhor,
A voz do teu Silêncio Sagrado...
Que é ternura de um Deus apaixonado
Que nos livrou da morte e do pecado
Sacrificando-se pela nossa salvação...

Ah! Senhor!
Abre os ouvidos de nossas almas
como abristes o entendimento
dos discípulos de Emaús...
E faz com que vivamos em tal sintonia
com a harmonia do teu Silêncio...
que tenhamos o mesmo entendimento
da Vontade do Pai para a nossa vida,
como tiveste ao carregar
e morrer naquela cruz...

Senhor,
que aprendamos com o Silêncio de Maria,
a tua e nossa Santa Mãe, a silenciar também...
Ela, que Te guardava em seu coração...
Soube acolher com devoção
a vontade silenciosa do Pai...
que por Ti nos dá a Verdadeira Paz...
Definitivamente...

Paz e Bem!


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