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terça-feira, 31 de março de 2009

Prospectivas teológicas para o século XXI

Pe. João Batista Libânio
I. Lugar da Teologia para além dos muros

A teologia acostumara-se durante séculos a pensar-se num lugar de onde descortinava todos os horizontes do saber. Para ela convergiam as ciências e dela hauriam luzes. Como se adjetivara de divina, imaginava habitar lugar onisciente.

A própria Universidade nasce tendo-a como coração e centro. E algumas universidades européias refletem ainda tal relevância da teologia. Enfim, nada lhe parecia limitar a pretensão de dizer a última e definitiva palavra sobre a verdade. E quem diz definitiva, entende estabelecer o "fines" – o limite - dos conhecimentos.

Veio a modernidade. Explodem as ciências que vasculharam o mundo astronômico nas pegadas de Copérnico, Galileu Galilei, matematizando as realidades na esteira de Newton e escrutaram as interioridades do eu com S. Freud.

Desenhou-se amplo mapa das ciências, o qual não parou de crescer até o dia de hoje. De tudo isso surdiu a evidência: o saber fragmentou-se inexoravelmente. Cada ciência administra determinado território e não domina a totalidade do reino. Dito de maneira técnica, cada ciência possui lugar epistemológico limitado. A imagem é dada pelo lugar físico. Se nos pomos em determinado lugar, percebemos uma paisagem bem definida, mas não conseguimos ver outras. Neste sentido, todo lugar físico, ao mesmo tempo, possibilita e interdita, permite e impede de ver certas realidades. Situando-nos no palco em face do público, vemo-lo, mas não conseguimos perceber as belíssimas imagens do telão que está às nossas costas. E se viramos para ele, o público desaparece. Limite necessário de todo lugar físico.

Tal imagem vale de cada ciência. Todo conhecimento, ao dar-se num lugar, possibilita ver um ângulo da verdade, mas ao mesmo tempo impede de ver outro. A psicologia profunda possibilita-nos, permite-nos desvendar pulsões inconscientes, mas desconhece o universo da quimicidade das substâncias postas em movimento pela depressão. O químico descobre na euforia a serotonina, mas não capta nenhuma experiência passada provocadora do sentimento. E assim por diante.

Então, cabe a pergunta: qual é o lugar da teologia? Que ela vê e que ela não consegue abarcar? Em que ela possibilita a inteligência de conhecer e em que deve calar no silêncio do não-saber?

Lugar da teologia

A teologia trabalha com o sentido último e radical da existência, que todos chamam de Deus, diria Santo Tomás na simplicidade dos tempos medievais. Vê tudo à luz da revelação de Deus. Nada lhe é estranho ao olhar desde a perspectiva da autocomunicação de Deus à humanidade ao longo da história. Tudo lhe escapa da competência quando estudado no nível empírico dos fenômenos, no estrito sentido histórico e filosófico. Diante de tais saberes ela se cala ou, se quisermos, assume-os como elementos oferecidos pelas outras ciências e contempla-os sob o olhar de Deus.

Seu objeto próprio é a fé. Fides quaerens intellectum - fé que busca inteligência - Ela é a fé que se volta sobre si mesma e busca inteligência, compreensão, aprofundamento. Navega pelo mar da fé com a nave da razão.

A tradição da Igreja formulou de modo simples e expressivo com o jogo de duas expressões - lex credendi (norma da fé) e lex orandi (norma da oração) - a relação entre teologia e fé. Os orientais preferiam iniciar pela lex orandi para chegar a lex credendi. Cremos porque rezamos. No início estão a oração, a fé vivida, depois vêm a fé pensada, a teologia. O ocidental, marcado pelo predomínio da razão, estabelece os cânones da fé e segundo eles reza. Pensa a fé, teologiza, para melhor crer. Nos dois casos, fé pensada e fé vivida, razão da fé (teologia) e oração (vida da fé) entrelaçam-se.

A fé tem história e geografia. A teologia também. Não se crê em tempo sem tempo, num lugar sem lugar, mas no cruzamento das coordenadas de tempo e lugar. E a teologia, que um dia se entendeu perene, hoje sabe perfeitamente que é bem localizada. A teologia que hoje fazemos se planta na América Latina. Não é toda a teologia, mas de nosso continente. E localiza-se no momento que vem depois do Vaticano II, Medellín, Puebla e Santo Domingo a caminho de Aparecida.

A partir de outra perspectiva epistemológica, a teologia é resposta. Nenhuma resposta se entende sem conhecer a pergunta. E a pergunta da teologia chama-se antropologia. À medida que o sentido comum e a filosofia modificam a compreensão do ser humano, a teologia se arranja diferentemente. A atenção do teólogo oscila entre dois pontos: que antropologia a teologia implica ou que teologia precisa construir-se para dar conta de nova antropologia.

Teologia cristã

A teologia cristã funda-se na fé cristã. Dizer cristã significa abraçar os mistérios fundamentais do Cristianismo. Para Paulo na epístola aos Efésios, há o único mistério da vontade de Deus e do seu desígnio benevolente de levar os tempos à plenitude, reunindo o universo inteiro sob um só chefe, o Cristo (Ef 1, 9s). Tal mistério estava escondido em Deus e agora foi revelado (Ef 3, 3-10).

O desenrolar do mistério permite que distingamos traços fundamentais que marcam a fé: trinitário, encarnatório/sacramental, pascal, pentecostal, eucarístico, eclesial, ecumênico, mariano, escatológico. Cada adjetivo revela, por sua vez, determinada qualidade da teologia cristã. Ela é trinitária no sentido de pensar a Deus "na comunhão dos Três e não na solidão do Um" ([3]). Como encarnatória e sacramental, enquanto capta o divino no humano. "Humano assim, só pode ser Deus mesmo" ([4]). Sacramental porque apreende a graça no sinal visível e este significa e realiza a graça. Pascal ao anunciar a vida para além de toda morte das pessoas, dos povos. Eucarística ao entender que o Senhor se entrega a nós para que nos entreguemos aos irmãos. Eclesial, ao apontar a Igreja como onde se recebe, se vive e se transmite a fé sobre a qual se teologiza. Ecumênica porque só é cristã a teologia que se abre às diversas expressões de fé. Mariana, ao entender Maria na encruzilhada da oferta do projeto de Deus e da recepção da liberdade humana. Escatológica porque a fé inicia a vida eterna já na história e se plenifica para além dela. Cada um dos aspectos merece tratativa que breve palestra não comporta. Ficam aqui os adjetivos para eventuais aprofundamentos.

Teologia católica

O epíteto de católica necessita explicitações. Toda teologia, enquanto se refere a Deus, à verdade da revelação, necessariamente possui dimensão de universalidade. Portanto, católica no sentido lídimo da etimologia - kat&940; + O+[loj - segundo o todo. Na há teologia totalmente regional, porque Deus é universal, absoluto, de sempre e para sempre. Ela mostra o aspecto definitivo e universal da verdade, consciente, porém, das próprias balizas.

Quem faz teologia padece dos limites de tempo e espaço. Por conseguinte, toda teologia sofre de parcialidade histórica e geográfica. Mais: a teologia católica pós-tridentina assumiu a tarefa da defesa da instituição, do magistério. Pôs-se a serviço da justificativa apologética da fé segundo a tradição católica em oposição à Reforma e aos reclamos da modernidade. Carregou-se de muitos elementos ideológicos, ao universalizar o particular da Igreja católica em que pese o nome de católica.

Veio o Concílio Vaticano II. Soprou dentro da teologia católica ares frescos que a impeliram para outra direção. Nunca se superam totalmente os traços ideológicos, mas a consciência crítica diminui-lhes a incidência. O Concílio Vaticano II, em espírito de diálogo ecumênico, inter-religioso e com o mundo moderno, engendrou teologia bem diferente da neoescolástica tridentina.

Teologia acadêmica civil

Fato novo na cultura acadêmica brasileira. Nos idos de 60, Darci Ribeiro tinha pensado a Universidade de Brasília com um Instituto de Teologia que seria confiado aos frades dominicanos. As vicissitudes políticas do golpe militar abortaram o projeto. Teria sido a primeira tentativa de inserir a teologia no mundo acadêmico secular moderno do Brasil. A entrada da Teologia e das Ciências da Religião no mundo acadêmico brasileiro se fez pelo reconhecimento por parte do Estado brasileiro de programas de pós-graduação de mestrado e doutorado. Tal aconteceu mediante avaliação da CAPES, órgão do Ministério da Educação.

Mais recentemente foi concedida, em 1999, uma primeira autorização para o funcionamento de um Bacharelado em Teologia por parte do CNE (Conselho Nacional de Educação). Ele estabeleceu (CNE 241/99, de 15 de março de 1999) critérios para a autorização e reconhecimento dos cursos. Ainda está sob debate o reconhecimento do Bacharelado em Ciências da Religião e o de licenciatura em Teologia e nas Ciências da Religião ([5]). Na nova situação criada, a teologia adquire cidadania no concerto das ciências e profissões seculares. Multiplicam-se no país os cursos de teologia reconhecidos oficialmente pelo CNE de diferentes confissões cristãs.

Tal situação traz vantagens e riscos para a teologia. Aumenta-lhe a presença na sociedade acadêmica do país. No entanto, ameaça baixar-lhe o nível de suas exigências internas, transformando-a em avatares empobrecidos. Rodeiam-lhe interesses econômicos, tentações de comercialização que não casam bem com a ciência sobre a gratuidade divina da revelação. Enfim, o termo teologia padece de ampliação semântica tal que se marcam com tal etiqueta discursos díspares. O assalto a tal titularidade civil em teologia vem sendo deflagrado por denominações evangélicas de parca tradição teológica, mas de eficiente penetração apologética e mercadológica.

Para além dos muros

A teologia da América Latina possui já tradição original de mais de três décadas. H. Vaz formulara a expressão de que a nossa Igreja passara de situação de reflexo para fonte. Tal constatação vale da teologia. Até a segunda metade da década de 60, a teologia da América Latina bebia fundamentalmente em duas fontes. A mais abundante e que inundava a formação do clero nos seminários vinha da Pontifícia Universidade Gregoriana. Os manuais neoescolásticos de corte tridentino e apologético, que os professores da Universidade Gregoriana redigiam em Latim para os seus alunos, serviam de texto básico nos estudos eclesiásticos do resto do mundo. O clero do Brasil se alimentava do mesmo pábulo romano que a maioria do clero europeu.

Na Europa, porém, já se anunciavam nos séculos XIX e na primeira metade do século XX teologias tocadas pelos ares novos da modernidade. A Escola de Tubinga, com repercussão na Escola Romana, o modernismo do início do século XX, a teologia querigmática do Entreguerras e sobretudo a Nouvelle théologie, desenvolvida na França, ao lado de alguns teólogos alemães de ponta, tentaram diálogo positivo com a modernidade, enquanto a teologia acadêmica neoescolástica se fixara nos moldes medievais e tridentinos. Tais teologias desaguaram no Concílio Vaticano II, fecundando-lhe as melhores intuições.

A teologia em nossas terras apenas se deixara tocar, antes do Concílio, pelas novidades européias. Antes reinava certa desconfiança. No entanto, poucos anos depois do Concílio, jovens da JUC com plêiade brilhante e inteligente de assessores assimilam e avançam sobre a teologia européia, semeando os germes da teologia da libertação. Gustavo Gutiérrez, passando por estas terras e contactando-lhes o turbilhão de idéias, se inspira e lança em 1971 o livro programático da Teologia da libertação ([6]).

Ele refletia clima teológico já presente na América Latina em que nomes como J. L. Segundo, H. Assmann, J. Comblin estavam em plena produção inovadora. Ora, as sementes cresceram muito. Surgiu nova geração de teólogos como os irmãos Boff, J. Sobrino, P. Richard, S. Galilea, F. Taborda, R. Muñoz e outros tantos. As teologia feminina e negra vieram com originalidade libertadora reforçar essa torrente. E nos últimos anos, a teologia do diálogo inter-religioso e ecológica completou o quadro.

A teologia da América Latina não tem direito de esquecer e perder tal riqueza acumulada que serve não só as nossas igrejas e pastorais, mas atinge outros continentes. Verdadeiramente fora dos muros.

Não se vive do passado. Novos campos se abrem para a teologia da América Latina, além de firmar os campos mais recentemente explorados. Surde-lhe diante a provocante pós-modernidade. A racionalidade iluminista e positivista trouxera-lhe muitos dissabores e problemas de incompreensão, gerando atitudes rígidas de ambas as partes. Agora a racionalidade vê-se ameaçada por ondas irracionalistas, vindas de culturas não ocidentais, de reações emocionais, de ideologias e religiões fundamentalistas, de surtos terroristas, da enlouquecida indústria armamentista, do cultivo da droga, de reacionarismos fanáticos. Atenta-se contra a própria razão humana. E, por ironia da história, a teologia, tão combatida pela razão moderna, sente-se chamada a defendê-la como elemento interno de seu processo produtivo.

Finalmente, a teologia ao ser reconhecida oficialmente pelo Ministério da Educação e Cultura, como mencionamos acima, defronta-se com o imperativo de entrar em diálogo com as outras ciências no âmbito universitário, deixando a solidão dos seminários e instituições estritamente eclesiásticas. O debate pluridisciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar desafia-lhe epistemológica, hermenêutica e tematicamente.

II. Teologia, história e sociedade

Concepções de história e pensar teológico

A teologia cristã e a história mantiveram relações bem diversificadas. Como conhecê-las? Seguirei o caminho didático de constatar diferentes sentidos de história e contrapor-lhes o papel da teologia. Método simples, sem as complicações e embaraços dos estudos históricos. Estudar historicamente a história não deixa de ser curioso e interessante. No entanto, supõe tratação que escapa dos limites da exposição.

Comecemos com o orador e filósofo latino Cícero (séc. I aC). História é magistra vitae - a mestra da vida. Perspectiva pedagógica. Como formar os jovens? Apresentar-lhes os modelos do passado. Construir-lhes a narração dos viri illustres - varões ilustres -, as mulheres infelizmente naqueles idos não entravam na maré dos exemplos. Ao ler-lhes a vida, a juventude sentir-se-á animada a trilhar caminho semelhante.

A tradição biblicocristã conheceu tal pedagogia. Paulo apresenta-nos Abraão como pai da fé. No Novo Testamento, tal tendência se firmou ainda mais. O querigma apostólico anunciou a Jesus Cristo, recolhendo-lhe os ensinamentos e as ações. O cristão, ao longo de todos tempos, lerá os escritos dos evangelhos como matriz para a vida. Paulo resume de maneira cortante: "eu vos exorto, pois: sede meus imitadores" (1Cor 4, 16). O que pareceria pretensão descabida, recebe a intelecção noutro momen "como eu mesmo sou imitador de Cristo" (1Cor 11, 1). Jesus no evangelho disse que "sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito" (Mt 5, 48) e na esteira da ordem-conselho de Jesus, Paulo simplesmente conclui: "imitai a Deus, visto que sois filhos que ele ama" (Ef 5, 1). A imitação dele que Paulo propõe lhe vem da consciência de que ele medeia a presença do Senhor como outros que se conduzem assim (Fl 3, 17).

Th. Kempis, no final da Idade Média (séc. XV), escreveu o pequeno livro da "Imitação de Cristo" que virá a ser um dos textos espirituais de maior divulgação e de ampla influência durante séculos até os dias de hoje.

A concepção fatalista da história, que transparece em tragédias gregas, teve influência na vida cristã a seu modo. No mundo pagão se acatava a moira (grego), o fatum (latim), que traduzimos por destino. Concebida como força ora anônima, ora personalizada, a ela se subordinavam seres humanos e divinos. Édipo, por exemplo, assassina o próprio pai Laio sem sabê-lo, segundo o enigmático vaticínio de Pítia, sacerdotisa de Apolo, para casar-se com a mãe Jocasta. A Providência divina da tradição cristã traduziu tal concepção histórica, ora de maneira quase mecânica, ora confrontando-a com o mistério de Deus.

O eterno retorno, que inspirava ritos religiosos na cultura agrícola, reduzia a história à matriz da natureza. A circularidade e a repetitividade inflexível da natureza fixavam os atos cúlticos. A liturgia e traços teológicos pagaram tributo a tal concepção de história, paradoxalmente não histórica, mas segundo o modelo da natureza. Estações do ano, fenômenos astronômicos sinalizavam o ritmo da liturgia, o sentido das festas a partir das quais se elaboravam reflexões teológicas.

A tradição judaicocristã desenvolveu a visão linear de história da salvação em que existe uma primeira palavra - criação - e uma última - escatologia e no intervalo se desenrola o drama da salvação pessoal e coletiva. A história ocupa papel relevante. A liturgia vinculava-se a celebrações de eventos históricos passados, atualizando-os na vida dos fiéis como garantia do futuro prometido por Deus. A teologia dos sacramentos concebe-se profundamente histórica. Entretanto ela se contaminou com a percepção cíclica da natureza por desconhecimento da íntima natureza do gesto sacramental. Para o judeu e cristão, Deus age na história em diálogo com a liberdade humana, diferentemente da intelecção primitiva do destino e da repetição da natureza.

A modernidade modificou significativamente a concepção de história em diversas direções. Desalojou Deus como sujeito agente e substituiu-o totalmente pelo ser humano. O antropocentrismo moderno não suporta o imiscuir-se da Transcendência no universo dos humanos mortais. Obrigou a teologia a reinterpretar o agir de Deus.

Certa leitura dialética da história humana entende-a como processo em que as negatividades se vão superando pela sua negação, atingindo patamares superiores até à plenitude histórica imanente. O nazismo anunciou um Terceiro Reino em que imperaria a raça ariana pura. O comunismo sonhou com a sociedade em que superadas as contradições do trabalho viver-se-ia o mundo da reconciliação completa. O capitalismo continua ainda pregando a felicidade pela vitória sobre as necessidades e desejos com oferta inaudita e ilimitada de bens materiais e simbólicos.

Os contínuos fracassos da concepção dialética, inteligíveis para a teologia cristã do pecado original, da redenção e da escatologia, têm desbancado do trono o reinado de tais pretensões totalitárias.

O historicismo partiu para outro extremo. Submeteu a história ao bisturi da análise factual e contentou-se com ela. Esqueceu o sentido e, sobretudo aquele que transcende o horizonte imediato do presente humano. A teologia, quando se contenta com o histórico das narrações bíblicas, feliz de prender-se a ele, sucumbe à tentação historicista. E como muitos eventos escapam de tais análises, facilmente ela se recolhe de mãos bem vazias. E com isso julga não poder dizer muita coisa, esquecendo que o importante é captar a mensagem teologal da revelação para além do factual que nos escapa.

Para a teologia, a história tem realidade sacramental. Santo Tomás define o sacramento como signum rememorativum, demonstrativum et prognosticum - sinal que recorda o passado, que aponta o presente e que anuncia o futuro. A história guarda a memória das gestas de Deus. A vida, a paixão e a morte de Jesus pertencem à história passada. A ressurreição já ingressou na fase definitiva da eternidade. Portanto paira no horizonte de esperança para todos nós. A fé cristã e a teologia vivem dessa da realidade: a realização das obras de Deus que sempre são passadas, que a vida sacramental atualiza e que deixa no coração do fiel a certeza de que o futuro está garantido e contido no próprio sacramento. Tal concepção de história preside à visão cristã. Dela se alimentam a teologia e a vida do fiel.

Teologia e sociedade

Tema amplo que apenas menciono à guisa de aceno. Caracteriza a atual sociedade brasileira o fato da simultaneidade de tempos culturais. Existem remanescentes da cultura agrária tradicional que persistem plasmando a concepção de Deus, de fé, de religião do povo. Aponto alguns sinais da imagem de Deus que rotiniza a vida do cristão. Deus se posiciona diante de nós quase como um de nós, só que infinitamente poderoso. Regateia conosco. Só nos dá o que lhe suplicamos com insistência. Fica à espera dos pedidos no sentido literal da parábola do amigo importuno que pede pão (Lc 11, 5-8). Deus todo-poderoso intervém pontualmente na história de maneira arbitrária e até segundo o próprio humor e capricho, ora bondoso, ora irritado. Deus último recurso quando falham os remédios humanos. Reserva infinita de nossos capitais finitos. É um Deus carente dos nossos louvores e que se torna propício se eles vierem .

A sociedade moderna com a concepção de autonomia do sujeito, capaz de transformar a realidade, refuga tais resquícios tradicionais. E elabora-se a relação entre transcendência e imanência de Deus de outra maneira. Deus faz o ser humano ser ele mesmo e respeita-lhe a autonomia em diálogo de amor e de liberdade. É a visão que predomina hoje.

Caminhamos para a sociedade pós-moderna: sociedade do conhecimento em que o conhecimento se torna a realidade mais importante. Não importa que tipo de conhecimen tecnológico, artístico, desportivo, científico, religioso. Tem futuro quem detém algum tipo de conhecimento de maneira exímia. Os outros irão a reboque. Com isso, a distância entre países e indivíduos ricos e pobres aumentará.

A fé cristã introduz outra concepção do conhecimento. Não existe fundamentalmente em benefício de quem o possui, mas para o bem e salvação de todos. Conhecimento para s. João refere-se à verdade que se identifica com a revelação. E revelação é a auto-manifestação de Deus todo amor. Conhecimento se mede pelo critério do amor e não pelo da produtividade, da eficácia, como acontece na sociedade atual do conhecimento.

III. Teologia e universidade

A universidade pretende ser a encruzilhada dos diversos saberes em busca do universal. Nasceu na Idade Média, tendo a teologia como coração. A teologia pensa a realidade a partir de Deus. Deus é universal nos atributos de bem, verdade, sentido. É o universal mais concreto que existe. Todas as realidades dele participam e para ele tendem. A universidade centrada na teologia cumpria com facilidade ser o lugar do universal.

Veio a modernidade. Lentamente cada rincão científico se desligou da raiz teológica e se constituiu na singularidade especializada de seu saber. E cada saber se dividiu e continua a dividir-se em especializações cada vez mais sofisticadas e fragmentadas. Foi-se o saber universal.

A pós-modernidade embarca em outra nave. Sente a necessidade de visão universal. Busca-a promovendo o olhar pluridisciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar em vista de leitura universal da realidade, submetida a tanta fragmentação. Outro caminho se construi por meio do interesse humanista. Na linguagem de E. Morin, entra em jogo a posição do especialista e do generalista. “Penso que no plano das idéias, temos a escolha. Seja decidimos de ser especialista, uma situação totalmente confortável intelectualmente já que nos é suficiente acumular cada vez mais informações sobre um ponto cada vez mais preciso: termina-se então, como o diz o dogma, por saber tudo do nada. Seja decidimos ser generalista, isto é, meter o nariz, um pouco a cada vez, na física, na química, na biologia, na medicina legal, na psicologia: termina-se então não ser especialista em nada, mas tem-se a melhor opinião sobre a pessoa humana com que defrontamos e que se chama “homem”. Duas atitudes, duas políticas do saber totalmente diferentes”.

Noutro momento, o mesmo autor cita o economista Hayek que percebeu a limitação do especialista e afirmou: “Ninguém pode ser um grande economista se for somente economista”, “um economista que só é economista torna-se prejudicial e pode constituir um verdadeiro perigo” ([10]). Neste sentido, a teologia contribui na universidade para os saberes romperem os limites fechados da especialização e abraçarem interesses humanos amplos.

Universalização e globalização

Merece atenção especial a confusão comum entre universalização e globalização. Globalização no campo cultural não significa universalização, mas unicamente difusão e divulgação de particularidades por meios tecnológicos de amplo alcance. Globalizam-se fundamentalmente elementos exóticos ou os que são notícia. E notícia atraente tinge-se de violência ou invade a privacidade, especialmente sexual de figuras mundiais, ou explode em guerras, ou afeta as paixões populares por esporte ou música. A globalização privilegia campos como estes ou afins.

Milhões de mães acalentam o filhinho à noite. Não é notícia. Não se globaliza. Uma mãe desesperada joga o pequenino nas águas sujas do Tietê e torna-se notícia nacional. Milhares de festas se celebram. Se nalguma bacanal está presente um político sob mira ou um artista ou modelo ou alguém dessa estirpe torna-se notícia e é globalizada.

Universalização se refere a valores. No particular de um ato concreto percebe-se aí algo que o ultrapassa. Teresa de Calcutá recolhia moribundos nas sarjetas da cidade para que morressem limpos na cama. Isso não era globalizado, mas era universal. Aí acontecia o valor universal do amor, da solidariedade, da opção pelos pobres e marginalizados.

A teologia tem dois olhares diferentes em relação à globalização e à universalização. Sente-se em casa quando se trata do universal. Esta é sua vocação. A fé, embora se exprima em formas concretas, limitadas, históricas e, portanto, singulares, toca valores universais. Pois vê a realidade à luz de Deus, o universal dos universais.

A universalização deve muito à inspiração cristã. O universal pertence mais à tradição cristã que à razão grega. Esta conhecia ainda um universal, por assim dizer, limitado. Falava unicamente às elites masculinas. O Cristianismo insere no universal todos os seres humanos até os mais desprezados. Antes descobre neles o universal do amor de Deus. E os evangelhos de Marcos e Mateus terminam com mensagem universal. A salvação proposta pelo Cristianismo dirige-se a todos os seres humanos de todos os tempos. “Não é necessário ser exegeta para dar-se conta de que as Escrituras cristãs contêm uma mensagem de universalidade que ultrapassa os limites estreitos da vida cotidiana e étnica para abranger o mundo inteiro”.

Diante da globalização, a teologia assume a típica atitude de discernimento. Pergunta-se: que se globaliza, como se globaliza, em vista de que se globaliza? A partir das respostas, faz as considerações. Em relação ao conteúdo. Quando se globaliza uma realidade que encerra um valor, então ela aí se encontra, ao apontar-lhe o universal. Está em casa. Quando a globalização envenena a compreensão da realidade com a deturpação dos valores, assesta a bateria crítica.

Reflexão sobre o meio que transmite. Mesmo quando se globalizam celebrações litúrgicas, valor importante das religiões, conforme os meios de difusão, a mensagem se deturpa. O conteúdo continua válido e sagrado, no entanto jogado na roda-viva midiática se corrompe, banalizando o que não suporta a banalização. Campo difícil de discernimento para nós católicos são as celebrações eucarísticas na televisão. Existem argumentos de peso tanto a favor como contra tais transmissões.

A finalidade da globalização. Reina inconteste no momento atual cultural o mercado. Tudo se mede por dinheiro. Dinheiro na midiática chama-se pesquisa de opinião. Programa ou notícia que consegue maior audiência aumenta o poder de barganha. Os especialistas em marketing sondam a sensibilidade, os interesses, as afinidades das pessoas para responder-lhes com a oferta correspondente. Qualquer notícia ou programa que consiga audiência elevada interessa à TV. Aí as propagandas que se lhe colam custam mais caro. É isso que interessa. Nessa perspectiva, a finalidade principal da globalização contradiz na raiz a causa evangélica e só por acaso a serve. Haja vista o uso que certas denominações neopentecostais fazem dela para impor-se sobre outras com escandalosas intenções financeiras.

Teologia e os particularismos

A globalização, mais que a universalização, tem gerado reações opostas. A Iugoslávia, unificada e reduzida ao comum de um centro, esfacelou-se em inúmeros territórios. A sua particularidade étnica, religiosa, ideológica não tinha sido respeitada pelo governo comunista de Tito. Bastou fraquejar a força de coesão que as regiões se separaram. Há centralizações globalizantes dominadoras que acalentam separatismos. Fenômeno semelhante aconteceu na União Soviética depois da queda do comunismo. E em grau menor existe em vários outros países europeus.

No campo religioso e ideológico, a pretensão universal tem provocado integrismos e fundamentalismos particulares. Eles, por sua vez, arrogam-se ser a única verdade. O único identifica-se com universal. E o processo rompe-se por dentro em sempre novas identidades. Cada uma gostaria de ser a única. Como não o consegue por convicção, lança mão da violência.

Extraído de http://www.procamig.org.br/home.php?sessao=0003&indice=126 acesso em 31 mar. 2009.

segunda-feira, 30 de março de 2009

O IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA



O IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA

A natureza humana em sua originalidade natural foi criada à “imagem e semelhança” de Deus, porém, com o advento do pecado, essa identidade ficou manchada, mas não destruída; foi preciso que o Filho de Deus, segunda pessoa da Trindade Santa, livremente a assumisse na Encarnação para que voltássemos a uma nova originalidade, preparada pelo Altíssimo conforme a Eternidade do Seu Querer.

O que Adão e Evan não conseguiram realizar, por meio dos dons recebidos, livre arbítrio, inocência, santidade, visão espiritual, obediência, etc.; Deus o fez por meio de Seu Filho Jesus, Novo Adão, não nascido do barro, mas do Espírito Santo, no seio da Nova Eva, Maria; não tirada do homem, mas perfeitamente redimida por seu próprio Filho, para ser mãe da Nova Criação.

Falar dessa íntima-união da Imaculada com a Santíssima Trindade na Nova Criação é o mesmo que falar da união perfeita das duas naturezas, Divino-humana, sem perca alguma por parte da primeira e com elevação da segunda à Plenitude da Perfeição, conforme o propósito do Criador. Pois, a primeira divinizou a segunda, por isso agora, já não somos apenas seres humanos, mas seres humanos perfeitamente divinizados pela Encarnação, Morte e Ressurreição do Verbo de Deus que nos livrou definitivamente do pecado e da morte.

Pela transparência de seu ser Imaculado, Maria é, de fato, toda de Deus e toda Vontade de Deus para nós; pois, o principal atributo dos filhos e filhas redimidos é a cooperação na obra redentora até que venha a consumação de todas as coisas onde seremos um só em Deus que é bendito para sempre.

Ninguém conheceu Jesus tão bem quanto sua Mãe, a Virgem Maria; desde sua concepção até os últimos anos de sua vida aqui na terra, ninguém foi mais íntima, ninguém mais amiga e conselheira e que teve mais acesso ao Filho de Deus que sua Mãe Santíssima; muito mais agora que vive na Sua intimidade por toda a eternidade.

“O Imaculado Coração de Maria é uma devoção católica que ganhou grande destaque com as aparições de Fátima. Consiste na veneração do coração de Maria, mãe de Jesus. De acordo com o legado dos pastorinhos de Fátima, foi Nossa Senhora quem, depois de mostrar a visão do Inferno a Lúcia, Jacinta e Francisco, lhes revelou o “Grande Segredo”. Contava a Irmã Lúcia que: “Para Salvar as almas, Deus quer estabelecer no mundo a Devoção ao Meu Imaculado Coração” (in Memórias da Irmã Lúcia).

O objetivo único desta devoção ao Imaculado Coração de Maria é a salvação das almas e a conquista da paz. “Se fizerem o que eu vos disser, Salvar-se-ão muitas almas e terão a paz. A Guerra vai acabar” (in Memórias da Irmã Lúcia).

Com estas palavras, Nossa Senhora foi bastante clara no seu pedido, é em vista das almas que toda a sua mensagem destina-se. Também, esta é a missão da Santa Igreja; “Dai-me almas, e ficai com o resto” já dizia Dom Bosco. A salvação das almas e de toda a humanidade é o fim último da missão da Igreja na terra. Pois, Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. (Cf. I Tim 2, 3-4)” (Wikipedia) (*)

Portanto, é licito que Deus tenha escolhido nas atuais circunstâncias, a devoção ao Imaculado Coração de Maria, sem mancha, sem pecado; para que, pela intercessão desse majestoso Coração, tenhamos livre acesso ao seu Filho amado, Jesus Cristo, único Salvador do mundo e assim obtenhamos as graças necessárias para a consumação de nossa salvação eterna.

“Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”.

Paz e Bem!

(*) Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Imaculado_Coração_de_Maria

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FREI FERNANDO, VIDA, FÉ E POESIA by Frei Fernando,OFMConv. is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Compartilhamento pela mesma Licença 2.5 Brasil License.

A utopia da vida e da morte

Frei Neylor J. Tonin
Lembra-te, ó Homem, do que escreveu Santo Inácio de Antioquia (séc. II), em sua Carta aos cristãos de Magnésia: “Tudo terá um fim. Mas dois termos nos são propostos: a morte e a vida” (5.1).

A vida e a morte! De tua vida, conheces a data e o local de nascimento. De tua morte, faltam-te ainda o onde e o quando, para fechar tua biografia. Nascer, viver e morrer são marcos de uma história, da qual muitos, infelizmente, desconhecem a razão e a utopia.

Mas voltemos ao santo. Para que possas admirar a têmpera deste grande bispo, lê o que escreveu em sua Carta aos Fiéis de Corinto, quando, já preso, vislumbrou o local de seu fim, o Coliseu romano: “Deixai-me ser comida para as feras, pelas quais me é possível encontrar Deus. Sou trigo de Deus e serei moído pelos dentes das feras, para encontrar-me como pão puro de Cristo. Acariciai, antes, as feras, para que se tornem meu túmulo e não deixem sobrar nada de meu corpo, para que na minha morte não me torne peso para ninguém. Então, de fato, serei discípulo de Jesus Cristo, quando o mundo nem mais vir meu corpo. (...) Quando houver padecido, tornar-me-ei alforriado de Jesus Cristo e ressuscitarei nele. (...) Fogo e cruz, manadas de feras, quebraduras de ossos, esquartejamentos, trituração do corpo todo; os piores flagelos do diabo venham sobre mim, contanto que eu encontre a Jesus Cristo. (...) Então, começarei a ser discípulo do Senhor” (4.1-3).

Já encontraste alguém que tenha se expressado assim, com tal lucidez de alma, com um objetivo tão seguro e definitivo de vida e de morte? Talvez tenhamos tu e eu que responder não e admitir que são raras as pessoas que mantêm, permanentemente, tal linearidade de comportamento. O que se vê com freqüência é o ziguezaguear indeciso das pessoas durante a vida e próximo do fim.

Santo Inácio, cujo nome significa “nascido do fogo” (igne natus), tinha, como se costuma dizer, arroubos de profeta e parresia (coragem) de mártir. A Tradição o identificou como aquele menino que Jesus teria tomado nos braços, quando disse: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino dos céus” (Lc 18,16). Tanto foi seu amor por Cristo - “É a Ele que procuro”, “o meu amor crucificado”, “a boca sem mentiras do Pai” -que as feras, que destroçaram seu corpo, pouparam-lhe o coração, no qual se encontrou escrito, com veias, o nome JESUS.

Verdade ou piedosa lenda, assim foi a vida e o fim deste terceiro bispo de Antioquia, discípulo de São João Evangelista, indicado para o cargo por Pedro e Paulo. Foi numa de suas Cartas que, pela primeira vez, a denominação Católica (universal) foi aplicada à Igreja de Cristo. Foi um grande pastor em vida e um impávido mártir na hora da morte.

Suas últimas palavras, depois de condenado à arena pelo imperador Trajano, foram: “Eu te agradeço, ó Senhor, por me concederes esta possibilidade de provar perfeitamente o meu amor por ti, e de também ser, por teu amor, agrilhoado como teu apóstolo Paulo”.

À luz de sua vida e morte, talvez possamos tentar expressar qual seja a utopia da vida e da morte:

A utopia da vida é a de alcançar uma razão suprema, absoluta e definitiva, que unifique nossos caminhos e engrandeça nossas atitudes de forma intensa e total, apaixonada e incondicional, vivendo de coração aberto, sem medos invencíveis. A utopia da morte é a de confirmar e sacramentar tal utopia, aceitando-a, com serenidade, sem desespero, como coroa incorruptível e luminosa da fé que animou e norteou a vida.

Quem é religioso entende que esta utopia se ancora em Deus, senhor da vida e da morte. “Nele é que vivemos, nos movemos e existimos”(At 17,28). Ao mesmo tempo, porque vivemos em comunidade, não deixamos minimamente de ser dos outros. Adoradores do Criador, somos igualmente irmãos uns dos outros. O céu e a terra, a vida e a morte têm a mesma marca: o desejo insopitável da plenitude da vida, aqui, por Ele e com os outros, enquanto vivemos, e lá, com Ele e com todos, depois que morrermos.

Marchamos todos inexoravelmente para o desfecho da vida. Como já te disse acima, conhecemos a data de nosso nascimento. Ninguém conhece a data da própria morte. Celebramos muito a primeira. Tememos todos muito a segunda.

Com instintiva sabedoria, no entanto, nos acomodamos, na prática, ao drama de viver. Vamos perdendo as forças e as ilusões, vamos, pouco a pouco, embora relutantemente, aceitando a idéia de que estamos, no mundo, apenas de passagem.

Aliás, se pudéssemos, viveríamos sempre de frente para a vida e de costas para a morte. No entanto, é a vida que vai nos dando as costas e é a morte que vai se aproximando de nós, e tomando-nos, aos poucos, pela mão.

A questão madura e inevitável que, então, temos que enfrentar e à qual não podemos deixar de responder, é sobre como estamos vivendo e sobre como estamos morrendo. Que utopia vamos alimentando? Que chama sagrada vai nos iluminando? Que feras estamos dispostos a enfrentar, sem desespero? Que imperadores merecerão, finalmente, o testemunho de nossa fé? E em qual coliseu entraremos, no último dia, cantando?

Lembra-te, ó Homem, que ninguém quer deixar de viver e que são poucos os que se preparam para morrer. Mas vida e morte são realidades de um mesmo projeto, com idêntica utopia.

A vida é, na verdade, nossa maior riqueza e seu mistério, nosso mais apaixonante desafio. Teologicamente, dizemos que ela é sopro de Deus de inestimável valor, embora colocado em vasos frágeis. Amar a vida, a própria vida, e cuidar de todas as vidas, é honrar seu Criador. Menosprezá-la seria negar sua origem e transviar seu destino.

Por outro lado, a vida é um drama que começa com o aplaudido choro do nosso nascimento. Nas inconseqüências dos primeiros anos, vamos aprendendo que não estamos sozinhos, que nossos pais mandam em nós e que o melhor é obedecer-lhes para evitar castigos, desafeições e insuportáveis desajustes, que até Jesus experimentou, como evidencia o episódio de seu encontro no Templo, aos 12 anos.

Assim continuará a vida, entre a obediência aos que mandam e o desejo de mandar mais do que os outros, até que, finalmente, já na idade das sombras, voltamos a descobrir que ainda temos que obedecer, nem que seja a médicos, enfermeiros e gente mais cheia de vida, que poderão passar a cuidar de nós como se fôssemos crianças recém nascidas.

Mas, um dia, teremos que obedecer já não mais a pessoas, mas a uma realidade que sempre tentamos evitar: à morte. Dela partirá a última ordem: “Chega! É hora de partir!”. Entregaremos, então, aos que ficam a chave de nossa casa, num último ato de obediência. Eles fecharão nossos olhos e partiremos talvez, com certa relutância, para uma terra desconhecida.

Assim é a vida. Vivemos e morreremos obedecendo, como Jesus, que também viveu e morreu obedecendo. Nestas inevitáveis obediências, importante seria não viver ao léu e não morrer sem destino.

Vive, por isso, sonhando com a utopia de bem viver! Honra a vida e crê em teu Criador! Ele ama o que criou e nunca te desprezará. Ele quer que todos tenham vida e que tenhas vida em abundância. Por tua vida, Ele apostou a vida de seu Filho Unigênito. Não estás sozinho. Quando chegares aos anos derradeiros, não desanimes! Ele quer que sejas livre. Ele te fará livre, alforriado. Apenas te cobra obediência à utopia da vida e da morte. Não uma obediência cega, de quem tem medo de castigos e desafeições, mas a obediência de um homem livre, que reconhece sua glória e onipotência e seu infinito e incondicional amor por suas criaturas.

Viver, ó Homem, pode ser, sim, como disseram os gregos, uma tragédia. Morrer pode ser a maior frustração, a pior das tragédias. Mas Deus é o avalista da tragédia da vida e da morte, porque Ele é graça e misericórdia, salvação e glória, abraço de pai e vida sem fim.
Frei Neylor J. Tonin

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/vidacrista/artigos/outubro_artigo.php acesso em 15 fev. 2009.

domingo, 29 de março de 2009

Clarissas -Profissão Temporária

Esse vídeo mostra a reportagem feita sobre a Profissão Temporária, que aconteceu dia 04 de outubro de 2008 no Mosteiro Nazaré de Lages-SC.


Silêncio habitado

A espiritualidade Franciscana nos leva a reconhecer em toda a criação, as marcas do Criador. A experiência de Francisco de Assis deixa isso muito claro.

Mesmo no silêncio ou no 'abandono', a grande Presença pode ser sentida e vivenciada. Confira isto transposto para o vídeo Silêncio Habitado.

video


Extraído de http://franciscanosonline.blogspot.com/2009/03/silencio-habitado.html acesso em 29 mar. 2009.

Páscoa à vista!

Reginaldo Veloso *
Adital -
Passadas as efervescentes brincadeiras do Carnaval,
nossos olhos se voltam para o Oriente,
porque daqui a uns 40 dias,
vai renascer o Sol da Justiça.
É a festa das festas que vem aí:
a Festa da PÀSCOA!

A palavra "páscoa",
de origem hebraica,
é irmã da portuguesa "passagem".
E páscoa quer dizer "a passagem de Deus"!
Sim, porque Deus passa, está passando na história da Humanidade,
na vida da gente...
Mas a gente não se dá conta.
Foi preciso, então, que Deus passasse de maneira espetacular, escandalosa até,
para que, pelo menos uma porção de gente se tocasse.

E foi assim:
JESUS DE NAZARÉ, um carpinteiro,
que, mais de 2000 anos atrás, nascera de um casal pobre
e vivera num lugarejo do interior da Palestina,
ao 30 anos de idade,
começou a anunciar o Reino de Deus!

Para pertencer a este Reino,
as pessoas precisavam mudar de vida:
- Quem tinha conhecimentos devia partilhar com os desinformados...
- Quem tinha dinheiro, deveria repartir com os necessitados...
- Quem tinha poder, devia colocar-se a serviço dos excluídos...

Era como se o mundo tivesse que virar de cabeça para baixo!
Uma revolução, sim, mas que deveria começar no coração de cada um, de cada uma.

Para os pobres, era uma BOA NOTÌCIA,
aquilo que eles mais gostariam de ver acontecer.
E é isso que quer dizer "evangelho",
palavra grega, sinônimo de "boa nova", boa novidade.
Mas para os ricos era subversão, perturbação da ordem,
ou, como muita gente hoje em dia ainda diz,
isso era "comunismo"!

Até os pobres, iludidos pela conversa mole dos ricos e poderosos,
foram na onda deles e ficaram contra Jesus.
Só sei que, por conta dessa história,

Jesus terminou preso, foi condenado e morreu crucificado entre dois marginais.
Mas, quando os poderosos menos imaginavam,
os poucos seguidores de Jesus de Nazaré foram perdendo o medo
e fizeram o maior reboliço na cidade:
saíram anunciando que Deus havia ressuscitado seu Mestre!
Jesus vivia, isto é, Deus deu razão a ele!

Ele morreu pela causa de povo, sobretudo dos pobres,
seu sangue foi derramado para que uma nova Humanidade começasse a se organizar,
os entendidos se colocassem a serviço dos sem instrução,
os ricos se colocassem a serviço dos empobrecidos,
os poderosos se colocassem a serviço do povo,
e todos se juntassem numa grande irmandade,
uma família de irmãos e irmãs, simples como as crianças.

E como a causa pela qual Jesus morrera
era justamente a causa de Deus, o que Deus mais queria que acontecesse,
por esse motivo, Deus passou no túmulo onde Jesus foi sepultado,
e o arrancou do poder da morte.
Deus aprovou a vida e a mensagem de Jesus!
Portanto, pregavam seus discípulos,
está na hora de aceitar sua mensagem libertadora,
de fazer parte do Reino por ele anunciado...
Chegou o momento de cada um, de cada uma, deixar Deus passar na sua vida.

PÁSCOA é isso: Deus passando na historia de Jesus de Nazaré,
e o reconhecendo como seu Filho!
Deus querendo passar na vida de cada um da gente,
na medida em que a gente entrar na jogada de Jesus,
e se tornar assim um filho, uma filha de Deus.

Só sei que, quem ia acreditando em Jesus, através da mensagem dos discípulos,
tomava um banho, para mostrar que estava começando uma vida nova,
limpa de todas as maldades e sujeiras.
E esse banho passou a chamar-se de Batismo.
Os discípulos (seguidores), agora chamados "apóstolos", que dizer "enviados",
colocavam as mãos sobre a cabeça dos que se "batizavam"
e eles e elas recebiam um nova energia, um espírito novo,
que chamavam de ESPÌRITO SANTO!

Na força dessa nova energia,
é que o pessoal continuava se reunindo,
escutando a mensagem dos Apóstolos sobre Jesus,
repartir, entre todos, os seus bens,
de tal forma que ninguém passava necessidade entre eles e elas.
E esse ajuntamento de gente, convocada pela Palavra de Deus,
chamou-se de IGREJA.

O que mais chamava a atenção do povo era a alegria
com que eles comiam a Ceia do Pão e do Vinho, em memória de Jesus:
era o jeito de eles se sentirem em comunhão de vida com o seu Mestre.
Era como se o corpo de Jesus passasse a se manifestar na carne deles e delas...
Era como se o sangue de Jesus passasse a correr nas veias deles e delas...
Era Jesus que passava a viver neles e nelas...
Era o Reino de deus que começava a acontecer "assim na terra como no céu!"
E essa Igreja era, assim, o ensaio, a amostra de um MUNDO NOVO!

É por causa dessa historia, que os cristãos e cristãs de todos os tempos,
todo ano, a certa altura do mês de abril,
celebram a Festa da Páscoa.

Valeria a pena a gente pensar numa "Festa da Páscoa"
entre nós aqui?
Que sentido teria?
Apenas recordar o que aconteceu há mais de 200 anos atrás?
Será que a Páscoa, de alguma maneira,
estará acontecendo na vida da gente, hoje, aqui e agora,
e, por isso, vale a pena celebrá-la?

Talvez seja questão de ter olhos de ver
olhos capazes de enxergar Deus passando na vida de cada um, de cada uma da gente...
na vida do povo

- Quando alguém de nós sai da solidão, do isolamento, e tem oportunidade de se encontrar com outras pessoas, de conversar suas coisas, de sentir-se escutado(a), levado(a) em conta... de poder descobrir seus valores e suas potencialidades... começar a gostar de si mesmo(a), a gostar da vida, a levantar a cabeça, a encantar-se com o que é belo, a querer o que é bom, a sonhar com um mundo diferente, de amor, alegria e felicidade... não é como se nascesse de novo?...
- Quando a gente tem oportunidade de partilhar idéias, sugestões e iniciativas entre a gente... de brincar e jogar juntos... de aprender coisas juntos... de cantar, tocar e dançar juntos... de praticar algum tipo de arte ou desporte... de organizar passeios e festas... superando, aos poucos, o individualismo ou a desesperança... dando uma finalidade construtiva à própria agressividade... canalizando suas energias para o que nos dignifica como seres humanos e nos faz felizes... desenvolvendo um novo jeito de conviver, crescendo em amizade e companheirismo... não é uma nova convivência que está desabrochando?...

- Quando a gente tem oportunidade de conhecer a historia e as tradições do povo da gente, as riquezas e belezas do folclore, as coisas bonitas que o povo do bairro faz, o jeito característico do povo desta cidade viver e festejar... e vai trocando as coisas que vêm de fora pelas coisas nossas... e vai começando a gostar da nossa música de raiz... e vai passando a preferir um suco das nossas frutas à coca-cola, uma comida tradicional da gente a uma Mac-burger qualquer... e por aí vai crescendo no amor a esta cidade, a começar pelo seu bairro... Não é isso identidade perdida que está se resgatando?...

- Quando a gente tem oportunidade de encarar o seu ambiente de vida, com novas informações e inquietações sobre higiene, limpeza pública, reciclagem de lixo, importância do verde, da mata, do mangue, da água, do ar, do silencio, da preservação ambiental... e começa a tomar cuidados e iniciativas em casa, na escola ou quando vai pela rua... e começa a preocupar-se com arborização e jardinagem... com reciclagem de plástico e papel, com coleta seletiva... com a limpeza das canaletas e canais... com o volume de som das radiolas e televisões... com tudo quanto incomoda e prejudica o ambiente em que se vive... e passa a ser multiplicador(a) de uma nova mentalidade a respeito dessas coisas no dia-a-dia das pessoas... Não é isso um mundo diferente que está surgindo?...

- Quando a gente tem oportunidade de perceber que a cidade é feita por todos os que nela habitam... que ser cidadão, cidadã, é querer bem a seu pedaço e se responsabilizar por ele, para que seja o melhor lugar do mundo, a cidade mais bonita e feliz... onde todos, de mãos dadas, vivem num mutirão sem fim, cuidando de tudo, para que tudo dê certo, para o bem de todos... onde o prazer maior é poder, no fim de semana, festejar com canto e dança a fraternidade cidadã exercida ao longo de toda a semana... Não é isso um mundo novo que está despontando?

Para quem tem olhos de ver,
é por aí, quem sabe, que Deus está passando,
nos arrancando da morte para a Vida...
é por aí que o Sangue de Jesus está circulando
e o Espírito de Deus está soprando
e tudo vai se transformando nos indivíduos e na sociedade,
e a Páscoa vai acontecendo
e o mundo se salvando

Se for assim,
se assim estiver sendo,
será que não vale a pena celebrar a Páscoa,
a passagem de Deus em nossas vidas,
na vida da gente e do povo?...

E agora José, e agora Maria,
como vamos fazer para que nossos Grupos, Movimentos, Organizações e Comunidades
cheguem à gostosa descoberta deste "Mistério" maravilhoso
que se esconde em suas vidas,
mas que precisa se manifestar aos olhos deles e delas, aos de todos?...

Como fazer para que esta descoberta
se torne motivo de festa
e desencadeie toda uma criatividade,
no sentido de todos se darem as mãos
na preparação de um evento capaz de fazer brilhar
esta vida nova, este mundo novo,
que está acontecendo no dia-a-dia da gente e do povo,
como Festa da Vida
como um grande louvor ao Deus da Vida
que assim como passou na história de Jesus,
está passando nas historias bonitas da gente, hoje, aqui e agora?...


A Páscoa está à vista!
Como vamos fazer?

Feliz Páscoa!

* Presbítero das CEBs - Morro da Conceição - Recife - PE

Extraído de http://www.adital.com.br/SITE/noticia.asp?lang=PT&cod=37679
acesso em 29 mar. 2009.

sábado, 28 de março de 2009

Porto Alegre : Grupo de Estudos das Fontes Franciscanas

Em Porto Alegre (RS) há um
Grupo de Estudos das Fontes Franciscanas,
sob a assessoria do Frei Dorvalino Fassini, OFM,
que reune-se uma vez por mês
das 09h às 11h30min
na Igreja São Francisco de Assis
-- Rua São Luís, esquina com
Rua Domingos Crescêncio --.

Os próximos encontros serão:

  • 05 abr., domingo
  • 03 maio, domingo
  • 07 jun., domingo
  • 02 ago., domingo
  • 30 ago., domingo
  • 04 out., domingo
  • 08 nov., domingo

Os encontros são abertos para todos os interessados,
apareçam!

sexta-feira, 27 de março de 2009

Qual é o alento que dá impulso às nossas vidas?

Deu no CCFMC-Boletín Março de 2009:

Mensagem do quinto seminário franciscano internacional de solidariedade

Janeiro de 2009 – Belém do Pará, Amazônia Brasileira

Qual é o alento que dá impulso às nossas vidas?

Nós, participantes do quinto Seminário Internacional Franciscano de Solidariedade, vindos de quatro continentes e 15 países, reunimo-nos do dia 17 de Janeiro a 01 de Fevereiro em Belém do Pará, na Amazônia Brasileira, sede do nono Fórum Social Mundial. Informamos mutuamente sobre a realidade de cada um dos nossos países refletindo juntos sobre as nossas vidas como franciscanas e franciscanos. Partindo desta experiência, dirigimo-nos a vocês todos com as seguintes palavras.

Qual é o alento que dá impulso às nossas vidas frente aos gigantescos problemas que experimentamos no atual contexto global e local? Comprovamos que a articulação que possibilitou para nós este seminário é um instrumento decisivo e eficaz para não ficarmos isolados a paralisadas, mas para levantar-nos, para refletirmos como pessoas autodeterminadas e responsáveis e agirmos em prol de uma mudança profunda que nos é exigida pelo grito da terra e dos pobres.

O sistema capitalista na sua forma neo-liberal avança cada vez mais na direção duma crise estrutural profunda. Testemunhamos uma crise de civilização que se expressa nas crises econômico-financeira, ambiental, alimentar e energética ameaçando a sobrevivência da espécie humana.

Sentimo-nos fortalecidos pelos novos paradigmas que se experimentam no mundo, sobretudo na América Latina. São para nós sinais de esperança encorajando-nos a engajar-nos ao lado dos pobres, na defesa da vida em prol da paz e da justiça ambiental.

Na crise surgem também oportunidades:

· novos governos, apoiados pelo povo, são instaurados em vários países da América Latina;

· são construídos novos processos de integração econômica marcados por solidariedade e equidade;

· Os povos ancestrais indígenas e afro-descendentes organizam-se e, com a sua cosmovisão oferecem-nos alternativas civilizatórias e de compreensão do mundo quando nos lembram que nós não somos o centro do universo, mas parte dele;

· emerge com um maior elã o movimento global que nos conclama para outro mundo possível.

Essas chances confirmam a nossa certeza de que existem realmente alternativas sustentáveis e viáveis nas quais participam, muitas vezes, também franciscanas e franciscanos.

Revivemos a memória da convocação do Concílio Vaticano II, feita por João XXIII há 50 anos, com a sua idéia duma Igreja dos pobres. Celebramos esta memória no contexto dos 800 anos do movimento “francisclariano” que nos encoraja ao projeto duma vida solidária. Nós nos comprometemos a relançar, com maior força e convicção, este espírito de transformação e renovação.

Estamos profundamente convencidos de que hoje, mais do que nunca, o carisma “francisclariano” vivido duma maneira profética, é um dom essencial de Deus para o nosso tempo. Comprovamos que esta mística vem somando-se a outras forças de vida em muitos lugares do mundo, como um claro sinal de que algo novo está nascendo. Este sinal do tempo reclama que nos unamos de maneira mais forte, mais criativa, mais atual e mais perseverante, o que se traduz em expressões concretas de encontro e de ação comum determinadas pelas necessidades e desafios locais, regionais, nacionais e globais. Sem messianismo e reclamação de chefia queremos promover alianças como movimentos sociais, organizações, outras igrejas e religiões para colocar as nossas forças na construção do Reino de Deus que já está entre nós (Lc 11,20).

“Eis que vou fazer uma obra nova: ela está a começar agora, e vós não a vedes?” (Is 43,19)

“Que todos se levantem. Que ninguém fique atrás” (Popol Vuh, livro sagrado do povo Maya)

Paz e bem!


Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2009/2009_03_News.shtml acesso em 25 dez. 2009.

CF 2009: Fraternidade e Segurança Pública sob o método Ver, Julgar e Agir

Pastoral Carcerária *
Adital -
Por Pe. Emerson Andrade de Lima
Vice-coordenador Estadual da Pastoral Carcerária de São Paulo

O tema da Campanha da Fraternidade deste ano tem como grande meta demonstrar a responsabilidade não somente social, mas também formativa que a Igreja possui em provocar, despertar e dialogar com os segmentos da sociedade a respeito de uma temática tão pertinente para a ordem pública, que é a da segurança.

O grande horizonte desta reflexão está em superar qualquer tipo de ambigüidade que o tema possa suscitar, como tendo em vista a relação dos conceitos chaves "fraternidade e segurança". Para isso é necessário que exista um processo de reflexão para despertar o debate público em torno desta realidade tão presente no imaginário coletivo, devido a sua complexidade, como é, de fato, o conceito de segurança pública, refletido sob a ótica hermenêutica que requer a natureza desta campanha.

O quadro social atual é extremamente provocador e desafiador. Constantemente a população é sufocada por qualquer tipo de situação de violência tendo como referenciais as bases simbólicas que norteiam a mesma realidade, gerando situações de medo e, como conseqüência, de insegurança. Neste horizonte, as nossas comunidades devem acima de tudo ter a coragem e a ousadia de contribuir para que haja o alargamento das instâncias culturais que procuram postular qualquer tentativa de definição da segurança como realidade decorrente da paz e da justiça, mas para isso a Igreja deve assumir como verdadeiro vigor o seu papel de ser mediadora de conflitos.

A grande perspectiva desta campanha é fazer refletir e criar formas legítimas de reivindicações junto aos poderes públicos, como os primeiros responsáveis pela ordem pública. Isso, levando em consideração a base democrática que rege o nosso país e, a partir daí, mostrar à sociedade que as mudanças almejadas somente serão possíveis se o Estado assume medidas preventivas em torno do processo da segurança. Para isso, vem é necessário que o acesso à cultura seja um referencial constante como um meio imprescindível e fator determinante das mutações.

A reflexão de fato tem esta grande preocupação de apresentar que não é suficiente somente salientar o aspecto punitivo da segurança, se de antemão não existem medidas que visam à promoção da cultura da paz, mas ao mesmo tempo o foco do critério da justiça social iluminada pelo Evangelho.

Portanto, o tema deste ano realça uma das características fundamentais da ação da Igreja no mundo, o de ser instrumento para a promoção da cultura da paz, levando em consideração os elementos históricos e sociológicos desde a época colonizadora e que vem dando suporte para o quadro atual da violência no país e que, infelizmente, vem assumindo gradativamente uma conotação institucionalizada. Enfim, a Igreja, à luz desta campanha, tem a profunda consciência de que os desafios são grandes e não sujeitos a superação em curto prazo, mas a convicção acerca da necessidade de que os segmentos que compõem a sociedade podem projetar medidas preventivas na segurança para que o processo de reversão da realidade seja gradativamente assumido sob a égide da necessidade de que alguns membros dos poderes públicos responsáveis primários pelo bem comum e pela ordem pública necessitam de conversão.

1. O trinômio hermenêutico da CF: Fraternidade, Segurança Pública e Justiça Social

Antes de tudo, a Campanha da Fraternidade de 2009 quer expressar o grande esforço da Igreja no Brasil ao assumir como reflexão o tema a Segurança Pública, e nada melhor do que no tempo da quaresma como momento significativo e representativo de penitencia e de conversão como formas de reestruturação de um comportamento eclesial frente a um problema social com ampla ressonância. O desafio ainda assumi relevância maior diante do tema pelo fato dos diversos graus de violência (1) que fragmentam as relações entre as instituições e ao mesmo tempo gerando uma cultura de massa com um imaginário moldado pela insegurança.

O grande desafio para esta campanha não se restringe ao fato do suscitar o debate na esfera pública sobre a segurança, mas despertar novos caminhos para que o Estado possa criar condições para a promoção da cultura da paz. Como se vê, até mesmo dentro do espaço eclesial o tema deve ser refletido sob o horizonte dos princípios da fraternidade e justiça, rompendo qualquer tipo de barreira de natureza teológica, histórica, sociológica ou política. Trata-se da necessidade de reconstruir um itinerário reflexivo marcado por uma apurada compreensão do âmbito de atuação da Igreja. O intuito é enfatizar os elementos fundamentais propostos nas diretrizes do Texto-base desta campanha, visando que qualquer iniciativa, seja de ordem pastoral ou de ordem social, deve sustentar a iniciativa de fortalecer ações voltadas à educação e à evangelização como caminhos para a superação das visões de guerras (2) presentes na sociedade.

Diante da visibilidade do tema da segurança, vem a ser importante formar uma auto-compreensão e reformulação de que na sociedade comece a assumir uma noção de violência que considere as causas, tanto em nível social e pessoal, confrontando estes dados com os novos paradigmas que emergem de uma sociedade em constante transição. Por isso, o diálogo que a Igreja visa provocar a respeito do tema tem como perspectiva fundamental confrontar o trinômio básico desta reflexão, com os novos indicadores sociais que emergem do atual quadro social, incumbe-se a tarefa de enquadrar os elementos básicos deste trinômio, mas considerando o caminho que a Igreja assuma uma percepção do tema da segurança sob a ótica da prevenção.

Os três elementos Fraternidade, Segurança e Justiça, em um processo de inter-relação, tende a demonstrar que a reflexão norteada pela Igreja no texto-base tem por finalidade, não somente abordando as omissões dos poderes públicos que envolvem diretamente a segurança pública isto é o aspecto da denúncia, mas também fortalecer uma pertinente ação preventiva, seguida da evangelização com intuito de reconstruir um processo cultural de conscientização a respeito da paz, como máxima primária da segurança no seu âmbito pessoal e social.

Portanto, a grande indagação para a Igreja nesta campanha está em demonstrar para a sociedade os limites da ótica predominante no modelo punitivo sem o mínimo de abertura ao aspecto restaurativo da justiça como parte imprescindível da ordem social sendo função determinante do Estado.

2. O Método Ver, Julgar e Agir

Após uma análise aproximativa dos elementos chaves que norteiam a reflexão predominante do Texto-base da CF 2009, é oportuno enfatizar a forma como a Igreja, na sua ação profética, pode sustentar por meio de medidas preventivas o caminho adequado para que possa desempenhar com pertinência reflexiva e incidência pastoral diante do tema Segurança Pública. Como de costume, este momento de reflexão forte assumido pelas comunidades eclesiais é muito representativo por causa da relevância eclesial e social que o tema vai assumindo no decorrer da quaresma.

No entanto, o marco desta reflexão a respeito da importância deste método tem como meta demonstrar que a Igreja, ao se utilizar deste itinerário reflexivo, consolida os referenciais básicos de um processo de conscientização marcada por iniciativas que permitem uma melhor visualizam da realidade. O primeiro passo, Ver, apresenta uma perspectiva a respeito da visão (3) predominante na Igreja sobre a Segurança Pública e a realidade com a qual se confronta, mas considerando os aspectos que englobam os princípios fundamentais da doutrina social. O segundo passo, Julgar, representa que diante da pertinência do tema não pode somente fazer uma análise restrita a respeito da segurança se não considerar os aspectos culturais que a envolvem para que exista uma noção superficial da realidade e que os referenciais teóricos não sejam restritos a um determinado quadro reflexivo onde não se deixa considerar a histórica, a sociologia e política do contexto vigente. O terceiro passo, Agir, sem dúvida, é o mais provocador e inquietador pelo fato de que nele concentram-se todas as expectativas suscitadas pelos segmentos da sociedade após a visão e o julgamento sobre o perfil atual do modelo de Segurança Pública assumido pela União Federal.

Como se vê, este método proveniente da esfera reflexiva da Teologia da Libertação demonstra que diante de um tema tão crucial para o imaginário coletivo e para a ordem pública percebe-se que a Igreja, no Texto-base, assume uma atitude não somente de reflexão a respeito dos princípios básicos que norteiam quaisquer tentativas de reflexão a respeito da temática Segurança Pública. Por isso, o ver, julgar e agir ajudará na sustentação da formação de uma nova identidade social que tenha como marco a reconstrução de um itinerário cultural marcado pelo paradigma da paz como caminho preventivo que progressivamente irá contribuir para a superação das causa e dos fatores da insegurança.

Para auxiliar, o aspecto significativo deste método o Texto-base da CF ajuda-nos a entender: "O texto utiliza o método Ver, Julgar e Agir. O método Ver, Julgar e Agir, consagrado pela ação católica, tem se mostrado adequado para a missão profética da Igreja a partir da Campanha da Fraternidade. O Ver se constitui, a partir de uma apresentação da realidade como marco referencial. O Julgar anuncia os valores do Reino e suas decorrências éticas, constituindo-se no referencial teórico. Esses valores são iluminativos para os gestos concretos da terceira parte do Texto-base: o Agir" (4).

Enfim, este método Ver, Julgar e Agir ajuda a verificar que a crise afeta a esfera da Segurança Pública, tanto no âmbito social, como no cultural.

Conclusão

A CF 2009 "Fraternidade e Segurança Pública" demonstra a luz do seu Texto-base alguns caminhos significativos que a Igreja pode assumir através de caminhos preventivos que ajude na recuperação de um novo modelo de Segurança Pública. Certamente, os maiores destinatários desta campanha são aqueles animadores diocesanos na Igreja Local, que depois de um processo de reflexão e de julgamento irão procurar a partir da própria realidade agir em conformidade com os elementos oferecidos pelos subsídios desta campanha. A grande meta é ter presente a consciência de que o melhor caminho para que a Segurança Pública seja efetivamente uma realidade social em que as nossas comunidades em conjunto com os segmentos sociais possam criar medidas preventivas a curto, médio e longo prazo que consolidando caminhos alternativos e efetivos de uma cultura da paz.

Notas:

(1) CNBB. Fraternidade e Segurança Pública - Texto - base CF 2009, nn. 97 - 129.
(2) Para uma maior noção a respeito do conceito visões de guerra ver o Texto - base n.5 aonde se aprofunda o mesmo considerando os objetivos específicos propostos pela campanha da fraternidade 2009.
(3) Aqui se entende como a luz do Texto Base da Campanha da Fraternidade de 2009 a Igreja internamente no seu papel de conscientização poderá contribuir e motivar para que os órgãos pastorais possam criar metas preventivas no processo da segurança pública.
(4) CNBB. Fraternidade e Segurança Pública - Texto -base CF 2009, n.6.

[As matérias do projeto "Ações pela Vida" são publicadas com o apoio do Fundo Nacional de Solidariedade da CF 2008].

quinta-feira, 26 de março de 2009

Solidariedade universal : virtude franciscana

Por Leonardo Boff

Por motivos alheios à minha vontade, por razões de saúde, não pude participar do seminário sobre a solidariedade promovido pela Missionszentrale dos Franciscanos alemães. Através desta pequena reflexão quero, de alguma forma, estar presente.

Considero o tema da solidariedade um dos mais urgentes como resposta à barbárie dos tempos atuais, no mundo e no Brasil. É porque somos cruéis e sem piedade, é por não termos a solidariedade mínima entre os co-iguais que a maioria dos humanos atualmente sofre todo tipo de carências que lhes encurtam a vida e os sobrecarrega de sofrimentos.

O Brasil, como é sabido por dados de organismos internacionais, é um dos países que pior distribui a riqueza e, por isso, configura-se como um dos países socialmente mais injustos do mundo.

Tudo isso remete a uma falta histórica de solidariedade que se mantém e se agrava dia a dia. No mundo, de modo geral, não é muito diferente.

Os países opulentos destinam menos de 1% de sua riqueza interna para debelar o flagelo da miséria e da fome. Para enfrentar este descalabro humano, faz-se urgente uma segunda abolição da escravatura, motivada por uma revolução ética mais que por uma revolução política.

Temos que despertar um sentimento profundo de irmandade e de familiaridade que torne intolerável essa desumanização. Precisamos, pois, de solidariedade urgente e efetiva, para com todos estes caídos na estrada.

Como fundar hoje a solidariedade para além da visão bíblica, cristã e franciscana que já faz parte de nossa interpretação do mundo? Vamos privilegiar uma reflexão que parte de um olhar novo, derivado das assim chamadas ciências da Terra e da vida. Aí aparece a solidariedade como algo que está inscrito, objetivamente, na natureza de todos os seres. Pois, todos somos interdependentes uns dos outros. Nunca existimos sozinhos, mas sempre coexistimos no mesmo cosmos e na mesma natureza com uma origem e um destino comuns.

Cosmólogos e físicos quânticos nos asseguram que a lei suprema do universo é a da solidariedade e da cooperação de todos com todos. Tudo tem a ver com tudo em todos os pontos e em todos os momentos.

A própria lei da seleção natural pela vitória do mais forte, segundo Darwin, deve ser pensada no interior desta lei maior da solidariedade de todos com todos. Se somente os mais fortes sobrevivessem, os dinossauros estariam ainda aqui até os dias de hoje. Não teriam desaparecido há 67 milhões de anos atrás por não saberem se adaptar às modificações sofridas pela Terra.

De mais a mais, os seres existem não apenas para sobreviver a partir dos mais fortes, mas todos eles existem, também os mais fracos, para realizar as virtualidades presentes em seu ser e mostrá-las a todos os demais. Os seres humanos nunca deixaram de condenar o assim chamado darwinismo social, quer dizer, o triunfo do mais forte e do mais dominador sobre os outros. Em seu lugar sempre se propôs a compaixão, o cuidado e amor como as atitudes mais adequadas entre os seres humanos. Assim todos devem poder ser incluídos, também os mais fracos e se evita que sejam eliminados ou excluídos.

Eles pertencem à família humana e devem ser acolhidos como irmãos e irmãs. A solidariedade se encontra na raiz do processo de hominização, quer dizer, ela está na base do surgimento do ser humano na arena da história.

Nossos ancestrais hominidas, há 4 ou 5 milhões de anos atrás, ao saírem em busca do alimento, não o consumiam individualisticamente, como o fazem ainda hoje os primatas e símios superiores, tão próximos a nós, como os gorilas e chimpanzés. Eles recolhiam os frutos ou a caça e os traziam ao grupo. E então repartiam tudo solidariamente e comiam comunitariamente.
Foi, portanto, a solidariedade que permitiu o salto da animalidade à humanidade e à criação das relações sociais que permitiram o surgimento da fala. Somos o único ser da criação que fala e constrói sentidos a partir da fala.

Todos devemos nossa existência ao gesto solidário de nossas mães que nos acolheram na vida e na família. Esses dados objetivos devem ser assumidos subjetivamente como projeto da liberdade de cada pessoa que decide incorporar a solidariedade como atitude básica em sua vida. A solidariedade deve ser pessoal, comunitária, social, política e planetária, o conteúdo das relações entre todos, como o enfatizou João Paulo II em sua encíclica sobre a solidariedade (Solicitude rei socialis).

Por isso, a solidariedade política, por exemplo, ou será o eixo articulador entre todos os povos, estados e da emergente sociedade mundial ou não haverá, a longo prazo, futuro para ninguém. Esta solidariedade deve ser construída a partir de baixo, das vitimas dos processos sociais e a partir dos sofredores deste mundo. O imperativo ético soa: "solidariza-te com todos os seres, teus companheiros de aventura planetária e cósmica, especialmente os seres humanos mais prejudicados para que todos possam ser incluídos em teu cuidado".

Ontem como hoje é a solidariedade que revela o índice de humanidade e de cuidado que existe entre os seres humanos. Sem a solidariedade permanecemos no nível dos seres pré-humanos e não irrompemos como plenamente humanos. Importa também estender a solidariedade para com as gerações futuras, pois elas também têm direito a uma Terra habitável.

De São Francisco aprendemos que a solidariedade deve ser vivida irrestritamente também com todos os seres da criação. Não deixar que sofram ou se sintam ameaçados. Por isso retirava os bichinhos dos caminhos para não serem pisados, libertava os pássaros aprisionados, tinha compaixão de todos os que sofriam.

Concluindo, nossa missão é de cuidarmos dos seres da criação, de sermos os médicos e enfermeiros dos que sofrem, de sermos os guardiães do patrimônio natural e cultura! comum, fazendo com que a biosfera continue um bem de toda vida e não apenas nosso e de nos solidarizarmos com todas as criaturas, a partir dos últimas e das que mais sofrem. A Missionszentrale é uma expressão desta solidariedade a nível internacional no seguimento do Cristo e nas pegadas de São Francisco. Por isso lhe seremos permanentemente reconhecidos e gratos.

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/vidacrista/artigos/boff.php acesso em 15 fev. 2009.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Deus e o Povo

Deu no CCFMC-Boletín Março de 2009:
O Concílio Vaticano II relembrou-nos que, sendo a Igreja povo de Deus, seu centro é Deus mesmo. Ele chama, dirige, e envia o povo. Ele quer que seja o Seu povo e deseja que seus membros procedam uns com os outros, como Ele mesmo procede para eles. É um povo de esperança. A esperança de um novo céu uma nova terra, quer dizer, a célula germinativa de uma humanidade nova.

Numa Igreja assim percebida, a política e o humanismo (justiça, paz, preservação da Criação, direito humano etc.) são temas centrais. São as questões básicas da Igreja e os fundamentos imprescindíveis, quando falamos do Deus da Bíblia. Ele convoca o Seu povo para que se converta, fora das garras do poder, da ganância de ter, e Ele o liberta da escravidão, da repressão e miséria. O povo de Deus é formado, pois, de pessoas que estão dispostas a testemunhar este sonho de Deus no mundo; que tem a coragem de testemunhar que Deus é Deus e não um ídolo, que é um ser social que quer a vida de todos; que reclama justiça entre eles, que enche os famintos de bens e despede os ricos de mãos vazias, e que “derruba do trono os poderosos e eleva os humildes” (cf. Lc 1, 46s).

O povo de Deus, portanto, é forçosamente um povo profético, um povo santo e um povo real. São estas três características que o Concílio sublinha especialmente em Lumen Gentium: sua missão messiânica, a dignidade especial dos seus membros bem como a qualidade nova de vida da qual participam e para a qual foram chamados: isto é, ser a semente da unidade, da esperança e da salvação da humanidade. Pois “aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que O conhecesse na verdade e O servisse santamente“ (LG 9). E isto significa, naturalmente, também que o povo de Deus, quer dizer, todos os membros da Igreja, tem uma missão messiânica através da vocação própria e não através dum mandato feito pela hierarquia da Igreja.

O êxodo para fora da desumanização, da escravidão e exploração só acontecerá se Deus, também hoje, preceder o “povo escravizado” e se o “povo de Deus” não chorar pelas “panelas de carne do Egito” e renegar aos ídolos antigos para se tornar povo de Deus, no qual o amor de Deus e do próximo se tornam também os pilares da sociedade política.

Francisco viveu esta visão do Concílio, nos princípios, com a sua fraternidade de maneira exemplar. Ele sabe que é chamado por Deus. Recorda sempre a sua certeza interior de que Deus mesmo está agindo: “o Senhor mesmo me revelou... o Senhor deu-me.... o Senhor mostrou-me” (Test). Francisco qualifica este impulso como sendo uma revelação. Numa época na qual a sociedade feudal dividida em nobreza e povo era entendida como ordem dada por Deus, introduziu uma idéia completamente nova. Se Deus desce, aliando-se aos mais humildes não deve haver diferenças separadoras na família humana. Pois todos somos filhos e filhas de Deus, irmãos e irmãs de Jesus de Nazaré. Portanto não quis superiores na sua fraternidade, mas sim ministros, servos, pois ninguém deve ter uma posição de poder, muito menos entre irmãos. Manda os seus irmãos para todo o mundo para anunciarem a paz, pace e bene, a paz e todo o bem, o que podemos entender como uma fórmula breve do Reino de Deus. Fá-lo porque Jesus o fez.

Assim, Francisco deu um exemplo contagioso de como pode nascer o “povo de Deus”: defender calorosamente a visão do Reino de Deus como Jesus o fez; confiar sempre que Deus há de despertar os ministérios necessários para libertar o seu povo da “casa da escravidão”; não perder os pobres de vista, pois eles são os membros mais importantes do Seu povo. Desta maneira, a visão do Concílio poderia recobrar a sua luminosidade.

Andreas Müller OFM

Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2009/2009_03_News.shtml acesso em 25 mar. 2009.
Ilustração: Deus, o Criador. Vitral de Stanisław Wyspiański (1869-1907) para a igreja de São Francisco, Cracóvia, Polônia.

Teologia Franciscana : reflexões elementares e despretenciosas

Por Frei Celso Márcio Teixeira, OFM

1. A partir do título, a primeira pergunta que se coloca é: existe um teologia franciscana? A resposta esta pergunta depende do que se entende por teologia. Uma definição da teologia no estilo clássico, a partir do objeto, como estudo ou ciência dos dados da fé (ou da revelação), por exemplo, não permitiria que se falasse de uma teologia franciscana nem de qualquer outra denominação, pois os dados da fé vão além da denominação franciscana e de outras denominações, não se limitam à experiência ou intuições de Francisco de Assis ou de São Domingos ou de Santo Inácio, nem à elaboração de seus seguidores.

Se, pelo contrário, se parte de uma compreensão de teologia como uma maneira de estudar (abordar ou fazer ciência de) os dados da fé, levando-se em conta, portanto, o sujeito histórica e culturalmente contextualizado que faz teologia, então se abre uma infinidade de teologias possíveis, sob as mais diversificadas denominações: teologia européia, latino-americana, franciscana, dominicana, inaciana (jesuítica), antiga, medieval, contemporânea, da política, da cultura, do diálogo, etc. Resumidamente, em outras palavras, os conteúdos, os tratados da teologia são os mesmos (os dados da fé no que se refere ao homem, a Deus, ao mundo, à história); os enfoques, os acentos, a abordagem por parte dos sujeitos que fazem teologia é que constituem a diversificação das teologias.

2. O que teria Francisco a ver com a teologia franciscana? Quando se fala de uma teologia agostiniana ou tomista, trata-se de um trabalho teológico pessoal de Santo Agostinho e de Santo Tomás. O mesmo não se pode dizer de São Francisco, pois ele não se ocupou do trabalho teológico em sentido estrito. Em Francisco, encontram-se, antes, intuições teológicas que, embora profundas, não foram elaboradas ou explicitadas por ele próprio. Tais intuições constituiriam uma pré-ciência ou, mais precisamente, uma pré-teologia, no sentido de um conjunto de elementos (uma visão ainda não científica da realidade) que são condições de possibilidade ou horizontes para o desenvolvimento (elaboração) de uma teologia específica, diferenciada de outras. Foram os seguidores de Francisco, os que tinham por tarefa o trabalho teológico – talvez inconscientemente, mas com toda certeza imbuídos e portadores daquelas intuições (pré-teologia) de Francisco -, que as elaboraram em linguagem estritamente teológica.

3. O labor teológico, compreendido por Francisco em sua intuição originária como estudo da “divina escritura” (cf. Ad 7) – a teologia também chamada na Idade Média de sacra página -, tinha finalidade eminentemente prática, a saber, o seguimento da “divina escritura”, que outra coisa não era que o seguimento de Jesus Cristo. Uma compreensão da teologia segundo a concepção aristotélica de ciência que, estava sendo amplamente aceita nas universidades teológicas, via como finalidade precípua da teologia a contemplação da verdade eterna.

Boaventura, fiel à intuição prática de Francisco, coloca a finalidade da teologia no aqui e agora, no concretamente histórico: pela teologia, “o homem seja dirigido naquilo que deve conhecer e praticar” (cf. Breviloquium, Pr. 4,5); finalidade da doutrina é que “nos tornemos bons e nos salvemos” (ut boni fiamus et salvemus) (cf. ibid. 5,2). Essa concepção prática da teologia envolve a existência daquele que faz teologia. Duns Scotus vai afirmar mais tarde a orientação da teologia para a práxis. “A teologia é uma ciência prática, quando a inteligência prática indica a retidão do próprio conteúdo como um bem [...]; o objetivo primeiro da teologia é o fim último do qual a inteligência extrai os princípios reguladores da práxis” (cf. Manual de Teologia Franciscana, p.70).

4. Outro elemento da intuição originária de Francisco que encontra as mais sublimes elaborações por parte de seus seguidores é o tema da encarnação. Sabe-se que o grande divulgador e impulsionador da devoção para com a humanidade de Cristo foi Francisco. É verdade que, antes dele, São Bernardo de Claraval chamava a atenção para o Cristo homem. Mas foi Francisco que, de fato, introduziu de novo o Cristo homem na vida da Igreja. Basta recordar a celebração do Natal em Greccio, sua meditação constante da paixão (compôs inclusive um Ofício da Paixão), sua reverência para com a eucaristia, considerada por ele como continuação da encarnação do Verbo.

E são exatamente os teólogos franciscanos, a partir da primitiva escola franciscana de Paris, que já procuram uma elaboração teológica alternativa à tese hamartiocêntrica (centrada no pecado) de Santo Anselmo, tese amplamente difundida e aceita na Idade Média, até que magistralmente superada por Duns Scotus, que bem poderia ter o título de teólogo da encarnação.

Igualmente, a intuição teológica de Francisco que vê a corporeidade humana criada à imagem do Filho (Ad 5) conduzirá a primeira escola franciscana de Paris a superar a tese agostiniana de que somente a alma é imagem e semelhança de Deus. Para os seguidores de Francisco (Summa Fratris Alexandri), o ser humano em sua totalidade (corpo e alma) é imagem e semelhança de Deus. Boaventura, ancorado no otimismo de Francisco diante de todas as criaturas, aprofundará a questão em sua tese da exemplaridade: todos os seres foram criados segundo o exemplo (modelo) do Verbo, portanto, também o corpo humano. E Duns Scotus desenvolverá sua teologia da criação, que é fruto do querer (amor) absolutamente livre de Deus, sendo o ser humano (na sua totalidade) predestinado com Cristo não para o pecado, mas para a glória (beatitude, participação da vida trinitária).

5. Todos estes exemplos, sem a pretensão de serem comprovativos, são pelo menos indicativos de que uma intuição teológica originária de Francisco é que está na base, como ponto de partida para uma elaboração teológica que se pode denominar de teologia franciscana. E esta, por coincidência ou por algo que lhe é próprio, se tem manifestado na história como um pensamento alternativo; não no sentido de heterodoxia, mas no sentido de abrir horizontes, de aprofundar temas e de apresentar novas impostações para os problemas teológicos.

Fonte – Revista Santa Cruz, nº 4, 2007, p. 201-203

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/noticias/noticias_especiais/teologia_0208/ acesso em 15 fev. 2009.

Ilustração: São Boaventura / por Francisco de Herrera, o Velho. 1628.


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